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Sardade se escreve com r de Craudionor: dossie de um escolar

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Academic year: 2017

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SARDADE SE ESCREVE COM R DE CRAUDIONOR: DOSSIt DE UM ESCOLAR

V4l~a de Mo~ae~ V~een~e Uo~~~a

ORIENTADORA: 'fl,t:heJl. ldaIúa. de lJagal.hã.u AIt.o.nJ:.eA

e,.,

Dissertação submetida como requisito parcial para a obte~çio do grau de Mestre em Educação.

Fundação Getulio ~argas

Instituto de Estudos Avançados. em Educação Departamento de Filosofia da· Educação

(3)

o

oubr.o na.o ex.Ute:.

um

e

a

6e

Muonal, a

CJLenç.a i.ncWtá.ve1. da Mzão humana. I deYL-ti.dade =

Iteali.dade, como .6e, a6i.nal de· con.:ta..6, .tudo :ti.v~

Ile de .6e1t, ab.6olu:ta. e ne.cu.6aJÚâmente, um e o

mUJllo. Ma.ó o ou:tJto não .6 e deixa eUrni.nM; .6u:b.6~

te, peMi..6te;

e

o 0.6.60 dww de JtOVl.. onde a Mzão

peltde 0.6 dentu. (gJÚ60.6 do autoJtl

EmbOM a Mzão .6 eja comum atodo.6 ca.da um pJtOC!

(4)

Vecüc.o

a Octay,iano, meu pa...<., pOJt t:.eJr.., em a.lgum .tugalt, me. du e.jado mut.Jte.;

a MaJvta.. do CaIlmO, minha. mã.e., poJt .6 e.Jt, e.nt.Jte. t.a.nt:.0.6 out.Jto.6 .6 e.

Jtu, . uma c.altna.vilizadolta. .i.nvue.Jta.da;

a údhe.Jt Ma.Jt.i.a d.e. Magalhãu AJtant:.u I m.i.l'Lha. oJt.i.e.nt.a.doJta, pOJt t:.e.Jt c.onó.i.ado ~ pO.6.6.i.b.i..t.i.dadu do .que., em. alguY1..6 mome.nt:.o.6, palte.c..i.a .i.mpO.6.6Zve..t;

a Vav.i.d Tuc.c..i. de. Azeve.do, meu anal.t.6t.a., pOJt ut:.a.Jt me. .i.ntJl.Odu z.i.ndo no m.i..6two.6o Jtuno da pat:.e.Jtn.i.dade.;

. a CJt.i..6.t.i.na Xav.i.e.Jt de Abnuda BOJtg u, am-iga do pwo, pOJt t:.e.Jt no.6 duc.obe.Jtt:.o óJt.i.e.ncl.6 .togo no pJt.i.mÚltO cUa de. aula;

a Am.i.Jt Haddad, meu pJtOÓU.6oJt de .i.nt:.e.JtpJte.t.a.ç.ã.o, poJt te.Jt de mOYl..6t.Jtado, na .6ua pJtátic.a c.o.t.i.cüana, .6e.Jt PO.6.6Zve..t e.duc.aIt

nã.o-Olt-tope.cUc.ame.n,te;

a Antonio. CaJt.tO.6 RodJt-i.guu da Silva, quem .6abe.?, pOJt me. pOA .6.i.b.iWaJt, amoJto.6ame.nte, c.onhe.c.e.Jt o uc.Jtavoc.Jta.:ta. que ha.baa

em m.i.m;

a SU!:>ana, MaUJtZc..i.o e. Lcil6 Oc.t.a.v.iano, me.U!:> . .iJtmã.O.6, pOJt .6 e.Jtem

(5)

lNTROVUÇÃO

CAPTTULO 1

ALGUMAS CONSIVERAÇVES METOVOLOGICAS: UMA MtsTRANDA EM BUSCA VO SEU

OBJETO VECONHECIMENTO

CAPTTULO 2

Pãg.

1

8

ALGUMAS CONSIVERAÇVES TEúRICAS: SOMOS TOVOS PUNKS NA PERIFERIA? 15 "

I

CAPITULO 3

VA"ESCOLA PRIMÁRIA Ã SECUNDÁRIA: VO COLO VE VONA MARTA AO BEIJO NA

BOCA EM MEIO Ã ESCAVARIA

CAPTTULO 4

VO VESTIBULAR UNIFICAVO Ã UNIVERSIVAVE: AS MARAVILHAS VO INSTITUTO

QUE VOCE NÃO VIU. OU VIU?

CAPTTULO 5

TEORIA E PRÁTICA: O HtIE

CAPTruLO 6

FINAL VE CARREIRA: A pDs E/OU A PRDpRIA?

A rTrULO VE CONCLUSÃO'

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

24

36

49

58

70

(6)

R E S'U M O

, Di~nte da necessidade de definir um objeto de conhecimen to para viabilizar a consecução da dissertação, uma mestranda,

recorrendo

ã

sua própria trajetória enquanto aluna produz, de~

de este lugar, não mais um discurso ~obne certos procedimentos

pedagógicos colocados em questão, mas uma fala apaixonada por

. 'sua diferença em relação

ã

que, constitui o discurso que nao a

(7)

Before the need to define an awared known object to

afford the accomplishment of the discourse, a thesis writer,

from her very own trajectory while scholar, yields, from thereof,

no longer a discourse pertaining to certain pedagogical procedures

placed in discussion,but a f~rvent say for its unlikeness in

relation to what makes up the discourse that is not aware of

(8)

I NTROVU ÇAO .

Sejamos francos.' Ao iniciar~os este trabalho estivamos

de tal forma inseguros a respeito de nós mesmos, como aluno,

. que,' pelp menos aparentemente, só nos restava voltar ao pass!

do, ji que deste terreno talvez fosse possível falar quase sem

erro, e, caminhando neste sentido, buscar localizar onde nos

perdêramos.

Desde entãa, o sinal permanecta fechado e tudo que tons!

guíamos ver era o vermelhoimp~dindo gue seguissemos viagem por

um 'certo caminho.

Sendo assim, fomos ate o Jardim de Infância e viemos, pa~

so a passo, nos aproximando do momento em que Bra nos encontra

mos, ou seja, o Curs6 de Mestrado.

A nossa musa inspiradora foi, portanto, a nossa. própria

trajetõria ~scolar ..

Alem da insegurança na qual nos 'sentiamos mergulhados, era

possivel identificar, ainda, um profundo ressentimento com re

laçio i Escola, a qual passou, a partir de então, a ser a nos

sa interlocutora. Se fosse o caso de tentarmos resumir· em po~

cas palavras o que ~os motivou a realizar esta pesquisa, diri!

mos que estivamos precisando bater um papo muito serio com a

Escola para saber q u a i s ti n ha m s i"d oa s suas i n te n ç õ e s a nosso

(9)

cerca de vinte e cinco anos de freqUencia praticamente diãria,

q u a n tas c o i s a s não di" tas, mal d i t.a s e a tê. bem d i tas não t e r i a

mos para dizer-lhe?

Estãvamos imbui dos da certeza de que deviamos a Escola

term~s conhecido ali grande parte dos nossos amigos e termos

adquiridos alguns conhecimentos esparsos e definitivos:

Escola: Quem descobriu o Brasil?

Aluno: Pedro Alvares Cabral.

Escola: Quanto ê dois ve~es dois?

Aluno: Qua tro.

Escola: O s entre duas vogais tem som de que?

Aluno: De" ze.

Escola: Em que região do Brasil estã localizado o Rio

Amazonas?

Aluno: Na Região Norte.

Escola: Para que serve a vacina?

Aluno: Para prevenir doenças.

Na tentativa de estabelece.r um diãlogo com a Escola o que

vem a tona ê um monólogo gravado nas nossas mentes qual tatua

gem: a professora' copia a tabuada no quadro-negro e o aluno,

qual mãquina xerox, imprime aqueles sinais codif{cados no pe~

" .

sarnento. Acabamos 'nos transformando, professores e alunos, num

(10)

3

.

tas para as quais já .têm respostas, e os segundos, de olhos no

~el~gio e ouvidos na sineta, eSperam ansiosamente pela hora do

recreio e pela hora da saída.

