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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
ARTIGO
ORIGINAL
Espac
¸os
e
equipamentos
de
lazer
da
Vila
Nossa
Senhora
da
Luz
e
suas
formas
de
apropriac
¸ão
Felipe
Sobczynski
Gonc
¸alves
a,b,c,∗e
Simone
Rechia
aaProgramadePós-graduac¸ãoemEducac¸ãoFísica,SetordeCiênciasBiológicas,UniversidadeFederaldoParaná(UFPR),Curitiba,
PR,Brasil
bSecretariaMunicipaldeEducac¸ão,PrefeituraMunicipaldeCuritiba,Curitiba,PR,Brasil cSecretariadeEstadodaEducac¸ãodoParaná,GovernodoEstadodoParaná,Curitiba,PR,Brasil
Recebidoem22deagostode2012;aceitoem6dedezembrode2013 DisponívelnaInternetem2deagostode2015
PALAVRAS-CHAVE
Lazer; Prac¸as; Espac¸os; Equipamentos
Resumo Esta pesquisafoi feita na Vila Nossa Senhora da Luz, na cidade de Curitiba-PR. A intenc¸ão foi compreender a relac¸ão entreo processo de concepc¸ão e planejamentodos espac¸oseequipamentos,aapropriac¸ãodessesambienteseaspossibilidadesdeexperiênciasno âmbitodolazer.Osprocedimentosmetodológicosforamaplicac¸ãodeprotocolos,observac¸ões, entrevistaseanáliseinterpretativa,comousodatriangulac¸ãodedados.Comoresultadofoi possívelperceberqueocotidianoécompartilhadoporregrasformuladasereformuladaspor lideranc¸ascomunitáriaslocais,asquaispossibilitam,pormeiodasolidariedadeexistentenessas prac¸as,experiênciassignificativasapartirdepráticascorporaisdiversificadas.
©2015ColégioBrasileirodeCiênciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todosos direitosreservados.
KEYWORDS
Leisure; Squares; Spaces; Equipments
Spaces and equipments ofVila Nossa Senhora da Luz: their formsof appropriation inleisuretime/space
Abstract ThisresearchwasconductedatVilaNossaSenhoradaLuz,inCuritiba-PR,the inten-tionwastounderstandtherelationsamongtheconceptionandplanningprocessofthespaces andequipments, theappropriationofthose environmentsandthepossibilitiesof experien-cesintheleisurescope.Themethodologicalprocedureswereappliedthedatatriangulation
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](F.S.Gonc¸alves).
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2013.12.002
technique,implementationofprotocols,observations,interviews,andinterpretiveanalysis.As aresultitwaspossibletorealizethatdailybasisissharedbyrulesformulatedandreformulated bylocal communityleaders,which makeitpossible,throughthesolidarityexistinginthese squares,significantexperiencesfromdiversebodilypractices.
©2015ColégioBrasileirodeCiênciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Allrights reserved.
PALABRASCLAVE
Ocio; Plazas; Espacios; Equipamientos
EspaciosyequipamientosdelaVilaNossaSenhoradaLuz:susformasdeapropiación eneltiempo/espaciodeocio
Resumen EstainvestigaciónfuerealizadaenlaVilaNossaSenhoradaLuz,enlaciudadde Curitiba-PR, laintención eracomprender larelación existenteentreelproceso de concep-ciónyplaneamientodelosespaciosyequipamientos,laapropiacióndeesosambientesylas posibilidadesdeexperienciaenelámbitodeocio.Losprocedimientosmetodológicosfueron aplicacióndeprotocolos,observaciones,entrevistasyanálisisinterpretativo,utilizándosela triangulacióndedatos.Comoresultadofueposiblepercibirqueelcotidianoescompartidopor reglasformuladasyreformuladasporloslídereslocalesdelacomunidad,quepermiten,por mediodelasolidaridadexistenteenlasplazas,experienciassignificativasdediversasprácticas corporales.
©2015ColégioBrasileirodeCiênciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todoslos derechosreservados.
Introduc
¸ão
Opresente estudo,1 que tem como objetode reflexão as
prac¸as daCidade Industrial de Curitiba (CIC), mais espe-cificamenteda VilaNossa Senhora da Luz (VNSL),que se constituemcomoespac¸osdesociabilidadeecomopossíveis locais de vivênciassignificativas noâmbito do lazer e do esporte.
Nessaperspectiva,nossoobjetodepesquisasãoas dife-rentesprac¸asqueconstituemosespac¸oseequipamentosde lazerdaVNSL.Trata-sede 13prac¸as dispostasem aproxi-madamente800 milmetrosquadrados,oque significaum elevado número de espac¸os de lazer em uma única vila. Nesseestudoapropostaéapresentarenumeraras13prac¸as ereuni-lasemtrêsgrupos.Essaestratégiafacilitaaanálise, alémdecontribuirparaaidentificac¸ãopelosleitores.
