Os estudos de antropologia da saúde/doença
no Brasil na década de 1990
H ealth and illness’ antrophological studies
in the 90’s in Brazil
1 Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp. Rua Copaíba 167,
Alphaville, 13098-347, Campinas SP.
[email protected] Ana Maria Canesqui1
Abstract This article reviews and com m ents the anthropological and qualitative studies about the sociocultural dim ensions of health and illness. It focus the different intellectuals positions, the concepts and m ethodologies and includes the them e sexuality, disease and gen-ders relations. The article discuss som e factors and its contributions to the academ ic produc-tion expansion, and is concerned only to the publications which its examination showed the m ain them es for selection.
Key wo rds Anthropology of health/disease; Qualitative research in health; Concepts, m ethodologies and them es.
Resum o Este texto revê e com enta os estudos antropológicos e qualitativos sobre as dim en-sões socioculturais da saúde/doença, engloban-do os seus subtem as, conceitos e m etoengloban-dologias adotadas a partir de diferentes vocações intelec-tuais. Inclui ainda a sexualidade, doença e re-lações de gênero.Traça alguns fatores que con-tribuíram para a expansão daquela produção acadêmica e circunscreve-se somente à publica-da, cujo exam e perm itiu a seleção dos tem as abordados, devido aos seus predom ínios.
Introdução
Este texto revê o que fizeram no Brasil, na últi-m a década do século 20, os an tropólogos e profissionais de saúde que incorporaram os re-ferenciais teórico-m etodológicos da antropo-logia nas suas pesquisas e reflexões, enquadra-das n u m a especialização em con stitu ição de-signada de antropologia da Saúde/Doença, que vem alcançando visibilidade e maior legitimida-de acadêmica.
Na década de 1980 essa produção acadêmi-ca foi objeto de análise, quanto a um conjunto de temas, perspectivas conceituais e metodoló-gicas adotadas pelos pesquisadores; origen s e influências recebidas (Canesqui, 1994). Outras recen tes revisões e reflexões sobre as ciên cias sociais no campo da saúde ou específicas de alguns tem as foram feitas (Canesqui, 1998; Nu -nes, 2000; Alves, 1998), sendo agora pertinente n ova an álise dos estu dos, n a década de 1990, devido a sua forte expansão e amadurecimento. A preocupação com o que somos, nossos te-m as e origen s, qu an tos sote-m os, para on de va-mos foi uma das marcas das ciências sociais no campo da saúde durante a década de 1990, cu-jos registros estão na bibliografia e nos eventos, patrocinados pela Associação de Pós-Gradua-ção em Saúde Coletiva, que revelam a estreita interlocução daquelas ciências (sociologia, an -tropologia e ciência política) com o cam po da saú de coletiva/saú de pú blica. Essa bu sca de identidade deu-se ainda na trajetória da antro-pologia, m arcada pela “volta sobre si m esm a” (Rubim, 1999).
Ap esar d a in sisten te bu sca d a in ter d isci-plin aridade, en tre as próprias ciên cias sociais e destas com a Saúde Coletiva, a antropologia médica ou antropologia da saúde buscam iden-tidades segundo as preferências e vocações de algu n s propon en tes, sejam dos m ais preocu -pados em estabelecer fronteiras e lim ites m ais nítidos e precisos para estes empreendimentos disciplinares, ou que reorganizam uma rede de estudiosos n o assun to, sejam dos que preser-vam os espaços disciplin ares m ais pragm áti-cos, m ediante forte interlocução interdiscipli-n ar com a epidem iologia, o plainterdiscipli-n ejam einterdiscipli-n to de serviços de saú de e psiqu iatria (Uchoa et al., 1994; Minayo, 1998; Alves, 1998; Sevalho et al., 1998).
A estratégia mais “antropológica” e “holis-ta” associou-se à contínua convocação, na dé-cada de 1990, de grupos de trabalho sobre pes-soa, corpo e doença, pela Associação
Brasilei-ra de Antropologia (ABA) e Associação BBrasilei-rasi- Brasi-leira de Pós-Gradu ação em Ciên cias Sociais (ANPOCS). Ela quer estudar a construção das pessoas, do corpo ou das em oções, associados aos fen ôm en os da “doen ça” ou pertu rbações (Duarte, 1998), sem ser com partilhada igual-mente por todos os pesquisadores, tal como se evidenciará na bibliografia disponível.
A busca de iden tidade de um a an tropolo-gia especializada n a saú de e doen ça gera ten -sões en tre as distin tas vocações in telectu ais e disputas entre os agentes, segundo as suas pre-ferências intelectuais, fazendo ou não seus aliados, sendo que algumas posturas, sob diferen -tes argum en tos, são m ais cautelosas quan to à partilha ou especialização dos objetos discipli-nares (Duarte, 1994; Carrara, 1994), enquanto outros preferem a sin gularidade e iden tidade da nova especialidade.
O fato é que esse embate intelectual não dis-pensa alianças e não foi casual a observação de Russo (1998) sobre o meio parentesco de afini-dade en tre a saú de coletiva e a “an tropologia da saúde”. É salutar a convivência de vários ti-pos de pesquisa – a básica, estratégica e opera-cional –, sugeridos por Minayo (1998), à medi-da que os dois primeiros podem atender às de-mandas setoriais da saúde, sem ser desprezada a enorm e relevância da pesquisa básica na an -tropologia social. Con firm a-se a im portân cia da interdisciplinaridade na saúde coletiva/saú-de pública, bem ao contrário das posturas crí-ticas e m ais reflexivas, qu e predom in aram as contribuições das ciências sociais, nos estudos na década de 1970.
Um conjunto crescente de agentes respon sabilizou se pelo volu m e sign ificativo de pu -blicações no assunto pesquisado (livros, cole-tân eas e artigos de revistas de saú de pú bli-ca/saúde coletiva e de antropologia social), que m otivaram este tipo de revisão, a qual padece de parcialidade. Um a parte dos agen tes está nos ambientes “híbridos” em interlocução com as ciências biomédicas, saúde pública, psiquia-tria, gineco-obstetrícia e pediatria.
Federal da Bahia), ao lado de outros m ultidis-ciplinares mais antigos e não só circunscritos às pesquisas no assunto. Agentes ainda estão nas fundações e organizações não governamentais.
Outros fatores concorreram positivamente para a expansão da produção bibliográfica a ser analisada, tais com o: 1) a m aior flexibilidade, n a saú de coletiva e n as ciên cias sociais, para abrirse a novos objetos que suscitam mudan -ças ou permanências nas visões de mundo e va-lores de nossa sociedade (a exemplo do gênero e sexualidade, a extensão dos direitos de cida-dania); a em ergência da Aids; os processos de desinstitucionalização da loucura, junto com a atuação de alguns movimentos sociais; 2) a re-corren te ên fase n os processos n ão biológicos das enfermidades; 3) os novos critérios de ava-liação dos cursos de pós-graduação que estim u-laram o m ercado editorial com novas revistas, am pliação de edições de livros e artigos no as-sunto, dando vazão à crescente produção aca-dêm ica; 4) o apoio às pesquisas pelas agências nacionais e o estímulo ao financiamento de es-tudos an tropológicos por algum as fun dações in tern acion ais n a prom oção de tem as com o: gên ero, sexualidade; saúde e reprodução, en -volvendo a academia e organizações não gover-nam entais, sendo que os estudos sobre a Aids estim u laram -se por fin an ciam en tos in tern a-cion ais e vigên cia do Program a Naa-cion al de DST/Aids do Ministério da Saúde que incluiu muitas pesquisas. Outros temas se estimularam acadêm ica e politicam en te, devido ao lon go processo de reorganização dos processos de de-sin stitucionalização da loucura, com o a saúde mental, cujas pesquisas, de interesse a este trbalho, m obilizaram redes m u lticên tricas n a-cionais e internaa-cionais.
