SEGMENTAÇÃO EM MERCADOS INDUSTRIAIS
Um estudo exploratório sobre o estágio
atual da prática da segmentação no
Brasil, sob uma perspectiva global
Banca examinadora
Prot. Orientador: Celso Cláudio de Hildebrand e Grisi
Prot. Antonio Brito Jesus Cosenza
WAL TER ROBERTO BONOMO
SEGMENTAÇÃO EM MERCADOS INDUSTRIAIS
Um estudo exploratório sobre o estágio
atual da prática da segmentação no
Brasil, sob uma perspectiva global
Dissertação apresentada ao Curso "Master in Business Administration" da EAESP/FGV como requisito para a obtenção de título de mestre em Administração.
Orientador: Prof.Or. Celso Cláudio de Hildebrand e Grisi
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São Paulo 1996
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SUMÁRIO
1. mTRODUçAO •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••1
1.1. SEGMENTAÇÃO 1
1.2. AEVOLUÇÃO DAS MEGACORPORAÇÕES 4
1.3. AVANTAGEM CoMPETITIVA EM UM MERCADO GLOBALIZADO 10
2. OBJETIVOS DO TRABALHO ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••14
3. METODOLOGIA ••••••••••••.••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••16
3.1. METODOLOGIA DA PESQUISA DE CAMPO 17
4. REFERENCIAL TEÓRICO ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••.•••••••••••.••.•••22
4.1. BENEFÍCIOS, RISCOS E DIFICULDADES NO PROCESSO DE SEGMENTAÇÃO 22
4.1.1. Impacto sobre as estratégias de Marketing 23 4.1.2. Impacto sobre programas que não os de Marketing 27
4.1.3. Custos envolvidos na Segmentação - a análise de custo/ beneficio 30 4.1.4. Avaliação do método de segmentação 34
4.2. MODELOS DE SEGMENTAÇÃO DE MERCADO 37
4.2.1. O Modelo Macro-Micro 38
4.2.2. Variáveis de Segmentação 40
4.3. OBSERVAÇÕES SOBRE A PRÁTICA ATUAL NO BRASIL. 47
4.4. SEGMENTAÇÃO EM UM MERCADO GLOBALIZADO 53
4.4.1. A segmentação em mercados globalizados com base nas estratégias de concentração
ou dispersão dos clientes 55
4.4.2. Ambiente e Cultura 59
5. ANÁLISE, CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••62
5.1. ENTREVISTAS 62
5.2. RESULTADOS 62
5.3. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES 67
6. CONCLUSÕES FINAIS ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••.72
7. RESTRIÇÕES E LIMITAÇÕES DO ESTUDO ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••.•••••••••••.•••74
8. RESUMO •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••.••••••••••••••••••••••••••••••••••••••.•76
ANEXO I - ROTEIRO DE ENTREVISTAS •••••••.•••••••••••••••••••••.••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••.•••••78
ANEXO n-RESUMOS DAS ENTREYISTAS ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••.••••••••••••••••••••••80
EMPRESA 1 80
EMPRESA 2 84
EMPRESA 3 87
EMPRESA 4 90
EMPRESA 5 91
EMPRESA 6 96
EMPRESA 7 98
EMPRESA8 101
EMPRESA 9 102
EMPRESA 10 107
Agradecimentos
Este trabalho não teria sido possível sem a colaboração e suporte de
pessoas e entidades a quem devo meus agradecimentos:
A meus pais, que sempre procuraram me fornecer uma sólida base
moral sobre a qual construir uma vida e uma carreira.
Ao meu orientador, Prof. Celso Grisi, que além de orientação e
conhecimento também me honrou com sua amizade e apoio.
À Philips, pela confiança em mim depositada, oferecendo-me a
oportunidade e patrocínio para o MBA.
Aos profissionais e as empresas que colaboraram com este trabalho,
dispensando seu tempo e compartilhando sua experiência.
Aos amigos e professores do MBA que souberam ser companheiros
1.
Introdução
1.1. Segmentação
O ser humano está sempre, consciente ou inconscientemente,
segmentando as coisas a sua volta. Classificamos e agrupamos as pessoas
em amigos, colegas epersonas non gratas, alimentos que gostamos ou que
não gostamos, ou que gostamos e que engordam (um segmento
dolorosamente grande), e outros que não engordam. E para cada um desses segmentos desenvolvemos uma estratégia de abordagem diferente,
procurando agradar os amigos, tratar bem os colegas, evitar os alimentos
que engordam e assim por diante.
Dentro da prática de Marketing, a segmentação se dará também de
maneira automática, pragmática, através do senso comum, caso não
assumamos uma estratégia de segmentação deliberada, o que sem dúvida é o correto a ser feito a fim de não se cair nas armadilhas da informalidade. E a segmentação dentro da estratégia mercadológica tem um papel
fundamental, pois assim como em nossa vida devemos saber como abordar diferentes grupos de clientes ou mercados, da mesma maneira como não tratamos todas as pessoas igualmente ou não ingerimos todos os alimentos com a mesma facilidade. Nem todas as pessoas aceitam o mesmo tratamento e nem todos os alimentos nos farão bem. Esta analogia nos diz
clientes podem ser interessantes e lucrativos para a empresa. E aqueles
interessantes devem também ser classificados segundo a prioridade, o
custo e o risco em atendê-los1.