Ir

ã

Escola, no entanto, se tornara, para nos, um gesto

tio ~atural quanto comer feijio com ·arroz nos dias ~teis e ma carrio com carne assada nos dias in~teis.

Talvez o nosso objetivo, ao dar início a este trabalho,

fosse fazer as pazes com a Escola: colorir ·as fotografias que

apareciam amarelecidas pelo tempo com cores vivas e estimulan

·tes; expressar a nossa perp~ex~dade "diante do fato de que emb~

ra :viissemos freqUentando este lugar hi muitos e muitos anos,

ele continuasse sendo desconh~cido para nós; falar da' nossa i~

dignaçio pof terem nos tratado, ano após ano, como seres inca

pazes de pensar por co~ta pr~pria; busca~, na ~rática, um ou

tro lugar para o alun~, no qual nio mai·s f5ssemos confundidos

com a máquina-xerox.

Andávamos, entio, atrás do resgate de uma escritura que

nos caracterizasse enqu~nto singularidade. Essa andança,porem,

esteve, desde s·empre, permeada pelos muros da academia, lugar

onde tem priviligio o discurso articulado segundo um mitodo

que, em nome da objetividade científica, se acostumou a prior!

zar o geral em detrimento do particular.

Neste lugar so se tem olhos para aquilo que os olhos es

tio acostumados a ver e ouvi~os p~ra o que se esti habituaao a

(11)

mas um outro, diferente daquele que se mira, a tendência e qU!

lificã-lo como não competente.

Competente, portanto, é o aluno capaz de deixar-se for

jar i imagem ~ semelhança do discurso que ali se pretende trans

mitir. ,

No momento em que demos inicio a este trabalho jã nao su

-portávamos ser tratados dessa forma. Em função disso nos colQ

camos como objetivo fundamental resgatar, através da escritura

da dissertação, a possibilidade de uma fala própria, partindo

do pressuposto de que existe um saber que"é produzido desde o

lugar do aluno, ainda que nao reconhecido pelo discurso domi.

nante.

o

que estava em questão era o aluno-mãquina-xerõx em bus

ca de um outro lugar no qual fosse viável se pensar de uma ou

tra forma.

Considerando ser nosso alvo nao o Dia D da Educação e sim

o çotidiano, como transitar do aluno-máquina-xeróx para um ou

tro aluno, senão enveredando por caminhos diversos daqueles que

a princ1pio estavam send~ propostos e que, regra geral, aca

bariam produzindo resultados sem~lhantes aos que .estãvamos bus

cando problematizar?

Nesse sentido, nao nos propusemos a produzir um discurso

sobre"a questão qua nos ocupava, mas a instituir, na prãtica,

(12)

5

Durant~ este percurso muito nQs chamou a atençio o fato

~e que nesta circunstincia, corihecida desde Platio por acade

mia, o individuo - ao nomear o objeto que pretende estudar - se

torne objeto de um determi nado ·procedimento di scursivo,

o qual passa, a partir deste momento, a ocupar o lugar de su

,

·jeito.

Sujeito e objeto invertidós, somos, inevitavelmente,elei

tos como porta-vozes de uma racionalidade que acabamos por as

sumir como se natural fosse e, nesse sentido, nada pudessemos

fazer a respeito"

Ta 1 procedimento, dentre outros,

e

responsãvel pela cons

tituiçio de um saber que tende.a funcionar como uma especie de

escudo protetor daqueles ~ue dele se apropriam, dificultando,

ou ate impedindo, por outro lado, a emergincia ~e discursos ou

tros que nio se constituem segundo a me~ma lei.

o

objeto-sujeito desta pesquisa e o aluno-mãquina-xerôx

a caminho d~ um outro, ainda nio definindo, e que, talvez, nio

viesse a se definir durante o desenvolvimento do trabalho na me

dida em que nio' pretendTamos a un~Versalizaçio de um trajeto

que nos foi necessãrio trilhar durante um determinado momento.

Tendo partido da nossa trajetôria escolar, e nao ~e'cate

gorias que nos leva~sem a interpretã-la desde um lugar previ!

mente definido, sô nos foi possivel, como sujeito dessa inves

(13)

Percebemos então que o aluno que buscávamos esteve prese~

te do Jardim de Infirrcia ao Curso de Mestrado. Nem sempre CO!

respondendo às expectativas da. Escola, acaba sendo marginaliz!

do na medida em que a mesma não tem condições de comportá-lo.

. De s e j ã va mos, a i n d a, p r e s t a rum a h o me na g em. a B á r t h e s , o

Roland, que nos fora apresentado atrav~s de Fragmentos de um

Discurso Amoroso, livro em que o personagem central, o sujeito

apaixonado, ~ constitutdo pel~ montagem de trechos de origem

diversa ..

Pensamos, num primeiro momento~ seg~indo a trilha aberta

por Barthes, em instituir uma fala, a de um certo aluno, atra'

ves da composição de textos diverSificados relacionados

ã

Esco

1 a •

Optamos, porem~ pela produção de um texto cuja estrutura

favorecesse a explicitação da questão que nos ocupava.

Paulatinam~nte os fragmentos escritos por' n5s inspirados

de. nossa trajetória escolar foram sendo costurados num texto

que foi se dividindo em capttulos de acordo com os difer~ntes

graus constitutivos do processo de escolarização e as diferen

tes questões formuladas em decorrência do mesmo ..

Devemos con1essar que as dificuldades encontradas na ar

~anização do material que ia sendo produzido for~m inGmeras,

principalmente devido ao fato de que não era intenção nossa,

de forma alguma, em funçã6 das razões já apresentadas, proc!

(14)

7

tin o que con~eguissemos fixar dos ensinamentos que nos fossem transmitidos.

Optamos por repensar tudo aquilQ que tinhamDs aprendido com a Escola, fascinados pela possibilidade de fazê-lo de uma 'forma' sin,gular, sem esquecer, no entanto, de pedir-l he permi~

sao para enveredar por caminhos não tão familiares como aqu! les que nos eram apresentados.

Resta-nos, nesse sentido, pedir passagem, achê!, e decer, Adoniram Barbosa por ter nos emprestado o verso que

titulo a este trabalho.

agr~

(15)

CO~SIVER~ÇDES

EM

BUSCA VO SEU OBJETO VE CONHECIMENTO

Nem a altura nem a profundidade mas a superf;cie. A es

colha do sentido lateral que se espraia ao largo. Da

segunda-feira. A letra regional, e tão, que so os ,moradores da Tijuca

e arredores sabem a que Largo me refiro. Deixemos aos meios

,de comunicação de' massa a P9ssibi1id,~de do exerc;cio do univer

.

.

sal. Nõs daqui pretendemo~ tão-som~nte nos comunicar com o vi

zinho do apartamerito ao lado.

Não se trata, no entanto, de uma cooversa informal sobre

a novela das oito, na medida em que todo o tempo se faz ·neces

sãrio, inevitavelmente, levar em consideração o lugar em que

este discurso estã se produzindo, qual s~ja, a academia.

Do seu interior, o departamento onde a massa encefãlica

que Zeus nos deus se areia movediçame~te ~ o vulgarmente conhe

tido, entre, os antigos eruditos, pe·lo nome de Sophia. Favor

não confundir com a Loren, que

e

de outra ãrea. Embora tenha

sido vista, no ~ltimo fim de semana, num ponto de 5nibu~ ali no

Catumbi, perto do cemit~rio, folheando o Ba~quete. ~a entrevi!

ta i repõrter da Rede Globo, a atriz ~e mostrou decepcionad;!

sima com o autor, Platão, pois comprara o livro certa de que

(16)

9

tava or~anizando para a comemoraçao da estriia do seu filtimo

fil me.

