Rev ista da So ciedade Brasileira de M edicina Tro pical 2 9 (6 ):5 7 5 - 5 7 8 , no v - dez , 1 9 9 6 .
PESQUISA D E O O CISTO S D E CRYPTO SPO RIDIUM SP EM
FEZES: COM PARAÇÃO EN TRE OS M ÉTO D OS D E KIN YO UN
M O D IFICA D O E D E HEIN E
V i c e n t e A m a t o N e t o , L ú c ia M a r ia A lm e i d a B r a z , A n d r é i a O t a v i a n i D i P i e t r o
e J o s é R a fa e l M ó d o lo
P ara diagno s t icar a infecção intestinal pelo C ryptosporidium sp, ho je bastante em fo co p ela não inco m um part icipação no co ntexto da s índro m e da im uno deficiência adquirida (A ID S), v árias técnicas têm sido indicadas. C o m o intuito de es clarecer v antagens e desv antagens, env o lv endo quantificação , mo rfo lo gia, durab ilidade do esfregaço e tempo de prep aração , co m param o s os resultado s obtidos m ediant e em prego de do is desses pro cesso s, o u seja, de K iny o un m o dificado e de H eine, aplicado s em amo stras feca is d e pacient es co m A IDS. A sensibilidade f o i bastante sem elhante e a esco lha dev e d ep ender da v alo riz ação das v irtudes de cada um a das técnicas, q ue são: quant o â d e K iny o un m o dificada, a durab ilidade dos esfregaço s e, a pro pó sito da de H eine, a rapidez co m q ue se dã o preparo , aliada â s uperio iidade q uando o p arâm et ro é a quant idade d e oocistos enco ntrado s, mais freq üent em ent e v erificada.
P alav ras- chav es: C ryptosporidium sp. D iagnó stico . E x a m e de fez es . M éto do s de K iny o un m o dificado e de H eine. C o m paração .
D e d i s t r i b u i ç ã o c o s m o p o l i t a , o
C r y p t o s p o r i d i u m s p , co ccíd eo im plicad o em
d o en ça in testin al, é d etectad o co nfo rm e fre q ü ê n c ia d e ap ro x im ad am en te 10% em p acientes co m a síndrome da im uno d eficiência adquirida (AIDS) nos Estados Unidos da A mérica e de 30 a 50% no s países em desenvo lvim ento 8. Guizelini, no Brasil, p o r exem p lo , enco ntro u taxa de 21,2% em d o entes co m tal afecção e diarréia, atendidos no Hospital das Clínicas, da Faculd ad e de M ed icina da Universidade de São Paulo\
Esse agente zo o nó tico é respo nsável por aco m etim ento gastrintestinal auto limitado em indivíduos im uno co m p etentes e p o r vezes severo em im uno d eficientes2.
En tre as té c n ic a s d e c o lo ra ç ã o m ais utilizadas para a ev id enciação d esse parasita co ntam o s co m as de Giemsa, da auramina, de Z iehl-N eelsen e suas m o d ificaçõ es, do dimetil- su lfó xid o , d e Kiny o un e suas alteraçõ es, da safran in a e d e H ein e67. Tam b ém têm sid o u tiliz ad o s an tic o rp o s m o n o c lo n ais p ara a pesquisa d os o o cisto s nas fezes13 5.
Lab o rató rio d e In v estig ação M éd ica-Parasitologia, do H osp ital das C lín icas, da Facu ld ad e d e M ed icina d a U niversidade d e São Paulo, São Paulo, SE
E nd e re ço p a ra co rres po ndência: Prof. V icente A m ato N eto. Av. D r. Enéas d e C arvalho A guiar 5 0 0 ,0 5 4 0 3 - 0 0 0 São Paulo, SP. Fax: (0 1 1 ) 8 5 2 - 3 6 2 2
Receb id o p ara p u b licação em 0 5 / 1 1 / 9 5 .