No plan o do con hecim en to, a m aior des-confiança das dicotomias conceituais (material/ im aterial; objetivo/subjetivo; coletivo/in divi-dual; estrutura/ação) abriu flancos, nas teorias e m etodologias das ciên cias sociais em geral e nas instadas no campo da saúde, para postu-ras que buscam compreender os fenômenos na m ultiplicidade de seus dom ínios, ultrapassan -do aquelas oposições. Se por um la-do a abor-dagem do su jeito ou da ação passaram a ser privilegiados, seja na construção da realidade, sem pre em busca dos sentidos na intersubjeti-vidade, seja para desprovê-lo de sua automáti-ca su bm issão às estru tu ras, por ou tro bu sautomáti-ca- sca-ram -se m ediações entre as estruturas e a ação, mediante abordagens que procuram um cons-trutivismo menos radical.
Essas críticas favoreceram os m icroestu -dos, sem pre caros às abordagens antropológi-cas. Trata-se da abordagem fen om en ológica, da retom ada de correntes etnom etodológicas, do interacionism o sim bólico, das orientações “qualitativas”, que perm eiam os estudos a ser comentados adiante. Certamente este não é um fato localizado entre nós e as “novas sociolo-gias” (n ão tão n ovas m u itas das corren tes), junto com a maior interlocução entre filosofia, sociologia, an tropologia, história, psicologia, delin earam -se com o ten dên cia em algu n s m eios acadêm icos na França (Concurff, 1995) e no Brasil.
A pluralidade e heterogeneidade nas diver-sas orien tações teóricas e m etodológicas são visíveis e reportadas pelos organizadores e co-m en taristas das várias coletân eas produ zidas n o assun to. Não se trata de um a ún ica an tro-pologia, mas de várias orientações teóricas, que ora bebem nas fontes de autores franceses, ora nos norte-am ericanos, ora nos autores nacio-nais, sinalizando, por um lado, as múltiplas pos-sibilidades de apreen são dos objetos etn ográ-ficos e, por outro, refletem bem as peculiari-dades da an tropologia feita en tre n ós. Apesar de ela preocupar-se com a sociedade nacional, não deixa de ser universal, como antropologia, na interlocução com seus ancestrais e diferen -tes vocações internacionais, sofrendo contudo tran sform ações n a “periferia” (Oliveira, 1994a).
A seguir destacamos seletivamente os temas pesquisados.
D iferentes perspectivas
nas abordagens da saúde/doença
Representações: conceitos e metodologia
O emprego da noção de representação fez-se, às vezes, de maneira frouxa e apenas referida a certas “im agens” da realidade. Em outro ex-trem o confundiu-se na pesquisa, com a trans-parência dos discursos dos agentes sociais, cu-jas condições de inserção social as determ ina-va. Numa outra vertente, a busca de signos, dos seus m últiplos sentidos e das profundas estru-turas fechou a análise dos discursos, sem esclarecer as condições e o contexto de sua produ -ção. As reações contrárias resvalaram-se para a “devolução das falas aos oprim idos” (Magnani, 1986). O conceito de representação foi ain -da utilizado em substituição ao de simbolismo, detentor de grande tradição de análise no cam po da an tropologia. Derivouse ain da das in -terlocuções entre disciplinas como a psicologia social, an tropologia e sociologia, n a busca do sentido e como forma de conhecimento.
O em prego dessa noção, entre nós, parece m ovido por in teresses bem sim ilares aos pos-tos por H erzlich (1991): a crise profun da dos esquemas globais de explicações, fundados nas determ inações socioeconôm icas; o retorno do sujeito, de sua experiência, “sentido” ou “vivi-do”; a intensificação dos processos de partici-pação social e a in terrogação do pesqu isador sobre a su a posição em relação ao objeto de pesquisa. O conceito de representações sociais torn ou se u m a m etan oção e, em certos cam -pos, foi objeto de em preen dim en tos in ter ou transdisciplinares.
A assim ilação desse con ceito foi um pou -co tardia entre nós, uma vez que desde a déca-da de 1960 Mocovici (n a psicologia social) e depois Herzlich (na sociologia), ambos ligados à escola fran cesa, resgataram da teoria du r-kheim ean a as represen tações coletivas, tidas como categoria de pensamento social coerciti-va às consciências individuais. Moscovici mol-dou-o, sob a den om in ação de represen tações sociais, articulando o coletivo ao individual, en-quanto H erzlich se declara seguidora de Dur-kheim e dos antropólogos ingleses que estuda-ram o simbolismo (Mary Douglas), tendo pro-porcion ado m aior calibragem en tre o in diví-duo e a sociedade, ambos impregnando as no-ções de saúde e doença nos distintos grupos so-ciais franceses, por ela estudados, na década de 1960.
Na antropologia, Marcel Mauss deixou uma
lição importante. Enfatizou o quanto a ativida-de do pensamento coletivo é mais simbólica do que a do pensam ento individual e as condutas individuais não são simbólicas em si mesmas e ganham sentido em relação a um a dada socie-dade. Adm ite que as represen tações coletivas podem adotar form as con cretas ou abstratas. No estu do sobre a m agia, u m a das prim eiras expressões das represen tações coletivas, cha-m ava a aten ção para a sua cocha-m posição: os agentes, atos e representações. O m ago é o in -divíduo que con duz a m agia, m esm o que n ão seja um profissional. As representações m ági-cas são as idéias e cren ças qu e correspon dem aos atos m ágicos e os ritos m ágicos são atos qu e defin em os dem ais elem en tos da m agia e distintos das demais práticas sociais, e as técni-cas disponíveis podem ou não ser acompanha-das da magia (Mauss, 1971).
Com o au t or ap r en d em os qu e as r ep r e-sen tações mágicas não se restringem ao pensa-m ento ou às idéias exclusivapensa-m ente. Elas se ex-pressam nos atos mágicos e se geram nos vários cam pos da vida social, in clu in do os sistem as filosóficos esotéricos. Para desven dar as prim eiras categorias lógicas utilizadas pelo pen -sam en to hu m an o, tan to Mau ss qu an to Du r-kheim voltaram -se para a análise da organiza-ção social das sociedades prim itivas. Em m o-mentos de sua obra Mauss desvencilhou-se do positivismo durkeimiano e trouxe aportes im -portantes para a moderna antropologia.
Da observação dos vários estudos interna-cionais sobre as representações de saúde e do-en ça, Adam & H erzlich (2000) apon tam qu e, na interpretação dos fenôm enos orgânicos, as pessoas se apóiam em conceitos, símbolos e es-truturas interiorizadas, conforme os grupos so-ciais a que pertencem. Certas doenças firmam-se no imaginário coletivo, enquanto outras, os in divídu os, em fu n ção de su as experiên cias e contexto, podem elaborar ou reelaborar inter-pretações, apoiando-se em recursos coletivos.
e lutas; e pela fenomenologia e correntes com -preen sivas, por descu rar-se do su jeito ou da ação social (Minayo, 1992).
