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REVISTA
PAULISTA
DE
PEDIATRIA
ARTIGO
ORIGINAL
Fatores
que
afetam
o
crescimento
e
estado
nutricional
de
pacientes
com
fibrose
cística
com
idade
inferior
a
10
anos
e
que
não
foram
submetidos
à
triagem
neonatal
Taís
Daiene
Russo
Hortencio,
Roberto
José
Negrão
Nogueira,
Fernando
Augusto
de
Lima
Marson,
Gabriel
Hessel
∗,
José
Dirceu
Ribeiro
e
Antônio
Fernando
Ribeiro
UniversidadeEstadualdeCampinas(Unicamp),Campinas,SP,Brasil
Recebidoem11deabrilde2014;aceitoem30dejulhode2014 DisponívelnaInternetem11defevereirode2015
PALAVRAS-CHAVE
Fibrose
cística/complicac¸ões; Crianc¸a;
Triagemneonatal; Antropometria; Estadonutricional
Resumo
Objetivo: Avaliarpormeiodeparâmetrosclínicos elaboratoriaiscomoafibrosecística(FC) afetaocrescimentoeestadonutricionaldecrianc¸assubmetidasaotratamentodeFCquenão foramsubmetidasàtriagemneonatal.
Métodos: Umacoortehistóricacom52pacientescomFCmenoresde10anosfoiacompanhada emumcentrodereferênciaemCampinas,SudestedoBrasil.Pesoealturaforamcoletadosde prontuáriosmédicosatémarc¸ode2010,quandoatriagemneonatalfoiimplementada.Entre setembrode2009amarc¸ode2010aalturadospaisfoimedida.
Resultados: QuatropacientestiveramescoresZ≤---2paraaltura/idade(A/I)eíndicedemassa corporal/idade(IMC/A).AsseguintesvariáveisforamassociadascommelhorrazãoA/I:menor númerodehospitalizac¸ões,maiortempoentreaprimeiraconsultaeodiagnóstico,maiortempo entreo nascimentoeodiagnóstico einíciotardio dadoenc¸a respiratória.Capacidadevital forc¸ada[CVF(%)],fluxoexpiratórioforc¸adoentre25-75%daCVF[FEF25-75(%)],volume
expira-tório forc¸adonoprimeiro segundo [VEF1(%)],idade gestacional,pesoao nascereiníciodos
sintomasrespiratóriosforamassociadoscommelhorIMC/I.
Conclusões: Maiornúmerodehospitalizac¸ões,retardonodiagnósticoeinícioprecocedadoenc¸a respiratóriativeramimpactonegativonocrescimento.Menoresvaloresespirométricos,menor idadegestacional,menorpesoaonascereoinícioprecocedossintomasrespiratóriostiveram impactonegativonoestadonutricional.Adesnutric¸ãofoiobservadaem7,7%doscasos,mas 23%dascrianc¸asapresentaramrisconutricional
© 2014Associac¸ãodePediatria deSãoPaulo. PublicadoporElsevier EditoraLtda.Todosos direitosreservados.
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](G.Hessel).
http://dx.doi.org/10.1016/j.rpped.2014.11.004
KEYWORDS
Cysticfibrosis/ complications; Child;
Neonatalscreening; Anthropometry; Nutritionalstatus
Factorsimpactingthegrowthandnutritionalstatusofcysticfibrosispatientsyounger than10yearsofagewhodidnotundergoneonatalscreening
Abstract
Objective: Theaimofthisstudywastoevaluatebyclinicalandlaboratoryparametershow cysticfibrosis(CF)affects growthandnutritionalstatusofchildrenwhowereundergoingCF treatmentbutdidnotreceivenewbornscreening.
Methods: Ahistoricalcohortstudy of52CFpatientsyoungerthan10yearsofagewere fol-lowed in areference center inCampinas, Southeast Brazil. Anthropometric measurements were abstractedfrom medicalrecords until March/2010,when neonatalscreening program was implemented.Between September/2009andMarch/2010,parentalheightofthe52 CF patientswerealsomeasured.
Results: Regardingnutritional status,fourpatients hadZ-scores ≤---2for height/age (H/A) andbodymassindex/age(BMI/A).ThefollowingvariableswereassociatedwithimprovedH/A ratio:fewerhospitalizations,longertimefromfirstappointmenttodiagnosis,longertimefrom birthtodiagnosisandlateronsetofrespiratorydisease.Forcedvitalcapacity[FVC(%)],forced expiratoryflowbetween25-75%ofFVC[FEF25-75(%)],forcedexpiratoryvolumeinthefirstsecond
[FEV1(%)],gestationalage,birthweightandearlyrespiratorysymptomswereassociatedwith
IMC/A.
