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Indivíduo e pessoa na experiência da saúde e da doença.

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Academic year: 2017

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Indivíduo e pessoa na experiência da saúde

e da doença

The notions of the person and the individual

in the experience of health and illness

1 Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Quinta da Boa Vista, 20940-040, Rio de Janeiro RJ.

[email protected] Luiz Fernando Dias Duarte 1

Abstract T his is a review of a research line present in Brazilian social science studies about health and illness, characterized by a m ethod-ological em phasis in the cultural distinction between relational m odels of the “person” and the modern W estern model of the “individual” (conceived as free, autonom ous and equal). That distinction is particularly im portant for the perception of different form s of the expe-rience of health and illness, m ostly between working classes in m odern national societies and the social segm ents responsible for bio-m edical knowledge, as a learned, dobio-m inant or official ideology. T his knowledge is funda-m entally related to the ideology of individual-ism, in its universalistic/rationalistic and phys-icalist/scientificist guises. T he com plex set of representations, practices and institutions de-rived from it are system atically opposed to the integrated, embedded and relational condition of the experience of illness ( or of “physical-m oral disturbances”, as I prefer) “physical-m ostly with-in those groups where hierarchical, relational, m odels of the “person” prevail. I evoke the an-thropological grounds for this perspective of analysis and describe some of the aspects of the academ ic production related to it, in com par-ison with other tendencies in the field.

Key wo rds Hierarchy, Culture, Health, Indi-vidualism , Personhood

Resumo Revisão de uma linha de pesquisa no cam po das ciências sociais em saúde no Brasil que se centra na hipótese metodológica de uma diferença cultural fundam ental entre os m o-delos relacionais de “pessoa” e o modelo do “in-divíduo” ocidental moderno (pensado como li-vre, autônom o e igual). Essa diferença cultu-ral é de particular im portância na caracteri-zação das form as diferenciais de experiência da saúde e da doença entre as classes populares das sociedades nacionais m odernas e os seg-mentos portadores dos saberes biomédicos eru-ditos, dom inantes e oficiais. Estes últim os têm um com prom isso originário com algum as ca-racterísticas da ideologia do individualism o, tais com o o universalism o/ racionalism o e o cientificism o/ fisicalism o. As representações, práticas e instituições dela dependentes ocu-pam um espaço de oposição à form a integra-da, relacional, holista, como são pensadas e ex-perim entadas as “doenças” (ou, com o prefiro, as “perturbações físico-m orais”) m esm o nos segmentos “individualizados”, quanto mais nos segm entos regidos por representações hierár-quicas, relacionais, de “pessoa”. Apresentam-se os fundam entos antropológicos dessa perspec-tiva analítica e as diferentes dimensões da pro-dução acadêmica a ela associada, em compara-ção com as de outras tendências do cam po.

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Entre os muitos aportes da antropologia social ao estudo dos fenôm enos da saúde/doença fi-gura a relativização cultural da noção de “pessoa”. Essa relativização advém do procedimen -to can ôn ico da com paração en tre as culturas, com a con seqüen te gen eralização de m odelos analíticos que procuram fugir à determ inação origin ária das represen tações da cu ltu ra oci-dental moderna – esta de onde emergem os sa-beres científicos que cultivamos.

A questão da determinação social ou cultu-ral das represen tações de “pessoa” já se podia en trever n o pen sam en to dos pais fun dadores das ciências hum anas no século 19. Em Marx, por exem plo, a localização histórica e a disse-cação analítica da ideologia liberal (como siste-m a de pen sasiste-m en to correspon den te à afirsiste-m a-ção da classe burguesa, agen te da hegem on ia do modo de produção capitalista) já permitira entrever a relatividade histórica do valor da “li-berdade”, tão intrínseco à afirmação do modelo de pessoa moderna. Em Tocqueville, o esforço de responder ao desafio de compreensão do no-vo estado de sociedade apresentado pela Reno-vo- Revo-lução Francesa e pela organização dos Estados Unidos da América resultou em uma concomi-tante relativização do outro elemento do binô-mio fundador da ideologia moderna da pessoa: a “igualdade”.

