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Prática dos profissionais no programa de saúde da família: representações e subjetividades.

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Academic year: 2017

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PESQUISA

PRÁTICA DOS PROFISSIONAIS NO PROGRAMA DE SAÚDE DA FAMíLIA:

REPRESENTAÇÕES E SUBJETIVIDADES1

PRACTICE OF PROF ESSIONAL lN HEALTH PROGRAM OF FAMIL Y: REPRESENTATIONS AND SUBJ ECTIVITIES

LA PRÁCTICA DE PROF ESIONALES EN EL PROGRAMA DE SALUD DE LA FAMILlA:

RE PRESENTACION ES Y SUBJ ETIVIDADES

Maria Rocineide Ferreira da Silva2 Maria Salete Bessa JorgeJ

RESUMO: O Programa Saúde da F a m í l i a ( P S F ) é uma n ova forma de pensar-fazer saúde, uma n ova proposta que traz como questão básica o processo de human ização no atendi mento aos usuários(as) do serviço de saúde. Os profissionais que o compõem são i mportantes para essa mudança . O artigo mostra, a patir de pressupostos da teoria das representações sociais, as opin iões elaboradas pelos profissionais do P S F, as quais dize m respeito à sua prática, visualizando tanto como eles se vêem como os outros os vêe m , além da forma como a sociedade a representa no fazer. Essa prática é dimensionada entre os pólos positivo e negativo pelos que atuam no cotidiano do fazer.

PALAVRAS-C HAV E : prática , programa saúde da fam ília, representações sociais

ABSTACT: The Family H ealth Prog ra m ("Programa Saúde da Família", PSF) is a new way of th inki ng-making health , a new proposal that brings as basic question the process of human ization in the care of user(s) of health sevice. The professionals that ta ke pat in this process are i m porta nt for this change. Based on the principies of the theory of social representations, this aticle shows the opinions elaborated by PSF professionals, which are related to their practice , identifying the way they see themselves as well as how others see the m , including the way society represents itself in this practicing. This practice is classified betwee n positive a n d negative poles by the actors responsi ble to ca rry it out every d ay.

KEYWO RDS: practice, health progra m of fam ily, social representations

RES U M E N : EI Prog ra ma Salud d e la Familia(PSF) es una nueva forma de pensar-hacer sal u d , una nueva propuesta que trae como pu nto básico el proceso de h u m a n ización en la atención a los usuarios dei servicio de salud. Los profesionales que lo componen son impota ntes para ese cambio, por eso el estudio muestra -a partir de presupuestos de la teoría de las representaciones sociales- las opi niones de los profesionales dei P S F, respecto a s u práctica y a cómo ellos mismos se ven , cómo los otros los ven , y además, de qué forma la sociedad la representa(la práctica) en su quehacer. Dicha práctica está d i mensionada entre los polos negativo y positivo por aquellos que actúa n e n la coti d i a n idad dei quehacer.

PALAB RAS C LAV E : práctica , prog ra m a salud de la fa milia, representaciones sociales

1 Recorte da Dissertação de Mestrado.

Recebido em 1 4/0 1 /2002 Aprovado em 20/1 2/2002

2 Enfermeira. Mestre em Saúde Pública- Políticas e Serviços de Saúde pelo Curso de Mestrado Acadêmico em Saúde Pública da Universidade Estadual do Ceará . Coordenadora da U nidade Básica de Saúde da Família Meton de Alencar.

3 Enfermeira. Professora Dr" Titular. Departamento de Enfermagem/Mestrado Acadêmico em Saúde Público . U niversidade

Estadual do Ceará.

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Prática dos profissionais .. .

INTRODUÇÃO

Desde a Conferência I nternacional sobre Cuidados Primários de Saúde real izada na cidade de Alma-Ata, U n ião Soviética, em 1 978, iniciou-se um processo d e repensar as práticas de saúde a que estavam submetidos os povos dos países subdesenvolvidos.

.

O modelo de saúde vigente não consegUia atender de forma eficiente a demanda da população. Um modelo respaldado no paradigma flexneriano, caracterizado por uma prática mecanici sta , biologista , ind ividualista , especialista que exclu ía as práticas alternativas, enfatizava a medici na curativa com um olhar frag mentado sobre o indivíduo e trazia consigo, como questão central, a doença, adotando a prática hospitalocêntrica, já dava provas de que realmente não seria o mais adequado ( M E N D E S , 1 996).

