O PROCESSO DE CUI DAR SOB A PERSPECTI VA DA VULNERABI LI DADE
Ver a Regina Waldow1
Rosália Figueir ó Bor ges2
O present e art igo, de nat ureza t eórica, t rat a do processo de cuidar sob a perspect iva da vulnerabilidade, cuj a
condição lev a à necessidade do cuidado. O t ex t o analisa esse pr ocesso, o qual se car act er iza pelo encont r o
en t r e o ser q u e cu id a e o ser cu id ad o. O p acien t e h osp it alizad o é u m ser ex t r em am en t e v u ln er áv el q u e
v iv en cia ex per iên cia ím par e a cu idador a ex er ce papel f u n dam en t al n o sen t ido de r edu zir essa sit u ação e
m ant er sua aut onom ia e dignidade.
DESCRI TORES: v u ln er abilidade; au t on om ia pr ofission al
THE CAREGI VI NG PROCESS I N THE VULNERABI LI TY PERSPECTI VE
This t heor et ical ar t icle deals w it h t he pr ocess of car egiv ing in t he v ulner abilit y per spect iv e, w hose condit ion
leads t o t he need for care. The t ext analyzes t his process, which is charact erized by t he encount er bet ween t he
car eg iv er an d t h e car e r eceiv er . Th e h osp it alized p at ien t is an ex t r em ely v u ln er ab le b ein g , ex p er ien cin g
som et hing unique. The car egiv er play s a v er y im por t ant r ole in r educing t his sit uat ion and pr eser v ing his or
her aut onom y and dignit y .
DESCRI PTORS: v u ln er abilit y ; pr ofession al au t on om y
EL PROCESSO DE CUI DAR SEGÚN LA PERSPECTI VA DE LA VULNERABI LI DAD
El present e art ículo de nat uraleza t eórica, aborda el proceso del cuidar baj o la perspect iva de la vulnerabilidad,
cuya condición lleva a la necesidad de cuidado. El t ext o analiza est e proceso, que t iene com o caract eríst ica la
conj unción ent re el ser que cuida y el ser cuidado. El pacient e hospit alizado es un ser bast ant e vulnerable que
pasa por u n a ex per ien cia sin gu lar . Por ot r o lado, la cu idador a t ien e u n r ol f u n dam en t al par a r edu cir est a
sit uación y m ant ener su aut onom ía y dignidad.
DESCRI PTORES: v u ln er abilidad; au t on om ía pr ofesion al
I NTRODUÇÃO
C
om preende- se com o processo de cuidar aform a com o ocorre o cuidado ou deveria ocorrer. Esse processo, que será descrit o de form a resum ida nest e t ext o, t rat a do encont ro de cuidar que ocorre ent re cuidador a e ser cuidado*. Em r elação ao encont r o,
assim com enta Torralba: “ En la acción de cuidar a un ser h u m a n o se p r o d u ce el en cu en t r o en t r e d o s universos personales, ent re dos m undos libres, ent re dos conciencias, ent re dos dest inos singulares en la hist ória”( 1). As relações de cuidado que são t ravadas
ent r e os pr ot agonist as ocor r em dur ant e o encont r o denom inado m om ent o de cuidado. Esse m om ent o de cu i d a r se co n cr et i za d e f o r m a p l en a q u a n d o se estabelece um laço de confiança do ser cuidado para o ser que cuida e que, em princípio, para despert ar essa confiança, deverá dem onst rar responsabilidade, com pet ência, respeit o e sensibilidade. Com preende-se, em adição, que o ser cuidado, no cont ex t o de um a organização hospitalar, é um ser que se encontra v u ln er áv el.
Est e t ex t o, por t an t o, t em com o f in alidade analisar, de form a t eórica, alguns pont os im port ant es sob r e o p r ocesso d e cu id ar. Nesse p r ocesso, são en f at izad os o cu id ad or e o ser cu id ad o os q u ais vivenciam um a experiência - o m om ent o de cuidado - , car act er izad o com o en con t r o d e cu id ad o. Esse cu i d a d o é v i su a l i za d o so b a p e r sp e ct i v a d a v u l n e r a b i l i d a d e q u e , n o p r e se n t e t e x t o , é r epr esent ado pela doença e pela hospit alização, ou sej a, a condição do ser est ar doent e e hospit alizado.
CUI DADO: I NTERPRETAÇÃO FI LOSÓFI CA
O cu idado é u m a m an eir a de ser h om em , possui significado a part ir do próprio hom em . I nclui com por t am ent os, at it udes, v alor es e pr incípios que sã o v i v i d o s co t i d i a n a m e n t e p e l a s p e sso a s e m det erm inadas circunst âncias, porém , ant es de t udo, d iz r esp eit o ao ser, ou , com o p r ef er e San t in , ao hom em( 2).