Recomeçam as filmagens. A outra cena está sendo rodada

numa área de não sei quantos metros quadrados que resultou da

desapropriação, pelo gover~o municipal, de um sem nfimero de mi

nfisculos proprietários privados, que·agora, de seu, não tem na

da mais a esperar da vida alim do reino dos ceus. Isso se (o

rem perdoados de todas as suas escorregadelas nos paralelepíp!

dos molhados do reino das terras~lheias. Ide em paz e que

Deus vos acompanhe~

Quanto,a nos, a vontad~ e escriturar uma coisa g~ande,de

-centenas de laudas. Ei-la: se vôs. permanecerdes acreditando na

existência da verdade nua e crua, podemos assegurar que 'não e

'aqui, dentre estas letras, que vais 'encontrá-la. A não ser que

estejais disposto a procura-la conosco, caro leitor, porques~

zinhos nôs não podemos dar continuidade a busca tão sem futu

ro.

Apesar disso e nosso dever' seguir, ainda 'que, em alguns

momentos, nos escape totalmente o 'sentido desta investigação.

Sem falar no compromisso que temos de apresentar um produto que

seja reconhecido como uma disse~tação de mestrado.

Tudo começou quando, para dar início a expedição (no fun

(17)

cada, como po·nto de' partida, a necessidade de definir um obj!

to. Desde então, nao cessamos de interrogar-nos, e aos outros,

sobre o que vem a ser tal coisa. Chegamos a pensar que

rlamos encontrá-lo nos'valendo dos sentidos, embora tivéssemos

presente que, segundo certa corrente filosófica, nossos senti

dos não captam mais q~e a aparência das coisas, donde corremos

o risco de, confiando em pura percepção, 'viver só de

cias.

apare.!!

Resolvemos, apesar das advertências, correr esse risco,

.pois, no momento 'em que nos, encontrávamos, a unica coisa que

no~ parecia verdadeiramentci verdad~ira e digna de confiança era

o mundo vislvel a olho nu, isto é, a olho não-vestido.

Nesse sentido, passamos a relatar a]gunas das experiê.!!

cias que atravessamos na tentativa de enc'ontrar um objeto de

estudo ao qual pudéssemos entregar-nos de corpo e alma.

Após algumas investidas fracassadas, resolvemos retomar

a busca, começando, dessa vez, por detrás da porta. E qual nao

foi o nosso espanto quanto demos de cara com um dos maiores com

positorei ~a mGsica popular brasileira, o nosso querido HOLAN

DA, o Francisco Buarque de, dedilhando "quando olha.6.te.6 bem n0.6

olho.6 meu.6 / e o .teu olhaI!. el!.a de adeu.6 / j UI!. o qu.e nao aCAeQ.Ltu/

eu .te e.6.tl!.anhei/ me.debl!.ueei .6obl!.e ••• "

Depois de uma curta intervenção ocasionada pela perda rnQ

(18)

11

çio que sentimos ao· esbarrar inesperadamente com o Chico, em

carne e osso, continuamos busc~ndo, dessa vez embaixo da cama.

E nio houve jeito. Tivemos mesmo que. pegar 'dluma, digamos, duas

vassouras e varrer aquela poeirada que ·ali tinha· se acumulado

durante a crise do final da dica da .de vinta. O capitalismo,e~

. tio,'ji ~io fazia o menor sentido, embora, 'curiosamente, poucos

se dessem conta de um fato de tamanha relevância.

Demos uma saidinha para tomar um pouco de ar, por causa

da alergia, e encontramos VELOSO, o Caetano, na esquina de Nos

sa Senhora de Copacabana com Siquei~a Campos se queixando ao

Capital por nio conseguir entehder ~u~ l5gica. Identificamo-nos

co~ a queixa, dissemos good bye e vnltamos pausadamente i casa

p a r a j o 9 a r no 1 i x o o r e s to de' p o e i r a que t i n h a . f i c a do n o c a n t j_

nho do corredor. Mas nio. O objeto tambim nio estava embaixo

~a cama de papai e mamae. Manh~~~~~:!! Desabamos num pranto

que i primeira vista parecia incontrolãvel.

Quem sabe no armãrio do banheiro? Galopantemente fomos

abrindo o dito cujo

de-va-gar-zim-e-no-can-to-su-pe-ri-or-es-quer-do-ba-te-mos-os-o-lhos-nu-ma-mar-~a-ri-da-de-mi-o-lo-ver­

de-es-pe-rafl-ça-e-p~-ta~ro-sa-cho-que-e~fo-mos-des-pe-ta-lan-do­

nos-em-bem-me-quer-mal-me-quer-bem-me-quer-mal-me-quer.

r?

Ti

nhamús coisa mais sirie com que-nos preocupar.

Em vista do acontecido resolvemos escrever uma carta a

nossa orientadora e relatar-lhe, o ma~s detalhada e sinceramen

(19)

na tentativa de produzir uma dissertação de mestrado que fizes

se jus ao titulo de mestre ao qual eramos candidatos em pote~

cial.

Senhora Orientadora

. Vimos por meio desta comunicar a V.5a. que apesar de to

das ~s expectativas em contririo, continuamos desesperados,co!

r~ndo atris de um objeto que a cada cehtesimo de segundo que

passa parece estar mais distante de nõs.

Muito nos'constrange continuar 'importunando V.5a.comque~

tão de tamanha irrelevãncia, ,mas o fato e ~ue não sabemos mais

o que fazer: quanto mais temos por' intenção concentrar-nos em

tema digno de ser desenvol~ido em pesquisa que tenha por resul

tado uma dissertação de mestrado qye, inclusive, deveri passar

por julgamento baseado nos criterios vigentes nesta ilustre ac~

',demia para a qual V.5a. presta servi-ço, mais tendemos

ã

disper

sao.

Precisamos, mais que nunca, de sua orientação, e esper~

.

mos poder contar com a sua boa vontade no trato com pessoas,

entre as quais evidentemente nos"inclulmos, que, segundo ouvi

mos ,dizer, nos corredores, não têm' lndole para a carreira aca

dêmica.

Aproveitamos o ensejo para mandar lembranças

ã

fa~llia e

reiterar que logo que a situação econômica nos permita prete.!:).

demos enviar-lhe os presentes que ficaram prometidos por oca

sião do Natal.

(20)

-~._----13

Agradec~mos sensibilizados a ~ua preciosa atenção.

Uma mes tra n·da

Resolvemos, para adiantar o serviço, bater na porta do

discurso acadêmico: quem sabe ele nao poderia nos dar alguma

dica?

TOC~ TOC~ TOC! Abra a porta~ Please~ Nada~ Abracada

bra~

E

muito importante! Precisamos muito

V.Exa.! Abra a p~rta~ ~or favor~

conversar com

Continuamos batend6 durante horas a fio. Qu~ndo jã esti

vamos quase por desisti~, ouviu-se uma voz:

- Pois nao. Podemos lhe ser ütil em alguma coisa?

Trememos nas bases. E agora?

- E

que •.. Bem ... Precisamos escrever uma dissertação e

nos disseram que V.Exa. poderia nos dar uma orientação. Esta

mos tão perdidos!

Objeto~

Deus do Ciu~ Isso e que i objetividade!

(21)

- Bem ... O problema, quer dizer, um dos problemas que vi

mos enfrentando i juitamente ess~, nio en~ontramos o o~jeto e

tememos que jamais consigamos descobri-lo.

Nesse caso, por ora, nio podemos fazer nada por voce.

Continuamos, no entanto, inteiramente disponiveis. Com. licen

ça.

E fechou a porta., ainda que n~o tenha sequer se dignado

a abri-la. Foi uma pena porque nos estãvamos curiosos para sa

ber como ~ra a decoração da sala.

D~mos meia-volsa-valver frustrados ati nao poder mais.

I

A frustração deu lugar, paulatinamente, a uma perplexid!

de. desmesurada que ora nos dispomos a compartilhar convosco,

caro leifor, pedindo-vos que coloque um "X" na resposta que jul

gar a mais adequada:

o

O objeto nao existe.

[] O objeto nao estã onde nos pensavamos ·que ele esti

(22)

CAPTTUL02

ALGUMAS CONSIVERAÇVES TEORICAS:

SOMOS TOVOS'PUNKS NA PERIFERIA?