Enfatizava-se a atenção p rimária à saúde através do incentivo e uti l ização dos Cu idados Primários de Saúde, definidos, então, como:

C u i d a d o s P r i m á r i o s d e S a ú d e s ã o c u i d a d o s essenci a i s . . . b a s e a d o s e m métodos e tec n o l o g i a s p ráti c a s , c i e n t i fi c a m e nte b e m fu n d a m e n t a d a s e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance u niversal de indivíduos e famílias da comunidade, mediante sua plena participação e a u m custo que a comunidade e o país pode manter em cada fase de seu desenvolvimento, n o e s p í ri to d a a utoconfi a n ç a e a u tod ete rm i n ação (UNICEF/OMS, 1 979, p.3).

Estes, sim, i r i a m garanti r a p romoção da saúde e a prevenção das doenças em parceria com a com u n idade. A atenção pri mária deveria real mente ser i n corporada às pol íticas de saúde locais, não sendo i nterpretadas apenas como algo que viesse suprir necessidades elementares, mas algo que reorganizasse o sistema.

A interpretação mais globalizante, a de atenção primária como estratég i a , decod ifi c a - a c o m o u m a m a n e i ra determi nada d e apropriar, reco m b i n a r, reorgan izar e reordenar todos os recursos do sistema de saúde para sati sfazer a s necess i d a d e s e a s p i rações, n a á rea sanitária, de toda sociedade devidamente hierarquizada em função dos requisitos da SPT 2000 (MEN DES, 1 996, p.27 1 ).

No Brasil, somente a patir da década de 7 0 , começa a ocorrer uma estruturação do sistema de saúde, época essa caracterizada pelo boom dos hospitais (BO RBA, 1 998). O modelo que a respaldava tinha como alvo à doença e foi sobre essa lógica instalado, sendo ratificado pelo surgimento do I N PSII NAM PS. A década de 80 foi marcada pelas crises econômica e da p revi dência soci a l b ras i l e i ra , g e ra n d o entraves para man utenção do modelo (VIANA, 1 999).

A fo rm u l ação d o S i ste m a U n ifi cad o d e S a ú d e (SUDS), em 1 987, com proposta elaborada pelo movi mento d a refo r m a s a n i tá ri a , c o n t r i b u i u p a ra o a v a n ço d a descentralização dos recursos da esfera federal, avançando p a ra d e s co n c e n t ra ç ã o e s ta d u a l i z a d a da s a ú d e e mun icipal ização dos serviços ( M E N D E S , 1 996).

Os recursos da U n ião para a saúde ficaram sob a administração estadual , a democratização passou a ser considerada e, em 1 988, foi dado um g rande passo no setor com a criação do Sistema Ú n ico de Saúde ( S U S ) , cuja descrição no artigo 1 96 da Constituição Federal ( 1 988)

sinaliza uma mudança n a estrutu ra e a necessidade de u m novo paradigma para atenção à saúde.

O Programa Saúde da Família (PSF) foi implan

ado, i nicialmente, em cidades com baixa densidade populaCional e escassez de recursos (serviços e profi ssionais de saúde). Apresentavam , no que se pode dizer, caracterização de países do 3' m u n d o (taxas de m o rta l i d a d e i nfa nti l e materna elevadas, predominância de doenças transmissíveis, baixa esperança de vida ao nascer) . A parti r da implant�ção do P S F, com a proposta de inversão do modelo eXistente, começou-se a observar uma m e l h ora sign ificativa dos indicadores de saúde (CAPI STRANO F I LHO, 1 999).

P E N SANDO A N OVA P RO P OSTA PARA ATE N ÇÃO PRIMÁRIA

O P S F v e i o c o m o p ro p o sta est raté g i ca p a ra viabil ização do SUS e reorientação do modelo de assistência à p o p u l ação b r a s i l e i ra , te n d o c o m o c o m p ro m i s s o o atendimento universal , integral, equânime e contínuo, visando ser resolutivo à população na Unidade de Saúde e no próprio domicílio, atuando de forma coerente com as especificidades de cada local em que existe uma equipe instalada (MS, 1 998). Como nova estratégia, o PSF nasce alicerçado em pri ncípios que, se real mente respeitados , serão capazes de provocar a transformação necessária para a reorganização das ações e seviços de saúde. São eles: impacto orientação p o r p ro b l e m a s , i n t e rs e t o r i a l i d a d e , p l a n ej a m e n t o e p rog ra mação l o ca l , h i e ra rq u izaçã o , p ri m e i ro contato , l o n g i t u d i n a l i d a d e , i n t e g ra l i d a d e , a d st r i ç ã o , c o ­ responsabilidade, humanização, heterogeneidade e realidade.

