JULIANA ZANCO LEME DA SILVA
De leitor a autor:
a construção de mão dupla
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras.
Orientadora: Profa. Dra. Marisa Philbert Lajolo
S586d Silva, Juliana Zanco Leme da.
De leitor a autor : a construção de mão dupla / Juliana Zanco Leme da Silva. – 2013.
272 f. : il. ; 30 cm.
Dissertação (Mestrado em Letras) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013.
Referências bibliográficas: f. 123-124.
1. Cartas. 2. Bandeira, Pedro, 1942-. 3. Imagem. 4. Leitores. 5. Escola. 4. Leitura. I. Título.
JULIANA ZANCO LEME DA SILVA
De leitor a autor:
a construção de mão dupla
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras.
Aprovado em 03/12/2013
BANCA EXAMINADORA
Profa. Dra. Marisa Philbert Lajolo Universidade Presbiteriana Mackenzie
Profa. Dra. Maria Lúcia M C Vasconcelos Universidade Presbiteriana Mackenzie
AGRADECIMENTOS
A Deus, meu escudo, minha rocha, minha fortaleza em todos os momentos.
A meus pais, Pedro e Tereza, pelo exemplo de perseverança.
A meu esposo, pelo companheirismo incondicional.
A meu filho, pela compreensão e por perdoar a minha ausência.
A minha sogra, Maria, pelo auxílio constante.
À minha orientadora, Marisa Philbert Lajolo, pela paciência, compreensão e palavras incentivadoras.
Aos membros da banca, Profa. Dra. Maria Lúcia Marcondes Carvalho Vasconcelos e Profa. Dra. Raquel Afonso da Silva, pela leitura criteriosa do meu trabalho e pelas sugestões enriquecedoras.
Ao Prof. Dr. Marcos Antônio Moraes, pela atenção e material concedido.
Aos funcionários do Centro de Documentação Alexandre Eulálio (CEDAE), pelo acolhimento e auxílio.
RESUMO
Esta dissertação identifica e discutepráticas escolares de leitura e escrita registradas em cartas de leitores infanto-juvenis (faixa etária entre 12 e 17 anos) e adultos das décadas de 1980 e 90 enviadas a Pedro Bandeira. Investiga a historicidade de leitura e escrita desse leitor, bem como a imagem por ele construída, enquanto remetente de cartas. Traça perfis desses remetentes, discutindo os procedimentos linguísticos agenciados para a consecução de determinados efeitos de sentido. Propõe uma categorização a esses remetentes: a) Leitor-escritor – b) Leitor-fã – e c) Leitor-institucional. Analisa a construção da imagem do professor nas cartas enviadas pelos leitores infanto-juvenis e adultos a Pedro Bandeira e em duas obras do autor: Droga de amor e Pântano de Sangue da série Os Karas. Discute algumas atividades epistolares presentes em livros didáticos, direcionadas ao Ensino Fundamental II. Apresenta propostas de atividades relacionadas à leitura e produção de textos, a partir do corpus deste trabalho e de fragmentos de obras de Pedro Bandeira, destinadas aos alunos do Ensino Fundamental.
ABSTRACT
The current essay identifies and discusses school practices of reading and production of texts registered in letters from child and adolescent readers (age group among 12 and 17 years old) and adults, from the 1980’s and 90’s decades, sent to Pedro Bandeira. It investigates this reader’s reading historicity, as well as the image built by him or her as a letter sender. It describes these, senders’ profiles, discussing the linguistic procedures intermediated for the achievement of determined sense effects. It proposes a categorization to these senders: a) Reader-writer – b) Reader-fan – c) Reader-institutional. It analyses the image construction of the teacher in the letters sent by the readers to Pedro Bandeira and in two of the author’s works: Droga de amor and Pântano de sangue from of the series Os Karas. It discusses some activities of the epistolar genre present in textbooks, aimed to Elementary School II. It present activity proposals related to reading and production of texts, starting from the corpus of this work and Pedro Bandeira’s work fragments aimed to Elementary School students.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 09
CAPÍTULO 1 O leitor-escritor 14
1.1 Quadro I – Características do leitor-escritor 30
CAPÍTULO 2 O leitor-fã 33
2.1 Quadro II – Características do leitor-fã 53
CAPÍTULO 3 O leitor institucional 56
3.1 Quadro III – Características do leitor-institucional 69
CAPÍTULO 4 Olhares atentos à construção da imagem do professor 71
4.1 O professor nas cartas 71
4.2 A Literatura infanto-juvenil e a imagem do professor em
Pântano de Sangue 74
4.3 A imagem do professor em Droga de Amor 78
4.4 Sobre a construção das imagens do professor: “realidade”
versus ficção 81
CAPÍTULO 5 A carta na escola 84
CAPÍTULO 6 Propostas de atividades com cartas na escola 102
6.1 Etapas da produção textual 117
6.2 A Prática: Cartas e literatura em sala de aula 118
CONSIDERAÇÕES FINAIS 120
BIBLIOGRAFIA 123
ANEXO 1 Imagens e transcrições das cartas dos leitores-escritores 126 ANEXO 2 Imagens e transcrições das cartas dos leitores-fãs 141 ANEXO 3 Imagens e transcrições das cartas dos leitores-institucionais 167 ANEXO 4 Imagens de atividades do livro Singular & Plural: Leitura,
Produção e Estudos de Linguagem 177
ANEXO 5 Imagens de atividades do livro Língua Portuguesa – Coleção
Tecendo Linguagens 190
INTRODUÇÃO
Por muito tempo a preocupação da crítica literária recaiu, principalmente, sobre a intenção do autor ao produzir um texto. Até meados do século XX, consideravam-se os sentidos como imanentes ao próprio texto. Mesmo a partir de formulações propostas por tendências pós-estruturalistas e desconstrucionistas1 que questionaram noções da obra literária como objeto fechado em si, ainda sim, o sujeito leitor e suas condições históricas continuaram, por algum tempo, sem fazer parte do processo de interpretação.
Somente nos anos 1960, a partir de estudos voltados para ahistória cultural dos livros e da leitura, desenvolveu-se uma abordagem teórica interdisciplinar. Data deste período o início da dessacralização das obras literárias:investigando-se suas condições de produção, o suporte e o leitor, até então ausentes das indagações literárias, passam a ser o centro de muitas pesquisas contemporâneas.
Pesquisas deste recorte enfrentam um grande problema: a falta de material para estudo e discussãoda posição do leitor em relação às obras que lê. Esta dificuldade tem sido superada, por exemplo, por estudos que se debruçam sobre a correspondência entre leitor e autor, desentranhando do discurso epistolar práticas eimpressões de leitura.
É uma pesquisa deste perfil que desenvolveremos visando identificar e discutir práticas escolares registradas em cartas de leitores infanto-juvenis e adultos a Pedro Bandeira. A hipótese de que partimos é que a singular troca de correspondência de leitores com um escritor permite investigar práticas de leitura e escrita e da atuação desse leitor mediante a imagem por ele construída, enquanto remetente de cartas.
Dois foram os motivos da escolha do autor Pedro Bandeira: primeiro, devido à disponibilidade do largo acervo depositado no CEDAE - Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). Segundo, pela disponibilidade do autor o que garantiu dinamismo à pesquisa.
Selecionamos 24 cartas para compor o corpus do trabalho, sendo quatro doadas recentemente pelo autor, e o restante fruto de pesquisa no acervo que está depositado no CEDAE, como parte do fundo Memória de Leitura.2
1“Estilo de pensamento que abarca as operações desconstrutivista de Derrida, da obra do historiador
francês Michel Foucault, dos escritos do psicanalista Jacques Lacan e da filósofa e crítica feminista Julia
Kristeva” Cf. EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. 6ª edição.São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 202.
O material depositado na UNICAMP é gigantesco, composto de 3081 cartas que se encontram sem catalogação, ordenadas, apenas, em pastas, numeradas de 23 a 71 com uma anotação-controle – MLe (Memória de Leitura), o que impossibilitou um inventário mais preciso delas.
