SARDADE SE ESCREVE COM R DE CRAUDIONOR: DOSSIt DE UM ESCOLAR
V4l~a de Mo~ae~ V~een~e Uo~~~a
ORIENTADORA: 'fl,t:heJl. ldaIúa. de lJagal.hã.u AIt.o.nJ:.eA
e,.,
Dissertação submetida como requisito parcial para a obte~çio do grau de Mestre em Educação.
Fundação Getulio ~argas
Instituto de Estudos Avançados. em Educação Departamento de Filosofia da· Educação
o
oubr.o na.o ex.Ute:.um
e
a6e
Muonal, aCJLenç.a i.ncWtá.ve1. da Mzão humana. I deYL-ti.dade =
Iteali.dade, como .6e, a6i.nal de· con.:ta..6, .tudo :ti.v~
Ile de .6e1t, ab.6olu:ta. e ne.cu.6aJÚâmente, um e o
mUJllo. Ma.ó o ou:tJto não .6 e deixa eUrni.nM; .6u:b.6~
te, peMi..6te;
e
o 0.6.60 dww de JtOVl.. onde a Mzãopeltde 0.6 dentu. (gJÚ60.6 do autoJtl
EmbOM a Mzão .6 eja comum atodo.6 ca.da um pJtOC!
Vecüc.o
a Octay,iano, meu pa...<., pOJt t:.eJr.., em a.lgum .tugalt, me. du e.jado mut.Jte.;
a MaJvta.. do CaIlmO, minha. mã.e., poJt .6 e.Jt, e.nt.Jte. t.a.nt:.0.6 out.Jto.6 .6 e.
Jtu, . uma c.altna.vilizadolta. .i.nvue.Jta.da;
a údhe.Jt Ma.Jt.i.a d.e. Magalhãu AJtant:.u I m.i.l'Lha. oJt.i.e.nt.a.doJta, pOJt t:.e.Jt c.onó.i.ado ~ pO.6.6.i.b.i..t.i.dadu do .que., em. alguY1..6 mome.nt:.o.6, palte.c..i.a .i.mpO.6.6Zve..t;
a Vav.i.d Tuc.c..i. de. Azeve.do, meu anal.t.6t.a., pOJt ut:.a.Jt me. .i.ntJl.Odu z.i.ndo no m.i..6two.6o Jtuno da pat:.e.Jtn.i.dade.;
. a CJt.i..6.t.i.na Xav.i.e.Jt de Abnuda BOJtg u, am-iga do pwo, pOJt t:.e.Jt no.6 duc.obe.Jtt:.o óJt.i.e.ncl.6 .togo no pJt.i.mÚltO cUa de. aula;
a Am.i.Jt Haddad, meu pJtOÓU.6oJt de .i.nt:.e.JtpJte.t.a.ç.ã.o, poJt te.Jt de mOYl..6t.Jtado, na .6ua pJtátic.a c.o.t.i.cüana, .6e.Jt PO.6.6Zve..t e.duc.aIt
nã.o-Olt-tope.cUc.ame.n,te;
a Antonio. CaJt.tO.6 RodJt-i.guu da Silva, quem .6abe.?, pOJt me. pOA .6.i.b.iWaJt, amoJto.6ame.nte, c.onhe.c.e.Jt o uc.Jtavoc.Jta.:ta. que ha.baa
em m.i.m;
a SU!:>ana, MaUJtZc..i.o e. Lcil6 Oc.t.a.v.iano, me.U!:> . .iJtmã.O.6, pOJt .6 e.Jtem
lNTROVUÇÃO
CAPTTULO 1
ALGUMAS CONSIVERAÇVES METOVOLOGICAS: UMA MtsTRANDA EM BUSCA VO SEU
OBJETO VECONHECIMENTO
CAPTTULO 2
Pãg.
1
8
ALGUMAS CONSIVERAÇVES TEúRICAS: SOMOS TOVOS PUNKS NA PERIFERIA? 15 "
I
CAPITULO 3
VA"ESCOLA PRIMÁRIA Ã SECUNDÁRIA: VO COLO VE VONA MARTA AO BEIJO NA
BOCA EM MEIO Ã ESCAVARIA
CAPTTULO 4
VO VESTIBULAR UNIFICAVO Ã UNIVERSIVAVE: AS MARAVILHAS VO INSTITUTO
QUE VOCE NÃO VIU. OU VIU?
CAPTTULO 5
TEORIA E PRÁTICA: O HtIE
CAPTruLO 6
FINAL VE CARREIRA: A pDs E/OU A PRDpRIA?
A rTrULO VE CONCLUSÃO'
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
24
36
49
58
70
R E S'U M O
, Di~nte da necessidade de definir um objeto de conhecimen to para viabilizar a consecução da dissertação, uma mestranda,
recorrendo
ã
sua própria trajetória enquanto aluna produz, de~de este lugar, não mais um discurso ~obne certos procedimentos
pedagógicos colocados em questão, mas uma fala apaixonada por
. 'sua diferença em relação
ã
que, constitui o discurso que nao aBefore the need to define an awared known object to
afford the accomplishment of the discourse, a thesis writer,
from her very own trajectory while scholar, yields, from thereof,
no longer a discourse pertaining to certain pedagogical procedures
placed in discussion,but a f~rvent say for its unlikeness in
relation to what makes up the discourse that is not aware of
I NTROVU ÇAO .
Sejamos francos.' Ao iniciar~os este trabalho estivamos
de tal forma inseguros a respeito de nós mesmos, como aluno,
. que,' pelp menos aparentemente, só nos restava voltar ao pass!
do, ji que deste terreno talvez fosse possível falar quase sem
erro, e, caminhando neste sentido, buscar localizar onde nos
perdêramos.
Desde entãa, o sinal permanecta fechado e tudo que tons!
guíamos ver era o vermelhoimp~dindo gue seguissemos viagem por
um 'certo caminho.
Sendo assim, fomos ate o Jardim de Infância e viemos, pa~
so a passo, nos aproximando do momento em que Bra nos encontra
mos, ou seja, o Curs6 de Mestrado.
A nossa musa inspiradora foi, portanto, a nossa. própria
trajetõria ~scolar ..
Alem da insegurança na qual nos 'sentiamos mergulhados, era
possivel identificar, ainda, um profundo ressentimento com re
laçio i Escola, a qual passou, a partir de então, a ser a nos
sa interlocutora. Se fosse o caso de tentarmos resumir· em po~
cas palavras o que ~os motivou a realizar esta pesquisa, diri!
mos que estivamos precisando bater um papo muito serio com a
Escola para saber q u a i s ti n ha m s i"d oa s suas i n te n ç õ e s a nosso
cerca de vinte e cinco anos de freqUencia praticamente diãria,
q u a n tas c o i s a s não di" tas, mal d i t.a s e a tê. bem d i tas não t e r i a
mos para dizer-lhe?
Estãvamos imbui dos da certeza de que deviamos a Escola
term~s conhecido ali grande parte dos nossos amigos e termos
adquiridos alguns conhecimentos esparsos e definitivos:
Escola: Quem descobriu o Brasil?
Aluno: Pedro Alvares Cabral.
Escola: Quanto ê dois ve~es dois?
Aluno: Qua tro.
Escola: O s entre duas vogais tem som de que?
Aluno: De" ze.
Escola: Em que região do Brasil estã localizado o Rio
Amazonas?
Aluno: Na Região Norte.
Escola: Para que serve a vacina?
Aluno: Para prevenir doenças.
Na tentativa de estabelece.r um diãlogo com a Escola o que
vem a tona ê um monólogo gravado nas nossas mentes qual tatua
gem: a professora' copia a tabuada no quadro-negro e o aluno,
qual mãquina xerox, imprime aqueles sinais codif{cados no pe~
" .
sarnento. Acabamos 'nos transformando, professores e alunos, num
3
.
tas para as quais já .têm respostas, e os segundos, de olhos no
~el~gio e ouvidos na sineta, eSperam ansiosamente pela hora do
recreio e pela hora da saída.