O se r h u m a n o n a sce co m p o t e n ci a l d e cu idado e isso sign ifica qu e t odas as pessoas são capazes de cuidar. Ev ident em ent e, essa capacidade ser á m elh or ou m en os d esen v olv id a con f or m e as circunstâncias em que for exercida durante as etapas da vida.
O ser hum ano é um ser de cuidado, é a sua essência. Ele exist e ant es do próprio ser, é a pr ior i, “ está na raiz frontal da constituição do ser hum ano”( 3). É no cuidado que se encontra o et hos necessário para a sociabilidade hum ana e para ident ificar a essência do ser.
É reconhecido que seres hum anos necessitam de cuidado par a se desenvolver em ; em m aior gr au n a in f ân cia e em f ases t ar dias da t er ceir a idade, quando evidenciam dependência na execução de suas at iv id ad es d iár ias, t an t o d e or d em f ísico- sociais, quant o m ent ais.
A doença, a incapacidade e o sofrim ento são algum as das circunst âncias que conferem est ado de v u l n e r a b i l i d a d e , a ssi m co m o a s a n t e r i o r e s m en cion ad as, n a in f ân cia e t er ceir a id ad e e são condições que levam ao cuidado( 4).
A cu i d a d o r a d e v e e st a r se n si b i l i za d a e habilit ada para aj udar e apoiar nas circunst âncias de v ulner abilidade e, nesse sent ido, o cuidar t em seu pont o de m áxim a im port ância, pois os esforços para b u scar a r est au r ação v ão além d a or d em f ísica, represent ando apoio e perm it indo que o out ro, o ser cu i d a d o , se j a e l e m e sm o , e m su a p r ó p r i a especif icidade, em su a sin gu lar idade. A cu idador a busca, em últ im a análise, m ant er a int egr idade do ser v u ln er áv el, in d ep en d en t e d o q u e r esu lt e su a con dição, sej a de cu r a, sej a de alív io em fase de t erm inalidade. A aj uda se m anifest a no m anej o em t rat ar com o sofrim ent o, incapacidades e lim it ações ou, ainda, no caso de apoio em est ados de m edo e ansiedade, ent re out ras condições.
O p r o ce sso d e cu i d a r a b r a n g e , a l é m d e p r o ce d i m e n t o s e a t i v i d a d e s t é cn i ca s, a çõ e s e com portam entos que privilegiam não só o est ar com, m a s o s e r c o m. Me l h o r d i t o , a cr e d i t a - se q u e pr ocedim en t os, in t er v en ções e t écn icas r ealizadas co m o p aci en t e só se car act er i zam co m o sen d o cu idado n o m om en t o em qu e com por t am en t os de cu i d a r se j a m e x i b i d o s, t a i s co m o : r e sp e i t o , co n si d e r a çã o , g e n t i l e za , a t e n çã o , ca r i n h o , solidar iedade, int er esse, com paixão et c. O cuidar é um processo interativo, só ocorre em relação ao outro. O m odo de ser do cuidado env olv e r elação não de suj eito- obj eto, m as sim de suj eito- suj eito. No contexto do pr ocesso de cuidar, essa r elação se caract er iza por ser de cunho profissional, suj eit o- out ro, baseada n o r e sp e i t o e , ca so r e ca i a e m o b j e t i f i ca çã o , enquadrar- se- ia em relação de não- cuidado( 5).
Hoj e se propõe um a ressignificação do cuidar q u e en g lob a, com o j á f oi an t er ior m en t e ex p ost o, dim en são bem m ais abr an gen t e e in t egr alizador a, in clu in do, de for m a m ais am pla, com plex idade de nat ur eza filosófico- ant r opológica.
O cu i d a d o é a essên ci a h u m a n a d o ser. Com põe a nat ur eza, o v ir - a- ser hum ano, por t ant o, assum e dim ensão exist encial. É t am bém de carát er u n i v er sa l , em b o r a a ssu m a co n o t a çõ es p r ó p r i a s, dependendo do cont ext o cult ural.
Vá r i o s a u t o r e s a p o n t a m p a r a a responsabilidade no cuidado – a responsabilidade e o co m p r o m i sso co m o o u t r o , q u e r e p r e se n t a a d i m e n sã o é t i ca( 1 , 4 , 6 ). Em No d d i n g s, t a m b é m se encont r a essa dim ensão: a r espost a ao im pulso de cuidar result a em at o de com prom isso e com põe um ideal ét ico( 7).