No marxismo as representações remetem à ideologia e a autora toma as vertentes que não a concebem como mero reflexo das estruturas. Junta a dimensão cultural e o historicismo, que oferece espaço à criatividade do sujeito, sem descurarse dos elem entos estruturais, engen -dradores da sociedade capitalista. Destaca a im -portância dos estudos e representações sociais para a an álise do social e a ação pedagógico-política transform adora. Elas retratam a reali-dade, sem reduzir-se às concepções dos atores sociais.
Toma as representações sociais como senso com um , idéias, im agen s, con cepções e visões de m u n do. A represen tação social de in diví-duos e grupos, nas palavras da autora, está pen-sada em relação às bases m ateriais que a engen-dram: de um lado temos o homem que é produto de seu produto: as estruturas da sociedade criam o seu ponto de partida; de outro, tem os que este hom em constrói a história dentro das condições recebidas ultrapassando-as e inscreve sua signifi-cação sobre toda a parte, em todo o tempo e a or-dem das coisas(Minayo, 1992).
Qu eiroz (2000) tam bém refletiu critica-m ente sobre o conceito, a partir de diferentes perspectivas sociológicas e antropológicas, no estudo das doenças endêmicas. Juntando Mos-covici com Schu ltz tom a-o com o u m tipo de saber socialmente organizado, contido no sen-so com um e n a dim en são cotidian a, que per-mite ao indivíduo uma visão de mundo e o ori-enta nos projetos de ação e nas estratégias que desenvolve em seu m eio. Afirm a que as repre-sentações sociais são, portanto, conceitos cultu-ralmente carregados, que adquirem sentido e sig-nificado pleno no contexto sociocultural e situa-cional onde manifestam(Queiroz, 2000).
Min ayo & San chez (1993) propu seram a com p lem en t ar id ad e d os m ét od os qu alit at i-vos e quantitativos na pesquisa. Os prim eiros se in teressam pelo “n ível m ais profun do” em constante interação com o ecológico. Este nível com porta sign ificados, m otivos, aspirações, cren ças e valores, expressos n a lin gu agem da vida cotidiana e, bem se aplicam aos estudos de pessoas afetadas por doenças e a grupos deter-minados, historicamente situados. Se um dado objeto de pesquisa reclamar, sugerem a combi-nação dos métodos, que impõem, no plano do con hecim en to, a relação en tre objetividade e subjetividade. Os estudos quantitativos podem
gerar questões a serem aprofundadas qualitati-vam en te e vice-versa. A discussão de técn icas qualitativas para as pesquisas em saúde foi feita por Min ayo e por ou tros qu e se in teressaram no seu emprego nos estudos sobre representa-ções sociais de saúde e doença (Rigotto, 1998). Ar gu m en t os favor áveis à com p lem en t a-r idade dos m étodos fun dam -se n a n ecessáa-ria discussão de vários pontos de vista na pesquisa (Ram os, 1993). Acautelam -se os que adm item a im possibilidade de aplicá-la gen eralizada-m ente, deixando intocadas as questões epistê-micas da objetividade/subjetividade, nas tenta-tivas interdisciplinares da epidem iologia com as ciências sociais (Reichenhein, 1993; Santos, 1993).
Para poten cializar o registro, obten ção e análise de dados etnográficos são adequados os usos de tecnologias eletrônicas e softwares. Na sistem atização dos dados obtidos, os descrito-res conceituais e discursivos dos softwares per-mitem observar as recorrências de categorias e con ceitos n os depoim en tos dos in form an tes (Fachel et al., 1995; Victora et al., 2000). O em -prego da análise fatorial por correspondência, u m a técn ica estatística, perm itiu às au toras identificarem várias correlações tais como: en -tre “visão de mundo” e decisões sobre recursos de saúde e estratégias reprodutivas; as relações entre gênero e recursos de cura; as causas atri-buídas à doença, entre outras. Não se trata de substituir o trabalho etnográfico e nem de des-cartar o esforço da análise antropológica, m as de buscar novas formas de sistematizá-las.
Cardoso & Gomes (2000) advertem sobre o risco da in corporação acrítica, pelos estu dos sociais em saúde, do conceito de representações sociais. Afirmam que o seu emprego não pode ignorar o já estabelecido por vários autores ligados à psicologia social e à sociologia no cam -po da saú de. Ao reverem o con ceito n as teo-rias, discutem os lim ites da perspectiva con s-trutivista e a necessária articulação da pesquisa com a abordagem histórica, dado o en raiza-m ento siraiza-m ultâneo das representações nas rea-lidades social e histórica, conforme posto per-tinentemente por Herzlich (1991).
-zidas e socializadas na longa duração, que per-mite a maior compreensão dos modelos atuais. Demonstrou Laplantine (1986), sob ângulo da abordagem estruturalista, a existência de di-ferentes lógicas que presidem os modelos etio-lógicos e terapêuticos na sociedade contempo-rânea, irredutíveis a uma única lógica. O resga-te da historicidade dos sentidos ou significados das doenças, no longo alcance, é bastante plau-sível de ser tentada, retirando dos estudos o seu caráter meramente sincrônico e o atrelamento exclusivo às perspectivas dos adoecidos, desde que são múltiplas as fontes produtoras de repre-sentações sobre saúde e doença na sociedade.
São lem bradas, n esse sen tido, as aborda-gens da história das doenças, aproxim ando-se ou não de correntes antropológicas. Não se tra-ta de retom ar a produção dos estudos históri-cos, que foge dos propósitos deste texto. Os es-tu dos de Carrara (1994; 1996) exem plificam com o a sífilis (m al coletivo e am eaça) m obili-zou vários discursos e práticas, cujo desenrolar foi acom panhado desde os finais do século 19 até os meados da década de 1940. Em torno de-la os médicos especialistas sifilógrafos, diz o au-tor, souberam com m aestria fazer com que, pela sífilis, passassem não apenas o destino dos doen-tes, m as o de um a série de entidades que trans-cendiam o indivíduo: a família.... mas também a sociedade, a raça, a nação, a hum anidade, a es-pécie(Carrara, 1996).
Ele mostra a articulação dos discursos m é-dicos com outras forças e cam pos sociais, que en gen d r am r esolu ções p ar a o p r oblem a ve-n éreo e todos eles geram represeve-ntações sobre a doença. A sugestão do autor de se fazer um a antropologia da ciência, pela via do desenvol-vimento conceitual da sífilis ou de sua constru-ção social, requer o recurso a inúm eras fontes disponíveis, tais com o: m anuais clínicos, rela-tórios de pesquisa laboratoriais, livros didáti-cos, den tre outros que podem oferecer fon tes mais teóricas para o estudo dos aspectos noso-lógicos da doença e sua terapêutica.
Na abordagem h istórica das represen ta-ções sociais da doença, Sevalho (1993) percor-re um conjunto de autopercor-res como Foucault, Ta-mayo, Le Goff, Capra, Rosen, Canguilhen e ou-tros, m ostran do as con tin uidades e descon ti-nuidades, das distintas concepções de doença, desde a Antiguidade até o início do século 20. Concordando com as palavras de Le Goff, cita-das pelo autor, a doença pertence não só à histó-ria superficial dos progressos científicos e tecnoló-gicos, com o tam bém à história profunda dos
sa-beres e práticas ligadas às estruturas sociais, às instituições, às representações, às m entalidades. A história cultural das doenças abre um leque muito fértil às pesquisas, que não se restringem aos saberes eruditos.
