A compra de votos: uma aproximação empírica.

Texto

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OPINIÃO PÚBLICA, Cam pinas, Vol.IX, Nº 1, 2003, pp.148-169

A com pr a de vot os – um a apr oxim ação em pír ica

Bruno Wilhelm Speck

Departam ento de Ciência Política Universidade Estadual de Cam pinas

Resumo

O artigo aborda o fenômeno da compra de votos no contexto histórico e apresenta dados de um levantamento empírico realizado através de uma pesquisa de opinião após as eleições municipais no Brasil no ano 2000. São discutidas questões relacionadas ao significado da compra de votos no conjunto das questões ligadas à lisura do processo eleitoral. O texto aborda também os problemas enfrentados na pesquisa em função do assunto abordado e soluções metodológicas encontradas.

Palavras-chave: eleições, corrupção eleitoral, voto, justiça eleitoral, representação política

Abstract

The author presents the results of a national survey on vote buying during the local elections in Braszil in 2000. In his analysis he places vote buying into the broader historical perspective of electoral and other forms of manipulation and corruption. Specific methodological questions of surveys on such critical questions like fraude and corruption are discussed

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Introdução

Com o os eleitores escolhem os seus candidatos em eleições? Esta pergunta intriga cientistas políticos há m eio século (Cam pbell, 1960) e desafia, em tem pos de eleição, os consultores das cam panhas eleitorais. Os profissionais da área tendem a concordar que o eleitorado segue um conjunto de m otivações na escolha da preferência política. Existem diferentes tipos de votos, com o o voto ideológico, o voto pessoal ou o voto circunstancial (Grandi, 1992, p.29). Dentro deste raciocínio, som ente um a pequena parcela do eleitorado seguiria convicções políticas na escolha do candidato. Um a grande parte dos eleitores apoiaria candidatos que possuem sua confiança pessoal, principalm ente em eleições locais. Ao contrário destes com prom issos de longo prazo, denom inados votos ideológicos e votos pessoais, um terceiro grupo estaria disposto a decidir seu voto espontaneam ente, em função de diversos m otivos ligados à form a com o candidatos e program as são apresentados. Sobre esta parcela do eleitorado, indeciso e volátil, a arte de apresentar conteúdos e pessoas na m ídia, o m arketing político, teria um grande im pacto.

É interessante notar que aqui, com o em outros m odelos sim ilares, não consta o voto com prado, um a m odalidade do com portam ento eleitoral presente em vários países. No caso do Brasil, denúncias veiculadas pela im prensa, casos investigados pela Justiça Eleitoral e iniciativas da sociedade civil para com bater o fenôm eno da com pra de votos são testem unhos de que esta prática é um fator relevante para um a parte do eleitorado na definição do seu candidato. É com preensível que os consultores não incorporem esta m odalidade nos seus m anuais, no entanto, surpreende que as ciências sociais tenham dedicado pouca atenção ao fenôm eno. As referências internacionais predom inam sobre as análises brasileiras desta prática1. O presente texto aborda este segm ento das construções teóricas sobre o clientelism o eleitoral de form a sucinta. Estas considerações conceituais e um a retrospectiva histórica destinam -se ao preparo do terreno para a análise e a interpretação dos dados em píricos.

O fenôm eno da com pra de votos é um assunto relevante na política contem porânea? A própria legislação eleitoral reconhece a existência do problem a proibindo explicitam ente a com pra de votos2. No entanto, segundo as constatações

1 Recentemente, só um texto de Avelino Filho (1994) discute a ocorrência do clientelismo eleitoral no Brasil à luz da

literatura teórica.

2 O Código Eleitoral de 1965 (Lei 4.737) identifica como propaganda ilícita aquela que “implica em oferecimento, promessa

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da Com issão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), não tem sido possível coíbi-la de form a eficiente. O engajam ento da CBJP, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no assunto da corrupção eleitoral iniciou-se com as eleições m unicipais de 1996. Naquele ano a CNBB defendeu na Cam panha “ Fraternidade e Política” o uso consciente do voto com o ferram enta para influenciar os rum os da política. O voto consciente foi confrontado com a prática da com pra de votos, que a CNBB identificou com o um a das m aiores distorções da dem ocracia brasileira. A organização elaborou nos anos seguintes um am plo diagnóstico do problem a e um a proposta para m odificar a legislação, tornando a sua aplicação m ais fácil e m ais rápida (vide Câm ara dos Deputados, 1999). Durante o ano de 1999 o processo de m obilização da sociedade para encam inhar o projeto ao Congresso Nacional resultou na coleta de m ais de um m ilhão de assinaturas. Com o resultado, o projeto tram itou em tem po recorde no Congresso, sendo aprovada a Lei 9.840/ 99, que passou a vigorar a partir das eleições m unicipais de outubro de 2000. Esta m odificação do Código Eleitoral tornou a coibição da prática de com pra de votos pela justiça eleitoral brasileira m ais factível3.

O grito de alerta de um órgão respeitado com o a Igreja católica cham ou a atenção da sociedade para a atualidade do problem a da com pra de votos. É grande, porém a dificuldade em diagnosticar a extensão deste problem a. Levantam entos; qualitativos durante a m obilização confirm aram o panoram a das trocas m ateriais nas quais se baseia a com pra de votos, abrangendo rem édios, sapatos, m ateriais de construção, ilum inação para um a rua, um alvará para a construção, m aterial escolar e inúm eros outros itens que poderiam constar num a cesta das necessidades básicas da população brasileira. Na academ ia, a antropologia política dedica-se recentem ente ao estudo das eleições, revelando o enraizam ento de práticas com o a negociação do voto no tecido social brasileiro. Mas apesar destas investidas no terreno da ilustração e da análise qualitativa, ainda não havia diagnóstico preciso sobre a extensão da prática da com pra de votos no Brasil contem porâneo.