A n ascen te experiên cia etn ológica, decor-rente da possibilidade de com paração contro-lada de informações sobre os sistemas de repre-sentação e organização das diferentes socieda-des, juntou-se à erudição dos estudos clássicos e ao afiado sen tido histórico dos rom ân ticos para produzir uma crescente inquietação e pes-quisa sobre os conceitos estruturantes de nos-sa cultura. O parentesco, a religião, o direito, a organização política, a lógica abstrata, os siste-m as de con hecisiste-m en to esiste-m pírico, a econ osiste-m ia; tu do foi pou co a pou co sen do su bm etido ao crivo de uma comparação crítica. Uma primei-ra solu ção paprimei-ra o en igm a da plu primei-ralidade das formas culturais (pela primeira vez observadas como entes de identidade plena) garantiu, po-rém ainda, a preservação da crença na preemi-n êpreemi-n cia de preemi-n ossos valores cu ltu rais através do m odelo evolucionista. As outras form as de re-presentação e organização agora observadas e descritas consistiam em estágios inferiores do estado atingido pela “civilização” – pela nossa “civilização”. Embora o horizonte evolucionis-ta ainda paire por sob o pensamento dos gran-des mestres da passagem do século 19 ao 20 ele já vai ceden do ao peso de u m a an álise crítica

mais aguda e da ênfase crescente na compreen -são interna dos sistem as em sua singularidade (o historicismo, o organicismo e o método clí-n ico oferececlí-n do as im ageclí-n s estruturaclí-n tes do funcionalismo e do estruturalismo).

O prim eiro texto explícito sobre o que se pode chamar hoje de “construção social da pes-soa” é o de Marcel Mauss sobre a “noção de pes-soa”, publicado em 1938 (Mauss, 1973). Nes-se brilhante exercício de continuidade da tare-fa a que se tinha proposto a Escola Sociológica Fran cesa de an corar n a an álise sociológica as “categorias do pensamento humano” da tradi-ção kan tian a e aristotélica, Mau ss am para-se ainda num esquema evolucionista de revelação e agregação progressiva dos com pon en tes da pessoa m odern a para projetar fin alm en te a som bra da figura, em toda sua súbita especifi-cidade, contra o pano de fundo dos outros mo-delos culturais trazidos à comparação. Por essa época, trein ados pelo cu ltu ralism o de Boas e influenciados pelo descentram ento do sujeito da psican álise de Freud, surgiam n os EUA os prim eiros trabalhos do que veio a se cham ar a Escola de Cultura e Person alidade, que tam bém con tribu iu estrategicam en te para o em -preendim ento geral de análise com parada das formas de pessoa.

Um pouco antes de Mauss produzir o texto citado, seu mestre Durkheim publicara um tex-to circunstancial de pouca ressonância na épo-ca, mas que pode ser hoje considerado um dos prim eiros a n om ear em seu plen o sen tido so-ciológico um a categoria an alítica im portan te para a com preen são das form as m odern as da pessoa: o “individualismo” (Durkheim, 1970). Durkheim ressaltava com o essa categoria oni-presen te n a caracterização da m odern idade carregava u m a am bigü idade in stau radora e fundamental: designava uma categoria de acu -sação a tudo que parecia corroer a antiga soli-dariedade social, um “egoísm o” coletivo m o-dern o, ao m esm o tem po em que abarcava os m elh or es valor es associad os à cid ad an ia r e-p u blican a, com o as e-preem in en tes liberdade e igualdade. Desenhava-se assim com m aior ni-tidez o retrato do que Louis Dumont chamaria mais tarde a forma moderna da pessoa: o indi-víduo.

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as-pectos: ele é indivíduo, m as tam bém pessoa. Co-mo indivíduo, ele é um organisCo-mo biológico, um conjunto m uito vasto de m oléculas organizadas em um a estrutura com plexa em que se m anifes-tam, enquanto ele persiste, ações e reações fisioló-gicas e psicolófisioló-gicas, processos e mudanças. (...) O ser humano como pessoa é um complexo de rela-ções sociais(Radcliffe-Brown, 1973). Nessa fór-m ula, o indivíduo se apresenta apenas efór-m sua con dição de in stân cia “in fra-social” (Du arte, 1986b), com o m ero substrato concreto para a imposição do estatuto social. Já fica porém ab-solutamente claro que “pessoa” designa – como no texto de Mauss – um a unidade socialm en -te investida de significação. Essa fórmula ecoa, n a verdade, a teoria do Hom o duplexde Du r-kheim , ao m esm o tem po am arrado a sua cor-poralidade imediata e fechada – por um lado – e dedicado à busca da efetivação dos ideais mo-rais que lhe atribui sua cultura – por outro.