Rodrigu es (1999) forn ece u m ou tro bom exemplo da história das sensibilidades que pas-sa nas fronteiras disciplinares, incluindo a com -preensão da sensorialidade dos processos cor-porais, dos m odos de sentir, do uso dos senti-dos qu e n ão se restrin gem ao orgân ico e são históricos, sem pre rem etidos na tram a das re-lações sociais que lhes atribuem sentidos. Res-gata as continuidades e rupturas dessa história na constituição da sociedade ocidental.
Alves & Rabelo (1998) reconhecem a con -tribuição dos estudos de representações e prá-ticas de saúde e doença para o entendimento de matrizes culturais dos grupos sociais, que per-m iteper-m ultrapassar a objetividade dos estudos epidem iológicos e apon tam as lim itações de seu uso: 1) a determ inação das representações sobre as práticas; 2) a ên fase n os m odelos fechados de sign ificação (corpo, saú de e doen -ça); 3) a n ecessidade de deslocar a aten ção da doen ça com o fato (com o dado em pírico ou signo) para a doença como experiência. Resga-tam as perspectivas fenomenológica e pragmá-tica, associadas à interpretação herm enêutica. Colocam em relação o pensam ento e a ação, a consciência e o corpo, a cultura e individuali-dade, cuja retomada dos estudos, sob esta pers-pectiva, será feita adiante.
Representações do corpo, saúde e doença
doença na sociedade, superando os estreitos li-mites biológicos do corpo e as explicações bio-médicas.
Os estudos confirm am os achados de m ui-tos ou tros: a percepção da doen ça dan do-se através de alguns sinais e sensações corporais, indicativos de que “algo” im pede o funciona-m en to “n orfunciona-m al” do corpo (dor, febre, n ão dorm ir, não com er, fraqueza) e pela incapaci-dade de realizar as ativiincapaci-dades cotidian as e de trabalhar, em qualquer modalidade assalariada ou não, assim vista por homens e mulheres.
Essa form a de perceber a doen ça bem ex-pressa a importância do uso social do corpo co-mo meio de existência para aqueles que dele de-pendem para sobreviver. Assim , o significad o da doen ça rem ete à ordem social, porque sua presença tanto afeta a reprodução biológica do indivíduo, quanto a sua reprodução social, em term os de reprodu ção das con dições de exis-tência (Knauth, 1992).
Além desse sign ificado, Min ayo acrescen -ta o peso das contradições e conflitos sociais do sistema de dominação que, uma vez transposto e m ediado pelas relações estabelecidas da m e-dicin a do trabalho com as classes trabalhado-ras, situa a doença na incapacidade para traba-lhar produtivam ente, reproduzindo, no plano das idéias, o âm ago das relações de apropria-ção e expropriação dos corpos dos trabalhado-res na sociedade capitalista. Para os seus infor-m an tes “saúde é “riqueza”, “fortuna”, “tesou-ro”, em oposição à doença, como castigo, des-graça, infelicidade e miséria” (Minayo, 1992).
Prossegue a autora, e a despeito do contato dos trabalhadores com as idéias dominantes, eles criam códigos próprios, conforme o lugar ocupa-do na sociedade, traduziocupa-dos no moocupa-do de vida. As representações da saúde e doença fundam-se ain-da nas raízes tradicionais (crenças e valores) re-lativos ao corpo, vida m orte e nas experiências de vida(Minayo, 1992). Outros autores confe-rem maior autonomia à “cultura popular” nos seus modos de significação, pela via do concei-to de matrizes culturais de significações, como m ediações capazes de re-sem antizar e reorde-nar os elementos culturais produzidos por ou-tro grupo, de m odo que as m en sagen s da m í-dia e o próprio discu rso m édico podem ser reinterpretados nos term os daquela cultura (-Leal, 1994).
Não se trata apenas de uma leitura que po-lariza dominados e dominantes, creditando aos prim eiros resistência, conform ism o ou trans-form ação criativa das idéias dom inantes, m as
de apon tar o quan to as m en sagen s veiculadas se tran sform am , através de outro referen cial, norteador das práticas cotidianas, envolvendo uma visão de mundo e o sistema de representa-ções sociais a respeito do corpo. Trata-se ainda de adm itir as m atrizes de sign ificações cultu -rais, suas diferen ças e con vivên cias, dian te da heterogeneidade e coexistência dos sistemas de significação, presentes na sociedade.
Ferreira (1995) aprofu n dou o sign ificado do “estar doente”. A percepção se dá através de conjunto de sensações desagradáveis e sintomas (cansaço, fraqueza, dor, mal-estar, falta de ape-tite, sono, febre), sendo o corpo (sígnico) vei-culador de mensagens que, ao serem apropria-das pelo médico ou pelo indivíduo, conduzem ao significado da doença.
A seu ver, a doen ça é um a con strução social, e a cultura, plena de significações, somen -te -tem valor se com partilhada pelo grupo so-cial. Os relatos sobre a dor sin alizam o sofri-m en to; a en fersofri-m idade e o estar doen te. Diz a autora que a percepção e os relatos a respeito da dor são in flu en ciados por m u itos elem en -tos. São eles a vivência cultural do doente, o seu repertório lingüístico, o seu dom ínio ou não dos termos médicos, suas crenças e representações so-bre o corpo e doença, as suas experiências indivi-duais e geral, e suas experiências e sua m em ória específica quanto à sensação de dor(Ferreira, 1995).
Os estudos de Victora (1995) e Leal (1994) ilustram as idéias que mulheres de grupos “po-pulares” têm do funcionam ento de seu corpo, quan to à sobreposição do período fértil e menstrual. Explicam essa concepção a partir de um a lógica do m ovim en to de abrir e fechar o corpo e das qualidades de calor e um idade as-sociadas ao sangue m enstrual. Com isso o período fértil associase, n a con cepção das m u -lheres, ao período menstrual, com implicações nas práticas contraceptivas.
Ferreira (1998) estudou as práticas de cui-dados corporais a partir da experiência social e descartou a existência de modelos que as presi-dem , um a vez que se em bebem na ação, apro-ximando-se das posturas fenomenológicas. Es-sas práticas envolvem : o uso do m édico, dos m edicam en tos e de ou tros recu rsos de cu ra (sim patias e rem édios caseiros), um a vez per-cebidos os sinais corporais, junto com os cui-dados com a higiene principalm ente, sem que a idéia de prevenção esteja presente, tal com o definida pela medicina. A noção de tempo, en-tre as classes popu lares fran cesas, estu dadas por Boltanski (1979) deve ser melhor explora-da na compreensão explora-da dissonância entre o ele-vado grau de previsibilidade que os comporta-m entos comporta-m édicos preventivos suscitacomporta-m e o bai-xo grau dessa previsibilidade, tão presentes nas práticas daquelas classes. Os estudos sobre a Aids, com o verem os, reiteram a au sên cia da-quela idéia.
Representações sobre doenças específicas
Pesquisas das represen tações sobre a han -seníase e seu tratamento partem da experiência da clientela com os serviços de saúde; focalizam as relações sociais dos adoecidos e os significa-dos atribuísignifica-dos à doen ça. Destacam algun s as-pectos: 1) as m udanças prom ovidas nas insti-tuições m édico-sanitárias na institucionalização dos adoecidos, antes excluídos e agora in -tegrados à sociedade; 2) as modificações tecno-lógicas e terapêuticas para o tratam ento; 3) os seu s efeitos n a redu ção do processo de estig-matização, uma vez alterada a forma de classi-ficação dos doen tes pela medicina; 4) a insufi-ciência da presença de sinais na pele na indica-ção da doen ça, u m a vez qu e n ão im pedem o uso intenso corporal nas atividades cotidianas; 5) o recurso a múltiplos tratamentos, os médi-cos, religiosos, os dietéticos e naturais (Claro, 1995; Queiroz & Puntel, 1997).
