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O boom das commodities e o risco da doença holandesa

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O BOOM DAS COMMODITIES E O RISCO DA DOENÇA HOLANDESA Samuel de Abreu Pessoa∗

Versão 02 – 14 de setembro de 2008 1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é apresentar o conceito de doença holandesa e propor formas de sua neutralização. Informalmente define-se doença holandesa e valorização do câmbio real e a redução da participação da indústria no PIB em seguida à descoberta de fontes valiosas de recursos naturais não renováveis.

A conclusão básica do trabalho é que a simples elevação da renda permanente em seguida à descoberta das fontes valiosas de recursos naturais não renováveis não constitui falha de mercado. Para que o conceito de doença holandesa tenha sentido analítico é necessário que haja alguma falha de mercado e que haja uma interação entre o crescimento da renda permanente (em seguida à descoberta das fontes de recursos naturais) e esta falha de mercado. Isto é, que o crescimento da renda permanente acentue os impactos negativos das falhas de mercado pré-existentes. O texto considera duas falhas de mercados. Primeiro, a existência de atividades improdutivas ou de transferência, também conhecidas como atividades rent-seeking. Segundo, a hipótese de que o setor de bens comercializáveis – em função de externalidades tecnológicas e informacionais – apresenta retorno social maior do que o retorno privado.

No caso em que há esta potencialização – questão extremamente polêmica que requer maior documentação empírica – é possível neutralizar a doença holandesa elevando a poupança doméstica ou criando algum tributo que desestimule o consumo e a produção do bem doméstico. Em geral, do ponto de vista do bem estar, a segunda opção é superior.

Finalmente o trabalho aplica a estrutura analítica exposta na segunda seção para analisar os impactos sobre o equilíbrio da economia de diferentes formas de financiamento dos investimentos para a exploração do petróleo da camada pré-sal.

O trabalho apresenta a seguinte organização. Na seção seguinte a esta rápida introdução investiga-se os impactos estáticos e dinâmicos da descoberta de recursos naturais de elevado valor. Na terceira seção apresenta-se o modelo com rent-seeking e na quarta seção discute-se o impacto sobre a economia de existência de externalidades associadas ao setor de bens comercializáveis. A quinta seção trata das formas de neutralização da doença holandesa e a sexta seção avalia os impactos dos investimentos no pré-sal. Segue a conclusão.

2. DOENÇA HOLANDESA

Nesta e na próxima seção a doença holandesa será tratada como o problema da transferência.1 Supõe-se que a valorização das commodities é equivalente à economia receber do resto do mundo uma transferência, por unidade de tampo, de valor T. Isto é, supõe-se que a elevação dos preços das commodities não altera as relações de produção, sendo, portanto, simplesmente um choque positivo aditivo sobre a renda da economia. Se o choque externo aditivo e positivo não for permanente é sempre possível encontrar a renda permanente equivalente à trajetória do choque. Seja Tt a trajetória observada da

Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, [email protected],

55-21-3799-6870.

(2)

transferência positiva do resto do mundo para a nossa economia e seja rt a trajetória esperada da taxa de juros. O fluxo permanente T equivalente ao choque observado é dado por:

dt e

dt T e

T t

s t

s

ds r

t ds r

∞ ∞

∫ ∫ =

0 0

0 0

.

Nesta seção considera-se uma economia que se encontra em um equilíbrio de longo prazo, isto é, em um ponto no qual o produto marginal do capital líquido da depreciação física do capital é dado pelos parâmetros das preferências. O estoque de capital é aquele cuja produtividade marginal líquida é igual à taxa de desconto intertemporal. A partir deste ponto a economia recebe um ‘presente’ do resto de mundo na forma de um fluxo permanente de bens e serviços no valor de T unidades por

unidade de tempo de bens e serviços comercializáveis. O objetivo da seção é discutir o ajustamento da economia a este choque externo positivo.

2.1. Modelo estático

Nos anos sessenta após a descoberta e a exploração de jazidas de gás natural na Holanda a economia deste país apresentou forte valorização do câmbio que, por sua vez, teve efeitos perversos sobre a produção e o emprego na indústria. Este fenômeno foi chamado de doença holandesa.2

Para estudar o fenômeno da doença holandesa utiliza-se nesta seção o modelo da economia dependente. Seja uma economia a dois setores que produz e consome dois bens. Um bem que participa do comércio internacional, o bem comercializável (BC), e o bem que não participa do comércio internacional, o bem doméstico (BD). O problema da transferência investiga os impactos sobre o equilíbrio da produção e do consumo, e, portanto, sobre a alocação dos fatores de produção, do país receber um ‘presente’ do resto do mundo no caso da transferência ser positiva, ou do país ser forçado por algum motivo (geralmente trata-se de reparação de guerra ou de uma elevação não esperada da taxa de juros real sobre a dívida externa) a enviar uma transferência ao exterior.3

No curto prazo e sob a hipótese de perfeita mobilidade entre os setores dos fatores de produção a oferta dos bens pode ser escrita:

( )

p k y

yD = D , e yC = yC

( )

p,k ,

em que k é a dotação de capital por trabalhador média da economia, p é preço relativo

do bem comercializável em unidades do bem doméstico e yC e yD são, respectivamente, a oferta per capita do BD e do BC.4

O equilíbrio de mercado ocorrerá ao preço relativo que iguala a oferta à demanda.5 Formalmente:

( )

k p c

( )

p y

yD , = D , , (1)

em que

2 Corden (1984). 3 Barata (1989). 4 Kemp (1969).

(3)

T py y

yD + C +

é a renda disponível ao consumo medida em unidades do BD, cD é a demanda pelo bem doméstico e T é a transferência per capita recebida pela economia. Pela identidade de

Walras o equilíbrio no setor de BD garante automaticamente o equilíbrio no setor de BC.

