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historiador Eric Hobsbawm,em A Era da Incerteza, deno-mina o período entre a primei-ra e o inal da segunda guerprimei-ra mundial de “pequeno século XIX”. Roberto Campos escreveu: “Já vivi três quartos de século e vivi mais do que um século. Pois este século XX come-çou tarde e terminou antes do tempo. Começou a rigor em 1917, ano em que nasci, quando tonitruavam os canhões na Champagne e em Flandres e desa-bava mundialmente a velha ordem, com a eclosão da revolução comunista. Ter-minou em 1989, com a queda do muro de Berlim e o colapso do marxismo-leninismo. Está por surgir uma nova ordem, cujos contornos não são ainda discerníveis na bruma da história”. Já Luís Fernando Veríssimo aplica a ima-gem reversa no que chama de “eterno século XVIII” brasileiro pela manuten-ção de características de uma sociedade arcaica, patrimonialista e desigual.
Fazer balanços e projeções ganha, no caso de 2010, ares de início de década e de epílogo do governo Lula, além de ser o ano I depois da crise (D.C.). Doze meses após 15 de setembro de 2008 pra-ticamente todas as séries de indicadores trabalhistas e de classes econômicas bra-sileiras disponíveis voltaram ao mesmo ponto pré-crise, isto é: se não regredimos, também não avançamos. Se a compara-ção for em relacompara-ção aos demais países, a estagnação brasileira de 2009 é de causar inveja aos olhares estrangeiros, à exceção de China, Índia e Coréia. Mas não sen-tiremos um pingo orgulho na compara-ção com o nosso período de 2003 a 2008, aqui denominada “pequena grande dé-cada”, numa citação de Hobsbawm.
Traçamos neste artigo projeções para os próximos cinco anos extrapolando o que ocorreu nesses cinco anos de 2003 a 2008, quando ocorreram grandes mu-danças nas medidas de bem-estar social baseadas em renda, fruto de uma rara combinação em terras tupiniquins de crescimento sustentado com redução de desigualdade.
Uma análise por décadas
Antes de voltarmos ao futuro, destrin-chamos o passado à luz da análise das sucessivas décadas. As décadas de 1960 e 1970 foram as do Milagre Econômico, do crescimento, mas também da ditadu-ra. Nos anos 70, houve brutal redução da pobreza, que caiu de 67% para 39%, mas trouxe, no seu bojo, a demanda por democracia, o que caracteriza a década seguinte. A década de 80 foi a da rede-mocratização, a principal conquista do período, mesmo para nós economistas. A década termina em 1989, com eleições presidenciais diretas e paradigmatica-mente com os nossos recordes históricos de inlação e de desigualdade, que de alguma forma pontuam as duas décadas seguintes. A década de 80 foi também a da instabilidade: institucional, inlacio-nária e da renda, nos ensinando que o reaprender a ser democracia gera uma década perdida na economia.
A década de 1990 foi a da estabili-zação. Em 1994, Fernando Henrique, auxiliado pelos seus iéis escudeiros, incou a lança no coração do dragão da inlação. A partir daí começamos – na primeira pessoa do plural – a nos pen-sar como país e a planejar nosso futuro. Longe das incertezas e das ilusões mone-tárias, passamos a ter uma agenda real.
A revolução do presidente com nome de príncipe não está na realeza, mas no sentido da realidade propiciada pela moeda estável. A partir desse choque de realidade, começamos a engendrar uma agenda educacional, a de colocar mais intensamente as crianças na escola, e passamos a medir o desempenho das crianças: o SAEB (sistema de avaliação da educação básica) data de 1995 e, de alguma forma, essas duas revoluções, na inlação e na escola, entregaram parte das inovações da década de 2000.
À medida que essas pessoas que pas-saram na escola começaram a entrar no mercado de trabalho, e que se iniciou a redistribuir uma moeda estável por meio de programas de transferência de renda, a desigualdade também come-çou a cair. Após a recessão de 2003, o emprego com carteira assinada voltou a lorescer. Nesta década, de 2003 a 2008, retiramos 19,5 milhões de pessoas da pobreza e adicionamos 31,9 milhões de pessoas às classes ABC. O segundo efei-to foi a geração de emprego formal – e essa é uma demanda do brasileiro. Qual seria a agenda da próxima década?
