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Estrongiloidíase em pacientes com pênfigo foliáceo.

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R e v is ta d a S o c ie d a d e B r a s ile ir a d e M e d ic in a T r o p ic a l 24(3 ):1 4 5 -1 4 9 , ju l-s e t, 1991

ESTRONGILOIDÍASE EM PACIENTES COM PÊNFIGO

FOLIÁCEO

J o s é T a v a r e s - N e t o , D e n i s e B a r c e l o s A l v e s , J o s é U m b e r t o F r a n c i s c o n e C a r l o s R o b e r t o S . S e r r a n o

Em 30 pacientes com pênfigo foliáceo, a freqüência da estro n g ilo id íase foi de 4 0 ,0 % , através de três exam es de B aerm ann-M oraes. No "H ospital do P ên fig o ” , em U beraba, as freqüências da estrongiloidíase nos funcionários (n = 14) e escolares (n = 47) da E sco la-crech e, anexa, tam bém foram altas, respectivam ente 35,7% e 23,4% . Em 7 (58,3 %) das 12 am ostras do solo, do jard im /p átio do “H o sp ita l” , foram o b serv ad as form as de vida livre do S tr o n g y l o i d e s s t e r c o r a l i s . O fato r am biental e a predisposição dos pacientes foram associados à alta transm issão da estrongiloidíase.

Palavras-chaves: Pênfigo foliáceo. Fogo selvagem . E strongiloidíase. Exam e B aerm ann-M oraes.

A im unodeficiência nos portadores do pênfigo foliáceo endêmico (fogo selvagem) tem diferentes origens: componente auto-imune da d o en ça1 23 2\ c o rtic o te ra p ia 5 6 23 24 31, uso de im unosupressores10 23 24, plasmafere23, infecções secundárias“ e outras doenças associadas, inclu­ sive com plicações e feitos secundários do tratam ento22.

A in tro d u ç ã o d o s c o rtic ó id e s na terapêutica dos pênfigos, nos anos cinqüenta, alterou, favoravelm ente, a evolução21. O uso, porém , de drogas im unosupressoras, aumentou o risco do aparecim ento de neoplasias e infecções p rin c ip a lm e n te p e lo s m ic ro o rg a n ism o s o p o rtu n ista s11 27. A ssim , a c o rtico terap ia prolongada e em doses altas, recomendada no tratamento do pênfigo foliáceo, explica, em parte, a depressão da imunidade celular2654.

P ortan to , os portadores de pênfigo foliáceo têm vários fatores predisponentes para adquirirem infecções, entre elas a estrongiloidíase. A depressão da imunidade celular, principalmente, tem sido associada à ativação do ciclo de auto- infecção do S tr o n g y lo id e s s te r c o r a lis , ocorrendo

Trabalho da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG.

Suporte financeiro CNPq.

E n d e r e ç o p a r a c o r r e s p o n d ê n c ia : Dr. José Tavares-Neto. R. Marquês de Caravelas, 262/101, Barra, 40140 Salvador, BA Recebido para publicação em 16/01/91

a hiperinfecção com disseminação sistêm ica das larvas filariformes85 14 17 32. Por isto, nosso objetivo foi avaliar a freqüência da estrongiloidíase intesti­ nal, em pacientes portadores do pênfigo e em indivíduos controles.

M ATERIAL E M ÉTODOS

Os pacientes portadores de pênfigo foliáceo estiveram internados no “Hospital do P ênfigo” , Lar da Caridade de Uberaba, no período de agosto a novembro de 1988. D e cada paciente, foram obtidas informações pessoais e pesquisados dados clín ico -ep id em io ló g ico s. C om o o tem po de internação era muito variável, inclusive a época de início do corticóide, na ficha individual havia interrogatório com escores de zero a três (conform e intensidade do sintoma ou sinal) estabelecendo o quadro clínico6 121323 33, pré-corticoterapia e atual. O paciente somente foi incluído, no estudo, se na admissão o somatório dos escores era igual ou superior a 20 dos 27 pontos possíveis (para os sintomas e sinais considerados m aiores); os que somaram entre 15 e 19 pontos foram examinados após o início da terapêutica. Desse m odo, dos 36 p a c ie n te s in te rn a d o s , 32 ( 8 8 ,9 % ) fo ra m selecionados.