Uma outra frente de contribuição ao nosso tem a foi construída no âm bito da cultura ger-m ân ica, estruturada eger-m torn o da filosofia ro-mântica, com sua ênfase ontológica na “singu-laridade”. Entre as muitas contribuições funda-m entais desse funda-m ovifunda-m ento, avulta, para nossos fins, a formulação e utilização analítica do con-ceito de Bildung(autocultivo pessoal). Toda a psicologia e a sociologia românticas foram en -riquecedoras dessa pesquisa sobre in divíduo/ pessoa, mas a obra de Georg Simmel tem aí pre-em in ên cia pela clareza e explicitação de suas propostas. A principal foi a da distinção entre u m “in dividu alism o qu an titativo” e u m “in d ividualism o qualitativo”. O prim eiro se en -con traria n o ideário un iversalista, ilum in ista, de afirmação da liberdade, igualdade e autono-mia dos sujeitos sociais – os “cidadãos” das de-m ocracias de-m odern as. O segu n do, n o ideário romântico (ele não usava esse qualificativo) da sin gularidade, in terioridade, in ten sidade, au -tenticidade e criatividade dos sujeitos da cultu-ra. O conceito de “cultura subjetiva”, tam bém por ele form ulado, perm itia com preen der o sentido dinâm ico e afirm ativo da presença do m odelo do “in divíduo qualitativo” em n ossa tradição cultural (Simmel, 1971).

A partir dos an os 1960, u m an tropólogo francês dedicado ao estudo da sociedade india-n a, Louis Dum oindia-n t, com eçou a publicar um a série de trabalhos voltados para a explicitação dos “em baraços sociológicos” decorren tes da n ossa “ideologia do in dividualism o” para a compreensão das demais experiências culturais (cf., sobretudo, Dumont, 1972, 1985). Ele veio

a resumi-los na oposição entre as ordens tradi-cion ais de con strução da “pessoa” – defin idas como eminentemente relacionais e socialmen -te de-term in adas –, e o m odelo m odern o do “in divíduo” – com sua aspiração a liberdade, igualdade, autonomia, autodeterminação e sin-gularidade (“hiper-social”, portanto). Dedicou-se Dum ont eventualm ente à dem onstração da história dessa configuração de valores, até sua hegemonia na configuração contemporânea da “cultura ociden tal m odern a”. Paralelam en te, ele procurou produzir um a teoria da “hierar-quia”, com o prin cípio estru tu rador dos siste-mas sociais e visões de mundo em que prevale-cem representações de “pessoa”. Esses sistemas foram chamados por ele de “holistas” (ou seja, relativos à totalidade), para cham ar a atenção para o caráter apriorístico e totalizante de suas cosm ologias. Dum on t preocupou-se bastan te com a possibilidade de confusão do seu esque-m a analítico coesque-m a oposição de senso coesque-m uesque-m entre “tradição” e “modernidade”. Para ele, em -bora os sistemas ditos “tradicionais” sejam efe-tivamente caracterizados pela preeminência do holismo e da hierarquia, e o sistema dito “mo-dern o” pela hegem on ia do “in dividu alism o”, a proposta de um a conceptualização analítica m ais rigorosa perm ite perceber tensões inter-nas a cada sistema concreto decorrentes da di-n âm ica com plexa do pridi-n cípio da hierarqu ia em confronto com tendências ou forças sociais individuantes ou individualizantes. Isso é tanto m ais verdadeiro nas sociedades ditas “m oder-nas”, em que a vigência do princípio da hierar-quia – apesar de sofrer uma contínua desquali-ficação e oposição – n ão se in terrom pe, en se-jando um a série de efeitos ideológicos e histó-ricos fundamentais. As sociedades “modernas” não podem ser assim linearmente descritas co-mo “individualistas”, mas sim coco-mo referidas à “ideologia do individualismo”, em intensidade e formas que só a análise empírica pode deter-m in ar. Do deter-m esdeter-m o deter-m odo, algudeter-m as sociedades “tradicionais” (aí incluída a cultura ocidental pré-m oderna) não podem ser com preendidas senão pela análise concreta das combinações e tensões entre sua estrutura hierárquica funda-mental e a presença de disposições individuali-zan tes. Ou tras, do tipo vu lgarm en te descrito como “tribais”, obedecem a dinâmicas tão com -plexas qu an to estran has ao poder operatório desse modelo.