Será a nova década a da qualidade da educação? Se na década que se encer-ra agoencer-ra demos os pobres ao mercado, agora vamos dar o mercado aos pobres, por meio da educação da qualidade, do microcrédito, do microsseguro, tratan-do menos o pobre como um ser passivo, que recebe benesses – embora eu não tenha nada contra programas como o bolsa família: sou fã, mas não incondi-cional, e quero crer que seja a última geração desse tipo de política social. Mas o fato é que essa agenda de acesso aos pobres ao mercado via educação de
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“revolucionar a educação de qualidade na próxima década é uma das metas
que estão no centro da agenda da geração de pesquisadores de que faço parte”,
airma o economista-chefe do Centro de políticas sociais da fgV
Por Marcelo Côrtes Neri
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qualidade mostra capacidade de rein-serção do brasileiro.
Desde 2007 as bússolas tanto do Mi-nistério da Educação como da socieda-de civil, por meio do Índice socieda-de Desen-volvimento da Educação Básica (IDEB) e do movimento “Todos pela Educação” apontam para o norte da qualidade da educação. São metas prospectivas vi-gentes até o começo da próxima déca-da, em 2021, para que os dois séculos da independência o Brasil possam ser de fato comemorados. São metas objetivas traçadas a partir de exames de proici-ência escolar que captam a qualidade da educação apreendida pelas crianças, sem voz ou voto, para além do curto-prazismo dos mandatos dos políticos.
Qual é essa meta? O Brasil tem hoje uma nota inicial de 3,8, numa escala de 0 a 10, e a meta é chegar até 2021 à nota 6. O que é essa nota 6? É a média, hoje, da Organização para a
Coope-ração e Desenvolvimento Eco-nômico (OCDE). A gente quer
vir a ser em 2021 o que a OCDE é hoje. A nota 6 também é a média das escolas privadas bra-sileiras, ou seja, é a verdadeira Belíndia brasileira, usando a expressão cunhada por Edmar Bacha: na escola privada, onde quem tem dinheiro coloca seu ilho, a média é 6, mas nas esco-las públicas a média é 3,6.
Essas metas estão no centro da agen-da agen-da geração de economistas de que faço parte: revolucionar a educação de qualidade na próxima década (conira a palestra proferida no aniversário de 40 anos do Caderno de Economia de O Globo (http://www3.fgv.br/ibrecps/ videos/globo_40/globo_40.2.wmv).
As incertezas das medições
Mas, antes de entrarmos nas incerte-zas futuras, vamos encarar as incerteincerte-zas das medições passadas. A magnitude da retomada do crescimento do período 2003-08 depende sobremaneira da base de dados utilizada, nas óticas das contas nacionais e do seu produto mais popu-lar, o PIB. Mesmo após as sucessivas revisões para cima, enxergamos 3,78% em termos per capita ao ano, velocida-de velocida-de expansão mais movelocida-desta do que a da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), que é de 5,26% por
ano, também descontando o crescimen-to populacional e a inlação. A diferen-ça acumulada em 5 anos entre a renda PNAD e o PIB foi de 8,8 pontos per-centuais. Isso representa mais dois anos em cinco anos. Se usarmos essas taxas como parte de um exercício de futurolo-gia mais elástico de 25 anos, a diferença acumulada de crescimento por brasilei-ro subiria para 108 pontos percentuais. No curso desses 25 anos, a renda per capita teria crescido nesse ritmo 153% pelo cenário PIB e 261% pelo cenário pnadiano. É verdade que a discrepância entre essas taxas tende a desaparecer ao longo do tempo. Por exemplo, no perí-odo 1995 a 2008 a diferença acumulada é de 2,13 pontos percentuais favorável ao PIB. Agora a questão é: havendo ajuste nos próximos anos, o que puxa o quê: o PIB puxa a PNAD para baixo ou a PNAD puxa o PIB para cima?