Ir
ã
Escola, no entanto, se tornara, para nos, um gestotio ~atural quanto comer feijio com ·arroz nos dias ~teis e ma carrio com carne assada nos dias in~teis.
Talvez o nosso objetivo, ao dar início a este trabalho,
fosse fazer as pazes com a Escola: colorir ·as fotografias que
apareciam amarelecidas pelo tempo com cores vivas e estimulan
·tes; expressar a nossa perp~ex~dade "diante do fato de que emb~
ra :viissemos freqUentando este lugar hi muitos e muitos anos,
ele continuasse sendo desconh~cido para nós; falar da' nossa i~
dignaçio pof terem nos tratado, ano após ano, como seres inca
pazes de pensar por co~ta pr~pria; busca~, na ~rática, um ou
tro lugar para o alun~, no qual nio mai·s f5ssemos confundidos
com a máquina-xerox.
Andávamos, entio, atrás do resgate de uma escritura que
nos caracterizasse enqu~nto singularidade. Essa andança,porem,
esteve, desde s·empre, permeada pelos muros da academia, lugar
onde tem priviligio o discurso articulado segundo um mitodo
que, em nome da objetividade científica, se acostumou a prior!
zar o geral em detrimento do particular.
Neste lugar so se tem olhos para aquilo que os olhos es
tio acostumados a ver e ouvi~os p~ra o que se esti habituaao a
mas um outro, diferente daquele que se mira, a tendência e qU!
lificã-lo como não competente.
Competente, portanto, é o aluno capaz de deixar-se for
jar i imagem ~ semelhança do discurso que ali se pretende trans
mitir. ,
No momento em que demos inicio a este trabalho jã nao su
-portávamos ser tratados dessa forma. Em função disso nos colQ
camos como objetivo fundamental resgatar, através da escritura
da dissertação, a possibilidade de uma fala própria, partindo
do pressuposto de que existe um saber que"é produzido desde o
lugar do aluno, ainda que nao reconhecido pelo discurso domi.
nante.
o
que estava em questão era o aluno-mãquina-xerõx em busca de um outro lugar no qual fosse viável se pensar de uma ou
tra forma.
Considerando ser nosso alvo nao o Dia D da Educação e sim
o çotidiano, como transitar do aluno-máquina-xeróx para um ou
tro aluno, senão enveredando por caminhos diversos daqueles que
a princ1pio estavam send~ propostos e que, regra geral, aca
bariam produzindo resultados sem~lhantes aos que .estãvamos bus
cando problematizar?
Nesse sentido, nao nos propusemos a produzir um discurso
sobre"a questão qua nos ocupava, mas a instituir, na prãtica,
5
Durant~ este percurso muito nQs chamou a atençio o fato
~e que nesta circunstincia, corihecida desde Platio por acade
mia, o individuo - ao nomear o objeto que pretende estudar - se
•
torne objeto de um determi nado ·procedimento di scursivo,
o qual passa, a partir deste momento, a ocupar o lugar de su
,
·jeito.
Sujeito e objeto invertidós, somos, inevitavelmente,elei
tos como porta-vozes de uma racionalidade que acabamos por as
sumir como se natural fosse e, nesse sentido, nada pudessemos
fazer a respeito"
Ta 1 procedimento, dentre outros,
e
responsãvel pela constituiçio de um saber que tende.a funcionar como uma especie de
escudo protetor daqueles ~ue dele se apropriam, dificultando,
ou ate impedindo, por outro lado, a emergincia ~e discursos ou
tros que nio se constituem segundo a me~ma lei.
o
objeto-sujeito desta pesquisa e o aluno-mãquina-xerôxa caminho d~ um outro, ainda nio definindo, e que, talvez, nio
viesse a se definir durante o desenvolvimento do trabalho na me
dida em que nio' pretendTamos a un~Versalizaçio de um trajeto
que nos foi necessãrio trilhar durante um determinado momento.
Tendo partido da nossa trajetôria escolar, e nao ~e'cate
gorias que nos leva~sem a interpretã-la desde um lugar previ!
mente definido, sô nos foi possivel, como sujeito dessa inves
Percebemos então que o aluno que buscávamos esteve prese~
te do Jardim de Infirrcia ao Curso de Mestrado. Nem sempre CO!
respondendo às expectativas da. Escola, acaba sendo marginaliz!
do na medida em que a mesma não tem condições de comportá-lo.
. De s e j ã va mos, a i n d a, p r e s t a rum a h o me na g em. a B á r t h e s , o
Roland, que nos fora apresentado atrav~s de Fragmentos de um
Discurso Amoroso, livro em que o personagem central, o sujeito
apaixonado, ~ constitutdo pel~ montagem de trechos de origem
diversa ..
Pensamos, num primeiro momento~ seg~indo a trilha aberta
por Barthes, em instituir uma fala, a de um certo aluno, atra'
ves da composição de textos diverSificados relacionados
ã
Esco1 a •
Optamos, porem~ pela produção de um texto cuja estrutura
favorecesse a explicitação da questão que nos ocupava.
Paulatinam~nte os fragmentos escritos por' n5s inspirados
de. nossa trajetória escolar foram sendo costurados num texto
que foi se dividindo em capttulos de acordo com os difer~ntes
graus constitutivos do processo de escolarização e as diferen
tes questões formuladas em decorrência do mesmo ..
Devemos con1essar que as dificuldades encontradas na ar
~anização do material que ia sendo produzido for~m inGmeras,
principalmente devido ao fato de que não era intenção nossa,
de forma alguma, em funçã6 das razões já apresentadas, proc!
7
tin o que con~eguissemos fixar dos ensinamentos que nos fossem transmitidos.
Optamos por repensar tudo aquilQ que tinhamDs aprendido com a Escola, fascinados pela possibilidade de fazê-lo de uma 'forma' sin,gular, sem esquecer, no entanto, de pedir-l he permi~
sao para enveredar por caminhos não tão familiares como aqu! les que nos eram apresentados.
Resta-nos, nesse sentido, pedir passagem, achê!, e decer, Adoniram Barbosa por ter nos emprestado o verso que
titulo a este trabalho.
agr~
CO~SIVER~ÇDES
EM
BUSCA VO SEU OBJETO VE CONHECIMENTONem a altura nem a profundidade mas a superf;cie. A es
colha do sentido lateral que se espraia ao largo. Da
segunda-feira. A letra regional, e tão, que so os ,moradores da Tijuca
e arredores sabem a que Largo me refiro. Deixemos aos meios
,de comunicação de' massa a P9ssibi1id,~de do exerc;cio do univer
.
.
sal. Nõs daqui pretendemo~ tão-som~nte nos comunicar com o vi
zinho do apartamerito ao lado.
Não se trata, no entanto, de uma cooversa informal sobre
a novela das oito, na medida em que todo o tempo se faz ·neces
sãrio, inevitavelmente, levar em consideração o lugar em que
este discurso estã se produzindo, qual s~ja, a academia.
Do seu interior, o departamento onde a massa encefãlica
que Zeus nos deus se areia movediçame~te ~ o vulgarmente conhe
tido, entre, os antigos eruditos, pe·lo nome de Sophia. Favor
não confundir com a Loren, que
e
de outra ãrea. Embora tenhasido vista, no ~ltimo fim de semana, num ponto de 5nibu~ ali no
Catumbi, perto do cemit~rio, folheando o Ba~quete. ~a entrevi!
ta i repõrter da Rede Globo, a atriz ~e mostrou decepcionad;!
sima com o autor, Platão, pois comprara o livro certa de que
9
tava or~anizando para a comemoraçao da estriia do seu filtimo
fil me.
Recomeçam as filmagens. A outra cena está sendo rodada
numa área de não sei quantos metros quadrados que resultou da
desapropriação, pelo gover~o municipal, de um sem nfimero de mi
nfisculos proprietários privados, que·agora, de seu, não tem na
da mais a esperar da vida alim do reino dos ceus. Isso se (o
rem perdoados de todas as suas escorregadelas nos paralelepíp!
dos molhados do reino das terras~lheias. Ide em paz e que
Deus vos acompanhe~
Quanto,a nos, a vontad~ e escriturar uma coisa g~ande,de
-centenas de laudas. Ei-la: se vôs. permanecerdes acreditando na
existência da verdade nua e crua, podemos assegurar que 'não e
'aqui, dentre estas letras, que vais 'encontrá-la. A não ser que
estejais disposto a procura-la conosco, caro leitor, porques~
zinhos nôs não podemos dar continuidade a busca tão sem futu
ro.