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Ele a entende como o princípio pelo qual toda a experiên cia hu m an a (in telectu al ou prática) pressupõe uma distribuição diferencial (cultu-ralm ente definida) do “valor” no m undo, que permite justamente a orientação do sujeito em situação. Podem os dizer que Dum on t casa o prin cípio das “form as de classificação” do fa-moso artigo de Durkheim & Mauss com o prin-cípio da m arcação diferen cial pelo “sagrado” ( essen cial ao argu m en to das Form as elem en-tares da vida religiosa de Du rkheim ) ou pelo m ana(base do ensaio sobre a m agia de Mauss & Hubert). O argumento de Dumont não é po-rém mais tão pesadamente sociogenético quan-to o de Durkheim ; sua proposta se aproxim a mais, pela abstração, do modelo da “significân-cia flutuan te”, proposto por Lévi-Strau ss em 1949, como chave para a compreensão da vida sim bólica (Lévi-Strauss, 1973). Mais de um a vez, Dumont evoca, como exemplo de sua pro-posta, o artigo de Robert H ertz sobre a “pree-m inência da “pree-m ão direita”, e“pree-m que se de“pree-m ons-tra a necessidade universal de um a sobrem arcação sim bólica, de um a adjudiarcação diferen -cial de valor cultural, para além de uma possí-vel tendência anatôm ica à dextralidade no ser hum an o. O últim o pon to m ais abstrato dessa proposta teórica de Dumont é o da dissociação en tre “hierarquia” e “poder”. Com o ele subli-n ha, a distribuição diferesubli-n cial de valor subli-n a so-ciedade n ão im plica n ecessariam en te “dom i-nação” e “exploração” (categorias estruturantes das idéias individualistas de “poder”, “Estado” e “classe social”). Seu exem plo predileto é o das castas indianas, em que a preeminência hierár-quica (sustentada pela ideologia da pureza) in-cumbe aos brâmanes, enquanto o poder políti-co (da realeza, por exemplo) incumbe aos cha-trias – segun dos, e n ão prim eiros, n a ordem cosmológica maior.

Um dos aspectos mais notáveis da propos-ta de Dum on t é o da n ão lin earidade da opo-sição en tre os dois term os em questão. Com o ressalta o autor, todas as sociedades são essen -cialmente holistas, na medida em que têm que pressupor um agen ciam en to de sen tido, um a cosmologia, a priorie que têm de se fundar em algu m tipo de ordem relacion al n as su as formas societárias efetivas. As sociedades influen -ciadas pela ideologia individualista têm com o ideal algum tipo de superação ou inversão des-se esquem a un iversal. Mas, em bora essa pre-tensão seja imensamente significativa, tanto em term os sim bólicos quan to políticos, ela n ão abole as condições referidas, apenas as atualiza

de modo paradoxal, afirmando como valor to-talizante a prioria negação e recusa da totalida-de e construindo sua dinâmica na relação entre sujeitos que se desejam autôn om os, in depen -dentes e originais.

Essa chave interpretativa foi apropriada no Brasil de forma bastante abrangente e original, em com paração com a fortun a quase exclusi-vam ente etnológica das teorias de Dum ont no exterior. Roberto Da Matta e Gilberto Velho in-cluíram seu esquem a em in terpretações hoje clássicas da din âm ica societária n acion al (Da Matta, 1979; Velho 1981), assim com o m uitos outros autores posteriores. Roberto Da Matta o exploraria de u m pon to de vista ju ralista in glês, enfatizando o potencial político das con -cepções conflitantes de “indivíduo” e de “pes-soa” numa sociedade como a brasileira, em que a preem in ên cia da relacion alidade m an teria subordinada, limitada e praticamente negativa, a experiência da individualização. Gilberto Ve-lho leria o m odelo dum ontiano à luz das cita-das propostas de Georg Simmel e dos herdeiros norte-americanos da sociologia romântica ger-mânica, explorando, pelo contrário, a constru-ção de carreiras e trajetórias individualizantes nos meios urbanos, “modernizados”, do Brasil.

