Parasitemia constante durante 24 horas consecutivas na infecção experimental pelo Trypanosoma cruzi.

Texto

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R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

PARASITEMIA CONSTANTE DURANTE 24 HORAS

CONSECUTIVAS NA INFECÇÃO EXPERIMENTAL PELO

TRYPANOSOMA CRUZI*

ít alo A. Sherlock

O b s e r v o u - s e a p a r a s i t e m i a h o r á r i a d o T ry p a n o so m a cruzi a t r a v é s d e h e m o s c o p i a s e d e x e n o d i a g n ó s t i c o s h o r á r i o s , e m c a m u n d o n g o s n a f a s e a g u d a d a i n f e c ç ã o e e m c o b a i a s e

c a m u n d o n g o s n a f a s e c r ô n i c a . O n ú m e r o d e T. cruzi n o s a n g u e e o n ú m e r o d e t r i a t o m í n e o s p o s i t i v o s p o r x e n o d i a g n ó s t i c o s f o i f r e q ü e n t e e v a r i á v e l m a s n ã o f o i c í c l i c o d u r a n t e a s 2 4

h o r a s d o d i a . A q u a l q u e r h o r a , t a n t o n a f a s e a g u d a c o m o n a c r ô n i c a , o T. cruzi p ô d e s e r d e t e c t a d o a t r a v é s h e m o s c o p i a s e x e n o s . N ã o f o i c o n s t a t a d o u m r i t m o c i r c a d i a n o p a r a o

T . cruzi.

P ala v ras chaves: T r y p a n o s o m a c r u z i . P arasite m ia horária. R itm o circadiano.

X en o d iag n ó stico .

O ritm o circ ad ia n o e as m odificações cíclicas nos níveis de p arasite m ias, ex p ressam u m a v erd ad eira seleção n atu ral p a ra asseg u rar o co n tato m áxim o entre o p a ra sita e o vetor.

T alv ez, com o foi d em o n strad o p a ra algum as espécies de trip a n o sso m a s, inclusive p a ra o T r y p a ­ n o s o m a m i n a s e n s e * 5 , p u d esse h av er um ritm o niete-

m eral d o T r y p a n o s o m a c r u z i que, atrav és d a hem os-

co p ia o u d o xenodiagnóstico, facilitasse a d etec taç ão do flagelado em certo s períodos d o dia. P o r o utro lado, talv ez perm itisse co rrelacio n ar, atrav és de suas ativi­ dad es nos ec o ssistem as n atu rais, certas espécies de m am íferos que são en co n trad a s n atu ralm en te infecta­ d as p elo T . c r u z i com seus vetores e daí esclarecer seus

pap éis n a epidem iologia d a d o en ç a de C hagas.

A s po u cas o b serv açõ es rea liza d as sobre a p a­ rasitem ia h o rá ria e sobre a positividade h o rária do xenodiagnóstico p a ra o T. c r u z i d u ran te as 2 4 h o ras do

dia, trazem po u co s esclarecim en to s p a ra o fa- to l 12 14 16 P o r esse m otivo, realizam os ex p eriên cias u tilizando cam undongos e co b aias em diferentes fases d a infecção, d u ran te as 2 4 h o ras do dia, n a te n tativ a de d em o n strar u m a ritm icidade dos índices de p ara si­ tem ia p a ra o T . c r u z i .

M A T E R IA L E M É T O D O S

A n i m a i s i n o c u l a d o s

F o ra m realizad o s dois tipos de experiências. U m p rim eiro tip o com 7 cam undongos b ran co s com

* C en tro de P e sq u isa s G o n ç alo M o n iz - F IO C R U Z - R u a V a ld em ar F a lc ã o 121, 4 0 0 0 0 S alvador, B ahia. R e ce b id o p a ra p u b lic a çã o em 2 7 /2 /8 4 .

pesos aproxim ados, identificados p or ordem alfabética de A a G , em fase aguda d a infecção, ce rca de 10 dias após a inoculação, q u an d o a p arasitem ia era elevada. H em o sco p ias e xenodiagnósticos h orários sim ul­ tân eo s com R h o d n i u s n e g l e c t u s foram feitos som ente

nos cam undongos A B C . O s cam undongos D E F G subm eteram -se ap en as a hem oscopias horárias. E sse prim eiro experim ento durou 72 h o ras consecutivas de très dias, utilizando-se os cam undongos com períodos de rep o u so in tercalad o s, conform e o esquem a que ad ian te apresentam os.