Este ponto deverá ser olhado com um pouco mais de cuidado a fim de entendermos a real necessidade prática de dividirmos os mercados e os
grupos de clientes em segmentos. Primeiramente, uma definição clara de
segmentação deverá ser adotada: segmentar é tomar um mercado
heterogêneo e dividi-lo em porções homogêneas, de maneira que cada uma destas porções seja mais facilmente identificável e aornínlstrávef. O
segredo da utilidade da segmentação está dentro desta definição. Quando conseguimos identificar uma fração do mercado composta, no caso de
mercados empresariais, por companhias semelhantes entre si (dentro do
critério adotado), podemos verificar a real atratividade de cada um destes
segmentos e desenhar estratégias para abordá-los de maneira mais eficiente, a fim de nos tornarmos menos vulneráveis à concorrência e
protegendo nossa posição competitiva. Por exemplo, um dos critérios de segmentação, o geográfico, poderá nos levar a concluir que vários clientes
da região Nordeste do país tem carência de um atendimento mais rápido e personalizado, o que não é conseguido pela concorrência, que não possui um escritório de vendas na região. A segmentação de acordo com as necessidades de tecnologia dos clientes pode ajudar a direcionar os
esforços de P&D para os clientes mais interessados em parcerias no desenvolvimento de novos produtos e que trarão retorno mais rápido.
No campo teórico, a segmentação dos mercados industriais parece
não receber a mesma atenção que recebe na literatura a dos mercados
consumidores. Maior relevo é dado à segmentação de mercados de consumo, como acontece também com outros campos de estudo em Marketing, onde o campo do consumidor final costuma receber muito mais
espaço do que o chamado Marketing industrial. Entretanto, as empresas
que abastecem, realizam manutenção, fornecem equipamentos e
componentes para as empresas que atendem o mercado consumidor são tão importantes quanto estas últimas para a geração de riqueza. Portanto, o
estudo da segmentação dos mercados industriais é de suma importância
para a otimização das relações entre empresas e para o alcance de seus objetivos, estejam elas no lado dos fornecedores ou dos compradores.
Quando passamos a olhar as relações mercadológicas sob uma
perspectiva global, vemos ai um hiato ainda maior no campo dos estudos e uma maior predominância de "usos e costumes". Existe, entretanto, uma
maior necessidade de cuidados com a maneira como agrupamos ou segmentamos nossos clientes. Se aqueles mais próximos geograficamente já não são fáceis de classificar e, se assim o forem, não são facilmente
entendidos, os clientes ou mercados existentes ou potenciais em outros países ou regiões são mais problemáticos em termos de segmentação, uma vez que possuem culturas, hábitos, costumes e objetivos diferentes dos
1.2. A evolução das megacorporações
Antes de iniciarmos esta reflexão sobre a segmentação em um
mercado globalizado, devemos procurar entender de onde evoluiu a atual estrutura do mercado, ou seja, onde estão as raízes da globalização. Desde
o século XVIII, a partir da condenação do mercantilismo inglês (e mundial)
por Adam Smith, criaram-se as bases para o protecionismo do Estado sobre a empresa nacional, com o fim de preservar o bem estar de sua população.
Alexander Hamilton, primeiro-secretário do Tesouro do governo de George
Washington defendeu que os Estados Unidos deveriam estabelecer uma base industrial forte para garantir seu sustento e crescimento, que não
poderiam estar baseados simplesmente na agricultura. E, segundo ele, essa
base industrial deveria ser protegida pelo Estado para poder florescer, através de subsídios e aplicação de tarifas sobre os produtos importados.
Essas idéias foram implementadas e a indústria americana passou a se
estabelecer baseada nesse protecionismo.'
o
resultado, que já conhecemos de perto, foi de que os fabricantesnacionais passaram a estabelecer seus preços sem o medo da concorrência
externa. Esse sistema recebia, por um lado, o total apoio dos estados americanos industrializados ou em vias de industrialização, mas por outro críticas dos estados agrícolas, que desejavam poder comprar máquinas e
equipamentos onde esses fossem mais baratos e competitivos. A solução
para essa discussão veio a partir da Guerra Civil americana, que com a
derrota do Sul agrícola, calou os defensores do livre comércio. As palavras
de Abraham Lincoln sobre o assunto retratam bem a situação: "Não sei muito a respeito da tarifa, mas sei disto, quando compramos produtos
manufaturados no exterior, obtemos as mercadorias e o estrangeiro fica com o dinheiro. Quando compramos produtos manufaturados no mercado
doméstico, ficamos tanto com as mercadorias como com o dinheiro". A expansão quase desenfreada da indústria americana estava em curso.
