O ensino da filosofia segundo Hegel: contribuições para a atualidade

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O ENSINO DA FILOSOFIA SEGUNDO HEGEL:

CONTRIBUIÇÕES PARA A ATUALIDADE1

Pedro Geraldo Aparecido Novelli2

■ RESUMO: É possível ensinar filosofia? O filósofo alemão G. W. F. Hegel (1770-1831) não somente responde afirmativamente à questão posta, como também in-dica o que deve ser ensinado e como em filosofia. A resposta hegeliana tem como fonte sua atividade como diretor do ginásio de Nürnberg, onde ele procura esta-belecer diretrizes e procedimentos para que a filosofia seja ensinada aos jovens. Segundo Hegel, a filosofia sempre é pertinente na medida em que se manifesta sobre o que é fundamental para o homem, isto é, sobre sua vida com as questões que lhe dizem respeito. Para tanto, a filosofia deve assumir o homem como seu objeto de consideração. Isto deve resultar na apreciação da realidade humana para que a partir dela sejam levados e elevados à sua maior e melhor compreen-são pela reflexão e pela especulação. Tais habilidades não compreen-são adquiridas senão pelo contato direto com a filosofia em sua especificidade na sua produção histó-rica, ou seja, nos textos. Conhecer a história da filosofia já é aprender filosofia, mas tal aprendizagem necessita da mediação do professor. A mediação se faz ne-cessária, pois a aprendizagem não é natural e, portanto, não se dá espontanea-mente. Aprender é sempre aprender com alguém.

■ PALAVRAS-CHAVE: abstração, dialética, especulação.

Introdução

A educação tem merecido ao longo dos tempos atenção especial de muitas áreas do conhecimento. O interesse da filosofia pela educação

re-1 Artigo recebido em 05/2005; aprovado para publicação em 07/2005.

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monta aos gregos antigo,s como evidenciam a “República” de Platão, a “Ética à Nicômaco” de Aristóteles, dentre outras. Na modernidade autores como Rousseau, Kant, etc. confirmam a preocupação com a educação. Per-corre entre os pensadores de ontem e de hoje a tese da educação como o momento privilegiado da formação do homem, pois se trata de uma possi-bilidade formal e intencional de realização e promoção das sociedades hu-manas. A própria filosofia pode ser tomada como um momento da educa-ção com aspectos e características específicos. O pensador alemão G.W.F. Hegel (1770-1831) deteve-se particularmente sobre a filosofia e sua relação com a educação por ocasião de sua função de diretor de ginásio em Nürn-berg entre os anos de 1806 e 1816. Nesse período Hegel estava intensa-mente envolvido com a organização do ensino da filosofia para os jovens, e são também desse período os seus principais escritos sobre o ensino da fi-losofia. Aqui são tomados três textos nos quais Hegel trata do ensino em geral e da filosofia.

O primeiro texto é um parecer elaborado para o real conselheiro supe-rior da Baviera, Immanuel Niethammer, no qual Hegel se manifesta sobre o significado da filosofia para os jovens do ginásio. Num país assolado pelas repercussões dos fatos ocorridos na vizinha França, Hegel se pergunta so-bre as motivações e as razões para a insistência no ensino da filosofia. Como pode ainda a filosofia contribuir para que um país se constitua como tal? A resposta hegeliana se traduz na consideração da metodologia que se mostrava, nessa época, fortemente direcionada pela perspectiva pragmáti-ca. A metodologia não é, segundo Hegel, somente a determinação do como fazer, mas também do porquê e do que fazer.

O segundo texto é uma breve carta também dirigida ao conselheiro Niethammer. Em poucas linhas, mas em tom bastante marcante, Hegel se posiciona com respeito ao conflito entre forma e conteúdo. Contra a tendên-cia que os contrapõe também através da disputa sobre o que é atual e ultra-passado, Hegel busca a superação da exclusão para insistir na completude entre os opostos.

Finalmente, o terceiro texto é uma carta dirigida ao real conselheiro do governo prussiano e professor Friedrich v. Raumer, na qual Hegel explora o ensino da filosofia nas universidades. A universidade é tida, por Hegel, como o local mais adequado para o ensino da filosofia porque aí se pode es-perar e exigir dos alunos determinadas posturas que somente a maturidade proporciona. Tal maturidade deve permitir o exercício da paciência e da de-mora sobre o conceito para que o todo seja alcançado e o real, por sua vez, verdadeiramente compreendido.

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do professor ocupa a posição central. Para Hegel, o aprendizado é sempre uma atividade mediada, pois não se dá de forma natural ou espontânea. A mediação realiza-se no embate entre o que predomina e insiste em perma-necer como está e o que daí brota, ou melhor, como sua negação sob o as-pecto de superação, como um vir-a-ser. Com isto evidencia-se que a tarefa do professor não se caracteriza pela calmaria da adequação, mas sim pela agitação do que desestabiliza para se estabelecer.