Va6 6~da4 que a pob~eza-~, ~ou o p~ Sou o ,que de ~u:t.o ~utaJúa ao~ Mub~

Puz po~ -i..l>~o mumo ute b.e~ã.o ea.Jtni..ç.a Fiz no ~o~to ute make-up põ c~ç.a

Qulz tMz~ ct6~hn no~~a dug~aç.a ã. luz

i~ cabelo Upo Zncüo moicano me ap~z

Sab~ que el',;(jtaJtemo~ pelo cano ~a..ti.l, 6az Võ/> t~w um padlte p~ JLeza/~ a mú.,~a

Vez m.i.nuto.6 antu de v~ 6umaça Nõ.6 ocup~temo~ a P~ç.a da Paz

T~o tixo, c~o po~c~a, tenho

Va upe1ta,nç.a vã. da minha Ua., da. vovõ E.6go:tado.6 O~ pod~u da ciência

E.6gotada toda nO.6.6a pa.ciêncla

E.U que uta cidade e: um ugoto

Sou um punk da p~óenia

Sou da 6~eguula do

ó

O õ õ

aq~ p~ voei

Sou da. 6Jteguula

(23)

C e n t o e, t r i n ta ' mil h Õ e s d e p e s ~ o a s c i r c u 1 a n do na p e r i f! ~ia do lance. Exportam para o centro o que de melhor e prod~

zido aqui. Do 1 lXO do que é produzldo no centro consumimos tan

to o Bactrim como o que o intelectual estrangeiro dispensa a

respeito do sexo dos anjos. Engolimos tudo indiscriminadamen

te como se a fome fosse tanta que quando pinta o alimento,qual

quer, jã putrefeito pela distância entre,o local de produção e

o de consumo, traçamos tudo sem sequer dar-nos tempo de sen

tir-lhe o odor.

r

isso, mas' fica faltando o outro lado que podemos cha

mar, provi~ori~mente, de estra~egi~ de sobrevivencia do domina

do.

Esta estrategia e a responsãvel, por exemplo, pela prod~

çao, por um poeta popular, de uma histõria de curdel na qual

ao chegar i lua os astronautas depapara~ com são Jorge defen

dendo a ãrea. Depois de muita briga os americanos se

ram, deixando, de presente pro santo, o vírus da gripe.

manda

o

cordelista se inspirou na histõria da chegada dos euro

peus i América:' em contato com os'~ortugueses, espanhõis, ho

landeses e franceses, os nativos adoecem. Fato é que aprendem

a falar o português e chegam i Assembleia Legislativa na pe~

soa do Cacique Juruna, que quase tem o mandato cassado por di

zer o que pensava a respeito do Presidente da RepGblica.

Na Escola, trazida para o Brasil pelos jesuítas, aprend~

(24)

17

deram com sangue: que quem descobriu o Brasil foi Pedro Alvares

Cabral.

Fato e, porem, que o Brasil jã existia. Só foi descober

ta para quem não sabia.

Mas os portugueses dormiram no ponto e foram atropelados

pelos ingleses cujo know how em materia de pirataria era,jã n~

quela epoca, bem mais avançado. Apesar do seu notório saber a

respeito do assunto, os ingle~es foram, te~pos depois, super~

dos, qualitativa ~ quantitativamente, pelos americanos que,nos

dias atuais, são os nossos principais credores e têm, como seu

representante legitimo, o Doutor Fundo Monetãrio Internacional.

.Na Escola os programas parecem ter sido elaborados por

algum daqueles ideõlogos da Revolução Francesa - quem sabe o

Robespierre? - porque todo o tempo a voz que ouvimos fala de

coisas que aconteceram em outro lugar que não onde estamos sen

tados, a carteira, lãpis em punho, copiando tudo aquilo que a

professora escreve no quadro negro.

Mesmo quando, em Geografia, estudamos os rios braSi 1 ei

ros, aparece o Rio Amazonas ao inves do Canal do Mangue, situ~

do al i na Avenida Presidente Vargas em frente ao ·predio da Pr~

feitura, vulgarme~te conhecido pelo nome de Piranhão pelo fato

de ter sido construido sobre os escombros do local de moradia

(25)

Essa a ~ultur~popular que nao perde nada de vista, que

nao permite que nada passe em branco. Cultura que anda pela

rua, a pe, de tr~m, de ônibus, de metrô. Poucas vezes de taxi.

Raras de avião. Emborá quem sõ ande 'de avião, por vezes, tam

bem se expresse popularmente, de um jeito envergonhado, tranca

do a sete chaves.

I o caso, por exemplo, deum certo Ministro do Planej!

mento que, segundo ouviu-se.dizer, gosta de se vestir de baiana

na calada da noite.

.

.

A diferença entre o ex-mjnistro e um passista da Manguei

ra .e que este esca.ncara 'a alegria' na avenida que hoje virou APE.

teose e aquele sõ roda a baiana para os lntimos. O passista b!

be Pitú e o ministro ulsque escocês porque tambem tem malandra

gem ~ sabe que do nacional a ressaca e braba.

,Somos todos brasileiros?

Ser brasileiro quer dizer que, às claras ou as escuras,

havemos de ter coisas em comum. Tem coisas da cultura

verde-amarela-~zul-e-branca que não escapam a nenhum de nôs. ~esse

sentido podemos utilizar-nos da primeira pessoa do plural sem

erro.

Ao falar dos brasileiros e preciso, pqrem, c~nsiderar o

nlvel da luta de classes e não insistlr em chamar o Brasil de

pals em vias de desenvolvimento~ tendo por referência os pai

(26)

19

. ta1ista fosse o mesmo em ambos os casos, isto e, como se os

palses em vias de desinvolvimento, ou subd~senvolvidos,fossem,

um dia, chegar a ser desenvolvidos.

Onde o progresso que exclui do seu bOjo a maioria esmag~

dora da populaçio mundial? De que nos adianta ter invent~do o

sabio em pó e a mãquina de lavar se a maioria das mulheres do

Terceiro Mundo continua lavando roupa com sabio em pedra às margens

da Lagoa de Abaete?

Marx, o Karl', bastante mobilizado pelos sofrimentos dos

seus contemporineos menos favorecid6s, depois de muito estudar,

concluiu que o mundo estã dividido em duas classes antag6nicas:·

proletãrios e burgueses. Os prime'iros vendem aos segundos o

que· 1 h e s r e s ta, a sua f o r ç a de t r a ba 1 h o , a te que, no

sao jogados fora com o nome de aposentadoria.

bagaço,

Cresce O capital de um lado e do outro o Exercito Indus

trial de Reserva ·que permite ao empregador manter o ·salãrio

aq~em do minimo necessãrio para a reproduçio da mio-de-obra.

sã na America Latina existem hoje cerca de 500 milhõés de

desempregados. A mio-de-obra economicamente ativa, na ativa,

parece ser em menor numero. O trabalhador, assal"ariado ou nao,

ê tio descartãvel.quanto lenço de papel Yes. O que mais cres

ce no pais e mendigo. Hoje, na Cidade Maravilhos.a, este cida

dio fáz assembleia .e v·ai ate o Palãcio G'uanabara em passeata

exigir d6g6vernador a proteçio da poltcia aos assaltos cons

(27)

Toma banho e lava roupa no chafariz da Praça Paris;alimenta-se

dos restos de comida encontrados no lixo das lanchonetes do

Bob's; nos ônibus, já não pede esmola, exige, alegando que e

mel hor isso .. do que roubar; di scrim'Í na-se do ladrão, mas secon

funde com o desempregado que também pede justificando nao ter

outra alternativa~

Quem sabe, sabe. Quem nao sabe, inventa.

Stanislaw Ponte Preta, no Samba do Criolo Doido,

Tiradentes com a Princesa Leopoldina. Está certo? Está erra

d01 Se fosse prova de Hist5ria da arasil a professora dava ze

ro. O samba fez o maior sucesso; Questão de lugar.

Se os historiadores contam a hist~ria do jeito deles, eu

conto do meu e pronto. Está acaba~o. Questão de escolha. Opção

pelo zero?

No ginásio aprendi com SILVA, o Joaquim, que Caxias trans

formou-se no· her~i da Guerra do Paraguai. Anos depois li em

GALEANO, o Eduardo, ~ue o 'Paraguai era, então, ri ~nico pals in

.