Apesar disso e nosso dever' seguir, ainda 'que, em alguns
momentos, nos escape totalmente o 'sentido desta investigação.
Sem falar no compromisso que temos de apresentar um produto que
seja reconhecido como uma disse~tação de mestrado.
Tudo começou quando, para dar início a expedição (no fun
cada, como po·nto de' partida, a necessidade de definir um obj!
to. Desde então, nao cessamos de interrogar-nos, e aos outros,
sobre o que vem a ser tal coisa. Chegamos a pensar que
rlamos encontrá-lo nos'valendo dos sentidos, embora tivéssemos
presente que, segundo certa corrente filosófica, nossos senti
dos não captam mais q~e a aparência das coisas, donde corremos
o risco de, confiando em pura percepção, 'viver só de
cias.
apare.!!
Resolvemos, apesar das advertências, correr esse risco,
.pois, no momento 'em que nos, encontrávamos, a unica coisa que
no~ parecia verdadeiramentci verdad~ira e digna de confiança era
o mundo vislvel a olho nu, isto é, a olho não-vestido.
Nesse sentido, passamos a relatar a]gunas das experiê.!!
cias que atravessamos na tentativa de enc'ontrar um objeto de
estudo ao qual pudéssemos entregar-nos de corpo e alma.
Após algumas investidas fracassadas, resolvemos retomar
a busca, começando, dessa vez, por detrás da porta. E qual nao
foi o nosso espanto quanto demos de cara com um dos maiores com
positorei ~a mGsica popular brasileira, o nosso querido HOLAN
DA, o Francisco Buarque de, dedilhando "quando olha.6.te.6 bem n0.6
olho.6 meu.6 / e o .teu olhaI!. el!.a de adeu.6 / j UI!. o qu.e nao aCAeQ.Ltu/
eu .te e.6.tl!.anhei/ me.debl!.ueei .6obl!.e ••• "
Depois de uma curta intervenção ocasionada pela perda rnQ
11
çio que sentimos ao· esbarrar inesperadamente com o Chico, em
carne e osso, continuamos busc~ndo, dessa vez embaixo da cama.
E nio houve jeito. Tivemos mesmo que. pegar 'dluma, digamos, duas
•
vassouras e varrer aquela poeirada que ·ali tinha· se acumulado
durante a crise do final da dica da .de vinta. O capitalismo,e~
. tio,'ji ~io fazia o menor sentido, embora, 'curiosamente, poucos
se dessem conta de um fato de tamanha relevância.
Demos uma saidinha para tomar um pouco de ar, por causa
da alergia, e encontramos VELOSO, o Caetano, na esquina de Nos
sa Senhora de Copacabana com Siquei~a Campos se queixando ao
Capital por nio conseguir entehder ~u~ l5gica. Identificamo-nos
co~ a queixa, dissemos good bye e vnltamos pausadamente i casa
p a r a j o 9 a r no 1 i x o o r e s to de' p o e i r a que t i n h a . f i c a do n o c a n t j_
nho do corredor. Mas nio. O objeto tambim nio estava embaixo
~a cama de papai e mamae. Manh~~~~~:!! Desabamos num pranto
que i primeira vista parecia incontrolãvel.
Quem sabe no armãrio do banheiro? Galopantemente fomos
abrindo o dito cujo
de-va-gar-zim-e-no-can-to-su-pe-ri-or-es-quer-do-ba-te-mos-os-o-lhos-nu-ma-mar-~a-ri-da-de-mi-o-lo-ver
de-es-pe-rafl-ça-e-p~-ta~ro-sa-cho-que-e~fo-mos-des-pe-ta-lan-do
nos-em-bem-me-quer-mal-me-quer-bem-me-quer-mal-me-quer.
r?
Tinhamús coisa mais sirie com que-nos preocupar.
Em vista do acontecido resolvemos escrever uma carta a
nossa orientadora e relatar-lhe, o ma~s detalhada e sinceramen
na tentativa de produzir uma dissertação de mestrado que fizes
se jus ao titulo de mestre ao qual eramos candidatos em pote~
cial.
Senhora Orientadora
. Vimos por meio desta comunicar a V.5a. que apesar de to
das ~s expectativas em contririo, continuamos desesperados,co!
r~ndo atris de um objeto que a cada cehtesimo de segundo que
passa parece estar mais distante de nõs.
Muito nos'constrange continuar 'importunando V.5a.comque~
tão de tamanha irrelevãncia, ,mas o fato e ~ue não sabemos mais
o que fazer: quanto mais temos por' intenção concentrar-nos em
tema digno de ser desenvol~ido em pesquisa que tenha por resul
tado uma dissertação de mestrado qye, inclusive, deveri passar
por julgamento baseado nos criterios vigentes nesta ilustre ac~
',demia para a qual V.5a. presta servi-ço, mais tendemos
ã
dispersao.
Precisamos, mais que nunca, de sua orientação, e esper~
.
mos poder contar com a sua boa vontade no trato com pessoas,
entre as quais evidentemente nos"inclulmos, que, segundo ouvi
mos ,dizer, nos corredores, não têm' lndole para a carreira aca
dêmica.
Aproveitamos o ensejo para mandar lembranças
ã
fa~llia ereiterar que logo que a situação econômica nos permita prete.!:).
demos enviar-lhe os presentes que ficaram prometidos por oca
sião do Natal.
-~._----13
Agradec~mos sensibilizados a ~ua preciosa atenção.
Uma mes tra n·da
Resolvemos, para adiantar o serviço, bater na porta do
discurso acadêmico: quem sabe ele nao poderia nos dar alguma
dica?
TOC~ TOC~ TOC! Abra a porta~ Please~ Nada~ Abracada
bra~
E
muito importante! Precisamos muitoV.Exa.! Abra a p~rta~ ~or favor~
conversar com
Continuamos batend6 durante horas a fio. Qu~ndo jã esti
vamos quase por desisti~, ouviu-se uma voz:
- Pois nao. Podemos lhe ser ütil em alguma coisa?
Trememos nas bases. E agora?
- E
que •.. Bem ... Precisamos escrever uma dissertação enos disseram que V.Exa. poderia nos dar uma orientação. Esta
mos tão perdidos!
Objeto~
Deus do Ciu~ Isso e que i objetividade!
- Bem ... O problema, quer dizer, um dos problemas que vi
mos enfrentando i juitamente ess~, nio en~ontramos o o~jeto e
tememos que jamais consigamos descobri-lo.
Nesse caso, por ora, nio podemos fazer nada por voce.
Continuamos, no entanto, inteiramente disponiveis. Com. licen
ça.
E fechou a porta., ainda que n~o tenha sequer se dignado
a abri-la. Foi uma pena porque nos estãvamos curiosos para sa
ber como ~ra a decoração da sala.
D~mos meia-volsa-valver frustrados ati nao poder mais.
I
A frustração deu lugar, paulatinamente, a uma perplexid!
de. desmesurada que ora nos dispomos a compartilhar convosco,
caro leifor, pedindo-vos que coloque um "X" na resposta que jul
gar a mais adequada:
o
O objeto nao existe.[] O objeto nao estã onde nos pensavamos ·que ele esti
CAPTTUL02
ALGUMAS CONSIVERAÇVES TEORICAS:
SOMOS TOVOS'PUNKS NA PERIFERIA?