A partir da observac¸ão empírica na VNSL de que em todososquarteirõesexiste umaprac¸a,emergea seguinte problemática: como se dá a apropriac¸ão dos espac¸os e equipamentossupostamentedestinadosàsexperiênciasno âmbitodolazeredoesportenaVilaNossaSenhoradaLuz? Pararesponderaessaproblemática,estetrabalho cami-nhou na direc¸ão dada pelo seguinte objetivo geral ---compreender a relac¸ão existente entre o processo de concepc¸ão eplanejamento dosespac¸ose equipamentos e aapropriac¸ãodessesambientes.
Trata-sedeumapesquisaqualitativaqueusacomo estra-tégia a técnica da triangulac¸ão de dados que ‘‘tem por
1Resultado da dissertac¸ão de mestrado intitulada ‘‘Espac¸os e
equipamentosdelazerdaVilaNossaSenhoradaLuz:suasformas deapropriac¸ãonotempo-espac¸odelazer’’,defendidaem2008.
objetivobásicoabrangeramáximaamplitudenadescric¸ão, explicac¸ão e compreensão do foco em estudo’’(Trivi˜nos, 1987,p.138).Nessaperspectivadepesquisa,busca-se asso-ciarconceitos enoc¸õescomplementarese concorrentese entender seus diferentes níveis de desenvolvimento teó-ricoe práticonointerior dasáreas disciplinares.‘‘Dentre asantinomias relevantes,se encontramasrelac¸õesentre ouniversaleoparticular;entreoglobaleolocal;entreo microeomacro;entreocoletivoeoindividual;entreotodo e aspartes; entrea análiseea síntese;entreasrelac¸ões cêntricas,acêntricasepolicêntricas’’(Minayo,2005,p.34).
A
Vila
Nossa
Senhora
da
Luz
AVilaNossaSenhoradaLuz,deacordocomAlfredWiller,2
foiumdosprimeirosconjuntoshabitacionaisdoBrasil.Foi inauguradaem 13de novembrode 1966, quando o então presidente Humberto de Alencar Castelo Branco fez uma visita relâmpago à capital paranaense para dar início à concretizac¸ão de umdos programas propostos pelo golpe militarde1964,odedesfavelamento.
Esse conjunto habitacional foi considerado uma ‘‘revoluc¸ão em urbanismo’’ pelos então diretores da Companhia deHabitac¸ão Popular de Curitiba (Cohab-CT), engenheiro Jefferson Weigert Wanderlei, engenheiro e arquiteto Alfred Willer e coronel Jackson Pitombo. Foi uma tentativa de efetivar o projeto de desfavela-mento, conhecido como Operac¸ão Mudanc¸a(Boletim Casa
2ArquitetoediretortécnicodaprimeiragestãodaCohab-CTde
Romário Martins, 2006), referido pelo então prefeito Ivo Arzua Pereira para a cidade de Curitiba, mas que não se concretizou, segundo o engenheiro e arquiteto Alfred Willer.
O conjunto como umtodo levou aproximadamenteum anoe meio paraser construído e na época eracomposto por 2.115 habitac¸ões financiadas pelo Banco Nacional de Habitac¸ão (BNH) e pelo acordo do Brasil com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid).Haviadoismodelosdecasas,segundoBroli(1979). Oprimeirotinhaquarto,sala,cozinhae banheiroe21m2.
Osegundotinhasótão,noestilochalé,cincoquartos,sala, banheiroecozinhae50m2.Ambosficavamemterrenosde
10mx20m.
Além das casas, foram pensados alguns espac¸os des-tinados ao lazer. Conforme o arquiteto Lóris Ghesse, do Departamento de Planejamento da Cohab (1985), a ideia inicialerafazercomqueas13prac¸asfuncionassemcomo pontodeencontrodosmoradores,masatéaquelemomento nãotinhaseefetivado,segundooarquiteto,poisosespac¸os eramdesprovidosdeinfraestrutura.
DeacordocomoquerelataLórisGhesse,podemosfazera seguintepergunta:qualeraarealintenc¸ãodosplanejadores doprimeiroconjuntohabitacionaldeCuritibaaopropor13 espac¸oslivresquesupostamentepoderiamserapropriados noâmbitodolazer?