A equipe de saúde da família prevista pelo Ministério da Saúde deve ser composta por um (a) médico(a ), um(a) enfermeiro(a ) , um(a) auxiliar d e e nfermagem e agentes com un itários, isso é a p reconização para sua identificação e estes devem ter um território delimitado e a ele estar adscrito de 600 a 1 000 fam í l ias, com l imite máximo de 4.500 pessoas.

O Programa Saúde da Família prevê uma mudança n a lóg i ca d a ate nção à s a ú d e , m u d a nça na prática e gerenciamento do setor saúde e, agora, vem discutir a forma de atuação de d iversos profissionais, não dando ênfase a a t i v i d a d e s i s o l a d a s , p o i s e s s a s n ã o têm a m e s m a repercussão que quando compartil hadas, surgindo com o PSF a proposta formalizada de identificação com o trabalho de equipe (CEARlP M F, 1 997).

Trabalhar e m equipe tem u m sign ificado essencial para lidar com as dife rentes tarefas colocadas para quem participa do P S F. Os p rofissionais têm vivenciado essa prática e a partir dela obtido resultados positivos. Sobre a questão, afi rma Campos ( 1 997, p . 1 58):

O trabalho de equipe não pressupõe qualquer idéia de apagamento das diferenças de papéis ou de fu nções entre os trabalhadores .. . não compartilha sequer da i l usão d e l i q u idar com o poder médico, pretende tão somente red uzi-lo e a p roximá-lo daquele de outros segmentos sociais, por intermédio de sua integração a um contexto de participação democrática, inclusive para os médicos .

D i a nte dessas p roposições, cumpre evidenciar algumas q u estões , as quais d everão ser respondidas no

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decorrer da i nvestigação: Esses p rofissionais esta riam rea lmente h a b i l itados a dese m pe n h a r todos os papéis necessários ao fu ncionamento pleno do PSF? Dia nte do processo pelo qual passa o(a) méd ico(a ) e enfermeiro(a ) , têm estes profissionais e m s e u currícu l o a fu ndamentação para a prática desse exercício? Existe a l g u m confl ito entre o corpo médico e de enfermagem no exercício da prática no PSF? Como os profissionais do P S F pensam e agem no exercício da prática i nterdisci p l i nar?

PROFISSIONAL D E SAÚ D E DA FAM í LIA: QUEM É D E FATO?

o PSF vem sendo u m espaço de elaboração e con strução de novas práticas de saúde. Para Vasconcelos ( 1 999), esse é u m dos grandes d esafios d o PSF, mostrar que não é a simplificação, e sim, uma ampliação do universo d a atenção primária, através da i nteg ração d e p ráticas preventivas , e d u cativas e c u rativas m a i s próximas d o cotidiano d a população adscrita. Hoje, encontram-se atuando 1 0 .400 eq u i pes de Saúde d a Família, vincu ladas a mais de 30 mil hões de pessoas (SOUZA, 2000 ) .

Sem sombra de dúvidas, é u m novo mercado de trabalho com salários que, apesar d e d iferenciados para médicos(as) e enfermeiros(as), estão acima da média atual , e esse tem sido u m dos g randes i ncentivadores e atrativos para jovens profissionais, os quais, por uma diversidade de opções , migram para o meio ru ral, ou retornam de lá para os centros em que o PSF será implantado. Todavia, isso não é pressuposto básico para referir que esses atendimentos serão o mais eficiente possíve l .

O PSF remunera o médico diferenciada mente, para atrair melhores profissionais, porém, o sistema formador não está orientado para a formação de médicos generalistas, o que dificulta a contratação desse tipo de profissional e a expansão do programa (VIANA; DAL POZ, 1 998, p.25). No Ceará , já são 906 equipes i m plantadas, sendo um dos Estados pioneiros n a formação dessas equi pes. Outro ponto relevante n a d iscussão é identificar se esses profissionais são capazes, ou n ã o , de l i d a r com o que encontrarão de fato.

A ausência de formação adequada e a própria carência de politização desses profissionais os tornam mais vulneráveis, havendo, portanto, a necessidade de contar com agentes capacitados para lidar com essa estratégi a . O PSF já começa a se impor, e sobre essa q uestão diz Vasconcelos

( 1 999, p. 1 57):

As co n s e q ü ê n c i a s d e s s a t e n d ê n c i a j á p o d e m ser observadas no ensino. Maior procura pelas residências de clínica geral comunitária, criação de residências em saúde da fa m í l i a . maior interesse de a l u nos de pós­ graduação em desenvolver suas dissertações ou teses sobre o tema.