A partir da equação (1) acima é possível avaliar o impacto da elevação da transferência, T, sobre o câmbio real de equilíbrio, p, supondo que a dotação de capital

está fixada, isto é, no equilíbrio de curto prazo da economia. Cálculo simples resulta:

, C D D D D y y c p c p y y c dT dp ∂ ∂ − ∂ ∂ − ∂ ∂ ∂ ∂

= (2)

em que fez-se uso de que no equilíbrio da produção a inclinação da fronteira de possibilidades de produção (FPP) é dada pelo negativo do preço relativo, isto é:

. 0 = ∂ ∂ + ∂ ∂ p y p p

yD C

É mais conveniente expressar (2) na forma de elasticidade. Segue:

0 , , , , <       + − = y y y T dT dp p T C c y c p y p c y D D D D

ε

ε

ε

ε

, (3)

em que

D c y,

ε é a elasticidade-renda da demanda por BD,

D y p,

ε é a elasticidade-preço da

oferta de BD e

D c p,

ε é a elasticidade-preço da demanda de BD. Dado que a demanda

compensada representada pelo termo em parênteses no denominador de (3) é sempre positiva a derivada será negativa se o BD for normal. Sob a hipótese de normalidade do BD uma elevação da transferência T reduz o preço relativo do BC em unidades do BD, isto é, produz uma valorização do câmbio real.

A lógica econômica é cristalina. A transferência do resto do mundo somente pode ser efetuada na forma de bens comercializáveis. Por outro lado, a transferência representa uma elevação da renda disponível da economia. Sob a hipótese de normalidade das demandas a elevação da renda redunda em elevação da demanda de ambos os bens produzindo, conseqüentemente, excesso de demanda por bens domésticos e excesso de oferta por bens comercializáveis. Para que o desequilíbrio seja eliminado o câmbio valoriza-se, desviando o consumo para os bens comercializáveis e estimulando a produção dos bens domésticos. Dado que os BD são, em sua maioria, serviços, e os BC, manufaturas, afirma-se que a transferência produz desindustrialização.

2.2. Modelo dinâmico

(4)

de capital e trabalho do setor de BC em direção ao setor de BD. É este o processo conhecido com desindustrialização. Evidentemente este processo não é neutro do ponto de vista da remuneração dos fatores. Dado que o setor de BD é trabalho intensivo comparativamente ao setor de BC o ajuste estrutural enseja uma elevação da remuneração do trabalho e uma redução na remuneração do capital. Assim, em seguida ao choque externo positivo representado pela elevação da transferência T o câmbio valoriza-se, os salários elevam-se e a renda do capital reduz-se.

Supondo que a situação anterior ao choque externo positivo representava um equilíbrio de longo prazo é natural imaginar que a alteração nas remunerações dos fatores de produção ensejará um processo de ajustamento em direção a um novo equilíbrio de longo prazo.6 Supondo um modelo de dois setores de acumulação de capital com horizonte infinito segue que no longo prazo a remuneração do capital será fixada pelas preferências. Sejam fD

( )

kD e fC

( )

kC respectivamente o produto por trabalhador na indústria de BD e de BC. Supondo que o bem de capital é comercializável segue para o longo prazo que:

( )

( )

( )

[

]

( )

( )

( )

       = − + = = − + = − − . ' ' ' 1 ' 1 w k f k k f k f w k f k k f p k f p C C C C C C C D D D D D D D

δ

ρ

δ

ρ

(4)

Em palavras, a remuneração do capital (líquida da depreciação) em unidades de BC,

( )

D

D k

f

p−1 ' e fC'

( )

kC , é igual à taxa de desconto intertemporal. Estas equações fixam o preço relativo, p, a relação capital-trabalho em cada indústria, kD e kC, e o salário em unidade de BC, w, em função das tecnologias e da taxa de desconto intertemporal. Isto é, no longo prazo as condições da produção fixam os preços.

Falta determinar o equilíbrio de mercado. No longo prazo a equação de equilíbrio no mercado de BD, equação (1), continua válida. Segue:

( )

k,p c

( )

p,

λ

yD = D , (5)

em que no modelo dinâmico a demanda do BD depende da renda permanente da economia representada por λ−1. Como vimos acima, no longo prazo o equilíbrio da produção determina os preços inclusive o câmbio de equilíbrio. Se não houver alteração das tecnologias em seguida ao choque externo, no longo prazo o câmbio retorno ao valor que tinha antes do choque externo. No entanto, o consumo de BD não retornará ao valor anterior ao choque externo visto que a renda permanente da economia elevou-se de T. Sob a hipótese de normalidade dos bens a elevação da transferência do resto do mundo para a economia eleva a demanda por BD. Para que haja equilíbrio no mercado de BD o estoque de capital per capita de longo prazo, k, terá que ajustar-se. Calculando segue: 0 1 1 < ∂ ∂ ∂ ∂ ∂ ∂ = − − k y T c dT dk D D λ λ .