Ao investigarmos a construção de tais cartas de leitores a Pedro Bandeira, verificamos a operacionalidade de distribuí-las em duas categorias: leitores infanto-juvenis (faixa etária entre 12 e 17 anos) e leitores já adultos.
As cartas são, em sua maior parte, manuscritas a caneta ou a lápis e há diversificação nas cores de tinta ou grafite. Também são observáveis desenhos feitos pelos remetentes: corações, estrelas, bocas, menina, homem, entre outras. Há, ainda, diferentes tipos de papel, alguns remetentes optam por papéis de cartas com ilustrações. As únicas cartas digitadas são as recentemente doadas por Pedro Bandeira. Não havia nenhuma carta digitada ou datilografada nos documentos do CEDAE.
Possivelmente, isto tenha ocorrido por dois motivos: primeiro, porque o acervo pesquisado no CEDAE é das décadas de 1980 e 90, quando o computador, ainda, não fazia parte da vida doméstica dos brasileiros, e a maioria das pessoas tinha acesso somente – e nem sempre ─ à máquina de datilografia manual. Já as cartas doadas diretamente por Pedro Bandeira, datadas de 2008 e 2009, são digitadas devido à facilidade e popularidade do uso do computador.
Segundo, porque alguns remetentes parecem acreditar que ao escreverem uma carta manuscrita garantem a singularidade, conforme descrito pela leitora que, embora tenha escrito sua carta em 2009 e já tivesse a possibilidade de digitá-la, preferiu manuscrevê-la: “Alguém me perguntou porque estava escrevendo a mão. Eu respondi que achava que assim era bem mais carinhoso.”3.
Também, observamos alguns traços linguísticos semelhantes entre os remetentes, por isso buscamos traçar perfis desses remetentes, discutindo os procedimentos linguísticos agenciados para a consecução de determinados efeitos de sentido. Classificamos ainda os remetentes em três categorias:
a) Leitor-escritor – b) Leitor-fã – infanto-juvenil e adulto – e c) Leitor-institucional. Embora tenhamos lançado mão de classificações, que, em nossa hipótese, são
pertinentes à discussão a que este trabalho se propõe, verificamos que há mestiçagem das
categorias, ou seja, o escritor pode apresentar características de fã ou leitor-institucional e/ou vice-versa.
Acreditamos que o ato de escrever uma carta requer várias ações do remetente, desde “conhecer” o seu destinatário, até a encenação e construção de sua máscara para que alcance o objetivo desejado, como aponta Goffman (1985, p.11):
quando um indivíduo chega à presença de outros, estes, geralmente, procuram obter informação a seu respeito ou trazem à baila a que já possuem. Estarão interessados na sua situação sócio-econômica geral, no que pensa de si mesmo, na atitude a respeito deles, capacidade, confiança que merece, etc. Embora algumas destas informações pareçam ser procuradas quase como um fim em si mesmo, há comumente razões bem práticas para obtê-las. A informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele esperará deles e o que dele podem esperar.
Logo, reportamo-nos à acepção primeira de “pessoa” que quer dizer máscara/personagem, pois todo homem em todo o lugar, de maneira consciente ou inconsciente, está representando um papel (PARK, 1950).
A “encenação” pode ser concebida como a necessidade de um indivíduo por tempo determinado, diante de alguém ou um grupo social, firmar-se a fim de que atinja um determinado objetivo. A encenação ocorre não somente durante o relacionamento face a face, mas também por meio da produção escrita, aqui, especificamente de cartas, visto que “longe de serem espontâneas, as cartas ocultam e revelam seus autores conforme regras de boas maneiras e de apresentação de si, numa imagem pessoal codificada” (MALATIAN, 2009, p.197).
Acreditamos, ainda, que a escolha da linguagem, do papel, da cor do lápis ou caneta contribui para a constituição da personagem e está ligada à arte de persuadir o destinatário, assim como a retórica antiga predizia que para que houvesse o convencimento do auditório, era necessário virtude do orador, sinceridade e adaptação às características do público (PERELMAN, 1999).
Logo, em nossa hipótese, um leitor quando se apresenta a Pedro Bandeira através de uma carta, já possui informações sobre o escritor, construiu uma imagem a seu respeito e fez escolhas ao elaborar e reelaborar a carta.
esse conjunto de características físicas tem significativa importância para a análise de usos da Língua Portuguesa, em situação de produção escrita, uma vez que a concretude do material possibilita a verificação de indícios de variação de formalidade da língua, de acordo com o objetivo a ser atingido pelo remetente. Para Malatian (2009, p. 204)
A materialidade do objeto carta em seu suporte de papel e tinta desdobra-se na sua escrita que sempre envolverá um ou diversos temas não necessariamente ordenados na sequência de exposição hierarquizados (apesar das regras que definem as fórmulas de tratamento, a abertura e o fecho do texto, o tipo de linguagem, o vocabulário e até mesmo o número de páginas).
Baêta (1998, p. 193) enfatiza a importância de se investigar a materialidade das cartas
Há que se investigar a carta enquanto materialidade. Há uma série de características físicas diferenciais da(s) carta(s) e que singularizam seus tipos: papel empregado (“outro” para envelope?; há - quando? – envelope(s)?; cor de tinta; qualidade de tinta; maneira de ‘ocupar’ a folha (verificar a ‘nobilitação’ possível da folha; espaços em branco, distância das margens; utilização do verso, rasuras; transporte – quem as leva, como são levadas e entregues).
Logo, investigaremos as características físicas que singularizam as cartas a Pedro Bandeira, tais como tipo de letra escolhida: manuscrita ou digitada; o suporte, aqui, entendido como tipo ou modelo de papel; a disposição da escrita e a cor da tinta. As cartas obedecem
[...] a certas normas de estrutura que enquadram a sua substância pròpriamente dita. Na sequência quando?, onde? a quem?, o quê? por quem? Que se lhe pode aplicar, o factor o quê – recheio e motivação do texto – é evidentemente primacial. Contudo, os outros elementos (lugar, data, destinatário e assinatura) só aparentemente são exteriores e secundários. (ROCHA, 1965, p.14)
Assim sendo, faremos a análise das cartas levando em consideração além do o quê, do quando, do onde, do a quem, elementos que parecem secundários, mas que desencadeiam todo o processo de construção da máscara do leitor infanto-juvenil.
A indústria da carta desenvolveu-se desde o século XIX com a diversificação dos papéis utilizados, em seus inúmeros tipos, formatos e cores, aos quais se acrescentava muitas vezes o requinte dos monogramas ou timbres, que de um lance de vista permitiam a identificação de sua procedência e constituíam sinais de distinção. O uso de tarja negra para situações de luto, de ilustrações em ocasiões festivas ou memoráveis, a exposição de papéis luxuosos de linho, o recurso a simples folhas arrancadas de cadernos ou retalhos de papéis embrulho indicam as circunstâncias em que as cartas foram escritas, regulando a troca de informações e ordenando as relações sociais entre os correspondentes.
O leitor, talvez, não conheça a história da indústria da carta e tampouco as situações nas quais, tal ou qual papel de carta era utilizado, mas devido à cultura internalizada utiliza o suporte para indicar as circunstâncias de produção das cartas, inclusive, para a construção de sua máscara.
Para concretizar tais objetivos, organizamos a dissertação em seis capítulos. Nos três primeiros – I) O leitor-escritor; II) O leitor-fã; III) O leitor institucional ─ discutiremos as cartas de leitores infanto-juvenis e adultos a Pedro Bandeira, atentando para a materialidade das cartas, a construção da identidade do remetente, a menção a práticas de leitura e escrita escolares, os efeitos de leitura e maneiras de acesso às obras de Pedro Bandeira.