Conclusions: Greaternumberofhospitalizations,diagnosisdelayandearlyonsetofrespiratory disease hadanegativeimpacton growth.Lowerspirometricvalues, lowergestationalage, lowerbirthweight,andearlyonsetofrespiratorysymptomshadnegativeimpactonnutritional status.Malnutritionwasobservedin7.7%ofcases,but23%ofchildrenhadnutritionalrisk. © 2014Associac¸ãode Pediatriade SãoPaulo. Publishedby Elsevier EditoraLtda.All rights reserved.
Introduc
¸ão
Afibrosecística (FC)éumadoenc¸aautossômicarecessiva altamenteprevalenteentrebrancos.AFC écaracterizada pelo envolvimento de múltiplos órgãos, especialmente os sistemas gastrointestinais e pulmonares; por níveis anor-malmenteelevadosdecloretonosuor;epeloaumentoda incidênciadeinfertilidademasculinaediabetesmellitus.1
O cuidado dietético é necessário e deve-se dar uma atenc¸ão individualizadaparagarantiraingestãoadequada deenergiaentreospacientescomFC.Paramanteroestado nutricional adequado, crianc¸as com FC devem ingerir de 110a 150% da ingestão calóricadiáriarecomendada para crianc¸as saudáveis.2 A insuficiência pancreática com má
absorc¸ãocrônica,infecc¸õesrecorrentes,inflamac¸ãocrônica e gasto energético e ingestão nutricional insuficiente são fatores agravantes da desnutric¸ão em pacientes com FC. Essesfatoreslevam àdificuldades coma manutenc¸ãoe o ganhodopesoeodéficitdecrescimentonainfância.
Independentementedaorigemedosmotivosparaoalto gastoenergético, a questão maispertinenteclinicamente é a influência da nutric¸ão sobre a progressão da doenc¸a pulmonar,porqueafunc¸ãopulmonarempacientescomFC é o principalpreditor de sobrevida.3,4 Osestudosclínicos
indicam que o estado nutricional desempenha um papel importante na progressão dadoenc¸a pulmonar na FC e é uma vantagem de sobrevivência entre os pacientes com bomestadonutricional.3,4 Esses estudosapoiamde forma
consistente a forte influência do crescimento e estado nutricionalnadoenc¸apulmonarassociadaàFC.Mas,desde o nascimento, a deficiência nutricional é determinada
principalmente pela insuficiência pancreática e má
absorc¸ão, portanto o suporte nutricional agressivo subse-quentedevefacilitar ocrescimentoadequadoe preservar afunc¸ãopulmonar.
NoBrasil, aFC é associada a alta morbidade e morta-lidade. Noentanto, asobrevivência dascrianc¸as afetadas no Brasil tem aumentado substancialmente nos últimos 50anos,devidoaumaabordageminterdisciplinarparao tra-tamento,novosmedicamentoseavanc¸osrelacionadoscom aintervenc¸ão eocontrole nutricional.Duranteosúltimos 20 anos foi estabelecido o benefício do diagnóstico pre-coce no estado nutricional de pacientes com FC.5,6 No
entanto, diagnósticos de falha de crescimento continuam asercomuns,apesardaidentificac¸ãoprecocedaFC.7,8
Neste estudo, usamos variáveis clínicase laboratoriais para avaliar como a FC afeta o crescimento e o estado nutricional depacientescom menosde10anos, submeti-dosatratamentoparaFC,masquenãoforamsubmetidosà triagemneonatal.
Métodos
prontuários médicos atémarc¸o de2010, período anterior àimplantac¸ãodatriagemneonatal,nosseguintestempos: nascimento,primeiraconsultacomummédicoespecialista, nomomentododiagnóstico e anualmente nomêsde ani-versáriodecadapaciente.Entresetembrode2009emarc¸o de2010,aalturadospaistambémfoimedida.Ospesosdos pacientesforamdeterminadoscomumaprecisãode0,1kg com uma balanc¸a digital eletrônica (Filizola®, SP, Brasil) comcapacidadepara150kgeprecisãode100g.Aestatura foideterminadacomprecisãode0,1cm,comum estadiô-metrodemadeira.Paraascrianc¸ascommenosde24meses, ocomprimentodocorpofoimedidocomumantropômetro infantilhorizontal.Medidasclínicasforamfeitasdeacordo comoManualdeReferênciaAntropométrica.9OsescoresZ
foramcalculadosparaosíndicesantropométricos,incluindo altura/idade(A/I)eíndicedemassacorporal/idade(IMC/I) paratodososindivíduos.