6 Ver Pessoa (1995) e Rogoff e Obstefeld (1996), capítulo 4 para uma exposição do modelo de dois

(5)

O numerado é positivo, pois a elevação da transferência T eleva a renda permanente,

1

λ , e a elevação desta, por sua vez, eleva o consumo do BD. O denominador é negativo, pois a indústria de BD, os serviços em geral, é trabalho intensivo. Isto é, dado que o setor de BD é trabalho intensivo, para um dado preço relativo, a única forma de elevar a oferta per capita do BD é reduzir o estoque de capital. Por Rybczynski-Samuelson a oferta de BD eleva-se quando a dotação de capital reduz-se.

Assim, este modelo apresenta um equilíbrio de longo prazo com sabor clássico: as tecnologias, representadas por (4), determinam os preços dos bens e dos fatores de produção e a demanda, representada por (5), determina o estoque de capital. Resta descrever a dinâmica que estabelece a trajetória entre o equilíbrio de curto prazo, no qual o estoque de capital está dado, e o equilíbrio de longo prazo, após o término do processo de ajustamento ao choque externo positivo (representado pela elevação da transferência). Como foi visto, no curto prazo, em resposta ao choque externo, o câmbio valoriza-se e ocorre um ajustamento estrutural na direção de elevar a produção do BD e de reduzir a produção do BC. Este ajustamento estrutural, que pode ser chamado de desindustrialização, produz elevação na renda do trabalho e redução na renda do capital, dado que o setor de BC é intensivo em capital.

A redução da remuneração do capital enseja um processo de desacumulação de capital. Ao longo da trajetória de ajustamento ao novo equilíbrio de longo prazo a redução do estoque de capital reduz a oferta de BC, produzindo, conseqüentemente, elevação do preço do BC e elevação da renda do capital. No novo equilíbrio de longo prazo, se as tecnologias forem as mesmas, os preços voltam ao valor anterior ao choque externo e o estoque de capital será menor. A produção de BD será maior e a produção de BC será menor, apesar do consumo deste bem, bem como do BD, serem maiores. A diferença entre o consumo e a produção do BC, em relação à posição anterior ao choque externo será exatamente dada pelo valor da transferência, T.

A conclusão deste exercício simples ilustra a dificuldade de evitar uma desvalorização do câmbio no curto prazo e uma redução na participação no produto do setor de BC no curto e no longo prazo, se a economia sofrer um choque positivo que eleve as transferências do resto do mundo. A explicação é bem simples: o mundo somente consegue transferir para a economia bens comercializáveis (BC). A transferência representa uma elevação da renda permanente da economia. Sob a hipótese de normalidade os consumidores escolherão elevar a demanda de ambos os bens em seguida a uma elevação da renda permanente. Estabelece-se um desequilíbrio nos mercados que somente pode ser restabelecido com a elevação da produção do BD. Uma maneira do país não sofrer o processo de desindustrialização em seguida ao choque externo positivo é o país recusar-se a utilizar os recursos. Evidentemente, do ponto de vista do bem estar, a sociedade estará sempre melhor se não tentar neutralizar a doença holandesa. Evidentemente esta conclusão pode ser revertida se houver alguma falha de mercado que faça com que o retorno social do setor de BC seja maior do que o retorno privado. Retornarei a esta questão na seção quatro. No entanto, o ponto que gostaria de reter no final desta seção é que uma forma de neutralizar a doença holandesa é a não utilização dos recursos referentes ao choque externo positivo o que é equivalente à elevação da poupança doméstica comparativamente à situação na qual a economia não neutraliza a doença holandesa.

3. A DOENÇA HOLANDESA E RENT-SEEKING

(6)

capital. Além da questão cambial outra preocupação recorrente com relação às economias ricas em recursos naturais é a possibilidade do ‘presente’ estimular comportamentos oportunistas por parte de grupos da sociedade produzindo desperdício de recursos. O ‘presente’ estimula competição dos grupos da sociedade para apropriarem-se dos recursos, desviando fatores de produção de atividades produtivas, fenômeno conhecido com rent-seeking.

Para ilustrar este fato apresento uma versão simplificada do modelo de

rent-seeking de Barelli e Pessoa (2006). Seja uma economia a dois setores no qual o primeiro

utiliza capital e trabalho por meio de uma função de produção padrão homogênia do primeiro grau, Y1 =F

(

K1,L1

)

=L1f

( )

k1 , para produzir um bem e o segundo utiliza

também capital e trabalho, por meio da mesma função de produção, para produzir serviços de transferência, Y2 = F

(

K2,L2

)

=L2f

( )

k2 . A firma do primeiro setor se

apropria da parcela 1−τ de sua produção enquanto que a firma do segundo setor captura qF

(

K2,L2

)

de bens produzidos no primeiro setor. Isto é, o emprego de Y2

unidades de serviço de transferência produz a apropriação de qY2 unidades de bens. A

função lucro da firma de cada setor é dada por:

(

) ( )

[

]

( )

[

]

   − − = − − − = , 1 2 2 1 2 1 1 1 1 w rk k qf L w rk k f L

π

τ

π

em que a remuneração do capital, r, e do trabalho, w, são as mesmas para os dois setores devido à hipótese de perfeita mobilidade de fatores entre os setores. As condições de primeira ordem do problema da firma são dadas por:

(

) ( )

( )

(

1

) ( )

[

( )

]

[

( )

( )

]

.

