• Nenhum resultado encontrado

Empresariado industrial e a educação profissional brasileira.

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "Empresariado industrial e a educação profissional brasileira."

Copied!
15
0
0

Texto

(1)

E m p r e s a r ia d o in d u s t r ia l e a e d u c a ç ã o p r o f is s io n a l

b r a s ile ir a

Ramon de Oliveira

Universidade Federal de Pernambuco

R e s u m o

Considerando as mudanças políticas e econômicas transcorridas na sociedade brasileira na última década do século passado, marcadas, entre outros fatos, pela ascensão da ideologia neoliberal e por mu-danças no setor produtivo, além da ênfase discursiva de governo e de setores empresariais sobre a necessária reformulação do sistema educacional visando o alcance de uma economia compet it iva, ob-jet iva- se analisar o papel que o empresariado indust rial reserva à educação prof issional visando a consecução do seu projet o de de-senvolvimento econômico. Foram utilizados como fontes primárias document os t écnicos da Conf ederação Nacional da Indúst ria (CNI) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), além de depoiment os das lideranças dessas inst it uições em diversos pe-riódicos brasileiros.

Concluiu- se que embora o empresariado brasileiro tenha enfatizado o invest iment o na educação básica e na educação prof issional, t al ênf ase busca ajust ar a educação brasileira aos int eresses econômi-cos e não considerá- la um direito social a ser garantido pelo Estado a t odos cidadãos brasileiros. As análises e proposições do empre-sariado para a educação est rut uram- se em bases semelhant es às proferidas pelo Banco Mundial, o qual segue enfaticamente a Teo-ria do Capit al Humano. Af irma- se t ambém que suas proposições concernent es ao desenvolviment o econômico e à polít ica educa-cional f oram incorporadas na agenda do governo cent ral brasileiro no t ranscorrer da década de 1990.

P a l a v r a s - c h a v e :

Em p r esar i ad o i n d u st r i al

Ed u cação p r o f i ssi o n al

Compet it ividade.

Correspondência: Ramon de Oliveira

(2)

I n d u s t r ia l b u s in e s s m e n a n d t h e B r a z ilia n p r o f e s s io n a l

e d u c a t io n

Ramon de Oliveira

Universidade Federal de Pernambuco

A b s t r a c t

Considering t he polit ical and economical changes t hat t ook place i n t he Brazi l i an soci et y du ri n g t he l ast decade of t he 20t h cent ury, charact erized as t hey were, among ot her f act s, by t he r i si n g o f t h e n eo l i b er al i d eo l o g y an d b y ch an g es i n t h e product ive sect or, apart f rom t he prof essed emphasis government and business sect ors have placed on t he necessary ref orm of t he educat ion syst em aimed at achieving a compet it ive economy, t he obj ect i ve of t hi s art i cl e i s t o i n vest i gat e t he rol e i n du st ri al b u si n essm en assi g n t o p ro f essi o n al ed u cat i o n w i t h i n t h ei r project s of economic development . The primary ref erence mat e-rial used were t echnical document s by t he Conf ederação Nacio-nal da Indúst ria (CNI - Nat ioNacio-nal Conf ederat ion of Indust ries) and by t he Federação das Indúst rias do Est ado de São Paulo (Fiesp -I n d u st r y Fed er at i o n o f t h e St at e o f São Pau l o ), an d al so t est imonies f rom leaders of t hose inst it ut ions ext ract ed f rom various Brazilian periodicals.

The conclusion has been t hat alt hough Brazilian businessmen h ave em p h asi zed i n vest m en t s i n b asi c an d p r o f essi o n al educat ion, such emphasis seeks t o adjust educat ion in Brazil t o economic int erest s and not t o regard it as a social right t o be g u ar an t eed b y t h e st at e t o al l ci t i zen s. Th e an al yses an d proposals f or educat ion made by businessmen evolve around principles similar t o t hose put f orward by t he World Bank, which adhere st rict ly t o t he Theory of Human Capit al. The t ext also shows t hat such proposals regarding economic development and edu cat ion al policy have been in corporat ed in t o t he Brazilian cent ral government agenda during t he 1990s.

K e y w o r d s

In du st ri al bu si n essm en

Prof essi on al edu cat i on

Compet it iveness.

Contact: Ramon de Oliveira

(3)

A relação de submissão e cumplicidade q u e o s g o vern o s n aci o n ai s m an t êm co m o grande capit al af et a diret ament e a sua capaci-dade de at u ar cooperat ivamen t e com ou t ros sujeit os polít icos que não aqueles represent an-t es do capian-t al.

O Est ado, ao “ resumir” suas prát icas de at en di m en t o dos i n t eresses do capi t al , age como inst rument o organizador e imposit or dos int eresses das elit es empresariais, f azendo jus às palavras de M arx e Engels quando o int erpre-t aram como um comierpre-t ê das classes dominanerpre-t es (M arx e Engels, [s.d.]).1

Como most rou Boron (1999), os “ no-vos Leviat ãs” planet ários, ou seja, os grandes conglomerados int ernacionais, ao relacionarem-se co m g o vern o s q u e p ri o ri zam o m ercad o como lócus def inidor das relações polít icas e econômicas de cada nação, minimizam a demo-cracia. Essa subsunção da democracia às rela-ções de m ercado põe em qu est ão a própri a possibilidade de exist ir alguma f orma de just i-ça pol ít i ca e soci al . No âm bi t o das rel ações capit alist as o conceit o de just iça não incorpo-ra as cont incorpo-radições e ant agonismos sociais. Por cont a disso, o mercado, ao ser o pólo irradiador dos direcionament os polít icos, econômicos e sociais, det ermina o aument o da exclusão social, o que, como já dizia Rousseau, esvazia a possi-bilidade do est abeleciment o de um Est ado just o e da exist ência de cidadãos em condições iguais de part icipação na sociedade.

Enquant o para as diversas organizações dos t rabalhadores são impost os inúmeros em-pecilhos à sua int erf erência diret a no dest ino da nação, o empresariado adent ra as diversas es-f eras est at ais buscando ot imizar, mediant e po-lít icas governament ais, os caminhos que asse-gurem a legit imação dos seus int eresses, bem como a conf ecção de um padrão ét ico, polít i-co e social garant idor da sua hegemonia, obs-cu recen do ou t ras con cepções de desen volvi-ment o gest adas no int erior da sociedade.

Não f oi à t oa, como demonst rou Diniz (1991), que o empresariado brasileiro, além de se reorganizar inst it ucionalment e –

revigoran-do e danrevigoran-do novas direções às suas organiza-ções represent at ivas como a Fiesp (Federação das Indúst ria do Est ado de São Paulo) e CNI (Conf ederação Nacional das Indúst rias) –, bus-cou t ambém int ervir mais diret ament e na polí-t ica nacional, via candidapolí-t ura de vários empre-sários, dest acando como moment o expressivo a eleição para a Assembléia Nacional Const it uin-t e, em 1986.2

A def esa do empresariado por uma eco-nomia mais abert a ao capit al est rangeiro, com menor int ervenção est at al, rompendo com o modelo de subst it uição de import ações (Diniz, 1991), demonst ra que seu int eresse f undamen-t al é a conf ecção de um modelo econômico e pol ít i co qu e col oqu e a reprodu ção dos seu s int eresses em primeiro plano mesmo que, em decorrência disso, ampliem- se as cont radições sociais.