U m segundo tipo de experiência, foi feito com 3 cobaias e 10 cam undongos, quan d o tinham 90 dias de inoculados e a h em oscopia m o strav a escasso s tri­ panossom as circulantes. E ste experim ento foi realizado com todos os anim ais d u ran te 24 horas consecutivas e neles foram feitos sim ultaneam ente hem oscopias e xenodiagnósticos com ninfas em 1? estágio de P a n s -t r o n g y l y s m e g i s -t u s . O s anim ais inoculados tinham

apro x im ad am en te o m esm o peso corporal, respecti­ vam ente nos grupos de roedores e cobaias.

C e p a d e T r y p a n o s o m a c r u z i

A ce p a de trip an o sso m a u sa d a nos dois tipos de exp eriên cia e que tinham as ca racterísticas morfo- lógicas e biológicas do T . c r u z i, foi isolada de um a

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S h e r l o c k I A . P a r a s i t e m i a c o n s t a n t e d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s n a i n f e c ç ã o e x p e r i m e n t a l p e l o T ry p an o so m a cruzL R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

T r i a t o m l n e o s

O s triatom íneos utilizados foram provenientes das colônias que m an tín h am o s no laboratório. N o prim eiro experim ento, p a ra os cam undongos A B C usam os um total de 2 5 0 ninfas de R . n e g l e c t u s em

4.° ou 5 ° estágios, 5 p o r cam undongo, em cad a horário.

C om o u m a ninfa de R . n e g l e c t u s 4 ° ou 5.° está­

gio suga de ca d a vez de 9 0 a 120 m g de sangue^, p a ra evitar a esp o liação sangüínea dos roedores, no se­ gundo experim ento, p assam o s a u tilizar de ninfas de 1? estágio de P . m e g i s t u s , que tínham os observado,

naq u ela oportunidade, se infectarem excelentem ente bem , tan to em cam undongos com o em cobaias. E sta s ninfas, desde recém -nascidas, eram m an tid as em jejum p o r 10 dias, sendo usado o to tal de 1.720 exem plares, ce rca de 15 ninfas p or anim al de c a d a horário, p ara e ssa exp eriên cia com o s 10 cam un­ dongos e as 3 cobaias.

X e n o d i a g n ó s t i c o s

O s xenos eram feitos de h o ra em hora, p o r duas pessoas, revezadas p o r o utras duas, a ca d a tu rn o de 6 horas de trab alh o contínuo. Logo após colhido o sangue p ara a hem oscopia, colocavam -se os triato- míneos para súgar diretam ente sobre o anim al do horário (co b aia ou cam undongos), estan d o o anim al contido num cilindro de tela de aram e de m alhas largas. E ste era então co lo cad o d en tro de um va­ silham e de vidro o nde estav am os triatom íneos. A pós 30 m inutos, os triato m ín eo s engurgitados que se haviam alim entado, eram retirados e guardados em tubos de vidro com suportes de papel de filtro e com as devidas anotações. A pós 20 dias, os tubos digestivos dos triatom íneos eram ex am inados ao m icroscópio, após a d issecçâo em solução salina, entre lâm ina e lam ínula.

H e m o s c o p i a s

P a ra as h em oscopias ho rárias o sangue era colhido, da cau d a do cam undongo ou d a o relh a d a cobaia, após um pequeno corte com teso u ra, p o r m eio de m icrotubos hep arin izad o s p ara m icrohem atócritos. E stes tubos d a m a rc a “ P re -C al-A d am s” , eram cali­ brados p ara 77 m m ± 0,5 de altu ra e 0,55 ± 0,05 de diâm etro interno, enchendo-se de sangue até a m arca 15 mm de altura, fornecendo, po rtan to , um volum e de 3,09 m m 3, de acordo com a fórm ula V = n R ^h. L ogo após colhido, o sangue era esp alh ad o n u m a lâm ina com um a gota de líquido de E rre c a rt e após seco, era

fixado e co rad o pelo G iem sa. O s trip an o sso m as eram c u id ad o sam en te co n tad o s ao m icroscópio, em todo o conteúdo do esfregaço.