1 2 2 2 1 1 1 2 1    ′ − = ′ − − = ′ = ′ − = k f k k f q k f k k f w k f q k f r

τ

τ

. (6)

Como o formato da função de produção é o mesmo entre os setores segue do equilíbrio da firma que ambos o setores utilizarão as mesmas relações capital-trabalho, isto é,

k k k1 = 2 ≡ .

Apesar da firma do primeiro setor considerar a captura de seu produto pelo segundo setor,

τ

, como dada, e, analogamente, a firma do segundo setor considerar a capacidade de extração de renda por unidade de serviço de transferência, q, como dada, estas quantidades serão mutuamente determinadas. Seja G

(

θY2,Y1

)

= g

( )

θyR Y1, em que

1 2

Y Y

yR, a quantidade de recursos produzidos no primeiro setor que o setor

rent-seeking como um todo consegue apropriar-se. G é a tecnologia agregada de

transferência, por hipótese homogenia do primeiro grau enquanto que g é a taxa de expropriação, em equilíbrio igual a

τ

. Por simplicidade supõe-se que:

( )

( )

( )

x m x m x g + = 1 ,

com m

( )

x crescente, côncava e satisfazendo as condições de Inada: m

( )

0 =0 e

( )

=∞ ′0

m .

(7)

dada por

τ

1 q

. Logo o equilíbrio da produção dar-se-á no ponto da fronteira de

possibilidades de produção (FPP) cuja inclinação seja dada por

τ

1 q

. Como as

tecnologias são iguais a inclinação da FPP é igual a 1. Lembrando que o total extraído pelo segundo setor, qY2, é igual ao total expropriado do primeiro setor,

τ

Y1, segue que

R

qy

=

τ . Juntando os fatos acima segue que o equilíbrio de curto prazo satisfaz:

( )

( )

1

1 1

1− = − R =

R R y g y g y q θ θ τ .

Substituindo na condição de equilíbrio de curto prazo a forma funcional para g

( )

x e

lembrando que:

( )

( )

l f

( )

( )

k k f l k f L k f L Y Y yR 1 2 1 2 1

2 = =

= ,

em que li é a fração do emprego total no i-ésimo setor, segue a condição de equilíbrio de curto prazo:

1 1 1 1 1 1 l l l l

m = −

  

θ

. (7)

No curto prazo, para um dado valor do estoque de capital per capita, k, a condição (7) determina a fração do trabalho alocado ao setor produtivo, l1, e o seu

complementar, a fração do trabalho alocado ao setor de transferência, l2. Dado que as

tecnologias são as mesmas, e, conseqüentemente, a relação capital-trabalho será a mesma em ambos os setores, no longo prazo o estoque de capital será determinado pelas preferências. Segue:

(

) ( ) (

) ( )

( )

ρ

δ

θ

τ

= +

      + ′ = ′ − = ′ − 1 1 1 1 1 1 l l m k f k f g k

f . (8)

(7) e (8) determinam k e li enquanto que o consumo per capita segue de:

( )

k k

f l

c= 1

δ

. (9)

O objetivo desta seção é mostrar que a existência de uma transferência estimula o setor rent-seeking, isto é que l2 cresce quando a economia recebe uma transferência.

Como na seção anterior, seja T o fluxo de renda equivalente à transferência de recursos do exterior para a economia. As equações (7) e (8) ficam:

(8)

A transferência eleva o bolo de recursos à disposição do setor de rent-seeking. Estática comparativa simples a partir do sistema de equações acima mostra que o emprego no setor produtivo, l1, e o estoque de capital de longo prazo, reduzem-se com a elevação da

transferência, T. O consumo eleva-se pela elevação da transferência mas reduz-se pela desacumulação de capital e pelo deslocamento de trabalho em direção ao setor rent-seeking. Segue de (9) que:

( )

[

( )

]

1

1+ 1 + 1 <

=

dT dk k

f l dT dl k f dT

dc

δ

, (10)

pois dT dl1

e dT

dk

são negativos.

Assim para sociedades nas quais as atividades de transferência sejam muito prevalentes é natural que haja uma grande preocupação com os efeitos maléficos da valorização de recursos naturais. Uma forma de contornar o problema é criar mecanismos que insulem a receita dos recursos naturais, no modelo a transferência T, da oferta agregada de bens e serviços acessíveis ao setor de rent-seeking, l1f

( )

k . Esta é

uma das funções de fundos soberanos nos quais são acumuladas ao longo do tempo as receitas referentes à renda fruto da exploração de recursos naturais não renováveis. Quando bem concebidos e bem administrados este fundos podem resolver o problema de economia política representado pela maldição dos recursos naturais. Por exemplo, se a forma como o fundo for instituído elevar a transparência para a sociedade da origem e destino dos recursos seria possível ‘retirá-los’ do bolo acessível à atividade de rent-seeking de forma que aos olhos do setor rent-seeking tudo se passa como se não houvesse elevação dos recursos disponíveis à transferência.