Alfred Willerafirma que desde a planta original foram pensadososespac¸oseequipamentosdelazerparaa comu-nidade,masinfelizmenteoBNHacabounãofinanciandoessa partedoprojeto.Apesardisso,aprefeiturafezalguns pro-jetos.Naprac¸acentral,porexemplo,
haviaigreja,mercado,postodesaúdeeescoladeartes eofícios.Então,sobravaaáreadocentrodaprac¸apara equipamentoesportivo.Tambémnãohaviaespac¸o sufi-ciente para um campo de futebol, mas havia espac¸o paraalgumasquadraspoliesportivasparaos adolescen-tes.Então,aideiaeraessa,asprac¸asmenoreserammais parauso local,principalmente para crianc¸as demenos de10anos.Nessasprac¸as,oequipamentocomunitário, oplaygrounde materialempregadoforamdepredados, apesar de ser materiais, por exemplo, como balanc¸os de pneus pendurados em correntes, escorregadores, equipamento robusto difícil de manter, mas, mesmo assim,porfaltadesupervisãonãotevemuitadurac¸ão, muitadurabilidade.
Nasequênciadeseudepoimento,Willerressaltaque
oequipamentoesportivoestavaprevistoparaasprac¸as. Agora,oqueaconteceucomasprac¸as foiinteressante, nãohavia,comoeudisse,averbaparafazerequipamento esportivo,tentou-se implantar alguns espac¸osde play-ground,foramdepredados,faltouumacompanhamento comunitário dasassistentes sociais,que haviana nossa equipe,achoqueeramumasmoc¸ascompouca experiên-ciadetrabalhodecampoequenãoforamdevidamente orientadas, então, justamente esse tipo de educac¸ão comunitáriaerafundamental,porqueessepovoquefoi mudadopraláelenãotinhaexperiênciadevivernuma comunidade,viviamespalhadosnointerior ouvivamno meio de umafavela que era maisou menos anônima. Aideiacomessasunidadesdevizinhanc¸aseraestimular
anoc¸ãodepertenceraolocalparaqueasfamíliasse iden-tificassem coma suacasa ecom oseu bairroe dentro dessaeducac¸ãohaveria também, comcertafacilidade, a escolha de algunsmoradores vizinhos aquida prac¸a, que ficassem encarregados de ficar de olho pra evitar depredac¸ão.Nãohouveisso[...]nãohaviainteressedo morador,vendoacrianc¸adadepredandoobalanc¸o,tomar ainiciativaprairláedizer:escutaaqui,vamosparar,isso aquiénosso,nãovamosestragarporquequemvaiterque reporsomosnós.
A partir desse depoimento podemos observar que os equipamentos de lazer e esporte, apesar de terem sido instaladosnosprojetos iniciais,infelizmenteficaram rele-gados a um segundo plano, tanto pelo poder público quanto pela comunidade, o que demonstra uma falta de articulac¸ãoentreosgestoreseosmoradoresparauma efe-tivaapropriac¸ão.3
As
prac
¸as
como
espac
¸os
de
lazer
da
vila
Quando pensamos nos espac¸os e equipamentos de lazer, desdemeadosdadécadade1980,essestambémreceberam estruturasesportivaseplaygrounds,nadamuitoalémdoque jáeraprevistonoiníciodesuaconstruc¸ão,masquenaquele momentonãofoifocodeinvestimentosdoBNH.Osespac¸os quecompõemasdiferentesprac¸as,hoje,sãomantidospela SecretariaMunicipaldeMeioAmbiente(SMMA),mais espe-cificamentepeloDepartamentodeParquesePrac¸as(MAPP). As prac¸as, que são nosso foco de discussão, segundo Robbae Macedo (2003, p.17), são ‘‘espac¸os livres públi-cosurbanosdestinadosaolazereaoconvíviodapopulac¸ão, acessíveisaoscidadãoselivresdeveículos’’.Dessaforma, podemosperceber,apartir dadefinic¸ão,que asprac¸asse caracterizamcomo espac¸osdelazer urbanosque, porser públicos, facilitam a apropriac¸ão por parte das pessoas. Poressemotivo, oestudodasprac¸asquecompõeaVNSL, dassuas concepc¸ões e de seusequipamentos torna-sede granderelevância,na tentativademelhor compreendero fenômenolazeresuasrelac¸õescomosespac¸ospúblicosno cotidianodosmoradoresdaVilaNossaSenhoradaLuz.
Historicamente, as prac¸as desempenharam diferentes func¸ões,dentreelasoespac¸oparaespetáculos,localpara execuc¸ãodecondenadosàmorte,espac¸oscívicos destina-dos a discursos, espac¸os para a contemplac¸ão de prédios públicos, local onde se colocavam estátuas e monumen-tos,espac¸osverdes destinadosaolazereàcontemplac¸ão, espac¸osabertos para encontro pessoal, local de reuniões públicaseassimpordiante(Leitão,2002).Dependendodas mudanc¸associaisehistóricasedomodocomoasociedade expressasuavidacoletiva,asprac¸aspodemexercerpapéis diferenciados.