Va6 6~da4 que a pob~eza-~, ~ou o p~ Sou o ,que de ~u:t.o ~utaJúa ao~ Mub~
Puz po~ -i..l>~o mumo ute b.e~ã.o ea.Jtni..ç.a Fiz no ~o~to ute make-up põ c~ç.a
Qulz tMz~ ct6~hn no~~a dug~aç.a ã. luz
i~ cabelo Upo Zncüo moicano me ap~z
Sab~ que el',;(jtaJtemo~ pelo cano ~a..ti.l, 6az Võ/> t~w um padlte p~ JLeza/~ a mú.,~a
Vez m.i.nuto.6 antu de v~ 6umaça Nõ.6 ocup~temo~ a P~ç.a da Paz
T~o tixo, c~o po~c~a, tenho dó
Va upe1ta,nç.a vã. da minha Ua., da. vovõ E.6go:tado.6 O~ pod~u da ciência
E.6gotada toda nO.6.6a pa.ciêncla
E.U que uta cidade e: um ugoto ~õ
Sou um punk da p~óenia
Sou da 6~eguula do
ó
O õ õ
aq~ p~ voeiSou da. 6Jteguula
C e n t o e, t r i n ta ' mil h Õ e s d e p e s ~ o a s c i r c u 1 a n do na p e r i f! ~ia do lance. Exportam para o centro o que de melhor e prod~
zido aqui. Do 1 lXO do que é produzldo no centro consumimos tan
to o Bactrim como o que o intelectual estrangeiro dispensa a
respeito do sexo dos anjos. Engolimos tudo indiscriminadamen
te como se a fome fosse tanta que quando pinta o alimento,qual
quer, jã putrefeito pela distância entre,o local de produção e
o de consumo, traçamos tudo sem sequer dar-nos tempo de sen
tir-lhe o odor.
r
isso, mas' fica faltando o outro lado que podemos chamar, provi~ori~mente, de estra~egi~ de sobrevivencia do domina
do.
Esta estrategia e a responsãvel, por exemplo, pela prod~
çao, por um poeta popular, de uma histõria de curdel na qual
ao chegar i lua os astronautas depapara~ com são Jorge defen
dendo a ãrea. Depois de muita briga os americanos se
ram, deixando, de presente pro santo, o vírus da gripe.
manda
o
cordelista se inspirou na histõria da chegada dos europeus i América:' em contato com os'~ortugueses, espanhõis, ho
landeses e franceses, os nativos adoecem. Fato é que aprendem
a falar o português e chegam i Assembleia Legislativa na pe~
soa do Cacique Juruna, que quase tem o mandato cassado por di
zer o que pensava a respeito do Presidente da RepGblica.
Na Escola, trazida para o Brasil pelos jesuítas, aprend~
17
deram com sangue: que quem descobriu o Brasil foi Pedro Alvares
Cabral.
Fato e, porem, que o Brasil jã existia. Só foi descober
ta para quem não sabia.
Mas os portugueses dormiram no ponto e foram atropelados
pelos ingleses cujo know how em materia de pirataria era,jã n~
quela epoca, bem mais avançado. Apesar do seu notório saber a
respeito do assunto, os ingle~es foram, te~pos depois, super~
dos, qualitativa ~ quantitativamente, pelos americanos que,nos
dias atuais, são os nossos principais credores e têm, como seu
representante legitimo, o Doutor Fundo Monetãrio Internacional.
.Na Escola os programas parecem ter sido elaborados por
algum daqueles ideõlogos da Revolução Francesa - quem sabe o
Robespierre? - porque todo o tempo a voz que ouvimos fala de
coisas que aconteceram em outro lugar que não onde estamos sen
tados, a carteira, lãpis em punho, copiando tudo aquilo que a
professora escreve no quadro negro.
Mesmo quando, em Geografia, estudamos os rios braSi 1 ei
ros, aparece o Rio Amazonas ao inves do Canal do Mangue, situ~
do al i na Avenida Presidente Vargas em frente ao ·predio da Pr~
feitura, vulgarme~te conhecido pelo nome de Piranhão pelo fato
de ter sido construido sobre os escombros do local de moradia
Essa a ~ultur~popular que nao perde nada de vista, que
nao permite que nada passe em branco. Cultura que anda pela
rua, a pe, de tr~m, de ônibus, de metrô. Poucas vezes de taxi.
Raras de avião. Emborá quem sõ ande 'de avião, por vezes, tam
bem se expresse popularmente, de um jeito envergonhado, tranca
do a sete chaves.
I o caso, por exemplo, deum certo Ministro do Planej!
mento que, segundo ouviu-se.dizer, gosta de se vestir de baiana
na calada da noite.
.
.A diferença entre o ex-mjnistro e um passista da Manguei
ra .e que este esca.ncara 'a alegria' na avenida que hoje virou APE.
teose e aquele sõ roda a baiana para os lntimos. O passista b!
be Pitú e o ministro ulsque escocês porque tambem tem malandra
gem ~ sabe que do nacional a ressaca e braba.
,Somos todos brasileiros?
Ser brasileiro quer dizer que, às claras ou as escuras,
havemos de ter coisas em comum. Tem coisas da cultura
verde-amarela-~zul-e-branca que não escapam a nenhum de nôs. ~esse
sentido podemos utilizar-nos da primeira pessoa do plural sem
erro.
Ao falar dos brasileiros e preciso, pqrem, c~nsiderar o
nlvel da luta de classes e não insistlr em chamar o Brasil de
pals em vias de desenvolvimento~ tendo por referência os pai
19
. ta1ista fosse o mesmo em ambos os casos, isto e, como se os
palses em vias de desinvolvimento, ou subd~senvolvidos,fossem,
um dia, chegar a ser desenvolvidos.
Onde o progresso que exclui do seu bOjo a maioria esmag~
dora da populaçio mundial? De que nos adianta ter invent~do o
sabio em pó e a mãquina de lavar se a maioria das mulheres do
Terceiro Mundo continua lavando roupa com sabio em pedra às margens
da Lagoa de Abaete?
Marx, o Karl', bastante mobilizado pelos sofrimentos dos
seus contemporineos menos favorecid6s, depois de muito estudar,
concluiu que o mundo estã dividido em duas classes antag6nicas:·
proletãrios e burgueses. Os prime'iros vendem aos segundos o
que· 1 h e s r e s ta, a sua f o r ç a de t r a ba 1 h o , a te que, no
sao jogados fora com o nome de aposentadoria.
bagaço,
Cresce O capital de um lado e do outro o Exercito Indus
trial de Reserva ·que permite ao empregador manter o ·salãrio
aq~em do minimo necessãrio para a reproduçio da mio-de-obra.
sã na America Latina existem hoje cerca de 500 milhõés de
desempregados. A mio-de-obra economicamente ativa, na ativa,
parece ser em menor numero. O trabalhador, assal"ariado ou nao,
ê tio descartãvel.quanto lenço de papel Yes. O que mais cres
ce no pais e mendigo. Hoje, na Cidade Maravilhos.a, este cida
dio fáz assembleia .e v·ai ate o Palãcio G'uanabara em passeata
exigir d6g6vernador a proteçio da poltcia aos assaltos cons
Toma banho e lava roupa no chafariz da Praça Paris;alimenta-se
dos restos de comida encontrados no lixo das lanchonetes do
Bob's; nos ônibus, já não pede esmola, exige, alegando que e
mel hor isso .. do que roubar; di scrim'Í na-se do ladrão, mas secon
funde com o desempregado que também pede justificando nao ter
outra alternativa~
Quem sabe, sabe. Quem nao sabe, inventa.
Stanislaw Ponte Preta, no Samba do Criolo Doido,
Tiradentes com a Princesa Leopoldina. Está certo? Está erra
d01 Se fosse prova de Hist5ria da arasil a professora dava ze
ro. O samba fez o maior sucesso; Questão de lugar.
Se os historiadores contam a hist~ria do jeito deles, eu
conto do meu e pronto. Está acaba~o. Questão de escolha. Opção
pelo zero?
No ginásio aprendi com SILVA, o Joaquim, que Caxias trans
formou-se no· her~i da Guerra do Paraguai. Anos depois li em
GALEANO, o Eduardo, ~ue o 'Paraguai era, então, ri ~nico pals in
.