Os cálculos dos escores Z foram feitos com os progra-masWHOAnthro10paracrianc¸ascommenosdecincoanos
e WHO Anthro PLUS11 para as crianc¸as de cinco anos ou
mais. O estado nutricional foi classificadode acordo com índicesantropométricos daOrganizac¸ão MundialdaSaúde (OMS).12,13 As alturas dos pais foram medidas com
preci-sãode0,1cm,comumestadiômetrodemadeiracomuma extensãode 200centímetros colocadosobreuma superfí-cieplanaevertical.Asalturasdospaisforamtransformadas comoprogramaSiscres(SistemadeAnálisedoCrescimento) em uma distribuic¸ão de escores-Z para obter a média e o desvio-padrão com base nas tabelasde crescimento de 2002doCDC(CentersforDiseaseControlandPrevention).14
O peso ao nascer foi classificado segundo os critérios da OMS.15
O tratamento nutricional oferecido poresse Centro de Referênciaéfeitoporumaequipecompostaporum nutri-cionista e um médico especializado em nutric¸ão. Desde 2003oEstadodeSãoPaulooferecesuplementosdietéticos livresdecustoquandoprescritosporummédicoou nutricio-nistaparapacientescomFC.Noprimeiromomentoemqueo progressodepesoealturanãoésatisfatório,deacordocom adiretrizatual,2suplementosoraissãogeralmente
sugeri-dos.Aalimentac¸ãoporsondaenteraléumaopc¸ãosearazão peso/alturacairabaixode85%oumesmoapósatentativa deuso desuplementos energéticosorais. Vitaminas lipos-solúveissãosempre prescritaseenzimaspancreáticassão administradassehouverevidênciadeinsuficiência pancreá-tica.
Emrelac¸ãoaoestudogenético,osdadosforamextraídos dosregistrosmédicos paraasseguintesmutac¸ões associa-das com a FC: F508del,G542X, N1303K, G551D, R553X e R1162X. Ospacientesforamclassificadoscomo portadores dedoisalelosconhecidosdaFC,deumaleloconhecidoou sem aleloconhecido. As mutac¸õesCFTR foram identifica-daspelareac¸ãodepolimerase em cadeiaparaa mutac¸ão F508delepelométododopolimorfismodecomprimentode fragmentoparaasmutac¸õesG542X,R1162X,R553X,G551De N1303K.Todasasmutac¸õesCFTRestãoincluídasnasclasses I,IIouIII.
Prontuáriosmédicosforamrevisadosparaobterdadosa respeitodeamamentac¸ãoexclusiva,presenc¸adeíleo meco-nial,iníciodossintomasgastrointestinaiserespiratóriosem meses,númerode hospitalizac¸ões porano,hepatopatiae insuficiênciapancreática.
A func¸ão pulmonar por espirometria foi avaliada em todosospacientescomFCeidadedeseteanoseosdados foramcoletadosanualmente até os10 anos. Osdadosdo balanc¸odegorduraemicrobiológicopulmonarforam cole-tados na primeira consulta no centro de referência, no diagnósticoeanualmenteduranteomêsdeaniversáriode cadapaciente. Osindicadoresforam obtidos,nomáximo, doismesesantesoudoismesesapósacoletadasmedidas antropométricas.
FoiusadoumespirômetromodeloCPFS/D(MedGraphics, Medical Graphics Corporation®, MN, USA) e o software
de espirometria Breeze PF, versão 3.8 B para Windows 95/98/NT (Medical Graphics Corp., MN, EUA). Durante o teste,foramavaliadososseguintesparâmetros:capacidade vitalforc¸ada(CVF),volumeexpiratórioforc¸adonoprimeiro segundo(FEV1),ÍndicedeTiffenau(razãoFEV1/CVF)(TIFF)
efluxoexpiratórioforc¸adoentre25-75%daCVF(FEF25-75%).
Osresultadosseguiramasrecomendac¸õesdaEuropean Res-piratorySociety(ERS)eAmericanThoracicSociety(ATS),16
todososvaloresforamcomparadoscomosdadosdePolgare Promadaht17eonúmeroabsolutofoiobtidoparacada
paci-enteincluídonoestudo.Osvaloresdotestedeespirometria nãoforam ajustados por categoriasconsiderando a gravi-dade.Foramconsideradososvaloresabsolutosdos dados, comousodaadistribuic¸ãonuméricaparaanálise.4
Ométodo deVan derKamer18 foiusadopara avaliaro
balanc¸o de gordura fecal. Osresultados foram considera-dos anormais quando a gordura fecal ultrapassou 2g/dia emcrianc¸as deaté12anosoumenosou5g/diaem paci-entes com mais de 12 anos. O balanc¸o de gordura nas fezes foi usado paradiagnosticar a insuficiência pancreá-tica.