A realização de um a pesquisa em pírica, baseada em um survey nacional entre os eleitores, representa um passo im portante para descrever m ais claram ente a extensão do fenôm eno. A quantificação é um aspecto relevante no diagnóstico do problem a, com plem entando a análise qualitativa. Com parações de subgrupos perm item identificar a presença de várias m odalidades da com pra de votos e identificar a localização geográfica e social destas práticas. Futuram ente, o

3 As principais modificações ocorridas através da Lei 9.840 de 1999 foram a introdução da cassação do registro do candidato

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levantam ento abre a possibilidade de com parar séries históricas e avaliar o sucesso de políticas voltadas para o controle da com pra de votos de form a crítica.

O levantam ento aqui apresentado foi projetado pela ONG Transparência Brasil e im plem entado pelo Ibope entre eleitores em m arço de 20014. Ele retrata a situação nas eleições m unicipais do ano de 2000, já sob a vigência da nova legislação. Contudo, antes, de apresentar os resultados é necessário abordar o fenôm eno de um a form a m ais sistem ática, situando a com pra de votos em um contexto m ais am plo da lisura do processo eleitoral.

Dimensões da lisura do processo eleitoral

A m anipulação das eleições populares foi um a prática com um na transição para os regim es de dem ocracia representantiva. Com a conquista dos princípios da soberania popular e do sufrágio universal, o processo eleitoral ganhou um peso sensível na evolução política. Afinal, seria este m ecanism o que definiria a distribuição do poder político em regim es representativos, substituindo princípios com o a hereditariedade ou a usurpação do poder. Mas, via de regra, as noções da liberdade de escolha, da com petição eleitoral e da adm inistração isenta, associadas à noção de eleições, ainda estavam longe de descrever o contexto social e político no qual os processos eleitorais se realizavam . Nas dem ocracias em ergentes, as possibilidades de m anipulação das eleições populares são m últiplas. A com petição política m uitas vezes restringe-se a um a disputa entre elites concorrentes, que possuem um controle am plo sobre segm entos inteiros do eleitorado. Mas ao m esm o tem po, os atores políticos desenvolvem um senso crítico aguçado para detectar as deficiências do processo eleitoral em todas as suas variações. Estas incluem o uso da m áquina governam ental para favorecer candidatos, a influência ilícita do poder econôm ico sobre as eleições ou m anipulações referente à adm inistração das eleições. A garantia da lisura do processo eleitoral é um desafio universal para a consolidação dos regim es dem ocráticos. Mas a fraude, a m anipulação e a corrupção eleitoral têm um a coloração específica, dependendo do contexto político e histórico. Para fins de análise, trato separadam ente questões específicas com o a im parcialidade da adm inistração das eleições, o papel do poder econôm ico no financiam ento das cam panhas e a independência do eleitor na m anifestação do seu voto.

4 O período de campo foi de 15 a 20 de março de 2001. O universo pesquisado foi de eleitores brasileiros de 16 anos ou mais.

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Administração imparcial: A questão da adm inistração im parcial do processo eleitoral diz respeito à clareza e à transparência das regras, bem com o à sua im plem entação neutra na com petição eleitoral. Para este objetivo a independência da instância que organiza o processo eleitoral pode ser crucial. Com o m ostra o estudo de Sadek (1995), o Brasil avançou bastante no século XX em relação às questões da lisura do processo de adm inistração das eleições. Duas etapas decisivas foram a criação da Justiça Eleitoral em 1932 e a introdução do voto eletrônico entre 1996 e 2000. A prim eira foi o divisor de águas entre a adm inistração de eleições viciadas pela ingerência política e um a instância independente para organizar e im plem entar o processo eleitoral. A recente inform atização do processo eleitoral elim inou a questão pendente de fraudes na apuração e totalização dos votos. Devido ao grande núm ero de eleitores no Brasil e às particularidades do sistem a eleitoral, o desafio para um a adm inistração eficiente e im parcial do processo eleitoral em todas as suas etapas é grande (vide Tabela 1). No ciclo eleitoral de 1998 e 2000 quase 400.000 candidatos disputaram os votos de m ais de 100 m ilhões de eleitores em todas as três esferas da federação5. No que

concerne à independência da adm inistração do processo eleitoral, o Brasil atingiu um estágio bastante m aduro, baseado em um m odelo institucional consolidado e em técnicas m odernas que garantem eficiência e lisura.

5 Diversos fatores contribuem para o elevado número de vagas e candidatos em cada eleição no Brasil. Primeiro, com

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Tabela 1:

Candidatos a cargos eleitorais no ciclo eleitoral 1998/2000 no Brasil

Ano Eleições estaduais e federais 2000

Eleições municipais 1998

Vereador 367.344 Prefeito 15.016 Deputado

estadual 10.668

Governador 151

Deputado federal 3.417

Senador 167

Presidente 12

TOTAL 382.360 14.415

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irregularidades posteriores fizeram com que o debate sobre o financiam ento adequado (cam panhas eleitorais) e partidos perm anecesse atual até hoje.

Independência do eleitor: Um terceiro assunto relacionado à integridade das eleições é a prática da com pra de votos. A com pra de votos obviam ente não consta de nenhum dos m anuais de cam panha eleitoral. Para alguns, a troca do voto por m ateriais de construção, por rem édios ou m esm o por dinheiro é um fenôm eno em extinção, sem relevância prática ou peso num érico. Para outros, ela é um dos grandes fatores para a distorção do processo eleitoral. Mas a questão não era debatida com base em levantam entos em píricos quantitativos, com paráveis ao aqui apresentado. Antes de com entar os núm eros da pesquisa projetada pela Transparência Brasil e realizada pelo IBOPE – Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, faz-se necessária um a avaliação do significado da com pra do voto, bem com o um a pequena retrospectiva histórica do fenôm eno no Brasil.

