RevBrasAnestesiol.2015;65(6):519---521
REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologiawww.sba.com.br
INFORMAC
¸ÃO
CLÍNICA
Manejo
da
síndrome
do
compartimento
abdominal
pós-ressecc
¸ão
transuretral
de
próstata
Megan
M.
Gaut
e
Jaime
Ortiz
∗DepartamentodeAnestesiologia,FaculdadedeMedicinadeBaylor,Houston,Texas,EUA
Recebidoem13denovembrode2013;aceitoem12dedezembrode2013 DisponívelnaInternetem1demaiode2014
PALAVRAS-CHAVE
Ressecc¸ão transuretralde próstata;
Rupturadebexiga; Síndrome
compartimental abdominal
Resumo Asíndromecompartimentalabdominalagudaémaiscomumenteassociadaatrauma abdominalfechado,emboratenhasidoobservadaapósrupturadeaneurismadaaorta abdo-minal, transplante de fígado, pancreatite e reanimac¸ão com volume macic¸o. A síndrome compartimentalabdominalagudasurgequandoapressãointra-abdominalaumentapara 20-25mmHgeécaracterizadapeloaumentodaspressõesdasviasaéreas,ventilac¸ãoeoxigenac¸ão inadequadas, func¸ão renalalterada einstabilidadehemodinâmica. Esterelato decaso des-creveodesenvolvimentodasíndromecompartimentalabdominalagudadurantearessecc¸ão transuretraldepróstatacomrupturadabexigaextraeintraperitonealsobanestesiageral.Os primeirossinaisdasíndromecompartimentalabdominalagudanessepaciente erampressões depicoelevadasdasviasaéreasedificuldadeparafornecervolumescorrentes.Omanejoda síndromedecompartimentoincluireintubac¸ão,laparotomiaexploratóriadeemergênciae dre-nagemdelíquidosdeirrigac¸ão.Adificuldadenaventilac¸ãodevealertaroanestesiologistapara queconsidereasíndromecompartimentalabdominalemprimeirolugarnalistadediagnósticos diferenciaisdurantequalquercasodeendoscopiadebexigaouintestino.
©2013SociedadeBrasileira deAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todosos direitosreservados.
KEYWORDS
Transurethral resectionofthe prostate; Bladderrupture; Abdominal compartment syndrome
Managementofabdominalcompartmentsyndromeaftertransurethralresectionof theprostate
Abstract Acuteabdominalcompartmentsyndromeismostcommonlyassociatedwithblunt abdominaltrauma,althoughithasbeenseenafterrupturedabdominalaorticaneurysm,liver transplantation,pancreatitis,andmassivevolumeresuscitation.Acuteabdominalcompartment syndromedevelopsoncetheintra-abdominalpressureincreasesto20---25mmHgandis charac-terizedbyanincrease inairwaypressures,inadequateventilationandoxygenation,altered renalfunction,andhemodynamicinstability.Thiscasereportdetailsthedevelopmentofacute abdominalcompartmentsyndromeduringtransurethralresectionoftheprostatewith extra-andintraperitonealbladderruptureundergeneralanesthesia.Thefirstsignsofacuteabdominal compartmentsyndromeinthispatientwerehighpeakairwaypressuresanddifficultydelivering
∗Autorparacorrespondência.
E-mails:[email protected],[email protected](J.Ortiz).
520 M.M.Gaut,J.Ortiz
tidalvolumes.Managementofthecompartmentsyndromeincludedre-intubation,emergent exploratorylaparotomy,anddrainageofirrigationfluid.Difficultywithventilationshouldalert theanesthesiologisttoconsiderabdominalcompartmentsyndromehighinthelistofdifferential diagnosesduringanyendoscopicbladderorbowelcase.
©2013SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublishedbyElsevier EditoraLtda.Allrights reserved.