Com o advento da 1aRevolução Industrial, as empresas passaram a
se beneficiar da produção em escala, que tinha como efeito a redução de
custos, mas também a redução de preços, a partir do aumento da oferta, que não era totalmente absorvida pelo mercado, que por sua vez se expandia a passos menores que a produção". A saída para o excedente da
produção passou a ser a exportação e os países dos dois lados do Atlântico
passaram a buscar agressivamente novos mercados para seus produtos industrializados. O resultado foi um movimento ainda maior no sentido do protecionismo e aumento de tarifas, além da tentativa de expansão para os
países menos desenvolvidos. No caso do século XIX, para ascolõnias",
Estas medidas não puderam, entretanto, resolver o problema da superprodução. A alternativa encontrada foi então a diminuição da
4Reich, R. B .., T. N., p.21
5Reich, R. B .., T. N.,p. 26
concorrência interna, através da consolidação da produção em corporações
cada vez maiores, que agregavam, através de fusões e aquisições,
concorrentes que tentavam se canibalizar". Na Europa e Japão esses movimentos foram mais rápidos, e criaram-se figuras como os zaibatsu,
Grossbanken, grande industrie, Grossindustrie. Nos Estados Unidos, devido
a sua tradicional desconfiança com os monopólios, sejam eles da Metrópole
Colonial, sejam de indústria, dificultou, mas não impediu este processo. O
Ato Sherman Anti-Truste de 1890, que proibia a fixação de preços e os
acordos entre empresas, incentivou a fusão entre elas, a fim de que pudessem auferir maiores lucros do que em um regime de concorrência
A 28 Guerra Mundial teve também um importante papel nesse processo, principalmente no que concerne ao crescimento das megacorporações nos Estados Unidos. O ideal de liberdade americano
pôde ser confrontado inicialmente com o imperialismo e totalitarismo dos países do Eixo, e mais tarde com a ameaça comunista. A livre iniciativa e o sucesso capitalista, personificados nos grandes negócios, passaram a ser
vendidos ao mundo ocidental como um modelo de "salvação". Além disso, após o fim da guerra, foi possível uma real expansão da economia
americana pois as economias européias e asiáticas destroçadas passaram a depender em larga escala da riqueza americana. Riqueza esta que
7Chandler, Alfred D., "The Evolution ofModem Global Competition", in Porter, M., Competition in Global Industries, Boston, Harvard Business School Press, 1986, p. 425
aumentava a passos largos através do aumento do consumo interno.
Multidões de soldados vindos do front constituíam famílias e compravam casas com empréstimos subsidiados pelo governo americano, causando o
baby boom e realimentando o crescimento da economia".
Um papel também importante foi reservado às corporações
americanas no pós guerra, na luta contra a expansão do comunismo. Como
afirma Huntington10
, "o império americano (se é que podemos conscientemente usar este termo) foi um império de funções, não de
territórios". Segundo ele, os Estados Unidos não tiveram capacidade para
estabelecer o controle político real ou formal sobre territórios estrangeiros,
mas, sob a necessidade de se contrapor ao comunismo, foram necessárias
formas alternativas de penetração. Isto, aliado ao fato de que o povo americano, de uma cultura tradicionalmente democrática, não conseguiu
desenvolver uma forma persuasiva de colonialismo, fez com que a fórmula utilizada fosse a da expansão econômica, corporificada pelas organizações
transnacionais, baseada em argumentos não de superioridade política ou racial, mas sim tecnológica ou econômica. Tivemos assim o real início da globalização da economia, que vem se prolongando e expandindo até hoje.
A expansão das megacorporações americanas, que passaram a ser
empresas transnacionais, começou a ser ameaçada a partir do momento em que outros países puderam desenvolver competitividade através de
9Reich, R B .., T. N., pp. 40-42
10Huntington, Samuel P., "Organizações Transnacionais na Política Mundial", in Getúlio Carvalho,
produção em larga escala. Os próprios Estados Unidos fomentaram o
desenvolvimento dos antigos inimigos da 2a Guerra Mundial, na tentativa de
criar mais mercados para seus produtos e sua tecnologia, e como estratégia
da Guerra Fria. Porém, ao final da década de 60, as megacorporações americanas perceberam que estavam sendo batidas por concorrentes que
antes não eram considerados. Empresas japonesas, que começavam a se globalizar por seu lado, podiam vender no mercado americano por preços
menores que os das empresas domésticas, não porque os salários pagos no oriente fossem muito menores que os americanos, mas sim porque eles.
conseguiram desenvolver e gerir fábricas mais eficientes que as "ianques'?'.
Além disso, as empresas européias passaram a ser importantes atores
neste cenário. Thurow" aponta para este "problema" para os Estados
Unidos: em 1970, das 100 maiores corporações industriais, 64 eram americanas, 26 européias e 8 japonesas. Em 1988, 42 eram americanas, 33
da Europa e 15 no Japão.
Esta constatação, humilhante a princípio, levou as empresas americanas a solicitarem, e o governo a implementar, medidas protecionistas que permitissem que elas se protegessem da ameaça e preservassem empregos e o bem estar do povo americano; O efeito, porém, foi até pior que a causa, pois as ineficiências da indústria dos Estados Unidos passaram a ficar cada vez maiores e mais evidentes. "Quando a
11Reich,RB.., T. N., p. 65
indústria siderúrgica conseguiu afastar o aço estrangeiro mais barato, as
três grandes indústrias automobilísticas descobriram que tinham de pagar
40% a mais do que seus concorrentes mundiais, colocando-as numa desvantagem competitiva ainda maior e, paradoxalmente, tornando-as as
maiores necessitadas deproteção?".
Qual deveria então ser a solução para as megacorporações
americanas e para a própria economia americana? Peter Drucker"
menciona que existe uma forte correlação entre a participação na economia
mundial e o desempenho da economia doméstica, enquanto não existe
correlação entre o desempenho econômico doméstico e as medidas para
estimular a economia doméstica. A solução, por este raciocínio, se encontra na globalização da economia, fazendo com que o capital americano esteja
presente em outros países, e que o capital estrangeiro esteja também
presente nos Estados Unidos (esta última parte uma grande preocupação,
infundada, do povo americano). Ora, como vimos, este fato vinha ocorrendo desde o final da 2a Guerra Mundial e já era um instrumento para a expansão
operacional americana. Onde então poderia estar o erro?