Mais co m um ente em pregam o s o m éto d o m o d ificad o d e Kiny o u n, q u e tem b ase na pro priedade de ácid o -resistência do co ccíd eo . M ais re c e n te m e n te p assam o s a re c o rre r tam bém à co lo ração negativa de H eine47. Para tentar contribuir quanto ao d iagnó stico dessa p arasito se p o r m eio d o e x am e d e fe z e s, em preend em o s o estud o agora relatad o a fim d e . avaliar vantagens e desvantagens d esses d o is m o d o s d e p ro c e d e r, e n v o lv e n d o quantificação , m o rfo lo gia, d urabilid ad e de lâmina e tem p o de preparação.
MATERIAL E M ÉTODOS
Examinamos 53 amostras de fezes, de pacientes co m A IDS, assistido s na Divisão de Clínica de Moléstias Infeccio sas e Parasitárias, do Hospital das Clínicas, da Faculd ad e de Medicina da Universidade de São Paulo, send o os exam es ped id o s para o bter o u confirmar diagnósticos e co ntro lar tratamentos. D e cada uma, analisamos 3pl de fezes em cad a lâmina e para cad a técnica, co nfo rm e pro ced im ento s a seguir especificad o s.
M éto d o de Kinyo un m o d ificad o : ap ó s fixação co m m etanol, co ram o s o esfregaço de 3pl p o r m eio da fucsina carbó lica, durante 15 minutos; lavamos em água corrente, desco ramos co m ácido-sulfúrico a 10%> por aproximadamente três minutos e, no vam ente, lavamos em água
A m ato Neto V, B raz IM A , D i Pietro A O , M ó do lo JR . P esquisa d e oocistos d e C ryptosp oridium sp em fez es : co m paração ent re os méto do s d e K iny o un m o dificado e de H eine. Rev ista da So ciedade Brasileira de M edicina Tro pical 2 9 :5 7 5 - 5 7 8 , no v - dez , 1 9 9 6 .
c o rre n te ; c o b rim o s a lâm in a co m az u l d e m etileno a 1%, no d ecurso de cinco minuto s; p o r fim, lavamos e secam o s.
M éto d o d e H ein e: ad ic io n am o s 3p l d e fucsina carbó lica de Z iehl a 3pl d o esfregaço e ju n tam o s u m a g o ta d e ó le o d e im e rsão e lamínula, ap ó s secagem .
Ulteriormente às co lo raçõ es, de aco rd o com o que d escrevemo s, realizamos as pesquisas efetuando quantificação em micro scópio óptico, p o r interm éd io de o bjetivas para aumento s de lOOOx (im ersão ) e 400x a p ro p ó sito dos p ro cesso s de Kinyoun mo d ificad o e de Heine, respectivamente.
RESULTADOS
Em 41 das 53 amostras de fezes estava p re sen te o p arasita. A té c n ic a d e Kiny o u n permitiu o enco ntro de o o cisto s em 39 e a de H eine em 38, havend o duas negativid ad es ao ser aplicada a primeira e três quando empregada a outra. Sem p re que um p ro cesso falhou o
C r y p t o s p o r i d i u m s p fico u d emonstrad o p elo
co nsid erad o na co m paração .
A resp eito da quantid ad e de o o cisto s co nstatam o s: superio rid ad e do m éto d o de Kinyo un - 14; superio rid ad e no m éto d o de H eine - 26; núm ero s iguais - 1 (Tabela 1).