No IV capítulo, Olhares atentos à construção da imagem do professor
,
analisaremos aconstrução da imagem professor nas cartas enviadas pelos leitores infanto-juvenis a Pedro Bandeira e em duas obras do autor: Droga de amor e Pântano de Sangue da série Os Karas.
No capítulo V, A carta na escola, apresentaremos e discutiremos algumas atividades sobre o gênero epistolar propostas em livros didáticos, direcionadas ao Ensino Fundamental II, para que conheçamos melhor práticas jovens ligadas à leitura e à escrita, particularmente a leitura e a escrita patrocinada pela escola.
E no último capítulo, Propostas de atividades com cartas na escola, proporemos
CAPÍTULO 1
O leitor-escritor
Ao investigarmos as cartas a Pedro Bandeira, escritas pelos remetentes infanto-juvenis e adultos, observamos que estas apresentam algumas características comuns, por isso estabelecemos algumas denominações, como por exemplo, o leitor-escritor, sobre a qual discutiremos neste capítulo. Para Diaz (2007, p. 122)
Antes de ser um objeto postal, assinalado ao longo de sua trajetória por uma série de impressões alógenas que lhe marcarão para sempre o próprio “corpo”, a carta chamada “missiva” é texto, e mais frequentemente, “autógrafo”. Mas antes de ser texto, ela foi também, às vezes, “paratexto” – minuta, “rascunho” – o que nos coloca então na situação – reconfortante – de uma genética “endógena”.
É através do texto que faremos a análise da construção da máscara deste leitor-escritor, e verificaremos a constituição da carta de cada modalidade de remetente presente no acervo deste trabalho. Para tanto, far-se-á necessário citação das cartas na íntegra (manteremos a ortografia original dos remetentes), as mesmas serão identificadas pela sigla PB (Pedro Bandeira) e numerais romanos em ordem crescente.
CARTA PB I Santos, 07/08/87 Olá Pedro!
‘Sou uma de suas leitoras e lhe escrevo para parabenizalo pelo seu grande trabalho “A Marca de uma lágrima”. O livro foi recomendado para leitura extra-classe no meu colégio, onde você já esteve fazendo uma palestra sobre o seu trabalho de escritor, o Colégio do Carmo.
Gostei muito do livro e pretendo ler o seu último trabalho que conta a aventura dos KARAS no Pantanal motogrossense. Li o livro a “Droga da Obediência”, foi o primeiro livro que li de sua autoria e fiquei encantada com seu estilo.
Como pude notar na palestra que você deu em minha escola, você me pareceu uma pessoa ativa que procura contestar o mundo que está aí, procura entender os jovens e por isso escrevo para lhe pedir que me esclareça algumas coisas sobre escrever livros.
Me identifiquei demais com Isabel uma das personagens de “A Marca de uma lágrima” porque assim como ela, eu também escrevo poesias.
Embora alguns sejam textos mais expressivos do que poesias propriamente ditas, gosto muito de escrever e expressar o que sinto no papel.
Sempre quis publicar um livro meu, sempre quis mostrar à todos o que mais gosto de fazer mas como todo começo, sei que é difícil.
Por isso gostaria que você me desse alguns toques de como poderia começar, porque você já tem uma certa experiência acumulada por escrever. Será que você poderia me ajudar então?
Já recorri à revistas mas não obtive resposta, a única pessoa mais indicada que encontrei foi você.
Bom, agora fico por aqui porque você deve ser bastante ocupado e não quero te atrapalhar.
Espero que você possa colaborar comigo.
Desde já, agradeço pela atenção e te desejo muito sucesso pela vida tá4
Abaixo as imagens digitalizadas da CARTA PB I:
Imagens da Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura”. 12San6- Pasta 23
Imagem da Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura”.
12San6- Pasta 23
Nesta carta, observamos no primeiro parágrafo, após a saudação, que a remetente revela práticas relacionadas à leitura escolar ─ “O livro foi recomendado para leitura extra -classe no meu colégio onde você já esteve fazendo uma palestra sobre o seu trabalho de escritor, o Colégio do Carmo” ─e o resultado da leitura ─ “Gostei muito do livro e pretendo ler o seu último trabalho que conta a aventura dos KARAS no Pantanal mato-grossense”. Logo, foi a atividade escolar possibilitou a um grupo de alunos o acesso a obra de Pedro Bandeira e despertou o prazer de ler na remetente.
Apesar do caráter institucional revelado, a remetente destina nove parágrafos do texto para solicitar esclarecimentos e ajuda em relação à publicação de um livro ─ “[...] por isso escrevo para lhe pedir que me esclareça algumas coisas sobre escrever livros”, “Sempre quis publicar um livro [...]”─, por isso a classificamos como leitora-escritora.
A argumentação é iniciada pela caracterização positiva do autor ─ “você me pareceu uma pessoa ativa que procura contestar o mundo que está aí, procura entender os jovens”─, o adjetivo utilizado para particularizar Bandeira é “ativo”. Será que a imagem de um autor ao público infanto-juvenil é de um ser inativo e incapaz de compreender o jovem?
Possivelmente. No acervo pesquisado, encontramos uma remetente que responde a esta pergunta ao descrever a imagem, primeira, de um autor ─ “Nunca imaginei que um escritor pudesse ser como você. Sempre imaginei que vocês fossem quadrados, sérios, se achassem superiores [...]”5.
Em seguida, a leitora faz referência à Isabel, a protagonista do livro A marca de uma lágrima ─ “Me identifiquei demais com Isabel uma das personagens de “A marca de uma Lágrima” porque assim como ela, eu também escrevo poesias”─, provavelmente, a remetente acredita que Isabel seja a chave que abrirá as portas para a concretização de seu sonho de publicar o livro.
Nos parágrafos seguintes, a construção da máscara de escritora ganha forma, pois a leitora revela ter leitores de sua “obra” ─“Muitas pessoas me perguntam porque não publico um livro, dizem que eu tenho jeito para escrever” ─ e conta que já tentou a publicação ─ “Já recorri à revistas mas não obtive resposta”─.
Em nossa hipótese, a discussão sobre linguagem utilizada para a produção do texto também colabora para a constituição da máscara de leitora-escritora, por isso apresentaremos nossas impressões sobre as escolhas linguísticas da remetente.
Embora apresente uma saudação informal “Olá Pedro”, o texto é elaborado com formalidade, mesmo que haja desvio da norma padrão culta como “me identifiquei” e “parabenizalo”. A formalidade é percebida através das expressões “textos mais expressivos”, “uma certa experiência acumulada”, “já recorri”, “desde já, agradeço pela atenção” e a despedida “cordialmente”.
Acreditamos que a remetente julgue necessária a utilização de vocábulos mais sofisticados, para que o autor a veja com qualidades de escritora. Outro elemento que
colabora para a construção desta máscara de competência no uso da língua portuguesa é o emprego do acento grave, mesmo que de maneira incorreta: “à revistas” e “à todos”.
Os textos PEB II e PEB III serão apresentados sequencialmente, pois são provenientes da mesma remetente:
CARTA PB II 13.09.87
Prezado senhor, Pedro Bandeira
Na condição de sua grande admiradora achei-me no dever de escrever-lhe dizendo o que penso de suas obras de literatura.
Estou na sétima série e tenho quatorze anos. Seus livros são muito aplicados aqui em minha escola e muito admirados pelo desembaraço com que escreve e pela grande liga que tem suas obras com a adolescência.
Este ano foi-me recomendada a leitura do livro “a marca de uma lágrima” e posso lhe afirmar que nunca li obra tão comovente e tão tocante, mesmo por que identifiquei-me muito com a personagem Isabel.
Identifiquei-me com seu modo de viver e seu jeito de tratar a vida. Nunca me considerei dessa forma, mas agora que li “A marca de uma lágrima” percebi que também sou uma artista como Isabel.
Só agora percebi que devo dar valor as coisas que faço. Passei grande parte de meus quatorze anos escrevendo poesias, elas sempre fizeram parte de minha vida, sempre me ajudaram a desvendar meus sentimentos, obscuros até para mim mesma.