Uma das partes do erro é o modelo de globalização utilizado, onde as
megacorporações, com seu desenho tradicional, ainda são a base. Outro fator que levou às dificuldades sofridas pelas empresas americanas foi uma falta de adaptação correta ao modelo de globalização, onde a busca por
13Reich, R. B., T. N., pp. 66 e 67
14Drucker, Peter F., Administrando em Tempos de Grandes Mudanças, São Paulo, Pioneira,
aptidões deve ser a tônica central. Como porter1S menciona, "uma firma que
compete internacionalmente, deve decidir como espalhar sua cadeia de
valores entre vários países". O conceito de cadeia de valores e da vantagem competitiva advinda desta é um dos pontos principais deste
raciocínio, e será estudado a seguir.
1.3. A Vantagem Competitiva em um Mercado Globalizado18
A vantagem competitiva de uma empresa deve ser estudada a partir
de sua cadeia de valores. Esta afirmação, de Porter, cabe muito bem para
empresas globalizadas, onde as fontes de vantagem competitiva estarão
ligadas a sua aptidão em obter o melhor de cada região ou país onde ela atua, ou seja, "o valor criado pelas várias atividades excede o custo coletivo
de realizá-Ias".
Existem dois tipos principais de atividades na cadeia de valores: as
atividades mais ligadas à empresa ("upstream") e as mais próximas do mercado ("downstream"). Pela falta de termos em Português que representem exatamente o valor das palavras em Inglês, manterei as duas expressões do original. Geralmente, as atividades downstream trazem vantagens competitivas relacionadas ao país onde a empresa atua, como a
construção de uma reputação, de uma marca, de um serviço, que podem constituir importantes barreiras à entrada de outros competidores. As
15Porter, Michael. E., Competition in Global Industries: A Conceptual Framework, Boston, Harvard Business School Press, 1986, p. 23
16
atividades upstream, por seu lado, estão mais ligadas ao sistema de países
onde a empresa atua e afetam mais o custo e a eficácia desta. Desse modo,
a estrutura e distribuição da cadeia de valores da empresa estarão ligadas
ao tipo de negócio onde esta atua. Em empresas onde a criação de valores
está distribuída pela cadeia, que está como um todo mais próxima do
mercado (como em empresas de serviços), a estrutura de distribuição global
tende a ser multidoméstica com cadeias de valor completas em vários
países. Já para empresas onde as atividades upstream e de suporte são essenciais, a globalização e a concentração de partes da cadeia de valores
em locais distintos é mais comum e pode trazer mais vantagens (vide
exemplo da indústria automobilística).
Existem duas grandezas propostas por Porter para avaliar e
descrever o tipo de estrutura que a empresa adotará: concentração, ou o
quanto a empresa está dispersa ao redor do mundo, e coordenação, que
representa o quanto as diferentes atividades estão coordenadas.
Dependendo das características e da estratégia da empresa, ela colocará mais ênfase em uma das duas grandezas, ponderando a configuração que
lhe ofereça maiores vantagens competitivas. Algumas empresas podem se beneficiar de uma altíssima escala de produção e baixos custos de
transporte, optando por uma alta concentração, enquanto outras podem necessitar de estratégias multi-domésticas devido a restrições diversas, como governamentais, por exemplo. Existem ainda, e são muito comuns, as
exemplo) e dispersando outras que devem ser personalizadas (como
Marketing)
O aspecto coordenação envolve um tradeoff7 entre uma maior
sinergia entre as atividades e unidades dispersas e os custos de transação envolvidos em uma coordenação mundial. Porém, nas palavras do próprio
Porter, "a essência da estratégia internacional não é resolver tradeoffs entre
coordenação e dispersão, mas eliminá-los ou mitigá-los. Isto implica em
concentrar e dispersar diferentes atividades geradoras de valor, dependendo da estrutura da indústria, dispersando algumas atividades para
permitir a concentração de outras, minimizando o tradeoff entre a concentração e dispersão pela coordenação de atividades dispersas".
É quase impossível dizer qual a estrutura ideal que uma empresa globalizada deva ter. Segundo a visão de Porter, a estratégia de
globalização, subordinada à estratégia da empresa como um todo, dependerá do que agregar mais valor à cadeia. A tendência será para um
jogo de coordenação, onde atividades dispersas em países que conferem mais competitividade à cadeia deverão ser coordenadas, "conseguindo que instalações de produção, P&D, laboratórios e Marketing trabalhem
realmente juntas" em um mercado globalizado.
Como isto influencia no processo de segmentação? Muito, já que a estratégia e as necessidades de uma empresa globalizada são diferentes e
devem ser encaradas pelos seus fomecedores como tal(18)(19).Existem
particularidades em termos de subsistemas nessas empresas, que devem ser levadas emconsíderação". Veremos como nos capítulos seguintes.
18Porter, M.E., C. G.L, pp.45-46
19Semenik, R.&Bamossy, G., P. M., p. 199-200
2.