Cotidianamente as prac¸as podem desempenhar algu-mas das func¸ões citadas anteriormente. No entanto, na concepc¸ão de Robba e Macedo (2003), o espac¸o urbano moderno é planejado de forma funcional e deve suprir asnecessidadesdacidaderelativasa habitac¸ão, trabalho,
lazerecirculac¸ão.Nessecontexto,olazerfoiumdositens queourbanismomodernoestabeleceucomodegrande rele-vânciaparaohabitanteurbanodoséculoXX.Assimsendo, podemosafirmarqueosespac¸oslivrespúblicossetornaram umadasopc¸õesmaissignificativasdeáreadelazerurbano. Contudo,é a partirdadécada de1940 queos espac¸os públicos passama sofrer influênciadearquitetos e paisa-gistasmodernos.Nessanovaperspectiva,asprac¸aspassam aenglobar o ‘‘lazer ativo’’,4 que priorizava asatividades
esportivase arecreac¸ãoinfantil.Deacordo comos auto-res, ‘‘o lazer ativo está presente, com a implantac¸ão de quadras esportivas, playgrounds e pistas de caminhada’’ (RobbaeMacedo,2003,p.36).
Podemosafirmarque essa concepc¸ão de‘‘lazerativo’’ influencioudiretamenteo planejamentodasatuaisprac¸as daVNSL,poisemquasetodaselaspercebemosasmesmas estruturasdescritaspelosautores.
O
lazer
Paradiscutircomoocorreaapropriac¸ãodosespac¸ose equi-pamentosdasdiferentesprac¸asdaVNSL,nosapropriamosdo conceitodelazerdeMascarenhas(2003,p.97),queo consi-deracomoum‘‘fenômenotipicamentemoderno,resultante das tensões entre capital e trabalho, que se materializa como um tempo e espac¸o de vivências lúdicas, lugar de organizac¸ão dacultura,perpassado por relac¸õesde hege-monia’’.
Paraoautor,resultadastensõesentrecapitaletrabalho. Portanto,
[...] o chamado tempo livre surge em meio às
contradic¸ões do próprio desenvolvimento capitalista como conquistade classe [...]a noc¸ão de tempolivre e o próprio entendimento de lazer não surgem com a Revoluc¸ão Industrial,masem outrocenário,quando as lutassociaisconseguemimporpoucas,massignificativas, transformac¸õessociais(Mascarenhas,2000,p.77,grifo doautor).
Podemosobservarqueéapartirdaorganizac¸ãocoletiva dos trabalhadores pelo aumento do tempo livre e conse-quentementepelareduc¸ãodajornadadetrabalhoquefoi possívelintentarumtempodedesenvolvimentode indiví-duosecoletividades.
Mascarenhasesclarecequeolazerconstitui-secomoum tempoeumespac¸odeorganizac¸ãodaculturaeampliaas oportunidadesparaquesequestionemosvaloresdaordem socialvigente,deformaqueaspessoaspossamseapropriar, reelaborareproduzircultura.
Nessaesteira dediscussão,a cultura é perpassadapor relac¸ões de hegemonia, ou seja, torna-se palco social de disputa hegemônica, na qual a tensão se dá entre a penetrac¸ão macic¸a da indústria cultural no mercado da diversão, do entretenimento, ou seja, do ‘‘mercolazer’’, e a ac¸ão política e pedagogicamente orientada para uma formac¸ãocríticaecriativa.
Nessa perspectiva, nos propomos a pensar nas ques-tões referentes ao lazer do ponto de vista das classes
4ConceitousadoporRobbaeMacedo(2003,p.35).
trabalhadoras.ComoindicaDeDecca(2002,p.61),aofazer umareleituradasobrasdeE.P.Thompson,
Tantopodemosvernasatividadesdelazeramanutenc¸ão dastradic¸õese dosvaloresdesociedadesanteriores ao capitalismocomopodemosapreendê-laemsuas dimen-sõescomplementaresaotrabalhodisciplinado.Assim,o lazerpodeserpercebidonosinterstíciosdosistemade fábrica,comoespac¸oseparcelasdetemponão adminis-tradospelocapitalismo,comopode, também,servisto sob o ângulodaadministrac¸ão dotempolivre comple-mentaraotrabalhoorganizadooriundodaracionalizac¸ão moderna docapital. O lazer podeser entendido tanto pela ótica da acomodac¸ão como pela da resistência à imposic¸ão dos modos de vida criados pelo sistema de fábrica.Nessaperspectivaéquesedelineiamas estraté-giasdossujeitoshistóricos.