Sempre escrevi meus sentimentos, meus amores não correspondidos, momentos, lugares e uma infinidade de coisas que para mim são importantes escrever, assim como é importante viver.
Selecionando todos os meus poemas, poderia até fazer um livro, mas infelizmente isso não é possível, pois não sei como editá-lo, e precisaria da ajuda de alguém para conseguir isso.
Recorro-me, então ao senhor, que como escritor experiente, creio que possa me ajudar encaminhando-me à alguma editora que se interesse por minhas obras.
Infelizmente não tenho recursos para editar um livro independentemente e preciso muito de sua ajuda. Mando junto com esta carta alguns de meus poemas para o senhor avaliá-los e se possível mandar-me uma resposta breve.
Subscrevo-me atenciosamente, Sua admiradora,6
CARTA PB III 24.09.87
Prezado srº Pedro Bandeira.
Ninguém pode imaginar com que alegria recebi sua carta. Fiquei muito feliz de saber que o senhor gostou de meus poemas.
Adorei formar mais um amigo, principalmente um que incentivou-me a não desanimar e sempre continuar a escrever minha emoções.
Creio que algum dia serei uma profissional excelente como o senhor e publicarei muitos livros.
Acredite: nunca esquecerei seus conselhos que para mim valeram mais que qualquer realização profissional.
Como o senhor disse, para escrever bem, é necessário ler bastante e eu leio o máximo que eu posso ler ainda muitos livros seus, pois adoro o jeito com que o senhor escreve e espero mesmo, viu? Por que o senhor já entrou na lista dos escritores que mais admiro.
Um grande abraço de sua fã.7
O texto PB II é iniciado com a saudação “Prezado Senhor” e finalizado com “Subscrevo-me atenciosamente”, percebemos que a leitora, uma adolescente de 14 anos, procura construir uma máscara que denote sua competência como escritora, utilizando-se de um vocabulário formal ─ “Na condição de sua grande admiradora”, “Este ano foi-me recomendado”, “Recorro-me” – o qual, provavelmente, não pertence à escrita cotidiana de uma menina de quatorze anos.
Parece-nos que a remetente quer que o destinatário a veja como capaz de produzir livros ─ “Sempre escrevi meus sentimentos, meusamores não correspondidos” ─ e continua descrevendo sua capacidade de escrever ─“Selecionando todos os meus poemas, poderia até fazer um livro”. Para Rocha (1965, p.14)
[...] o epistológrafo, esse, requinta o que tem para dizer conforme o destinatário a quem confia. Aqueles que preza ou àqueles que combate, procura dar de si uma imagem lisonjeira e subtil, por meio duma expressão graciosa ou percuciente, duma lógica sem defeitos, duma confidência exclusiva.
A leitora procura construir seu texto de maneira requintada e busca perfeição, visto que utiliza, além de termos formais ─ “Recorro-me, então ao senhor, que como escritor experiente, creio que possa me ajudar encaminhando-me à alguma editora que se interesse por minhas obras”─, uma apresentação da escrita impecável.
Abaixo a imagem digitalizada da carta PB II, na qual podemos perceber, pela ausência de rasuras, distribuição de parágrafos, regularidade das margens e da letra, que o texto talvez tenha sido escrito e reescrito várias vezes.
Imagens da Carta PB. CEDAE, Fundo “Memóriade Leitura” – 205Pa10- Pasta 23
Paraíso
Amor, eterno amor Somos matéria diferente Dois pedaços de gente No infinito do amor Me ergue, me destrói Me derruba, me contrói Pois sou tua e sou mulher Sou brinquedo
E sou segredo
De sussurros escondidos Meu corpo, pequeno tormento É seu neste momento
É eterno se quiser
Me encontre em seus encantos Que são lindos e são tantos Neles posso me perder.
Imagem do anexo da carta a PB - CEDAE, Fundo
“Memória de Leitura” – 205Pa10- Pasta 23 Transcrição do anexo da carta a PB - CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 205Pa10- Pasta 23
O lugar onde estou
Em algum lugar do passado Me encontro na relva macia e rente Braços abertos, olhos semi-cerrados De encontro ao céu como se quisesse Abraçar o mundo e lavar a mente Lágrimas quentes cortam meu rosto E o mundo, mundo morto
Deixa que as folhas, folhas secas Das árvores, grotescos carvalhos Voem pelo ar, pelo vento
Afago minha boca, como se quisesse Apagar o pecado de um beijo roubado Trinco os dentes e fecho a alma Faço do mundo, o mundo obscuro
Para que nenhuma imagem venha me] [aturdir
Será agora, lembranças ternas? Será agora, tempo presente? Vontade de um beijo, De um tempo ausente? Imagem do anexo da carta a PB - CEDAE, Fundo
Na imagem digitalizada do texto PB III, apesar de a carta obedecer à estrutura do gênero epistolar, há uma transgressão na escrita da data, uma vez que o dia, o mês e o ano são escritos em números e não aparece o nome da cidade.
O papel de carta utilizado apresenta cores suaves e há um desenho de uma menina de olhar cândido segurando uma margarida que, em proporção à menina, é grande. Então, surge o questionamento: Por que este foi o papel escolhido para a escrita da carta?
Possivelmente, a resposta esteja logo no primeiro parágrafo ─ “Ninguém pode imaginar com que alegria recebi sua carta. Fiquei muito feliz de saber que o senhor gostou de meus poemas”─. Pode-se construir a hipótese de que a leitora estaria representando no papel a beleza de sua escrita e a alegria de receber uma resposta do autor.
Imagem da carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de
Embora para produzir o segundo texto a remetente tenha usado um papel de carta colorido e com desenho, o tom formal prevalece, haja vista que ao agradecer pela resposta e pelos conselhos dados pelo autor, a remetente usa o pronome de tratamento “Senhor” cinco vezes, o qual pode sugerir respeito, falta de intimidade ou formalidade.
Em nossa hipótese, em ambos os textos prevalece a construção da mesma máscara – de escritora – todavia, há o que chamamos de mestiçagem de categorias, ou seja, a remetente também apresenta traços de leitora-institucional (aquela que escreve a carta para cumprir uma atividade escolar) e de leitora-fã (aquela que revela admiração pelo autor) ao produzir as cartas.
Ao apresentar-se – “Estou na sétima série e tenho quatorze anos. Seus livros são muito aplicados em minha escola [...]”, “Este ano foi-me recomendada a leitura do livro ‘a marca de uma lágrima’[...]” ─ são observáveis traços institucionais, os quais nos fornecem dados históricos de prática e acesso à leitura proporcionados na instituição escola.
Em – “Na condição de sua grande admiradora [...]”, “[...] serei uma profissional excelente como o senhor [...] ”, “Um grande abraço de sua admiradora” – verificamos expressões típicas de uma leitora-fã.
CARTA PB IV Santos, 31/1/88 Saudações
Querido Pedro Bandeira em primeiro lugar receba um forte abraço e um daqueles mil beijos que você me mandou. Talvez você nem se lembre de quem é esta carta que você está lendo, mas não importa, o que vale apena é sentir esse imenso prazer de estar me comunicando com você novamente. Adorei muito aquela linda carta que você me mandou e opinou para que lesse “Pantano de Sangue” em que fala sobre cinco heroicos ou seja: os “Karas”, eu achei um espetáculo.
Você havia dito que eu iria adorar “A marca de uma lágrima” em que fala do amor dos jovens. Dito e certo esse livro me deixou muito emocionada, que agora nesse exato momento estou chorando só de relembrar o que eu li. Olha Pedro (me desculpe pela intimidade) talvez os seus livros foram os 1ºs que fizeram com que eu me interessasse mais pela leitura.
Anteriormente eu lia, porque eu era obrigada, hoje em dia já mudou eu leio porque esse é o meu Hobb ou seja: Hobb= significa o que eu mais gosto de fazer.