De fato, há vários exemplos de fundos para aplicação dos recursos advindos da exploração de petróleo e de recursos não renováveis em geral. Além do conhecido caso da Noruega, outros exemplos são os fundos do Alasca, Chile, Kuwait, Omam e mais recentemente Azerbaijão e Cazaquistão. Em Davis et al. (2003) e Humphreys et al. (2007) são apresentadas diversas experiências com os fundos de recurso não renováveis

(nonrenewable resource found, NRF), discutidos os motivos teóricos que fundamentam

a constituição de fundos de recursos não renovável (FRNR) bem como aspectos da implementação prática de diferentes fundos.

4. DOENÇA HOLANDESA E AS MANUFATURAS

Até o momento este artigo considerou que a doença holandesa é o fenômeno de valorização do câmbio real e a conseqüente redução do emprego e da produção do setor de bens comercializáveis (BC) em seguida à descoberta de grandes fontes de recursos naturais que geram quase rendas ricardianas. O artigo tratou a descoberta destas fontes de rendas ricardianas como se, a partir de uma data, a economia tivesse uma fonte permanente de recursos transferida do resto do mundo. A dificuldade com este enfoque é que ele considera como ruim algo que é essencialmente positivo. Para todos os modelos, inclusive quando há rent-seeking, ganhar uma transferência do resto do mundo eleva o bem estar da economia.7 Algo está faltando na nossa formulação.

O elemento que falta para completar a estória é a hipótese de que a capacidade de incorporar progresso técnico é maior no setor de BC e que esta maior capacidade de

7 Para o modelo de

rent-seeking lembre que o crescimento da atividade de transferência não consegue

(9)

incorporação de tecnologia é externa à firma. Assim, a economia de mercado aloca menos recursos do que o socialmente ótimo ao setor de bens comercializáveis (BC). Por exemplo, Hausmann et al. (2007) argumentam que o setor produtor de bens comercializáveis (BC) que eles chamam do setor moderno da economia, apresenta externalidades de aprendizado que não estão presentes nos setores tradicionais. O esforço de um empresário para inovar ou adaptar localmente a produção de um bem desenvolvido para outra economia e em outro contexto, resulta em uma acumulação de conhecimento externa ao empresário. Em uma economia competitiva sem intervenção estatal o esforço do empresário é remunerado abaixo do retorno social. Sachs e Warner (2001) também localizam como fonte de dinamismo tecnológico o setor de BC e associam a maldição dos recursos naturais ao sub-investimento neste setor.

Rodrik (2007) apresenta um modelo em que políticas que depreciem o câmbio real elevam a alocação de fatores no setor de BC produzindo uma elevação da taxa de crescimento. Adicionalmente mostra empiricamente que há associação positiva entre câmbio desvalorizado e crescimento econômico. Esta mesma associação foi observada por Aguirre e Calderon (2005). No modelo de Rodrik uma política que busque a desvalorização do câmbio pode elevar o crescimento da economia e o bem estar.

Penso que esta associação entre câmbio real desvalorizado e crescimento é espúria. Há uma associação positiva entre câmbio desvalorizado e poupança doméstica, como ficou claro na segunda seção. Por outro lado as economias que poupam mais são também as economias que crescem mais.

Recentemente Wajnberg (2008) refez o trabalho de Aguirre e Calderon e mostrou que a efeito positivo do desalinhamento cambial sobre o crescimento observado por esses autores desaparece se considerarmos como variável explicativa do câmbio real de equilíbrio a poupança doméstica. O exercício em Aguirre e Calderon tem duas partes. Na primeira, a partir de um painel com muitas economias e com dados de 1965 até hoje, estima-se o câmbio real de equilíbrio. A partir desta estimativa e da observação do câmbio real corrente calcula-se o atraso ou desalinhamento cambial como a diferença entre ambos. Aguirre e Calderon notaram que o desajuste cambial na direção de desvalorização está positivamente associado ao crescimento. Adicionalmente, esta associação positiva sobrevive mesmo após a inclusão dos repressores típicos tais como a taxa de investimento, renda per capita no período inicial, eficiência do mercado de crédito, taxas líquidas de matrícula no secundário, entre outras. Wajnberg (2008) mostrou que o desequilíbrio cambial obtido no primeiro estágio no exercício de Aguirre e Calderon praticamente desaparece se na equação de determinação do câmbio real de equilíbrio for incluída a variável poupança doméstica. Isto é, o câmbio mais desvalorizado deve-se às maiores taxas de poupança e não e não a um possível desequilíbrio. Ademais, Wajnberg mostra que ao incluir a poupança doméstica como variável explicativa na regressão de crescimento o desequilíbrio cambial desaparece. Assim, a conclusão do trabalho de Wajnberg é que os países que crescem mais apresentam o câmbio mais desvalorizado. No entanto, este fato não se deve à política que desvaloriza artificialmente o câmbio mas sim ao fato que em economias que apresentam maiores valores para a poupança doméstica o câmbio de equilíbrio é mais desvalorizado.