Retrospectiva e Sistematização

Segundo Scott (1971), a com pra de votos é um fenôm eno interm ediário e transitório na sucessiva im plem entação de sistem as de governo representativo em m uitos países. Devem os distinguir três etapas: prim eiro, o voto sob chantagem ou extorsão; segundo, o voto negociado ou com prado e terceiro, o voto com o m anifestação de crédito ou reprovação de candidatos e representantes políticos.

O voto imposto: Em m uitos países, os novos eleitores no m om ento da am pliação do sufrágio não estavam m aterial ou culturalm ente livres para optar, no sentido m oderno da palavra, em relação a assuntos políticos. As relações de dependência socioeconôm ica de grande parte da população em relação aos donos dos latifúndios e das fábricas eram evidentes e a com unicação direta entre candidatos e eleitores ainda era tênue. Com o o voto inicialm ente era declarado em aberto, o patrão exercia controle total sobre o eleitor, e a possibilidade de repreensão era real. Assim , o voto era im posto à grande parte da população por estas elites.

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sistem a político estadual, tem com o pressuposto o controle total do chefe político sobre os currais eleitorais, bem com o sobre a im plem entação adm inistrativa da eleição. Num pequeno estudo, Telarolli (1982) descreveu várias m odalidades destas práticas de m anipulação da eleição durante a Prim eira República. Estas incluíam a influência do governo no alistam ento dos eleitores, que perm itia tanto a exclusão de eleitores que votariam em candidatos da oposição com o tam bém a inclusão de eleitores fantasm as. O m om ento da votação tam bém oferecia m argem para m anipulação. Freqüentem ente, o local de votação era instalado em casas particulares, o voto era aberto (para evitar fraudes!) e, com o se estes constrangim entos ainda não bastassem , os eleitores eram aterrorizados pela Força Pública ou por pistoleiros particulares. Um a últim a possibilidade de m anipulação concretizava-se na apuração dos resultados, nos processos da totalização dos votos e da diplom ação dos eleitos. Com o a totalização era dem orada, estendendo-se por dias ou sem anas, os resultados poderiam ser adequados no cam inho, num processo m atem ático das cham adas “ contas a chegar” , garantindo determ inado resultado final. Finalm ente, existia ainda a possibilidade do não reconhecim ento de candidatos oposicionistas que, porventura, conseguissem driblar todas estas barreiras e ganhar os votos suficientes para eleger-se. Este procedim ento freqüentem ente praticado pela com issão, form ada pelo Legislativo anterior, que form alm ente diplom ava os eleitos, era denom inado “ degola” . Fica evidente que a adm inistração deste processo nas m ãos de representantes do situacionism o não perm itia um alto grau de com petitividade nas eleições. Está claro tam bém que nesta constelação do voto im posto pela elite e da m anipulação generalizada da adm inistração do processo eleitoral não havia necessidade de com prar voto. O jogo político lim itava-se a disputas entre as elites.

O voto negociado: Não é o caso aqui de analisar as práticas do m andonism o local, o coronelism o e outras m odalidades deste fenôm eno na literatura. Mas há um a transição decisiva de voto alienado para o voto negociado. Na m edida em que as relações de dependência socioeconôm ica entre eleitor e patrão enfraquecem e com a garantia do segredo eleitoral, a posição do eleitor no processo político passa por um a transform ação. A instrum entalização do eleitor no processo eleitoral, tanto pela elite local com o pelos candidatos, passa de um a fase de im posição e coerção social para outra fase da sedução m aterial. E no horizonte surge um papel com pletam ente novo para o eleitor na m edida em que ele se torna m ais inform ado e em ancipado através dos m eios de com unicação de m assa.

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m ateriais im ediatas aos eleitores. As variedades socioculturais deste voto negociado são m uitas, m as sob um ângulo de sistem atização, três dim ensões da com pra de voto são im portantes: a prim eira delas refere-se ao núm ero de eleitores envolvidos nas transações de troca. A negociação individual com eleitores é com plem entada pelas transações com grupos e organizações, com o m oradores de um a m esm a rua, igrejas ou clubes. A segunda dim ensão refere-se ao objeto da troca. Além de benefícios m ateriais, com o bens e dinheiro, o apoio eleitoral a um candidato poderá ser negociado em função de com pensações não m ateriais com o em pregos, favores adm inistrativos e influência política através de cargos. A origem de grande parte destes benefícios não se encontra m ais nos recursos privados do candidato, m as sim no abuso de recursos do poder público. A terceira dim ensão refere-se ao m om ento de com pensação. Há um contínuo, abrangendo vantagens im ediatas até trocas envolvendo com prom issos futuros. O posicionam ento de um a transação concreta em relação a estas três dim ensões exerce um im pacto sobre a caracterização da com pra de votos. Quanto m ais individual a negociação, quanto m ais m aterial a com pensação e m ais im ediata a troca, m ais evidente será a com pra de votos.

Confiança e censura pelo voto: Todavia, na m edida em que a troca se baseia em negociações coletivas, em valores não m ateriais e em com prom issos de longo prazo, esta relação de troca se descaracteriza. Surge um a outra relação m ais com plexa, que se aproxim a do m odelo representativo onde eleitores utilizam o voto para atribuir confiança ou retirar apoio ao representante político. Enquanto na eleição baseada na troca, o com prom isso do candidato com o eleitor tende a lim itar-se ao curto espaço de tem po da cam panha eleitoral, na eleição que atribui ou retira crédito a um representante, a relação de confiança e crítica pelo eleitor refere-se a todo o período do m andato. O candidato que com pra o voto se livra do com prom isso posterior de prestar contas sobre a sua atuação política. Ao contrário, o voto de confiança do eleitor nega qualquer condicionam ento específico, reservando-se o direito de acom panhar criticam ente a atuação do representante, de form a integral e perm anente.