A educação em Hegel

Hegel atribui grande importância à educação muito embora não tenha escrito nenhum tratado sobre tal tema. Sua época foi marcada por intensos debates sobre a educação, principalmente no que diz respeito à sua popu-larização. Esta foi uma das conseqüências da Revolução Francesa, que tam-bém empreendeu esforços de maior inclusão do povo na vida do Estado. O movimento iluminista foi outro elemento que contribuiu para fomentar o debate em torno da educação. Em seu tempo, Hegel também vive de perto a tendência à literatura educativa. Suas leituras de juventude incluem o “Emílio” de Rousseau, que lhe causou profunda impressão.

“Seu herói era Rousseau, de quem ele freqüentemente leu ‘O Emílio’, ‘Do Contrato Social’ e ‘Confissões’” (Rosenkranz, 1844, p. 430).

As atividades profissionais desempenhadas por Hegel ao longo de sua vida atestam seu envolvimento com a educação. Hegel foi preceptor priva-do, professor e diretor de ginásio, conselheiro escolar da cidade de Nürn-berg, tornando-se responsável por toda a atividade docente da cidade, pro-fessor e reitor universitário e consultor do governo para as questões educacionais. Deve-se mencionar ainda que a maior parte da docência he-geliana se passou durante a reforma educacional na Alemanha, liderada por Niethammer. A universidade de Berlim, onde Hegel atuou como profes-sor e posteriormente como reitor, assumiria as mudanças orientadas por Humboldt.

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modo pode-se dizer que todo sistema filosófico também contém uma pro-posta pedagógica, pois se trata de elucidar o homem a respeito de si mesmo e de seu mundo.

No caso de Hegel é necessário mencionar que sua associação às ten-dências pedagógicas de sua época não era harmoniosa. Segundo Hegel, a pedagogia estaria excessivamente preocupada com situações periféricas em relação à educação que se traduziam na concentração sobre os métodos e as técnicas:

(...) el clamor de la pedagogía moderna, que toma en cuenta sólo las exigencias de nuestra época y las necesidades inmediatas, afirmando que, tal como para el cono-cimiento lo primordial es la experiencia, así para la idoneidad en la vida publica y privada las especulaciones teóricas son más bien perjudiciales; y que lo único que se requiere es la ejercitación y la educación prácticas, que son lo substancial. (He-gel, 1968, p.27)

A crítica de Hegel à influência do momento tem como fundamento uma compreensão de homem que não se deixa determinar unicamente pelo aqui e agora, mas que procura manter em foco a totalidade do que ocorre, isto é, as relações entre o que aí já está e o que começa a ganhar corpo. Hegel co-munga com as diversas tendências pedagógicas o fato de que todas afir-mam o homem, mas ele se dissocia daquelas que situam o homem demasi-adamente no âmbito da natureza:

O homem aparece depois da criação da natureza e constitui o oposto ao mundo natural. É o ser que se eleva ao segundo mundo. Temos em nossa consciência uni-versal dois reinos: o da natureza e o do espírito. O reino do espírito é o criado pelo homem. Podemos forjar-nos todo tipo de representação sobre o que será o reino de Deus, mas ele sempre há de ser um reino do espírito que deve ser realizado no ho-mem e estabelecido na existência. (Hegel, 1989 a, p.59)

O homem se caracteriza por se construir e ao fazê-lo ele acaba por construir seu próprio tempo, seu próprio mundo. Suas construções são a construção de sua liberdade que somente é sabida e reconhecida na medi-da em que se efetiva, ou seja, se realiza. O que o homem é aparece no que resulta de seu agir enquanto desejado e quisto. Dessa forma o homem ex-trapola o limite do natural no qual ele se depara com o que ele não quis e ainda não se reconhece. Ao romper as determinações do natural o homem também reconhece esse natural, e agindo sobre ele o homem se abre para além de si mesmo. Aqui reside a abertura para a educação.

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A educação proporciona o segundo nascimento do indivíduo, elevan-do-o do estágio natural ao social, tornanelevan-do-o autônomo ou senhor de si no convívio de seu povo. A autonomia é uma conquista do indivíduo porque este precisa aderir à proposta de seu povo, isto é, ao que significa conviver num determinado contexto, e renunciar suas particularidades e exclusivis-mos. Não se trata de abrir mão de interesses individuais, mas sim individua-listas, que pretendem a imposição do particular ao universal inclusive com o sacrifício deste. A autonomia não se dá no âmbito da natureza reduzida ao em si de si mesmo, ou seja, enclausurada numa existência determinada. A educação diz respeito à existência de indivíduos e de como estes vêm a ser individualidade coletivizada e coletividade individualizada, a saber, como os indivíduos se reconhecem em seu povo e como seu povo os reconhece.