Os pacientes também foram classificados de acordo coma colonizac¸ão e infecc¸ãopulmonar por Pseudomonas aeruginosa.19
O sistema SAS para Windows versão 9.1.3 (SAS Insti-tuteInc.;Cary,NC,EUA)foiusadoparaanáliseestatística. Para analisar a relac¸ão entre a evoluc¸ão do peso/altura e complicac¸ões da FC, as equac¸ões de estimac¸ão gene-ralizadas (GEE)20 foram aplicadas aos dados do mesmo
pacienteemmomentosdiferentes.Asvariáveisforam trans-formadasemcategoriasdevidoàfaltadeumadistribuic¸ão normal. O nível de significância foi estabelecido como p<0,05. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual deCampinas(n◦ 539/2008).Osresponsáveispelos
pacien-tes deram consentimento por escrito antes do início do estudo.
Resultados
Apopulac¸ãodoestudoincluiu52pacientescomFC.Desses, 27/52(51,9%)eramdosexofemininoe49/52(94,7%)eram brancos.Aidademédiadospacienteseradeseisanosenove meses(±2,40).
Tabela1 Estadonutricionalde52pacientescomFCeidademenorde10anosdeacordocomosexoeoíndiceA/I
A/IEscoreZ Númerodepacientes % n
M/F
% M/F
<-3EscoreZ 2 3,8 1/1 3,7/4
≥-3EscoreZand<-2Z-core 2 3,8 1/1 3,7/4
≥-2EscoreZand<-1EscoreZ 16 30,8 9/7 33,3/28
≥-1EscoreZand≤+1EscoreZ 26 50.0 12/14 44,4/56
>+1EscoreZand≤+2EscoreZ 5 9,6 4/1 14,8/4
>+2EscoreZand≤+3EscoreZ 1 1,9 0/1 0/4
>+3EscoreZ 0 0 0/0 0/0
n,númerodepacientes;%,porcentagem;M,masculino;F,feminino;A/I,altura/idade.
paciente;F508del/R1162X,doispacientes;F508del/R553X, umpaciente; F508del/mutac¸ão nãoidentificada, 19 paci-entes; G542X/mutac¸ão não identificada, um paciente; R1162X/mutac¸ãonãoidentificada,umpacienteemutac¸ão nãoidentificada/mutac¸ãonãoidentificada,cincopacientes. Otempomedianoentreonascimentoeodiagnósticofoi de22 meses(0-106,6). Otempomediano para o apareci-mentodos primeirossintomasgastrointestinaisfoi deoito meses(0-187,3)eotempomedianoparaoaparecimentodos sintomasrespiratóriosfoide14meses(0-223,1).Otempo medianoentreaprimeiraconsultanoservic¸oeodiagnóstico foide2,4meses(0-66,8).
Dospacientesestudados,18,6%nasceramprematurose 23,5% nasceram com peso <2,5kg. O peso médio ao nas-cerfoide2,9±0,6kg,aalturamédiafoide47,5±2,6cme adurac¸ãomédiadoaleitamento maternoexclusivofoide 3,3±2,9meses.
Íleo meconial, anormalidades do fígado e insuficiên-cia pancreática estavam presentes em 23%, 40% e 90,8% dos pacientes, respectivamente. Os pacientes tiveram
uma média de 1,5 hospitalizac¸ão e mediana de uma
hospitalizac¸ão duranteo períododeestudo. Emrelac¸ãoà infecc¸ão/colonizac¸ão pulmonar,64,3% dospacienteseram colonizadoscronicamentepelaP.aeruginosae69,2%haviam sidosubmetidosàespirometria.
Asmães epaisdospacientestinham umaalturamédia de1,62m e 1,73m, respectivamente.O escore Z dealvo parentalalcanc¸adopelos pacientesfoi emmédia0,93.Ao nascer,25%dospacientestiveramescoresZ<-2deacordo com o índice A/I e 21% tinham escores---Z <-2 deacordo comoíndiceIMC/I.Nasuaprimeiraconsultanoservic¸o,38% dospacientestinhamescoresZ<-2deacordocomoíndice A/I.Deacordocom oIMC/I, 40,4%tiveramescoresZ<-2. Nomomentododiagnóstico,32%dospacientes apresenta-ramescoreZ<-2deacordocomoíndiceA/Iversus7,7%na antropometriaatual(tabela 1). Em relac¸ão aoIMC/I, 21% dospacientestiveramescores---Z<-2nodiagnósticoversus
7,7%naantropometriaatual(tabela2).