.
dependente da América Latina e, pelo fato de sê-lo, se recusa
va a comprar produtos industrializados da Inglaterra em troca
da venda de materia-prima. Pois b'em,a Inglaterra· al~mou a maior
estratégia e o Brasil, a Argentina e o Uruguai entraram na his
t~ria de gaiatos. O Caxias saio her5i e o Paraguai ficou arr! sado no mlnimo porque a guerra deu conta .de grande· parte da PE,
'pulação masculina econ5mica e sexualmente ativa.
21
o
Joaquim conta a histõria de .um jeito, o Eduardo contade ou t r o e a V ~ 1
e
r i a s·õ s a b e , d e f a to, que p a r a g u a i o o d e i a b r asileiro.
A Escola, dependendo da conjuntura, considera o que Joa
,qu.imfa10u ou o que o Eduardo disse.· O qu~ a Valéria sabe, em
bru1ha e joga no lixo" Não
e
saber.Dona Escola!
Vamos parar com essa história de que o jeito de contar
, h i s t õ r i a i g u a 1 ao' que e s t ã ~ s c r i t o no s 1 i v r o s é que v a 1 e no ta
lO? O que está pub1 icado está cerfo., O que pub1 icado não foi
e a pura verdade.
Quem sabe, faz. Quem nao sabe, ensina.
Fato é que a cada cem crianças l~tino-americanas que' en
tram para a Escola, mais da metade sai s~m saber ler nem escre
ver.
Escola existe para transmitir conte~dos prontos e acaba
dos. Quem aprende, aprende. Quem ,nã6 aprende, dança. Vai ser
lixeiro ou 'empregada domestica. Quem não tem competincia nao
se instala. Competincia para que? A filosofia ê a do salve-se
quem puder.
A Escola, o tempo todo, nos av~lia baseada em critérios
dito objetivos. A tal objetivida.de, no fundo, investiga da no~
sa competincia para engolir, por inteiro, o produto que nos e
Conjugue o verbo ser no Presente do Indicativo!
Eu sou
Tu
-
esEle e
-Nós somos
Vós sois
Eles sao
Quem somos nós afinal?
A Escola num pats periférico se distingue da Escola num
~
palS central?
Numa universid~de francesa o estudante tem oportunidade
nao só de le~ o Tristes Tr~pitos como de ouvir o auto~ falando
sobre o assunto'em carne e osso.
Aqui, nos tristes trôpir.os, por vezes sequer temos condi
çao de comprar o livroindi'cado pelo professor. Apesar de nos
terem dito, em diversas oportunidades, que a bolsa de estudos
e
p a r a cobri r . 9 a s tos referentes a os e s tu dos , na" p rã t i c a ela a c ~ba sendo utilizada p~ra o suprimento de necessidades bãsicas:
moradia, alimentação, transporte, vestuãrio e higiene. livro
virou superfluo. Disco tambem. Teatro e cinema idem. Não fa
zem parte da cesta bãsica.
Nas domingueiras do Circo ·Voador.onde o Carequinha foi
23
VONA MARTA AO BEIJO NA BOCA
EM
MEIO ~ ESCAVARIAA Escola Campos Sales ficava na Praça da República perto
da, caSa de nossa av5 Belmiia, que mora~a na Rua da Alfindega e
tinha pensão para comensais e dormit5rio.
Nos finais de semana constumãvamos passear na Praça e l!
var comidinha para as cotias que naquela epoca eram em maior
número que nos dias atuais.
Entramo~ para o Jardim de Infincia com seis anos. Março de mil novecentos e sessenta e um .. Rio de Janeiro, Bt'asil.
Em dias comuns, depois do recreio, as crianças tinham que
escovar os dentes com uma e~cova que tinha 'o nome da gente es
crito num pedacinho de esparadrapo. Essa escova de dente,al~m
de outros objetos de uso pessoal, ficava guardada numa bolsa de
pano xadrez de azul ~ brancd com o riome do aluno bordado do la
do de :fora em verme 1 ho.
Dia da Festa ~
Em casa tlnhamos insistidci com nos~a mae que querlamos
ir de roupa nova. Uma roupa que'tinha .sido presente dela: saia
'plissada cor de rosa e blusa de malha azul clara. Nosso pai nos
25
.
sempre, tinha. razao·:sõ poderiamos entrar uniformizados.
Mês seguinte mudamos para são Paulo. Papai fora transfe
rido na firma onae trabalhava: Squibb Produtos Farmacêuticos.
Mamãe, nós e nossa irmã fomos transferidas por causa da trans
ferência dele.
Papai hoje esti aposentado; perdido como nunca.
Nós continuamos estudantes; pensando, ainda, no que va
mos ser quando crescermos.
São Paulo. Primeiro de Maio.
Ficamos hospedados no Hotel São Paulo, no centro da cida
de'.' Apesar do frio, muito, fomos para a rua assistir o desfi
le que homenageava os trabalhadores~ Muita cor passando pelos
'olhos dos espectadores que eram em grande numero.
No Hotel o que tinha de ótimo era tim bife redondo com al
guns centímetros de altura que, de tão macio, quase não precj.
sava de faca.
Da; nós mudamos para a Praça '14 Bis e mamae matriculou-nos
no Colegio Dante Alighieri.
Alguém disse para mamãe como era o uniforme. Napo rta
de entrada fomos informados de que para chegar ao Pre-Primirio
deveriamos seguir em frente e, no final do corredor, dobrar
-
aHora do "recreio. Todos, quase sem exceçao, brincavam de pique.
Correria desenfreada. Atravessamo~ o pátio e chegamos ao Pre.
Fomos recebidas por uma senhora alta e cheia de corpo que usa
va óculos e tinha os cabelos curtos"e penteados em laquê.
Marta era o nome daquela professora.
Mamãe deixou-nos sob os cuidados de dona Marta e foi em
bora.
Dona Marta"estava ensinando ã" turma uma mfisica para can
tar no Dia das Mães. Cada vez que çomeçava a cantoria nos co
meça vamos a chorar. Quando chorávamos, dona Marta nos pegava
no colo. Quando dona Marta nos pegava no colo parávamos de ch.2.
raro
sE
par~u a choradeira quando entramos no mes de junho.Do Pre-Primário ao Clássico os anos passaram pelo Colégio
Dante Alighieri com a cabeça funcionando tipo miquina xeróx.
No Curso de Admissão~ para uma prova de História do Bra
sil cujo tema era "A"Rep~bliea", decoráramos os nomes de todos
os presidentes que o Brasil tivera desde 1889, "as obras reali
zadas em cada governo, as virgul~s, os ponto-e-virgulas,os po~
tos sem virgulas e os ponto-parágrafos. Quando nos esqueci~
mos de uma palavra tentávamos lembrar-nos do lugar na pigina
onde ela se encontrava, até que a dita cuja viesse
ã
tona.Decorávamos tudo que transitava pelos nossos· olhos. Do
"abecedário
ã
Divina Comedia. Começamos a odiar Dante e Beatriz27
radora. Antes nunca tivessem existido.
Pesquisar jã estava em moda nessa epoca. A professora
propunha o tema
â
ser pesquisado, individualmente ou em grupo.No segundo caso era muito mais divertido. Geralmente nos reu
nlamos aos sãbados. Cada sãbado era na casa de uma e a hora
melhor de todas era a 'do lanche: bolo, refrigerante,sandulche,
bomba de chocolate e de creme. De resto, copiãvamos da enci
clopedia tudo o que ali aparecia sobre o as.sunto. A nossa maior
preocupaçao era com a parte visual: as letras grandes e pint!
.das com goache, o's desenhos1 as cola·gens. Ficava uma beleza!
Serã esse cuidado 'porque s~ tinha menina no grupo?
r,
porque as turmas eram femininas pela ~anhã e masculinas a tarde.
Eramos todos, ou quase, meros objetos de decora(r)ção. Mui
tó bem uniformizados - usavamos até grav~ta! -, fazTamos fila
p a r a i r a t é a sal a d e a u 1 a o n d e c a da um ti n h a c a r t e i r a f i xa po r
todo o ano. As eventuais trocas de lugar ficavam a cargo da
professora quando algum corajoso j~su~gente se rebelava contra
a milenar disposição.
o
Colégio Dante Alighieri era frequentado pela fina .. flor . .da sociedade paulistana, classe media-media e media-superior.