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Essa linha de pesquisa dedicou-se porém – no am plo leque das experiências de saúde/do-ença – sobretudo ao que cham o de “perturba-ções físico-morais”, ou seja, às condi“perturba-ções, situa-ções ou eventos de vida considerados irregula-res ou anormais pelos sujeitos sociais e que en-volvam ou afetem n ão apen as su a m ais im e-diata corporalidade, mas também sua vida mo-ral, seus sentimentos e sua auto-representação. Assim , um aciden te de trân sito, em bora pos-sa afetar profundam ente a vida m oral de suas vítim as (além de seus corpos), n ão é visto em nossa cultura, em princípio, em si mesmo, co-m o “físico-co-m oral”. A even tual experiên cia de seqü elas ou trau m as – essa sim – será certa-mente expressiva dessa tensão. Não há, por ou-tro lado, em n ossa cultura, praticam en te n e-nhum a possibilidade de se vivenciar um a per-turbação exclusivam ente “m oral”. Algum a dim en são da corporalidade acaba sedim pre codim -prom etida n essa vivên cia, m esm o que repre-sentada como um deslocamento ou afecção se-cun dária. As doen ças cham adas de “m en tais” ocupam certamente um lugar preeminente nes-sa ordem de fenômenos, por se desenvolverem justam en te a cavaleiro da discutida fron teira entre o “moral” ou “psicológico” (expressão na-tiva preferencial dos portadores das representações modernas individualizantes). Certas con -dições corporais muito peculiares como as que se relacionam com a “reprodução” e a “contra-cepção” humanas participam igualmente desse horizon te an alítico, por suas óbvias e graves conotações morais (Leal, 1994; Leal & Lewgoy, 1995; Victora, 1995 e 1997; Paim , 1998; Lun a 1999; e Citeli et al., 1998). Muitas doenças “físi-cas” apresentam , por outro lado, característi-cas vivenciais suficientemente intensas ou pro-longadas para merecerem a atenção integrada a que se procura referir o conceito de “perturba-ção físico-moral” (Ferreira, 1998). Hoje em dia, a soropositividade e a Aids certamente ocupam um lugar de relevo nesse quadro, por colocarem em jogo dim en sões viven ciais m u ito críticas, em função de sua associação com a sexualida-de, com a moralidade e com a responsabilidade individual sobre a Aids no Brasil, na perspec-tiva aqui resenhada (Guimarães, 2001; Schuch, 1998; e Knauth, 1991, 1995 e 1996). Todas as do-enças venéreas, crônicas, degenerativas e infec-ciosas com partilham , tam bém , de dim en sões m orais preem in en tes – a par de suas im plica-ções físicas (Borges, 1998; Gonçalves, 1998).

Uma outra dimensão estruturante dessa li-nha de trabalho tem sido a de testar a hipótese

defen dida por m im desde 1986 de que as for-mas de construção da pessoa nas classes popu-lares brasileiras n ão obedecem aos prin cípios da ideologia do in dividualism o. O fio cen tral da argu m en tação repou sa ju stam en te n a de-m onstração do nervosocom o “perturbação físicom oral” estruturan te n esses m eios cultu -rais, expressiva de um a ordem relacional, hie-rárquica, resistente ao diversos mecanismos de in dução à adoção do m odelo do “in divíduo” prevalecente nos m eios letrados e dom inantes de nossa sociedade. A representação do nervo -sopopular ocuparia, de certa forma, o lugar de-m arcado pela con cepção de u de-m “psiqu isde-m o”, de uma interioridade psicológica, naqueles ou-tros meios culturais. Essa hipótese se coaduna-va com a dem on stração da afin idade en tre o modelo do indivíduo moderno (como valor) e as represen tações psicologizadas, particular-mente as da psicanálise (Velho, 1981; Figueira, 1985; Ropa & Duarte, 1985). A maior parte dos trabalhos aqui citados como exemplares de in -vestigação do poten cial heurístico de in diví-duo/pessoa para a com preen são dos fen ôm e-n os da saú de/doee-n ça foi assim realizada em con textos populares, ten tan do respon der aos graves desafios apresentados pela relação entre as represen tações in dividualizadas ou in divi-dualizantes dos agentes da biomedicina e as representações holistas dos pacientes dos ambu -latórios, clínicas, hospitais e demais serviços de saúde públicos.