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T a v a r e s -N e to J , A lv e s D B , F r a n c is c o n J U , S e r r a n o C R S .E s tr o n g ilo id ía s e em p a c ie n te s c o m p ê n f ig o fo liá c e o . R e v is ta d a S o c ie d a d e B r a s ile ir a d e M e d ic in a T r o p ic a l 2 4 :1 4 5 -1 4 9 , j u l - s e t , 1 9 9 1

funcionários do m esm o “ H o spital” (n = 1 4 ). C ontudo, 12(85,7% ) funcionários do “H ospital” tiveram pênfigo no passado. As crianças com pênfigo, que estudavam na Escola-creche, foram incluídas no grupo dos pacientes.

Após a seleção do paciente fazia-se três exam es parasitológicos de fezes, através dos seguintes métodos: direto, flutuação com sulfato de zinco (Faust), sedimentação (Hoffman-Pons- Janer) e B aerm ann-M oraes. N os indivíduos c o n tr o le s fo ra m r e a liz a d o s tr ê s ex am es parasitológicos de fezes, através dos mesmos m étodos. As fezes eram exam inadas, sem a utilização prévia de conservantes. Todos os exames, foram realizados no Hospital Escola da Faculdade de M edicina do Triângulo M ineiro (FM TM ), Uberaba.

Nos pacientes portadores de pênfigo, além da história e exame clínico, foi realizado o exame radiológico do tórax. Estes eram naturais e/ou com residências anteriores na região do Triângulo M ineiro, ou nas regiões vizinhas, dos Estados de São Paulo e Goiás (n = 2 8); dois eram do estado do Paraná e M ato Grosso do Sul. Em 21 pacientes (70,0 %) havia relato de residência anterior próximo a cursos d’água naturais. Todos os pacientes residiram na área rural e/ou em cidades com menos de 5000 habitantes. Todos os pacientes tinham ocupações atuais e anteriores vinculadas ao setor p r im á r io , p rin c ip a lm e n te as a tiv id a d e s agropecuárias (n = 22); secundariam ente eram profissionais não-qualificados ou braçais (n = 5) ou estudantes ( n = 3). O tempo da doença variou de 9 meses a 20 anos (média de 2,2 anos); sete pacientes relatavam casos semelhantes em parentes casangüíneos. O tempo aproximado, em meses, do uso do corticóide teve média de 37,8; com ampla variação (1 a 204 meses). Nenhum paciente tinha, ao exame radiológico, lesão pulmonar sugestiva de tuberculose, em atividade ou mesmo de micose profunda. Contudo, 8 (26,7% ) pacientes tinham alterações radiológicas susgestivas de tuberculose antiga e resolvida.

R E S U L T A D O S

Dos 36 pacientes internados, 32 foram selecionados com pênfigo foliáceo, e destes, em

30 pacientes os exames parasitológicos de fezes foram completos.

Na Tabela 1, observa-se a freqüência da estrongiloidíase (40,0 %) e a distribuição conform e a faixa etária e sexo, nos 30 pacientes portadores do pênfigo foliáceo. A idade média foi de 32,5 anos (+ 16,0), com limites de 8 a 72 anos. A freqüência da estro ng ilo id íase não alcançou significância entre as duas faixas etárias analisadas ( < 36 e > 36); reagrupadas em conseqüência do pequeno número de casos. D e igual m odo, não houve diferença estatística entre os sexos, apesar da freqüência de portadores da estrongiloidíase ser m aior (5 2,6 % ) no sexo m asculino, quando comparados aos do sexo feminino (18,2% ).