Esta última confundia-se com a classe' dos burgueses, divididos,
por sua vez, em novos ricos e quatro~entões. Os Gltimos eram
melhor vistos por todos, incluindo-os, porque a sua r-iqueza era
Es"tãvamos incluídos na camada media-media e, para compe!!
sar a diferença de classe - ainda não sabiamos que nada compe!!
sa" coisa alguma -, tirivamos medalha de ouro todo ano. Retifi
. cando: ouro não, banhada a. Hoje temo~ serias d~vidas ~a res
peito do material utilizado no banho. A unica certeza
-
e queas medalhas resultavam numa cor que lembra a do ouro.
Embora, na opinião d~ professora, tivessemos nivel para
cursar o primeiro ano ginasial, mamã~ achou melhor fazermos O
C u r s o d e A d m i s são c o m o um r e f o r ç o p a r a c h e g a r mos a o G; ni s ; o ma i s
preparados. Concordamos com mamã~ p~rque o Ginásio, para quem
estava no Primário, realmente era um monstro de tantas cabeças
quanto
o
numero de p~ofessores somado ao de professoras.Aluna que nunca tevé profe~sor quando pinta se apaixona~
. Fomos apaixonados durante pelo menos quatro anos pelo nos
so professor de Português, o Lelio. "
Um belo dia ele pediu a cada aluna para escolher uma po~
sia, decorá-la e interpretá-la para apresentar diante da turma.
Escolhemos uma poesia do"Vinicius de Moraes que saira public!
da no Pasquim, jornal que, na epoca, estava na "crista da onda.
Embora achássemos a poesia muito bonita, nao entendêra
mos muito bem o que o autor estava querendo dizer será "que ele
realmente estava querendo dizer alguma coisa? - e pedimos a p!
29
No momento em que surgira uma.oportunidade de mostrar ao
professor o quanto n5s o amiva~os,lançiramos mio do que imag!
navamos ser a no.ssa melhor qualidade: a de decoradores.
o
principal critério utilizado para a escolha da poesiafora. o tamanho: eram para li de meia centena de versos!
Na hora da interpretaçio, em que pOderiamos mostrar-lhe um
pouquinho de n5s, o que apareceu em cena foram as palavras de
papai, copiadas e lidas para o professor e a turma!
Ao final dó Ginisio apresentavam-se-nos nao mais que duas
alternati~as:o Clãssico e o tientlfico.
Optamos pelo Clissico (talvez fosse mais adequado dizer
que o Clássico optou porn5s) porque gost~vamos mais de Portu
gues que de Matemitica e porque a nossa melhor "amiga, com a
qual estudãvamos desde o Pré, estava tomando esse rumo.
No primeiro ano fomos convidados, por uma colega de tur
ma, para entrar num grupo de estudo cujo objeto fundamental era
um livro que se dividia em duas parte~:a primeira: do feuda
lismo ao-c~pit~lismo; a segunda: dó capitalismo ao ..•
Estudávamos cada capitulo grifando as palavras, as fra
ses e os parágrafos que conside~ivamos importantes, aindi" que
nao soubessemos muito bem para que. Nas reuniões cada um lia
para os outros as partes que tinha assinalado, eram
novos dia e horário e estava terminado 9 encontro.
Nin viamos a hora de chegarmos naqueles tris pontinhos~
Tal.qual uma galinha que de grao em grao enche o papo,
nos, de capitulo em capitulo, 'lamos .desvendando os misterios do
capitalismo, ate che, chegando is ... , começamos a nos questio .
-nar $obre o que faze~ com o marxista que, desde então, pass!
ra
a
conviver conosco.Um primo nosso, o Armando, estudàra no Conservatório de
Teatro e, hi virios anos, assistiramos uma montagem do rdipo~
Rei, feita pelos alunos, na qual ele interpretara o papel de
Creonte, que nos deixara simplesm~nte fascinados.
Quem sabe atraves do teatro não consequiriamos aliados
para engrossar a luta. pela .emancipação politica da classe tra . ' .
balhadora?
p·e n a e s t r a da,. v i mos de mal a e c u i a p a r a o R i o de J a n e ;
ro e ingressamos na Escola .de Teatro da Federação das Escolas
Federais Isoladas do Estado da Guanabara, antigo Conservatório
de Teatro. Curso de' Formação de Ator. 1972.
Na Escola de teatro era tudo diferente do conhecido. Em
bora nos vissemos diariamente, nossos encontros revelavam lon
gas separaçoes; os cumprimentos eram extremamente calorosos;
beijos e abraços a perder de vista.
Eram muito comuns os beijos nà boca, mesmo e~tre pessoas
31
um rapaz que conhecêramos hã pouco ~empo que, um belo dia, nos
deu um beijo na boca em meio à ·escadaria que dava acesso à Es
cola. Ele descendo, nõs subindo. Ele saindo, nõs chegando. Qu~
•
se rolamos escada abaixo! Não entendemos nada: ainda estãvamos
no primeiro semestre letivo. Pouc~ a pouco fomos sendo intro
. duzidos naquele universo que, a princlpio, ·soara como alguma
coisa totalmente estranha.
Andãvamos, nas aulas de Interpretação, às voltas com a
construção do personagem. BRECHT, o Bertold, era o teõrico da
moda. Falava-s~ ~uito em distanciam~nto, ou estranhamento,
brechtiniano . . Cada um entendià a cuisa i sua maneira. Alguns,
como nos, falavam da coisa para não se sentirem desenturmados.
Falãvamos epraticãvamos. o que ouvlamos dizer. Llamos pouco so
bre o assunto.
Estranhamento ~ o substantivo do Verbo estranhar. Estra
nhar o que? Tudo que passar pelos nossos olhos do lado de den
tro ou do lado de fora. Individual ou coletivamente, no palco
ou fora delé, a cada momento do cotidiano. Teatro da vida. Na
vegar pelos pap~is sociais para saber ~eles, mas não permitir
que um papel definido fique agarrado dramaticamente. Exercer a
possibilidade de escolha do papel que queremos representar no
mundo e, mesmo desse papel, distanciar-nos criticamente~ Vê-lo
de fora e voltar para dentro, transitar do sujeito ao sujeito
o
'estranhamento que Brecht propoe para a relação ator/personagem e para a relação cena/expectador se espraia pelo teatro
afora, inun~ando o cotidiano e vai bater na porta de cada papel
social, convidando-nos a participar do'jogo dialético, o jogo
da vida.
Let's go?
Aquela era a Escola dos Teatros. Muitos. Cada professor
ensinava a seu modo, cada aluno fazia como queria. A burocra
cia era nenhuma,e tlnhamos acesso, naquela epoca, aos recôndi
tos mais escondidos. Figurinos e ~aquiagem. Sõfocles, Shakes
peare e Nelson Rodrigues: dramaturgos. Stanislawsky, Brecht e
Grotowsky: teõricos da relação ator/personagem. Met~dõlogos
teàtrais? Au"las de esgrina com um coronel reformado. - O dire
tor da escola demusica do primeiro andar era um general,. No
,governo do general João Batista Figueiredo mandaram demolir o
prédio. No dia rolou muita pancadaria entfe estudante e poli
cia.· Teve até deputado hospitalizado. Balé clãssico e moder
no. Tango. O prédio da praia do Flamengo tinh.a pegado fogo.em
64. Era da União Nacional dos Estudantes. Vimos até fotogr_~
fia com o Vladimir Palmeira faze~do discurso d~ sacada. O tea
tro ,era tipo tragédia grega, todo queimado. Histõ·ria da Arte
e Histõria do Teatro. Dicção e Expressão Corporal. O ato p~
blico em protesto contra a demolição do .prédio foi na hQra do
por do sol. Tijolo por tijolo num desenho lõgico,' seus olhos
33
estudante cantava O' Hino Nacional. .Augusto Boal, Cesar Vieira
e
Amir Haddad .. A polTcia, arm~durada, parecia surda e muda emarchava sempre Fm frente em direção i murada. Tanto de gente
mergulhando para o outro lado como se fosse piscína. Hoje a E~
cola virou terreno baldio cercado de muro pichado de
eu-te-amo-. jacare-sai-da-lama-po~que-celacanto-provoca-m~remoto-em-homen!
gem-ao-oitenta-aniversãrio-do-luTs-car)os-prestes-que-disse-que-o-tiago-da-novela-das-sete-vai-acabar-casando-com-a-mar;li~o!
que-ela-esti-esperandO-filho-dele.