Objetivos do trabalho
A vivência no mercado industrial sugeriu-me que a segmentação de
mercados geralmente é feita de maneira mais cuidadosa quando se trata de mercados locais, onde variáveis de segmentação mais consistentes e
profundas são utilizadas e os clientes são classificados não somente através de variáveis mais simples, como regiões geográficas ou tipo de
mercado atendido, mas também levando-se em conta características mais
específicas de cada um, como o comportamento de compra e
influenciadores nas decisões de compra. Entretanto, a observação também faz supor que as empresas geralmente não se preocupam. tão
profundamente com a segmentação de mercados internacionais, adotando
neste caso a segmentação através de regiões ou países, por ser esta a
mais prática e barata. Aspectos mais profundos, como a cultura empresarial ou o país onde se localiza o cliente são mais difíceis de serem
considerados, e podem ser relegados a um segundo plano, sem mencionar as considerações, conforme já descrito anteriormente, sobre as estratégias
dos clientes no que se refereà centralização ou dispersão de atividades. Entretanto, tais insights padecem de verificação empírica. Por essa
razão o presente trabalho tem como objetivo principal verificar o estágio atual da prática da segmentação de mercados no Brasil, comparando essa prática com aquela referida aos mercados globalizados. Subsidiariamente,
como essas empresas avaliam a estrutura de segmentação adotada, em
3.
MetodologiaA fim de atingir os objetivos propostos neste trabalho, quais sejam
verificar exemplos da prática de segmentação no Brasil da atualidade e
tentar observar alguns exemplos de práticas de segmentação dentro de um mercado globalizado, será necessário o emprego de algumas diferentes
modalidades de pesquisa.
O estudo das atuais técnicas nesse campo é imprescindível, com o intuito de fornecer uma base para o questionamento e a busca das
estratégias de segmentação utilizadas. Procurar-se-á então verificar e
compilar, através de uma pesquisa bibliográfica, o que alguns autores
instruem e recomendam como maneiras eficazes de se segmentar mercados
no âmbito empresarial. A prática atual deverá ser levada em conta além das recomendações teóricas, e serão também verificados alguns exemplos
atuais no Brasil, que foram reportados recentemente nos meios de
comunicação. Esses aspectos estarão contemplados no próximo capítulo,
Referencial Teórico.
Um Estudo de Caso será realizado, através de entrevistas com dez empresas que possam fornecer dados relevantes sobre técnicas de segmentação em uso atualmente. Nestas entrevistas, serão verificadas
quais as variáveis utilizadas para a segmentação, bem como se essas variáveis diferem quando se enfoca o mercado Brasileiro ou o mercado Global. Além disso, procurar-se-á identificar se, formal ou informalmente,
decisões de compras ou outras como o direcionamento estratégico dos clientes, sua busca por parcerias ou características pessoais dos
compradores.
3.1. Metodologia da pesquisa de campo
Para a escolha da metodologia de pesquisa mais adequada algumas
considerações tiveram que ser feitas. Conforme colocado por Paul de
Bruyne", existem "diversos modos de investigação (que) se inscrevem ao
longo de um continuum em função dos caracteres apresentados pelos
dados que eles reúnem". Esse modos são o do Estudo de Caso, da Análise Comparativa, da Experimentação em Laboratório e da Simulação em
Computador. O continnum mencionado é esquematizado por Bruyne como
segue:
Figura 1 - Modos de Investigação
real aberto descontrolado
artificial fechado controlado Estudo de
caso
Comparação (amostra)
Experimentação (campollaboratório)
Simulação (modelo)
Cada uma das técnicas mencionadas se aplica melhor a uma
situação e a um objeto de pesquisa. Além disso, o papel que o pesquisador pode assumir também pode variar, desde o papel de observador neutro sem influência alguma sobre os fatos, até aquele que procura "adotar uma
orientação subjetiva com respeito aos fenômenos, e deles aproximar-se o
máximo possível, a fim de compreender os atores e seus
cornporternentos?".
Cada uma das abordagens apresenta vantagens e desvantagens. O
estudo de caso pressupõe a análise aprofundada de uma ou algumas
organizações, com o intuito de obter uma análise intensiva de uma situação ou de um problema. Esta abordagem apresenta, no entanto, um caráter
mais particularizante, com menores possibilidades de generalização ou de
aproveitamento em outras situações, conforme observa o próprio Bruyne23.
Os estudos comparativos, por sua vez, requerem a pesquisa de uma gama maior de organizações, e tem como principal intuito traçar um paralelo entre
organizações semelhantes ou práticas similares, procurando entender o porque de erros e acertos em determinados tipos de organização. Envolve
entretanto um entendimento multidimensional destas organizações, com o intuito de estabelecer relações entre suas estruturas, sejam elas comuns ou
não, e os problemas emestudo".
Conforme esse autor também menciona, as metodologias de
investigação não são estanques em si, mas existe uma complementaridade entre elas, o que justifica sua integração em um mesmo programa de pesquisa. No caso deste trabalho, optou-se pelo estudo de casos em uma amostra não muito grande de empresas, procurando agrupar as práticas
22
Bruyne, P., Herman, J., Schoutheete, M., D.P.C.S., p. 224
23
comuns entre elas em termos de segmentação, bem como salientar os
pontos discrepantes da moda entre as metodologias encontradas. Não é
possível dentro do escopo do trabalho o levantamento de dados mais
genéricos ou completos quanto às estruturas das empresas estudadas, e dessa maneira ficou-se limitado ao foco nos processos de segmentação.