Atabela3mostraosresultadosparaaestimativaobtida por GEE para o índice A/I. Os valores de A/I mais bem correlacionados estavam associados com menos hospita-lizac¸ões,maiortempoentreaprimeira consultae o diag-nóstico,maiortempoentreonascimentoeodiagnósticoe sintomasrespiratóriosdeinícioretardado.
Atabela4resumeosresultadosdaanáliseporGEEpara oíndiceIMC/I.OsvaloresdeIMC/Imaisbem correlaciona-dosestavamassociadoscomvaloresmaiselevadosdeCVF,
VEF1,FEF25-75%;idadegestacionalmaislonga;maiorpesono
nascimentoesintomasrespiratóriosdeinícioretardado.
Discussão
Aidadeemqueéfeitoodiagnósticoéumfatorimportante paraoestadonutricionaldepacientescomFC.Odiagnóstico precocefacilitaumaatenc¸ãoespecialaoestadonutricional, aoacompanhamentodacurvadecrescimentoeàdetecc¸ão decolonizac¸ãodepatógenosnasviasaéreassuperiores,os quaisestãointimamenterelacionadosaumpiorprognóstico. Nessacoortehistórica,discutimoscomoasmanifestac¸õesde FCpodemafetarocrescimentoeoestadonutricionaldessas crianc¸as.
Pacientesdiagnosticadosprecocemente estãomais
pró-ximos do estado nutricional normal no momento do
diagnósticoenos10anosseguintes.5Nesteestudo,otempo
medianoentreonascimentoeodiagnósticofoide22meses eotempomedianoentreaprimeiraconsultaeodiagnóstico foide2.4meses.
Dados americanos e europeus reportam idades media-nas de diagnóstico de FC de seis meses e cinco meses, respectivamente.21,22 O diagnóstico tardio de FC ocorre
empaísesdesenvolvidosentreospacientescomexpressão genotípicadistinta,doenc¸apulmonarleveeausênciade sin-tomasgastrointestinais.23 Emumpaísemdesenvolvimento
comooBrasil,alémdasrazõesacimamencionadas,o diag-nósticotardiopareceresultardoencaminhamentoatrasado depacientesparaumcentrodereferência, poisadoenc¸a nãoéreconhecidaimediatamente.
Emnossoestudo,temposmaioresentreonascimentoeo diagnósticoeentreaprimeiraconsultaeodiagnósticoforam associados comumamelhor correlac¸ãoA/I; alémdisso, o início tardio dos sintomas respiratórios foi associado com umamelhorrazãodosíndicesA/IeIMC/I.Essasassociac¸ões são,provavelmente,devidasàpresenc¸adepacientescom doenc¸apulmonarleve esemsintomassugestivosdeFC e, consequentemente,ummenorimpactodadoenc¸asobreo crescimentoeestadonutricional,poissesabequea melho-ria dafunc¸ão pulmonarestáassociada como aumentodo IMCduranteainfância.24
Houvemelhoriadoestadonutricionalcomoaumentodos valoresdeCVF(%),VEF1(%)eFEF25-75%,conformeanalisado
peloíndiceIMC/I.
Tabela2 Estadonutricionalde52pacientescomFCeidademenorde10anosdeacordocomosexoeoíndiceIMC/I
IMC/IEscoreZ Númerodepacientes % n
M/F
% M/F
<-3EscoreZ 2 3,8 0/2 0/8,0
≥-EscoreZand<-2EscoreZ 2 3,8 2/0 8,0/0
≥-2EscoreZand<-1EscoreZ 12 23,1 6/6 22,2/24,0
≥-1EscoreZand≤+1EscoreZ 30 57,7 14/16 51,9/64,0
>+1EscoreZand≤+2EscoreZ 5 9,6 5/0 18,5/0
>+2EscoreZand≤+3EscoreZ 1 1,9 0/1 0/4,0
>+3EscoreZ 0 0 0/0 0/0
n,onúmerodepacientes;%,porcentagem;M,masculino;F,feminino;IMC/I,índicedemassacorporal/idade.
se recuperamde umestado nutricional ruim em até dois anosapósodiagnósticoapresentammelhorfunc¸ãopulmonar emenostosseaosseisanos,oque enfatizaanecessidade deumtratamentoabrangenteeagressivo,implementadoo maisrapidamentepossívelapósodiagnóstico.25
As mudanc¸as de peso e altura têm sido reconhecidas comoumdosfatoresprognósticosdegravidadedadoenc¸a emenorsobrevidaempacientescomFC.Umalimitac¸ãodo nossoestudo é que a espirometriafoi feita em pacientes commaisdesete anos enãoincluiu todaa populac¸ão de pacientescomFC.