Talvez porq~e se trat~sse de um curso profissionaliza~
te~ a Escola trabalhava, ao' mesmo t'empo, em dois sentidos, ap~
rentemente exclud~ntes. Uma vertente de professores, apoiada
pe1á Direção, se propunha. a formar atores quecorrespondessem
is expectativas do mercado de trabalho ex~stente~ a outra, re
presentada por um professor do 3Q ano de Interpretação, o Amir,
se colocava como tarefa pedagEgica a formação de grupos de tea
tro que, desenvolvendo uma linguagem que lhes fosse peculiar,
buscassem criar o seu próprio mercado.
As aulas do Amir suscitavam. com~ntirios, os mais contro
versos, pai parte de todos aqueles que frequentavam a Escola.
O que ouvíamos dizer pelos corredores era que os alunos, dura~
te as aulas, quebravam cadeiras; ·esmurravam paredes e' aiguns
ate tinham ido para~ no Pinel. Apesar de termos uma enorme cu
riosidade a respeito do que aco~tecia naquelas aulas,era pr!
ciso chegar ao 3Q ano para descobrir a~ razões de tanto
te, chamar de mestr~, o fundamental não eram as mensagens con
tidas nos textos, mas a relação a ser estabelecida entre os
atores e entre estes e os personagens: o ator não ~ um instru
mento atravis do qual i transmitida, ao es~ectador, a visão de
mundo do autor, mas um suj~ito cuja postura diante da vida de
ve estar presente na discussão das questões abordadas por quem
escreve o texto que seri representado, ou melhor, apresentado.
Nesse sentido, eramos incentJva~os, enquanto aprendizes,
a buscar nao um mero aprimor~ménto ticnico, mas uma compree~
são mais profunda do ~ue di,zTamos ~omo pessoas e como atores.
No final de 1974, quando n~s cursavamos o 3Q e ültimoano
de Interpretação; o Amir foi demitido da Escola.
Pela primeira vez, em tJdo o nosso processo de escolari
zação, a rel~ção entre Escola e Mercado de Trabalho havia si'do
apresentada de forma,não-linear.
'Ati então pensivamós ~ue tudo 'que um estudante tinhà a
fazer era se comportar de acordo com as expect~tivas do profe!
sor ·em relação a ele: não faltar i~ aulas e tirar boas notas.
Agindo dessa forma, no momento oportuno, quando nos
conta, estarTamos trabalhando.
dessemos
Porem, na medida em que, o Mercado de Trabalho se fr~gme~
35
.
sãrio definir através de que portas desejarlamos ingressar no
~undo da Produção. Essa opçio~ por,outro lado, colocaria novos
e instigantes problemas para a nossa ,vida acadimica •
•
Havlamos optado pelo Curso de Teatro nao porque tivesse
mos clareza de que querlamos seguir ,carreira, mas porque, atra
ves do teatro, pOderlamos falar às pessoas sobre coisas nas
quais acreditãvamos, coisas que estãvamos descobrindo sobre a
vida e que achãvamos importante todo mundo saber.
!
claro que nem todas as pessoas, ao ingressar no Cursode T e a t r o , t i n h a m c 1 a r e z a a· r e.s p e i to' do que i a m b u s c a r a 1 i . r~u i
tas abandonavam a Escola no primeiro, 'no segundo e ate no ter
ceiro e último ano letivo. A~,que permaneciam iam se esclare
cendo sobre os seus prop5sitos na medida do contato com os de
mais alunos e professores.
Alguns anos depois, em 1978, ingressei num grupo de tea
tro, o Grupo de Niter5i, dirigido pelo Amir.
Nessa·ocasião o Grupo de Niter5i desenvolvia uma pesquj.
sa baseada num texto dramitico, o, "Mo~~e~ pela Pit~ia", sobre o
Levante Comunista de 1935, escrito por Carlos Cavaco em 1936,
VO INSTITUTO QUE VOC~ NÃO VIU. OU VIU?·
Fazendo tea tro de rua, . transando o corpo numa nice e es
tu.dando LENIN, o Illich, cóm um pessoa) que, mais tarde, qua!!.
do começaram a soprar os primeiros ventos democrãticos, vimos
a saber ser do Parti dão, começamos a nos sentir no dever de ter
uma certa participação politica c~jo ·ãpice seria a tomada do
poder de Estado pelas forças·revolucionãrias, tal como vinhamos
~studando em "O E6tado e a Revoluiio".
De pos~e da teoria r~v~lucionãria que aprend~ramos com
LENIN, o Illich~ em quase um ano de est~dos, so nos restava co
locã-la em prãtica ..
Nesse sentido resolvemos nos inscrever no Vestibular Uni
ficado da Fundação Gesgranrio para concorrer a uma vaga no Cur
so de Ci~ncia5 Sociais.
Alguns meses depois, apos a realização das provas de m~l
tipla escolha, encontramo-nos transformados em numero, entre
os candidatos aprovados, na edição extra do Jornal dos Sports.
Março de mil novecentos e setenta e oito. Instituto de
Filosofia e Ciências da Universidade Federal. Largo de' São
37
Junto conosco·fbram aprovados mais noventa e nove.
De Santa Tereza ao Leblon, e ate de outros munic;pios co
•
mo Niter5i e Nova Iguaçu, formivam~s massa heterog~nea que du
rante quatro anos, de março a junho e de agosto a novembro, se
.encaminhava diariamente, de segunda
a
sexta~feira, ao Largo deSão Francisco.
Chegivamos ao sope da escadaria, subiamos degrau por de
grau, pegivamos o elevador que vivia enguiçado pelo tempo de
uso e nos dirigiamos às salas de aula na falta de coisa mais
interessante para fazer.
A maioria dos alunos assistia aula das sete ao meio-di~
mas o bom mesmo era ficar pelos c·orredores jog~ndo·conversa f~
ra i espera de alguma vassoura que encami~hasse ~o devido lugar
os restos mortais daquele ti~ti-ti.
Na classe a coisa se passava de uma forma um pouco diver
sa.
De 50 em 50 minutos, tempo de dura~ão de cada aula, era
mos surp~e~ndi~os pela entra~a na sala de um outro projeto: o
professor. Isso quando não eramos visitados pelos militantes
do movimento estudantil, dividi~os em pelo menos uma dGzi~ de
tendências diferentes, que, educadamente, i~terrompiam as au
las para dar informes ou discursar a ·respeito da conjuntura P.2.
D~sse perlodo ficou a sensaçao mal digerida de que a p~
lltica era um determinado tipo de atividade que se exercia, na
quase total~dade dos casos, fora da sala de aula.
Nesse sentido, os estudantes se dividiam basicamente em
dois grupos: os militantes que raramente eram encontrados em
sala ,- e os não-militantes que raramente eram encontrados fo
'ra de sala. Não é muito diflcil deduzir dal que esses dois gru
.
-pos raramente se encontravam, pelo ménos no ~ue diz
ao aspecto geogrãfico da análise.
respei t,o
Os professores, por sua vez, também se dividiam em dois
grupos: os militantes - aqueles que atuavam na Associação de
Docentes - e os nio-~ilitarites - aqueles que nao atuavam naqu!
'la Associação'.
Era posslvel identificar algo em comum entre os p~ofess~
res militantes ou não - e os estudantes-militantes: a respo~
sabilidade de transmitir um saber anteriormente produzido. De
pendendo da estratégia - ou do método - utilizada,os objetiVOS
eram alcançados com maior ou menor sucesso; De qualquer forma
uns e outros não tinham por hãbi~o explicitar aos educandos a
que vinham nem aonde pretendiam chegar, como se soubessem, de
antemão, o que era bom para nós.