(10)

verificado que há forte associação entre elevados níveis de poupança doméstica e crescimento.8

Há dúvidas se a associação entre poupança e crescimento seja causal. As economias emergentes que mais crescem são justamente as economias emergentes com o sistema previdenciário público de repartição menos generoso. Neste caso a causalidade entre poupança e crescimento pode ser reversa. Se o sistema de previdência é muito avarento o crescimento da renda fruto da elevação da produtividade, que para a economia constitui em um crescimento da renda permanente é para as famílias um crescimento temporário da renda. Em algum momento à frente o trabalhador se retirará do mercado de trabalho e passará a ter renda muito baixa. Assim, a propensão marginal a poupar da população em idade ativa é muito elevada. O forte crescimento do produto, e, portanto, o forte crescimento da renda da população economicamente ativa, provoca crescimento na poupança.

No entanto é sempre possível imaginar que a causalidade seja de poupança para crescimento. No modelo de Rodrik (2007) a desvalorização do câmbio – que enseja maiores níveis de produção de BC, corrigindo a falha de mercado e elevando o crescimento – é obtida por meio de uma elevação do saldo do balanço de pagamentos em transações correntes, isto é, por meio de uma elevação da poupança doméstica.9 Assim, como nos modelos da seção 2, é possível neutralizar a ‘doença holandesa’ por meio de políticas que elevam a poupança doméstica.

5. NEUTRALIZAR A DOENÇA HOLANDESA

Na segunda seção chamei de doença holandesa a tendência à valorização do câmbio e à desindustrialização que há em seguida à valorização de reservas de recursos naturais que a economia apresenta. Na quarta seção chamei (implicitamente) de doença holandesa à sub-alocação de fatores de produção ao setor de BC em função de alguma falha de mercado que torna o benefício social da atividade no setor de BC maior do que o benefício privado. Argumentei que é possível neutralizar a doença holandesa (em ambos os casos) por meio de políticas que elevem a poupança doméstica. A conseqüência de políticas que elevem a poupança doméstica é a desvalorização do câmbio real.

A dificuldade com políticas que neutralizam a doença holandesa por meio de elevação da poupança doméstica é que elas não são ótimas do ponto de vista social. Nesta seção apresento formas de neutralizar a doença holandesa que são superiores, do ponto de vista do bem estar, do que a elevação da poupança doméstica.

Retornemos ao modelo de dois setores da segunda seção. Para que haja a neutralização da doença holandesa supõe-se que seja criado um imposto ao consumidor do bem doméstico (BD), de sorte que o preço relativo do BC aos consumidores reduz-se. Segue:

( )

k p c

( )

p y yD , = D ~, ,

em que

8 Este fato estilizado está documentado em Prasad

et al. (2006).

9 Apesar de elevar a taxa de crescimento não é óbvio no modelo que a política é ótima do ponto de vista

(11)

T py y

yD + C + e

τ

+ =

1

~ p

p .

Para que não ocorra valorização do câmbio em seguida à elevação da transferência T é necessário que a elevação na demanda do bem doméstico que segue da elevação de T seja neutralizada pela redução na demanda de bem doméstico fruto da elevação de

τ

. Formalmente:

0

1 , ~

2

,

> + =

τ

τ

ε

ε

τ

τ

D D

c p

c y

y T

dT d T

,

pois uma elevação do preço relativo do BC ao consumidor, ~ , eleva a demanda do BD. p Isto é, ~, >0

D c p

ε

.

Claramente este política é superior à política de elevação da poupança para neutralizar a doença holandesa. O motivo é que naquela política, para que não houvesse impacto sobre o câmbio e sobre a alocação a economia tinha que poupar todo o presente representado pela elevação da transferência. Agora o imposto sobre o BD tem que ser suficientemente elevado para induzir que os consumidores desejem consumir todo o aumento de renda permanente representado pela elevação de T na forma de BC. Isto é, dado que o mundo somente pode-nos presentear com bens domésticos a neutralização da doença holandesa impõe que desejemos consumir o presente na forma como ele nos foi dado.

Nota-se que a simples constituição de um fundo que transfira para algum momento no futuro o início do período de fruição do ‘presente’ não resolve o problema. Somente adia o momento em no qual a valorização do câmbio e o fenômeno da desindutrialziação ocorrerá.

Evidentemente no contexto em análise esta neutralização, apesar de superior à anterior, é inferior, do ponto de vista do bem estar, ao livre mercado. Para que haja alguma racionalidade econômica à doença holandesa é necessário que haja alguma imperfeição de mercado que faça com que a economia aloque menos fatores de produção ao setor de BC do que o livre mercado faria. Como vimos na seção anterior, quando há este imperfeição de mercado uma elevação da poupança doméstica pode melhorar o bem estar. Isto pois uma elevação da poupança doméstica desestimula a demanda por bens doméstico, liberando fatores de produção para a indústria de BC. Como conseqüência o câmbio real desvaloriza-se. Tomemos como exemplo o modelo de Rodrik (2007). Nessa estrutura formal é sempre superior corrigir a falha de mercado por meio de um imposto sobre a compra do bem doméstico do que gerar permanentemente um saldo positivo em transações correntes, que é a política que o trabalho sugere.