VULNERABI LI DADE SOB A PERSPECTI VA DO
SUJEI TO
A vulnerabilidade est á diret am ent e associada com o cu i d ar, con f or m e j á m en ci on ad o em i t em an t er ior, assim com o a idéia de r espon sabilidade. To m a r - se - á p o r e m p r é st i m o a l g u m a s i d é i a s d e Francesc Torralba y Roselló para analisar a quest ão da vulnerabilidade, com o expressam os t ópicos que segu em .
Todo ser hum ano é vulnerável, em t odas as suas dim ensões, ou sej a, é v ulner áv el fisicam ent e p o r q u e e st á su j e i t o a a d o e ce r, a so f r e r d o r e incapacidade e, por t udo isso, necessit a cuidado; é v u ln er áv el psicologicam en t e, por qu e su a m en t e é frágil, necessit a de at enção e cuidado; é vulnerável socialm ent e, pois, com o agent e social, é suscet ível a t e n sõ e s e i n j u st i ça s so ci a i s; é v u l n e r á v e l espir it ualm ent e, significando que sua int er ior idade pode ser obj et o de inst r um ent alizações sect ár ias( 4).
Na verdade, a est rut ura pluridim ensional do ser, seu m undo relacional, sua vida, seu trabalho, suas ações, se u s p e n sa m e n t o s, o s se n t i m e n t o s e a t é su a s fantasias são vulneráveis. Dessa form a, pode- se dizer que o ser hum ano é m ais vulnerável do que m uit os ser es v iv os, no ent ant o, ele t em m aior capacidade para se prot eger.
No present e t ext o, o int eresse foi analisar a v ulner abilidade que o ser hum ano ex per im ent a - a enfer m idade - que se car act er iza por ser um a das m ais ext rem as e que convoca para o cuidado.
To r r a l b a t a m b é m f a z u m a r e l a çã o e n t r e f ilosof ia e v u ln er ab ilid ad e n o sen t id o d e q u e, ao experienciar a vulnerabilidade, o ser desencadeia um processo filosófico( 4). Em out ras palavras, ao padecer
de algum m al, o ser hum ano filosofa e isso porque há necessidade de encont rar sent ido no sofrim ent o, no adoecim ento, na m orte; é um a form a de dar um a r e sp o st a à su a v u l n e r a b i l i d a d e . Ne ssa l i n h a d e p en sam en t o , f i l o so f ar e cu i d ar são açõ es m u i t o sem elhant es, um a agindo no plano int elect ual e a out ra se desenvolvendo fundam ent alm ent e no plano da pr áx is.
Fenom enologicam ent e, pode- se dist inguir a vulnerabilidade ontológica, a ética, a social, a natural e cult ural. A ont ológica apresent a níveis dist int os; o p r i m ei r o d i z r esp ei t o a o ser, à su a co n st i t u i çã o ontológica: um ser vulnerável não é um ser absoluto e auto- suficiente. O ser hum ano é um ser dependente, lim itado e radicalm ente determ inado por sua finitude. A v ulner abilidade ét ica pode se apr esent ar no sent ido da labilidade, que é a capacidade do ser de sucum bir, de fracassar, pois é um a estrutura finita. Por outro lado, existe a capacidade de agir no sentido m oral, de prot eger o ser m ais frágil e necessit ado e isso t em r elação com o out r o e que, por sua v ez, t am bém se relaciona com o cuidado, no sent ido de se colocar n o lu g ar d o ou t r o, d e ap oiá- lo. É u m im perativo ético, ou sej a, um a espécie de dever m oral para com seu próxim o.
A vulnerabilidade nat ural significa o ent orno, o m eio am bient e do ser hum ano que est á suj eit o a m u d an ças e t r an sf or m ações. A n at u r eza é f r ág il, consider ando especialm ent e a ação t écnica do ser hum ano. A int ervenção no m eio am bient e repercut e diret am ent e no ser e na realização de sua liberdade. É p o r i sso q u e se d e v e cu i d a r d a n a t u r e za . O d e t e r i o r a m e n t o d a r e a l i d a d e n a t u r a l a f e t a gravem ent e a est rut ura pessoal do ser assim com o sua form a de viver, de t rabalhar e de am ar.
do r espeit o e da con t em plação; pode t am bém se expandir no plano da violência e da instrum entalidade. A vulnerabilidade social, port ant o, é a possibilidade que tem o ser hum ano de ser obj eto de violência no seio da sociedade, de perder sua segurança social.