D a s .cobaias era possível colherem -se duas porções de sangue: u m a p arte servia p a ra o ex am e do esfregaço co rad o pelo G iem sa e a o u tra p a ra o exam e im ediato a fresco em so lu ção salina. N e ste segundo m étodo, com etem os freqüentes erros de contagem , devido p rincipalm ente ao m ovim ento do p a ra sita e a p ressa que o experim ento exigia. P o r este m otivo, os resu ltad o s deste últim o tip o de exam e n ão foram levados em co n sid eração p a ra a análise final q u an ti­ tativa. O seu v alo r foi m ais de co n firm ação qu alitativ a d a positivídade horária.

H o r á r i o s d e I n v e s t i g a ç ã o

N o prim eiro experim ento, devido ao receio de ex au rir a volem ia de todos os cam undongos e te r a exp eriên cia an u lad a, as h em oscopias com xenos si­ m ultâneos foram feitos som ente nos 3 cam undongos A B e C , en q u an to que nos outros 4 cam undongos D E F G foram feitas som ente h em oscopias nos horários consecutivo, conform e já m encionam os.

P a ra os cam undongos A B C tivem os de lan çar m ão de um esq u em a de utilização dos an im ais por períodos de 6 horas, in tercalad o s p o r períodos de 12 h o ras de repouso, d u ran te o tem po to tal d as 72 h oras de o b serv ação de cad a anim al. D e sta form a foi p ossível o b serv ar a p ara sitem ia de c a d a cam undongo do grupo A B C , nos q u atro tu rn o s de 6 h oras que com põem as 24 h o ras de um dia, conform e o esquem a a seguir:

H o r a s e C a m u n d o n g o s

1 3 h à s 1 9 h

1 9 h à O l h

O l h à s 0 7 h

0 7 h à s 1 3 h

1? dia A B C A

2? dia B C A B

3p d ia C A B C

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S h e r l o c k I A . P a r a s i t e m i a c o n s t a n t e d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s n a i n f e c ç ã o e x p e r i m e n t a l p e l oT ry p an o so m a cruzi. R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

co locados em caix as com alim ento e água. A m bos os experim entos foram iniciados às 13 horas.

R E S U L T A D O S

N a s T ab e la s 1 e 2 estâo os resu ltad o s obtidos na prim eira ex p eriên cia com xenos e h em oscopias na fase aguda d a infecção. H o u v e positividade d as hem os­ copias em todos os h o rário s do dia, com todos os anim ais observados. F a to sem elhante ocorreu em quase todos os h o rário s dos xenos feitos nos cam u n ­ dongos A B C . A s qu ed as nos índices de positividade dos xenos n estes cam undongos, foram irregulares e n ão co incidiram nos três anim ais observados. D a m esm a form a, n ão foi verificada a ex istên cia de

m aiores índices de positividade dos xenos p ara de­ term in ad o s períodos do dia.

A s hem oscopias, em bora positivas em qualquer ho ra do d ia ou da noite, m o straram irregularidade para o núm ero de trip an o sso m as, n ão havendo contudo pred o m in ân cia d o núm ero de flagelados em deter­ m inados horários.

N o segundo experim ento, quan d o a infecção era m ais crônica e o núm ero de trip an o sso m as no sangue era m uito baixo, os resultados parecem te r o m esm o significado d a ex p eriên cia anterior. T an to n as cobaias com o nos cam undongos, conform e os d ad o s d a T ab ela 5, as h em oscopias tam bém d em o n straram núm eros

T a b e l a 1 - P o s i t i v i d a d e d e x e n o d i a g n ó s t i c o c o m R h o d n iu s neglectus e m c a m u n d o n g o s n a f a s e a g u d a d a i n f e c ç ã o p e l o T ry p a n o so m a cruzi.

H o r a

d o

d i a

C a m u n d o n g o A ( + ) C a m u n d o n g o B ( + ) C a m u n d o n g o C ( + ) T o t a l

N .° N i n f a s

E x . P o s .