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realidade observadas e descritas (cada nível da realidade material explicado por uma discipli-n a e seus câdiscipli-n odiscipli-n es específicos) e a expectativa permanentemente renovada de atendimento a uma demanda terapêutica global ou integrada. O desenvolvimento do “método clínico” é o re-sultado de um engenhoso com prom isso entre a segm en tação dos dom ín ios cien tíficos e o olhar interpretativo sobre o corpo, seus sinais e sintomas (o que Foucault chamou de “conhecim en to sin gular do in divíduo doen te”) (Fou -cault, 1963). A segm en tação dos dom ín ios de saber é u m dos estím u los origin ais ao qu e se veio a cham ar de “especialização” m édica, re-produzindo no nível das técnicas e da organi-zação da prática m édica o m en cion ado efeito de dissolução da totalidade da experiên cia da saúde/doença. Parte das críticas crescentes a es-se efeito es-se fundam enta justam ente na lingua-gem de defesa da “pessoa” ou da “personaliza-ção” – ou seja, de uma atenção à totalidade ou singularidade do doente e de sua vivência.

Uma outra dimensão do “cientificismo” in-trín seco à con stituição da biom edicin a é a do seu irredutível “fisicalism o”. Todo o empreen -dimento científico de nossa cultura decorre da den ún cia das cosm ologias holistas, totalizan -tes, e a própria em ergên cia da racion alidade moderna se representa atrelada à superação das “superstições”, das representações “mágicas” ou “religiosas” que envolvem a experiência da per-turbação ou doença em todas as demais cultu-ras. O processo de con stituição da iden tidade da biomedicina é assim visto como uma longa m archa em direção à transparência da nature-za, perturbada aqui e ali pelas resistências da ig-n orâig-n cia ou do obscuraig-n tism o. H á toda um a história específica do desenvolvim ento de um saber médico das “doenças mentais” – ela pró-pria uma categoria cultural muito significativa (Duarte, 1994). A psiquiatria (ou fen ôm en os associados a sua presença social, como o Movi-m ento dos Trabalhadores de Saúde Mental ou a Reform a Psiquiátrica) tem m erecido assim diversos estudos con tem porân eos, in struídos pela perspectiva crítica aqui apresentada (por exemplo, Venâncio 1997, 1999, 2000, 2001; Lou-gon 1998; Leal 1999; Henning 1998; Verztman 1995; Russo 1993, 1994, 1997, 1998). Essa pers-pectiva analítica tem hoje um particular inte-resse na tensão entre versões mais organicistas ou fisicalistas do sujeito e de suas perturbações físico-morais e versões “psicogênicas”, ou seja, que postulam um a dinâm ica e causalidade es-pecíficas para esses fen ôm en os. A psican álise

representou freqüentemente o pólo mais típico dessa especificidade, pelo seu explícito distan -ciam en to da cosm ologia fisicalista e pela su a proposta de um a terapêutica sim bólica e rela-cional.

Como todas as instituições públicas em nos-sa cultura, as que se ocupam da medicina e saú-de sofrem , além do m ais, os efeitos da “racion alização” i“racion stru m e“racion tal baseada “racion a segm e“racion -tação dos saberes e dom ín ios de prática. Isso tem im plicado a criação de serviços cada vez m ais especializados, em que prevalece a aten -ção a dimensões isoladas dos “doentes” ou das “doenças”. Se o “hospício” ou “asilo de loucos” encarnou na história de nossa cultura a separa-ção e segmentasepara-ção médica em seu formato mais antiquado, duro, coletivo, o “hospital” moder-no atualiza essa tendência sob form as brandas e tecnicam ente irrepreensíveis. Os CTIs parecem represen tar a form a m ais aguda da ten -dência, no radical isolamento a que submetem seus usuários, em circun stân cias e con dições freqüentemente vividas ou representadas como “desum anas” ou “despersonalizantes” (Mene-zes, 2000).

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autorizar mais explicitamente pelos dois volu-mes seguintes e finais de sua “história da sexua-lidade”, em que a distância cultural mesma dos materiais analisados veio a permitir uma inter-pretação m ais an tropológica de sua pesquisa. Essa in flexão do pen sam en to de Fou cau lt foi pren un ciada em um im portan te artigo escri-to com Richard Sennett em 1981 (Foucault & Sen n et, 1981). É possível ler aí um a explícita contribuição ao conhecimento da complexida-de das formas da pessoa na tradição ocicomplexida-dental, numa verdadeira “genealogia” do ideal do indi-víduo.