Na medida em que as f orças ligadas ao empresariado indust rial se acham capazes de inst it uir uma nova regulação da ordem social, ref orçam a exclusão dos int eresses de out ros agent es sociais. O que de f at o não é grande n ovidade. Como demonst rou Din iz (1991), o carát er part icularist a e a est reit eza do universo i deol ógi co dos em presári os os l evam a n ão paut arem suas int ervenções por ações de nego-ciação nem de compart ilhament o com out ros set ores acerca dos cust os das ref ormas neces-sárias à implemen t ação de u ma n ova ordem econômica.

Essas ações empresariais, art iculadas ao ref luxo dos moviment os sociais na década de 1990 ao que parece, garant iram as condições para que o empresariado pudesse f icar mais à

1. A referência à visão marxista presente no Manifesto de 1848 objetiva enfatizar a minimização da intervenção do Estado nas áreas sociais. Já no plano analítico, reconhecemos a complexidade muito maior do Estado na atualidade, esta já destacada por Gramsci (Coutinho, 1994). A própria existência de instâncias empresariais como proponentes de política, evi-dencia um outro perfil da sociedade civil e implica utilizar como instru-mental de análise o constructo teórico desenvolvido por Antônio Gramsci.

(4)

vont ade para propor, em diversos document os, um novo modelo de indust rialização. Sua dis-posição em t ornar a economia nacional mais compet it iva, t razendo para si a responsabilida-de responsabilida-de reest rut urar- se para poresponsabilida-der compet ir com a indúst ria est rangeira, f oi acompanhada de um receit uário de propost as no campo educacional. Di an t e desse con t ext o, est e t rabal ho t em co m o o b j et i vo an al i sar o p ap el q u e o empresariado indust rial reserva à educação pro-f issional visando a consecução do seu projet o de desenvolviment o econômico. Ut ilizaremos, como f ont es, diversas publicações da CNI e da Fiesp produzidas no t ranscorrer da década de 1990, especif icament e aquelas nas quais est e-jam expressas as proposições desse segment o para a polít ica educacional brasileira.

A p r o p o s t a d e d e s e n v o lv im e n t o d o e m p r e s a r ia d o in d u s t r ia l

No final da década de 1980, precisamen-t e em maio de 1988, a CNI,3

por meio de seu Grupo de Avaliação da Competitividade da Indús-t ria Brasileira, lançou o documenIndús-t o “ Compe-titividade industrial: uma estratégia para o Brasil” (CNI, 1988). Pressupondo que o modelo de subs-tituição de importações mostrava- se exaurido e que o setor industrial brasileiro apresentava uma grande complexidade, a CNI buscou, com esse documen-to, estimular uma nova institucionalidade nacional de f orma a permit ir que a economia nacional al-cançasse novos patamares de compe- titividade

definida como sendo o alcance de uma maior pro-dut ividade e de mais ef iciência da indúst ria

, garantindo assim uma maior participação do Bra-sil nos mercados mundiais, bem como uma maior expansão do mercado int erno (CNI, 1988).

O alcance de uma maior produtividade por parte da indústria nacional significava, no entendi-mento da CNI, além de uma maior participação da nossa economia no mercado mundial, a possibilida-de possibilida-de integrar novos contingentes populacionais ao mercado consumidor, o que representaria o aumen-to do padrão de vida de boa parte da população excluída deste mercado (CNI, 1988).

Já a Fiesp, em 1990, at ravés do docu-ment o “ Livre para crescer: propost a para um Brasil moderno” (Fiesp, 1995), reedit ado em vá-rios anos seguidos, explicit ou a propost a de de-senvolviment o que, na concepção dos empresá-rios a ela associados, permit iria à economia bra-sileira e ao empresariado nacional4 part icipar de f orma mais compet it iva e aut ônoma no proces-so de globalização econômica.

A i déi a de u m Brasi l m odern o, n esse document o, t em como base o modelo de eco-n o m i a ef i ci eeco-n t e e co m p et i t i va co et âeco-n eo ao padrão dos países do Primeiro M u n do e bali-zado pel o regi m e de m ercado. Desse m odo, caberi a ao Est ado m an t er u m a ação coorde-nadora de f orma a garant ir a regência das leis de m ercado.

Segundo a Fiesp, o Est ado deveria res-t ringir suas ações às áreas de nures-t rição, saúde, educação e f ormação prof issional.

No an o de 1992, a CNI l an çou o docu m en t o “ Ru m o à est abi l i dade e ao cresci -ment o” (CNI, 1992). Dif erent e-ment e do docu-m en t o ci t ado an t eri ordocu-m en t e (CNI, 1988), de carát er proposi t i vo, n o docu m en t o de 1992 el a dem on st ra t er a cert eza de qu e o ú n i co cam i n h o a ser seg u i d o er a o d a b u sca d e u m a econ om i a com m ai or com pet i t i vi dade e de di spu t a de n ovos m ercados. Para a CNI, o recu o em f ace dest e obj et i vo poderi a repre-sent ar a marginalização da economia brasilei-ra n o cen ári o i n t ern aci on al , com prom et en do decisivamen t e o seu pot en cial de desen volvi-m en t o soci al e econ ôvolvi-m i co.

3 . Para uma análise da constituição da CNI como sujeito construtor da hegemonia da burguesia industrial nacional e o seu papel na disseminação de valores e interesses do empresariado industrial – aos poucos incorpo-rados pelo Estado brasileiro, nas reformas educacionais–, conferir a tese de doutoramento de José dos Santos Rodrigues (1997). Dentro desta mesma temática, Neves (1994, p. 69- 86) faz uma boa síntese de como o empresariado nacional se reconfigurou organizacionalmente visando ocu-par maiores espaços no âmbito da sociedade e alcançar uma maior expressividade política, tanto no que se refere à confecção de uma política de desenvolvimento quanto no âmbito da formulação de uma nova política educacional.

(5)

Co m p r een d en d o q u e n ão b ast avam medidas de cunho econômico visando alcançar uma maior compet it ividade da indust ria nacio-nal, a CNI, nesse document o, exort ou um maior apoio do Congresso Nacional às ações desen-cad ead as p el o p o d er ex ecu t i vo , vi san d o a ref ormulação do Est ado brasileiro. Era f unda-ment al que o Congresso Nacional aprovasse as ref ormas polít icas, sem as quais o poder execu-t ivo execu-t eria dif iculdades de implemenexecu-t ar ações que pudessem cont rariar int eresses específ icos (no nosso ent ender, dos t rabalhadores).

À medida que o governo brasileiro foi se aproximando da ideologia neoliberal, o empresariado nacional foi, aos poucos, assumindo uma posição mais clara em favor das reformas institucionais que assegurassem o domínio da regulação do mercado e da privat ização dos serviços, t radicionalment e, mantidos pelo Estado.