Apesar da in corporação, n o discu rso dos profissionais de saúde, da designação oficial da doen ça, os en trevistados usam ain da o term o “lepra”, acompanhado do estigma social. A re-dução do estigm a pelos em penhos da m edici-na parece parcial e os estudos deixam entrever a persistência da autodepreciação dos adoeci-dos e preocupações com a preservação de sua im agem social, cu ja an álise n ão se redu z aos elementos de ordem subjetiva, conforme sugere u m dos estu dos. As cau sas da doen ça in
cluem, segundo Claro, as relacionadas ao mun -do natural (ambiente, clima, contato com ani-m ais e substâncias tóxicas, sujeira e coisas po-luídas); as individuais, centradas nos compor-tamentos morais, na hereditariedade e velhice; as sobrenaturais (karm a, predisposição, fatali-dade) e as alim entares, em especial, a ingestão da carne de porco, relacionada à idéia de sujei-ra. O contágio não é m encionado com o causa da doen ça e os seu s riscos se poten cializam , diante da “fraqueza” corporal (Queiroz & Pun -tel, 1997).
As representações sobre a tuberculose cen -tram -se no “destino” e na percepção do corpo fr agilizad o, cu jas cau sas in clu em o d esgaste físico, provocado pela exposição prolon gada ao frio e ao trabalho, o enfraquecimento físico-moral, os efeitos da contaminação ambiental e da hereditariedade (Gon çalves, 1998). A suspensão dos tratamentos médicos ocorre quan -do cessam os sinais corporais associa-dos à - do-ença; restauram-se as “forças” do corpo, volta-se ao trabalho e são retomados os papéis e obri-gações familiares como sinalizadores da saúde, em bora possam não estar totalm ente curados, segundo a concepção médica.
A questão do abandono do tratamento mé-dico, pesquisado pela autora, mostra que o ofi-cialmente utilizado não está adequado ao mo-do de vida da clientela mo-dos serviços de saúde. O aban don o pode ser tem porário ou defin itivo, entre os alcoólatras, os portadores de Aids; de distúrbios psicológicos e indigentes. Além dis-so, os tratamentos instituídos pelo uso regular e intenso de medicamentos não devem ser des-cartados dos m otivos do seu abandono, ainda que um a parcela da clientela a eles se subm eta e aceite as prescrições e condutas m édicas, va-lorizando o seu poder de cura.
doença, reestruturam as suas vidas e as relações afetivas e sociais (Oliveira,1998).
Os homens se referem ao desconhecimento das causas da “hipertensão” e, quando interro-gados, hesitam em respondê-las. As m ulheres as associam ao “nervosismo”, ao excesso de ali-m en tação (gordu rosa) e ao alcoolisali-m o. Ela é mais percebida através das sensações corporais, com o “ton turas”, “zoeira n a cabeça”, “can sa-ço”, “dor de cabeça” (Carvalho et al., 1998). Observa-se que popularm ente o term o hiper-tensão não é utilizado, e sim “pressão alta”.
Ao cessarem essas sen sações pelo u so da m edicação e não se sentindo m ais doentes, os idosos adoecidos en trevistados n este estu do ten dem a aban don ar o uso de m edicam en tos, em bora in corporem m ais facilm en te a cam i-nhada e a dieta com menos sal e gordura. A pri-m eira prescrição ipri-m plica o uso corporal pri-m ais in ten so qu e en con tra m aior resson ân cia n as classes trabalhadoras, enquanto o uso de dietas contraria-lhes as práticas e representações alim entares, ualim a vez que sal e alialim entos gordu -rosos são valorizados por outorgarem “força” ao corpo qu e trabalha. É provável qu e os ho-m en s ativos profission alho-m en te resistaho-m ho-m ais àquelas prescrições alimentares do que os apo-sentados, que foram objetos desta pesquisa.
Explorando as narrativas de pessoas ligadas ao pentecostalismo e às casas de culto afro-bra-sileiro, Rodrigues et al. (1998) observam que o discurso das con cepções e represen tações das cau sas das doen ças en volve a ligação en tre a pessoa e a moléstia, esta última como experiên-cia física e subjetiva, enquanto as causas das do-en ças são referidas às explicações que perm i-tem responder por que a doença ou o sofrimen-to ocorreu num dado momensofrimen-to das trajetórias de vida dos in form an tes, tratan dose de con -cepção de causalidade não linear e distinta da racionalidade m édica. Assim sendo, a causali-dade para o sofrim ento associa-se ao plano fí-sico, a partir da descrição corporal; ao plan o de qualidades atribuídas à pessoa e a um plano n ão m aterial rem etido às relações sociais, do trabalho e ao plano mágico-espiritual.
Cada um desses plan os en globa as catego-rias “êm icas” dos discu rsos dos in form an tes, su bm etidas a u m esforço do pesqu isador de construir um modelo de explicação da causali-dade, a partir da experiência da pessoa em sua relação com a doença. Trata-se, nesta abordagem , de fazer prevalecer um sistem a m ais am plo de significações, perpassando as experiên -cias, as noções de pessoa, sofrim ento e
identi-dade. Se o sofrimento pode fragilizar e desinte-grar a pessoa, é também ponto de partida para a construção ou reconstrução da identidade so-cial. Neste caso, a an álise dos rituais de cura, nas casas de culto afrobrasileiro m ostra a in -corporação de distintos m odelos de realização de pessoa que, para terem sucesso, afirmam os au tores, requ erem a socialização prévia do adoecido ou de su a fam ília. Assim , a adesão dos en volvidos dá-se apen as qu an do a ação mágica ou força sobrenatural evocam-se como causas do sofrimento.
Vários estudos antropológicos, enquadra-dos n o tem a represen tações sobre a Aids, se aproxim aram dos adoecidos, dos soropositi-vos, das clientelas de serviços de saúde; de seg-m en tos popu lacion ais diversificados ou das classes trabalhadoras urbanas.
A epidem iologia, desde a em ergên cia da Aids, valeu-se do con ceito de grupos de risco para classificar u m a am pla variedade de pessoas potenciais ou efetivos portadores da doen -ça e seus comportamentos e, certamente, a di-fu são deste con ceito m u ito con tribu iu para qu e a percepção dessa doen ça se associasse à cren ça da “doen ça gay”, “dos desvian tes se-xuais” (Loyola, 1994).
O estu do de Pau lilo (1999), através das narrativas dos adoecidos de homens que fazem sexo com homens, conclui que o sentido dado ao “risco” nunca coincide com as idéias de gru-pos ou comportamentos de risco, incluídos no discu rso epidem iológico. A partir das expe-riências subjetivas, intersubjetivas, dos contex-tos socioculturais e in dividuais, apreen deu os seguin tes significados dados ao risco pelos in -form an tes: a sua n egação; a hierarquização; a afirm ação de outros valores (prazer, vín culos afetivos, trocas ligadas ao sexo e ao uso de dro-gas); a desconfiança das afirm ações da ciência médica versusa confiança no parceiro/parceira e a idéia de in vu ln erabilidade pela paixão e am or. Este estudo, com o m uitos outros feitos entre segm entos populacionais “sadios” sobre várias dimensões que cercam as percepções da Aids e dos com portam entos, cham a a atenção para os limites das estratégias, conceitos e mo-delos que ancoram as intervenções médico-sa-nitárias (Corrêa, 1994; Loyola, 1994).
acusa-ção e o pân ico e m ú ltiplas relações sociais: a negação, a culpabilização, o estigma, o precon-ceito e a discrim in ação, en carn an do a repre-sen tação do m al e das m aledicências sobre o mal, no imaginário ocidental (Birman, 1994).