Para Hegel, aprender é aprender com alguém, por intermédio de al-guém, isto é, por um processo necessariamente mediado. Sem intervenção não se pode esperar que a educação se realize. A consciência em Hegel não é um ensimesmamento nem uma auto-suficiência. Assim, a pedagogia he-geliana remete muito mais a uma antropologia, ou seja, à compreensão do que é e como o homem vem a ser. O homem, segundo Hegel, é uma contínua passagem, um contínuo vir a ser; sempre como filho de seu tempo, do que o precedeu e do que está por vir como resultado de sua própria atividade.

O homem não somente está na base de toda educação, mas é a própria base da educação. Por isto, de certo modo, nenhuma educação poderia dei-xar de ser uma educação humanista mesmo quando seu conteúdo se refere ao natural ou ao exato.

Esta é a perspectiva que Hegel vê no mundo grego, que se identifica com a realização do homem. Portanto, o estudo da cultura grega expresso no interesse pela língua e filosofia é um procedimento natural. O homem derivado do mundo grego é aquele que se direciona pela eticidade, pela ra-zão e pelo espírito despojado de suas contingências. Saber e conhecer o que os gregos sabiam e conheciam significa garantir a formação de homens guiados pela razão e pelo espírito.

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e consolidação da ciência e da cultura avançaram mediante retorno à Anti-güidade” (Hegel, 1970, p.314).

Hegel e o ensino de filosofia

O período vivido por Hegel também demonstra a resistência à filosofia pela tendência pragmática que entendia a teoria como algo danoso.

La doctrina exotérica de la filosofía kantiana – es decir, que el intelecto no debe ir más allá de la experiencia, porque desde otra manera la capacidad de conocer se convierte en razón, teorética que por sí misma sólo crea telarañas cerebrales – justi-ficó, desde el punto de vista científico, la renuncia al pensamento especulativo. (He-gel, 1968, p.27)

O lugar que cabe à filosofia, segundo Hegel, é o do olhar da totalidade que se interessa pela floresta e não somente pela árvore. Não se deve iden-tificar, em Hegel, a atenção dedicada à totalidade como um olhar generalis-ta que não se especifica ou não se determina. Como o próprio Hegel escreve em seus “Princípios da Filosofia do Direito”

Uma vontade que jamais se decide sobre coisa alguma não é uma vontade efe-tiva, real; de igual modo o homem sem caráter nunca chega a decisão alguma. A ra-zão da indecisão pode residir no fato de que a escolha significa uma limitação, um envolvimento com o finito que nega o infinito. Muito embora tal disposição sejqa be-la, ela é, contudo, morta. (Hegel, 2000, p. 64)

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muito bem em sua “Fenomenologia do Espírito”, que apesar de o sensível ser o ponto de partida, ele não é adequadamente compreendido em si mes-mo. É no momento seguinte, no caso o momento da percepção, que o sen-sível se revela inclusive para si mesmo, e pode então ser mais e melhor compreendido.

A filosofia lida com as sombras criadas pela atividade humana tanto em seu cotidiano quanto nas ciências. Tais sombras se traduzem nas im-precisões ou indeterminações que acabam por reger a existência humana precisamente por serem desconhecidas. Todas as ciências e o agir humano possuem um arcabouço teórico mais ou menos consciente, que serve de sustentação e de justificativa para que se faça ciência e se viva no dia-a-dia exatamente como tem sido até então praticado. Essas posturas filosóficas devem ser identificadas e assim é possível visualizar a compreensão de rea-lidade e agir sobre elas:

O bem conhecido em geral, justamente por ser bem-conhecido, não é reconhe-cido. É o modo mais habitual de enganar-se e de enganar os outros: pressupor no conhecimento algo como já conhecido e deixá-lo tal como está. Um saber desses com todo o vaivém de palavras, não sai do lugar – sem saber como isso lhe sucede. (Hegel, 1992, p. 37)

Além disso, comumente se compreende a filosofia como algo que está ao acesso de todas as pessoas indiscriminadamente, o que, por conseguin-te, não exigiria grandes esforços para conhecê-la, pois bastaria fazer uso da razão para emitir um juízo caracterizado pela atividade filosófica. “Só para filosofar é que não se exigem nem o estudo, nem a aprendizagem nem o es-forço” (Hegel, 1988, p.73).

Ao contrário, para Hegel, a filosofia exige empenho reflexivo e analíti-co, o que não se obtém preso à avalanche dos interesses materiais. Desta forma, a filosofia não deve sofrer uma popularização, mas o povo deveria ser elevado ao nível da filosofia. Hegel não é favorável às concessões e facilita-ções, mas ao mesmo tempo não desconhece o contexto dentro do qual a fi-losofia é praticada. Nem todos têm os requisitos necessários para o exercí-cio filosófico, porém é possível tê-los na medida em que se submeterem à empreitada que se deve assumir para adquirir o exigido. A filosofia, como tal, possui um conteúdo específico na medida em que se interessa por cer-tos temas e de um modo todo particular, do qual o indivíduo, interessado no exercício do filosofar, deve se apropriar. A apropriação do conteúdo da filo-sofia implica a concomitante e necessária apropriação da também perspec-tiva filosófica. Hegel insiste nesse aspecto ao sustentar a primazia do con-teúdo em relação àquele que o apreende.