O m u n i c í p i o d e F o rta l e z a , s o m e nte e m 1 99 8 , começou a incorporar o Programa Saúde da Fam ília n a sua rede de atendi mento, i nicial mente com a contratação d e 32 e q u i p e s , m e d i d a e s s a re a l m e nte n e c e s s á ri a p a ra o enquadramento ou categorização do m u n icípio na Gestão Plena de Atenção Básica . H oj e , exi stem 1 09 equi pes e o crité rio de i m p l a ntação p e rm a n ece o m e s m o d efi n i d o anteriormente , áreas da periferia d e Fortaleza, d istribu ídas

S I LVA, M . R. . da; JORGE, M . S . B.

em 6 reg ionais. Esse n ú mero de equipes a i nda se mostra insuficiente para fazer a cobertura do município, não tendo o mesmo impacto e m n ível de indicadores que o PSF tem apresentado nos demais m u n icípios.

A maioria dos profissionais que aqui estão, passaram por um processo seletivo , vieram de outros municípios traze ndo consigo a experiência de estruturação de outras equi pes em d iferentes l u gares, assi m , contribuindo para a impla ntação da estratégia na capita l .

Diante de tantas passagens, de idas e vi ndas, surge outro q uestionamento : que formulações fazem do PSF esse profissional que atua n o Programa Saúde da Fa mília?

Nesse contexto, define-se como objetivo operacional deste estudo: apreender as representações sociais que o p rofi s s i o n a l d e S a ú d e d a F a m í l i a faz de sua p rática , compreendendo suas imagens, atitudes, opiniões e conflitos existente ao atuar na comu n idade.

OpçÃO T EÓRICA - TEO RIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

O Programa Saúde da Família é uma nova forma de pensar-fazer saúde, u m a n ova proposta que traz como questão básica o processo de humanização no atendimento aos usuários(as) do serviço de saúde. Os profissionais que o compõel s ã o i m p o rt a n tes p a ra essa m u d a nça de paradigma.

A g rande i m portância de entender quem é esse profissional , somente poderá ser reconhecida a partir de um trabalho que tenha u m caráter predominantemente qualitativo e, para tanto, uti lizar-se-á como referencial a teoria das Representações Soci ais, proposta por Serge Moscovici , a q u a l teve como m a rc o , n o i n ício da d écada de 6 0 , o lançamento de sua obra i ntitulada Psychanalyse: son image et san public, na França.

Na c o n c e p ç ã o de M o s c o v i c i ( 1 9 7 8 , p. 5 8 ) :

" R e p re s e n t a r u m a c o i s a , u m e s ta d o , n ã o co n s i st e simplesmente e m desdobrá-lo, repeti-lo ou reproduzi-lo, é reconstituí-l o , retocá-lo, modificar-lhe o texto" , ou ainda, conforme defi ne Guareschi e Jovchelovitch ( 1 998, p . 89 ) : "é u m termo fi losófi co q u e sign ifica a reprod ução d e u m a p e rc e p ç ã o reti d a n a l e m b r a n ç a o u d o c o n te ú d o d o pensamento" . L a n e citando Spink ( 1 995, p. 6 8 ) afi rma q u e

É n e s s e contexto d e pes q u i s a e d e teoria que a representação social se apresenta como u m conceito extremamente importante para os nossos estudos, pois ela constitui o dado empírico do qual se parte para uma análise dialética , que permite conhecer concretamente a consciência, a atividade e a identidade de sujeitos situados social e h istoricamente.

Um outro dado i m portante é perceber que sujeito e objeto têm u m a relação ativa no processo de elaboração das representações , há uma nova realidade evidenciada em termos de pesq u i s a , corroborando com o que Abric ( 1 998, p . 27) já explicito u : "toda representação é , portanto, uma forma d e visão global e u n itária de u m objeto, mas também d e um sujeito" .

A teoria das Representações Sociais, através dos processos de objetivação e ancoragem, conseguirá desvelar uma série d e q uestionamentos apontados anteriormente . Além dos processos , a Teoria das Representações Sociais

(4)

Prática dos profissiona i s .. .

b u sca apree nder a s i ma g e n s , estereóti pos, atitu des e confl itos a partir do senso com u m .

Conforme S p i n k e Medrado ( 1 999, p . 52): "I magens, valores, idéias, categorias que são facilmente reconhecidas e respondidas por muitas pessoas de um g ru po podem ser características defi n i doras de uma Representação Soci a l . "

METODOLOGIA

CAM PO DE I NVESTIGAÇÃO

Procedeu-se à investigação e m Fortaleza , capital do Estado do Ceará , cuja origem ocorreu e m 1 654 , conta com 336 Km2 de extensão e u m a população de 2. 700. 000 residentes (CEARÁlP M F, 1 999). A população economi­ camente ativa do município ati nge o percentual de 46,27.