Se o empresariado, em moment os ant e-riores (CNI, 1988, 1992), apresent ou um discur-so de que o aument o da compet it ividade seria o caminho para assegurar uma melhor dist ribui-ção de renda – via aument o de salários e dimi-nuição do número de desempregados –, em sua n ova pu bl i cação (CNI , 1994) acrescen t ou a import ância de a compet it ividade ser art icula-da às mediicula-das governament ais que asseguras-sem um ambient e econômico f avorável ao au-ment o da produt ividade e da ef iciência econô-mica, assim como apont ou que, além da est a-bilidade econômica, era necessária uma t rans-f ormação qualit at iva do sist ema educacional.

À medida que as propost as empresari-ais f oram t omando f orma na sociedade brasilei-ra, principalment e por est ar à f rent e do gover-no f ederal um president e compromet ido com o modelo de desenvolviment o sugerido por est as elit es empresariais, est as, mais uma vez, por meio do document o “ Emprego na indúst ria” (CNI, 1997) ressalt aram que o modelo econô-mico adot ado não era o responsável, na déca-da de 1990, pela perdéca-da de mais de um milhão de post os de t rabalho no set or indust rial. Na apresent ação desse document o, af irmou- se que essa diminuição de post os de t rabalho era uma

decorrência das prof undas t ransf ormações na economia ao nível int ernacional. Para a CNI, não deveria haver lugar para o pessimismo pois, daqu el e processo de m u dan ça e di n am i sm o vivido pelo parque indust rial brasileiro, devia-se esperar a geração de diversos empregos em diversos set ores do país.

Para o empresariado, era necessário criar um ambient e macroeconômico que incent ivasse as indúst rias a gerarem novos empregos. Sendo a “ f lexibilidade do mercado de t rabalho, inclu-indo medidas para reduzir o cust o da mão- de-obra, bem como as chamadas polít icas at ivas de mercado de t rabalho, englobando um elenco de medidas dest inadas a aperf eiçoar seu f unciona-ment o” , as melhores est rat égias para diminuir o desemprego (CNI, 1997, p. 20). Tornando, no nosso ent ender, explícit a a posição do empre-sariado de não dividir os seus ganhos com os t rabalhadores, mas apenas aument á- los.

Embora não det enhamos nossa at enção nas propost as do empresariado para a ref orma das relações t rabalhist as no Brasil, vale dest acar qu e seu con t eú do, expresso n o docu m en t o “ M odernização das relações de t rabalho” (CNI, 1995), est á amplament e de acordo com as pro-post as de f lexibilização das relações de cont ra-t o de ra-t rabalho surgidas no governo Fernando Henrique Cardoso (inf ormação verbal).5

O empresariado não abre mão de seus lucros para a redução do desemprego e encon-t ra na f lexibilização das relações de encon-t rabalho a saída mais aconselhável para geração de novos post os de t rabalho. Ent ret ant o, na sua perspec-t iva, a solução para o desemprego não se res-t ringe à relação direres-t a enres-t re capires-t al e res-t rabalho. Como pode ser observado, nos seus documen-t os, pardocumen-t icularmendocumen-t e no que discudocumen-t e a quesdocumen-t ão

(6)

do emprego na indúst ria (CNI, 1997), o inves-t i m en inves-t o n a edu cação inves-t em u m a i m porinves-t ân ci a f undament al para a criação de novas possibili-dades de emprego aos t rabalhadores f ora do mercado de t rabalho.

O t reinament o dos desempregados, visando sua

recolocação no mercado de t rabalho em post os

d e m ai o r q u al i f i cação , é u m a d as p ri n ci p ai s

polít icas dest inadas a reduzir o desemprego. As

prof undas mudanças t ecnológicas das últ imas

décadas e os novos processos produt ivos inst

ala-dos exigem, cada vez mais, empresários e t

raba-lhadores qualif icados e capacit ados. Por ist o, e

pelos ef eit os benéf icos que t em sobre a

realida-de social e econômica, a educação é, mais do

que nunca, a prioridade nacional. Invest ir nas

pessoas e n a su a edu cação é u m a das con di

-ções básicas para a const rução de uma

econo-mia mais ef icient e e de uma sociedade mais

jus-t a. (CNI, 1997, p. 28)

Haver i a p o u cas evi d ên ci as d e q u e o q u ad ro d e cri se d o d esem p reg o so f reri a al t er açõ es. Co n t u d o , o em p r esar i ad o en co n t rou n a edu cação – pri n ci pal m en t e pel o i n vest i m en t o n a ed u cação b ási ca e n o s p r o -g ram as d e t rei n am en t o p ara o s m en o s q u a-l i f i cad o s – , a saíd a p ar a o s q u e est ão d e-sem p reg ad o s.

Af inal, o desemprego at ual vem sendo caract

e-rizado como essencialment e t ecnológico, e nada

mais nat ural que apost ar na requalif icação da

m ão de obra com o f orm a de m i n orar os i m

-pact os da int rodução das novas t ecnologias

so-bre o nível de emprego. Nest e cont ext o, vem

ga-n h aga-n d o r eal ce cad a vez m ai o r a ga-n o ção d e

“ empregabilidade” , ou seja, propiciar aos

seg-ment os mais vulneráveis da população t

rabalha-dora as condições mínimas para a obt enção de

emprego. (CNI, 1997, p. 29)

O con t radi t óri o n esse docu m en t o da CNI é que, de imediat o, assim que se dispôs a def ender est rat égias de requalif icação de t

raba-l hadores – pri n ci paraba-l m en t e para aqu eraba-l es em condições de vulnerabilidade –, apont ou, logo em seguida, para a const at ação de que os pro-gramas de t reinament o t êm t ido pouca cont ri-buição para os t rabalhadores volt arem ao mer-cado de t rabalho.

Apesar da quase unanimidade que cerca a idéia

da educação e treinamento, é preciso não esquecer

que as experiências de programas de t reinament o

t êm se most rado pouco ef et ivas para reduzir as

t axas de desemprego, not adament e na Europa.

São esparsas as evidências bem- sucedidas de fazer

os desempregados volt arem ao t rabalho at ravés

de programas de t reinament o, principalment e no

caso de t rabalhadores menos qualif icados, para

os quais f alt a um mínimo de educação básica.

(CNI, 1997, p. 29)

Em meio a essas cont radições sobre a relação emprego e educação def endida pelos empresários, buscaremos na próxima part e des-t e ardes-t igo analisar, de f orma mais aprof undada, a relação est abelecida pelo empresariado ent re educação, qualif icação prof issional, desempre-go e compet it ividade indust rial.

A e d u c a ç ã o c o m o p a n a c é ia : a v is ã o e m p r e s a r ia l

O empresariado nacional, de diversas f ormas, buscou demonst rar ao governo e à so-ciedade como um t odo que havia a necessidade do sist ema educacional sof rer alt erações de f or-ma a se t ornar coet âneo e art iculado aos int eres-ses indust riais. Por out ro lado, t ambém houve de sua part e o int eresse em t er maior cont role sobre as ações e o desempenho das inst it uições esco-lares. Nesse sentido, esteve sempre presente a sua int enção de part icipar da gest ão do sist ema de ensino e exigir que o Est ado est abelecesse meca-nismos de avaliação da qualidade e do desempe-nho das inst it uições de ensino.