Introduc
¸ão
Arupturaintraperitonealdebexigaéumacomplicac¸ãorara daressecc¸ãotransuretraldepróstata(RTUP).Aperfurac¸ão debexiga, tanto extra quantointraperitoneal, ocorre em apenas 1,3% de todos os pacientes submetidos a esse procedimento. Apenas 17% de todas as perfurac¸ões são intraperitoneais.1 A perfurac¸ão intraperitoneal de bexiga
éumacomplicac¸ãogravequerequertratamentoimediato
para evitar consequências graves, como peritonite,
ure-mia, acidose e síndrome do compartimento.2 A síndrome
compartimental abdominal (SCA) se desenvolve quando a
pressãointra-abdominal(PIA)aumentapara20-25mmHg.3,4
OinsultoinicialdoaumentodaPIAéadiminuic¸ãodoretorno
venoso,quelevaaochoquehipovolêmico.Umestudocom
cãesmostrouumadiminuic¸ãododébitocardíacoevolume
de ejec¸ão de 36% após aumento da PIA para 40mmHg.5
Duranteo choque hipovolêmico, o aumentodo fluxo
sim-páticoprovocaumadiminuic¸ãodaperfusãoesplâncnica.A
hipoxiadostecidosabdominaisiniciaumaliberac¸ãode
cito-cinasinflamatóriasqueaumentaapermeabilidadecapilare
oedemateciduale aumentaaindamaisaPIA.Umestudo
comratos6mostrouque,juntamentecomadiminuic¸ãoda
pressão arterial média e do pH, o aumento da PIA leva
aoaumento dos níveisde TNF-␣, IL-1e IL-6; istoé,
cito-cinaspró-inflamatóriasque podemservircomo uminsulto
secundárioparaainduc¸ãodefalênciademúltiplosórgãos.
Quandonãodiagnosticadosetratadosrapidamente,até36%
dos casos de SCA levam à falência de múltiplos órgãos.7
O aumentoda pressão torácica resultaem diminuic¸ãode
todososvolumespulmonares,excetovolumeresidual.5Se
umpacienteestiveremventilac¸ãocomcontroledevolume,
um aumento precipitado do pico das pressões
respirató-rias pode ser observado. Este relato de caso descreve o
desenvolvimentodaSCAduranteRTUPcomrupturas extra
eintraperitoneaisdebexigasobanestesiageral.
Relato
de
caso
Pacientedosexomasculino,79anos,programadoparaRTU
paliativopor causadecâncer de próstatae uropatia
obs-trutiva.Opacienteapresentavacomorbidadesqueincluíam
hipertensão e diabetes tipo II. O exame físico foi
signifi-cantepara um idoso bem-disposto com cateter de Foley,
frequênciacardíacade105batimentos/min,pressão
arte-rialde168/93mmHg,índicedemassacorporalde26kg/m2,
Mallampati classe III e abertura bucal de 2-3cm. Os
tes-teslaboratoriaispertinentesincluíramhematócritode43,8%
e creatinina de 1,1mg/dL. Um eletrocardiograma
reve-lou taquicardia sinusal, com bloqueio fascicular anterior
esquerdo.Opacientefoiconsideradodebaixoriscocardíaco
paraumprocedimentodebaixorisco.
O monitoramento intraoperatório para esse paciente
incluiumonitorespadrõesdeacordocomaSociedade
Ame-ricana deAnestesiologistas (ASA). Umcateter intravenoso
de calibre 18 para inserc¸ão periférica foi colocadoantes
dainduc¸ão.Ainduc¸ãodaanestesiaeaintubac¸ãotraqueal
transcorreram sem intercorrências e a cirurgia foi
inici-ada.Ventilac¸ãocontroladaporvolumefoiiniciadacomos
seguintes ajustes:volume correntede500mL,frequência
respiratóriade10/min,pressãopositivanofimdaexpirac¸ão
de5cmH2O.Emduashorasdecirurgia,aspressões
respira-tóriasdepicoaumentaramde20para37cmH2O,osvolumes
correntesdiminuíramde450para100mLeumvazamento
inspiratórioaudívelemtornodobalonetedotubo
endotra-quealfoipercebido.Apósverificarobaloneteparapressão
adequada,aspirarotuboendotraqueal,verificarocircuito,
ventilarmanualmenteeconfirmaradiminuic¸ãodesons
res-piratóriosbilateralmente,albuteroledexametasonaforam
administradascomdiscretamelhorianaventilac¸ão.