Aincidência debaixopeso e alturadiminuiuduranteo tratamentonesteestudo.Naprimeiraconsultanoservic¸o, 40,4%dos pacientesapresentaramescore Z<-2 deacordo com o índice IMC/I, versus 7,7% dos pacientes avaliados antes daimplantac¸ão da triagem neonatal. Para o índice E/I,38%dospacientestiveramescores---Z<-2versus7,7%.
AaltaporcentagemdepacientescomFCcomíleo meco-nial(23%)poderiajustificaraaltaporcentagemdepacientes desnutridos em seus primeiros anos de vida. Os pacien-tescomíleomeconialtratadoscirurgicamentenosprimeiros dias devida sofrem efeitos agravantes que podem preju-dicar o seuestado nutricional eo estresse cirúrgicopode dificultaraalimentac¸ãonopós-operatórioduranteumafase importante de crescimento. Mas esses pacientes tiveram uma boa recuperac¸ão nutricional, sem comprometer seu estado nutricional e de crescimento. Devido a melhorias nas técnicascirúrgicas neonatais, melhores cuidados pós--operatóriosesuportenutricional,oestadonutricionalea sobrevidadospacientescomFCcomíleomeconialparecem sersemelhantesaospacientescomFCsemíleomeconial.A incidênciadeíleomeconialrelatadaporAlvarezetal.,no mesmoCentro deReferênciadeFC,foide5,8%.23 A
hipó-teseassociadacomabaixaincidência deíleo meconialno último estudo foi que ospacientes com FC morreriam no primeiroanodevida,antesqueodiagnósticofossefeito.23
Nopresenteestudo,foidetectadoíleomeconialem23%dos pacientes,umvalorpróximodos 15-20%citadosna litera-turainternacional.26 Atualmente,comatriagemneonatal,
omanejodoíleomeconialpodesermaiseficazempacientes comFC.
A altura é uma característica de crescimento herdada profundamenteinfluenciadapelanutric¸ãoepelasdoenc¸as. OspaisdospacientescomFCapresentaramalturasmédias maioresemcomparac¸ãocomamédiadapopulac¸ão.As altu-rasmédias foramde1,73m paraospaise 1,62m paraas mãesnopresenteestudo.
DeacordocomoInstitutoBrasileirodeGeografiae Esta-tística(IBGE), a alturamédiado homembrasileiroerade 1,70m e das mulheres brasileiras de 1,58m em 2009.27
As contribuic¸ões genéticas dos pais para a altura da sua prole são influenciadas pela nutric¸ão e pelas doenc¸as, principalmente as doenc¸as crônicas, como a FC. A altura dospacientesestudados,considerando-seo alvoparental, era adequada. Isso é inconsistente com os dados obti-dosem outros estudos,querelataram umadiminuic¸ão da alturamédia entre crianc¸as com FC em comparac¸ão com a altura média parental.28 Assim, apesar dos
diagnósti-cos tardios (mediana de 22 meses neste estudo versus
seismeses em paísesdesenvolvidos), as alturas finais das crianc¸as nesteestudo nãoforamprejudicadas,o que pro-vavelmente reflete o cuidado multidisciplinar adequado oferecidoaospacientes.Essesdadosindicamqueoestado nutricionaldosnossos pacientespodetersido semelhante aos obtidos nos principais centros em países desenvolvi-dos.
Uma crianc¸a com classificac¸ão de escore Z ≥-2 e <-1, que sugere que a crianc¸a se aproxima das categorias de baixopesooualturaparaasuaidade,mereceaatenc¸ãodos profissionaisdesaúdeecuidadores.Umacrianc¸acomesses valoresdeve ser considerada como pertencente ao grupo derisco parao controle nutricional. Neste estudo, 30,8% dospacientesdeacordocomoíndiceA/Ie23%dos pacien-tesdeacordocomoIMC/Iestavamdentrodesseintervalo demonitoramentoderisco nutricional. Valeressaltar que amaioriadospacientestinhaalturaepeso adequados,de acordocomosíndicesestudados,masasvariac¸õesdepeso naFCsãomuitofrequentes,oquerequeratenc¸ãoespecial paraesseseventos.