A v u l n e r a b i l i d a d e cu l t u r a l p o d e t e r su a m anifest ação m áx im a na ignor ância. Por ex em plo, na relação assist encial o pacient e sofre não só um a v ulnerabilidade do t ipo ont ológica. Ao adoecer, não só e st á a f e t a d a a su a e st r u t u r a a n a t ô m i ca e fisiológica, m as tam bém a sua vulnerabilidade cultural, r epr esent ada pelo desconhecim ent o dos m ot iv os e r azões de su a en f er m idade ou por descon h ecer a quais cuidados e t rat am ent os est á sendo subm et ido. Nesse sent ido, o profissional t em o dever m oral de cuidar do pacient e e isso significa não só aj udar em seu r est a b el eci m en t o , m a s em p r o p o r ci o n a r - l h e inform ações adequadas e pert inent es. Nessa ação de prestar inform ação o profissional – cuidador( a) estará u t ilizan d o a com p et ên cia, a em p at ia e a ar t e d e com unicação, além , é claro, de estar se relacionando de form a respeit osa, na pr eservação ou r esgat e da aut o- est im a.
A in f or m ação dev er á est ar r elacion ada às concepções de saúde e doença que o paciente tem e, dessa for m a, fala- se que o pr ofissional é t am bém vulnerável, pois deve superar a sua vulnerabilidade cult ural por m eio do conhecim ent o personalizado do pacient e, o que perm it irá t rat am ent o de form a m ais digna.
Quando o ser adoece, quando não é capaz de desenvolver o ritm o habitual de sua cotidianidade, sej a por um a patologia de ordem som ática, social ou p si co l ó g i ca , e l e p e r ce b e e m p a t i ca m e n t e a v u l n e r a b i l i d a d e d e se u se r. Ta l v e z se j a n e ssa cir cunst ância que o ser t em m áx im a per cepção de su a v u l n er ab i l i d ad e. Ao co n sci en t i zar - se d a su a situação, o ser a aceita bem m elhor. Por outro lado, a cuidadora precisa est ar conscient e da vulnerabilidade do outro, ou sej a, da sua extensão e natureza e assim em preender esforços no sent ido de aj udar, de cuidar. Par a em p r een d er esf or ços em p r ol d o cu id ad o, a cuidadora deve envolver- se no processo de t rabalho n as or g an izações d e saú d e, d e f or m a a b u scar e realizar não só o que lhe com pete, m as aquilo que é idealizado na enfer m agem . O cuidado est á inser ido n o co t i d i a n o d e t r a b a l h o d a e n f e r m a g e m , p o i s representa o núcleo dos processos de transform ações
das sit uações de saúde- doença dos seres hum anos, ou sej a, é o produto final( 8).
CARACT ERI Z AÇÃO D O PRO CESSO D E
CUI DAR
O processo de cuidar ocorre dent ro de um a cu l t u r a o r g a n i za ci o n a l h o sp i t a l a r q u e a p r esen t a com pon en t es de or dem v ar iáv el e qu e podem ser visualizados conform e apresent ado de form a gráfica e descrita em Waldow( 9). Nos com ponentes destacam
-se o m eio am bient e, o qual, por sua v ez, inclui o m eio am biente físico, o m eio am biente adm inistrativo, o m eio am biente social e o m eio am biente tecnológico. Esses com ponentes não serão analisados neste texto, p o i s o q u e ser á p r i v i l eg i ad o é o en co n t r o en t r e cuidadora e ser cuidado, em bora se salient e que t ais com ponent es desem penham papel fundam ent al para q u e o p r o ce sso d e cu i d a r se r e a l i ze d e f o r m a sat isfat ória. Os am bient es m encionados com põem o ce n á r i o d a e n f e r m a g e m q u e , e m su a f u n çã o adm in ist r at iv a, é r espon sáv el pelas at iv idades de cuidar, além das ações de educação, da organização, do planej am ent o e da avaliação, as quais englobam int er ações hum anas de difer ent es cult ur as, saber es e sent im ent os.
O m o m e n t o d e cu i d a r é co n si d e r a d o d e carát er t ransform ador, no qual am bos, ser cuidado e cuidador a, cr escem , no sent ido de que o pr im eir o apresenta atitude m ais positiva e serena frente à sua ex p er i ên ci a co m a en f er m i d a d e, i n ca p a ci d a d e e m esm o à m orte, fruto de tranqüila e am istosa relação de confiança com seus cuidadores.