Entre os escolares (n = 47) da Escola- creche do “Hospital do Pênfigo” a idade variou de

2 a 14 anos (média de 8,68 ± 2 ,84 anos), sendo

22(46,8% ) do sexo feminino e dois indivíduos usavam corticóide (devido a doenças alérgicas). Entre os funcionários (n = 1 4 ), a idade variou de 16a58anos (x = 29 ,4 2 ± 13,37 anos) e oito (57,1 %) eram do sexo fem in in o . A fre q ü ê n c ia da estrongiloidíase nesses grupos foi de 23,4% (11/ 47) nos escolares e de 35,7% (5/14) entre os funcionários.

Em vista destes resultados, as larvas de estrongilóides foram pesquisadas em doze amostras do solo do jardim central/pátio do “Hospital do Pênfigo” através da técnica de Baermann-M oraes modificada; sete (58,3 %) amostras do solo tinham

S tr o n g y lo id e s de vida livre.

A freqüência da estron gilo id íase no primeiro ( I o.) exame de fezes, no I o. + 2 °. exam es e no I o. + 2 ° . + 3 ° . exam es foi, respectivamente: 10,0% (3/30); 23,3% (7/30) e 40,0% (12/30). A diferença entre a freqüência observada no I o. exam e(10,0% )ecom osom atório dos três (40,0% ) foi altamente significante (x3 = 7,2 p < 0,01; g.l = 1). Vale ressaltar que os exames Baermann-Moraes não foram realizados ao mesmo tempo, ou seja, enquanto era realizado o 3 o . exame de um paciente estava, também, sendo feito, o I o. de um outro indivíduo.

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T a v a r e s -N e to J , A lv e s D B , F r a n c is c o n J U , S e r r a n o C R S .E s tr o n g ilo id ía s e em p a c ie n te s c o m p ê n f ig o fo liá c e o . R e v is ta d a S o c ie d a d e B r a s ile ir a d e M e d ic in a Tropical, 2 4 : 1 4 5 - 1 4 9 ; j u l - s e t , 1 9 9 1

T a b e la 1 - D is t r ib u iç ã o d a e s t r o n g ilo id ía s e n o s p o r ta d o r e s d o p ê n f ig o f o liá c e o , d e U b e r a b a c o n fo rm e a fa ix a e tá r ia e s e x o .

L a r v a s d e e s t r o n g i l ó i d e s n ( % )

E s t a tí s ti c a V a r i á v e l

p o s it i v o n e g a t i v o

F a i x a e t á r i a (a r to s )

8 1- 2 2 2 7

2 2 1- 3 6 5 ( 3 8 , 9 ) 4 ( 6 1 , 1 ) T e s t e e x a t o F is c h e r

(p = 0 , 2 9 )

3 6 | - 5 0 2 5

> 0 , 0 5

5 0 1- 7 2 3 < 4 1 ,7 ) 2 ( 5 8 , 3 )

S e x o T e s t e d e p r o p o r ç ã o

m a s c u l i n o 1 0 ( 5 2 , 6 ) 9 ( 4 7 , 4 ) Z c = 0 , 5 2

% p = 0 , 6 0

f e m in i n o 2 ( 1 8 , 2 ) 9 ( 8 2 , 2 ) lim ite s c o n f ia n ç a = 0 , 0 2 - 0 , 6 6

T o ta l 1 2 ( 4 0 , 0 ) 1 8 ( 6 0 , 0 )

DISCUSSÃO

Nos portadores do pênfigo foliáceo tem sido descrita m aior predisposição à tuberculose6, à monilíase21 e às estafiloccócias2 M. A estrongiloidíase disseminada, também, tem sido observada em indivíduos com pênfigo foliáceo3 20.

N a lite r a tu r a não e n c o n tra m o s levantamento parasitológico de fezes entre pacientes portadores do pênfigo foliáceo, pesquisando larvas do S. s t e r c o r a lis , através de técnica com maior

sensibilidade (Baermann-M oraes). Leme24 assinala que as parasitoses intestinais, em geral, são freqüentes nos portadores do pênfigo.

N a estrongiloidíase, habitualm ente, a eosinofilia alcança elevados números absolutos7. Os eosinófilos, nas helmintíases têm função efetora, na mucoSe intestinal2930, mediada pelo linfócito T através do P E E (p ro m o v e d o r do estím u lo eo sin ó filo )29. N os pacientes com pênfigo, a

eosinofilia é habitualm ente observada15 18 19 23 25.