O município de Fortaleza passa por uma série de mudanças nos vários setores que o compõem, i nclusive com a reforma administrativa que o dividiu em 6 regionais e criou as Secretarias Executivas Reg ionais ( S E R ) , e m que se priorizam as ações e serviços a serem realizados nos limites de sua localização, de acordo com o Plano M u n icipal de Fortaleza (CEARÁlP M F, 1 997).

ATORES E ATRIZES DA PESQ U I SA

A pesquisa foi realizada com os profissionais do PSF de Fortaleza sendo 5 e nfermeiros(as) e 6 méd icos(as) que tra b a l h a m nas S E R , os(as) q u a i s j á tra b a l h a ra m e m municípios do i nterior do Estado e que aqui estão desde a sua implantação, em fevere i ro d e 1 99 8 . Esse corte é i nteressante e tornou-se necessário para q u e se possa identificar as formulações realizadas a partir de suas vivências em l o c a i s d i st i ntos , c o n struções ou d e s con struções ocorridas em sua prática.

COLETA DE DADOS

As técnicas util izadas para coleta de dados foram a entrevista e o grupo foca l . Foi apl icada a entrevista com 1 1 p rofi s s i o n a i s e teve a fi n a l i d a d e d e a p re e n d e r a s representações sociais, a parti r da q uestão: quando eu falo em Programa de Saúde da Família o que vem a sua cabeça? A seguir, foi rea l izado, o g rupo focal com a fi nal idade de aprofundar e apreender detalhes para compreensão do modo de pensar, sentir e agir d esses profissionais. Apesar de ser um método bastante antigo, sua utilização por pesquisadores que atuam na á rea de s a ú d e , ou em outras á reas de conhecimentos d iferentes, é recente.

Segundo Robet Merton, autor do método, a escolha pelo grupo focal deve-se à oportunidade de colher informações que vários proissionais têm elaborado ao longo de sua prática, suas atitudes, emoções, sua visão sobre o que fazem e como fazem . Acrescenta , a i n d a , q u e "o g rupo focal é u m método de pesq uisa qual itativa que p o d e s e r uti l i zado no entendimento de como se formam as diferentes percepções e atitudes acerca de um fato , prática , prod uto ou serviços" (COTR I M , 1 996, p.86).

Foram real i zadas três sessões d e g rupos focai s , com a partici pação no primeiro e tercei ro g rupos de q uatro profissionais, sendo dois médicos(as) e dois enfermeiros(as);

enquanto o segundo grupo formou-se com três profissionais, dois médicos(as) e uma enfermeira . O primeiro grupo revelou suas opiniões, as quais con stitu íram os primeiros núcleos de sentidos, sendo que a parti r da leitura desse grupo inicial , aprofundaram-se os n úcleos com as i nformações adquiridas nas duas últimas sessões do grupo focal . Os encontros duravam em média duas horas e tinham um roteiro temático básico de orientação. Além de partici parem do grupo foca l , foram entrevistados.

ANÁLISE E TRATAMENTO DOS DADOS

Uma análise das i nformações coletadas foi util izada a técni ca de anál ise de conteúdo, bastante adequada em pesquisas sobre representações sociais deinidas por Bardin ( 1 977) em que tem como passos de análise: leitura flutuante, i nventário, recorte das falas, cod ificação, categorização. Atra v é s d e s s a s fa s e s de a n á l i s e a p re e n d e m o s a s representações sociais, a partir d a s falas descritas.

A D E S C O B E RTA D A S U B J E T I V I D A D E E AS REPRESENTAÇÕES

A PRÁTICA DOS PROFISSIONAIS NO PROGRAMA SAÚDE DA FAM í UA

As re p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s e l a boradas p e l o s p rofi s s i o n a i s d o P S F d i ze m re s p e i to à s u a prát i c a , expressando como eles se vêem e como os outros os vêem , além da forma como a sociedade a representa no fazer. Essa prática é d i mensionada com pontos positivos e negativos pelos que atua m n o cotid i a n o do fazer.

Dentre as primeiras impressões sugeridas, a prática no PSF pode ser entendida como idêntica à da saúde pública, considerando que n a sua vivência os profissionais precisam estar preparados para trabalhar com grande d iversidade de programas: assistência à m u l her, à criança, ao idoso, às pessoas portadoras de patologias crôn icas, entre outras, o que justifica a necessidade de seus agentes d isporem de vasto con heci mento.