A compra de voto, hoje

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independentes que, com recursos próprios ou de terceiros, conseguem com prar votos para um candidato (por exem plo m édicos que dão atendim ento gratuito) ou por cabos eleitorais, que profissionalizaram a negociação dos votos. Estes últim os estão geralm ente ligados a um representante político m unicipal, e atuam com o um a espécie de interm ediário perm anente de serviços públicos e outros favores. A dificuldade da interface entre a adm inistração e o cidadão e o caráter opaco dos órgãos públicos são a base para este facilitador que, ao contrário dos outros agentes, atua não só no período eleitoral m as de form a perm anente, m esm o em anos em que não há eleições.

Obviam ente, a prática da com pra de votos se depara com a questão prática de garantir que o eleitor cum pra a contrapartida e vote no candidato indicado. No contexto do voto secreto há basicam ente dois tipos de soluções: um a m ais técnica e outra m ais social. No prim eiro caso, o candidato ou seu representante procuram acessar de várias form as a inform ação sobre o com portam ento eleitoral, detectando assim os traidores6. Com a m odernização do processo de votação, as possibilidades

para soluções técnicas tornaram -se m ais estreitas. Outra form a de resolver a incerteza quanto ao com portam ento do eleitor é pela construção de um a relação de confiança, ou de um com prom isso m oral, com pensando desta form a a falta de m ecanism os de sanção. Com o em outros arranjos corruptos, as redes de clientelism o perm anentes, baseadas em relações pessoais a longo prazo (com o as do interm ediário profissional) revelam -se m ais eficientes contra possíveis traições com paradas a arranjos corruptos baseados em um a relação de troca a curto prazo. Assim , os cabos eleitorais geralm ente estão convencidos da superioridade do seu trabalho, em term os de eficácia, sobre as investidas m eram ente m onetárias e pré-eleitorais dos organizadores da cam panha eleitoral7.

Desafios para a aproximação empírica ao fenômeno

Após estas considerações históricas e qualitativas resta ainda a dúvida, m encionada inicialm ente, a respeito do diagnóstico quantitativo do fenôm eno. A iniciativa de um a análise em pírica do fenôm eno da com pra de votos, realizada pela Transparência Brasil e pelo IBOPE, tenta suprir esta lacuna. Esta pesquisa está inserida em um contexto m ais am plo de iniciativas no âm bito internacional para

6 Uma das modalidades de controle no passado era o “voto de formiguinha”. O primeiro eleitor não deposita a cédula

eleitoral na urna, mas devolve-a ao intermediário. Este preenche a cédula e entrega-a ao segundo eleitor que deposita a cédula na urna, devolvendo por sua vez uma cédula vazia ao intermediário. O ciclo poderá ser repetido com todos os eleitores que venderam o seu voto ao intermediário. Com a urna eletrônica, este e outros mecanismos tornaram-se obsoletos. Mas permanece ainda a possibilidade de verificar nos resultados da seção eleitoral dos respectivos eleitores se os votos esperados ‘apareceram’. A margem de erros deste método é grande.

7 Estas informações baseiam-se em uma série de entrevistas, realizadas pelo autor, com diferentes cabos eleitorais, por

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diagnosticar em piricam ente o fenôm eno da corrupção8. Estes estudos cobrem um

am plo espectro de abordagens, enfocando objetos tão diferentes com o valores, percepções ou com portam entos a ele relacionados9. O levantam ento do IBOPE

cobriu vários destes aspectos10 m as, os resultados aqui apresentados lim itam -se à

corrupção eleitoral através da com pra de votos.

O uso de surveys para pesquisar com portam entos ilícitos é um recurso freqüentem ente em pregado na crim inologia. As pesquisas sobre as vítim as de determ inados crim es são um com plem ento im portante para outros levantam entos de dados aparentem ente m ais objetivos, m as com falhas inerentes11. No caso da

corrupção, um diagnóstico a partir de estatísticas oficiais (da Polícia Judiciária, do Ministério Público ou dos Tribunais de Justiça), quando disponíveis, apresenta as m esm as distorções. Na corrupção eleitoral, com o em outros arranjos corruptos, todos os envolvidos têm um interesse na troca do voto por benefícios m ateriais. A parte lesada é a com unidade ou o sistem a de representação e a incidência de denúncias é m uito baixa. Os casos investigados lim itam -se, na verdade, a poucos “ acidentes” : quando, por descuido, o sigilo sobre a transação não é garantido, quando surge um conflito entre os agentes envolvidos, levando um a denunciar o sistem a, ou quando esquem as desta natureza são descobertos no decorrer de investigações na área. De um a m aneira geral, o núm ero dos casos de corrupção eleitoral poderá ser usado com o indicador de vários fenôm enos - com o a reprovação social do fenôm eno, da confiança nas instituições investigadoras ou da eficiência destes órgãos- m enos da incidência do crim e em questão.