Assim, conform ea associação descrita, a eosinofilia no paciente com pênfigo poderia ter duas origens distintas.

Independentemente da possível associação da estrongiloidíase intestinal com o pênfigo foliáceo, secundária à im un od eficiência, os re su lta d o s m o stra ra m fo rte in flu ê n c ia do com ponente am biental, no local pesquisado. C onclusão evid enciada p ela sem elhança da freqüência da estrongiloidíase entre os três grupos de indivíduos do “H ospital do Pênfigo” . Deste modo, a pesquisa de S t r o n g y lo id e s de vida livre,

no solo, foi positiva em vários locais do jardim central/pátio do “H ospital” onde os indivíduos têm recreação, reuniões, descansam, trabalham, entre outras atividades.

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T a v a r e s -N e to J , A lv e s D B , F r a n c is c o n J U , S e r r a n o C R S. E s tr o n g ilo id ía s e e m p a c ie n te s c o m p ê n f ig o fo li á c e o . R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d i c i n a T r o p ic a l 2 4 : 1 4 5 - 1 4 9 , j u l - s e t , 1 9 9 1

atendidos no 2 o sem estre de 1987 (JU Franciscon: dados não publicados). Portanto, a freqüência alta da estrongiloidíase no “Hospital do Pênfigo” foi favorecida, p o r certo, pela concentração de indivíduos susceptíveis e infectados (pacientes com pênfigo), em condições ambientais favoráveis, am plificando a infecção através do ciclo direto, mesmo entre os indivíduos imunocompetentes (escolares). Provavelm ente situação semelhante ocorre em outras instituições, como asilos/colónias/ abrigos para hansenianos, tuberculosos e doentes mentais.

A depressão da imunidade celular, no pênfigo e na estrongiloidíase grave, justifica a prevenção e o controle desta infecção parasitária pelos graves riscos que predispõe aos pacientes. Desse m odo, a corticoterapia principalmente, em doses supressivas e, por tempo prolongado, deveria

ser instituída após a pesquisa de larvas do S.

s t e r c o r a l i s " .

C ontudo, as larvas rhabditiform es, do S.

s te r c o r a lis , não têm distribuição uniform e nas

fezes, o que dificulta o diagnóstico, mesmo através do s m éto d o s c o p ro ló g ic o s m ais sen sív eis (Baermann-M oraes e formol-éter). Por isso, é sem pre recomendável os exames parasitológicos de fezes seriados7 36. Os nossos resultados evidenciam a vantagem dos exames coprológicos seriados no diagnóstico da estrongiloidíase, através da freqüência de 40,0% com os três exames e de 10,0% observada no prim eiro exame de fezes.

Com os resultados prelim inares4, em n o v e m b r o d e 1 9 8 8 , os p o rta d o re s da estrongiloidíase foram tratados e a direção do “H ospital do Pênfigo” pavimentou os locais de m aior risco para o ciclo indireto, de vida livre do

S . s t e r c o r a l i s . Após 14 meses, a freqüencia

encontrada foi de 6,9% (2/29 - pacientes e escolares). Assim, a interrupção dos ciclos de vida do S . s t e r c o r a lis , em situação semelhantes, deve

ser preocupação constante dos clínicos e das direções das instituições.

SUMMARY

In 30 patients with foliaceous pemphigus the frequency o f strongyloidiasis was 40% , by three B aenuaiin- M oraes examination. In the “Hospital do Penfigo", for patients with pemphigus o f Uberaba, the frequencies of

strongyloidiasis in the employees (n = 14) and students (n= 47), o f the annexed nursery, also were high, respectively 35.7 % and 23.4% . In 7(58.3) o f 12 samples from the soil of the hospital courtyard were found free-life forms of S tr o n g y lo id e s . The environmental factor and the susceptibility o f the pacients w ere asso ciated w ith the h ig h tran sm issio n o f the strongyloidiasis.

Key-words: Foliaceous pem phigus. W ildfire. Strongyloidiasis. Baermann-Moraes feces examination.

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