Con vém n este pon to esclarecer um a di-mensão mais abstrata do movimento de idéias aqui resenhado, a da sua fundamentação epis-temológica abrangente, que a distingue de ou-tras tendências dos estudos sociais de saúde/doença no Brasil e no exterior. O prim eiro pon -to a ressaltar é o do seu caráter fun dam en tal-m en te “un iversalista”, ou seja, voltado para a produção de m odelos de am bição abrangente, que procuram en volver os estudos em píricos pontuais em malhas interpretativas maiores. A aplicação dessa perspectiva em antropologia se caracteriza pelo m étodo com parativo, isto é, a busca de aproximações e afastamentos entre os diversos elem en tos das un idades de sign ifica-ção (e os códigos de sua estruturaifica-ção interna), com vistas a even tuais juízos de un iversalida-de. Esse “universalismo” se tinge de “romantis-mo”, porém, ao pressupor uma inescapável singularização do pen sam en to e experiên cia hu -manos nessas “unidades de significação” a que chamamos habitualmente de “culturas”. O mais im portante corolário desse pressuposto é o da consciência do caráter radicalmente relativo de todo esse empreendimento, justamente por ser culturalm ente localizado. Todas n ossas am bi-ções universalistas – inclusive as científicas – se ancoram nos pressupostos ideológicos de nos-sa cultura específica e jamais escapam desnos-sa de-terminação original. Chamo a essa estranha in-junção um “universalismo romântico” e a con-sidero a via régia do conhecimento antropoló-gico (Duarte, 1999).

Um a segu n da característica fu n dam en tal é a da preem in ên cia da sign ificação sobre a prática na dinâm ica da interpretação socioló-gica. Con sidera-se assim essa via herdeira da tradição durkheimiana de ênfase no estudo das “representações sociais” como caminho privile-giado de com preensão de todos os fenôm enos sociais, de acesso mesmo aos dados de “morfo-logia” e “dinâmica”. Mas se nutre, sobretudo, da

versão “estruturalista” do universalism o fran -cês, ao pressupor a existên cia de um a ordem fu n dam en tal n o pen sam en to hu m an o su bja-cente à diversificação cultural, de que nos po-dem os aproxim ar ten tativam en te através da sistem ática in terpretação an tropológica dos dados empíricos comparados. É assim possível e conveniente que a pesquisa e reflexão cientí-ficas proponham modelos interpretativos dessa “realidade”, por m ais que infletidos pela cons-ciência das propriedades do intérprete/obser-vador. Isso implica o equilíbrio entre um “cons-trucionismo” e um “realismo”: todo ato huma-no é culturalm ente “construído” e determ ina-do, mas nem por isso deixa de ser eficaz e “real”. Muito pelo contrário, sua “naturalização” sim -bólica lhe adjudica a m ais veraz das m ateriali-dades.

A categoria “experiência” no título deste ar-tigo n ão deve fazer supor um a con tin uidade com os estudos hoje explicitamente dedicados à “experiência de saúde/doença”. A experiência das pertu rbações é – para m im – certam en te uma dimensão crucial de sua realidade, sem lhe conceder, porém, privilégio ontológico ou gno-seológico sobre o “sen tido” ou “sign ificação”. Há hoje, todavia, uma amplamente dissemina-da disposição em privilegiar a “ação”, a “práti-ca” ou a “agência” no jogo social, em detrimen-to das análises que partem das idéias, represen-tações ou categorias de pensam ento. Essa dis-posição faz parte de um a retom ada m uito ge-n eralizada do “rom age-n tism o” em com bige-n ação com plexa com o “em pirism o”, em oposição à longa preem inência do universalism o (sobre-tu do em su a versão estru (sobre-tu ralista) n o pen sa-mento do século 20. Os conceitos oitocentistas rom ânticos de Erfahrung(experiência), Erleb -nis(vivência) ou Verstehen(compreender) res-surgem assim renovados pelas ambições de pro-dução de um con hecim en to pon tual, tópico, voltado para a “singularidade” mais do que pa-ra a “universalidade”, papa-ra a “intensidade” mais do que para a “racion alidade” e para a “com -preensão” mais do que para a “explicação”.