Mas a investigação da corrupção eleitoral a partir de surveys tam bém apresenta problem as m etodológicos. Mesm o que em condições desiguais, a prática da com pra de votos incrim ina todos os envolvidos ou os com prom ete m oralm ente. Dificilm ente os entrevistados m anifestar-se-ão de form a aberta à pergunta direta sobre eventual venda do voto a um candidato na últim a eleição. Um artifício para

8 Há uma série de iniciativas neste sentido. No âmbito internacional as mais importantes são o Índice de Percepção da

Corrupção, elaborado anualmente pela organização Transparency Internacional (TI) desde meados de 1995, os diagnósticos de corrupção em determinadas áreas de serviço público, implementados com apoio da Community Information and Epidemiological Technologies (CIET) e desde o final de 1990 os diagnósticos nacionais conduzidos com apoio e sob orientação do WorldBank Institute (WBI) em vários países. Iniciativas nacionais importantes foram primeiramente realizadas em 1994 na Austrália pela Independent Commission Against Corruption (ICAC/NSW).

9 Sobre a apresentação destes diferentes enfoques nas pesquisas atuais vide Speck (2000).

10 O questionário para a pesquisa apresentada aqui foi elaborado por Cláudio Weber Abramo (Secretário Geral da

Transparência Brasil), Bruno Wilhelm Speck (Unicamp), Johann Graf Lambsdorff (Universidade de Göttingen/Alemanha) e Frederik Galtung (Universidade de Cambridge/UK). Um resumo com todas as perguntas e dos resultados pode ser consultado no site da Transparência Brasil http://www.transparencia.org.br.

11 A exploração de dados oficiais sobre crimes investigados pelos respectivos órgãos públicos poderá subreportar os casos em

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contornar esta situação é a “ externalização” dos aspectos com prom etedores da situação, de form a que o entrevistado possa responder sem constrangim ento de ordem m oral ou até crim inal à pergunta sobre a venda do voto. As dúvidas em relação à veracidade das respostas dadas ficam reduzidas ao nível norm al neste tipo de investigação em pírica.

Um outro problem a prático na pesquisa é a definição do fenôm eno da corrupção eleitoral. Talvez seja claro o que pode ser considerado com pra de voto em casos que envolvem dinheiro ou bens m ateriais. Mas seguindo a argum entação anteriorm ente apresentada, a definição perde clareza à m edida em que nos aproxim am os de com prom issos de longo prazo, dos benefícios coletivos e dos retornos não m ateriais. Optam os por um cam inho m ais seguro, levantando em um a prim eira pergunta a proposta de troca do voto por favores adm inistrativos e, na segunda, as propostas de troca do voto por dinheiro.

Com esta decisão, variações da com pra de voto que deixam m ais m argem à interpretação ficaram excluídas do levantam ento. São estas a com pra de voto por bens m ateriais, rem édios, tijolos, roupa, alim entos e outras form as popularm ente conhecidas de com pra de voto. É difícil enquadrar este am plo leque de benefícios. Além de bens m ateriais há cargos, cirurgias ou outros benefícios, vinculados à adm inistração pública. É difícil definir (e transm itir ao entrevistado) a linha divisória entre brindes aceitáveis e vantagens negociadas. A dificuldade aum enta em razão de as realidades econôm icas dos indivíduos serem tão diferentes. Desta form a, a definição de um valor absoluto não resolveria o problem a, pois o valor subjetivo de um a cam iseta pode ser negligenciável para um e representar um valor básico para outro.

Outra situação freqüente, m as de difícil aferição, é a venda coletiva de votos por lideranças em troca de benefícios m ateriais para associações, com unidades religiosas, recreativas ou esportivas. Com o a negociação do com portam ento eleitoral é indireta, o eleitor m uitas vezes não sabe o m otivo do dirigente de sua instituição apoiar a cam panha eleitoral de determ inado candidato. Um a pesquisa entre os cidadãos não retrata adequadam ente este fenôm eno. Esta pesquisa optou pela via m ais segura m etodologicam ente, m as m enos inclusiva do ponto de vista do fenôm eno da corrupção eleitoral.

Os resultados da pesquisa apresentada a seguir devem ser observados neste contexto. A pergunta sobre a proposta de um favor adm inistrativo em troca do voto foi respondida positivam ente por 10,1% dos entrevistados e 6,6% afirm aram ter recebido um a oferta em dinheiro para vender o seu voto12. No total, 13,9% dos

12 Todos os números analisados aqui baseiam-se em uma análise dos casos de respostas válidas às duas perguntas, excluindo

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eleitores receberam um a das duas propostas de negociar o voto13. É interessante

identificar quais am bientes oferecem m ais resistência ao fenôm eno e quais indivíduos são m ais vulneráveis. Há um a série de idéias pré-concebidas sobre o assunto: 1) encontraríam os a corrupção eleitoral com m ais freqüência entre os eleitores com pouca instrução e de baixa renda e 2) sendo este fenôm eno vinculado a determ inado contexto socio-político, deveria haver um a acentuada diferença entre as áreas rurais e urbanas, bem com o entre o Norte e o Sul do país. Os resultados do levantam ento realizado só em parte confirm am estas idéias. Algum as concepções sobre a com pra de voto são francam ente errôneas. Outras talvez não im aginássem os antes. Um a análise com parativa dos resultados da pesquisa em diferentes populações está apresentada a seguir.