Pedro, não querendo tomar o seu valioso tempo, gostaria de lhe uma pergunta e tenho certeza: se você me responder será uma imensa satisfação de me aperfeiçoar pela literatura pois adoro fazer poemas.
Gostaria que você me respostasse essa insignificante carta para muitos porém, para mim significa um pedaço de mim.
Desejo-lhe felicidades em sua carreira e também felicidades no decorrer do, ano de 88 para você e sua família.
Afinal para se desejar o bem à alguém é muito mais fácil ser: “Antes tarde do que nunca”.
Sem mais nada para dizer no momento despeço-me. Assinatura8
A construção da carta da leitora-escritora de número quatro é um texto em que a remetente adota um tom formal com alguns toques de informalidade. A leitora inicia com “Saudações”, logo depois usa o nome e o sobrenome do escritor no vocativo e quando se refere a ele como “Pedro” se desculpa pela suposta intimidade; utiliza termos como “valioso tempo”, “imensa satisfação”, “meia surpreendente” e o finaliza “Sem mais nada para dizer no momento despeço-me”, todos esses termos nos remetem à formalidade que – talvez na opinião da remetente – seja adequada a uma possível escritora.
A introdução de uma suposta informalidade é observada no primeiro parágrafo, no qual a remetente se refere ao autor como ─ “Querido Pedro Bandeira em primeiro lugar receba um forte abraço e um daqueles mil beijos que você me mandou” ─ e revela já houve troca de correspondência entre ela e o autor, também por explicações sobre seu “Hobb”.
Estas e outras expressões nos remetem à mestiçagem das categorias: a informalidade proposta, em determinados trechos em tom de conversa – “Olha Pedro”, “Pedro, não querendo tomar [...] ─, o excesso de adjetivos ─ “linda”, “imenso”, “valioso”, “imensa” – também caracterizam, a nosso ver, a leitora como fã.
O texto nos revela, ainda, a prática escolar de obrigatoriedade de leitura quando a leitora descreve: “Anteriormente eu lia, porque eu era obrigada, hoje em dia já mudou eu leio porque esse é o meu Hobb ou seja: Hobb= significa o que eu mais gosto de fazer.”
No trecho acima, há erros em relação à pontuação e à escrita do vocábulo “Hobb”, todavia o emprego da palavra “anteriormente”, assim como da palavra “Hobb”, seguida de explicação, apesar da escrita incorreta, parece ter sido empregada para solidificar a construção da máscara de leitora-escritora, pois a remetente, provavelmente, acredita que ambas são adequadas para a elaboração de um texto à altura de uma escritora. Também por três vezes o vocábulo “eu” é repetido, talvez mais um erro ou, mesmo inconsciente, a autoafirmação.
Parece-nos que a produção desta carta não passou pela correção de um professor, pois a remetente não faz referência à escola e apresenta muitos erros quanto à ortografia, à concordância nominal/verbal, e à pontuação.
Seguem as imagens da Carta PB IV:
Imagens da Carta a PB. - CEDAE, Fundo “Memória de Leitura”. 125an8- Pasta 23
CARTA PB V
São Paulo, 28 de setembro de 1988 Caro Senhor Pedro Bandeira:
Sou uma garota de quatorze anos, e li seu livro “A marca de uma lágrima” e gostei muito, pois identifiquei-me demais com a personagem principal. A Isabel é muito parecida comigo; já me senti várias vezes como ela; senti-me feia, inferior, sem a mínima importância. E muito, muito apaixonada. E também, como a Isabel, gosto de ler e escrever. Adoro livros, apesar de não ser muito “chegada” em poesias. E também sou craque em redação, é a coisa que mais gosto de fazer na escola.
No final do livro, naquela página sobre o autor e sua obra, o senhor disse que não sabe se um adolescente pode realmente amar uma pessoa, numa idade dessa.
Bem, eu acredito que sim; já senti uma paixão violenta como a de sua personagem, já senti o que ela sentia ao ver o seu amado. Só achei que ela foi exagerada e um pouquinho masoquista, mas pensando bem, creio que isso é por causa do tamanho e do tipo de sentimento.
Estou perguntando isso porque escrevo desde os oito anos de idade e meu maior sonho é o de ser escritora um dia. Muitos que leram meus escritos elogiaram-me e aconselharam-me a publicar. Mas sempre tive muito medo de tomar essa decisão, medo porque não sei como podem me tratar. O que o senhor acha? É possível uma garota (como eu) publicar um livro?
Termino aqui; já ocupei muito o seu tempo e peço por favor que pense nessas minhas perguntas e se possível, responda-me, pois, acredite, essa carta que tem nas suas mãos está sendo muito importante para mim.
Obrigada.9
Esta remetente inicia o texto com uma breve apresentação ─ “Sou uma garota de quatorze anos” ─ e no primeiro parágrafo, após a saudação, revela sua identificação com o drama vivido pela personagem principal do livro A Marca de uma Lágrima, Isabel, e especifica “[...] como Isabel, gosto de ler e escrever”.
Sequencialmente, relata sobre sua habilidade escritora ─ “sou craque em redação” ─, emite comentários sobre a obra lida e esclarece que não escreve somente para elogiar o autor, mas sim para sanar algumas dúvidas sobre o caminho para publicação de um livro.
Pressupomos que a remetente constrói o texto utilizando termos e construções que acredita serem formais para a situação, na qual deve se apresentar como escritora: “Caro Senhor Pedro Bandeira”, “identifiquei-me”, “tampouco”, “elogiá-lo”, “elogiaram-me”, “responda-me”, “através desta”. A leitora ora utiliza termos mais formais, ora expressões informais como “chegada” e “craque”.
A palavra “chegada” é escrita entre aspas a fim de demonstrar que foi empregada propositalmente, ou seja, a remetente, em nossa hipótese, busca escrever o texto com propriedade e o “brincar” com as palavras faz parte da construção do texto.
Ao empregar a palavra “craque” com sentido de excelente, embora a leitora não tenha usado aspas para destacá-la, observamos que a “brincadeira” com as palavras continua, isto é, o emprego dos vocábulos com sentido figurado parece necessário à remetente.
Acreditamos que no processo de construção da máscara de escritora, a leitora procurou demonstrar que é capaz de escrever de maneira formal, pois, possivelmente, acredita que para ser uma autora este seja um requisito e, ao mesmo tempo, utilizou uma linguagem mais informal, a fim de estabelecer proximidade com o autor.
Abaixo as imagens se referem à carta PB V:
Imagens da Carta a PB. - CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 20SPa2- Pasta 23
Imagem da Carta a PB. - CEDAE,
CARTA PB VI
Santo André, 20 de novembro de 1990.
Senhor Pedro Bandeira, bem, não sei se devo chamar-lhe de senhor. Mas estou escrevendo-lhe para dizer que adorei o livro “Pântano de Sangue”. Tenho 12 anos estou na 6ª série e adoro ler, estudo na Escola Celso Gama, que fica em Santo André. Minha professora de Português manda a gente ler dois livros por bimestres depois de lermos temos que fazer uma verificação de leitura e depois um trabalho sobre o livro. Foi assim que todos os meus colegas pegaram o hábito de ler.
Não gosto só de ler e também de escrever histórias, já escrevi um livro, mas está com a minha professora, assim que ela me entregar eu mando para o senhor ler.
Bom, agora tenho que parar por aqui, amanhã tenho prova de Geografia e tenho que estudar.
Obrigado:10
Segue o texto digitalizado da carta PB VI:
Carta a PB. - CEDAE, Fundo “Memória de Leitura”. 75An3- Pasta 23
A remetente do texto seis ao apresentar-se –“Tenho 12 anos estou na 6ª série e adoro ler, estudo na Escola Celso Gama [...] ─ e ao relatar a prática escolar de leitura e escrita: ─ “Minha professora de Português manda a gente ler dois livros por bimestres depois de lermos
temos que fazer uma verificação de leitura e depois um trabalho sobre o livro” – caracteriza-se como parte de a uma instituição.