Nas aulas, não sabendo inglês, francês, nem espanhol~mal
entendlamos o português dos textos ~e Durkheim, W~ber e Marx
'pois não tlnhamos familiatidade com o tipo de tratamento dado
39
o
curio.soe
que os professores, em sua maioria, tinham segraduado em universida~es com qualidade de ensino semelhante
àquela na qual a90ra eram professores. Isso, no entanto, par!
cia não ser levado em éonsideração como se aquela vivência não
fosse relevante no sentido de meJhor adequar os conteudos à rea
. lidade com a qual ago~a estavam €m contato: Aliis, adequar os
conteudos à realidade da "elien~ela" era normalmente confundi
do com "baixa~ o nZvel", donde talvez possamos inferir que os
conteudos abstratos estavam acima do nivel 'dos alunos concre
tos. Mas como a19uns alunos estavam em "ou~~o" nivel, era ne
cessiria uma complicada operaç~o ma.temitica para se chegar a
um~ m~dia aritm~tica que atendess~ às necessidades de todas as faixas de alunos que constitul~m a turma. Tal. operação, por~m,
resultava, na maioria qua~e absoluta dos çasos, num quebra-c~
beça ao qual ficavam faltando peças fundamentais .
. Apenas os alunos que tinham se apropriado de um vocabulã
rio mais especializado falavam em sala. Os outros ficavam com
medo de abrir a boca, dali sair alguma asneira e serem, por is
so, motivo de chacota por parte dos entendidos.
Os se~inirios geralmente eram feitos em grupo. Ao abor
dar três capitulos de uma ~bra o mais comum, num grupo de, por
exemplo, seis pessoas, era dividirmos cada capitulo ao me10 de
tal forma que cada ~m ficava encarregado da 'metade dD capitulo
e na hora da apresentação funcionã~amDs tipo os três sobrinhos
terceiro concluia. Após uma semana jã nao sabiamos mais sobre
o que tinhamos falado.
Se ch~gamos a ler um livro po~ inteiro foi muito. Geral
mente era um ou dois capltulos. Pensamos em propor i direçio
da Escola que inclul~se no curriculo um curso sobre fichamento
de t~xto porque todos os professores nos pediam fichamento mas
,nunca ninguem ensinou como· deveria ser feito.
As palavras, que ali subiam como num piscar de olhos 'a
categoria de co~ceitos, saiam das nossas bocas como sapo pula~
do. no brejo. Falava-se muito, por exemplo, em classe dominan
te. Entidade tio abstrata como Deus no ceu, essa classe, na
, ,
'terra, era a grande responsãvel por todos os nossos males. De
concreto, o certo e queali, 'dentre aque1as paredes, jamais foi
encontrado um representante legitimo daquela clas.se para que p~
déssemos matar a curiosidade vendo-lhe a cara e a coragem e
submetê-lo a algumas experiências laboratoriais que co~prova~
sem o que os' livros nos diziam.
ConfundJamos concreto e abstrato; sentiamos dificuldades
serias em transitar'da palavra ao conceito. De um lado os in
dividuos que ao se referirem is coisas faziam uso de palavras;
do outro, os individuos que ao se referirem is coisas fa z iam
uso de conceitos. E, nesse caso, a coisa muda de figura pois
s e no m u n d o das c o i s a s e x i s teu ma p a 1 a v r a p a r a s e r e f e r i r a uma coisa, no mundo dos conceitos - pelo menos na percepçio dos nao
-iniciados usam-se conceitos vários para se referir
ã
mesmac oi sa .
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Nesse sentido' acabamos e1abor~ndo um projeto de pesquisa
no qual denominamos d~ Setor Informal do Mercado de Trabalho,
uma coisa que no.desenro1ar da pesquisa descobrimos tratar-se
do Exercito Industrial 'de Reserva.
Este projeto tinha por objetivo estu~ar as relações entre
o Aparelho de Estado e o Setor Informal de Tr~balho. Achamos
por bem começarmos a estudar por este setor. Quanto mais lla
mos sobre o assunto, mais diflcil ficava l~calizarmos quem, no
mundo vislvel a olho nu,. pertencia àquela categoria de traba
lhadores. Quem s'abe os camelôs? Er,a a pergunta que vez por
outra nos razlamos. Juramos a nos "mesmos que no dia que desço
brTssemos
-
."luva, encaixasse
um especlme que, como uma se naqu~
le' setor, farlamos tudo que estivesse ao nosso' alcance para aI:.
ranjar-lhe colocação num banco. Al ji tl~hamos ~ntendido que
'bancirio pertencia a outro setor, o Formal. Um assalariado~
Enquanto ele conseguisse se manter empregado esta~lamos salvos~
Era a ~nica maneira de sairmos da enrascada em que nos encontri
vamos envolyidos~
Ao final, como tlnhamos o compromisso de escrever um re
latõrio, resolvemos, para encurtar a conversa, entrevistar três
pessoas amigas: um artista àe circo que tambem era professor,
uma professora de dança de salão ,que tambem era dona-de-cása e
um marceneiro que t~abalhava alternadamente'por conta prõpria
Apõs a transcriçio das fitas encaixamos os nossos quer!
dos amigos num pressuposto teórico segundo o qual, nos momen
tos de crise do capitalismo, os trabalhadores informais cres
. cem em numero e grau e enviamos todo mundo envelopado para a
agência financiadora da pesquisa.
Antes, porem, mostramos o relatõrio ao nosso orientador
que na ocasião nos perguntou onde estava a equipe responsãvel
pela realização da pesquisa.
Respondem~s que o trabalho fora desenvolvido por uma uni ca.pesquisadora: nós.
o
nosso orientador, então, quiz saber pqrque nos referla.
mos a nós, pe~soa singular, no plural. Não soubemos responder
-lhe a contento, mas seguimos refl~tindo sobre o assurito.
Na verdade nun~a hav1amos pensado a respeito.
Apesar de termos sentido um certo allvio após o encami
nhamento do Relatório Final
ã
agência financiadora da pesqu!sa, continuamQs preocupados com o destino daquelas vidas desde
então arquivadas.
P o u c o tem p o d e p o i s uma das v·i das f o i v e n d i da. a uma r e d e
de televisão - que por ela se interessou para a produção de um
de seus casos - pela quantia de'quinhentos mil cruzeiros,a pre .
-ço de mil novecentos e oitenta e· três, ,sem direito. a direitos
·autorajs.
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Talvez ~ dificuldade que sentramos em ingressar no dito
~undo da Ci~ncia foss~ agravad~ tamb~m pelo procedimento didi
tico-pedag5gico dos professores os quais muitas das vezes se
•
colocam como atribuição a transmissão, pura e simples, de de
terminados conteúdos formulados alhures e quase nunca problem~
. ti zados aqui e agora.
A formulação te5rica de um educador como FREIRE~o Paulo,
ainda não chegou aos bancos escolares pois ~ educação continua
sendo bancãria. Professor transmissor e aluno receptor de con
.teúdos pr~-fabricados.
Ati, ~ claro, liamos FREIRE~ o Paulo.
A que ~ tão que s e c o 1 o c a, p o'r em, e de que' nos . s e r v e t e r
lido toda a obra de FRE.IRE, o Paulo; se a ·leitura continua no
'livro? A não ser que .este autor não esteja se referindo a -edu
candos jã alfabetizados. Por outrti lado, por que não pensar
no aluno como um individuo em continuo processo de alfabetiza
ç.ão?
Os conte~dos apareciam aos nosso~ olhos como uma colcha
de retalhos· em fase de confecção que na hora de alinhavar as
partes não casam umas COm as outras.
Como jã dissemos anteriormente, nos nao tinhamos familia
ridade com a m~neira dos autores tratarem os assuntes e, acre!
~entamos agora, nem com os assuntos propriamente ditos, o que
resultava numa sensação de que andãvamos o temro todo às vol