A condição do indivíduo

A concepção popular sobre a corrupção eleitoral é que esta incide exclusivam ente sobre a população de baixa renda e de baixo nível de escolaridade. Um prim eiro resultado surpreendente da pesquisa refere-se exatam ente à influência m odesta da instrução sobre as duas m odalidades de com pra de voto. No Gráfico 1, com o nos outros a seguir, o prim eiro e o segundo conjunto referem -se à proposta de trocar o voto por favores adm inistrativos e por dinheiro. O terceiro conjunto representa o volum e total de cidadãos relatando propostas de com pra de voto14. É

certam ente surpreendente que os eleitores, independente do seu grau de escolaridade, sejam igualm ente alvos das duas m odalidades da com pra de votos. Os núm eros para os entrevistados analfabetos até os universitários estão próxim os da m édia nacional de 10,1%. Isto vale tanto para a m odalidade do favor adm inistrativo com o para a com pra por dinheiro. Com o a m argem de erro da pesquisa é de 2,2 pontos percentuais, som ente as variações fora desta m argem podem ser consideradas significativas. Os resultados não confirm am as concepções populares sobre o am biente social do voto negociado. Em am bas as m odalidades da negociação do voto, os eleitores com nível inferior de instrução (incom pleta ou prim ária) são m enos visados do que os de instrução superior (ginásio e colegial). Os eleitores com form ação universitária recebem significativam ente m enos propostas

13 Como há possibilidade do entrevistado responder positivamente ambas as perguntas, estes números não podem ser

simplesmente somados para obter um retrato do aliciamento do eleitor nas eleições.

14 Pessoas que relataram pelo menos uma das duas situações. Como também há casos onde ambas as situações são

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som ente na m odalidade da com pra de voto por dinheiro (2,7%). O terceiro conjunto do gráfico confirm a que não os eleitores m enos instruídos, m as aqueles com m aior nível de form ação, são os m ais visados pelos com pradores de voto.

Em relação à renda, devem os igualm ente reavaliar algum as idéias pré-concebidas. Mais um a vez, as incidências das duas m odalidades de com pra de voto apresentam um a distribuição relativam ente uniform e em quase todas as faixas de renda (Gráfico 2). Som ente para a últim a categoria dos eleitores - com um a renda fam iliar de m ais de 20 salários m ínim os - observam os um a significativa redução da incidência de propostas. A definição da situação socioeconôm ica pela classificação

em classes sociais (Gráfico 3) apresenta desvios significativos da m édia som ente em

algum as categorias. Na classe E os índices de favores adm inistrativos crescem para 14,4% (m édia 10,1) e na classe A a incidência de ofertas em dinheiro cai para 2,6% (lem brando que a m édia é de 6,6%).

Gráfico 1: Experiência de oferta de compra de voto, por grau de escolaridade. Brasil 2001 (%)

0 5 10 15 20

Média 10,1 6,6 13,9

Incompleta 9,8 4,1 11,8

Primário 8,1 6,8 12,4

Ginásio 13,9 9 18,7

Colegial 10,2 7,5 15,3

Superior 10,1 2,7 10,1

oferta voto por favor administrativo

oferta voto por dinheiro

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Gráfico 2: Experiência de oferta de compra de voto por faixa de renda. Brasil, 2001 (%)

0 5 10 15 20

Média 10,1 6,6 13,9

Até 1 SM 10,2 7,9 13,6

1-2 SM 9,8 8 16

2-5 SM 10,3 7,1 14,6

5-10 SM 13,3 5,9 15,5

10-20 SM 8,6 3,5 10,7

acima 20 SM 4,4 2,2 4,5

oferta voto por favor administrativo

oferta voto por dinheiro

uma ou ambas as experiências

Gráfico 3: Experiência de oferta de compra de voto por classe socioeconômica. Brasil, 2001 (%)

0 5 10 15 20

Média 10,1 6,6 13,9

Classe E 14,4 7,9 17,6

Classe D 9,4 7,5 14,7

Classe C 10,2 5,5 12,5

Classe B 8,1 6,2 12,3

Classe A 7,9 2,6 10,8

oferta voto por favor

administrativo oferta voto por dinheiro

(16)

Em relação à incidência das propostas de com pra do voto por sexo, praticam ente não há diferenças entre homens e mulheres (Gráfico 4). Um fator que apresenta um a correlação m aior com a corrupção eleitoral é a idade (Gráfico 5). Enquanto os jovens abaixo de 40 anos recebem propostas acim a da m édia (no terceiro conjunto 17,5% entre 21 e 30 anos contrastando com a m édia de 13,9%), entre os m ais idosos estes núm eros dim inuem significativam ente. Assim , se a instrução form al fracassa com o vacina contra a com pra de votos, a experiência de vida é um rem édio natural m ais eficaz.

Gráfico 4: Experiência de oferta de compra de voto por sexo. Brasil, 2001 (%)

0 2 4 6 8 10 12 14 16

Média 10,1 6,6 13,9

Homens 9,5 7,5 14,4

Mulheres 10,5 5,7 13,5

oferta voto por favor

administrativo oferta voto por dinheiro

(17)

O impacto do ambiente

Se as características individuais dos eleitores têm um im pacto lim itado sobre as ofertas de com pra de voto, qual será a influência do am biente coletivo sobre a com pra de voto? Há diferenças significativas entre as regiões do Brasil ou entre regiões do interior e os centros urbanos? Os dados confirm am a concepção popular de que o balcão de venda de votos estaria m ais presente no interior, nas pequenas cidades, nas regiões m enos desenvolvidas?

Considerando as grandes regiões, podem os dizer que os núm eros parcialm ente confirm am a expectativa de diferenças significativas (Gráfico 6). Considerando a m odalidade da com pra de votos por dinheiro, as regiões apresentam um perfil m uito distinto: no caso das regiões Norte e Centro-Oeste, 13,2% dos eleitores receberam ofertas em dinheiro, o que significa um a incidência três vezes m aior do que no Sudeste, onde 4,3% receberam a m esm a oferta; as regiões Nordeste (7,1%) e Sul (7,2%) apresentaram um perfil sim ilar e perto da m édia, resultado que pode ser considerado igualm ente surpreendente.