.

dependente da América Latina e, pelo fato de sê-lo, se recusa

va a comprar produtos industrializados da Inglaterra em troca

da venda de materia-prima. Pois b'em,a Inglaterra· al~mou a maior

estratégia e o Brasil, a Argentina e o Uruguai entraram na his

t~ria de gaiatos. O Caxias saio her5i e o Paraguai ficou arr! sado no mlnimo porque a guerra deu conta .de grande· parte da PE,

'pulação masculina econ5mica e sexualmente ativa.

(28)

21

o

Joaquim conta a histõria de .um jeito, o Eduardo conta

de ou t r o e a V ~ 1

e

r i a s·õ s a b e , d e f a to, que p a r a g u a i o o d e i a b r a

sileiro.

A Escola, dependendo da conjuntura, considera o que Joa

,qu.imfa10u ou o que o Eduardo disse.· O qu~ a Valéria sabe, em

bru1ha e joga no lixo" Não

e

saber.

Dona Escola!

Vamos parar com essa história de que o jeito de contar

, h i s t õ r i a i g u a 1 ao' que e s t ã ~ s c r i t o no s 1 i v r o s é que v a 1 e no ta

lO? O que está pub1 icado está cerfo., O que pub1 icado não foi

e a pura verdade.

Quem sabe, faz. Quem nao sabe, ensina.

Fato é que a cada cem crianças l~tino-americanas que' en

tram para a Escola, mais da metade sai s~m saber ler nem escre

ver.

Escola existe para transmitir conte~dos prontos e acaba

dos. Quem aprende, aprende. Quem ,nã6 aprende, dança. Vai ser

lixeiro ou 'empregada domestica. Quem não tem competincia nao

se instala. Competincia para que? A filosofia ê a do salve-se

quem puder.

A Escola, o tempo todo, nos av~lia baseada em critérios

dito objetivos. A tal objetivida.de, no fundo, investiga da no~

sa competincia para engolir, por inteiro, o produto que nos e

(29)

Conjugue o verbo ser no Presente do Indicativo!

Eu sou

Tu

-

es

Ele e

-Nós somos

Vós sois

Eles sao

Quem somos nós afinal?

A Escola num pats periférico se distingue da Escola num

~

palS central?

Numa universid~de francesa o estudante tem oportunidade

nao só de le~ o Tristes Tr~pitos como de ouvir o auto~ falando

sobre o assunto'em carne e osso.

Aqui, nos tristes trôpir.os, por vezes sequer temos condi

çao de comprar o livroindi'cado pelo professor. Apesar de nos

terem dito, em diversas oportunidades, que a bolsa de estudos

e

p a r a cobri r . 9 a s tos referentes a os e s tu dos , na" p rã t i c a ela a c ~

ba sendo utilizada p~ra o suprimento de necessidades bãsicas:

moradia, alimentação, transporte, vestuãrio e higiene. livro

virou superfluo. Disco tambem. Teatro e cinema idem. Não fa

zem parte da cesta bãsica.

Nas domingueiras do Circo ·Voador.onde o Carequinha foi

(30)

23

(31)

VONA MARTA AO BEIJO NA BOCA

EM

MEIO ~ ESCAVARIA

A Escola Campos Sales ficava na Praça da República perto

da, caSa de nossa av5 Belmiia, que mora~a na Rua da Alfindega e

tinha pensão para comensais e dormit5rio.

Nos finais de semana constumãvamos passear na Praça e l!

var comidinha para as cotias que naquela epoca eram em maior

número que nos dias atuais.

Entramo~ para o Jardim de Infincia com seis anos. Março de mil novecentos e sessenta e um .. Rio de Janeiro, Bt'asil.

Em dias comuns, depois do recreio, as crianças tinham que

escovar os dentes com uma e~cova que tinha 'o nome da gente es

crito num pedacinho de esparadrapo. Essa escova de dente,al~m

de outros objetos de uso pessoal, ficava guardada numa bolsa de

pano xadrez de azul ~ brancd com o riome do aluno bordado do la

do de :fora em verme 1 ho.

Dia da Festa ~

Em casa tlnhamos insistidci com nos~a mae que querlamos

ir de roupa nova. Uma roupa que'tinha .sido presente dela: saia

'plissada cor de rosa e blusa de malha azul clara. Nosso pai nos

(32)

25

.

sempre, tinha. razao·:sõ poderiamos entrar uniformizados.

Mês seguinte mudamos para são Paulo. Papai fora transfe

rido na firma onae trabalhava: Squibb Produtos Farmacêuticos.

Mamãe, nós e nossa irmã fomos transferidas por causa da trans

ferência dele.

Papai hoje esti aposentado; perdido como nunca.

Nós continuamos estudantes; pensando, ainda, no que va

mos ser quando crescermos.

São Paulo. Primeiro de Maio.

Ficamos hospedados no Hotel São Paulo, no centro da cida

de'.' Apesar do frio, muito, fomos para a rua assistir o desfi

le que homenageava os trabalhadores~ Muita cor passando pelos

'olhos dos espectadores que eram em grande numero.

No Hotel o que tinha de ótimo era tim bife redondo com al

guns centímetros de altura que, de tão macio, quase não precj.

sava de faca.

Da; nós mudamos para a Praça '14 Bis e mamae matriculou-nos

no Colegio Dante Alighieri.

Alguém disse para mamãe como era o uniforme. Napo rta

de entrada fomos informados de que para chegar ao Pre-Primirio

deveriamos seguir em frente e, no final do corredor, dobrar

-

a

(33)

Hora do "recreio. Todos, quase sem exceçao, brincavam de pique.

Correria desenfreada. Atravessamo~ o pátio e chegamos ao Pre.

Fomos recebidas por uma senhora alta e cheia de corpo que usa

va óculos e tinha os cabelos curtos"e penteados em laquê.

Marta era o nome daquela professora.

Mamãe deixou-nos sob os cuidados de dona Marta e foi em

bora.

Dona Marta"estava ensinando ã" turma uma mfisica para can

tar no Dia das Mães. Cada vez que çomeçava a cantoria nos co

meça vamos a chorar. Quando chorávamos, dona Marta nos pegava

no colo. Quando dona Marta nos pegava no colo parávamos de ch.2.

raro

sE

par~u a choradeira quando entramos no mes de junho.

Do Pre-Primário ao Clássico os anos passaram pelo Colégio

Dante Alighieri com a cabeça funcionando tipo miquina xeróx.

No Curso de Admissão~ para uma prova de História do Bra

sil cujo tema era "A"Rep~bliea", decoráramos os nomes de todos

os presidentes que o Brasil tivera desde 1889, "as obras reali

zadas em cada governo, as virgul~s, os ponto-e-virgulas,os po~

tos sem virgulas e os ponto-parágrafos. Quando nos esqueci~

mos de uma palavra tentávamos lembrar-nos do lugar na pigina

onde ela se encontrava, até que a dita cuja viesse

ã

tona.

Decorávamos tudo que transitava pelos nossos· olhos. Do

"abecedário

ã

Divina Comedia. Começamos a odiar Dante e Beatriz

(34)

27

radora. Antes nunca tivessem existido.

Pesquisar jã estava em moda nessa epoca. A professora

propunha o tema

â

ser pesquisado, individualmente ou em grupo.

No segundo caso era muito mais divertido. Geralmente nos reu

nlamos aos sãbados. Cada sãbado era na casa de uma e a hora

melhor de todas era a 'do lanche: bolo, refrigerante,sandulche,

bomba de chocolate e de creme. De resto, copiãvamos da enci

clopedia tudo o que ali aparecia sobre o as.sunto. A nossa maior

preocupaçao era com a parte visual: as letras grandes e pint!

.das com goache, o's desenhos1 as cola·gens. Ficava uma beleza!

Serã esse cuidado 'porque s~ tinha menina no grupo?

r,

porque as turmas eram femininas pela ~anhã e masculi

nas a tarde.

Eramos todos, ou quase, meros objetos de decora(r)ção. Mui

tó bem uniformizados - usavamos até grav~ta! -, fazTamos fila

p a r a i r a t é a sal a d e a u 1 a o n d e c a da um ti n h a c a r t e i r a f i xa po r

todo o ano. As eventuais trocas de lugar ficavam a cargo da

professora quando algum corajoso j~su~gente se rebelava contra

a milenar disposição.

o

Colégio Dante Alighieri era frequentado pela fina .. flor . .

da sociedade paulistana, classe media-media e media-superior.