N .° N i r \ f a s

E x . P o s .

Np N i n f a s E x . P o s .

N .° N i n f a s

E x . P o s . %

14 3 3 3 1 3 1 9 5 55,5

15 3 3 3 3 3 1 9 7 78

16 3 3 3 3 3 3 9 9 100

17 3 1 3 3 3 0 9 4 44,4

18 3 3 2 2 3 1 8 6 75

19 3 3 3 3 3 0 9 6 67

20 3 2 3 2 3 3 9 7 78

21 3 3 3 0 3 2 9 5 55

22 3 1 3 3 3 2 9 6 67

23 3 2 3 3 3 3 9 8 89

24 3 2 3 3 3 2 9 7 78

01 3 2 3 2 ( + + ) 6 4 67

02 3 1 3 3 3 1 9 5 55,5

03 3 2 3 3 3 2 9 7 78

04 2 1 3 1 3 3 8 5 62,5

05 3 2 5 4 3 2 11 8 73

06 3 2 3 3 3 2 9 7 78

07 5 3 3 1 3 3 11 7 64

08 3 3 3 1 2 1 8 5 62,5

09 3 3 3 1 3 1 9 5 55,5

10 3 3 3 3 2 0 8 6 75

11 3 3 3 3 3 1 9 7 78

12 3 3 4 0 3 1 10 4 4 0

13 3 1 1 1 3 0 7 2 28,5

T o tal 73 55 72 52 67 35 212 142 67

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S h e r l o c k I A . P a r a s i t e m i a c o n s t a n t e d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s n a i n f e c ç ã o e x p e r i m e n t a l p e l oT ry p a n o so m a cruzi. R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

T a b e l a 2 - N ú m e r o d e t r i g o m a s t i g o t a s p o r 3 , 0 9 m m ^ d e s a n g u e n a s h o r a s d o d i a e m c a m u n d o n g o s i n f e c t a d o s p o r

T ry p a n o so m a cru zi ( f a s e a g u d a )

H o r a C a m u n d o n g o s e n ú m e r o d e T. cruzi p o r 3 , 0 9 m m 3 d e s a n g u e d o

d i a A ( + ) B ( + ) C ( + ) D E F G T o t a l

14 24 4 2 9 4 275 873 741 88 17 2 .5 3 2

15 4 0 2 6 0 9 74 713 72 36 358 2 .2 6 4

16 277 1.010 759 4 7 0 173 99 129 2.917

17 41 985 112 895 443 23 5 2.5 0 4

18 421 821 19 1.151 22 13 46 2.493

19 206 107 3 557 324 27 (**) 1.224

20 25 51 196 120 17 32 81 522

21 25 423 1.178 705 913 231 18 3.493

22 98 64 2.121 949 1.408 22 42 4.7 0 4

23 18 263 772 340 137 293 134 1.957

24 49 6 22 1.926 240 186 22 76 3.121

01 135 543 6 3 4 301 232 102 2 72 2.219

02 435 15 249 30 186 194 341 1.450

03 219 30 478 329 438 201 241 1.936

04 1.147 19 4 5 4 611 268 344 351 3.1 9 4

05 953 (**) 710 545 404 310 91 3.013

06 322 (**) 288 158 231 317 188 1.504

07 634 4 712 558 308 78 443 2.737

0 8 2 6 0 245 19 1.092 6 9 6 59 52 2 .4 2 3

09 285 91 1 99 213 151 106 946

10 204 200 32 937 595 54 154 2.176

11 274 408 53 949 815 117 41 2.657

12 375 762 254 1.094 453 72 24 3.034

13 6 5 0 150 413 161 367 58 17 1.816

( + ) C orresp o n d em aos cam undongos A B C d a T a b e la 1. (**) M aterial d anificado.

indiferentes de trip an o sso m as em horários do dia porém , ao co n trário d a fase aguda, os núm eros de parasitas eram baixíssim os. F req ü en tem en te, não eram observados trip an o sso m as, principalm ente nos cam undongos. D a m esm a form a, n ão houve horários especiais em que se d em onstrasse m aior núm ero de tripanossom as. O s xenodiagnósticos tam b ém ap re sen ­ taram resultados sem elhantes aos d a fase aguda, não havendo um a p redom inância de positividade p ara determ inados horários, ta n to p a ra as co b aias com o p ara os cam undongos (T a b elas 3 e 4).