Ela con den sa um con jun to de m etáforas e associa-se a outras doenças desaparecidas, lon-gín qu as, com o a peste, ou as m ais m odern as, com o o cân cer. No espaço pú blico torn ou -se objeto de múltiplas elaborações discursivas que lhes deram sentido (Herzlich, 1992). Lembra a au tora qu e a Aids é tam bém u m discu rso so-bre o “outro”, o estran ho, o lon gín quo e um discu rso im pu tado ao ou tro. À m edida qu e am pliaram a su a in cidên cia e dissem in ação, nos grupos sociais empobrecidos, a Aids bana-lizou -se; deixou de ser a doen ça do “ou tro” longínquo, mas do “outro próximo” e “conhe-cido” (Knauth et al., 1998). Gerou ainda o es-tigm a do “aidético”, deixou m arcas n os seu s corpos, desconfiou dos portadores e excluiu-os do convívio social (Seffener, 1995).
Com paran do a Aids com a sífilis, afirm a Carrara (1994): como a Aids hoje, a sífilis envol
-veu representações sociais muito amplas, que in-cidem sobre os m esm os pontos: a sexualidade (em especial os comportamentos considerados ex-cessivos, desviantes e prom íscuos), o m edo do contágio e da contam inação; a decadência ou a possibilidade de um a m orte coletiva. Morte, se-xo e m edo são tem as associados à Aids, na di-vulgação feita pela imprensa e literatura médi-ca, na em ergência da doença. Sua associação à homossexualidade, contribuiu para a estigma-tização das escolhas sexuais.
Algumas religiões produziram um discurso de con den ação dos com portam en tos tran s-gressores, u san do a doen ça com o sím bolo de castigo divin o (Ribeiro, 1990; Fern an des, 1990). O ativism o em torn o da Aids m u ito con tribu iu para as m u dan ças de atitu des em relação aos adoecidos, através da solidariedade e apoio e não da sua condenação e exclusão pe-lo preconceito (Galvão, 1994).
Experiências e significados da enfermidade ou do sofrimento
Vários autores estudaram as doenças “men-tais” ou a categoria “nervoso” entre as classes trabalhadoras urbanas, localizadas em vários pontos do país. Um grupo de pesquisas reporta-se a autores, oriundos da antropologia médica norte-am ericana, da corrente fenom enológica (Merleau-Ponty, Hurssel, Schutz), junto com
fi-lósofos e lingüistas hermeneutas, interacionis-tas simbólicos e etnometodólogos. Focalizam a experiência da enferm idade “m ental”. Em pre-gam narrativas, estudos de caso ou as histórias de vida de adoecidos e de seus fam iliares, que permitem ao pesquisador reconstituir as inter-pretações, ambigüidades e incertezas dos discur-sos e práticas diante da doença, as escolhas dos tratamentos e sua avaliação (Alves, 1993; 1994).
Esses estudos partem da enferm idade, isto é, de sua experiência submetida à interpretação do senso comum – uma forma de conhecimen -to eminentemente prático, sendo sempre expe-rim entada, vivida, m anipulada e negociada de diferentes maneiras, diferindo-se do saber mé-dico, qu e con cebe a doen ça com o fen ôm en o patológico e biológico.
Ao rever a literatu ra socioan tropológica n orte-am erican a sobre a questão da en ferm i-dade, Alves (1993) sugere que a com preensão da enferm idade prendese à experiência, con -trapondo-se aos estudos de representações e às perspectivas sistêmica, estrutural ou histórico-estrutural de análise. Nas suas palavras: é a ex-periência do sentir-se mal que, por um lado, ori-gina por si mesma as representações da doença e, por outro, põe em m ovim ento a nossa capacida-de capacida-de transform ar esta experiência em conheci-mento. É através das impressões sensíveis produ-zidas pelo mal-estar físico ou psíquico que os in-divíduos se consideram doentes.
Portan to, a en ferm idade pressupõe, em parte, um processo subjetivo que é apreendido a partir de u m con ju n to de sen sações corpo-rais, sendo o corpo a matéria do mundo sensí-vel e do próprio conhecimento e, pela constru-ção do(s) sign ificado(s) para o(s) ou tro(s), orienta-se nas relações sociais no mundo da vi-da cotidiana, naquele sentido vi-dado por Schutz ao senso com um . Este é capaz de fornecer có-digos de referência para os indivíduos, da mes-m a form a que as suas biografias de vida estão eivadas de um con jun to de tipificações, que lhes oferecem estoqu es de con hecim en to à mão.
dos discursos de seus entrevistados, na sua re-lação com o con texto em que foram produzi-dos, in cluin do o sujeito, a fala, a resposta aos eventos, pessoas e outras falas (Rabelo, 1999).
Por esta via os au tores iden tificam , in ter-pretam e dem on stram com o in divídu os, oriu n dos das classes popu lares, lidam com a “doença mental”, um problema que requer so-luções e a m obilização de um conjunto de de-cisões e de recursos terapêuticos. As inúm eras publicações, feitas individualm ente ou em co-laboração por Alves e Rabelo e seus colabora-dores, reu n iram -se, em parte, n as coletân eas (Alves & Rabelo 1998; Rabelo et al., 1999). Apesar de algumas diferenças nas suas aborda-gens reiterarem sem pre que a experiência não decorre apenas de modelos internalizados, sen-do o sen-doente um personagem capaz de comuni-car e refletir sobre ela.
Ao libertarem os su jeitos das am arras das determ inações, estes ganham m aior liberdade (às vezes excessiva), diante de quaisquer cons-trangim entos que possam pesar sobre eles. Há portanto, uma permanente e até excessiva flui-dez dos processos sociocu ltu rais e a au sên cia de relações de força e poder, n a “realidade” permanentemente construída e reconstruída.
As n arrativas forn ecem visibilidade às co-municações, hesitações, mudanças dos signifi-cados atribuídos n as in terações sociais, an tes m uito esquecidas sob as m acrodeterm inações. Essas pesquisas con tribuíram para eviden ciar crenças e valores, construções de conhecimen-to e a construção dos significados dados pelos indivíduos à enfermidade. Deixam de abordar, qu an do an alisam os itin erários terapêu ticos, qualquer tipo de influência que possa ter a or-ganização da produção/oferta de bens de servi-ços de cura (oficiais e não oficiais) nas escolhas terapêuticas e serviços, embora mostrem tam -bém em dadas experiências de cura os modelos religiosos de doenças (Rabelo, 1993).
Pela via das narrativas, Silveira (2000) desven dou o sign ificado do “n ervoso”, an alisan -do-o com o experiência e linguagem sobre um conjunto de aflições e problemas sociais e indi-vidu ais, e com preen deu as explicações sobre suas causas e os limites da biomedicina para li-dar com este fenôm eno. Outra pesquisa m os-trou o seu caráter polissêmico, associado a vá-rios signos: a violência e agressividade; a agita-ção e im paciên cia; a tristeza e isolam en to, abarcando conjuntam ente o “descontrole” e a “fraqueza dos nervos” (Rabelo, 1997). O “ner-voso”, como experiência fragilizadora, foi visto
ain da a partir da in terpretação e sign ificação dadas por mulheres “nervosas” às múltiplas ex-periên cias socioafetivas e relacion ais que afe-tam a con stru ção de su a iden tidade (H ita, 1998).