O pofissional tem que estar preparado para dar uma resposta para a comunidade. ( D )

No entend i mento d o s profissionais, a prática deve ir além das ações prog ramáticas de saúde públ ica que, na real idade, são verticalizadas. Vasconcelos ( 1 999) chama a atenção para esse posicionamento dos profissionais no s e n t i d o d e e sta b e l e c e r a i m p o rtâ n c i a d o s d ife rentes contextos e m que vivem as fam í l ias e , nessa perspectiva , distinguir as diversas metodologias exigidas para intevenção, passando-se a não reproduzir os programas de saúde pública planejados e padron izados pela burocracia do setor saúde.

Para eu trabalhar no Saúde da Família foi muito gratificante .. . eu achava que esta va desaprendendo onde eu estava, eu trabalhava em creche, e em creche é só com criança e para mim foi muito poveitoso . . . (C)

A grande maioria que sai da faculdade ainda sai querendo ter seu consultório, ter curso de especialização, e poucos são os que optam pela questão da saúde pública . .. ( I ) Merece atenção o fato do próprio profissional ,

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se desvalorizado por desenvolver atividades no campo d a saúde pública julgando n ã o ter o reconhecimento q u e precisa tanto pelos colegas de profissão como pela sociedade, representada pelos gestores d e serviços de saúde. Existe um descrédito no sistema p ú b l ico brasi leiro e as d i versas máscaras s u rg i d a s n ã o contri b u e m p a ra m u d a nça d e visualização desse processo.

A gente pensa que saúde púbica ainda é feita muito com aquela coisa da prática individual de cada pofissional, tudo muito empírico, tudo muito baseado na questão da prática mesmo e a gente vê depois que faz o curso . . . que tudo foi feito dento dos fundamentos científicos e que existem estudos sérios dentro dessa área . ( I )

Percebe-se q u e a d i versidade d e olhares sobre a prática aponta que há experiências significativas associadas às mudanças, ancora n d o-se no conheci mento técn i co adquirido, na n ecessidade evidenciada de se trabalhar n a perspectiva d a interdisciplinaridade, retomando a modiicação de visão de mundo que profissionais passam a ter com essa vivência em d iferentes locais.

... então essa mudança é fa voreceu para que eu pudesse compreender de que forma, é o pocesso saúde doença pode acontecer .. . ( O )

Outra representação que surge em relação à prática no PSF, refere-se ao trabalho no meio u rbano, sign ificando uma experiência diferente, i n icial mente atribu ída às diversas equi pes que fica m centra l izadas n u m a mesma u n idade. O próprio Ministério da Saúde previa que essa seria a situação ideal para a atuação no meio u rbano, onde os aglomerados de equipe, a princípio, são encarados como ponto de sol ução e não formulação de situação problema (SOUZA, 2000). Para os profissiona i s , esses e n contros acabam gerando u m aprendizado pelo compartilhamento de saberes, contribuindo para a mel horia do atendi mento, uma vez que a população adstrita àquela unidade irá cobrar u n iformidade na atenção. Melhorar a redação deste parág rafo.

Aqui a gente vive uma experiência diferente que é trabalhar com várias equipes numa mesma unidade. ( G )

Essa q uestão q u e (G) colocou, até no i n ício a gente se batia um com o outro para se adaptar .. . tudo isso a gente foi se adaptando e hoje não acontece mais isso, vai havendo uma adaptação, além do trabalho e m equipe, né, entre as equipes.(F)

Os profissionais d o P rograma Saúde d a Família revelam ainda em seus discursos as atitudes negativas que vêm sendo constru ídas ao longo d e sua prática, e torna-se i n teressa nte p o n tu a r q u e a l g u m a s d a s objetivações real izadas por aspectos d iferentes, osci l a m entre a esfera do negativo e o positivo, conforme comentado anteriormente. Dentre as primeiras q uestões levantadas, destaca­ se a fi losofia do serviço que, para vários profissionais, pode ser entendida como negativa por não estar sendo respeitada, vi sto n ão s e r refe rê n c i a p a ra o tra b a l h o d e m u itos profissionais que atua m no P S F sem o compromisso devido e o vêem como um tra b a l h o tem porári o . M e l h orar este parágrafo.

. . . você tá ai atendendo todos os dias, mas a losofia daquele poissional não é de saúde da família é de realmente passar um tempo, então eu acho que isso aí prejudica

S I LVA, M . R. . da; JORGE, M . S. B .

muito .. . ( C )

Observa-se, ta mbém, que a falta de formação dos gestores para o pleno d esenvolvimento do PSF e a própria ausência de compromisso dos mesmos com os profissionais, já re l a t a d o s , a c a b a m g e ra n d o um e l ev a d o grau de i nsatisfação, como n a q uestão do excessivo atendi mento exposto por m u itos , q u e confi rma o fato .