(7)

f ragilidade do sist ema educacional const rangia a f ormação de recursos humanos para o set or produt ivo. Dest acava t ambém que a quant ida-de elevada ida-de analf abet os, em ida-decorrência das f alhas do sist ema educacional, impunha limit es à capacidade da f orça de t rabalho brasileira ser aproveit ada no desenvolviment o de um novo modelo econômico.

Além dessas debilidades na qualidade da educação brasileira, o document o da CNI chamava at enção para o dist anciament o ent re o sist ema educacional e as exigências do set or produt ivo. Para o empresariado, at é mesmo as experiências de f ormação prof issional desenvol-vidas pelo Senai – reconhecido por ele próprio, como sinônimo de qualidade na educação pro-f i ssi on al – careci am de repro-f orm u l ação, vi st o que, em virt ude de modif icações nas t écnicas de produ ção, corria- se o risco de acen t u ar o dist anciament o ent re o exigido na produção e as respost as qu e os t rabalhadores podem dar.

O si st em a de en si n o est á af ast ado das

verda-deiras necessidades geradas nas at ividades

eco-nômicas. Em um ambient e marcado pela int

ro-d u ção ro-d as n o vas t écn i cas ro-d e p ro ro-d u ção , est e

dist an ci am en t o poderá se agravar, n a m edi da

em q u e a d em an d a p o r t r ab al h ad o r es m ai s

qu al i f i cados, apt os para f u n ções com pl exas,

deverá aument ar. (CNI, 1988, p. 19)

Essa posição do empresariado sobre a necessidade de uma mão- de- obra mais qualif i-cada, embora seja ref orçada pelas int erpret a-ções que apont am para o necessário aument o da qualif icação dos t rabalhadores, merece ser problemat izada.

De f at o, não podemos deixar de reco-n hecer qu e o capi t al t ereco-n de a bu scar reco-n ovas f ormas de gerenciament o da produção, como mecanismo de aument o das suas t axas de acu-mulação. Têm sido requeridos dos t rabalhado-res novos comport ament os, principalment e no qu e di z respei t o ao seu m ai or en vol vi m en t o com o processo de produ ção. No en t an t o, é import ant e quest ionar se, realment e, as novas

f orm as de produ ção de m ercadori as exi gem u m a m ai o r q u al i f i cação d o s t rab al h ad o res. Acredit o que o mais corret o é dizer que, hoje, o capi t al di spõe de m ai ores con di ções para est abel ecer u m processo de expl oração dos t rabalhadores, o que se expressa pela imposição de um maior número de responsabilidades que o t rabal hador passa a t er, sem qu e isso sej a acompanhado por aument o real de salários. Por ou t ro l ado, art i cu l an do est a qu est ão com o problema do desemprego, não é dif ícil se cons-t acons-t ar que em razão de uma of ercons-t a muicons-t o maior de t rabal hadores qu al i f i cados à procu ra de emprego, os pat rões est ão mais à vont ade para est abelecer níveis maiores de selet ividade no processo de cont rat ação (Pochmann, 2001).

Quant o à vinculação diret a ent re mu-danças no mundo do t rabalho e o aument o da qualif icação dos t rabalhadores, deve- se regis-t rar que nem regis-t odos os países inseriram- se de f orma semelhant e no processo de compet ição ao nível global. A divisão int ernacional do t ra-balho, reservando às nações indust rializadas a produção de mercadorias com maior valor agre-gado, abre a possibilidade de criação de novos post os de t rabalho que demandam uma maior qualif icação dos t rabalhadores. Esses post os, ent ret ant o, são indiret ament e ligados ao chão da f ábrica (Pochmann, 2001; M arques, 1998). Sobre essa divisão do t rabalho, Leit e (1996) dest aca que ela é responsável por reser-var para alguns países os processos mais sof is-t icados de produção e as ais-t ividades mais sim-ples para as nações com maior concent ração de mão- de- obra barat a.

(8)

ri as. Para el a, ap en as n as ch am ad as “ f áb ri -cas- m ãe” en co n t ram o s t rab al h ad o res est ávei s, b em p ag o s e q u al i f i cad o s. Já n as em p resas f o rn eced o ras d e p ro d u t o s m en o s so -f i st i cados, os t rabal hadores n ão di spõem de est abi l i dade, n em há por part e das em presas o i n t eresse de i n vest i rem n o seu t rei n am en t o . Em o u t ra p al avras, as em p resas q u e p o -d em ser en q u a-d ra-d as -d en t ro -d o m o -d el o -d e produção japonês não apresent am carát er ho-m ogên eo.

No documento “ Livre para crescer” (Fiesp, 1995) embora se privilegiassem a reest rut uração do Est ado e a abert ura econômica como ações f undament ais à const it uição de um novo modelo de desenvolviment o econômico, não se ent endia que por si só o cresciment o econômico provoca-ria uma modif icação radical no quadro de pobre-za existente. Para que tal modificação se realipobre-zas- realizas-se, havia a necessidade de o Est ado desencadear uma ampla reforma social, privilegiando o investi-ment o na f ormação de capit al humano.

Segu n do a Fi esp, o i n vest i men t o em capit al humano era uma condição indispensá-vel para uma nação poder compet ir no cenário int ernacional, haja vist a ser o conheciment o a mat éria principal para a compet it ividade eco-nômica.

Há evi dên ci as em n ível i n t ern aci on al , e t am

-bém no caso brasileiro, de que o capit al t ende

a su bst i t u i r a m ão- de- obra n ão qu al i f i cada e

a complement ar o t rabalho qualif icado. As

evi-dên ci as em píri cas t am bém t êm dem on st rado

que os est abeleciment os de maior port e t endem

a apresen t ar, em m édi a, n ível de qu al i f i cação

da m ão- obra m ai s el evado do qu e os

de-m ai s est abel eci de-m en t os. E, n o qu e se ref ere à

t ecn o l o g i a, as i n o vaçõ es t am b ém co st u m am

su bst i t u i r o t rabal ho pou co qu al i f i cado t an t o

por bens de capit al como por t rabalho de

qua-l i f i cação mai s aqua-l t a. (Fi esp, 1995, p. 80)