D IS C U S S Ã O

A p esa r d a im p o rtân cia p rática do ritm o cir- cadiano, fenôm eno já d em o n strad o p ara diversas espécies de trip an o sso m as^ 8 9 10 11 13 17 0 assunto

quase não tem sido investigado p ara o T. c r u z i , sendo a

m aio ria dos trab alh o s p u blicados a resp eito de n ossa a u to ria 1 12 14 P rovavelm ente, ta l fato liga-se às dificuldades que existem p a ra a realização desse tipo de ob serv ação . D iv erso s fatores são envolvidos p ara o controle e p ad ro n iz aç ão do experim ento. A lguns desses fatores j á são conhecidos, entre eles, a luz e a tem p eratu ra que interferem n a p eriodicidade do

T r y p a n o s o m a r o t a t o r i u n r ’ 4 6 11 13 17 e tam b ém o

sono, ain d a n ão bem investigado, m as que possivel­ m ente m uito p o d erá influir na ritm icidade d a p a ra ­ sitem ia dos trip an o sso m as. O b serv aç õ es feitas co m o

T r y p a n o s o m a l e w i s i e T r y p a n o s o m a d u t t o n i parecem

sugerir h av er influência do sono no ritm o circad ian o dos flagelados®.

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S h e r l o c k I A . P a r a s i t e m i a c o n s t a n t e d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s n a i n f e c ç ã o e x p e r i m e n t a l p e l oT ry p an o so m a cruzi. R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

T a b e l a 3 - P o s i t i v i d a d e p a r a T ry p a n o so m a cruzi d o x e n o d i a g n ó s t i c o e m c o b a i a s i n f e c t a d a s d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s , c o m n i n f a s d e P an stro n g y lu s m egistus ( f a s e c r ô n i c a ) .

H o r a C o b a i a A C o b a i a B C o b a i a C T o t a l

d o

N p N i n f a s N .° N i n f a s N p N i n f a s N .° N i n f a s

d i a E x . P o s . E x . P o s . E x . P o s . E x . P o s . %

14 9 8 8 6 10 10 27 24 89

15 7 3 2 2 2 2 11 7 64

16 9 7 3 3 8 7 20 17 76

17 7 6 6 6 5 4 18 16 89

18 7 5 5 4 5 4 17 13 76

19 6 5 10 7 5 4 21 16 76

20 6 5 10 10 8 7 24 22 92

21 8 8 4 2 7 5 19 15 79

22 2 2 3 3 8 7 13 12 92

23 4 4 6 6 2 2 12 12 100

24 7 7 6 4 10 8 23 19 83

01 7 6 6 6 4 4 17 16 94

02 6 6 6 5 5 4 17 15 88

03 4 3 7 6 7 7 18 16 89

0 4 10 10 2 1 6 6 18 17 94

05 7 7 4 4 7 7 18 18 100

0 6 7 1 5 5 8 8 20 14 70

07 3 2 7 6 9 9 19 17 89

08 3 3 7 6 6 6 16 15 94

09 7 5 4 3 3 3 14 11 78

10 4 4 3 3 4 4 11 11 100

11 8 8 6 6 4 4 18 18 100

12 4 4 3 3 4 4 11 11 100

13 3 3 4 4 4 3 11 10 91

T o tal 145 122 127 111 141 129 413 362 88

p a ra sita da rã. O ritm o estacio n ai é co rrelacio n ad o com a te m p eratu ra d a água em que o b atráq u io vive, sendo os ni veis de p ara site m ia s m ais elev ad as no verão e m ais baixos no inverno. E n treta n to , esses autores acred ita m que a te m p eratu ra n ão é o único fator resp o n sáv el pelos ciclos estacionais. O ritm o diurno foi influenciado pelo regim e fotoperiódico ao qual as rãs eram ex postas. O fotoperiodism o tam bém estav a co rrela cio n ad o com a v ariação e sta c io n a i1^ 17 da p arasitem ia.