. . . não existia interesse de se estruturar o programa, o que existia era o interesse de apenas fazer consultas, em númeo de consultas, então a opotunidade de trabalhar no

município de Can .. . mostou a realidade sofrida . .. ( O )

Vasconcelos ( 1 999, p . 1 75) reafi rma essa anál ise realizada quando refere que "o futuro de um programa, assim tão recente, será defi n i d o n o jogo pol ítico entre os atores envolvidos na sua operacionalização". Apreende-se, então, que essa parcela de com p romisso é fundamental para o alca nce dos resu ltados propostos no sistema loca l .

A experiência vivenciada p o r outros profissionais revela a exploração realizada, principal mente do profissional enfermeiro com a j u stificativa dada por eles próprios do excesso d e m ão-de-ob ra d a categoria n o mercado de trabalho, gera n d o uma d i mensão negativa para os que acreditam no trabalho de equipe. Esse dado não é d iferente do encontrado em uma pesquisa real izada em Campina G rande- P B , onde a i nsatisfação desta categoria em sua atuação no Programa Saúde da Família foi evidenciada pela relação de atividades e atribuições que carregam e realizam coti d i an a mente, além d a defasagem salari a l , visto que sua carga horária é maior e recebem menor salário que o médico (COSTA; LI MA; O L IVE I RA, 2000). Mel horar a redação

. . . acontece até de o secretário de saúde elogiar dizendo que o pofissional enfermeio é tão bom que não precisa mais de ninguém, . . . percebi por trás desse discurso que o que existia era o interesse de explorar o pofissional enfermeio, prá que o enfermeio pudesse cobrir todas as ações e deixar de contratar o pofissional médico . . . ( O )

N a q u estão pol íti ca reve la-se outra d ificu ldade , estando representada como "calo" na vida dos profissionais, porquanto determina i n úmeras vezes a saída de alguns deles, o desenvolvimento d o trabalho e , e m muitos casos , até a forma de atuação d o p rofissional em uma determinada localidade, o q u a l , n a g rande maioria das vezes, encontra­ se fragilizado pela situação e, conseqüentemente, vulnerável.

É

o calo do PS, é a questão políica né, eu acho que enquanto se relacionar PSF com prefeito, com patido político a gente vai ficar sempre nessa situação difícil de nômades . . . ( G )

A i n ca pacitação d o s gestores já é assunto q u e vem sendo comentado e como esta tem reflexos , aqui no caso bem negativo , pois m u itos profissionais os con sidera m i nsensíveis, u m a vez q u e não investem na capa citação de seus profissionais q u e se sentem desvalorizados por essa postura , e esse profissional , que acaba sendo estigmatizado por seus colegas por ter contrariado a lógica da formação e ido trabalhar n o campo d a Saúde Pública, passa também a vivenciar a questão da baixa a uto-estima .

. . . a gente veio prá Fortaleza, assim tem uma diferença também grande, da clientela, da população, de

como era administrativamente mesmo fomulado tanto o PSF

(6)

Prática dos profissionais .. .

de Fotaleza como era o PSF de Ic .. . interio, né até mesmo a estruturação de como chegar ao secretário . . . (A)

O u tra re p r e s e n t a ç ã o de d i m e n s ã o n e g a t i v a , percebida de forma enfática nos discursos dos profissionais do PSF, deve-se à inexistência de seus d i reitos trabalhistas, havendo unanimidade nas q ueixas, visto que se sentem desvalorizados e , até certo ponto , fru strados, pois se dedicam a essa prática n a qualidade de bons profissionais, correndo riscos e expondo-se a u m a série d e situações, mas, segundo os mesmos, não têm o reconhecimento l egal necessário. Para o M i n i stério da Saúde, essa é uma das questões que precisará ser resolvid a pelo gestor local e proissionais que, diante desse quadro de i nstabilidade política exi ste nte no p a í s , d e m o n stra m s u a s i n satisfa ções e vulnerabi lidades (SOUA, 2000).

Outra coisa que eu vejo que não cresceu foi a questão dos direitos dos poissionais do Saúde da Famíia, a gente luta pelos direitos de todo mundo e não tem os nossos direitos reconhecidos . . . ( B )

Essa instabilidade pol ítica acaba contribuindo para a falta de motivação e de i ncentivo aos profissionais de Saúde da Fam ília, pelo que se observa a entrad a de profissionais desqualificados, fortalecendo preconceitos formulados acerca da categoria.