Embora a Teoria do Capit al Humano já t enha sido durament e crit icada (Frigot t o, 1989, 1995; Oliveira, 2001b), ela est á sempre

presen-t e enpresen-t re aqueles que advogam uma maior apro-ximação ent re aument o da qualif icação prof is-sional e diminuição da pobreza (Cepal/ Unesco, 1992; Londoño, 1996). Ent re esses, est á o do-cument o da Fiesp mencionado acima, no qual não se considera que a possibilidade de acesso à qualif icação específ ica ou à educação básica def ine- se pelas relações de f orça no int erior da sociedade capit alist a. Ent endemos que a pobre-za exist ent e não pode ser explicada pelo méri-t o individual, como advogam os liberais. Nesse sent ido, se de f at o houvesse por part e da elit e empresarial o int eresse de modif icar o quadro de exclusão social na sociedade brasileira, ela deve-ria paut ar seu discurso pela def esa de ref ormas sociais que objet ivassem garant ir aos set ores mais pobres da população o acesso aos bens sociais f undament ais ao exercício da cidadania. Out ro pont o que deve ser dest acado é a rel ação en t re com pet i t i vi dade i n du st ri al e f ormação de capit al humano. Nesse sent ido, é import ant e dest acar as observações f eit as por Leit e (1994) e Carvalho (1994) sobre caract ríst icas do empresariado brasileiro que int erf e-rem diret ament e na const it uição de uma eco-nomia compet it iva. Ou seja, para eles o empre-sariado indust rial brasileiro, ao t er uma prát ica hist órica de invest ir em mão- de- obra barat a, buscar aproveit ar- se das benesses do Est ado e n ão procu rar i n vest i r em pesqu i sa, dei xa de criar uma base f undament al para compet ir no mercado global.

Já em out ro document o, “ Ensino f un-dament al e compet it ividade empresarial: uma propost a para ação do governo” (IHL, 1992); o Inst it ut o Herbert Levy, junt ament e com a Fun-dação Bradesco, procurou t ornar mais explíci-t a a proposi ção de edu cação por parexplíci-t e dos empresários.6

Segu n do esse docu m en t o, os países que adent raram o conjunt o das nações indus-t rializadas garanindus-t iram para sua população, pelo

(9)

m en os, 8 a 10 an os de escol ari zação. Dessa f orma, a af irmação de uma indúst ria compet i-t iva no Brasil deveria passar pela melhoria e pelo aument o do nível de escolarização da sua população.

Há de ser dest acado que a melhoria da qualidade da educação ref erendada pelo IHL dizia respeit o às mudanças ocorridas e corren-t es no secorren-t or producorren-t ivo. Assim como no docu-ment o “ Livre para crescer” (Fiesp, 1995) hou-ve a af irmação da necessidade do inhou-vest imen-t o em capiimen-t al humano. O imen-t eximen-t o do IHL reimen-t omou a import ância de novas qualif icações dos t raba-lhadores, para que est es pudessem se enquadrar em um modelo de produção f lexível.

De f at o, um número grande de est udos recent es

most ra que para lidar com as t ecnologias

mo-dernas não bast a que haja algumas pessoas na

empresa superlat ivament e educadas. Est as são

necessárias e t êm que ser melhor f ormadas que

an t es. To d avi a, m ai o r n o vi d ad e é q u e t o d o s dent ro da f ábrica t êm que saber cada vez mais.

A f ábrica dos capat azes aut orit ários e dos

ope-rários semiqualif icados est á f icando para t rás.

Não é est a f áb ri ca q u e i m p u l si o n a o s p aíses

para as áreas mais int eressant es e lucrat ivas. A

nova indust rialização requer um grau muit

íssi-mo mais elevado de educação, f ormação prof

is-sional e capacidade int elect ual da f orça de t

ra-balho como um t odo. (IHL, 1992, p. 17)

Já no document o “ Educação básica e f ormação prof issional: uma visão dos empresá-rios” (CNI, 1993)7, observou- se uma preocupa-ção maior em art icular a educapreocupa-ção à f ormapreocupa-ção prof issional. Nele se sust ent ou que o incent ivo à f ormação de novas compet ências por part e das inst it uições t radicionais (Sist ema S) na edu-cação prof issional t eria uma repercussão dire-t a no aumendire-t o das possibilidades de os dire-t raba-lhadores inserirem- se no mercado de t rabalho, em cont ínua mudança (empregabilidade).

De acordo com o document o em est u-do, a dif erença f undament al observada no in-t erior do processo produin-t ivo – com visin-t as ao

aument o da produt ividade indust rial – não re-pou sava m ai s n o i n vest i m en t o i n t en si vo em t ecn ol ogi a, m as, pri n ci pal m en t e, n o capi t al hu m an o di spon ível n o i n t eri or da em presa. Uma das f ormas de se garant ir um aument o das compet ências dos recursos humanos era a ga-rant ia de acesso à educação básica, relacionan-do- a int imament e à educação prof issional.

Essa posição f icou bem explicit ada no t ext o produzido pelo ent ão president e da CNI, Albano Franco, quando ele reaf irmou a impor-t ância da modernização da economia esimpor-t ar in-t imamenin-t e vinculada à democrain-t ização da edu-cação. Para ele, a f ormação de capit al humano era f undament al na modernização da economia, o que implicava a necessidade do empresariado invest ir mais na educação básica, para que a mesma, ao ser art iculada com o ensino prof is-sionalizant e, cont ribuísse diret ament e na dimi-nuição do desemprego exist ent e e desse ret or-no às indúst rias necessit adas de uma mão- de-obra mais qualif icada.

Uma ref lexão sobre o cont eúdo est rut ural do

de-semprego, muit o part icularment e no set or

indus-t rial, leva- nos, cerindus-t amenindus-t e, à conclusão de que o

empresariado não deve e não pode se omit ir de

participar, em coalizão com o Estado, da educação

básica. Essa ação conjunt a vai lubrif icar a

engre-nagem de transmissão do ensino básico ao ensino

profissionalizante, o que interessa particularmente

ao set or indust rial brasileiro, ainda carent e de

mão- de- obra qualificada (...). (Franco, 1993, p. 3)

(10)

Como já expresso na análise de docu-ment os ant eriores, o empresariado sempre se re-fere à formação de capital humano, seja como ele-ment o f undaele-ment al para a const it uição de uma economia mais compet it iva, seja para que os próprios indivíduos se qualif iquem melhor para arranjar um emprego. Contudo, observamos nesse últ imo document o que o empresariado começa f azer ref erência aos conceit os de compet ências e empregabilidade. Sem nos volt armos para a dis-cussão dos mesmos, haja vista outros trabalhos já t erem realizado t al int ent o, dest acando- se ent re est es Tan gu y e Ropé (1997), Del u i z (1996), Ferret t i (1997), M anf redi (1998), Oliveira (2003), Ramos (2001), entre outros, é fundamental ressal-tar que esses conceitos expressam variações da te-oria do capit al humano e represent am t ambém uma modificação discursiva das elites visando jus-t if icar a crise do emprego.

Para Gent ili (2000), a int ensif icação da crise do desemprego, enf at iza cada vez mais a i n capaci dade de a escol ari zação assegu rar a ent rada e permanência das pessoas no merca-do de t rabal ho. Ou sej a, a edu cação escol ar deixou de t er seu carát er int egrador reconheci-do. A capacidade de empregar- se após a saída da escola, nos anos de quase pleno emprego, f ez com que a Teoria do Capit al Humano des-t acasse a ardes-t iculação endes-t re educação e empre-go. Ent ret ant o, no moment o at ual, não se pode mais est abelecer essa relação imediat a. Nesse sent ido, o capit al recorre a novos conceit os que possam imput ar aos próprios indivíduos aqui-lo que é responsabilidade do sist ema capit alis-t a: a crise do emprego.