As reflexões de Du arte, qu e pesqu isou os significados do “nervoso” entre as classes trabalhadoras u rban as n a década de 1980, con -tinuam reiterando a centralidade da noção de pessoa que engloba aquele fenômeno na cultu-ra ocidental moderna, comportando múltiplos sistemas simbólicos para explicá-la. São eles: a biomedicina; as teorias psicologizante e socio-logizante, junto com as configurações culturais das classes populares brasileiras, latino-ameri-cana e presentes noutros grupos contem porâ-n eos e oitoceporâ-n tistas (Du arte, 1994), qu e porâ-n ão in dividualizam ou psicologizam os “n ervos”, integrandos na noção de pessoa (físicm o-ral).
Através de um culturalismo radical, o autor pretende criar uma teoria abrangente capaz de dar con ta das con tin u idades e perm an ên cias das diferen ças cu ltu rais, n a cu ltu ra ociden tal m odern a, pela via com parativa. As categorias biom édicas, por esta e por outras abordagen s etnográficas, ancoraram nos sistemas de signi-ficação.
As suas contribuições recuperam a designa-ção físico-m oral para qualificar as concepções do “n ervoso”, en tre as classes trabalhadoras, reconhecendo o caráter de vínculo ou mediação de que esses fenômenos se cercam nas relações tre a corporalidade em todas as dem ais dim en-sões da vida social, inclusive e eventualm ente a espiritual ou transcendental( Du ar t e, 1998) . Neste caso, o trabalho etnográfico oferece ma-terial su bstan tivo aos esforços com parativos, sen do-lhes secun dários os m últiplos arran jos ou variações que possam comportar as práticas sob ou tras con figu rações sim bólicas n o in te-rior de situações ideológicas mais homogêneas e que podem , em dadas esferas (n o con sum o, por exem plo) e en tre as n ovas gerações, vir a con figu rar m u dan ças ou a con qu istar n ovos contornos, estranhos aos valores holistas pre-valen tes n as classes trabalhadoras, expostas ainda a futuras pesquisas.
e valorizados n o un iverso das represen tações e n o quadro das expectativas con solidadas de consum o por bens coletivos, dentre eles os de saúde, na sociedade urbano-industrial (Canes-qui, 1992). É possível que a valorização da pro-teção social coletiva an corada n os valores so-lidários coexista em segm en tos da classe tra-balhadora, com a ideologia da au toproteção social, que pela via liberalizante m ais intensa-mente disseminada quer preencher aquelas ex-pectativas.
Apesar do persisten te an tagon ism o feito entre as racionalidades “popular” e “m édica”, Du arte (1999) pertin en tem en te su gere qu e é preciso explorar com cuidado a crença nas re-presentações populares na medicina e suas téc-nicas, especialm ente nas que produzem a evi-dên cia em pír ica con cr eta do seu poder , tais como: as intervenções cirúrgicas, os aparelhos corretivos e as próprias cicatrizes, paralela-mente ao fetichismo das radiografias, dos exa-mes de sangue, das receitas e dos remédios.
Argumenta que não se pode negar a capaci-dade dos discursos dos profissionais de saúde e do m édico de produzir sentido para as classes popu lares, apesar de su a rein terpretação. O discurso do m édico, n a sua prática profissio-nal, vale-se da lógica do pensam ento “concre-to” e “selvagem ”, perm itin do u m m ín im o de m ediação en tre os dois m u n dos sim bólicos distin tos. A n ecessária distin ção en tre as dis-cussões paradigm áticas e a polarização dos sa-beres erudito e popular sugere o deslocamento para a produção de sentido no âm bito da prá-tica m édica, em que tam bém ocorrem form as de com un icação, ressocializações, apren diza-gem , relações sociais, sem que tudo possa ser fruto exclusivo de relações de dominação e po-der ou, sob outro ângulo, puras inadequações ou reações de resistência às intervenções.
Gênero, sexualidade e doença
Com o advento da Aids, nas pesquisas biom é-dicas foi ampliado o interesse em torno da dis-tribuição e incidência da enferm idade; dos ti-pos de comportamentos transmissores do HIV/ Aids, da mesma forma que nas ciências huma-nas, nos movimentos sociais (feminista, gays e lésbicas) combinou-se a produção de conheci-m en to de n atureza conheci-m ais reflexiva coconheci-m aquela capaz de informar, reduzir a discriminação so-cial e de promover valores de dignidade, igual-dade e equiigual-dade, ou o direito do cidadão às
di-ferenças.
O enfoque da(s) sexualidade(s) m asculina prevaleceu n a exígua literatura an tropológica n acion al da década de 1980, que se expan diu n a década de 1990, seja pelo adven to da Aids ou pela interlocução multidisciplinar a respei-to. En tre as disciplin as das ciên cias hum an as, admite Loyola (1998), a antropologia está bas-tante apta para abordar a sexualidade, uma vez que, a partir das relações sociais, a diversidade social e cultural, os sistem as cognitivos e sim -bólicos são questões que se apresentam a partir deste objeto. Ao rever os estudos antropológi-cos clássiantropológi-cos e contem porâneos, conclui que a sexu alidade foi abordada n a sociedade e n a cultura, dentro das norm as que a regem e não foi segmentada como objeto em si.
Duas posições estão presentes em torno da sexualidade: o essencialismo e o construtivism o (Vance, 1995; Heilborn, 1999; Loyola, 1998). A primeira centra-se na natureza humana (o ins-tinto, a energia sexual), restringindo a sexua-lidade à fisiologia, reprodu ção da espécie e à pulsão psíquica. A segunda desconstrói, desna-turaliza e desun iversaliza as categorias e relações en tre as categorias que m arcam os estu -dos. Na versão radical do construtivismo, afir-ma Vance, prevalece a construção do desejo se-xu al pela cu ltu ra e pela história a partir das energias e capacidades do corpo. Noutras ver-tentes os significados subjetivos, os comporta-m en tos, a ideologia e o próprio corpo, suas funções e sensações, são incorporados e media-dos pela cultura.
Na in trodu ção da coletân ea Sexu alidades Brasileiras, Parker & Barbosa (1996) defendem os necessários laços entre a ciência, ética e po-lítica para entender a sexualidade. Para vários au tores, partícipes dessa coletân ea, a sexu a-lidade, as cren ças e con vicções a respeito são m odeladas pelos significados culturais e valo-res, pelo sistem a de poder político e social e pelos processos históricos e rede de significa-dos inserisignifica-dos no mundo social. A sexualidade, com o con strução social, n orteia os vários es-tudos e reflexões, opondo-se ao essencialismo, que, em função de um a razão universal, paira sobre as condutas e os significados do que seja sexual, restringindo-a às dim ensões psíquicas e reprodu tiva. Ao con trário, ela se im pregn a das convenções culturais que modelam a exci-tação, a satisfação erótica e as sen sações físi-cas, im plican do processos de socialização (Parker, 1994).
ero-tism o” o sistem a de representações culturais e con structos sim bólicos que m oldam um a lei-tura da com preensão erótica no contexto bra-sileiro, qu e se m arca pela tran sgressão, com o particularidade da cultura sexual no Brasil, on-de “tudo poon-de acontecer” e a dicotomia ativo e passivo é estruturante das noções de fem inili-dade e m ascu lin iinili-dade, servin do de prin cípio organizador de um m undo m uito m ais am plo de classificações sexuais da vida cotidiana bra-sileira. Sob o argu m en to de aqu ela ideologia não ser generalizante e nem compartilhada por todos, Guimarães (1996) e outros autores deslocam o seu olhar para as relações sociais con -cretas e vividas; as especificidades da sexuali-dade e sua ordenação por hom ens e m ulheres das classes populares, m ovidas por outros có-digos, em especial o do valor família, postos por Duarte (1986) e Sarti (1996) e a forte m orali-dade nas relações de gênero e sexualiorali-dade.