M u ito im p o rtan te tam b ém é o tipo de anim al experim en tad o o q u e, conform e foi observ ad o , in ter­ fere no ritm o circ ad ia n o de certas espécies de tri­ p an o sso m as, com o no ritm o d o T r y p a n o s o m a c o n -g o l o n s e , o qual v aria tam bém de acordo com a espécie

de m am ífero infectado, assim com o com a ce p a do trip a n o sso m a u sa d a, além de outros fato res9 10.

C om referên cia ao T . c r u z i , o cam undongo

provavelm ente, não é um anim al adequado p ara a verificação experim ental d a periodicidade sangüínea do p arasita, principalm ente p o r cau sa de sua baixa v olem ia que m al perm ite retirar q u antidades de sangue suficientes p a ra exam es d u ran te horas seguidas. O cam undongo tam b ém não su p o rta um núm ero ade­ q u ad o de triato m ín eo s nos xenos. Infelizm ente, o cam undongo é um dos poucos anim ais de laboratório onde as c a racterísticas d a infecção pelo T . c r u z i já são

bem c o n h e c id as1^.

(6)

colabora-S h e r l o c k I A . P a r a s i t e m i a c o n s t a n t e d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s n a i n f e c ç ã o e x p e r i m e n t a l p e l o T ry p an o so m a cruzi. R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

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(7)

S h e r l o c k I A . P a r a s i t e m i a c o n s t a n t e d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s n a i n f e c ç ã o e x p e r i m e n t a l p e l o T ry p an o so m a cruzi. R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

T a b e l a 5 - R e s u l t a d o d e h e m o s c o p i a s r e a l i z a d a s e m

3 c o b a i a s e 1 0 c a m u n d o n g o s i n f e c t a d o s

e x p e r i m e n t a l m e n t e p e l o T. cruzi, d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s , n a f a s e c r ô n i c a d a

i n f e c ç ã o . ( A s c o b a i a s e c a m u n d o n g o s s ã o

o s m e s m o s r e f e r i d o s n a s T a b e l a s 3 e 4 ).

S o m a d o s S o m a d o s

H o r a d o t r i p a n o s s o m a s t r i p a n o s s o m a s

d i a n a s c o b a i a s ( + ) n o s c a m u n d o n g o s ( + )

14 3 0

15 8 3

16 3 1

17 1 0

18 3 0

19 0 1

20 8

4-21 4 2

22 6 1

23 3 0

24 4 1

01 0 0

02 4 0

03 1 1

04 5 0

05 4 1

06 3 0

07 0 0

08 5 4

09 1 0

10 0 0

11 2 1

12 1 0

13 0 2

( + ) R efere-se ao nú m ero to tal de trip an o sso m as o b serv a­ d o s p o r 3 ,0 9 m m ^ de sangue.

dores em C a l l i t h r i y P p a ra o T r y p a n o s o m a m i -n a s e -n s e , flagelado filogeneticam ente próxim o ao T . c r u z i e p a ra sita natu ral d este prim ata.

E m b o ra não tenham os co n statad o um ritm o circad ian o p ara o T . c r u z i , além d a m etodologia

original que em pregam os e que p o d erá servir de base p ara o b servações futuras a respeito, as experiências que realizam os foram p roveitosas e, algum as con­ clusões p u d eram ser tiradas. E m prim eiro, verificou-se que a p arasitem ia pelo T . c r u z i , nos dois tipos de

anim ais utilizados, foi co n stan te nas 2 4 h o ras do dia, tan to n a fase inicial d a infecção quan d o o núm ero de p ara sita s é elevado, com o n a fase crônica em que os

m esm os são escasso s. C om o os dados m ostraram , nào existe um ritm o circad ian o e conseqüentem ente, não existe um h o rário m elhor p ara a realização de he- m oscopias ou xenodiganóstico em que se possa detectar m elhor o p arasita. D o p o n to d e vista prático, sabem os agora que, a d em o n stração do p ara sita pode ser feita a q u alq u er h o ra do dia, tan to através do xenodiagnóstico com o d a hem oscopia. Se os xenos forem repetidos num m esm o dia, as possibilidades de diagnosticar o p a ra sita na fase crônica, são m uito m aiores com o já haviam observado A lm eida, Sherlock e F a h e l1, p ara a infecção h u m an a crônica.