Logo após esse evento, o procedimento cirúrgico foi
concluído. O paciente retomou a respirac¸ão espontânea,
comumataxade20respirac¸ões/minevolumecorrentede
120mL.Obloqueioneuromuscularfoirevertidoeopaciente
despertou e obedeceu aos comandos. Quandomanteve a
elevac¸ãodacabec¸aporcincosegundos,opacientefoi
extu-bado.Contudo,opacienteapresentouesforc¸orespiratório
mínimologoapósaextubac¸ãoeoscamposcirúrgicosforam
removidosparaexaminaraelevac¸ãodotórax.Observou-se
queoabdomeestavaseriamentedistendidoetimpânicoà
percussão.Umainduc¸ãodesequênciarápidafoifeita,mas
ainserc¸ãodotuboendotraquealfoimaisdifícilporcausade
inchac¸oemtorno daspregas vocais.Apósaintubac¸ão
tra-queal,o pacientetornou-se hemodinamicamenteinstável,
com a pressão arterial diminuindo para os 70s/40s. Uma
linha arterial radial foi colocada e fenilefrina e efedrina
foramadministradasembolusparamanterapressão
arte-rialmédiaacimade60mmHg.Airrigac¸ãovesicalcontínua,
habitualapósprocedimentosdeRTUP,foiinterrompida.Ao
interromperairrigac¸ão,osvolumescorrentesmelhoraram
para350mL.
Por causadafalta de espac¸o na salade cistoscopia, o
pacientefoitransferidoparaasaladecirurgiadotrauma,
queficavaaolado,paralaparotomiaexploratória.A
gaso-metriaarterialnaquelemomentomostrouumacombinac¸ão
deacidose respiratóriae metabólica (pH,7,08;pCO2, 66;
HCO3-19;sódio,126;excessodebase,-10).Apósaincisão,
3Ldelíquidodeirrigac¸ãoclaroforamaspiradosdo
peritô-nio.Laparotomiarevelouumarupturadocolodabexigacom
acúmulodelíquidoextraperitoneal,comumasegunda
rup-turanoperitônioquelevou aoacúmulomacic¸odelíquido
Síndromedocompartimentoabdominalpós-RTUP 521
ospicosdaspressões respiratóriasretornaram aosvalores
basais.Noentanto,opacienteevoluiucomhipotensãoe
exi-giuumainfusãodenoradrenalinaparamanteraestabilidade
hemodinâmica.Apósadescompressãodoabdome,opHfoi
normalizadodentrode1h.Oscirurgiõesfizeramareparac¸ão
darupturadabexiga,prostatectomiasuprapúbicaabertae
colocac¸ãodeumcatetersuprapúbico.
O paciente permaneceu intubadoapós o procedimento
e foi transferido para aunidade de terapia intensiva.Foi
extubadonodiaseguinteerecebeualtahospitalarnoquinto
diadepós-operatório,comumcateterdeFoleyinserido.Em
suaconsultadeacompanhamentoummêsapósacirurgia,
ocateterdeFoleyfoiremovidoeopacientecontinuoucom
umaboarecuperac¸ão.
Discussão
Nosso paciente desenvolveu a síndrome compartimental
abdominal (SCA), causada por ruptura extra e
intraperi-toneal da bexiga durante a RTUP. SCA após RTUP é uma
ocorrência rara descrita previamente apenas uma vez na
literatura.7
Oaumentodaspressõesrespiratóriasdepicofoi
obser-vado 2h após o início do procedimento e inicialmente
atribuídoàdoenc¸areativadasviasaéreas.Devemos
menci-onarqueapróstatadessepacienteeradeaproximadamente
120g e nossa equipe de urologia não faz rotineiramente
RTUPempróstatadetamanhosuperiora80g.Noentanto,o
objetivodacirurgiadessepacientefoiproporcionaroalívio
dasuropatiaseevitaracirurgiaabdominaldegrandeporte.