Crianc¸as com FC apresentam insuficiência pancreática nomomentodo nascimento.O baixo peso ao nascer está
presente até mesmo na ausência de prematuridade, na
medidaemque alterac¸õesnocrescimentofetaldevidoao maufuncionamentodopâncreasexócrinoreduzanutric¸ão intrauterinaeresultaemmenorpeso aonascimento.29 Em
nossoestudo,23,5%dospacientesapresentarambaixopeso aonascimentoe18,6%eramprematuros.Essesvalores exce-demaquelesrelatadosporFestinietal.,queavaliaramas característicasneonataisdecrianc¸ascomFCnaItália.30Eles
Tabela3 Associac¸ãoentrevariáveisclínicaselaboratoriaisdaFCeoíndiceA/Icomouusodemodeloslinearesgeneralizados comGEE(Equac¸õesdeEstimac¸ãoGeneralizadas)
Variáveis Estimativa Erropadrão IC95% Valorp
Pseudomonasaeruginosa
Não 0,203 0,123 ---0,038 0,444 0,099
Sim 0 0 0 0
-Insuficiênciapancreática
Não 0,169 0,137 ---0,099 ---0,437 0,217
Sim 0 0 0 0
-Hepatopatia
Não 0,066 ---0,123 ---0,176 ---0,308 0,593
Sim 0 0 0 0
-Espirometria
CVF(%) ---0,001 0,003 ---0,007 0,005 0,788
FEV1(%) ---0,001 0,004 ---0,009 0,006 0,749
CVF/FEV1(%) ---0,007 ---0,007 ---0,017 0,004 0,204
FEF25-75(%) ---0,002 ---0,001 ---0,004 ---0,004 0,938
Idadegestacional
Termo 0,177 0,128 ---0,073 ---0,428 0,166
Prematuro 0 0 0 0
-Pesoaonascer
≥2,5kg 0,704 1,054 1,367 2,769 0,504
<2,5kg 0 0 0 0
-Íleomeconial
Sim ---0,091 0,122 ---0,329 0,147 0,452
Não 0 0 0 0
-Períododeamamentac¸ãoexclusiva
- 0,028 0,017 0,005 0,061 0,094
Númerodehospitalizac¸ões
- ---0,101 0,022 ---0,144 -0,058 <0,001
1aconsulta-diagnóstico
- 0,004 0,001 0,001 0,007 0,004
Nascimento-diagnóstico
- 0,004 0,001 0,002 0,006 <0,001
Alelosconhecidos
1aleloconhecido ---0,023 0,131 ---0,280 0,234 0,861
2alelosconhecidoss ---0,044 0,146 ---0,330 0,242 0,764
Alelosnãoconhecidos 0 0 0 0
-Iníciodossintomasgastrintestinais
- 0,002 0,001 ---0,001 0,004 0,161
Iníciodossintomasrespiratórios
- 0,004 0,002 0,001 0,007 0,010
A/I,altura/idade; CVF(%),capacidadevitalforc¸ada;FEV1(%),volumeexpiratórioforc¸ado noprimeirosegundo;FEF25-75(%), fluxo
expiratórioforc¸adoentre25-75%daCVF;IC,intervalodeconfianc¸a;D,intervalodetempo.
Ospacientesque sãomenosfrequentemente hospitali-zadostêmumarelac¸ãoA/Imelhor.Entreospacientescom FC,amaiornecessidadedeingestãodeenergiaestá associ-adacomaumentodademandacalóricadevidoarepetidas infecc¸õeseinflamac¸ãodasviasaéreas,diminuic¸ãoda inges-tãodealimentosduranteosepisódiosdedoenc¸arespiratória aguda e diminuic¸ão da absorc¸ão de gordura. Esse déficit de energia provoca ou agrava a desnutric¸ão e é comum
em pacientes hospitalizados. Isso leva a retardo do cres-cimento, diminuic¸ão da forc¸a muscular, fadiga, infecc¸ões respiratóriasde repetic¸ão e func¸ão pulmonardiminuída e reduz,portanto,asobrevivênciadepacientescomFC.