Nessesentido,nãodevemoscompreenderotempolivre e o tempo detrabalho deforma dicotômica, precisamos, sim, pensar de que forma o indivíduo moderno conse-gue ‘‘driblar’’ essa dicotomia. Temos consciência de que o aumento do tempo livre não se deve ao processo de automac¸ãodecorrentedoprogressotécnico,poisnomodo de produc¸ão capitalista não assistimos à‘‘libertac¸ão’’ do homem, seja no campo ou na indústria. O que observa-mos,em grandeparte,comesseincrementotecnológicoé a flexibilizac¸ão e a precarizac¸ão do trabalho,nas quais o aumentodotempolivre nãosignificaaumentodesalário, massimoaumentodamisériahumana.
Dessa forma, concordamos com Mascarenhas (2000, p.87)quandoobservaque
Sob os auspícios do capital, a verdadeira liberdade no temponãoresidiria,portanto,nofazer‘‘oquesequer’’, masnapossibilidadedeumexercíciocríticoe compro-metidamentesuperadordenossomododesentir,pensar eagirquenãoocorresomentenoplanoindividual,mas se dá dialeticamente articulado com o conjunto das outrasrelac¸õesqueseestabelecememumadeterminada organizac¸ãosocial.
Acreditamosque talvezsejapormeiodacultura popu-lar,daorganizac¸ãocoletivadascomunidadescomseuslac¸os sociais, que poderemos compreender as experiências no âmbito dolazerdeformatransformadora. Nessa perspec-tiva, Rechia(2006, p. 94) considera relevantepensar nas práticassociaisfeitasnosinterstíciosdavidaurbanacomo uma‘‘linhadefuga’’aotempodetrabalho.Deacordocom aautora,‘‘ssasexperiênciaspodempossibilitaraaquisic¸ão denovosvaloreshumanos,osquaissediferenciamdemeras atividades compensatórias,funcionalistase consumistas’’. Alémdisso,afirmaqueparaentenderalgumasexperiências dolazercomoumapossibilidadederesistência,precisamos antesdetudo ‘‘compreender quenointerior das práticas delazerepormeiodelasossujeitos,conscientesounão, podemfazer---naextensãodesuaspossibilidades---acrítica desuavidacotidiana’’(Rechia,2003,p.16).
paraqueexistaosegundo,masissonãoexcluiumarelac¸ão dialéticaentreeles,poiséapartirdosegundoestágioque podemoschegaràliberdadeobjetiva,ouseja,otempolivre deestádiretamenteligadoaotempodetrabalho,enquanto otempolivreparadeveserconcebidocomoumtempo dire-cionado ao desenvolvimentoda liberdade plena, seja por meiodasdiversaspráticasculturais,pelodescansooupela contemplac¸ão,oupelaexecuc¸ãodeatividadesobrigatórias, deformac¸ãopessoalousocial.
Procedimentos
metodológicos
Comoafirmamosanteriormente,decidimospelaabordagem qualitativa, pois favorece o uso de grande variedade de procedimentoseinstrumentosdecoletadedados.Os recur-sos metodológicos selecionados se inspiram na estratégia datriangulac¸ãodos dados,aqual,segundo Minayo(2005, p. 199), ‘‘processa-se por meio do diálogo de diferentes métodos,técnicas,fontesepesquisadores’’.
Para tanto, usamos primeiramentea aplicac¸ãodo pro-tocolode análisedescritivanos espac¸ospúblicos de lazer daregião analisada. Nasequência fizemosas observac¸ões dosdiferentesespac¸osemdiferentesmomentos. Posterior-mente fizemos asentrevistas e finalizamos com a análise interpretativacomatriangulac¸ãodosdados.
Nessaetapa, nossaproposta éapresentarasdiferentes prac¸aseagrupá-lasemtrês.Oprimeirogruposãoasprac¸as que apresentam equipamentos sociais ou igrejas. Dentre elasdestacam-seasdenúmero1,4,9e12.Osegundogrupo refere-se àsprac¸as que nãoapresentam umaapropriac¸ão considerada adequada,pois aspessoas nãotêm um senti-mentodepertencimento(7),ouquesãoapropriadas,mas deformamenosconstante(2,3,5,6,10e11),eporúltimo aquelasque,alémdeumaefetivaapropriac¸ão,apresentam algumassingularidades (8e Central). Aseguir, apresenta-mosumdesenhoesquemáticodaVilaNossaSenhoradaLuz (fig.1),comas13prac¸asemdestaqueparamelhor compre-ensãodoespac¸oestudado.
Nosso objetivo foi ver a realidade concreta, ou seja, comosecaracterizaecomoocorreaapropriac¸ãodasprac¸as públicas. As prac¸as apresentam diversas características, Entreelaspodemoscitaraacessibilidade,queépermitida atodasaspessoas, alémdapossibilidadedesociabilidade quehánesseslugares.Adinâmicadasrelac¸õessociaisque se estabelecem nas diferentes prac¸as pode ser influenci-adapelacomposic¸ãodosespac¸osedeseusequipamentos, quepodempropiciarodesenvolvimentodareflexãocrítica arespeitodocotidiano.Dessaforma,osespac¸ospúblicosse caracterizamcomoexpressãodavidacoletivanascidades.