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absor-vem seu alimento, de igual modo a matéria pela qual se desenvolve e se exercita o entendimento e a atividade anímica em geral, devem se constituir em alimento. (He-gel, 1970, p. 319)

Filosofar é apropriar-se de um conteúdo que é acessível pelo desenvol-vimento de atitudes condizentes com o almejado. Contrariamente a Kant, segundo o qual não se aprende filosofia, mas tão somente a filosofar, Hegel sustenta não haver diferença entre aprender filosofia e aprender a filosofar, pois somente é possível aprender a filosofar aprendendo filosofia. A apreen-são da história da filosofia exige o exercício do filosofar visto que o que constitui o objeto desse exercício é o pensar ordenado e claramente, o bus-car construir o conhecimento, o valorizar condutas, o normatizar politica-mente tais condutas, ou seja, eleger o bem, o justo e o belo.

Dessa forma, para Hegel, não se aprende filosofia como se aprende uma outra ciência. A filosofia demanda a radicalidade, o rigor e a totalidade. As ciências naturais e empíricas repousam sobre o dado imediato e, por isso, perdem o alcance da totalidade, posto que vislumbram o consenso baseado na evidência. O consenso é exatamente, desde a perspectiva filosófica, a assunção de algo que se determina e que tem pretensão de totalidade. A posição determinada, delimitada é precisamente a condição para a própria superação e afirmação de sua insuficiência. É próprio da filosofia o pergun-tar, o indagar, a partir daquilo que é dado, pois este é entendido como algo passível de novas e diferentes análises. Especialmente em Hegel a filosofia é entendida como uma atenta observação do que assume forma na história. É a partir de sua inserção na história que a filosofia se manifesta e se sus-tenta. A própria reação ao que se estabelece, isto é, o reconhecimento e a crítica ao real, já indicam que, para Hegel, não se trata de se render ao que predomina como o definitivo e o único possível:

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O ensino da filosofia nos ginásios

Hegel já havia desenvolvido e até publicado parte de suas idéias filo-sóficas durante sua atividade docente na universidade, iniciada em Jena; mas em Nürnberg, ao assumir a direção do ginásio local, ele empreende um esforço significativo de traduzir a filosofia, assim como suas idéias, para os jovens.

Hegel reconhece as especificidades do ginasiano e, por isto, tem por objetivo preparar os indivíduos para a recepção de certos conteúdos e tam-bém para o interesse pelos mesmos: “(...) é mais fácil fazer-se incompreen-sível de uma forma sublime que ser compreenincompreen-sível de uma forma coerente, e que, a instrução da juventude e a preparação da matéria para ela constitui a última pedra de toque da claridade” (Hegel, 1978 p.176).

O objetivo do ensino da filosofia aos jovens seria despertar neles o pen-samento especulativo que gradualmente conduziria ao estudo sistemático da filosofia. O sentido comum atribuído à especulação considera esta como um caminhar a esmo, sem direção e sem jamais atingir uma positividade. Em Hegel, a especulação é compreendida como a síntese das determina-ções da reflexão e da intuição intelectual. O que Hegel pretende é a supe-ração da dicotomia teoria-prática, análise e empiria, e isto é o que opera a especulação que reconhece tanto uma quanto a outra, e que ainda indica uma relação absoluta entre ambas. A separação entre razão e sentidos, su-jeito e objeto é fictícia e pretenciosa porque afirma o caráter absoluto de um e de outro. Isto é, para Hegel, uma inverdade, pois não há sujeito sem objeto, ou seja, a diferença é identificadora pela aproximação e pela unida-de e não pela separação. Nesse sentido, a característica principal da Spekulation em Hegel é a da união de pensamentos e coisas, opostos e en-tendidos como distintos. Tal união é levada por Hegel às últimas conse-qüências Isto significa que o que pode ser conhecido é conhecido direta-mente e não por imagens. Portanto, Hegel não assume o termo Spekulation como espelho, pois ele não aceita a idéia de que algo não possa ser acessí-vel por meio da cognição direta. Em suma, a Spekulation em Hegel é a afir-mação do sujeito com o objeto, no objeto e pelo objeto. Não se trata somen-te de que o sujeito reconheça o objeto, mas que se reconheça nele, sendo desta forma um com o objeto.

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destinadas ao ensino da filosofia. No entanto, na medida em que as aulas são realizadas, Hegel julga necessário ser metódico para que o aluno receba criticamente o conteúdo que já está na posse do professor. Fica saliente aqui que Hegel atribui a centralidade do processo educacional e, em parti-cular, do ensino de filosofia ao professor que deve assumir tal posição como responsável imediato.