A rel ação en t re t ai s con cei t os e essa t eo r i a d eco r r e d e p r essu p o st o s eco n o m i -ci st as e i deol ógi cos qu e os con st i t u em , t or-n aor-n do- os l egi t i m adores das rel ações capi t al i st as e d o p ro cesso d e excal u são so ci aal (Oal i -vei ra, 2 0 0 3 ).

M arise Nogueira Ramos (2001), embo-ra não apont e uma relação diret a ent re o con-cei t o d e co m p et ên ci a e a t eo ri a d o cap i t al humano, dest aca o deslocament o conceit ual no campo das relações educat ivas, caract erizado

pel a n egação do con cei t o de qu al i f i cação e ascen são do con cei t o de com pet ên ci a, est e últ imo, como regulador de prát icas e de proje-t os educaproje-t ivos. Esproje-t e deslocamenproje-t o conceiproje-t ual est abel ece o i n di vi du al i sm o com o pon t o de part i da e de chegada para a expl i cação das quest ões sociais. O conceit o de compet ência seri a n i t i dam en t e u m m ecan i sm o i deol ógi co con st ru t or e con t ri bu i n t e para o avan ço de uma cult ura neoliberal.

Reconhecendo a mult iplicidade de es-paços econômicos, cult urais ou educat ivos nos quais o conceit o de compet ência mat erializa- se como novo prot agonist a das relações ent re as classes e ent re os indivíduos, a aut ora, ut ilizan-do a cat egori a edu cação prof i ssi on al com o mediação para o ent endiment o da “ nova” f un-ção econômica da educaun-ção no cont ext o at ual, chega a conclusões que explicit am o carát er adapt at ivo do conceit o de compet ência no que se ref ere à ordem excludent e capit alist a.

Ainda de acordo com est a aut ora, por causa da crise do emprego a noção de compe-t ência passa a ser o signif icancompe-t e que legicompe-t ima as rel açõ es co n t rat u ai s. En t ret an t o , a d escar-t abi l i dade da f orça de escar-t rabal ho presen escar-t e n o at ual est ágio do desenvolviment o capit alist a art icula t ambém novos conceit os legit imadores das relações de t rabalho e do con f lit o en t re classes. Junt o ao conceit o de compet ência, evi-dencia- se ent ão o de empregabilidade. Est e, se-gu n do ela, explicit a u m verdadeiro f ascismo prof issional, na medida em que a conjugação ent re o aument o de escolarização e o acúmulo de compet ência t orna- se a solução individual para superação da exclusão social.

Ai n da com rel ação à qu al i f i cação da f orça de t rabalho para o alcance de uma econo-mia mais compet it iva, f az sent ido dest acar a af irmação de Cout inho e Ferraz (1994) no rela-t ório da pesquisa encomendada pelo governo brasileiro sobre a compet it ividade da indust ria brasileira.

A const rução da compet it ividade, coet ânea à 3a

(11)

un-dament os sociais, como educação básica

univer-salizada, elevada qualif icação da f orça de t

raba-lho, novas f ormas de organização do processo de

produção, relações de t rabalho cooperat ivas e

mercados que exigem qualidade. Em suma,

funda-mentos que significam um mínimo de eqüidade na

sociedade. De out ro lado, é essencial reconhecer

q u e o s p r o cesso s esp o n t ân eo s d e b u sca d e

compe- t it ividade, at ravés do jogo das f orças de

mercado, t endem a provocar ef eit os adversos em

mat éria de emprego e salários (e, port ant o, de

eqüidade social) (p. 95, grif os do aut or).

Essa af irmação nos ajuda a t ornar mais evi den t e qu e n ão adi an t a bu scar m u dan ças apenas no âmbit o do processo educacional, se a est rut ura econômica da sociedade é um ele-ment o a mais cont ribuindo negat ivaele-ment e para alcançar t al objet ivo. Principalment e quando esses aspect os negat ivos são ref orçados por es-t raes-t égias de políes-t icas de desenvolvimenes-t o que agravam a exclusão social. Ou seja, não pode o mercado ser o regulador desse processo como def endem os empresários indust riais.

No document o da CNI (CNI, 1993) af ir-mou- se que, com a mudança da produção indus-t rial de caráindus-t er rígido para uma de caráindus-t er f lexí-vel, exigia- se não só uma maior poli- valência dos t rabalhadores, mas t ambém impunham- se limit es à hierarquia exist ent e na empresa. Ou seja, a educação básica tornava- se uma precondição para que o trabalhador fosse capacitado para o desem-penho de várias t aref as.

A empregabilidade se expressava nest e document o da CNI, quando se af irmava que os indivíduos, por int ermédio da educação, deve-riam adquirir habilidades básicas, habilidades específ icas e habilidades de gest ão.

A art icu lação dest as habilidades t or-nou- se f undament al. A part ir delas é que se poderá garant ir a concret ização de uma quali-f icação polivalent e, assim ent endida nest e do-cument o:

O conceit o de polivalência implica em [sic] uma

f ormação que qualif ique as pessoas para dif

e-rent es post os de t rabalho dent ro de uma f amília

ocupacional e, sobret udo, para complement ar as

bases gerais, cient íf ico- t écnicas e sócio-

econô-micas, da produção em seu conjunt o. Uma f

or-mação que art icule a aquisição de habilidades e

dest rezas em seu conjunt o. Uma f ormação que

art icule a aquisição de habilidades e dest rezas

genéricas e específ icas com o desenvolviment o

de capacidades int elect uais e est ét icas. Implica,

port ant o, não só a aquisição de possibilidades

de pensament o t eórico, abst rat o, capaz de

ana-lisar, de pensar est rat egicament e, de planejar e

d e resp o n d er cri at i vam en t e à [si c] si t u açõ es

novas, mas t ambém de capacidades sócio-

co-municat ivas de modo a poder desenvolver t

ra-balho cooperat ivo em equipe e conheciment os

ampliados que possibilit em a independência

pro-f issional. (CNI, 1993, p. 9)

A ut ilização do conceit o de polivalência nos document os empresariais é mais uma ex-pressão da modif icação do discurso das elit es visando conseguir, t ambém no plano da produ-ção, a sua hegemonia polít ica. A ut ilização do conceit o de polivalência procura criar a f alsa impressão de que as t aref as realizadas pelos t ra-balhadores na produção f lexível requerem um conjunto maior de qualificação. Na prática, o que se est abelece é a exigência que os t rabalhado-res sejam mult if uncionais. Não ocorre, como o discurso dominant e procura apregoar, que os t rabalhadores est ariam se aproximando de uma f ormação mais int egral, como alguns educado-res progeducado-ressist as (Frigot t o, 1989; Kuenzer, 1988; M achado, 1989), en t re ou t ros, def en deram . Apropriando- se do que o pensament o educacio-nal mai s crít i co af i rmava, os “ pedagogos do capit al” descart am o conceit o de polit ecnia e em seu lugar colocam o de polivalência. O que ocorre é uma t ent at iva de f azer do processo educat ivo um espaço de f ormação de um indi-víduo que se ident if ique diret ament e com os int eresses da produção como se est es t ambém f ossem os seus.