O relatório da comissão comandada por Amartaya Sen e Joseph Stiglitz, di-vulgado em setembro de 2009, constata fortes discrepâncias entre as pesquisas do-miciliares e os PIBs mundo afora, sendo as taxas de crescimento do PIB em geral superiores. O relatório argumenta pelo uso das pesquisas domiciliares como medida de performance de uma dada sociedade. Outra vantagem da PNAD é permitir olhar a distribuição dos frutos do crescimento. O elemento fundamental para traçarmos o futuro é o comporta-mento da desigualdade, a verdadeira jabuticaba brasileira. A primeira década do século XXI nos trouxe, ano após ano, quedas de desigualdade de renda. Usa-remos a PNAD então como parâmetro.
Visão de cenários
como será nos próximos anos? Vamos inicialmente focar no período 2003-08, usando-o como base para projetar o
ce-nário de crescimento pós-crise de 2010 a 2104. Agora quão razoável seria essa prospecção do futuro baseada no passa-do? A análise por fonte de renda mostra um crescimento da renda do trabalho no período 2003-08 tão forte quanto as demais fontes de renda, o que sugere alguma sustentabilidade do processo pregresso de crescimento com redistri-buição, interrompido, mas não reverti-do, com a crise. A tendência das séries de anos de estudo, fundamental tanto para a literatura de crescimento como de desigualdade, dá suporte tanto em nível como dispersão à continuidade dessa trajetória de melhoria. Nesse as-pecto há que se lembrar dos problemas de qualidade de educação – que aqui representam oportunidades de avançar, que é o que importa quando se fala em taxas de crescimento. Hoje há aferição de proiciência por escola pública. A possibilidade de saltos em dire-ção à fronteira de uma socieda-de mais razoável, exempliica-da pela queexempliica-da exempliica-da desigualexempliica-dade de renda desde 2001, e quiçá futuramente pela qualidade da educação, é a base do otimismo condicionado neste artigo.
Vou centrar inicialmente num cenário de prazo mais longo, a se encerrar em 2014. Projetaremos para a frente o crescimento e a redução de desigualdade do período 2003-08. Esse cenário é possível de ser quantiicado usando como aproximação a desigual-dade observada no Estado do Espírito do Santo em 2008. Nesse quadro, é possível obter uma redução de pobreza à metade, 50,32% dos níveis de hoje, isto é caindo de 16,02% da população em 2008 para 7,96% em 2015. Ora, 2014 é a véspera da data inal das metas do milênio. Nós já cumprimos a primeira meta do milênio, de fazer a pobreza cair à metade em metade do tempo. Isso signiica cumpri-la de novo em cinco anos em vez de 25 anos. A con-sequência desse movimento em termos das demais classes é o seguinte: queda de 18,28% para a classe D (passando de 24,35% para 19,9%), aumento de 14,75% para a classe C (subindo de 49,2% para 56,48%) e também aumento propor-cional de 50,3% da classe AB (subindo de 10,48% para 15,66% da população).
Ou seja, esse cenário auspicioso mostra que, se a pobreza cai à metade, a clas-se AB dobra. Em termos absolutos 14,5 milhões de pessoas sairiam da pobreza contando o acréscimo de 10 milhões na população, previsto desde 2008 até 2014, quando a população chegará a 199,5 millhões de pessoas. Já a união das classes ABC seria incrementada de 36,1 milhões de brasileiros incorporados aos mercados consumidores.
O papel da educação de qualidade
Vamos ilustrar o impacto da desigual-dade em cenários, assumindo um cres-cimento similar mas balanceado – uma situação em que a desigualdade nem au-menta nem cai. A proporção de pobres cairia 33,3% em cinco anos nesse cená-rio de crescimento neutro contra 50,3% ajudado pela redução da desigualdade. Ou seja, a pobreza cai pouco mais de 50% a mais se a redistribuição dos últimos anos retornar.