Esta última confundia-se com a classe' dos burgueses, divididos,

por sua vez, em novos ricos e quatro~entões. Os Gltimos eram

melhor vistos por todos, incluindo-os, porque a sua r-iqueza era

(35)

Es"tãvamos incluídos na camada media-media e, para compe!!

sar a diferença de classe - ainda não sabiamos que nada compe!!

sa" coisa alguma -, tirivamos medalha de ouro todo ano. Retifi

. cando: ouro não, banhada a. Hoje temo~ serias d~vidas ~a res

peito do material utilizado no banho. A unica certeza

-

e que

as medalhas resultavam numa cor que lembra a do ouro.

Embora, na opinião d~ professora, tivessemos nivel para

cursar o primeiro ano ginasial, mamã~ achou melhor fazermos O

C u r s o d e A d m i s são c o m o um r e f o r ç o p a r a c h e g a r mos a o G; ni s ; o ma i s

preparados. Concordamos com mamã~ p~rque o Ginásio, para quem

estava no Primário, realmente era um monstro de tantas cabeças

quanto

o

numero de p~ofessores somado ao de professoras.

Aluna que nunca tevé profe~sor quando pinta se apaixona~

. Fomos apaixonados durante pelo menos quatro anos pelo nos

so professor de Português, o Lelio. "

Um belo dia ele pediu a cada aluna para escolher uma po~

sia, decorá-la e interpretá-la para apresentar diante da turma.

Escolhemos uma poesia do"Vinicius de Moraes que saira public!

da no Pasquim, jornal que, na epoca, estava na "crista da onda.

Embora achássemos a poesia muito bonita, nao entendêra

mos muito bem o que o autor estava querendo dizer será "que ele

realmente estava querendo dizer alguma coisa? - e pedimos a p!

(36)

29

No momento em que surgira uma.oportunidade de mostrar ao

professor o quanto n5s o amiva~os,lançiramos mio do que imag!

navamos ser a no.ssa melhor qualidade: a de decoradores.

o

principal critério utilizado para a escolha da poesia

fora. o tamanho: eram para li de meia centena de versos!

Na hora da interpretaçio, em que pOderiamos mostrar-lhe um

pouquinho de n5s, o que apareceu em cena foram as palavras de

papai, copiadas e lidas para o professor e a turma!

Ao final dó Ginisio apresentavam-se-nos nao mais que duas

alternati~as:o Clãssico e o tientlfico.

Optamos pelo Clissico (talvez fosse mais adequado dizer

que o Clássico optou porn5s) porque gost~vamos mais de Portu

gues que de Matemitica e porque a nossa melhor "amiga, com a

qual estudãvamos desde o Pré, estava tomando esse rumo.

No primeiro ano fomos convidados, por uma colega de tur

ma, para entrar num grupo de estudo cujo objeto fundamental era

um livro que se dividia em duas parte~:a primeira: do feuda

lismo ao-c~pit~lismo; a segunda: dó capitalismo ao ..•

Estudávamos cada capitulo grifando as palavras, as fra

ses e os parágrafos que conside~ivamos importantes, aindi" que

nao soubessemos muito bem para que. Nas reuniões cada um lia

para os outros as partes que tinha assinalado, eram

novos dia e horário e estava terminado 9 encontro.

(37)

Nin viamos a hora de chegarmos naqueles tris pontinhos~

Tal.qual uma galinha que de grao em grao enche o papo,

nos, de capitulo em capitulo, 'lamos .desvendando os misterios do

capitalismo, ate che, chegando is ... , começamos a nos questio .

-nar $obre o que faze~ com o marxista que, desde então, pass!

ra

a

conviver conosco.

Um primo nosso, o Armando, estudàra no Conservatório de

Teatro e, hi virios anos, assistiramos uma montagem do rdipo~

Rei, feita pelos alunos, na qual ele interpretara o papel de

Creonte, que nos deixara simplesm~nte fascinados.

Quem sabe atraves do teatro não consequiriamos aliados

para engrossar a luta. pela .emancipação politica da classe tra . ' .

balhadora?

p·e n a e s t r a da,. v i mos de mal a e c u i a p a r a o R i o de J a n e ;

ro e ingressamos na Escola .de Teatro da Federação das Escolas

Federais Isoladas do Estado da Guanabara, antigo Conservatório

de Teatro. Curso de' Formação de Ator. 1972.

Na Escola de teatro era tudo diferente do conhecido. Em

bora nos vissemos diariamente, nossos encontros revelavam lon

gas separaçoes; os cumprimentos eram extremamente calorosos;

beijos e abraços a perder de vista.

Eram muito comuns os beijos nà boca, mesmo e~tre pessoas

(38)

31

um rapaz que conhecêramos hã pouco ~empo que, um belo dia, nos

deu um beijo na boca em meio à ·escadaria que dava acesso à Es

cola. Ele descendo, nõs subindo. Ele saindo, nõs chegando. Qu~

se rolamos escada abaixo! Não entendemos nada: ainda estãvamos

no primeiro semestre letivo. Pouc~ a pouco fomos sendo intro

. duzidos naquele universo que, a princlpio, ·soara como alguma

coisa totalmente estranha.

Andãvamos, nas aulas de Interpretação, às voltas com a

construção do personagem. BRECHT, o Bertold, era o teõrico da

moda. Falava-s~ ~uito em distanciam~nto, ou estranhamento,

brechtiniano . . Cada um entendià a cuisa i sua maneira. Alguns,

como nos, falavam da coisa para não se sentirem desenturmados.

Falãvamos epraticãvamos. o que ouvlamos dizer. Llamos pouco so

bre o assunto.

Estranhamento ~ o substantivo do Verbo estranhar. Estra

nhar o que? Tudo que passar pelos nossos olhos do lado de den

tro ou do lado de fora. Individual ou coletivamente, no palco

ou fora delé, a cada momento do cotidiano. Teatro da vida. Na

vegar pelos pap~is sociais para saber ~eles, mas não permitir

que um papel definido fique agarrado dramaticamente. Exercer a

possibilidade de escolha do papel que queremos representar no

mundo e, mesmo desse papel, distanciar-nos criticamente~ Vê-lo

de fora e voltar para dentro, transitar do sujeito ao sujeito

(39)

o

'estranhamento que Brecht propoe para a relação ator/per

sonagem e para a relação cena/expectador se espraia pelo teatro

afora, inun~ando o cotidiano e vai bater na porta de cada papel

social, convidando-nos a participar do'jogo dialético, o jogo

da vida.

Let's go?

Aquela era a Escola dos Teatros. Muitos. Cada professor

ensinava a seu modo, cada aluno fazia como queria. A burocra

cia era nenhuma,e tlnhamos acesso, naquela epoca, aos recôndi

tos mais escondidos. Figurinos e ~aquiagem. Sõfocles, Shakes

peare e Nelson Rodrigues: dramaturgos. Stanislawsky, Brecht e

Grotowsky: teõricos da relação ator/personagem. Met~dõlogos

teàtrais? Au"las de esgrina com um coronel reformado. - O dire

tor da escola demusica do primeiro andar era um general,. No

,governo do general João Batista Figueiredo mandaram demolir o

prédio. No dia rolou muita pancadaria entfe estudante e poli

cia.· Teve até deputado hospitalizado. Balé clãssico e moder

no. Tango. O prédio da praia do Flamengo tinh.a pegado fogo.em

64. Era da União Nacional dos Estudantes. Vimos até fotogr_~

fia com o Vladimir Palmeira faze~do discurso d~ sacada. O tea

tro ,era tipo tragédia grega, todo queimado. Histõ·ria da Arte

e Histõria do Teatro. Dicção e Expressão Corporal. O ato p~

blico em protesto contra a demolição do .prédio foi na hQra do

por do sol. Tijolo por tijolo num desenho lõgico,' seus olhos

(40)

33

estudante cantava O' Hino Nacional. .Augusto Boal, Cesar Vieira

e

Amir Haddad .. A polTcia, arm~durada, parecia surda e muda e

marchava sempre Fm frente em direção i murada. Tanto de gente

mergulhando para o outro lado como se fosse piscína. Hoje a E~

cola virou terreno baldio cercado de muro pichado de

eu-te-amo-. jacare-sai-da-lama-po~que-celacanto-provoca-m~remoto-em-homen!

gem-ao-oitenta-aniversãrio-do-luTs-car)os-prestes-que-disse-que-o-tiago-da-novela-das-sete-vai-acabar-casando-com-a-mar;li~o!

que-ela-esti-esperandO-filho-dele.