É i m p o r t a n t e q u e o p a ci e n t e , se n d o considerado e respeit ado com o um a pessoa singular, t o d a s a s d ú v i d a s so b r e su a si t u a çã o se j a m esclar ecidas. É im por t ant e, t am bém que ele aufir a m aior conhecim ento sobre si, sua enferm idade, enfim , su a co n d i ção ex i st en ci al d o m o m en t o , a f i m d e e m p r e e n d e r, d e f o r m a se r e n a , e st r a t é g i a s p a r a enfrentar os obstáculos que se apresentam e delinear planos fut uros.
acolh id o, p r ot eg id o, b em cu id ad o ir á in f lu en ciar, sobrem aneira, para que a experiência que o paciente est ej a vivenciando se t orne a m ais am ena possível. O crescim ento, no que tange à cuidadora, se t raduz por sat isfação, sensação de dever cum prido, realização, m elhora da aut o- est im a, m ais segurança e co n f i a n ça , a l é m d e p r a ze r e b e m - e st a r. A experiência adquirida a cada nova situação vivenciada e a cada novo encont ro acrescent a conhecim ent o ao p r o f i ssi o n a l . To d a n o v a h i st ó r i a d e v i d a e a s experiências dos pacientes aj udam a conhecer m elhor as pessoas assim com o a si própria; suas form as de cuidar se enriquecem a part ir das vivências com os pacient es, perm it indo que evolua de form a pessoal e pr ofissional.
A EXPERI ÊNCI A DO SER CUI DADO
O pacien t e, ao ser cu idado, v iv en cia u m a e x p e r i ê n ci a ú n i ca , t a n t o e m r e l a çã o à su a enferm idade quant o em relação à hospit alização*. O
sentir- se doente ou estar doente ocasiona ruptura na relação do ser hum ano com o m undo. Ele se defronta co m u m a a m e a ça ( d a d o e n ça , d o so f r i m e n t o , incapacidade e m ort e) , com o desconhecido ( de sua situação, seu destino, do am biente estranho e pessoas e st r a n h a s) e co m su a t e m p o r á r i a o u d e f i n i t i v a desest r u t u r ação, den om in ada cr ise on t ológica por Pellegr ino, e que afet a o indiv íduo com o um t odo, t an t o n a or d em f ísica, com o p sicológ ica, social e espirit ual( 10).
To d o s e sse s a sp e ct o s e x a ce r b a m a vulnerabilidade do pacient e, t ornando- o m ais frágil; sua ex per iência de v iv er encont r a- se int er r om pida, desar t iculada, for a do seu r it m o nor m al. A r elação d o p acien t e com os ou t r os t am b ém se en con t r a co m p r o m e t i d a , su a i n t i m i d a d e , p r i v a ci d a d e sã o invadidas, seu papel social se m odifica e o pacient e se sent e opr im ido, t olhido em seus m ov im ent os e pensam ent os, hum ilhado, dependent e.
É com um ocorrer um a redefinição de valores. O paciente revê o que e com o era, o que e com o é e está agora e se questiona sobre seu futuro, naquilo e com o p od er á v ir a ser. Há u m a r ef lex ão sob r e o sent ido da vida, sobre as prioridades.
Vários quest ionam ent os ocorrem por ocasião d a d oen ça, d u r an t e a h osp it alização e d u r an t e o p r o ce sso d e cu i d a d o , t a i s co m o : o q u e e st á acon t ecen d o com ig o? O q u e f ar ão/ est ão f azen d o
com igo? I sso vai doer? Será que vou m orrer? Essas p e sso a s sã o co m p e t e n t e s, sa b e m o q u e e st ã o fazendo? São capazes de m e aj udar ? E assim por diant e.
Ao perceber sua sit uação, o pacient e poderá acei t ar o u n ão o cu i d ad o , p o r ém , v i a d e r eg r a, subm et e- se à aut oridade m édica em relação ao seu diagnóst ico e t rat am ent o e se coloca em suas m ãos, a ssi m co m o a ce i t a e se su b m e t e a o s d e m a i s cuidadores e aos seus cuidados. Aceit ar e colaborar relacionam - se de perto com vários itens descritos por Pellegrino e analisados por Francesc Torralba, no que se r ef er e ao p r i n cíp i o d e au t o n o m i a e q u e ser á apresent ado logo a seguir.
Pa r a a ce i t a r e co l a b o r a r n o cu i d a d o , é i m p r e sci n d ív e l a co n f i a n ça n o s cu i d a d o r e s e o con h ecim en t o, ou sej a, o qu an t o o pacien t e est á inform ado, conscient e sobre o que se passa consigo. Ele responderá ao tratam ento e ao cuidado na m edida em que a confiança, acim a m encionada, é preservada e isso corresponde a ter consciência da com petência, r e sp o n sa b i l i d a d e e d a a t e n çã o d i sp e n sa d a p e l a cuidadora. Um a abordagem carinhosa, int eressada e r espeit osa é a chav e t am bém par a que o pacient e responda posit ivam ent e e isso inclui t ranqüilidade e segu r an ça.