Mas e 2010? Se nos anco-rarmos no cenário de cresci-mento traçado para 2014 com a redução da desigualdade observada nos últimos cinco anos, as séries grosso modo percorrem em um ano cer-ca de um quinto do trajeto previsto. Assim, a pobreza cairia cerca de 10% em 2010. Se olharmos todos os
possí-veis limitadores da nossa expansão de curto prazo, inlação, déicits público e externo, não há restrições à vista. O desaquecimento da economia mundial tem sido compensado pelo crescimen-to do mercado interno, impulsionado pela redução do hiato mais brasileiro de todos, o da desigualdade. Se não há fatores restritivos para além da restrição dos mercados externos, no curtíssimo prazo há fatores expansionistas no ra-dar. O efeito estatístico denominado “carry-over”, que jogou contra em 2009, ano de desaceleração, irá jogar a favor neste ano. A redução generalizada de estoques ocorrida em 2009 sugere que os empresários previram uma recessão pior do que a ocorrida – e essa queda de estoques irá atuar como um fator ex-pansionista no futuro. O mesmo efeito ocorreu com o emprego formal, que já revela a partir de outubro de 2009 sua face expansionista. Finalmente, se 2010
seguir a tradição de todos os anos eleito-rais da nova democracia brasileira (na verdade, desde 1981), há que se esperar ganho em todas as fontes de renda e nas transferências públicas em particular.
O que acontece com o Brasil? Qual a característica do brasileiro? Por meio de pesquisas em diversos países, desco-brimos que o brasileiro não é o ser mais feliz do mundo. Ele ica em 22º lugar num ranking em que foram pesquisa-dos 132 países. Mas ele se acha o mais feliz dentro de cinco anos. Na pesquisa, solicitando aos habitantes de 132 países que dessem uma nota de 0 a 10 para onde ele espera estar dentro de cinco anos, nenhum país ganha do Brasil: tem a nota mais alta de felicidade futura.
Quais as diiculdades? O brasileiro é muito otimista, e fazer reformas com um povo otimista é difícil. Ele acredita que Deus é brasileiro e que já está com
a vida ganha por antecipação. Somos mais cigarras do que formigas. Claro, eu também sou brasileiro, logo otimis-ta, mas uma das características desse jei-to cigarra de ser é o individualismo. A marca da década passada, a do combate à alta inlação, que continuou na atual década do combate à desigualdade, são marcas de nossa diiculdade de viver em comunidade. Alta inlação e alta desi-gualdade são problemas gerados pela diiculdade de convivência coletiva.
Na mesma pesquisa agora citada, quando se pedia para o sujeito dar uma nota para si mesmo dentro de cinco anos, o brasileiro teve como resultado a nota 8,78 de média. Quando a nota era para o país daqui a cinco anos, a nota caía para 6,7, dois pontos a menos. Ou seja, sou melhor sozinho; no cole-tivo valho 2 pontos menos. O papel da educação de qualidade tem como meta igualar essas duas notas.
Uma grande “grande década”
A análise dos indicadores da eco-nomia pós-crise mostra que fechamos 2009 num empate. E em tempo de cri-se, empate é um grande resultado. Em resumo, para utilizar a imagem futebo-lística, temos uma defesa macroeconô-mica ultra bem montada, com reservas internacionais, câmbio lutuante, metas de controle de inlação, responsabilidade iscal. Temos também um ataque social de primeira linha, com programas como o bolsa família com tecnologia de última geração, entre outros itens. Falta o meio de campo: desenvolver uma política eco-nômica e social ao mesmo tempo, que junte educação de qualidade, micro-crédito, programas de gestão que façam com que tratemos a área social da mesma forma com que as empresas tratam seus resultados. E a peça-chave desse time vencedor será a qualidade da educação. Voltando à metáfora inicial das décadas, talvez devêssemos deixar de lado o calendário gre-goriano, já que os pontos de inlexão substantivos das inova-ções centrais de cada uma das décadas não foram no início de cada uma delas, mas coinci-dentemente em anos termina-dos em quatro: 1964 (início do governo militar); 1974 (início da distensão política depois do choque do petróleo), 1984 (o ano das Diretas-Já), 1994 (o ano do Pla-no Real) e 2004 (início da retomada do crescimento com a aceleração no em-prego, quando ocorreu a maior queda da desigualdade da década). Iso sem fa-lar em 1954, ano de suicídio de Getulio Vargas. Seguindo nesta tradição, o que 2014 nos reservaria, para além da Copa do Mundo e das eleições? Coroaria dois períodos de cinco anos de crescimento inclusivo, iniciados depois do im da re-cessão de 2003 e da crise global de 2009? Se o período 2010 a 2014 constituir de fato uma nova pequena grande década, então os onze anos de 2003 a 2014 serão uma grande “grande década”.
Marcelo Côrtes Neri, Ph.D em Eco-nomia pela Universidade de Princeton, é economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getulio Vargas.