Gráfico 5: Experiência de oferta de compra de voto, por faixa de idade. Brasil, 2001 (%)

0 5 10 15 20 25

Média 10,1 6,6 13,9

Até 20 anos 11,5 9,9 17,5

21 até 30 anos 13 9,1 19,1

31 até 40 anos 11,6 7,6 15,3

41 até 40 anos 7,9 4,1 8,9

51 até 60 anos 3,4 1,5 4,6

oferta voto por favor administrativo

oferta voto por dinheiro

(18)

Pelo critério do favor adm inistrativo com o m oeda de troca em eleições, a região Sudeste destaca-se com índices ligeiram ente abaixo das outras regiões. Há variações significativas entre o Sudeste (8,6%), o Nordeste (11,8%) e o Sul (11,3%). É intrigante que estas duas regiões, norm alm ente consideradas com o os dois extrem os do desenvolvim ento regional, aproxim em -se nestes índices de integridade do processo eleitoral. Outro resultado im portante é o do Norte/ Centro-Oeste, que não apresenta a m esm a distorção com o na com pra de voto por dinheiro, m as é idêntico à m édia nacional.

Som adas as duas experiências, podem os resum ir que um em cada cinco eleitores no Norte/ Centro-Oeste recebeu um a proposta para vender o seu voto por dinheiro ou favores adm inistrativos, enquanto no Sudeste esta taxa cai para um em cada 10 eleitores.

As características do m unicípio igualm ente influenciam a corrupção eleitoral, sendo que a localização do m unicípio exerce im pacto m enor do que o

tamanho. A oferta de dinheiro pelo voto não apresenta variação entre a capital e o

interior. A idéia que este fenôm eno é característico do interior não se confirm a nos dados da pesquisa. Na m odalidade dos serviços governam entais condicionados ao voto, o quadro m uda ligeiram ente. As capitais apresentam um a incidência m enor (7,5%) que a periferia e o interior.

Em relação ao tam anho dos m unicípios (Gráfico 8), há distorções significativas nos m unicípios de m enor (m enos de 5 m il eleitores) e de m aior porte (m ais de 500 m il eleitores). Os prim eiros são vítim as privilegiadas nas duas m odalidades da com pra de voto (favor adm inistrativo, 14,6%; dinheiro, 9,7%). No total, 21% dos eleitores nestes m unicípios recebem propostas para com ercializar o voto. Um em cada cinco! No outro extrem o, dos grandes centros urbanos, tem os incidências bem m enores (favor adm inistrativo, 5,7%; dinheiro, 3,3%). Juntando am bas as experiências, o padrão discrepante entre m unicípios pequenos (21%) e grandes cidades (8,2%) se confirm a.

(19)

Gráfico 6: Experiência de oferta de compra de votos, por região. Brasil, 2001 (%)

0 10 20 30

Média 10,1 6,6 13,9

Norte/Centro-Oeste 10,2 13,2 19,5

Nordeste 11,8 7,1 15,8

Sudeste 8,6 4,3 10,9

Sul 11,3 7,2 15,4

oferta voto por favor administrativo

oferta voto por dinheiro

uma ou ambas as experiências

Gráfico 7: Experiência de oferta de compra de voto, por localização do município. Brasil, 2001. (%)

0 5 10 15 20

Média 10,1 6,6 13,9

Capital 7,5 6,3 11,8

Periferia 10,6 5 13,3

Interior 11,1 7 15

oferta voto por favor

administrativo oferta voto por dinheiro

(20)

Conclusões e Conseqüências

Esta pesquisa agregou elem entos im portantes ao conhecim ento do fenôm eno da corrupção eleitoral. Colocou em dúvida algum as noções a respeito da m aior incidência do fenôm eno, com o aquelas relacionadas ao papel da educação e da condição econôm ica, confirm ou outras, com o desnível entre as grandes regiões, e revelou tendências talvez m enos esperadas, com o o papel da idade.

Quais são as conclusões a tirar deste levantam ento? A prim eira talvez seja reconhecer que a aplicação de pesquisas de opinião para aferir a incidência de crim es é um instrum ento válido tam bém para o fenôm eno da corrupção eleitoral. O levantam ento da Transparência Brasil representa um a incursão exploratória em um cam po virgem , porém de sum a im portância para o sistem a de representação política no Brasil. A lisura do processo eleitoral m erece a m esm a atenção que outros dados estruturais da cultura política, m ensurados através de pesquisas deste tipo. Outros levantam entos m ais abrangentes são necessários para proporcionar um a noção m ais com pleta das suas várias m odalidades e para m onitorar o fenôm eno eleitoral15.

A segunda conclusão diz respeito à dim ensão quantitativa do fenôm eno. A com pra de votos, um a m odalidade da corrupção eleitoral freqüentem ente

15 Os levantamentos do Latinobarômetro, realizados anualmente na America Latina, em vários anos incluíram temas ligados

à corrupção. Mas estes não têm ainda um caráter sistemático. Levantamentos específicos relativos à corrupção eleitoral não foram realizados.

Gráfico 8: Experiência de oferta de compra de voto por tamanho do município. Brasil, 2001 (%)

0 5 10 15 20 25

Média 10,1 6,6 13,9

Até 5 mil eleitores 14,6 9,7 21 5-10 mil eleitores 9,8 5,3 12,7

10-20 mil eleitores 7,8 4,8 10,6 20-50 mil eleitores 11,2 7 15

50-100 mil eleitores 13,5 7,5 19 oferta voto por

favor administrativo

oferta voto por dinheiro

(21)

com entada na m ídia, questiona a legitim idade do sistem a representativo. A quantificação, até agora negligenciada, é um a ferram enta indispensável para dar a este problem a a devida im portância. Considerando que a pesquisa aferiu só algum as m odalidades da com pra de voto, o núm ero de 13,9%, ou seja, um em cada 7 eleitores declara receber algum tipo de oferta para com ercializar o voto, é um dado preocupante.