Essa s r e sp o st a s p o d e m se r v e r i f i ca d a s at ravés de vários sinais, sej a at ravés de expressão de dúvidas, queixas e m esm o pelo silêncio. Respostas o b j e t i v a s p o d e m se r d e t e ct a d a s, t a i s co m o : r elax am en t o, r ed u ção d a d or, f eb r e, sin ais v it ais e st a b i l i za d o s, a l é m d e d a d o s p e r ce b i d o s p e l a cu i d a d o r a co m o a l g u n s j á ci t a d o s, d e p o st u r a , expressão facial, ent re out ros.
A QUESTÃO DA AUTONOMI A
Cuidar de alguém significa v elar pela sua aut onom ia, desenv olv er suas capacidades e não se opor ou ir contra suas decisões livres e responsáveis. Não obst ant e, exist em cir cunst âncias, t ais com o as que est ão r elacionadas à necessidade de cuidado, p or q u e a au t on om ia d o ser en con t r a- se t am b ém v ulner áv el. Essas cir cunst âncias r equer em , análise da r elação ent r e a ação de cuidar e os lim it es da aut onom ia da pessoa, pois a aut onom ia da pessoa não é ilim it ada, apresent a graus dist int os e regist ros d e d e se n v o l v i m e n t o , é , p o r t a n t o , d i n â m i ca e concr et a( 1).
Ainda, valendo- se das idéias de Torralba, sob per spect iva filosófica e bioét ica, exist em for m as de com preender aut onom ia e, segundo ele, “Aut onom ia se llam a al hecho de que una r ealidad est é r egida por una ley propia, dist int a de ot ras leyes, pero no forzosam ent e incom pat ible con ellas”( 1).
A aut onom ia não t em direcionalidade, o que difere de liberdade, que se orienta, fundam entalm ente para o bem . Difere tam bém de livre- arbítrio, pois esse está relacionado à capacidade hum ana de eleger entre vár ias opções. Essa capacidade, cont udo, pode não ser aut ônom a, pode est ar t ot alm ent e det er m inada ou condicionada por elem ent os exógenos da própria subj et iv idade. A aut onom ia ocor r e na ausência de coação e de capacidade para clarificar as alternativas que se apresentam por si m esm as. Do ponto de vista in t er n o da au t on om ia, ela se r ef er e a u m desej o profundo que se expressa at ravés de suas decisões m ediadas pela reflexão crít ica.
No ad oecim en t o, a cir cu n st ân cia d o ser cuidado, o pacient e, se car act er iza, em ger al, pela dor, pela ansiedade e pelo m edo do fut uro; assim , a au t on om ia est á r edu zida, por v ezes, sev er am en t e reduzida e até m esm o ausente. Torralba utiliza o term o circunst ância ( t erm o que se t om ou por em prést im o ao longo dest e t ext o) , explicando que esse conceit o filosófico, oriundo de Ort ega y Gasset , se refere ao ser, que é um ser- de- relação e se encont ra inserido na hist ória, pert ence a um a circunst ância, ou sej a, a um det er m inado m ar co social, cult ur al, espir it ual e l i n g ü íst i co , f a z p a r t e d a i d en t i d a d e p esso a l e é det er m in ada pelo m ar co de at u ação e de decisão pessoal( 1).
O ser cu i d ad o ap r esen t a l i m i t es em su a aut onom ia que podem ser de or dem m édica, pela in cer t eza d e su a con d ição p at ológ ica, p od e est ar r e l a ci o n a d a à si t u a çã o d e u r g ê n ci a , p o d e e st a r lim it ada em função do poder fam iliar, e pode est ar, p o r f i m , t am b ém l i m i t ad a em f u n ção d e f at o r es econôm icos, além dos lim it es im post os por lei.
Out ro aspect o sobre esse assunt o, que deve ser lem br ado, é que o pr incípio de aut onom ia não d e v e se r co m p r e e n d i d o d e f o r m a i so l a d a , se p a r a d a m e n t e d o p r i n cíp i o d e d i g n i d a d e , d e int egr idade e de vulner abilidade. Deve ser t am bém v isu alizado em ín t im a r elação com o pr in cípio de r esponsabilidade. Nesse sent ido, diz- se que é um a au t on om ia sem r espon sabilidade, m elh or dizen do, u m a d ecisão sem r esp on sab ilid ad e, q u e n ão sej a capaz de assum ir e prever as conseqüências de t al
d ecisão, n ão p od e ser con sid er ad a au t on om ia n o sent ido m oral.
O t em a aut onom ia não se refere apenas ao âm b i t o d o ser cu i d ad o , m as t am b ém ao q u e se considere da alçada dos profissionais cuidadores. No âm b i t o d a saú d e est á r el aci o n ad o à q u est ão d e com p et ên cias e é u m assu n t o b ast an t e am p lo e com plexo que não será abordado aqui.