Dessa maneira foi possível aproximar-se o suficiente do problema estudado,
sem aparentemente interferir nos resultados da pesquisa, mas procurando
gerar um diagnóstico o mais completo possível dos casos estudados.
Quanto á técnica de levantamento de dados utilizada, também duas
possibilidades foram estudadas, a aplicação de um questionário e a
realização de entrevistas pessoais. Dentre as vantagens e desvantagens de cada um deles25 pode-se mencionar que o questionário apresenta uma
maior facilidade no levantamento de uma massa da dados maior, além de
permitir que os entrevistados expressem opiniões que talvez não seriam colocadas em uma entrevista pessoal (no caso de questionários anônimos),
mesmo quando é garantido o sigilo para os dados pesquisados. A desvantagem de um questionário é de que não há interação entre o
pesquisador e a pessoa que fornece os dados, o que pode levar a interpretações errôneas de algum ponto daquele, sem possibilidade de correção posterior, o que pode invalidar um questionário. Indo mais além, é bastante difícil conseguir a atenção das pessoas e o dispêndio de tempo
para o preenchimento de um questionário, tempo este que pode ser gasto
com muito mais facilidade em uma entrevista.
No caso de entrevistas pessoais, o entrevistador pode verificar não
somente "o que" a pessoa responde, mas também "como" ela responde". É
possível a interação com o entrevistado, e a solução de dúvidas que
possam surgir por parte deste no momento. Sem mencionar as dúvidas que
o entrevistador pode ter com as respostas obtidas, que podem ser
questionadas e esclarecidas também de imediato. A principal desvantagem
da aplicação de uma entrevista é a falta de anonimato já mencionada, que pode compelir o entrevistado a fornecer as informações de maneira que lhe
seja menos comprometedora, ou até omiti-las".
Ponderando as vantagens e desvantagens descritas, levando em
conta a razoável complexidade do assunto, o qual poderia exigir esclarecimentos no transcorrer das entrevistas, além da oportunidade de
poder verificar "como" as pessoas respondem, optou-se pela realização de entrevistas, apoiadas em um conjunto de perguntas abertas, com um baixo grau de estruturação. Este conjunto de perguntas assumiu a forma de um roteiro, a ser respondido pelo próprio entrevistador, mas à disposição do
entrevistado em caso de dúvidas ou da necessidade de referências (vide
formulário de roteirização no Anexo I).
A amostra utilizada é de dez empresas que atuam no âmbito do
Marketing Industrial, escolhidas de maneira a fornecer uma amostra
26Selltiz, C. Jahoda, M.; Deutsch, M.; Cook, s.;M. P. R. S.,p.272
significativa, ainda que não representativa" do universo brasileiro. Nessa
amostra procurou-se englobar empresas do setor industrial, de diferentes
segmentos (Componentes Eletro-Eletrônicos, Químico, Autopeças,
Equipamentos Industriais, Cimento), bem como do setor de Serviços
(Consultoria em Recursos Humanos). Os profissionais entrevistados
ocupam posições de decisão no que diz respeito à segmentação de
mercados (Gerentes de Vendas, de Atendimento, Comerciais), e podem
prestar depoimentos sobre a realidade atual da empresa neste sentido, bem
como sobre eventuais planos.
Dado o caráter exploratório do estudo, a análise efetuada a partir dos
dados coletados será basicamente qualitativa. As características do objeto
de pesquisa proposto, dos instrumentos e da amostra utilizados ensejam,
também, essa análise. Não faz parte das intenções do trabalho um levantamento estatístico com respeito às técnicas de segmentação
utilizadas, mas sim uma análise qualitativa do estágio de consciência e
utilização dessas técnicas na atualidade brasileira.
4.
ReferencialTeórico
Neste capítulo, procura-se analisar o pensamento de alguns dos
principais autores sobre o assunto. Serão verificados os possíveis benefícios obtidos com a segmentação de mercado e a comparação com os
custos envolvidos no processo, a fim de reafirmarmos a necessidade de
segmentação e os impactos que esta pode ter sobre os programas de
Marketing da empresa. Serão também compiladas as principais técnicas de
segmentação recomendadas por esses autores, sua aplicação e suas .limitações. Por fim, procura-se analisar a necessidade de uma abordagem
mais específica para a segmentação de mercados globalizados, dadas as
limitações encontradas nas técnicas usuais dentro desse ambiente.
4.1. Benefícios, riscos e dificuldades no processo de
Segmentação
A finalidade da segmentação é o desenvolvimento de uma vantagem competitiva sustentável para a empresa fornecedora de produtos e serviços ao mercado industrial. Esta vantagem competitiva se baseia na possibilidade de criação de valor ao cliente, o que se torna possível com a divisão de um mercado heterogêneo em partes homogêneas entre si, que podem ser melhor entendidas e melhor atendidas em termos de suas
necessidades especlficas". O uso de uma estrutura de segmentação adequada possibilitará ainda outros benefícios à empresa, através da
canalização dos investimentos em segmentos de mercado que propiciarão
um maior potencial de crescimento e maiores níveis de retorno. Além disso,
os esforços de Marketing podem ser otimizados, através da identificação de segmentos mais receptivos aos produtos e serviços oferecidos". Em
resumo, a estratégia de Marketing, bem como outras estratégias, como de
desenvolvimento de produtos, financeiras, de produção dentre outras, serão
afetadas pelo esquema de segmentação adotado e pelos segmentos
escolhidos comoalvo".