Até aqui sugeri neutralizar a doença holandesa por meio de um imposto sobre a aquisição do bem doméstico. O mesmo resultado será obtido se o imposto for sobre a produção do bem doméstico (ou ainda de houver um subsídio – financiado por meio de impostos não distorcivos – sobre a produção do BC). Nos ambientes econômicos estudados neste trabalho estas políticas são equivalentes do ponto de vista do bem estar.

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tendência a sobrevalorização do câmbio em seguida a um choque externo positivo. Segundo, a sub-alocação de fatores de produção ao setor de bens comercializáveis devido a uma falha de mercado que reduz o retorno privado (frente ao social) desta atividade. E, ambos os casos a elevação da poupança agregada corrige o ‘problema’ alcoativo (sem necessariamente elevar o bem estar) e em ambos os casos a introdução de um imposto distorcivo que estimula a produção ou o consumo do BC corrige o ‘problema’ alocativo (a elevação do bem estar somente ocorre para o segundo tipo de doença holandesa).

O primeiro claramente não pode ser chamado de doença. Se a economia ganha um presente do mundo que eleva o bem estar não faz sentido chamar esse fenômeno de doença. Retorno a este ponto em seguida. O segundo fenômeno trata-se simplesmente de uma falha de mercado que afeta qualquer economia. Para qualquer, sob a hipótese de que o retorno social associado ao setor de bens comercializáveis seja maior do que o retorno privado, será verdade que haverá sub-alocação de fatores de produção na indústria de BC. Possivelmente, se houver esta falha de mercado, ela será mais acentuada em economias ricas em recursos naturais: tudo o mais constante, dado que a renda permanente destas economias é maior, a demanda por bens domésticos será maior, e, conseqüentemente, a sub-alocação no setor de BC será também maior. Evidentemente, se houver a falha de mercado associado ao setor de BC, a descoberta de recursos naturais não renováveis de alto valor no mercado internacional agravará a falha e, portanto, requererá maiores valores de alíquotas de impostos sobre a produção ou o consumo de BD para neutralizar a falha de mercado.

Assim, é possível chamar de doença holandesa à potencialização que a descoberta de importantes fontes de recursos naturais não renováveis (ou a súbita valorização de fontes conhecidas) sobre falhas de mercado presentes em qualquer economia, seja o estímulo à atividades rent-seeking ou à sub-alocação de fatores de produção ao setor de BC.

Mesmo não sendo uma falha de mercado, dois problemas podem estar associado ao manejo da política econômica com relação ao primeiro fenômeno – o ganho pela minha economia de uma transferência de renda do resto do mundo. Primeiro, os fazedores de política econômica podem distribuir ao longo do tempo o consumo da transferência de forma errada. Para uma dada trajetória da taxa de juros e da transferência o renda permanente que a economia aufere é dada por:

dt e

dt T e

T t

s t

s

ds r

t ds r

∞ ∞

∫ ∫ =

0 0

0 0

.

Escrever esta equação é muito mais simples do que implementá-la. É possível que a sociedade consuma muito no período inicial, produzindo desacumulação de capital e desindustrialização para em seguida, quando a renda for terminando, ter que iniciar um novo processo de acumulação de capital e ajustamento estrutural. É importante, portanto, que a sociedade tenha controle sobre os recursos e distribua o uso do recurso não renovável ao longo de tempo de forma ótima.

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haver a descoberta de um metro cúbico de gás na Holanda.10 Assim, além de ser necessária a constituição de um fundo de poupança para atacar o problema da distribuição ao longo do tempo do uso do recurso não renovável é necessário a constituição de um fundo de regularização para estabilizar a taxa de câmbio.

6. COMO FINANCIAR O PRÉ-SAL?

A descoberta das reservas de petróleo na região pré-sal, apesar do entusiasmo e euforia, coloca o problema dos impactos macroeconômicos do financiamento dos investimentos que serão necessários para iniciar a exploração comercial desses recursos. Há estimativa que o investimento requerido nos próximos 30 anos será de US$600 bilhões, mais de 30% do PIB. Um investimento deste montante evidentemente terá impactos sobre o equilíbrio macroeconômico. Nesta seção avaliam-se, a partir de alguns cenários, quais serão os impactos macroeconômicos da exploração e comercialização dos recursos da camada pré-sal. Emprego a versão estática do modelo da segunda seção.

O primeiro cenário supõe as seguintes hipóteses: 1. financiamento externo,

2. não haverá política de nacionalização do investimento no setor, 3. o investimento representa um gasto de bens comercializáveis, 4. não haverá elevação da taxa de poupança doméstica.