O elevado índice de positividade dos xeno­ diagnósticos que obtivem os nestas experiências, na fase crô n ica d a doença, quando a hem oscopia de­ m o n strav a escasso s trip an o sso m as circulantes, pode p are cer estranho. R esultados tam bém aparentem ente inexplicáveis foram obtidos p o r Schenone e colabora­ d o re s1^ que, ap esar d a constante p arasitem ia do paciente que investigam , ap en as 4 0 % das ninfas que o sugaram se infectaram . N a realidadei além de outros fatores inerentes à p ró p ria susceptibilidade de in­ fecção dos triatom íneos, cujos fatores são inúm eros e m uitos dos quais já esclarecidos, nas nossas expe­ riências na fase crônica, foi utilizado m aior núm ero de triatom íneos p or xeno. E ste fato é sabido que aum enta a positividade dos resu ltad o s2 12 independen­ tem ente d a espécie, do tam an h o e do estágio evolutivo do inseto. T al aspecto que já tem sido bastante investigado, não cab e en tretan to ser discutido no presente trabalho.

S U M M A R Y

T h e h o u r l y p a r a s i t a e m i a o f Try p an o so m acru zi in m i c e w i t h a c u t e i n f e c t i o n a n d in m i c e a n d g u i n e a

p i g s w i t h c h r o n i c i n f e c t i o n s w a s c h e c k e d b y m e a n s o f

h o u r l y b l o o d e x a m i n a t i o n s a n d x e n o d i a g n o s i s . T h e

n u m b e r o f T. cruzi in t h e b l o o d a n d t h e n u m b e r o f p o s i t i v e x e n o d i a g n o s i s i n b o t h a c u t e a n d c h r o n i c

i n f e c t i o n s w a s f r e q u e n t a n d v a r i a b l e b u t n o t c y c l i c a l

d u r i n g t h e 2 4 h o u r s o f t h e d a y . T . cruzi w a s d e ­ m o n s t r a b l e a t a n y t i m e o f t h e d a y b y e i t h e r b l o o d

e x a m i n a t i o n o r x e n o d i a g n o s i s .

K ey w ords: T r y p a n o s o m a c r u z i . H ourly P ara­

sitaem ia. C irc ad ia n rhythm . X enodiagnosis.

R E F E R Ê N C IA S B IB L IO G R Á F IC A S

(8)

S h e r l o c k I A . P a r a s i t e m i a c o n s t a n t e d u r a n t e 2 4 h o r a s c o n s e c u t i v a s n a i n f e c ç ã o e x p e r i m e n t a l p e l o T ry p a n o so m a cruzi. R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p i c a l 1 7 : 1 3 7 - 1 4 4 , J u l - S e t , 1 9 8 4

2. A lm eida SP, M iles M A , M a rsd e n P D . V erificação d a susceptibilidade à infecção p o r T r y p a n o s o m a c r u z i , dos estágios evolutivos de R h o d n i u s n e g l e c t u s . R ev ista B rasileira de B iologia 33: 4 3 -5 2 , 1973.

3. B ardsley J E , H a rm sen R. T h e try p an o so m es o f R a n i d a e . I. T h e effects of tem p eratu re and diurnal periodicity on the p erip h eral p a rasitae m ia in the bulfrog ( R a n a c a t e s b e i a n a Shaw ). C a n a d ia n Jo u rn a l o f Z oology 47: 2 8 3 -2 8 8 , 1969.

4. B ardsley J E , H a rm sen R. T h e try p an o so m es o f R a n i d a e . II. T h e effects o f e x citatio n a n d ad ren a lin on the peripheral p a rasitae m ia in the bulfrog ( R a n a c a t e s ­ b e i a n a Shaw ). C a n a d ia n Jo u rn a l o f Z o ology 48: 1317-

1319, 1970.