Talvez porq~e se trat~sse de um curso profissionaliza~

te~ a Escola trabalhava, ao' mesmo t'empo, em dois sentidos, ap~

rentemente exclud~ntes. Uma vertente de professores, apoiada

pe1á Direção, se propunha. a formar atores quecorrespondessem

is expectativas do mercado de trabalho ex~stente~ a outra, re

presentada por um professor do 3Q ano de Interpretação, o Amir,

se colocava como tarefa pedagEgica a formação de grupos de tea

tro que, desenvolvendo uma linguagem que lhes fosse peculiar,

buscassem criar o seu próprio mercado.

As aulas do Amir suscitavam. com~ntirios, os mais contro

versos, pai parte de todos aqueles que frequentavam a Escola.

O que ouvíamos dizer pelos corredores era que os alunos, dura~

te as aulas, quebravam cadeiras; ·esmurravam paredes e' aiguns

ate tinham ido para~ no Pinel. Apesar de termos uma enorme cu

riosidade a respeito do que aco~tecia naquelas aulas,era pr!

ciso chegar ao 3Q ano para descobrir a~ razões de tanto

(41)

te, chamar de mestr~, o fundamental não eram as mensagens con

tidas nos textos, mas a relação a ser estabelecida entre os

atores e entre estes e os personagens: o ator não ~ um instru

mento atravis do qual i transmitida, ao es~ectador, a visão de

mundo do autor, mas um suj~ito cuja postura diante da vida de

ve estar presente na discussão das questões abordadas por quem

escreve o texto que seri representado, ou melhor, apresentado.

Nesse sentido, eramos incentJva~os, enquanto aprendizes,

a buscar nao um mero aprimor~ménto ticnico, mas uma compree~

são mais profunda do ~ue di,zTamos ~omo pessoas e como atores.

No final de 1974, quando n~s cursavamos o 3Q e ültimoano

de Interpretação; o Amir foi demitido da Escola.

Pela primeira vez, em tJdo o nosso processo de escolari

zação, a rel~ção entre Escola e Mercado de Trabalho havia si'do

apresentada de forma,não-linear.

'Ati então pensivamós ~ue tudo 'que um estudante tinhà a

fazer era se comportar de acordo com as expect~tivas do profe!

sor ·em relação a ele: não faltar i~ aulas e tirar boas notas.

Agindo dessa forma, no momento oportuno, quando nos

conta, estarTamos trabalhando.

dessemos

Porem, na medida em que, o Mercado de Trabalho se fr~gme~

(42)

35

.

sãrio definir através de que portas desejarlamos ingressar no

~undo da Produção. Essa opçio~ por,outro lado, colocaria novos

e instigantes problemas para a nossa ,vida acadimica •

Havlamos optado pelo Curso de Teatro nao porque tivesse

mos clareza de que querlamos seguir ,carreira, mas porque, atra

ves do teatro, pOderlamos falar às pessoas sobre coisas nas

quais acreditãvamos, coisas que estãvamos descobrindo sobre a

vida e que achãvamos importante todo mundo saber.

!

claro que nem todas as pessoas, ao ingressar no Curso

de T e a t r o , t i n h a m c 1 a r e z a a· r e.s p e i to' do que i a m b u s c a r a 1 i . r~u i

tas abandonavam a Escola no primeiro, 'no segundo e ate no ter

ceiro e último ano letivo. A~,que permaneciam iam se esclare

cendo sobre os seus prop5sitos na medida do contato com os de

mais alunos e professores.

Alguns anos depois, em 1978, ingressei num grupo de tea

tro, o Grupo de Niter5i, dirigido pelo Amir.

Nessa·ocasião o Grupo de Niter5i desenvolvia uma pesquj.

sa baseada num texto dramitico, o, "Mo~~e~ pela Pit~ia", sobre o

Levante Comunista de 1935, escrito por Carlos Cavaco em 1936,

(43)

VO INSTITUTO QUE VOC~ NÃO VIU. OU VIU?·

Fazendo tea tro de rua, . transando o corpo numa nice e es

tu.dando LENIN, o Illich, cóm um pessoa) que, mais tarde, qua!!.

do começaram a soprar os primeiros ventos democrãticos, vimos

a saber ser do Parti dão, começamos a nos sentir no dever de ter

uma certa participação politica c~jo ·ãpice seria a tomada do

poder de Estado pelas forças·revolucionãrias, tal como vinhamos

~studando em "O E6tado e a Revoluiio".

De pos~e da teoria r~v~lucionãria que aprend~ramos com

LENIN, o Illich~ em quase um ano de est~dos, so nos restava co

locã-la em prãtica ..

Nesse sentido resolvemos nos inscrever no Vestibular Uni

ficado da Fundação Gesgranrio para concorrer a uma vaga no Cur

so de Ci~ncia5 Sociais.

Alguns meses depois, apos a realização das provas de m~l

tipla escolha, encontramo-nos transformados em numero, entre

os candidatos aprovados, na edição extra do Jornal dos Sports.

Março de mil novecentos e setenta e oito. Instituto de

Filosofia e Ciências da Universidade Federal. Largo de' São

(44)

37

Junto conosco·fbram aprovados mais noventa e nove.

De Santa Tereza ao Leblon, e ate de outros munic;pios co

mo Niter5i e Nova Iguaçu, formivam~s massa heterog~nea que du

rante quatro anos, de março a junho e de agosto a novembro, se

.encaminhava diariamente, de segunda

a

sexta~feira, ao Largo de

São Francisco.

Chegivamos ao sope da escadaria, subiamos degrau por de

grau, pegivamos o elevador que vivia enguiçado pelo tempo de

uso e nos dirigiamos às salas de aula na falta de coisa mais

interessante para fazer.

A maioria dos alunos assistia aula das sete ao meio-di~

mas o bom mesmo era ficar pelos c·orredores jog~ndo·conversa f~

ra i espera de alguma vassoura que encami~hasse ~o devido lugar

os restos mortais daquele ti~ti-ti.

Na classe a coisa se passava de uma forma um pouco diver

sa.

De 50 em 50 minutos, tempo de dura~ão de cada aula, era

mos surp~e~ndi~os pela entra~a na sala de um outro projeto: o

professor. Isso quando não eramos visitados pelos militantes

do movimento estudantil, dividi~os em pelo menos uma dGzi~ de

tendências diferentes, que, educadamente, i~terrompiam as au

las para dar informes ou discursar a ·respeito da conjuntura P.2.

(45)

D~sse perlodo ficou a sensaçao mal digerida de que a p~

lltica era um determinado tipo de atividade que se exercia, na

quase total~dade dos casos, fora da sala de aula.

Nesse sentido, os estudantes se dividiam basicamente em

dois grupos: os militantes que raramente eram encontrados em

sala ,- e os não-militantes que raramente eram encontrados fo

'ra de sala. Não é muito diflcil deduzir dal que esses dois gru

.

-pos raramente se encontravam, pelo ménos no ~ue diz

ao aspecto geogrãfico da análise.

respei t,o

Os professores, por sua vez, também se dividiam em dois

grupos: os militantes - aqueles que atuavam na Associação de

Docentes - e os nio-~ilitarites - aqueles que nao atuavam naqu!

'la Associação'.

Era posslvel identificar algo em comum entre os p~ofess~

res militantes ou não - e os estudantes-militantes: a respo~

sabilidade de transmitir um saber anteriormente produzido. De

pendendo da estratégia - ou do método - utilizada,os objetiVOS

eram alcançados com maior ou menor sucesso; De qualquer forma

uns e outros não tinham por hãbi~o explicitar aos educandos a

que vinham nem aonde pretendiam chegar, como se soubessem, de

antemão, o que era bom para nós.