Gênero, sexualidade e Aids foi tem a de vá-rias pesqu isas. Dois en foqu es estão presen tes nas análises sobre o gênero: o da construção so-cial da iden tidade e a relacion al (Leal & Boff, 1996). A partir do segun do en foque m ostra a autora que: 1) a construção da identidade mas-culina requer a aprendizagem de códigos que a con stroem com o adu lto e hom em e qu e n or-teiam os papéis sexuais como ativos e passivos; 2) qualidades m arcam a virilidade e fem in ildade; 3) admite, em certos contextos, a dinâm ica de gênero na concepção de sexualidade en -tre as classes popu lares através da ju staposi-ção de valores individualistas sobre os holistas, de m aior individualização nas m asculinidades e de menor, no universo feminino nas questões da intimidade e do desempenho sexual.
Evidências similares foram postas por Heil-born & Gouveia (1999) n a adoção de um dis-curso “moderno” (mais individualista) em tor-no da sexualidade e sexo, em setores daquelas classes, em bora reiterem as form u lações de Du arte (1986) e Sarti (1996), m ostran do qu e as mulheres não expõem suas vidas privadas ao escrutínio público, quando se trata das relações sexu ais e das possíveis doen ças. Preservam e reproduzem a imagem ideal feminina de “mu-lher de verdade” qu e lhe con fere dign idade moral (Guimarães, 1994).
As demais pesquisas sobre a maior vulnera-bilidade das mulheres diante da contaminação pelo H IV/Aids, pelos próprios parceiros, evi-denciam suas dificuldades de negociar a gestão dos riscos, pelo uso de preservativos (Barbosa, 1996), prevalecendo nesta negociação o
modelo de comportamentos irregulares ou desvian -tes do m odelo m on ogâm ico, gerador de desconfiança do m arido/com panheiro ou da m u -lher/companheira (Guimarães, 1994). A noção de familiaridade do conhecimento do outro rege a percepção das m ulheres de proteção con -tra o HIV, embora não desconheçam as causas da doença (Guimarães, 1996).
As várias pesqu isas de Kn au th con clu em sobre o silêncio generalizado das mulheres so-bre a soropositividade e Aids; a sua recusa de se reconhecerem doentes ou contaminadas por seus parceiros e, nesta condição, não rom pem a alian ça com eles e n em os cu lpam e ju lgam ser da “n atureza” do hom em o experim en to das drogas e da hom ossexualidade (na adolescência) e das relações sexuais com outras m u -lheres no espaço “da rua”. Se doentes ou con -tam inadas, preservam ou resga-tam o statusde m ãe ou esposa, ou de filha peran te a fam ília, desenvolvendo estratégias de enfretam ento da doen ça, que reforçam a iden tidade de espo-sa/m ãe (Knauth, 1997; 1999). Sugere a autora o reordenamento das relações de gênero diante da Aids e da doença em geral. Entre as mulhe-res e os homens a Aids sempre se apmulhe-resenta co-m o doen ça do “ou tro”, con forco-m e con staraco-m os vários estudos.
Conclusão
Em sín tese, pode-se dizer que os estudos exa-m in ados n os falaexa-m exa-m en os da doen ça eexa-m si e m ais de sua articulação sim bólica na constru -ção das identidades sociais, relações de gênero e inserção nos parâm etros sim bólicos estrutu -ran tes da cultura. Quan do resgatam as práti-cas sociais são capazes de vislum brar estratégias e m aiores disson ân cias en tre pen sam en -to, normas e a ação social ou ainda, percorren -do as experiências e o senso prático exclusiva-m en te, colocaexclusiva-m eexclusiva-m evidên cia os adoecidos, suas ações e a construção dos significados dian -te da doen ça e n a bu sca da resolu ção de seu s problem as de saúde, ocultando as regularida-des sociais ou os padrões estruturantes, sejam os sociais e políticos, sejam os culturais e sim -bólicos.
sanitárias e psiquiatras. São em ergentes tem as como: envelhecimento e a juventude, vistas nas relações com a saúde, in terven ções m édicas e com o universo sociocultural que as constitui e modela; as tecnologias, relações sociais e signi-ficados, que tanto invadem o cotidiano, as aspi-rações, as que projetam im agen s, m odelam e recriam os corpos, im prim in do n ovas form as ao embelezamento, maiores precisões dos diag-nósticos e alterações na reprodução humana.
Faz sentido voltar os olhos para outros seg-mentos sociais que não exclusivamente as clas-ses trabalhadoras, predominantes nos estudos, como também estar atento para as transforma-ções valorativas que possam estar operando no seu interior, em especial, na sua relação com a medicina, os médicos, instituições e profissio-nais de saúde e nas esferas do consumo e de ou-tras relações sociais.
Não é mais invisível a antropologia da saú-de/doen ça n o Brasil, e os esforços n esta dire-ção parecem bem -sucedidos, se forem perm a-nentes, apesar das diferentes vocações intelec-tuais, cujo convívio mais indica a vitalidade da nova especialidade do que a sua inviabilidade, embora se espere, no âmbito da saúde coletiva, que as ciências sociais dialoguem entre si per-m an en teper-m en te e coper-m as deper-m ais disciplin as, sem que se apartem nos limites estreitos das rí-gidas fronteiras especializadas.
sociais e políticos, u ltrapassan do o restrito campo científico. Posta no âmbito da experiên-cia aflitiva do indivíduo, na cultura e ideologia e n o cam po de lu tas e con tradições sociais, a doença e suas representações condensam múl-tiplas determ in ações. É n a calibragem ou n o percurso das m ediações entre o coletivo/individu al e estrutura/ação que se podem en con -trar cam inhos m enos polarizados e construti-vismos menos radicais.
Não se põe dúvida, após esta exposição, na densidade e importância dos estudos nos temas exam in ados. Devido a sua abran gên cia faltou espaço para abordar outros que foram pesqui-sados, destacando-se: a sexualidade e reprodu-ção hum an a ou corpo e reprodureprodu-ção hum an a, que dispõem de uma revisão bastante atualiza-da, feita por Giffin & Cavalcanti (2000), enfati-zando a maneira como os homens se incluíram nestes estudos.
Não foram abordados os sistem as de cura, im ersos nos cam pos religioso, nas dem ais m e-dicinas, sob outras racionalidades, que se tor-nam cada vez m ais increm entados na socieda-de contemporânea, combinando-se com a me-dicina oficial e que são objetos de estudos so-ciológicos e antropológicos. Agregam-se a estes o uso de métodos qualitativos na avaliação dos serviços de saúde, juntam ente com as análises das instituições, intervenções médicas,
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