(12)

mesma presen t e n o seu t ext o de 1988 (CNI, 1988), quando se af irmava que as debilidades do sist ema educacional represent avam cons-t ran gi men cons-t os à possi bi l i dade de a econ omi a nacional ser mais compet it iva. Nesse novo do-cument o (CNI, 1994), essa idéia, ao ser ret oma-da, veio acompanhada de proposições que, na com preen são do em presari ado, t orn ari am a educação o elo dest a nova f ase. Ent re t ais pro-post as dest acamos:

§ Universalização do ensino f undament al e b u sca d e p ad r õ es el evad o s d e ed u cação bási ca f orm al , obj et i van do au m en t ar con -sideravelment e o t empo mínimo de escola-r i d ad e d a f o escola-r ça d e t escola-r ab al h o e at i n g i n d o obrigat oriament e t oda a população em ida-de escol ar;

§ Paralela e complement ariament e ao sist e-m a bási co, o si st ee-m a de edu cação t écn i ca prof i s- si on al i zan t e, em qu e o Sen ai repsen t a u m papel est rat égi co, deveri a ser re-f o rçad o , servi n d o co m o o p ção vo caci o n al ao s j o v en s q u e co m p l et am seu p er í o d o edu caci on al (p. 15- 16, gri f o n osso).

Para o em p resari ad o , a m el h o ri a d a edu cação bási ca n ão pressu pu n ha a u n i ver -sal i zação d o en si n o m éd i o . Ad vo g an d o a m el hori a da qu al i dade da edu cação, el e vi n -cu l ou - a di ret am en t e à qu al i f i cação da f orça de t rabal ho, reaf i rman do mai s u ma vez a su -bordi n ação da escol a aos i n t eresses i m edi a-t o s d e co n versão i n d u sa-t ri al .

Já n a seg u n d a p r o p o st a em d est a-q u e, val e ressal t ar a-q u e h avi a p o r p art e d o em p r esar i ad o a v i são d e q u e a ed u cação prof ission al devia est ar desvin cu lada da edu -cação b ási ca. O u so d o s t erm o s “ p aral el a e co m p l em en t ar i am en t e” d en o t a q u e, se a ed u cação b ási ca er a f u n d am en t al p ar a o s t r ab al h ad o r es p o d er em assi m i l ar as n o vas t ecn o l o g i as exi st en t es, seri a co m o en si n o prof issionalizant e que, de f at o, exist iriam at i-vi d ad es d e t rei n am en t o i-vi san d o a ap ro p ri a-ção d e co n h eci m en t o s esp ecíf i co s.

A p o si ção d o em p resari ad o so b re a educação prof issional, de alguma f orma, pare-ce t er sido incorporada pelo governo f ederal na ref orma da educação prof issional, impost a pelo Decret o 2208/ 97. A separação ent re o Ensino M édi o e a Edu cação Prof i ssi on al af i rm ou o papel complement ar da educação prof issional de nível t écnico e, ao mesmo t empo, ef et ivou a desrespon sabi l i zação do Est ado para com est a modalidade de ensino.8

C o n s id e r a ç õ e s f in a is

Para o empresariado “ nacional” , a re-est rut uração do Est ado implement ada nre-est es ú l t i m o s an o s, p ri n ci p al m en t e p el o g o vern o Fernando Henrique Cardoso, não represent ou um obst áculo ao seu projet o de aument o da compet it ividade e dos lucros. Se é verdade que em alguns moment os o empresariado indust rial se colocou em discordância com os rumos t oma-dos na polít ica econômica nacional, suas diver-gências não apont aram para uma rupt ura com o modelo implement ado por est e president e.

O empresariado “ nacional” é plenament e responsável e cúmplice do projet o de desenvol-viment o implement ado pelo governo brasileiro na gest ão Fernando Henrique. Est a parcela de represent ant es das elit es polít icas e econômicas brasileiras é t ão responsável pelo aument o da exclusão social, quant o pelo aprof undament o da relação de subordinação da nossa economia na divisão int ernacional do t rabalho.

O empresariado nacional, ao def ender a import ância da educação como element o f un-dament al para modif icar o quadro de desempre-go, desconsidera que as ações desencadeadas pelo ent ão governo cent ral e por ele def endi-das, obst acu l i zam qu al qu er possi bi l i dade de gerar novos post os de t rabalho e garant ir uma melhor dist ribuição de renda.

Ao paut ar sua proposições de ref orma educacional em conceit os e t eorias

(13)

R e f e r ê n c ia s b ib lio g r á f ic a s

AMADEO, Edward. Mercado de trabalho brasileiro: rumos, desafios e o papel do ministério do trabalho. Texto apresentado pelo Ministro do Trabalho na Câmara dos Deputados em 14 de maio de 1998a.

______. A reforma trabalhista brasileira. Notas sobre mercado de trabalho, n. 8, out. 1998b. BOITO JR., Armando. Política neoliberal e sindicalismo no Brasil. São Paulo: Xamã, 1999.

BORON, A. Os “ novos Leviatãs” e a pólis democrática: neoliberalismo, decomposição estatal e decadência da democracia na América Latina. In: GENTILI, Pablo; SADER, Emir (Org.). Pós Neoliberalismo II: que Estado para que democracia? Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p. 7-67.

CARVALHO, Ruy de Quadros. Capacitação tecnológica, revalorização do trabalho e educação. In: FERRETTI, Celso J. et al. (Org.). Novas tecnologias, trabalho e educação: um debate multidisciplinar. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 93-127.

CONFEDERAÇÃO Nacional da Indústria (Brasil). Competitividade industrial: uma estratégia para o Brasil. Rio de Janeiro: CNI, 1988. ______. Rumo à estabilidade e ao crescimento. Rio de Janeiro: CNI, 1992.

______. Educação básica e formação profissional: uma visão dos empresários. In: REUNIÃO DE PRESIDENTES DE ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS IBERO-AMERICANAS, 6., 1993, Salvador, BA. Educação básica e formação profissional. Rio de Janeiro: CNI, 1993.

______. Rumo ao crescimento: a visão industrial – Sumário Executivo. Rio de Janeiro: CNI, 1994. nais, f ort ement e vinculadas a uma concepção

economicist a e “ a- crít ica” em relação às ques-t ões sociais que exisques-t em na sociedade brasilei-ra, o empresariado ref orça, no plano educaci-onal, a f ragment ação social e as desigualdades ent re as classes.

Su a proposi ção edu caci on al , em n e-n hu m m om ee-n t o, se coe-n f i gu ra de f at o com o uma t ent at iva de assegurar aos set ores majori-t ários da população uma educação inmajori-t egral e coet ânea às t ransf ormações econômicas e po-lít icas ocorridas ao nível global.