Tabela4 Associac¸ãoentrevariáveisclínicaselaboratoriaisdaFCeoíndiceIMC/Icomousodemodeloslinearesgeneralizados comGEE(Equac¸õesdeEstimac¸ãoGeneralizadas)
Variáveis Estimativa Erropadrão IC95% pvalor
Pseudomonasaeruginosa
Não ---0,021 0,082 ---0,182 0,140 0,799
Sim 0 0 0 0
-Insuficiênciapancreática
Não ---0,056 0,100 ---0,251 0,139 0,573
Sim 0 0 0 0
-Hepatopatia
Não ---0,071 ---0,071 ---0,091 ---0,240 0,436
Sim 0 0 0 0
-Espirometria
CVF(%) 0,008 0,003 0,003 0,013 0,002
FEV1(%) 0,009 0,003 0,004 0,014 0,001
CVF/FEV1(%) ---0,001 0,005 ---0,010 0,008 0,824
FEF25-75(%) 0,004 0,002 0,001 0,007 0,008
Idadegestacional
Termo 0,378 0,123 0,136 0,619 0,002
Pré-termo 0 0 0 0
-Pesoaonascer
≥2,5kg 0,479 0,115 0,255 0,703 <0,001
<2,5kg 0 0 0 0
-Íleomeconial
Sim ---0,118 0,111 ---0,335 0,098 0,285
Não 0 0 0 0
-Períododeamamentac¸ãoexclusiva
- 0,017 0,016 ---0,014 0,047 0,281
Númerodehospitalizac¸ões
- ---0,022 0,027 ---0,076 0,032 0,422
1aconsulta-diagnóstico
- 0,002 0,002 ---0,002 0,005 0,294
Nascimento-diagnóstico
- 0,002 0,001 ---0,001 0,004 0,065
Alelosconhecidos
1aleloconhecido 0,065 0,145 ---0,224 0,355 0,657
2alelosconhecidos 0,004 0,153 ---0,254 0,346 0,763
Nenhumaleloconhecido 0 0 0 0
-Iníciodossintomasgastrintestinais
- 0,002 0,001 0 0,003 0,054
Iníciodossintomasrespiratórios
- 0,002 0,001 0,001 0,004 0,014
IMC/I,índicedemassacorporal/idade;CVF(%),capacidadevitalforc¸ada;FEV1(%),volumeexpiratórioforc¸adonoprimeirosegundo; FEF25-75(%),fluxoexpiratórioforc¸adoentre25-75%daCVF;IC,intervalodeconfianc¸a.
oferecido em nosso centro de referência está associado a esseresultado. OCentro de Referência oferece consul-tas com profissionais de saúde de quatro especialidades, pneumologia,gastroenterologia, fisioterapiae nutric¸ão, e oEstadodeSãoPaulo, noBrasil,oferecesuplementos ali-mentareslivresdecustoquandoprescritosporummédicoou nutricionistaparapacientescomFCdesde2003.Essa polí-tica temassegurado uma melhor adesãoao tratamento e
melhornutric¸ão. Além disso, umaorganizac¸ão não
gover-namental formada por pais, chamada Fibrocis, tem um
trabalhoparalelo comvisitasdomiciliares feitaspor assis-tentes sociais e assistência financeira para transporte de pacientesparaasconsultas.
atratamento para FC, masque nãoforamdiagnosticadas aonascimentopelatriagemneonatalnoBrasil.Noentanto, há várias limitac¸ões. Apesar de alguns resultados serem baseadosemumformuláriopreenchidopelosmédicos res-ponsáveisporessespacientes,algunstestesnãosãofeitos rotineiramentedevidoarestric¸õesdecustoede financia-mento dogoverno.Outra limitac¸ãoé que osdados foram coletados em um único grande centro no Brasil e nossos resultadospodemnãorefletiroestadonutricionaleo cres-cimentodetodasascrianc¸asbrasileirascomFC.
Emconclusão,váriasmanifestac¸õesdaFCinfluenciaram ocrescimentoeoestadonutricionalduranteotratamento, masospacientesapresentaramumbomestadonutricional, com uma baixa taxa de desnutric¸ão e crescimento ade-quado.Noentanto,muitosdelesestavamnafaixaderisco nutricionalenecessitavamdeatenc¸ãoespecialemrelac¸ãoà perdadepesoeaocrescimentoadequado.Omanejo nutri-cionaladequadodeterminaosresultados.
Éfundamentalqueosnutricionistas,pediatraseoutros profissionais envolvidos no cuidado de pacientes com FC reconhec¸amoprocessodecrescimentodospacientesdesde a primeira consulta para permitir a intervenc¸ão precoce nomomentododiagnóstico,antesqueocorradesnutric¸ão significativa.Aatenc¸ãodadana infânciapodeterimpacto sobreoestadonutricional,ocrescimento, asaúde pulmo-narenaadesãoaotratamentoepodeaumentarasobrevida eaqualidadedevidadospacientescomFC.
Financiamento
Esta pesquisa recebeu apoio da Coordenac¸ão de
Aperfeic¸oamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Brasil.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Agradecimentos
Osautoresagradecemàequipedeatendimento interprofis-sionaldoHospitaldasClínicasdaUniversidadedeCampinas (Unicamp),aospacienteseaospaisqueparticiparamdeste estudo. Os autores agradecem ainda a Helymar da Costa Machadopelaanáliseestatística.
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