Porcausadotamanhoanormalmentegrandedapróstatae
dadurac¸ãoprolongadadaressecc¸ão(superiora2½h),bem
comodairrigac¸ãopressurizada dabexiga usadadurantee
imediatamenteapósoprocedimento,opaciente
desenvol-veurapidamenteumadistensãoabdominal,quelevouàSCA
eaodistúrbiorespiratórioimediatamenteapósaextubac¸ão.
O tratamentoinclui ainterrupc¸ão dasoluc¸ãode irrigac¸ão
elaparotomiaexploratóriarápidaparaevacuarolíquidoe
repararalesãodabexiga.
Abrir oabdome é ométodo maiseficaz parareduzir a
PIA e também o tratamento de escolha para a síndrome
compartimentalabdominalquandoaPIAapresenta-se
cons-tantementesuperiora30mmHg,comfalênciadeórgãoem
cursorefratáriaàterapia.8Porcausadainstabilidade
hemo-dinâmicadenossopacienteepioriarápidadoquadroclínico,
aPIAnãofoimedida,masoalívioapósaincisãopara
lapa-rotomia foi instantâneo. O pH pré-incisão era de 7,08 e
rapidamentenormalizou-senofimdacirurgia.
Umdesafio adicionalenfrentadopornossaequipefoio
tamanhopequeno e não adequado da sala decistoscopia
paraumaexplorac¸ãoabdominalabertadeemergência.
Por-tanto,onossopacienteprecisousertransferidoparaasala
aolado,queeradecirurgiadotrauma.Tivemosasortede
essa complicac¸ãoterocorrido emumhospitaldetrauma,
comumasaladecirurgiaimediatamentedisponíveleuma
equipedecirurgiõesdetrauma.ARTUPnormalmenteocorre
em centroscirúrgicos ambulatoriais, nos quais a
assistên-ciadeemergênciapodeserlimitada.Emboraarupturade
bexigasejaumacomplicac¸ãorara,medidasadequadaspara
otratamentodevemserconsideradas.
Desdeoacontecimentodesseevento,aequipecirúrgica
dasaladecistoscopiacertifica-sedemonitoraradistensão
abdominalduranteosprocedimentosprolongadosde
cistos-copiaseavaliaroabdomevisualmentecomasluzesdasala
deoperac¸ãoacesasantesdaextubac¸ão.Aentradaeasaída
delíquidosdeirrigac¸ãotambémsãocoletadasemedidas.
Outraopc¸ãoseriafazerumexamedeultrassomdoabdome
nasaladecistoscopia, noscasosem quesintomas
suspei-tosde ruptura de bexiga estejampresentes. Isso evitaria
fazerumalaparotomiadesnecessáriaempacientesque
des-pertam suspeitas, mas permanecem hemodinamicamente
estável.Esse caso nos conscientiza para ter aruptura de
bexiganotopodalistadediagnósticosdiferenciais,quando
umcasodeaumentoinesperadodaspressõesrespiratórias
ocorreduranteacistoscopia.
Nocasoapresentado,o pacientedesenvolveusíndrome
compartimental abdominal aguda após ruptura
extraperi-tonealdabexigaevazamentointraperitonealsubsequente
durante a RTUP. A instabilidade hemodinâmica e a
difi-culdade de ventilac¸ão do paciente levaram à decisão de
fazerumalaparotomiaexploratóriadeemergênciaemuma
saladeoperac¸ãoadjacente. Orápidoreconhecimento ea
intervenc¸ãoapósessacomplicac¸ãopreveniramamorbidade
emlongoprazonocasodessepaciente.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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