A centralidade do professor se expressa e se confirma na determinação do conteúdo a ser trabalhado, mas isto não significa que o professor não deva ser sensível à realidade do aluno. Tal realidade é a mesma com a qual ele se depara no dia-a-dia e que, para ele, tem profunda pertinência, muito embora não seja sempre reconhecida: “Pela minha parte nada mais sei do que começar pelo Direito, a mais simples e mais abstrata conseqüência da liberdade, passar em seguida à Moral e desta avançar para a Religião como o grau mais alto” (Hegel, 1970, p.404).

Hegel parece ter como pano de fundo para o ensino da filosofia o mes-mo processo de manifestação do espírito que, por sua vez, vai do mais sen-sível ao mais inteligível. Apesar da necessidade de se começar pelo sensí-vel, Hegel faz notar que não se trata de um momento desprovido de pensamento. O mais imediato ou o próprio existente já é pensamento, o que significa que a introdução à filosofia não é mera preparação para o pensar, mas já é o pensar.

Contudo, não se pode perder de vista o fato de que o sensível é um mo-mento que deverá ser ultrapassado até o que Hegel considera ser “o grau mais alto” para o discente, que é o “espiritual teorético, o lógico, o metafísi-co e o psimetafísi-cológimetafísi-co”. Hegel metafísi-compara a lógica e a psimetafísi-cologia, dizendo que a primeira é mais fácil por se tratar de abstrações mais simples, enquanto a psicologia já faz uso do concreto, isto é, o espírito que envolve a complexi-dade de sua determinação e compreensão. Mesmo assim a psicologia pode ser facilitada quando se concentra sobre sua abordagem empírica. A psico-logia, como Hegel a entende, passa pela consideração de temas como a consciência, a autoconsciência e a razão, graus do sentimento, intuição, re-presentação, imaginação, etc. A metafísica, segundo Hegel, é contemplada pela lógica, pois Kant já havia demonstrado que “o metafísico é uma consi-deração do entendimento e da razão” (Hegel, 1970, p. 406). Obviamente He-gel considera a lógica kantiana insuficiente e se propõe com a sua lógica objetiva a dar à ciência a dimensão que lhe convém. Entretanto, Hegel in-siste na necessidade de se conhecer a fundo o pensamento kantiano para que somente então se possa empreender a avaliação de sua “insuficiência ou rudeza”, como ele mesmo afirma.

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natureza por se prender a uma postura de “um passatempo teorético” em relação à mesma.

A estética é outra área que Hegel considera ter sido pouco ou quase nada explorada com os alunos do ginásio. Aliás, ele entende que este espaço é o mais propício para o ensino da estética, visto que os alunos poderiam se beneficiar de informações e conhecimentos sobre a arte no geral e ainda ter acesso a determinados expoentes dessa área. Hegel parece estar particular-mente mais interessado nas tendências desenvolvidas ao longo dos tempos do que nas orientações de um fazer determinado da arte e para a arte:

Mas seria muitíssimo útil, se os ginasianos, além de um maior conceito de mé-trica, recebessem também conceitos mais determinados acerca da natureza da epo-péia, da tragédia, da comédia e coisas semelhantes, A Estética poderia, por um lado, proporcionar as novas e melhores vistas da essência e do fim da arte mas, por outro, não deveria permanecer um simples palavrório acerca da arte; poderia empenhar-se nos gêneros particulares da poesia e nos peculiares modos poéticos antigos e mo-dernos, introduzir no trato característico com os melhores poetas das diferentes na-ções e épocas e apoiar com exemplos esse trato. Seria esse curso tanto mais rico quanto mais agradável; conteria apenas conhecimentos que, para os ginasianos, são altamente convenientes (...). (Hegel, 1970, p.409)

Com respeito à metodologia a ser adotada, Hegel critica a distinção co-mum em seu tempo entre o sistema filosófico e o próprio filosofar, atribuin-do tal postura à influência da pedagogia moderna que relegava o conteúatribuin-do a segundo plano. Nas palavras de Hegel, isso seria equivalente ao “(...) via-jar e viavia-jar sempre, sem chegar a conhecer as cidades, os rios, os países, os homens, etc.” (Hegel, 1970, p.410).

Na concepção de Hegel, aprender a aprender ocorre quando se de algo, e no aprendizado de algo já está necessariamente contido o apren-der. Por isso, não basta a perspectiva formal que cria capacidades e predis-põe para o exercício intelectual. Faz-se necessário o conteúdo que deve ser apreendido e, que, por sua sistematicidade, exige a assunção de uma tal postura de aprendizagem que não pode ser nem fortuita nem descontraída. A fixação na formalidade somente inviabiliza a apreensão do conhecer como deve ser, isto é, na sua totalidade. A dificuldade não é característica da filosofia, mas de toda forma de conhecimento que se proponha a ultra-passar a exposição fragmentária e assistemática.