5. B rener Z. C o n trib u ição ao e stu d o da tera p êu tica ex­ perim ental d a doen ça de C hagas. T ese de D o c ên c ia Livre, F a c u id a d e de O do n to lo g ia e F a rm á c ia d a U niver- sidade F e d e ra l de M in as G e rais, B elo H o rizo n te, 1961.

6. C om ford E M , F re e m a n B J, M a c ln n is A J. Physiological relationships an d circad ian p eriodicities in ro d en t trypanosom es. T ran sac tio n s o f the R o y a l S ociety o f T ropical M ed icin e and H ygiene 70: 2 3 8 -2 4 3 , 1976.

7. D ean e L M , S ilva J E , L o u res F ilh o L. C irca rd ia n rhythm s in the parasitaem ia o f the prim ate haem oflagellate T r y p a n o s o m a m i n a s e n s e . T ran sac tio n s o f the R oyal S ociety o f T ropical M edicine and H ygiene 67: 4 2 4 -4 2 5 , 1973.

8. D ean e L M , Silva J E da, L o u res F ilh o L. N y cth em eral v ariation in p a rasitae m ia o f T r y p a n o s o m a m i n a s e n s e in n aturally infected m arm o sets o f the genus C a l l i t h r i x (P rim ates, C allith ricid ae). R ev ista do In stitu to de M e ­ dicina T ropical de S ão P a u lo 16: 1-6, 1974.

9. H aw king F . C irca d ian rh ythm s o f T r y p a n o s o m a c o n -g o l e n s e in lab o ra to ry rodents. T ran sac tio n s o f the R oyal Society o f T ro p ic al M edicine an d H ygiene 72: 5 9 2 -5 9 5 , 1978.

10. H aw king F . C irca d ian rh ythm s in T r y p a n o s o m a c o n -g o l e n s e . T ra n sa c tio n s o f th e R o y a l S o ciety o f T ro p ical M ed icin e and H ygiene 70: 17 0 , 1976.

11. M a so n G . T h e d iu rn al rh ythm s o f T r y p a n o s o m a r o -t a -t o r i u m in R a n a c l a m i t a n s: investigation o f p h otore- ceptors a n d physiological control. P ro ceed in g o f the Second In tern a tio n a l C ongress o f P arasito lo g y , W a s­ hington D . C . U S A , 1970.

12. S chenone H , R ojo M , R ojas A , C o n c h a L. P o sitiv id ad d iurna y n o tu rn a dei xenodiagnostico en un pacien te con infección c h ag asica crô n ica de p a rasitem ia p erm anente. B oletin C h ilen o de P a ra sito lo g ia 32: 6 3 -6 6 , 1977. 13. S eed JR . D iu rn a l a n d seaso n al rh ythm s in p a rasitae m ia

leveis o f som e try p an o so m es infecting R a n a c l a m i t a n s from L ousiania. R esum es o f the S econd Intern atio n al C ongress o f P arasito lo g y 56: 3 1 1 , 1970.

14. Sherlock IA . N o v a s ob serv açõ es sobre a inexistên cia de ritm o c ircad ian o p a ra T r y p a n o s o m a c r u z i em condições ex p erim entais. In: R esum os do X V I C on g resso d a So­ cied ad e B rasileira de M e d icin a T ro p ic al, N a ta l, R N , 1980.

15. Sherlock IA , A lm eida, SP . D iferen ças de su scep tib i­ lidade à infecção com T . c r u z i entre espécies de tria­ tom íneos alim en tad o s em cão, ta tu e cam u n d o n g o in­ fectados. R e v ista d a S ocied ad e B rasileira de M ed icin a T ro p ical 7: 8 7 -9 8 , 1971.

16. Sherlock IA , G u itto n N , M u n iz, T M . P o sitiv id ad e du ran te 24 h o ra s do xen o d iag n ó stico em cam undongos n a fase aguda d a infecção pelo T . c r u z i . In: R esum os do X IV C o ngresso d a S ociedade B rasileira de M edicina T ro p ical e III C on g resso da Sociedade B rasileira de P arasito lo g ia, Jo ã o P esso a, P a ra íb a , 1978.

17. S ho u th w o rth G C , M a so n G , S eed JR . S tudies on frog try p an o so m íasis. I. A 2 4 -H o u r C y cle in the p a ra ­

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Referências