As
formas
de
apropriac
¸ão
das
prac
¸as
Emnossasobservac¸õestivemoscondic¸õesdeperceberque dentrodoprimeirogrupoexistemalgumasespecificidades. Aprac¸a7temespac¸oseequipamentos,massuaapropriac¸ão équaseinexistente.Deacordocomumamoradorados arre-dores‘‘as pessoas preferem ir paraasoutrasprac¸as para brincaroujogar futebol.Além disso, ànoite nãoé muito segura’’. Essa desapropriac¸ão muitas vezes pode ocorrer pelaquestãodainseguranc¸aetambémpelonúmero exces-sivodeespac¸os.
6
5
4
3
10
11
12
2
1
9
Praça
central
7
8
Figura1 DesenhoesquemáticoquerepresentaaVilaNossa Senhorada Luz comsuas13 prac¸asem destaque esuas res-pectivasnumerac¸ões.Asprac¸assãoretratadaspelosmoradores pelosnúmeros,enãopelosnomes.
1,Prac¸aMiltonCézardaSilva;2,Prac¸aArideSouza;3,Prac¸a AlbertodaSilva;4,Prac¸aAlceuMileke;5,Prac¸aEliRibeiroda Silva;6, Prac¸a Donizete Custódio da Silva; 7, Prac¸a Euclides daSilva;8,Prac¸aJoséCostadoNascimento;9,Prac¸aLinoda Costa,10,Prac¸aPantelisStergov Zafires;11,Prac¸aLuiz Otá-vioLeal;12,Prac¸adoEvangelhoQuadrangular;Prac¸aCentral, Prac¸aEnochAraújoRamos.
Fonte:FelipeSobczynskiGonc¸alves,2013.
Jánasprac¸as1e4osespac¸oseequipamentosdelazer e esporte são reduzidos pela existência de equipamentos sociais,como umacrechee o armazém dafamília5, além
do posto de saúde. Devido a isso, essas prac¸as têm um espac¸oreduzidoparaosequipamentosdestinadosàs experi-ênciasnoâmbitodolazer.Apesardisso,nãopodemosdizer queessesequipamentoscaracterizam-sedeformanegativa dentrodaVNSL,poispossibilitamqueacomunidadetenha condic¸õesdecompraralimentosdeprimeiranecessidadea
5Sãounidadesfixasdeabastecimentoinstaladasempontos
umcustoreduzido---trata-sedeumacomunidadeque apre-sentaumacondic¸ão socioeconômicadesfavorável ---, além depermitir aosmoradoresdeixarem seusfilhosnumlocal próximo às suas residências que não se preocupa apenas comcuidardascrianc¸as,mastambémcomcontribuirpara aeducac¸ãodelas.
Nas prac¸as 9 e 12 estão duas igrejas que reduziram osespac¸osde lazer. Dessaforma,podemos afirmarque a apropriac¸ãodacomunidadeéreduzidapelaspoucas possi-bilidadesdeespac¸oeequipamentosquesãoapresentadas. Diferentementedas prac¸as que apresentamequipamentos sociaiseque procuramatenderàtotalidadedapopulac¸ão daVNSL, essesterritórios demarcados pelas igrejas aten-demaumadeterminadaparcela.Nãoestamos julgandoa importância de cada manifestac¸ão religiosa, acreditamos quetodasprecisam terseusespac¸os.Nãoobstante, deve-ria haver outro local para que elas se instalassem ou ao menosquenão ficassemlocalizadas nocentro daprac¸a e inviabilizassema construc¸ão de outros equipamentos que possibilitariam outras experiências sociais, culturais e de lazer.
O segundo grupo são as prac¸as que, apesar da apropriac¸ão,tinhamnúmeroreduzidodepessoasqueas usa-vam,permaneciamporpoucotempoounãoapresentavam atividadesistematizada.
Mesmoqueaapropriac¸ãodessasprac¸asnãoseefetivasse deformaconstante,ouseja,porumperíodoprolongadoou emtodos osdiasdasemana,podemos ressaltar que algu-masexperiênciasimportantes foramobservadas enquanto estivemosemcampo.As manifestac¸õeslúdicassefizeram presentesemtodososmomentos,sejana‘‘fabricac¸ão’’do cerol6 pelos meninos, nas brincadeiras noplayground, na
areia,nosjogosdefutebol,noandardebicicletaeaténas conversasdassenhorasnosbancosdoplayground.