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fazê-lo por si só. Não há outro caminho possível, pois se trata da afirmação do próprio sujeito que aprende:

Por muito que o estudo filosófico seja em si e para si um fazer por si mesmo, é igualmente uma aprendizagem – a aprendizagem de uma ciência já existente, forma-da. Esta é um patrimônio de conteúdo adquirido, formado, elaborado; este bem here-ditário deve ser adquirido pelo indivíduo, isto é, ser aprendido. (Hegel, 1970, p. 412)

O conhecimento filosófico está inicialmente na posse do professor, e posteriormente, através dele, é apropriado pelo aluno. Este somente apren-de a pensar se tiver sobre o que pensar. Neste sentido professor e aluno não estão no mesmo nível, porquanto o professor já teve acesso a conhecimen-tos que lhe permitem considerar a realidade muito mais amplamente do que o aluno. No caso da filosofia, não se trata de qualquer forma de conhe-cimento e, por isto, não é aprendido de qualquer modo. Cada ciência tem suas exigências e a filosofia demanda de seu aprendiz disciplina, concen-tração e insistência. A disciplina para o estudo regrado e sistemático, a concentração para a atenção acurada à ‘fala’ do outro, especialmente quan-do escrevem e a insistência para perseverar na tarefa de compreender o ou-tro e poder manifestar-se sobre ele. Uma vez que o aluno esteja na posse das idéias filosóficas, então ele tem condições para superar “a peculiaridade na-tural do pensar, isto é, a contingência, o arbítrio e a particularidade da opi-nião”. (Hegel, 1970, p.412)

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que se operou a elaboração de uma determinação, isto é, do pensar sobre e para o mundo:

Se apenas se adere à forma abstrata do conteúdo filosófico, tem-se uma (cha-mada) filosofia intelectualista e, enquanto no ginásio se tem a ver com a Introdução e a Matéria, aquele conteúdo inteligível, aquela massa sistemática de conteúdos, é imediatamente o filosófico enquanto matéria, e é introdução, porque a matéria é em geral o primeiro para um pensar efetivo. (Hegel, 1970, p.414)

O dialético é o segundo grau da forma e é, de acordo com a apreciação hegeliana, mais difícil e talvez também menos interessante para o aluno. Difícil porque se trata de se deparar com as posições que avaliam as deter-minações postas pelo abstrato. O momento dialético é o da contestação do antecedente através de novas determinações que ganham visibilidade mui-to mais pelo embate que promovem do que por si mesmas. Por isso, o mo-mento dialético também pode ser visto como pouco interessante, pois não se trata de “concreção” e nem de “realização”. Hegel sugere que nesse mo-mento as antinomias kantianas tenham seu espaço, apesar de afirmar que as mesmas não passam de “antíteses mal contorcidas” que ele entende ter, “com mérito”, elucidado em sua Lógica! O que Hegel critica aqui em Kant é que não se evidencia nas antinomias que um novo conceito brote de um já existente, o que confirma e atesta em Kant uma compreensão estática da realidade que não consegue contemplá-la de forma adequada e verdadeira. O terceiro momento é o do especulativo, pelo qual os opostos são com-preendidos em relação uns com os outros ou, em outras palavras, como um. Trata-se no especulativo o que Hegel denomina “a unidade dos opostos” e o que é “genuinamente filosófico”. Hegel ainda enfatiza esse momento de-finindo-o como a verdade, e cabe lembrar aqui que tal definição reporta ao texto da “Fenomenologia do Espírito”, no qual o todo é a verdade! O espe-culativo é apresentado como o momento mais difícil em relação aos ante-riores, certamente por exigir a perspectiva do todo e a adoção da com-preensão dinâmica desse mesmo todo.

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imediatamente presente, e conseqüentemente tem grandes dificuldades de tornar objetivo o que é subjetivo. É próprio da representação trazer a uma forma dada, ou ao presente, o que tem existência em si, mas o re-pre-sentar não se funda na identificação com a coisa ou o objeto. O esforço de Hegel é o de proporcionar aos seus ginasianos a perspectiva de que a tota-lidade da reatota-lidade ou a reatota-lidade mesma é completamente acessível ao homem. Porém,, este homem somente chega à totalidade do real se assume o caráter dialético desta, que não se resume somente aos seus momentos de afirmação. Este estágio é atingido através da fase conceitual da especu-lação que une os opostos,superando a postura que os dissocia ou que eli-mina um para afirmar o outro. “O concebido, e isto significa o especulativo que promana da dialética, é unicamente o filosófico na forma do conceito” (Hegel. 1970, p.415).