4.1.1. Impacto sobre as estratégias de Marketing
A diferenciação de segmentos de mercado é um pré-requisito para a
análise da demanda desses mercados, para a seleção de mercados alvo e para o desenvolvimento de estratégias de Composto de Mercado(Marketing
Mix) ,conforme podemos ver no esquema abaixo, adaptado de Mahin32:
Figura 2: Influência da segmentação nas etapas subsequentes do planejamento de Mercado
Segmentação Análised3 Seleção de .. Estratégias de .
de Mercado Demanda .. Mercados Alvo ,MarketingMix
. . ... .···i ". '
Desagregação Estimativa do Mercados a Diferenciação
do mercado em tamanho do serem da proposta de
componentes mercado. atendidos, de negócio para
menores. Definição de acordo com os segmentos
tipos de potencial etc. escolhidos.
mercado.
30Berrigan, 1.&Finkbeiner, C., M. S., p. XXIII
Algumas perguntas chave deverão ser respondidas, para que o
processo acima possa ser desenvolvido, tais corno":
O que?: Que produtos deverão ser oferecidos aos segmentos alvo
identificados? Esta questão afetará obviamente o desenvolvimento de
produtos, mas também as políticas de produto da empresa, bem como os
serviços agregados a eles, ou seja, os produtos estendidos da empresa.
Quem?: Quais segmentos serão mais receptivos aos apelos de
Marketing de nossa empresa? ·Quem são os influenciadores chave na
decisão de compra? Quem, dentro dos segmentos identificados e eleitos, são os clientes com maior potencial?
Onde?: Como alcançar os clientes? Quais os canais de distribuição a
serem utilizados? Que veículos de promoção serão mais adequados para
atingir e sensibilizar os clientes dentro dos segmentos alvo?
Por que?: Esta é uma questão muito importante, pois o
questionamento de por quê os clientes compram os produtos de nossa empresa e não da concorrência, ou vice-versa, nos leva a identificar o posicionamento de nossos produtos e o posicionamento desejado pelos clientes, a fim de gerar ações de correção desse posicionamento quando
necessário.
Em resumo, os elementos do composto de Marketing serão todos
afetados pela segmentação adotada e pelos segmentos que a empresa
desejar atender. Os produtos deverão estar adequados e corretamente
posicionados para aqueles segmentos; a promoção utilizada deverá atingir
o segmento de maneira adequada e gerar nos clientes os efeitos desejados;
a paiítica de preços será de acordo com os preços de mercado encontrados nos diferentes segmentos e, finalmente, a distribuição deverá prever o
atendimento dos clientes e um serviço adequado na área de Logística. Tomemos o exemplo hipotético de uma empresa fornecedora de
produtos químicos, mais especificamente detergentes. A fim de
simplificarmos o exemplo, imaginemos que esta empresa segmentou o
mercado em usuários de detergentes como matérias primas e usuários de
detergentes como materiais não produtivos (para a assepsia por exemplo).
Dentro destes segmentos foram identificados clientes na Grande São Paulo, clientes no interior do Estado e no resto do país. Vamos supor então que a
empresa identificou que os preços praticados no segmento de materiais não
produtivos são bem maiores que no de matérias primas, embora os volumes sejam menores. Porém, como a capacidade produtiva de nossa empresa exemplo não é muito grande, é válido supor que ela opte por este segmento.
Uma possível vantagem competitiva foi identificada, pois nossa empresa tem maiores possibilidades de desenvolver produtos que atendam as
exigências deste segmento, ou seja, ela identificou como satisfazer as necessidades dos clientes envolvidos. Além disso, os clientes escolhidos
serão os da Grande São Paulo, visto que os gastos com distribuição do produto são altos (transporte especializado é necessário). Os elementos do
1. Produto: as especificações técnicas do produto não necessitariam
estar de acordo com os processos produtivos dos clientes, ou seja, as especificações via de regra poderiam ser menos rígidas que no
caso anterior. Não obstante, o produto necessitaria de uma
adequação ao uso esperado, ou seja, deveria provavelmente ser
perfumado e não causar irritações à pele do usuário. Além disso,
as embalagens deveriam ser adequadas ao uso em locais diversos, ou seja, teriam que ser embalagens menores, como por
exemplo as encontradas em sanitários de empresas que aceitam o
re-enchimento ou refi/Is.
2. Promoção: deveria ressaltar as características mencionadas
acima. A venda pessoal, ferramenta geralmente utilizada no
ambiente dos mercados industriais, deveria promover e se basear
nestes atributos.
3. Preço: seria adequado ao mercado. A abordagem deveria ainda
ser market minus", porém a empresa poderia, conforme seus
estudos, se beneficiar de uma margem de lucros mais favorável. 4. Distribuição: como o segmento a ser atendido está restrito ao uma
região mais limitada, a distribuição física e a logística seriam simplificadas. Os prazos de atendimento não seriam
necessariamente tão críticos, uma vez que os estoques relativos a
34Abordagem de definição de preços onde o fabricante verifica quais são os preços de mercado e procura adequar seus custos a fim de obter a margem de lucros desejada. Éutilizado em
serem mantidos pelo cliente poderiam ser maiores do que no caso
da utilização como matéria prima, já que os volumes totais de
utilização nesta aplicação seriam menores
Este é um exemplo simplificado, como mencionado, mas que ilustra a
influência da segmentação sobre o Marketing Mix. Podemos imaginar que a maioria dos elementos acima seriam diferentes caso a empresa tivesse
optado por atender o segmento de matérias primas.