. . . tem que ser revista a qualidade do pofissional que tá ingressando nas atividades do Pograma de Saúde da Família. (A)

Ve rifi ca-s e , p o r fi m , u m a a l ta rotat i v i d a d e d e profission a i s , tanto p e l a n ecessidade d e estarem m a i s próximos de s u a fa m í l i a como p o r i m posição da pol ítica vigente, i nfligindo m udança de gestor.

. . . essa otatividade grande que acontece em muitos municípios e que eu passei, eu vejo assim de um certo lado até negativo porque quando a gente vai começar a dar um diagnóstico da comunidade, conhecer a comunidade, por motivos políticos e até económicos, a gente é muitas vezes, é convocado ou colocado por algumas circunstâncias a sair dos municípios, né. ( B ) .

CONSIDERAÇÕES FI NAIS

Neste estudo, tornou-se possível apreender algumas d a s re p r e s e n t a ç õ e s q u e p e rm e a ra m a p r á t i c a d o s profissionais q u e atua m no Programa Saúde da Fa mília n o mu nicípio d e Fortaleza.

Identificaram o PSF como uma estratégia para viabilização do SUS e que o referido processo venha sendo desenhado a partir d a conjugação dos diversos saberes articulados pela eq uipe. O P S F não se constitui apenas o resultado da junção de uma série de programas de Saúde P ú b l i c a . O s p rofi s s i o n a i s e n te n d e m a p ro p osta da i nteg ralidade na sua atenção tomando a fam í l i a como foco mas, em alguns momentos , sentem-se frustrados por nã

conseg u i re m i m p l e m entar ações p l a n ej a d a s . H á u m a necessidade d e q u e todos o s setores existentes no município entendam e compartilhem a p roposta d e reorgan ização do sistema de saúde.

. R.evelara m que o seu modo d e pensar e agir têm Sido modifi cados pelo tempo de atuação e que há uma

desvalorização dos p rofissionais que não vislumbram em saúde da fam í l i a uma especialização, devido à questão da inexistência dos direitos trabalhistas, e aos próprios gestores q u e , em a l g u mas situações , acabam sobrecarregando profissionais, no caso, enfermeiros, para justificar a ausência de méd icos.

A rotatividade a pesar de ancorar-se num processo de frustração em momentos anteriores , aqui se apresenta com um o utro s i g n i fi ca d o , como uma experiência q u e contribui para o aperfeiçoamento técnico, trazendo segurança para o profissional q u e vivencia u m cotidiano repleto de situações i n usitadas.

O P S R a p a re c e no c e n á ri o n a c i o n a l c o m o resolubilidade d e tosos dos problemas do Sistema d e Saúde, na perspectiva de torna-lo capaz de atender às demandas da popu lação e da necessidade de u m novo pensar e fazer a saúde.

Constatamos que o PSF ainda não tem efetivamente contri bu ído para reorgan ização da atenção primári a . N a realidade tem refletivo e possibilitado um repensar do modelo de atenção básica ou atenção primária que i rá optar e implementar, uma vez q u e u m P S F desarticulado da rede básica torna-se i nviável.

Ressalta-se que a s a m p l i ações d o P S F com inclusão de toda p o p u l ação n a s áreas de impl antação a m p l i a ri a m o d i reito à s a ú d e e a b ra n geria um m a i o r conti ngente daqueles que estão fora do sistema, pela d ifíci l acessibil idade geográfica, econômica e social.

E m suma, cumpre referir, à luz dos resultados, que os profissionais do Prog ram a Saúde da Fam ília que atuam, hoje, no município de Fotaleza , especificamente enfermeiro (a) e médico (a), têm modificado sua visão de mundo a partir de sua prática , n a tentativa de melhorar a qual idade da atenção e o acesso à saúde dos (as) usuários(as) que se têm v i n c u l a d o ao p ro g ra m a , p e l o s ( a s ) q u a i s se respon sabiliza m . Enfi m , reve la m-se , em meio a mu itas frustrações, como verdadeiros desbravadores com potencial e capacidade para permanecerem n a busca, não só por reconhecimento da sua identidade pelos diversos segmentos sociais, mas por entenderem ser a partir da implementação dessa estratégia que a popu lação poderá contar com melhor qualidade de vida.

Finalmente, o g overno m u nicipal e federal devm buscar uma ação pol ítica pautada na lógica do i nteresse coletivo , tendo como ponto de partida o comprometi mento dos trabalhadores d e saúde em pensar e agir na saúde na perspectiva de um sistema público d e saúde em defesa da vida e não pautado somente no modelo de vigilância sanitária.

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