Um a terceira observação refere-se ao potencial e aos lim ites de levantam entos deste tipo. Sendo um instrum ento im portante para o m apeam ento dos grupos m ais visados e das regiões m ais atingidas pela corrupção eleitoral, a pesquisa fornece subsídios para orientar tanto o trabalho da justiça eleitoral, com o tam bém as iniciativas preventivas de organizações da sociedade civil16. Porém ,

revelam -se tam bém os lim ites deste tipo de m apeam ento da vulnerabilidade na orientação de políticas concretas contra a corrupção eleitoral. Som ente pesquisas qualitativas com plem entares poderão inform ar quais as estratégias m ais adequadas para com bater a corrupção eleitoral. Parece existir um círculo vicioso entre um a adm inistração pública opaca, os serviços de interm ediação oferecidos pelo cabo eleitoral profissional e o legislativo m unicipal, eleito na base destes favores adm inistrativos. Para identificar os nexos causais nas relações sociais que caracterizam a corrupção eleitoral, bem com o para identificar pontos de apoio e de resistência para a reform a, a realização de estudos com plem entares sobre a corrupção eleitoral é de sum a im portância. Políticas dirigidas ao controle da corrupção necessitam da identificação dos possíveis aliados e adversários na im plem entação de projetos de reform a.

16 No ano eleitoral de 2002 houve pelo menos duas iniciativas neste sentido, que combatem a corrupção eleitoral através de

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BIBLIOGRAFIA

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TELAROLLI, Rodolpho. 1982. Eleições e fraudes eleitorais na República Velha, São Paulo, Brasiliense.

Recebido para publicação em novembro de 2002

Imagem

Gráfico 1: Experiência de oferta de compra de voto, por grau  de escolaridade. Brasil 2001 (%) 05101520 Média 10,1 6,6 13,9 Incompleta 9,8 4,1 11,8 Primário 8,1 6,8 12,4 Ginásio 13,9 9 18,7 Colegial 10,2 7,5 15,3 Superior 10,1 2,7 10,1

Gráfico 1:

Experiência de oferta de compra de voto, por grau de escolaridade. Brasil 2001 (%) 05101520 Média 10,1 6,6 13,9 Incompleta 9,8 4,1 11,8 Primário 8,1 6,8 12,4 Ginásio 13,9 9 18,7 Colegial 10,2 7,5 15,3 Superior 10,1 2,7 10,1 p.14
Gráfico 2: Experiência de oferta de compra de voto por faixa  de renda. Brasil, 2001 (%) 05101520 Média 10,1 6,6 13,9 Até 1 SM 10,2 7,9 13,6 1-2 SM 9,8 8 16 2-5 SM 10,3 7,1 14,6 5-10 SM 13,3 5,9 15,5 10-20 SM 8,6 3,5 10,7 acima 20 SM 4,4 2,2 4,5

Gráfico 2:

Experiência de oferta de compra de voto por faixa de renda. Brasil, 2001 (%) 05101520 Média 10,1 6,6 13,9 Até 1 SM 10,2 7,9 13,6 1-2 SM 9,8 8 16 2-5 SM 10,3 7,1 14,6 5-10 SM 13,3 5,9 15,5 10-20 SM 8,6 3,5 10,7 acima 20 SM 4,4 2,2 4,5 p.15
Gráfico 4: Experiência de oferta de compra de voto por sexo. Brasil,  2001 (%) 0246810121416 Média 10,1 6,6 13,9 Homens 9,5 7,5 14,4 Mulheres 10,5 5,7 13,5

Gráfico 4:

Experiência de oferta de compra de voto por sexo. Brasil, 2001 (%) 0246810121416 Média 10,1 6,6 13,9 Homens 9,5 7,5 14,4 Mulheres 10,5 5,7 13,5 p.16
Gráfico 5: Experiência de oferta de compra de voto, por faixa  de idade. Brasil, 2001 (%) 0510152025 Média 10,1 6,6 13,9 Até 20 anos 11,5 9,9 17,5 21 até 30 anos 13 9,1 19,1 31 até 40 anos 11,6 7,6 15,3 41 até 40 anos 7,9 4,1 8,9 51 até 60 anos 3,4 1,5 4,6

Gráfico 5:

Experiência de oferta de compra de voto, por faixa de idade. Brasil, 2001 (%) 0510152025 Média 10,1 6,6 13,9 Até 20 anos 11,5 9,9 17,5 21 até 30 anos 13 9,1 19,1 31 até 40 anos 11,6 7,6 15,3 41 até 40 anos 7,9 4,1 8,9 51 até 60 anos 3,4 1,5 4,6 p.17
Gráfico 6: Experiência de oferta de compra de votos, por  região. Brasil, 2001 (%) 0102030 Média 10,1 6,6 13,9 Norte/Centro-Oeste 10,2 13,2 19,5 Nordeste 11,8 7,1 15,8 Sudeste 8,6 4,3 10,9 Sul 11,3 7,2 15,4

Gráfico 6:

Experiência de oferta de compra de votos, por região. Brasil, 2001 (%) 0102030 Média 10,1 6,6 13,9 Norte/Centro-Oeste 10,2 13,2 19,5 Nordeste 11,8 7,1 15,8 Sudeste 8,6 4,3 10,9 Sul 11,3 7,2 15,4 p.19
Gráfico 8: Experiência de oferta de compra de voto  por tamanho do município. Brasil, 2001 (%)

Gráfico 8:

Experiência de oferta de compra de voto por tamanho do município. Brasil, 2001 (%) p.20

Referências