O conceito é apreendido e aprendido pelos alunos com muita dificulda-de, reconhece Hegel, e somente com muita dedicação e paciência se pode pretender que ele seja entendido pelos jovens. Aliás, diz Hegel, se os alunos aprenderem não é possível certificar-se totalmente de que eles apreende-ram adequadamente devido à dificuldade dessa forma. Não se pensa abs-tratamente senão através de abstrações que, por sua vez, se constituem na preparação para o pensar especulativo. Mas o ensino ginasial é propedêuti-co ou introdutório, e neste sentido trata-se do local ideal para que tais pre-disposições sejam estimuladas, ensinadas e desenvolvidas nos jovens. Para Hegel não há melhor meio para a aquisição da especulação do que um con-teúdo que a contemple, e tal concon-teúdo é encontrado na filosofia. Isto indica que a aprendizagem da filosofia passa necessariamente pelo contato com os textos filosóficos. Desta forma Hegel justifica o conhecimento da filosofia antiga que, mesmo devido à sua distância no tempo em relação ao presen-te, merece atenção e consideração. Não se conhece tão bem a filosofia an-tiga quando se tem acesso e contato com sua expressão nos textos escritos. Ao responder sobre a pertinência da filosofia antiga para os jovens, Hegel enfatiza que se trata do reconhecimento da própria história humana que se apóia no presente no que a precede. A eloqüência verbal procurada em sua época não pode garantir a necessária formação de um povo, pois o que im-porta é o que permite que a fala seja consistente e necessária.

O ensino da filosofia nas universidades

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de-mais ciências o fato de ser clara, profunda e minuciosa, mas como sofreu as mesmas adequações das outras ciências também herdou a dificuldade do estabelecimento de procedimentos científicos: “Vemos por um lado, cienti-ficidade e ciências sem interesse, por outro, interesse sem cienticienti-ficidade” (Hegel, 1970, p.419).

Em 1816 já se percebe na Alemanha a preocupação com uma reforma significativa em seu sistema de ensino universitário, e Hegel vê com sus-peitas as possibilidades que se vislumbram porque muitas disciplinas “an-tigas” (Lógica, Psicologia Empírica, Direito Natural, etc.) estavam perdendo seu significado, sendo mantidas apenas pela sua forma sem se atentar de-vidamente para o conteúdo específico de cada uma delas. Hegel atribui tal estado à tendência facilitadora do ensino de sua época, que acabava por fa-zer concessões em termos de conteúdo e exigências aos alunos. Isto se tra-duzia na concentração sobre o que era considerado necessário, e este era compreendido como a apresentação do que pudesse ser o mais sintético possível, evitando-se assim a concepção compendiosa das ciências e da fi-losofia, tida como supérflua e até contrária e inferior à idéia. A pressa, como critério para intensificar o conhecimento, já se manifestava nos tempos de Hegel que era contraposta pela postura crítica e cética, mas que, apesar da atitude questionadora em relação ao apressamento no ensino, não avança-va no estabelecimento de um estudo adequado da ciência, pois permanecia na negação de um conhecimento rápido sem chegar a instituir ou apontar uma outra possibilidade.

A criação de fórmulas que possam sintetizar conhecimentos filosóficos pode ser atraente no início, mas revela logo em seguida suas limitações porque o todo não pode ser tratado sem que suas partes sejam também pensadas.

Mas as conseqüências derivadas (...) penúria de conhecimentos, ignorância tanto dos conceitos filosóficos como também das ciências especiais, encontram nas experiências do Estado e ainda na precedente formação científica uma oposição de-masiado séria e uma repulsa prática, para que aquela obscuridade não caísse no descrédito. Assim como a íntima necessidade da filosofia implica que ela seja elabo-rada cientificamente e nas suas partes, assim me parece também ser este o ponto de vista adequado à época (...). (Hegel, 1970, p.421)

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retiram suas motivações de si mesmos, mas que num primeiro momento aprenderam e apreenderam o que os precede para, somente então, em-preenderem uma expressão que lhes seja específica. O que é específico so-mente se põe se reconhece o que se distingue dele, vale dizer, as demais especificidades. Por isso, entende Hegel que o método mais adequado para o ensino da filosofia, assim como de outras ciências, na universidade deve obrigatoriamente pensar os “pormenores”.

O que a filosofia considera tem implicações sobre “como”, ou o modo que ela deve considerar. A filosofia somente pode ser bem ensinada se ela se determina, e ao se determinar ela se torna evidente, comunicável. A filo-sofia, em Hegel, não se basta a si mesma, mas tem sua sustentação no ser para. Ela está no mundo e é do mundo que retira sua matéria de reflexão. Deste modo, a filosofia é um bem comum.ou deve se tornar um bem co-mum, mas para tanto deve ser comunicável. Engana-se, afirma Hegel, que tornar a filosofia comunicável signifique apoiar-se na filologia que, entre-tanto, se empregada, deve se constituir em meio para a comunicação da fi-losofia e não em seu fim. Tornar a fifi-losofia comunicável significa apreender o que tem sido feito pelos homens o que aparece expresso nas ciências po-sitivas. Estas unem em si o espiritual e o natural. Estes aspectos são sem-pre o trabalho da filosofia e, portanto, conhecer as ciências empíricas só pode resultar numa concepção mais profunda da própria filosofia. Se a filo-sofia promove a predisposição para as outras ciências, então estas são de certo modo filosóficas. Portanto, nada mais desejável que a filosofia mante-nha estreita relação com as ciências sem abandonar sua especificidade:

Como ciência propedêutica, a filosofia deve sobretudo proporcionar a educação formal e o exercício do pensar; só conseguirá tal mediante o total afastamento do fan-tástico, por meio da determinidade dos conceitos e de um procedimento conseqüen-te e metódico; deve poder conservar esse exercício numa elevada medida como a matemática, porque, como esta, não tem um conteúdo sensível. (Hegel, 1970, p.424)

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são as ciências da filosofia que os alunos precisam aprender para com-preender adequadamente o real ou as questões que, de fato, são de interes-se dos homens. As ciências da filosofia são a consideração do que vai do abstrato ao concreto de modo que o universal seja plenamente alcançado. Alcançar o universal é a tarefa do sujeito que precisa reconhecer-se em tudo de forma que nada escape à sua ação, sem a qual não se pode falar em existência efetiva. Hegel não somente põe o sujeito no lugar que lhe é de direito, como Kant já havia feito, isto é, o centro, mas também permite que ele supere sua centralidade em sua unidade com o mundo. Daí, aprender filosofia não é tão somente aprender a estar no mundo, mas principalmente aprender a ser o mundo no mundo.

Conclusão

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uma extensão do pensar, mas é uma realidade em si que, embora depen-dente da ação do pensar, não se configura como uma simples projeção.

A filosofia torna-se pertinente ao assumir a história humana com as questões que são determinantes para os homens. A filosofia, por estar inse-rida na história humana, deve aí se fazer presente, mas Hegel entende que não a qualquer preço porque a filosofia somente pode contribuir se respei-tar o que lhe é específico e particular. O específico e particular da filosofia está em sua análise radical, rigorosa e de conjunto do real. O acesso à atitu-de filosófica não tem outro caminho senão através do contato com o pensar e fazer filosóficos nos textos dos próprios filósofos. Conhecer o que se fez até então na filosofia significa conhecer o que foi pensado, e procurar com-preender tal pensar implica o desenvolvimento do pensar filosófico. Dessa forma Hegel atribui papel determinante ao conteúdo do ensino de filosofia, pois esta não se dissocia do que tem produzido. Portanto, não se aprende filosofia senão filosofando e isto advém necessariamente da apreensão da história da filosofia.

A aprendizagem da filosofia ou do filosofar através de sua história tam-bém indica que, para Hegel, ninguém aprende sozinho, mas sempre através da mediação de um outro. O professor, os colegas, os textos são mediações pelas quais a aprendizagem se realiza. A mediação é o momento pelo qual o real se efetiva ou obtém status do ser como existente. Entre os textos e os colegas destaca-se a mediação do professor, pois este pode atuar como uma mediação mediada, isto é, que já assumiu para si a história da filosofia. Mais do que um facilitador o professor se põe como um paradigma para os alunos, uma vez que ele mesmo não chega à história da filosofia senão atra-vés da experiência pessoal com ela. O professor também não é um reprodu-tor, pois sua mediação não determinará como a história da filosofia deverá ser compreendida, visto que o processo do filosofar produz o filósofo e este, como tal, poderá continuar indagando. Além disso, a mediação situa sem-pre a perspectiva do todo ou da superação da singularidade pela relação com algo mais.

O ensino da filosofia, para Hegel, pode e deve estender-se a todas as pessoas, mas isso não se faz sem exigências e de qualquer modo. Não há acesso à filosofia senão através de sua história, que não é outra coisa senão a manifestação do pensamento humano, conforme a própria compreensão hegeliana de filosofia, ou seja, apreensão da história no pensamento.

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■ ABSTRACT: Is it possible to teach philosophy? The German philosopher G. W. F. Hegel (1770-1831) not only answers positively to such question but also indicates what has to be taught in philosophy and how. Hegel’s answer has as its source his activity in the High School of Nürnberg where he searches to establish the aims and the procedures so that philosophy may be taught to the young people. According to Hegel philosophy is always meaningful when it considers what is basic for men, i.e., their life with all the questions related to it. In this way philos-ophy has to assume the man as its object. This ends up in the consideration of the human reality as it is so that it may be better and deeper understood through reflection and speculation. These abilities can only be obtained by the direct contact with philosophy itself in what is its specifications in its historical pro-duction or in other words, its texts. To know the history of philosophy is already to learn philosophy but such learning process needs the mediation of a teacher because one does not learn naturally nor spontaneously . To learn is to learn to-gether with someone else.

■ KEYWORDS:abstraction, dialectic, speculation

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Referências