O SER QUE CUI DA
É i m p o r t a n t e q u e a cu i d a d o r a t e n h a consciência do que se passa ou do que pode vir a se p assar com os p acien t es ( ser es v iv en cian d o u m a circunstância de vulnerabilidade) e, para isso, requer-se não só com petência profissional, m as requer-sensibilidade, discernim ent o e int uição.
O conhecim ento do paciente, sua história, sua biogr af ia, ex per iên cias an t er ior es, su a m ot iv ação, e x p e ct a t i v a s, r i t u a i s d e cu i d a d o e g r a u d e vulnerabilidade serão de t ot al aj uda no processo de cuidar. O conhecim ento do paciente perm ite identificar e en t en der su as r eações m ais pr on t am en t e. Est ar dispon ív el n ão só par a o pacien t e, m as par a su a fam ília t am bém é fat or valioso. A fam ília esclarecida, bem cuidada e apoiada poder á colabor ar m uit o no cuidado.
Est udo r ev ela que, na v isão da enfer m eir a r esp on sáv el p ela coor d en ação e p lan ej am en t o d o cuidar, o conceit o de cuidar foi percebido no sent ido de essência e int egralidade na relação com o ser e isso envolve, principalm ent e, o suport e à fam ília( 8).
A cu i d a d o r a d e v e r á e st a r r e ce p t i v a e con scien t e p ar a o q u e sig n if ica ser p acien t e, ser cuidado, estar doente, estar hospitalizado, bem com o se r se n sív e l a o s t e m o r e s, a n se i o s, m e d o s e inseguranças que ele e sua fam ília possam apresentar. Dev e est ar p r ep ar ad a p ar a aj u d ar o p acien t e n o m anej o com sua nova sit uação, a de est ar doent e, de est ar hospit alizado e necessit ar de aj uda, dev e pr ocurar, ao m áx im o, r esguar dar sua ident idade e pr eser v ar sua int egr idade.
Várias hipót eses e quest ionam ent os serão feit os t ais com o: que situação é esta? Quem é este paciente? O quanto está vulnerável? Com o posso aj udá- lo? O que preciso saber sobre ele e sua sit uação? Ent re m uit as out r as.
Ao identificar o que está acontecendo e o que o pacient e necessit a, a cuidador a v er ifica os m eios disponíveis para que o cuidado se realize o m ais pronto e adequadam ente possível. As ações deverão sem pre se r a co m p a n h a d a s p o r i n t e r a çã o , o u se j a , co n v e r sa n d o , o u v i n d o , t o ca n d o , e x p r e ssa n d o i n t e r e sse , d i sp o n i b i l i d a d e , a ce i t a çã o . Po st u r a , ex p r essã o f a ci a l e co r p o r a l , t o q u es e o l h a r sã o indicadores desses it ens, port ant o, o pacient e pode, por sua vez, det ect ar quando esses com port am ent os são genuínos e perder toda a confiança na cuidadora e no seu cuidado quando ausent es ou dest oant es. O estar com e o ser com o outro, a presença genuína, é fundam ent al*.
Durant e e após as ações ou procedim ent os, os com portam entos de cuidar devem ser explicitados. As ações em todos os m om entos sofrem um processo d e a v a l i a çã o co m o , p o r e x e m p l o , d e co m o f o i r e a l i za d a a a çã o , q u e m a e x e cu t o u , se h á necessidade de reform ular ou providenciar algo m ais para um a próxim a vez, se as condições am bientais e m ateriais estavam adequadas e assim por diante. Por out r o lado, é suger ido r eflet ir sobr e seus valor es e sent im ent os e sobre o significado da experiência em relação à situação vivenciada e refletir tam bém sobre com o percebeu a reação do paciente e de sua fam ília d u r a n t e o e n co n t r o . Essa r e f l e x ã o a u x i l i a n o apr en dizado da cu idador a par a qu e possa sem pr e refinar seu cuidado, t razendo bem - est ar ao pacient e. A a v a l i a çã o , p o r t a n t o , é t a n t o su b j et i v a quant o obj et iva. A cuidadora m onit orará as reações físico- quím icas do pacient e, níveis das funções vit ais e sobre as reações colhidas j unto ao próprio paciente. Tam bém poderá verificar as reações do paciente, seu com por t am ent o, se est á m ais ou m enos r elax ado, a p r een si v o , t en so , en t r e o u t r o s i t en s. En t r e a s variáveis da cuidadora, m encionam - se sua m otivação, sua experiência, seu conhecim ent o, suas habilidades técnicas, sua capacidade para cuidar e o pensam ento cr ít ico.