T a b e l a 1 - Q u a n t i d a d e s d e o o c i s t o s d e Crypto sp oridium sp e n c o n t r a d o s n o s e x a m e s e f e t u a d o s p o r m e i o d o s m é t o d o s d e
Amostra Kinyoun modificado Heine
1 11 48
2 26 107
3 9 0
4 57 0
5 1 81
6 41 145
7 642 345
8 43 158
' 9 8 252
10 58 90
11 14 6 2
12 345 645
13 13 124
14 69 29
15 3 178
16 0 15
17 9 27
18 118 251
19 1 3
20 12 41
21 0 2
22 2 71
23 158 551
24 5 0
25 98 197
26 20 21
27 11 27
28 2 13
29 13 81
30 33 18
31 262 69
32 3 65
33 10 6
34 2 Í 59
35 17 8
36 23 44
37 160 20
38 198 152
39 73 38
40 149 38
41 373 182
O m éto d o de Kinyoun mostra protozoário esférico e vermelho , po ssibilitand o diferenciá- lo de leveduras, mas resto s fecais po d em causar co nfusão co m o o cisto s se o exam inad o r não fo r suficientem ente habilitad o (Figuras 1 e 2); aind a mais, é viável a existência de o o cisto s
Figura 1 - Oocistos do Cryptosporidium sp corados pelo método de Kiny oun modificado (1000X ).
Figura 2 - Restos fecais corados pelo método de Kiny oun modificado ( 1000X ).
A m a to N e to V, B ra z IM A , D i P ie tro A O , M ô d o lo JR. Pe s qu is a d e oocis tos d e C r y p to s p o r id iu m s p e m fe ze s : co m p a ra çã o e n tre os m é tod os d e K in y o u n m o d ifica d o e d e H e in e . R ev ista d a S ocie d a d e B ra s ile ira de M e d icin a T ro p ica l 2 9 :5 7 5- 57 8 , n ov - d e z , 1996.
“fa n ta s m a s ”, n ã o co ra d o s e a es s e in c o n ve n ie n te s o m a m o s o te m p o ga s to, d e a p r o x im a d a m e n te 25 m in u tos , n a c o lo r a ç ã o (F ig u r a 3 ). P o r s eu tu rn o, à técn ic a d e H e in e s u c e d e o q u e s e a d m ite in ter p reta r c o m o c o lo r a ç ã o n ega tiva , v e n d o - s e o o c is to s a cr om á tico s e c o m b r ilh o ca r a cterís tico , s ete m in u tos a p ó s o in íc io d a e x e c u ç ã o (F ig u r a 4 ); co n tu d o , d e p o is d e 30 m in u tos a vis u a liza ç ã o d a m o r fo lo g ia torn a - s e p reju d ica d a .
DISCUSSÃO
O g r a n d e e cres cen te n ú m er o d e in d ivíd u os in fe c ta d o s p e l o v ír u s d a im u n o d e fic iê n c ia
h u m a n a (H IV ) , q u e m o tiva o d e s e n c a d e a m e n to d a A ID S , fa z c o m q u e a c r ip to s p o r id ía s e s eja a tu a lm en te p a ra s itos e m e r e c e d o r a d e co g ita çã o e m m ú l t i p l a s o p o r t u n i d a d e s , p o i s o
C ry p to s p o rid iu m s p m u ita s v e ze s c o m p õ e a s ín d r o m e e m a p r e ç o . E m g e r a l o d ia g n ó s tic o d es s a p r o to z o o s e d e p e n d e d o e x a m e da s f e z e s , e x e c u t a d o p o r i n t e r m é d i o d e p r o c e d im e n to s e m g e r a l s im p les . O u s o d e a n tic o r p o s m o n o c lo n a is s e m d ú vid a c o n c e d e m a io res s e n s ib ilid a d e e e s p e c ific id a d e , n ã o p o d e n d o p o r é m ter a p lic a ç ã o a m p la , c o m o d e c o r r ê n c ia d o e le v a d o cu s to, q u a s e s e m p r e p r o ib itiv o e m p a ís es d o ter ce ir o m u n d o.