O trabalho sobre o livro seria a escrita de uma carta ao autor? Talvez sim, todavia a leitora aproveita a oportunidade para revelar ao destinatário que também gosta de escrever: “Não gosto só de ler e também de escrever histórias, já escrevi um livro”, o que torna o texto característico do leitor-escritor, pois a remetente prioriza a informação de que também escreve.
Outro aspecto interessante é que a remetente descreve que, através desta prática escolar, os alunos “pegam” o hábito de ler ─“Foi assim que todos os meus colegas pegaram o hábito de ler”─, ou seja, a atividade didática obteve sucesso. Mas, o que justificaria o uso do verbo “pegar”? Seria uma expressão regional? Talvez, entretanto lançamos mão da seguinte hipótese: antes os alunos não gostavam de ler e consequentemente não pegavam livros na biblioteca, isto é, há uma transposição do concreto para o abstrato.
A remetente inicia e termina o texto de maneira formal: “Senhor Pedro Bandeira”, “Obrigado”, apesar do desconhecimento da regra gramatical de concordância nominal em “Obrigado”, a formalidade é mantida, pois a remetente escreve: “Obrigado:” com dois pontos e assina seu nome completo.
CARACTERÍSTICAS DO LEITOR-ESCRITOR
CARTAS LOCAL/
DATA SAUDAÇÃO APRESENTAÇÃO LEITOR-ESCRITOR IDENTIFICAÇÃO PEDIDO DESPEDIDA
I Santos,
07/08/87 Olá Pedro! Sou uma de suas leitoras [...]gosto muito de escrever e expressar o que sinto no papel.
[...]gostaria que você me desse alguns toques de
como poderia
começar[...]
Cordialmente.
II São Paulo, 13/09/87
Prezado senhor, Pedro Bandeira
Estou na sétima série e tenho quatorze anos
Passei grande parte de meus quatorze anos escrevendo poesias
[...] creio que possa me ajudar
encaminhando-me à alguma editora [...]
Subscrevo-me atenciosamente, Sua admiradora,
III São Paulo,
24/09/87 Prezado Pedro Bandeira. srº - Creio que algum dia serei uma profissional excelente como o senhor e publicarei muitos livros.
- Um grande abraço de sua fã.
IV Santos, 31/1/88 Saudações
-
[...] minha ex professora disse [...] quem sabe mais cedo ou mais tarde ela estaria lendo um livro publicado por mim.
- O que é necessário para que uma pessoa descreva
sobre sua
autobiografia
Sem mais nada para dizer no momento despeço-me.
V São Paulo, 28 de setembro de 1988.
Caro Senhor Pedro Bandeira:
Sou uma garota de quatorze anos
[...] escrevo desde os oito anos de idade e meu maior sonho é o de ser escritora um dia.
- É possível uma garota (como eu) publicar um livro?
Obrigada.
VI Santo André, 20 de
novembro de 1990.
Senhor Pedro Bandeira,
Tenho 12 anos estou na 6ª série e adoro ler
Nossa hipótese de caracterização do leitor-escritor baseia-se na produção textual com uma linguagem que o remetente acredita ser requintada, a qual pode ser observada desde a saudação até a despedida.
Os leitores, geralmente, apresentam-se indicando idade e a série escolar cursada. Nos textos três e quatro não há apresentação, pois os remetentes já se correspondiam anteriormente com o autor, quando certamente, apresentaram-se.
Também, há a identificação dos remetentes como escritores, através de uma breve introdução sobre o que escrevem e experiências bem sucedidas de suas produções, ou seja, críticas positivas, geralmente, efetuadas por professores.
Notamos que há recorrentemente o pedido de encaminhamento à publicação, realizada de maneira explícita ou implícita. Em alguns casos, anexam suas produções: “Mando junto com esta carta alguns de meus poemas para o senhor avaliá-los e se possível mandar-me uma resposta breve.” (Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura”. 13/09/1987).
Desse modo, a nossa hipótese é que ao construir a máscara de leitor-escritor, os remetentes utilizam, estrategicamente, a linguagem que acreditam ser mais formal, a apresentação e a identificação a fim de sensibilizar, isto é, mostrar todas as suas qualidades ao autor para que os direcione a uma editora, pois
[...] o missivista antecipando-se à decodificação em diferentes ângulos, efetuada pelo receptor, e conhecendo de antemão todos os aspectos desta mecânica comunicativa complexa, é levado a jogar com ela de maneira mais ou menos estratégica. (DIAZ, 2007, p.122)
O remetente, provavelmente, vê em Pedro Bandeira os requisitos necessários para que o ajude a realizar o sonho de ser escritor. Uma hipótese para tal é que a leitura de A marca de uma lágrima possibilita a construção da imagem de que Bandeira seria sensível ao desejo de publicação de jovens escritores, uma vez que a personagem principal, Isabel, é uma jovem que escreve poemas sobre seus desencantos.
Vários dos leitores-escritores revelam ao autor que se identificam com a personagem: “Me identifiquei com Isabel uma das personagens de ‘A Marca de uma lágrima’ porque assim como ela, eu também escrevo poesias”11, “[...] identifiquei-me demais com a personagem
principal. A Isabel é muito parecida comigo[...]”,12 “Nunca me considerei dessa forma, mas
agora que li - “A marca de um lágrima percebi que também sou uma artista como Isabel”- 13 Consideramos três possíveis motivos para tal identificação: 1) Isabel, a poetisa criada por Bandeira, seria o canal entre o leitor-escritor e autor, pois possibilitaria a concretização da publicação do livro; 2) Todos os remetentes são do sexo feminino; 3) A faixa-etária dos remetentes que coincide com a da personagem.
Outro aspecto interessante é o fato de que, diferentemente da maioria dos leitores infanto-juvenis, os leitores-escritores não utilizam papéis de cartas com ilustrações nem fazem desenhos para ilustrar o texto. Qual seria o motivo?
Se nos referíssemos, somente, ao uso dos papéis de carta, poderíamos levantar a hipótese do custo (elevado?) do papel, porém, nos reportamos a desenhos feitos à mão ou colagens, recursos, geralmente, utilizados pelos remetentes infanto-juvenis. Por isso, a nossa hipótese é que o leitor-escritor, possivelmente, acredite demonstrar maturidade ao utilizar o papel liso e que este faça parte da construção da máscara de leitor-escritor.
CAPÍTULO 2
O leitor-fã
Discutiremos, neste capítulo, as principais características do leitor-fã que serão apresentadas em duas modalidades: leitor-fã infanto-juvenil e leitor-fã adulto. Investigaremos também práticas escolares relacionadas à leitura e à escrita jovem.
Como procedemos no capítulo anterior, destacaremos as características principais de cada leitor-fã e apresentaremos um quadro-resumo com as características comuns destes remetentes.
As cartas que seguem –VII e VIII ─ foram escritas pela mesma remetente:
CARTA PB VII
São José dos Campos, 24 de maio de 1988 Olá, Pedro!
Depois que você saiu da nossa sala, 3º magistério do Olavo Bilac, fiquei pensando no que você havia falado.
Nunca imaginei que um escritor pudesse ser como você. Sempre imaginei que vocês fossem quadrados, sérios, se achassem superiores, mas você é espetacular, super engraçado, verdadeiro, adorei. Pode ter certeza que conseguiu mais uma fã.
Sou uma pessoa super difícil, quase ninguém me conquista com facilidade, mas você me conquistou logo na primeira vez.
Te adorei, quer dizer te adoro.
Você é super inteligente, culto e interessante. Sua maneira de encarar a vida me impressionou.
Gostaria de manter uma relação mais íntima com você. Gostaria que você se tornasse meu amigo.
Espero que continue escrevendo com o mesmo brilho e inteligência de sempre. E juntos buscaremos um mundo cada vez melhor.
Espero anciosamente resposta. Felicicades!