Os recursos financeiros captados no exterior são utilizados para a aquisição no exterior dos bens comercializáveis referentes ao investimentos na exploração do petróleo. Assim, a entrada de divisas pela conta de capital é cancelada pela compra dos bens e serviços comercializáveis referentes ao investimento pela balança comercial. O câmbio não se altera, bem como a trajetória do consumo e investimento. A economia se beneficia da renda associada ao fator não reprodutível após pagar o custo do financiamento do investimento. Neste momento, pode-se aplicar a estratégia de neutralização da sobrevalorização do câmbio por meio de um imposto sobre a produção ou sobre o consumo do BD.

No segundo cenário o governo simultaneamente estabeleça uma política de

desenvolvimento industrial forçando que os investimentos relativos ao pré-sal sejam feitos por empresas no Brasil. No limite, supondo que haja requerimento de 100% no índice de nacionalização dos bens e serviços referentes ao investimento, e, que não haja elevação da poupança doméstica, isto é, mantendo-se as hipóteses (1) e (4), a absorção de recursos financeiros pela conta de capital para financiar o investimento no pré-sal não será compensada pela entrada de bens e serviços importados. A Petrobrás terá que trocar os dólares que entraram – conseqüência do financiamento externo – por reais para adquirir os bens e serviços referentes ao investimento no pré-sal. Haverá imediata valorização do câmbio nominal. Os preços dos bens comercializáveis ficarão, relativamente aos bens domésticos, mais baratos, produzindo um ajustamento estrutural na direção de maior produção de bens domésticos e de menor produção de bens comercializáveis. No equilíbrio final a contrapartida da expansão da indústria doméstica petroleira e de seus fornecedores será uma redução na produção dos demais setores comercializáveis, tais como móveis, calçados, tecidos, confecções, etc. Devido ao fato destas indústrias serem mais intensivas em trabalho do que aquela haverá ainda uma piora na distribuição de renda.

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Assim, se não houver elevação da poupança doméstica e se quisermos que o investimento tenha elevado grau de nacionalização haverá valorização do câmbio e encolhimento das demais indústrias do setor de BC. A maneira de combater esta modalidade de ‘doença holandesa’ sem elevar a poupança doméstica é colocar um imposto sobre a produção do BD. Este setor encolheria e liberaria os fatores de produção para a construção da indústria petroleira. Evidentemente, dado que o setor de BD é intensivo em trabalho relativamente à indústria petroleira, haverá redução da renda do trabalho e elevação da renda do capital ao longo do ajuste estrutura.

No terceiro cenário há elevação da poupança doméstica conjuntamente à implantação da política industrial. A elevação da poupança doméstica por uma lado gerará os reais para a captação da Petrobrás. De sorte que não haverá necessidade de financiamento externo. Por sua vez, a elevação da poupança doméstica reduzirá a demanda por ambos os bens, os domésticos e os comercializáveis. Como todo o aumento de demanda fruto dos investimentos no pré-sal representará elevação da demanda de bens não comercializáveis (devido à decisão de implementar a política industrial de 100% de nacionalização), o efeito conjunto da elevação do investimento no setor de petróleo e a elevação poupança doméstica produzirá liquidamente um excesso de demanda por bens não comercializáveis e um excesso de oferta por bens comercializáveis. Para equilibrar os mercados o câmbio terá que valorizar-se, no entanto, a valorização será bem menor do que no segundo caso, pois a redução de demanda de bens não comercializáveis em conseqüência da elevação da poupança doméstica abre algum espaço para a elevação da demanda de bens não comercializáveis representado pelo investimento no setor petroleiro com política industrial. Analogamente, este tendência menor à valorização do câmbio pode ser combatida por meio de um imposto sobre a produção ou consumo do BD.

No quarto cenário a elevação da poupança doméstica é maior do que o custo do

investimento da Petrobrás. A elevação da poupança será o suficiente para que a elevação da demanda por bens não comercializáveis conseqüência dos investimentos da Petrobrás seja igual à redução da demanda por bens não comercializáveis fruto da elevação da poupança doméstica. Neste caso haverá, após os dois movimentos, equilíbrio no mercado de bens não comercializáveis e produção de bens comercializáveis além da demanda doméstica por bens comercializáveis; aparece um superávit em transações correntes. O câmbio não se move.

7. CONCLUSÃO

O trabalho avaliou em que circunstâncias o fenômeno da doença holandesa – a tendência à valorização do câmbio em seguida a uma elevação da renda permanente da economia – produz efeitos deletérios para a sociedade. A conclusão é que é necessário que exista alguma outra falha de mercado, independente dos recursos naturais e que, ademais, esta falha seja potencializada pelo choque externo positivo. Políticas de elevação da poupança doméstica e políticas de desestímulo à produção ou ao consumo dos bens não comercializáveis neutralizam a doença holandesa.

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A principal conclusão do trabalho é que a simples constituição de um fundo de poupança para acumular os recursos oriundos da exploração dos recursos não renováveis, isto é, fruto das rendas ricardianas, somente adia o momento no qual a economia apresentará a tendência a valorização do câmbio e de deisndustrialização. A única forma de atacar o problema, se for desejável a eliminação da tendência de valorização do câmbio e do crescimento do setor de bens domésticos, é atacar diretamente o problema. A forma de fazê-lo é criar um imposto à produção ou ao consumo do bem doméstico (BD).

REFERÊNCIA

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