N o s ú ltim os a n os o in ter es s e p e la p es q u is a d o p a ra s ita n a s fe ze s a u m en to u b a s ta n te e as q u a lid a d e s d e d ifer en te s técn ica s p a s s a ra m a s er o b je to s d e e s p e c u la ç õ e s e, n e s s e â m b ito , p r o c u r a m o s c o n t r ib u ir , c o m p a r a n d o o s res u lta d os o b tid o s q u a n d o e m p r e g a d o s os m é to d o s d e K in yo u n m o d ific a d o e d e H e in e . N o ta m o s q u e a q u e le r e v e lo u u m a p o s itivid a d e a m a is , d e m o ld e a e v id e n c ia r s u p e r io r id a d e, n ã o m a rca n te; to d a via , e m m a io r p o r ç ã o d e o c a s i õ e s m o s t r o u n ú m e r o s m e n o r e s d e o o c is to s e p a ra ta n to é p o s s ív e l q u e in flu a m o p r o c e d im e n t o d e d e s c o l o r a ç ã o , a l é m d a p o s te r io r la va g e m e m á gu a , fa v o r e c e n d o a s oltu ra d e p a r te d o e s fr e g a ç o . N o q u e ta n g e a o ou tro p r o c e s s o , as vir tu d es d e s ta c á veis s ã o a r a p i d e z c o m q u e s e d á o p r e p a r o e a s u p e r io r id a d e q u a n d o o p a r â m etr o é a cifr a d e o o c is to s e n c o n tr a d o s , m a is fr e q ü e n te m e n te ver ifica d a .
A d u r a b ilid a d e d o e s fr e g a ç o é a tr ib u to d o p r o c e s s o d e K in yo u n m o d ific a d o , ca p a z d e fa vo r e c e r a n a tu reza d e ta refa s e s p e c ífic a s e p o s s i b i l i t a r e x a m e d e d iv e r s a s lâ m in a s , a u m en ta n d o a s s im a s en s ib ilid a d e .
E x p os ta s es s a s a ve r ig u a ç õ e s , c r e m o s q u e s e
torn a co r r e to a firm a r q u e a es c o lh a terá vín c u lo c o m a v a lo r iza ç ã o d a s m e lh o r e s q u a lid a d e s d e ca d a u m d o s m é to d o s , n a d e p e n d ê n c ia da s circu n s tâ n cia s e m q u e ta refa s d ia g n o s tic a s d e ve r ã o ocorrer.
SUMMARY
The d iagnos is o f in te s tin a l in fe ctio n by
C ryp tosporidiu m sp is cru cia l today ; w ith the progres s ion o f the A ID S epidemic, m any cases o f cry ptosporidiosis hav e appeared in this setting an d in other im m u n od e ficie n cy diseases. We com pare d the ad v antages a n d dis adv antages o f H e in e ’s
A m ato Neto V, B ra z IM A , D i P ietro A O , M ô do lo JR . Pesquisa d e oocistos de C ryptosp oridium sp em fez es : co m paração ent re os méto do s de K iny o un m o dificado e d e H eine. Rev ista da So ciedade Brasileira de M edicina Tro pical 2 9 :5 7 5 - 5 7 8 , no v - dez , 1 9 9 6 .
m et ho d a n d m o dified K iny o un's m etho d in the fo llo w ing param et ers : mo rpho lo gy o f the parasite, quant it at io n o f cy sts, stability o f the s t aining characteristics timew ise o n the slides a n d tim e s pend at staining. A ll po sitiv e fe c a l sm ears w ere o btained fro m patients w ith A IDS. The sensitiv ity o f these two techniques w as the sam e. The cho ice s ho uld be m ade by the best aspects o f each metho d. H eine’s w as better f o r quantitatio n o f the cy sts a n d w as faster. K iny o un's w as better f o r co nserv ing the stained smear.
K ey - w o rds: C ryptosp oridium sp. D iagno sis o f c ry p t o s p o ri d i a s i s . S t o o l t es t s f o r p r o t o z o a . C o m pariso n o f H e in e ’s a n d K iny o un’s methods.
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