Lulubrint
*Vou representar o Chapeuzinho na peça que iremos encenar, que será da Feiruinha.14
CARTA PB VIII S.J.C. 06/10/88 Querido Pedro,
Eu fiquei super contente como nosso encontro no Shopping mas ainda estou com saudades.
Estou em plena aula de Sociologia e me deu uma enorme vontade de escrever.
Quero que você nunca esqueça que você é muito importante e especial para mim.
Você é o meu melhor amigo.
Estou fazendo o melhor possível nos ensaios para que você se orgulhe de mim. Estou dando o máximo.
Não se esqueça, dia 20.
Gostaria se possível, que você ligasse para mim falando que horas mais ou menos você vai estar no Ane Teatro.
Beijos,
Chapeuzinho Vermelho
P.S. Acho que você tem meu telefone mas aí está15
Em ambos os textos, a remetente busca intimidade com o autor, através de expressões e léxico informal: “Olá, Pedro”, “Querido Pedro”, “quadrados”, “super difícil”, “super contente”, “você”, se despededesejando “Felicidades” e enviando “Beijos” e, por fim assina com os pseudônimos “Lulubrint” e “Chapeuzinho Vermelho”, fornecendo ainda seu telefone.
Também o Post Scriptium é essencial para evidenciar a proximidade, visto que as cartas são finalizadas sempre solicitando ao autor que entre em contato ou assinalando que a remetente fará novo contato, o que a caracteriza como leitora-fã.
A leitora-fã revela traços institucionais ao relatar uma atividade didática promovida pela escola a de realizar encontros com autores - “Depois que você saiu da nossa sala” e ao contar que haverá uma encenação do livro Feiurinha – “Vou representar o Chapeuzinho na peça que iremos encenar [...]” – ambas as atividades, possivelmente, objetivem incentivar os alunos à leitura.
CARTA PB IX
São José dos Campos, 13 de novembro de 1988. Caro Pedro,
Foi uma emoção enorme ter feito a adaptação de Feiurinha.
Foram momentos, para a gente, de união, outros de discussão, momentos felizes e até de esquecimentos de coisas que a gente passa com as amigas (não suportá-las).
Mas tudo bem e foi tudo bem, com a graça de Deus.
Ah! No nervosismo todo e naquela agitação toda de que tudo esteja perfeito, esqueci meu livro em casa e nem lembrei de pedir emprestado uma folha para você me dar seu autógrafo. Fiquei tão triste e ao mesmo tempo arrependida de não ter pedido nada, que tive vontade de me matar, mas agora lhe peço seu autógrafo. Olhe bem caprichado, hein!
Mande um beijão para sua filha, ela é uma gracinha, fiquei muito contente de tê-la conhecido. Foi um prazer enorme!
Schumac! pra ela!
Desculpe não ter escrito antes pra você porque não tive tempo de escrever direitinho do jeitinho que eu queria, a primeira carta que escrevi foi um fracasso e só agora que ficou melhorzinha.
Bem, vou terminando, espero que nós nos encontremos novamente, que para mim vai ser uma grande emoção.
Sabe, vou contar um segredinho, estou ficando com saudades daquele dia, o cine – teatro, as meninas nervosas, o cenário, as crianças, o filmador e em especial você. Você é quem nos deu forças naquele dia. Obrigada!
Bem, não esqueça do meu autógrafo e de mandar um schumac para sua filha, viu?
Pedro estou mandando uma folha solta para que nela você me dê seu autógrafo, uma cheio de coisinha, uma menininha, uma frase em baixo etc. Certo?
Shumaca pra você! ou senhor?
Há, Há, Há! Beijos mil de, (Princesa Bela-Fera)
P.S: Pedro, me diga o que você vai fazer com os nosso nomes? Estou curiosa! Ah! sabia que fomos convidadas para fazer novamente a apresentação? Depois eu contarei com mais detalhes pra você! Tá?16
No papel utilizado para a escrita do texto PEB V, a remetente desenhou duas vezes uma boca com “tracinhos” representando o estalar da boca, ou seja, um beijo, ou um “schumac”, como onomatopaicamente descrito pela leitora. Também, observamos que ela fez uma espécie de nuvem em volta da palavra “você”, referindo-se ao autor.
Imagens da carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura”. 18SJC8- Pasta 23
Há no texto várias expressões da oralidade ─ “Ah!”, “hein”, “Tá” , “pra” ─ e ainda a reprodução do som do beijo “schumac” e da risada “Há, Há, Há” ─ com letra maiúscula, possivelmente, representando o tom alto da risada. O uso do parêntese parece confidenciar algo ─“(não suportá-las)” e “(Princesa Bela-Fera)”.
A informalidade prevalece na construção do texto: “Caro Pedro”, no emprego do pronome “você”, no uso do imperativo denotando pedido e ironia ─ “Olhe bem caprichado, hein!”, “Mande um beijão par sua filha”, “Desculpe não ter escrito antes [...]”, “[...] não esqueça do meu autógrafo”─.
A nossa hipótese é que todos estes recursos tenham sido usados para que o destinatário ─ o autor ─ crie a imagem da remetente como alguém que pertença a sua intimidade e assim se estabeleça um vínculo, através da possível troca de cartas.
você vai fazer com os nosso nomes? Estou curiosa! Ah! sabia que fomos convidadas para fazer novamente a apresentação? Depois eu contarei com mais detalhes pra você! Tá?”
Embora a remetente não tenha explicitado o local da realização do teatro, tampouco quem foram os responsáveis pela organização do mesmo, acreditamos que tenha sido promovido pela escola e revele uma prática escolar de incentivo à leitura. É possível imaginar que o livro de Pedro Bandeira tenha sido adaptado para teatro e que ele assistiu à representação, ou seja, esta carta documenta práticas de leitura vigentes em escolas ─ 25 anos atrás ─ com a participação do escritor.
A nossa hipótese se pauta em relatos de alguns leitores, sobre a participação do autor em eventos promovidos por escolas ─ “O livro foi recomendado para leitura extra-classe no meu colégio, onde você já esteve fazendo uma palestra sobre o seu trabalho de escritor, o Colégio do Carmo”17.
CARTA PB X
São José dos Campos, 19 de julho de 1989 Oi , Pedro!
Como vai?
Já que você sugeriu, eu li “Agora estou sozinha”. Adorei.
O suspense final, o romance, tudo me prendeu ao livro desde o começo até o final.
A Telmah me emocionou muito, pelo seu modo de pensar, de agir, de amar Filhinha e Tiago.
O modo como Telmah planejou sua vingança foi incrível!
Bom... só posso dizer agora que lerei todos os livros que me recomendou. Um beijo18
CARTA PB XI
São José dos Campos, 06 de setembro de 1989 Caro Pedro Bandeira,
Suponho que esteja muito ocupado pois, não respondeu a minha última carta (coisa que nunca fez antes). Mas tudo bem, eu escrevo.
Em minha última carta eu disse como tinha adorado “E agora estou sozinha...” Esse livro foi um dos melhores que eu já li. Quando se começa a ler, não consegue parar mais. É super legal!
Eu na verdade estou lhe escrevendo para fazer um convite, uma Feira de Livros da minha escola. Minha professora de Redação, Laís nos pediu para escrever um livro. Nós já escrevemos os livros e, aos poucos, a professora corrige e nos entrega para que possamos bater à máquina e encadernar. Então ela nos pediu para escrevermos pros autores convidando-os para feira. Como você me disse, uma vez, (no cartão de natal) que já tinha vindo ao Olavo Bilac muitas vezes, pensei que pudesse vir de novo. A Feira de Ciências acontecerá na primeira semana de outubro (acho que de quinta à sábado) e se quiser comparecer, peço que entre em contato com a escola:
Bom..., mesmo que não venha, me escreva. Obrigada!
Com carinho 19
Notamos que, no texto PB X, a remetente obedece à estrutura convencional de uma carta, porém apresenta linguagem informal, evidente na saudação “Oi, Pedro”, na despedida “Um beijo!” eno emprego do pronome “você”.