Por out ro lado, deve ser dest acado que o empresariado, mesmo advogando uma maior qualif icação dos t rabalhadores como um ele-ment o indispensável na conf ecção de uma eco-nomia mais compet it iva, não assume uma po-sição polít ica que seja realment e compromet i-da com a consolii-dação de um parque indust rial moderno e compet it ivo. Assim sendo, ent ende-mos não t er sent ido at ribuir à educação prof is-sional a responsabilidade de desenvolver

com-pet ências para a empregabilidade quando, em razão das polít icas de abert ura de mercado a produt os est rangeiros, o Brasil, no período de 1992 a 1995, t eve as suas import ações aumen-t adas em 142% e as exporaumen-t ações em apenas 30%, deixando um déf icit na balança comer-cial, em 1995, de mais de 3 bilhões de dólares (Dieese apud Boit o Jr., 1999).

(14)

______. Modernização das relações de trabalho: princípios e objetivos. Rio de Janeiro: CNI, 1995. ______. Emprego na indústria: evolução recente e uma agenda de mudanças. Rio de Janeiro: CNI, 1997. COUTINHO, Carlos Nelson. Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 1994.

COUTINHO, Luciano; FERRAZ, João Carlos (Coord.). Estudo da competitividade da indústria brasileira. 2. ed. Campinas: Papirus/ Unicamp, 1994.

DELUIZ, Neise. A globalização econômica e os desafios à formação profissional. Boletim Técnico do SENAC, Rio de Janeiro, v. 22, n. 2, maio/ago. 1996.

DINIZ, Eli. Empresariado e projeto neoliberal na América Latina: uma avaliação dos anos 80. Dados, Rio de Janeiro, v. 34, n. 3, p. 349-377, 1991.

______. Globalização, reformas econômicas e elites empresariais: Brasil anos 1990. Rio de Janeiro: FGV, 2000.

FERREIRA, Carlos E. M. Formação profissional e educação básica: a responsabilidade dos empresários. In: REUNIÃO DE PRESIDENTES DE ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS IBERO-AMERICANAS, 6., 1993, Salvador, BA. Educação básica e formação profissional. Rio de Janeiro: CNI, 1993.

FERRETTI, Celso J. Formação profissional e reforma do ensino técnico no Brasil: anos 90. Educação e Sociedade, Campinas, n. 59, p. 225-269, ago. 1997.

FEDERAÇÃO das Indústrias do Estado de São Paulo. Livre para crescer: proposta para um Brasil moderno. 5. ed. São Paulo: Cultura, 1995.

FRANCO, Albano. Modernização e educação. Indústria e Produtividade, Rio de Janeiro, n. 278, p. 3, jul./ago. 1993.

FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva: um (re)exame das relações entre educação e estrutura econômica social e capitalista. São Paulo: Cortez, 1989.

______. Os delírios da razão: crise do capital e metamorfose conceitual no campo educacional. In: GENTILI, Pablo (Org.) Pedagogia da exclusão: crítica ao neoliberalismo em educação. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 77-108.

GENTILI, Pablo. Educar para o desemprego: a desintegração da promessa integradora In: FRIGOTTO, Gaudêncio (Org.). Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 76-99.

INSTITUTO Herbert Levy. Ensino fundamental & competitividade empresarial: uma proposta para a ação do governo. São Paulo: IHL, 1992.

KUENZER, Acácia Z. Ensino de 2o grau: o trabalho como princípio educativo. São Paulo: Cortez, 1988.

LEITE, Márcia de P. Modernização tecnológica e relações de trabalho In: FERRETTI et al. (Org.). Novas tecnologias, trabalho e educação: um debate multidisciplinar. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 36-53.

______. A qualificação reestruturada e os desafios da formação profissional. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 45, p. 79-96, jul. 1996.

LONDOÑO, Juan L. Pobreza, desigualdad y formación del capital humano en América Latina: 1950-2025. Washington: Banco Mundial, 1996.

MACHADO, Lucília R. Politecnia, escola unitária e trabalho. São Paulo: Cortez, 1989.

MANFREDI, Silvia M. Trabalho, qualificação e competência profissional: das dimensões conceituais e políticas. Educação e Sociedade, Campinas, n. 64, p. 13-49, set. 1998.

(15)

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-omega, [s.d]. p. 13-46.

NEVES, Lúcia W. Educação e política no Brasil de hoje. São Paulo: Cortez, 1994.

OLIVEIRA, Ramon. Políticas do ensino médio e da educação profissional no Brasil – anos 90: subordinação e retrocesso educacional. 2001a. 349f. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2001a.

______. A teoria do capital humano e a educação profissional brasileira. Boletim Técnico do SENAC, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, p. 27-37, jan./abr. 2001b.

_______. A (des)qualificação da educação profissional brasileira. São Paulo: Cortez, 2003.

POCHMANN, Marcio. O emprego na globalização: a nova divisão internacional do trabalho e os caminhos que o Brasil escolheu. São Paulo: Boitempo, 2001.

RAMOS, Marise Nogueira. A pedagogia das competências: autonomia ou adaptação? São Paulo: Cortez, 2001.

RODRIGUES, José dos Santos. O moderno príncipe industrial: o pensamento pedagógico da Confederação Nacional da Indústria. 1997. 273f. Tese (Doutorado em Educação). Universidade de Campinas, Campinas, São Paulo, 1997.

TANGUY, Lucien; ROPÉ, Françoise (Org.). Saberes e competências: o uso de tais noções na escola e na empresa. Campinas, SP: Papirus, 1997.

Recebido em 18.09.02 Aprovado em 29.09.03

Ramon de Oliveira é doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense e professor-pesquisador do Núcleo de Política, Planejamento e Gestão Educacional da UFPE. É autor dos livros Informática Educativa (Papirus) e A (des)qualificação

Referências

Documentos relacionados

O objetivo deste estudo foi verificar o desempenho de diferentes estratégias de processamento do código no modo de posicionamento absoluto envolvendo ou não as correções da

No final, os EUA viram a maioria das questões que tinham de ser resolvidas no sentido da criação de um tribunal que lhe fosse aceitável serem estabelecidas em sentido oposto, pelo

The case studies show different levels of problems regarding the conditions of the job profile of trainers in adult education, the academic curriculum for preparing an adult

Neste sentido, este trabalho apresenta um relato da atividade iniciada no subprojeto de Biologia, do projeto Pibid, “Compreender para Aprender e Encantar para Ficar”, com o

As políticas industriais adotadas no Brasil e no Chile são aquelas em que os resultados dependem fortemente do nível de cooperação e consenso obtido entre os atores públicos e

regras básicas de segurança” (ALEVATE, 2014, p. Os riscos aumentaram ainda mais com a expansão e dispersão geográfica observada no Enem, pois à medida que o exame

Inscrições na Biblioteca Municipal de Ourém ou através do n.º de tel. Organização: Município de Ourém, OurémViva e grupos de teatro de associações e escolas do

O aguçamento do conflito federativo, resultante das disputas entre as esferas de governo pelo controle dos ativos políticos e dos recursos financeiros; a indefinição das