Essasseisprac¸asapresentamumarotina,quaseque diá-ria, em sua forma de apropriac¸ão. Isso não significa que tiverammenorrelevânciaparanossoestudo,mascomoas experiências vivenciadas pelos moradores passaram a se repetirrapidamente e como aspessoas permaneciampor poucotemponessasprac¸as,nãodesenvolvemosumaanálise tãoaprofundada.
Oterceirogrupoapresentaumamovimentac¸ão diferenci-adaemrelac¸ãoàsdemais.Naprac¸a8,nosdiversosperíodos ediasdasemana, notamosquecomseusequipamentos é efetivamenteapropriada.Oquedifereessaprac¸adas res-tantesé aatividadedesenvolvidadeformasistemática há aproximadamente25 anos.Trata-sedofutebolaos domin-gos e nos feriados,a partir das 9h, quandoos moradores dascercanias,amigoseantigosmoradoressereúnempara jogar.
DeacordocomS.F.C.,7aofalar sobreaorganizac¸ão da
atividade,
játemocartãodetodo mundo,fazemossorteionome pornomeparanãoficaremtimes muitoforteseoutros
6Ocerol(compostodepódevidroecolagoma)épassadonofio
paradeixá-lomaisresistente,alémdeserusadocomoobjetivode cortarofiodeoutraspipas.Ocerolporserfeitocompódevidroe éextremamentecortante.
7 Osparticipantesdapesquisativeramsuasidentidades
preserva-daspararespeitaraprivacidadedeles.
muitofracos.Entãodividonacadernetaosnomesefac¸o osorteiodostimesparapoderjogar,porquesefosseno gritonãotinhajeitodefazer.
Complementandoasinformac¸õesarespeitodaformade organizac¸ão,R.C.L.afirmaque
essaatividadenaprac¸afoifeitaparaserumaassociac¸ão, apessoapagadoisreaispormês,prec¸omínimoequando puder [...].É cobrado só pracomprar bola e às vezes quandoestáfaltandorede.Quemcompraomaterialéo S.F.C.,queéresponsávelpelaorganizac¸ão.
Podemosafirmarqueessas pessoas têmnofutebolsua identidade, seja ela pertencer a um grupo, de cuidado, atenc¸ão,afeic¸ãoouatémesmodeguardarreferências fami-liares.Esseúltimopontoestápresentenessaatividade,pois foipossívelconstatarospaisseencontrandocomseusfilhos enetosnodecorrerdosjogoseatémesmojogandojuntos. Jáa Prac¸aCentral apresentaalguns equipamentos que a distinguem das demais e possibilitam outras formas de apropriac¸ãopelacomunidade.Uma possívelrespostapara que essa prac¸aesteja tão bemequipada refere-se à cen-tralidadequeelatemnaVilaeporteracessoapartirdas duasruasprincipais8.Essaprac¸aéaresponsávelpelagrande
movimentac¸ãoqueocorrenaVNSL,principalmentenosfins desemana.Nodecorrerdoanosãoorganizados campeona-tosdefutebolebocha,principalmenteparaosadultos.
Durante nossa pesquisa, tivemos a oportunidade de observar diferentes práticas corporais vivenciadas pelos moradores dacomunidadeno seutempo/espac¸ode lazer. Dentreelas podemosdestacar:soltar pipa,andar de bici-cleta, pular de pogobol, subir em árvore, brincar no playground,brincarnosaparelhosdeginásticacomosefosse otrepa-trepa,subirnoalambrado,jogarbocha,jogar fute-bol(gol agol),jogar bolinha degude,grassboard (descer o barranco de grama com tábua), pular elástico, brincar deesconde-esconde,caminharpelaprac¸a,jogardamacom pec¸asdexadrezeconstruirbalanc¸acomcadeirinhadebebê (paracarro)ecordadeamarrarlonadecaminhão.
Asduasúltimaspráticaschamaramatenc¸ão,pelofatode essaprac¸aseraúnicaquetemmesasdexadrez.Noentanto, poderiaestar presentenas outrasprac¸as, pois, deacordo comJ.A.J.,
asmesascomtabuleiroserviriamcomoumconvitepara queaspessoasviessemdeformaespontâneaparaa prá-ticae, assim,nãoprecisariamficar cac¸andoadversário [...].Nemtodomoradorestácredenciadofisicamentea praticarumesportedeatividadefísica.Então,teriade estimularmaisatividadesintelectuais.
Jácomrelac¸ãoàadaptac¸ãodabalanc¸a,omoradorA.S. afirma:
Nóstemosparquinhosláembaixo,quesótemonomede parquinho,nãotemgangorra,nãotembalanc¸a.Então,a gentetemqueestarimprovisandoassim,comovocêviu, eu fazendobalanc¸o para ascrianc¸as brincarem, sendo que,porcerto,deveriajáterosbalanc¸osnasprac¸as.