A leitora revela que já havia troca de cartas com o autor, uma vez que inicia o texto sem a menor formalidade e rodeios: “Já que você sugeriu, eu li “Agora estou sozinha”. Adorei.” Acreditamos que o principal objetivo da escrita da carta é o de criar maior proximidade com o autor, para tanto, a leitora utiliza uma linguagem informal e descreve suas principais impressões sobre o livro lido.
No texto PB XI, a leitora revela que está produzindo um livro, porém diferentemente dos outros remetentes que se caracterizam como escritores já com textos prontos, alguns deles com indicações para publicação de amigos e parentes ─ “Muitos que leram meus escritos elogiaram-me e aconselharam-me a publicar”20, “[...] minha ex professora disse que eu teria
capacidade de fazer a minha e disse também quem sabe mais cedo ou mais tarde ela estará lendo um livro publicado por mim”21, “Muitas pessoas me perguntam porque não publico um
livro”22, “É possível uma garota (como eu) publicar um livro?”23 e com dúvidas de como
fazer para se tornarem escritores: “O que é necessário para que uma pessoa descreva sua autobiografia”24, “[...] creio que possa me ajudar encaminhando-me à alguma editora”─.
Esta remetente relata ao autor uma prática escolar, na qual o professor solicita a escrita de um texto ─“Minha professora de Redação, Laís nos pediu para escrever um livro [...] Então ela nos pediu para escrevermos pros autores [...]”─. O que revela traços institucionais, pois a escrita da carta como a leitora revela: “Eu, na verdade estou escrevendo para fazer um convite, uma Feira de Livros da minha escola”, está relacionada a um evento escolar.
A leitora infanto-juvenil fã não apresenta a mesma formalidade dos leitores-escritores ao elaborar seu texto, pois logo no primeiro parágrafo, procura demonstrar intimidade com o
autor ao cobrá-lo: “Suponho que esteja muito ocupado pois, não respondeu a minha última carta (coisa que nunca fez antes). Mas tudo bem, eu escrevo.” Há ressentimento e cobrança nas palavras da leitora, o que fica claro no emprego da expressão entre parênteses “(coisa que nunca fez antes)”, o que sugere intimidade e quebra de formalidade na escrita do texto.
Acreditamos que isto se dá por dois sentidos construídos: o primeiro é porque a leitora não constrói uma máscara de uma autora propriamente dita, pois não escreve o livro porque tem aptidão ou gosta, mas sim, por uma solicitação de sua professora. O segundo é que já se correspondia com Pedro Bandeira, o que gera uma quebra da formalidade, uma vez que se estabelece certo grau de intimidade.
CARTA PB XII
São José do Rio Preto, 19 de março de 1991. Querido amigo Pedro,
E aí, tudo bem? Aqui está tudo ótimo.
Quanto tempo eu não te escrevo, né?
Sabe, estou te escrevendo para lhe falar que ADOREI “A marca de uma lágrima”.
É muito lindo esse livro. Gostei muito dele, de verdade.
Pra você ver, eu o li em 2 dias, porque quanto mais eu lia, não conseguia parar, pois queria saber o que ia acontecer.
Chorei bastante também. Sou muito sentimental. Sabe, aprendi bastante com esse livro.
Pedro, eu morro de vontade de escrever um livro, até tenho uma idéia, mas na hora de passar pro papel fica muito difícil, e eu já o tentei.
Eu gosto muito de ler os seus livros. Todos eles me dão uma mensagem muito boa e bonita. De todos eles, os que eu mais gostei foram:
-A marca de uma lágrima, -Agora estou sozinha, -Pântano de Sangue, e -A droga da Obediência.
Sabe, sou muito romântica, e acho que é por isso que eu gostei muito de “A marca de uma lágrima”.
Bom, é isso que eu queria te falar. Um beijo e um abraço.
Estou na 8ª série e tenho 13 anos.
OBS: A 1ª vez que te escrevi estava na 2ª série.25
A remetente utiliza a estratégia da “presentificação”, pois utiliza muitos elementos da oralidade em sua produção ─“E aí, tudo bem?”, “Quanto tempo eu não te escrevo, né?”, “Pra você ver”, “Sabe”, “pro papel”, “Bom” ─. Com a utilização de todos esses elementos e a devida pontuação, o efeito de sentido pretendido parece ser que o autor a veja ou sinta como alguém bem próximo.
A informalidade é mantida do início ao fim da carta ─“Querido amigo Pedro”, “Um beijo e um abraço”─. A observação destacada no final do texto revela que a remetente é uma leitora-fã de longos anos ─“A 1ª vez que te escrevi estava na 2ª série”─, acreditamos que este seja o motivo pelo qual a remetente se apresente com tanta intimidade.
A leitora-fã confessa ao autor: “Pedro, eu morro de vontade de escrever um livro, até tenho uma idéia, mas na hora de passar pro papel fica muito difícil, e eu já o tentei”, ao revelar seu desejo, parece-nos que, implicitamente, pede ajuda ao autor e nos aponta à mestiçagem da categoria, ou seja, além de fã também possui característica de escritora.
No final do texto, a remetente avisa ─ “Estou na 8ª série e tenho 13 anos”─, o que nos remete a seu nível de escolaridade, ou seja, à instituição escolar. A leitora poderia ter escrito sou filha do fulano e de ciclano, ou meu time preferido é o Corinthians ou São Paulo, por que não escreveu? Possivelmente, porque acredite que esta é a informação que interesse ao autor, ou para informá-lo que o acesso aos livros aconteça via escola.
Se nossa hipótese estiver correta, detectamos mais uma prática escolar de leitura e consequentemente de escrita, uma vez que o contato com os livros promoveram o desejo de enviar uma carta ao autor.
CARTA PB XIII
Niterói, 26 de maio de 1991 Pedro,
Se você não se lembra mais de mim, eu lhe escrevi uma carta sobre o livro “O mistério da Fábrica de Livros”. Há, adorei a carta que você me mandou. Os poucos livros que li, adorei, eles são: “Anjos da Morte, O Fantástico Mistério de Feiurinha e A Droga da Obediência.”
Pedro, já faz mais ou menos 2 semanas que li esses 3 livros. Lí apenas esses 3 livros, porque apenas esses 3 livros tinhão na biblioteca de meu colégio, e a bibliotecária me disse que iria comprar os outros da listinha que você me mandou.
Pedro, sempre quis ter um ídulo, e esse ídulo não é XUXA, Tom Cruiz... Esse ídulo é você.
Pedro, fiquei apaixonada por esses poucos livros que li e pela capacidade de sua inteligência e criatividade.
E você como meu ídulo, não tenho foto, poster, autografo nem nada. Mas também não preciso, porque você já está no meu coração. E você estando no meu coração, já me traz um emoção tão grande que você nem pode imaginar. Mande um beijo pra todo o pessoal da gráfica editora conburg.
E uma BEIJOCA. Principalmente para VOCÊ. Me escreva26_
Imagens da carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura”. 5SRo1- Pasta 23
Destacamos a assinatura da remetente que aparece em letras douradas nas duas páginas da carta, o que transgride a estrutura do gênero textual, pois a assinatura, geralmente, é colocada, apenas, ao final da carta. Acreditamos que esta assinatura singulariza a carta e ao destacá-la, em letras douradas, salienta a importância de a remetente ser lembrada ou não ser esquecida.
A leitora infanto-juvenil comete vários erros ortográficos e gramaticais ─ “tinhão”, “ídulo”, “poster”, “Cruiz”─ que não são cometidos propositalmente, pois são repetidos e não há indícios nenhum de que a remetente esteja “brincando” com essas palavras, visto que em outros momentos a remetente, evidencia que algumas palavras devem ser lidas de uma maneira especial, através do emprego de letras maiúsculas: “XUXA”, “BEIJOCA” e “VOCÊ”, ou seja, se os deslizes fizessem parte do jogo de palavras com certeza estariam destacados.