A cu id ad or a, p or t an t o, ao cu id ar, n o seu v e r d a d e i r o se n t i d o , i n t e r a g e co m o p a ci e n t e , co l o ca n d o e m p r á t i ca se u co n h e ci m e n t o , su a habilidade t écnica, sua sensibilidade, aj udando- o a crescer. O pacient e, por sua vez, em sua experiência
genuína, com part ilha seu ser, sua experiência, seus r it u ais d e cu id ad o, su as car act er íst icas, as q u ais con t r ib u ir ão p ar a o p r ocesso d e cu id ar d e f or m a posit iva. Vale ressalt ar que am bos, cuidadora e ser que é cuidado, dev er ão se beneficiar por m eio dos encont ros de cuidado.
CONSI DERAÇÕES FI NAI S
Pelo expost o, no present e t ext o, verifica- se que o cuidado, em bora necessário em todas as fases da v ida e em t odos os t ipos de v ida no planet a, é f u n d a m e n t a l q u a n d o e x i st e v u l n e r a b i l i d a d e . A co m p u l sã o p a r a cu i d a r é a ci o n a d a se m p r e e im ed iat am en t e q u e o ou t r o ser se ap r esen t a em e st a d o d e v u l n e r a b i l i d a d e . O p a ci e n t e , p o r su a enferm idade, é um ser vulnerável; a hospit alização, por outro lado, agrava esse estado de vulnerabilidade, o qual, com o j á foi r efer ido, possibilit a o cuidado. Durant e o processo de cuidar, o encont ro ent re ser que cuida e ser cuidado é de m áxim a relevância, pois, d e p e n d e n d o d e co m o é i n i ci a d a a r e l a çã o , a experiência pode se t ornar m enos t raum át ica.
É prim ordial tam bém , durante o m om ento de cuidar, que se est abeleça confiança por part e do ser cuidado para com a enferm agem e t odos os dem ais cu id ad or es. O p r im eir o se sen t ir á m ais seg u r o e t r a n q ü i l o , a u f e r i n d o co n f o r t o e b e m - e st a r e o s cu id ad or es sen t ir - se- ão r ealizad os, g r at if icad os e a u f er i r ã o m a i s co n h eci m en t o , t a n t o p r o f i ssi o n a l quant o pessoal, pois cada novo encont r o enr iquece am bos os seres envolt os nessa relação. O papel da cuidadora é fundam ental para reduzir a vulnerabilidade e m anter a autonom ia e dignidade do paciente. Nesse sent ido, o profissional de enferm agem , em especial, é r esp on sáv el p ela ob t en ção d e u m am b ien t e d e cuidado e isso env olv e ações que m obilizam t ant o recursos hum anos, na sua m áxim a possibilidade de relacionar- se, quant o m at eriais. A dim ensão hum ana, f a v o r e ci d a p e l o a t o d e cu i d a r, t e m ca r á t e r d e t r an sfor m ação, de in t egr alização com o m u n do, o am bient e e as pessoas.
Pensa- se que a revisão propost a nest e t ext o pode cont ribuir para algum as reflexões, enalt ecendo a i m p o r t â n ci a d a e x p e r i ê n ci a v i v e n ci a d a p e l a cuidadora e ser cuidado durante o processo de cuidar sob a perspect iva da vulnerabilidade - condição que convoca para o cuidado.
REFERÊNCI AS
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3. Boff L. Ética e eco-espiritualidade. Campinas(SP): Verus; 2003. 4. Torralba FR. Ant ropologia del cuidar. Madrid: I nst it ut Borj a de Bioét ica/ Fundación Mapfr e Medicina; 1998.
5. Waldow VR. O cuidado na saúde: as relações ent re o eu, o out ro e o cosm o. Pet rópolis ( RJ) : Vozes; 2004.
6. Lévinas E. Tot alidade e infinit o. Lisboa ( PT) : Edições 70; 2 0 0 0 .
7. Noddings N. O cuidado: um a abordagem fem inina à ét ica e à educação m oral. São Leopoldo ( RS) : Unisinos; 2003. 8. Borges RF. Hum anização da rede pública de Port o Alegre: b a se s e e st r a t é g i a s d a s g e r ê n ci a s d e e n f e r m a g e m n o d e se n v o l v i m e n t o d o cu i d a d o h u m a n o . [ D i sse r t a çã o d e Mest r ad o] . Can oas ( RS) : Pr og r am a d e Pós Gr ad u ação em Saú de Colet iv a/ ULBRA; 2 0 0 6 .
9 . W a l d o w VR. Cu i d a r : e x p r e ssã o h u m a n i za d o r a d a enfer m agem . Pet r ópolis( RJ) : Vozes; 2006.
10.Torralba FR. Filosofia de la Medicina; em torno de la obra d e E. D. Pelleg r in o. Mad r id : I n st it u t Bor j a d e Bioét ica/ Fundación Mapfr e Medicina; 2001.