8R.DaviXavier daSilvaeR.OrlandoLuisLamarca,VilaNossa
Apartir dessasfalas, podemosafirmarqueesses mora-doresjogaram com oacontecimento, comassituac¸ões,e ostransformaramem‘‘ocasião’’.Queremosdizercomisso queosmoradoresaproveitaramasbrechasexistentes,para, demaneiraastutae criativa,reinventaraformadejogar e brincar e dar outro sentido àquelas pec¸as de xadrez e aosmateriaisdabalanc¸a.Podemosafirmarqueessaéuma das ‘‘maneiras de fazer’’ a que se refere Certeau (1994)
econstituiasdiferentespráticaspelasquaisaspessoasse apropriamdoespac¸o.
Nessaprac¸aháumequipamentosocialquemerece des-taque.Trata-sedoFaroldoSaber.Esseespac¸o,alémdeser umabiblioteca,ofereceváriosprojetosparaacomunidade, como,por exemplo,oficinade origami,xadrez,ginástica, aulasdeviolãoekaratê.
Dessa forma,podemos afirmarque esse lugar, a prac¸a central,éoqueapresentamaioresoportunidadesde expe-riências no âmbito do lazer, pelos projetos do Farol do Saber, pelos campeonatos de futebol ou pelos diferentes equipamentos que compõema prac¸a,o que propiciauma apropriac¸ão maisefetivapor partedacomunidade, desde crianc¸as, jovens e adultos que moram nas redondezas ou nasoutras12prac¸as.
Assim, é possível assegurar que esse grupo apresenta um movimento diferenciado, principalmente nos fins de semana,alémdeapresentarsingularidadesqueas diferen-ciam das outras prac¸as, pois são asúnicas que oferecem atividadesconstantesenãodependemdeumaúnicapessoa oudeumórgãoespecíficoparaserdesenvolvidas.
Apartirdaanálisedasdiferentesprac¸as,podemosinferir queaexistênciademuitasprac¸asnumdeterminadoespac¸o podefazercom queparte delas torne-sesubusada.Outro ponto importante a ser levado em considerac¸ão diz res-peito aos equipamentos que contribuem para o processo deapropriac¸ãodosespac¸osdelazer.Porémnãoépossível afirmarquesozinhosgarantamumavivênciadiversificadae constante.Aapropriac¸ãoàprimeiravistanosdáaimpressão deserumasimplesquestãodeatitudeindividual,masnão devemosnosdeixariludirportalconvicc¸ão,pelofatodeque muitasvezesparaqueelaocorraénecessárioumambiente adequado,ouseja,seguranc¸a,manutenc¸ão,equipamentos adequados,acessoeacessibilidade.
Finalizando
o
debate
por
ora
Procurandofinalizaro debateporora, podemos dizerque a ideia de um estudo concreto, no caso o espac¸o deno-minadoVilaNossaSenhoradaLuzcomseusequipamentos de lazer, coloca-secomo o estudo do lugar como expres-são,materialidadeespacial.NaspalavrasdeRelph (1976), citadoporSantos(1997,p.124),‘‘oslugaressão,eles pró-prios,expressão atualdeexperiênciase eventospassados e deesperanc¸as nofuturo’’.Assim,cada grupode prac¸as comseusequipamentose comsuasformasdeapropriac¸ão singulares pode caracterizar-se como diferentes lugares. Nessa perspectiva, o lugar, ou melhor, cada prac¸a pode serconsiderada‘‘oteatroinsubstituíveldaspaixões huma-nas,responsáveis[...]pelasmaisdiversasmanifestac¸õesde espontaneidadeecriatividade’’(Santos,1997,p.258).
Tivemoscondic¸õesdeperceberqueocotidianoé compar-tilhado porregras formuladase reformuladaslocalmente.
O lugar é, por essência, responsável pelas experiências vivenciadasdeformasignificativapormeiodasolidariedade existentenessasprac¸asepelaludicidadeproporcionadanas diversasmanifestac¸ões.
Desse modo, temos condic¸ões de afirmar que essas relac¸ões sósão possíveisde ser observadas noâmbito do lazer.Nessesentido,nãobastaterumolhardecima, preci-samos,sim,conhecerafundoarealidadepesquisadapara vercomoseefetivaocotidianocompartilhado.
A partir de nossa pesquisa, podemos afirmar que as prac¸aspermitemaosmoradoresasociabilidade,atrocade experiências,aconversa,e confirmamqueadinâmicadas relac¸õesque se estabelecem nesses lugares pode influen-ciar diretamente na forma de apropriac¸ão dos espac¸os e equipamentos.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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