Nas aulas, não sabendo inglês, francês, nem espanhol~mal

entendlamos o português dos textos ~e Durkheim, W~ber e Marx

'pois não tlnhamos familiatidade com o tipo de tratamento dado

(46)

39

o

curio.so

e

que os professores, em sua maioria, tinham se

graduado em universida~es com qualidade de ensino semelhante

àquela na qual a90ra eram professores. Isso, no entanto, par!

cia não ser levado em éonsideração como se aquela vivência não

fosse relevante no sentido de meJhor adequar os conteudos à rea

. lidade com a qual ago~a estavam €m contato: Aliis, adequar os

conteudos à realidade da "elien~ela" era normalmente confundi

do com "baixa~ o nZvel", donde talvez possamos inferir que os

conteudos abstratos estavam acima do nivel 'dos alunos concre

tos. Mas como a19uns alunos estavam em "ou~~o" nivel, era ne

cessiria uma complicada operaç~o ma.temitica para se chegar a

um~ m~dia aritm~tica que atendess~ às necessidades de todas as faixas de alunos que constitul~m a turma. Tal. operação, por~m,

resultava, na maioria qua~e absoluta dos çasos, num quebra-c~

beça ao qual ficavam faltando peças fundamentais .

. Apenas os alunos que tinham se apropriado de um vocabulã

rio mais especializado falavam em sala. Os outros ficavam com

medo de abrir a boca, dali sair alguma asneira e serem, por is

so, motivo de chacota por parte dos entendidos.

Os se~inirios geralmente eram feitos em grupo. Ao abor

dar três capitulos de uma ~bra o mais comum, num grupo de, por

exemplo, seis pessoas, era dividirmos cada capitulo ao me10 de

tal forma que cada ~m ficava encarregado da 'metade dD capitulo

e na hora da apresentação funcionã~amDs tipo os três sobrinhos

(47)

terceiro concluia. Após uma semana jã nao sabiamos mais sobre

o que tinhamos falado.

Se ch~gamos a ler um livro po~ inteiro foi muito. Geral

mente era um ou dois capltulos. Pensamos em propor i direçio

da Escola que inclul~se no curriculo um curso sobre fichamento

de t~xto porque todos os professores nos pediam fichamento mas

,nunca ninguem ensinou como· deveria ser feito.

As palavras, que ali subiam como num piscar de olhos 'a

categoria de co~ceitos, saiam das nossas bocas como sapo pula~

do. no brejo. Falava-se muito, por exemplo, em classe dominan

te. Entidade tio abstrata como Deus no ceu, essa classe, na

, ,

'terra, era a grande responsãvel por todos os nossos males. De

concreto, o certo e queali, 'dentre aque1as paredes, jamais foi

encontrado um representante legitimo daquela clas.se para que p~

déssemos matar a curiosidade vendo-lhe a cara e a coragem e

submetê-lo a algumas experiências laboratoriais que co~prova~

sem o que os' livros nos diziam.

ConfundJamos concreto e abstrato; sentiamos dificuldades

serias em transitar'da palavra ao conceito. De um lado os in

dividuos que ao se referirem is coisas faziam uso de palavras;

do outro, os individuos que ao se referirem is coisas fa z iam

uso de conceitos. E, nesse caso, a coisa muda de figura pois

s e no m u n d o das c o i s a s e x i s teu ma p a 1 a v r a p a r a s e r e f e r i r a uma coisa, no mundo dos conceitos - pelo menos na percepçio dos nao

-iniciados usam-se conceitos vários para se referir

ã

mesma

c oi sa .

(48)

41

Nesse sentido' acabamos e1abor~ndo um projeto de pesquisa

no qual denominamos d~ Setor Informal do Mercado de Trabalho,

uma coisa que no.desenro1ar da pesquisa descobrimos tratar-se

do Exercito Industrial 'de Reserva.

Este projeto tinha por objetivo estu~ar as relações entre

o Aparelho de Estado e o Setor Informal de Tr~balho. Achamos

por bem começarmos a estudar por este setor. Quanto mais lla

mos sobre o assunto, mais diflcil ficava l~calizarmos quem, no

mundo vislvel a olho nu,. pertencia àquela categoria de traba

lhadores. Quem s'abe os camelôs? Er,a a pergunta que vez por

outra nos razlamos. Juramos a nos "mesmos que no dia que desço

brTssemos

-

."

luva, encaixasse

um especlme que, como uma se naqu~

le' setor, farlamos tudo que estivesse ao nosso' alcance para aI:.

ranjar-lhe colocação num banco. Al ji tl~hamos ~ntendido que

'bancirio pertencia a outro setor, o Formal. Um assalariado~

Enquanto ele conseguisse se manter empregado esta~lamos salvos~

Era a ~nica maneira de sairmos da enrascada em que nos encontri

vamos envolyidos~

Ao final, como tlnhamos o compromisso de escrever um re

latõrio, resolvemos, para encurtar a conversa, entrevistar três

pessoas amigas: um artista àe circo que tambem era professor,

uma professora de dança de salão ,que tambem era dona-de-cása e

um marceneiro que t~abalhava alternadamente'por conta prõpria

(49)

Apõs a transcriçio das fitas encaixamos os nossos quer!

dos amigos num pressuposto teórico segundo o qual, nos momen

tos de crise do capitalismo, os trabalhadores informais cres

. cem em numero e grau e enviamos todo mundo envelopado para a

agência financiadora da pesquisa.

Antes, porem, mostramos o relatõrio ao nosso orientador

que na ocasião nos perguntou onde estava a equipe responsãvel

pela realização da pesquisa.

Respondem~s que o trabalho fora desenvolvido por uma uni ca.pesquisadora: nós.

o

nosso orientador, então, quiz saber pqrque nos referla

.

mos a nós, pe~soa singular, no plural. Não soubemos responder

-lhe a contento, mas seguimos refl~tindo sobre o assurito.

Na verdade nun~a hav1amos pensado a respeito.

Apesar de termos sentido um certo allvio após o encami

nhamento do Relatório Final

ã

agência financiadora da pesqu!

sa, continuamQs preocupados com o destino daquelas vidas desde

então arquivadas.

P o u c o tem p o d e p o i s uma das v·i das f o i v e n d i da. a uma r e d e

de televisão - que por ela se interessou para a produção de um

de seus casos - pela quantia de'quinhentos mil cruzeiros,a pre .

-ço de mil novecentos e oitenta e· três, ,sem direito. a direitos

·autorajs.

(50)

43

Talvez ~ dificuldade que sentramos em ingressar no dito

~undo da Ci~ncia foss~ agravad~ tamb~m pelo procedimento didi

tico-pedag5gico dos professores os quais muitas das vezes se

colocam como atribuição a transmissão, pura e simples, de de

terminados conteúdos formulados alhures e quase nunca problem~

. ti zados aqui e agora.

A formulação te5rica de um educador como FREIRE~o Paulo,

ainda não chegou aos bancos escolares pois ~ educação continua

sendo bancãria. Professor transmissor e aluno receptor de con

.teúdos pr~-fabricados.

Ati, ~ claro, liamos FREIRE~ o Paulo.

A que ~ tão que s e c o 1 o c a, p o'r em, e de que' nos . s e r v e t e r

lido toda a obra de FRE.IRE, o Paulo; se a ·leitura continua no

'livro? A não ser que .este autor não esteja se referindo a -edu

candos jã alfabetizados. Por outrti lado, por que não pensar

no aluno como um individuo em continuo processo de alfabetiza

ç.ão?

Os conte~dos apareciam aos nosso~ olhos como uma colcha

de retalhos· em fase de confecção que na hora de alinhavar as

partes não casam umas COm as outras.

Como jã dissemos anteriormente, nos nao tinhamos familia

ridade com a m~neira dos autores tratarem os assuntes e, acre!

~entamos agora, nem com os assuntos propriamente ditos, o que

resultava numa sensação de que andãvamos o temro todo às vol

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