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que se reproduzem todos os segmentos sociais nas sociedades complexas, eles são sempre me-diados por esses códigos e n ão podem aspirar assim a um a causalidade linear na interpreta-ção. A própria denúncia da dominação de clas-se é um efeito de uma versão da ideologia do in-dividualism o, prim ordialm ente com prom eti-da com a “igualdade” em oposição ao chamado “liberalism o”. É extrem am ente im portante le-var em conta essa ideologia, pois ela não inspi-ra apenas uma linha de interpretação dos fenôm en os da saúde/doen ça, fenôm as participa in ten -sam en te d a d in âm ica in stitu cion al d as ch a-m adas “políticas públicas”, buscando estender, intensificar ou qualificar os recursos de atendi-m en to atendi-m édico ou san itário às populações ca-rentes. Têm assim um papel extremamente em -preendedor em muitos aspectos das complexas relações en tre os aparelhos de Estado e a vida social; em contrapeso às implicações excluden-tes das políticas “liberais”. Em m uitos casos, porém, seu generoso impulso universalista leva à apologia linear da “individualização” no trato com as classes populares e seus complexos mo-dos de ser “pessoa”, ensejando delicamo-dos emba-tes, desgastes e im passes (Caretta, 2002; para um exemplo recente).

A aplicação de u m esqu em a in terpretati-vo lin ear associado à “dom in ação” é um a das tendências internas da Medical Anthropology n orteam erican a – o que ali se cham a de ten -dên cia critical. Trata-se de um dos m uitos aspectos de um m ovim en to am plo e im portan -te de análise dos fenôm enos de saúde/doença, caracterizado – a meu ver – sobretudo pela ten-dên cia à reificação, seja ela do tipo “biom édi-co”, “culturalista” ou “marxista”. Minha crítica à literatura produzida nesse âmbito sobre a “sín-drome dos nervos” resume as objeções que me levam a u m a oposição sistem ática a u m a im -portação direta da categoria “antropologia mé-dica” para o interior do campo brasileiro de ciên cias sociais em saúde (Duarte, 1993). A in -sensibilidade à percepção dos múltiplos efeitos da ideologia do individualism o e do universa-lism o cien tífico (particularm en te biom édico) sobre as con dições da apercepção sociológica geral, que é muito característica do pensamen-to universitário m édio norte-am ericano, seria particularmente danosa para a compreensão de uma sociedade como a brasileira, em que avul-ta de avul-tal m odo a presença de m odelos relacio-nais de pessoa.

A con tribu ição da lin ha de trabalho aqu i resenhada no âmbito dos estudos sociológicos

e an tropológicos sobre saú de/ doen ça já m e-receu referên cias em resen has técn icas desse cam po. Lem bro particularm ente as de Canes-qui (1994), Din iz (1997) e Min ayo (1998). O volume 12 de Curare, editado por Annette Lei-bing e dedicado à “antropologia médica no Bra-sil”, incorpora contribuições de diversos auto-res aqui citados. Minha contribuição à utiliza-ção an alítica do esquem a “in divíduo/pessoa” na compreensão da cultura das classes popula-res foi u tilizada de m an eira criativa e crítica por Pablo Sem án em seu trabalho sobre reli-giosidade e perturbação na Argentina (Semán, 2000a e 2000b).

Essa m en ção m e su gere su blin har fin al-m en te a ial-m portân cia da con flu ên cia desta li-nha de pesquisa sobre doença/saúde com a dos estudos sobre “religião”. Efetivam en te, essas duas dimensões da vida social mantêm íntimos entrelaçamentos, tanto pelo lado das estruturas cosm ológicas a que correspondem necessaria-mente, quanto pela integração prática em “sis-tem as de cura” e “trajetórias terapêuticas”, em que fatos vividos ou classificados como religio-sos se misturam a fatos vividos ou classificados com o m édicos, psicológicos ou psiquiátricos. Todos os estudos pioneiros sobre as condições do pen sam en to m ágico colocam em cen a a oposição pessoa/in divídu o; se n ão explicita-m en te, pelo explicita-m en os algun s dos traços coexplicita-m po-n epo-n tes desse m odelo, com o a “raciopo-n alidade” ou a “relacion alidade”. Vam os vêlos particu -larm en te esclarecedores em Lévy-Brühl, Max Weber ou Evans-Pritchard, por exem plo. Não cabe aqui resenhar, porém, a herança total des-sa orientação. No Brasil, pode-se encontrar di-versos estudos de fenômenos religiosos explici-tam ente influenciados pela linha de investiga-ção do “indivíduo/pessoa”, com o os de Maués (1994), Rodrigues (1995), Rodrigues & Caroso (1998) ou Barroso (1999).

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Artigo apresentado em 20/6/2002 Aprovado em 12/8/2002

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