4.1.2. Impacto sobre programas que não os de Marketing
Não somente o composto de produtos da empresa será afetado de
acordo com a segmentação adotada e os segmentos de mercado que ela
desejará e poderá atender, mas também outros programas, como de Pesquisa e Desenvolvimento, Produção, Finanças, Compras, dentre outros. Os programas de pesquisa e desenvolvimento deverão estar alinhados com
o grau de inovação desejado pelos clientes atendidos, bem como deve prever o desenvolvimento de novos produtos caso se elejam segmentos alvo nos quais a empresa deseje penetrar. A produção deverá estar adequada para a produção em larga escala ou "customlzaoa", mais uma
vez de acordo com as necessidades detectadas através da segmentação. Também as características dos programas de compras e de finanças
deveriam estar ajustadas aos segmentos de mercado atendidos pela
empresa".
Neste último programa, o financeiro, a empresa deveria verificar
quais as condições de pagamentos que os clientes de seus clientes
desejam obter, para adequar suas próprias condições de pagamento e taxas de juros, a fim de não prejudicar alguns segmentos de mercado em
benefício de outros. Por exemplo, pode-se verificar hoje que, no mercado
brasileiro, os fornecedores da indústria automotiva são geralmente
"obrigados" pelas montadoras a receberem em prazos longos, como 60 ou 90 dias, a taxas de juros baixas, em comparação com as médias de
mercado. Já outros fornecedores, principalmente aqueles que fornecem
diretamente ao varejo, podem gerenciar seus prazos de recebimento de
maneira mais adequada. Estas características se devem principalmente à diferença de tamanho relativo entre fornecedor e cliente, quando falamos da
maioria das fornecedoras de auto peças em relação às montadoras, e
empresas do ramo eletro-eletrônico em relação a redes de varejo, por exemplo. Nestes casos, fornecedores destes dois segmentos, como fornecedores de componentes ou insumos para essas empresas, deveriam diferenciar os prazos de ,pagamento exigidos de cada um dos segmentos em
questão, pois o segmento eletro-eletrônico seria beneficiado com um determinado prazo de pagamento, enquanto os fornecedores de autopeças
seriam prejudicados com esse mesmo prazo.
Além da diferenciação para os segmentos no caso das áreas
funcionais mencionadas acima, os custos associados a cada área poderiam
também ser separados para cada segmento, a fim de analisar a atratividade
e rentabilidade de cada um deles, como na Tabela 1 a seguir.
Uma rápida olhada já nos permite verificar que o segmento 1
consome mais da metade dos recursos da empresa e somente contribui com
15% dos lucros. A avaliação final é de que com esta abordagem os gerentes
de Marketing podem focar seus esforços nos segmentos onde as
oportunidades e os ganhos financeiros dêem subsídios a um esforço extra.
37
Tabela 1 - Alocação de Despesas por Segmento de Mercado
Segmento de Contribuição Despesas de Custo de Investimento Contribuição Mercado para o Venda P&D em para os
Faturamento Equipamentos lucros
1 30% 65% 50% 70% 15%
2 10 15 10
--
103 20 5 20 30 15
4 15 5 10
--
105 25 10 10
--
50Total 100 100 100 100 100
A avaliação dos custos associados à segmentação e uma reflexão de
até que ponto devemos proceder com a segmentação e como avaliar os
retornos obtidos com o processo serão alvo da próxima seção.
4.1.3. Custos envolvidos na Segmentação - a análise de custaI benefício
A segmentação de mercados não é um processo barato". Há vários
custos envolvidos, desde a coleta dos dados necessários para uma segmentação eficaz, até a implementação de programas e estratégias
dedicadas para cada segmento. Os profissionais de Marketing devem
considerar os possíveis retornos a serem obtidos com o grau de
segmentação pretendido, contra os custos envolvidos em se definir e manter
esse grau de segmentação. Esses custos, ao contrário do que muitos pensam, não estão concentrados no processo de segmentação, mas estão
diluídos por toda a organização, uma vez que esta deverá estar preparada
de acordo, em termos de produtos, logística, compras, estilo produtivo, ou
seja, todos os aspectos já discutidos anteriormente para tornar o composto
de Marketing eficiente dentro de um mercado segmentado. Porém, esta
otimização do composto por segmento de mercado pode levar a uma sub-otimização em termos de escala, quando nos referimos a escala de
desenvolvimento de produtos, ou de definição de estratégias de mercado. Estas atividades deverão ser, na medida do possível, dedicadas ao segmento determinado, ou pelo menos direcionada a este. E produtos e estratégias desenvolvidos para atender às necessidades de um segmento dedicado podem não ser adequados a outros, devendo a empresa definir
programas separados, ou esforços separados por segmento. Até os custos
de monitoração de desempenho para cada segmento ficarão cada vez
maiores quanto maior o grau de detalhamento utilizado para a
segmentação. Em resumo, os benefícios obtidos com a segmentação, como
volume adicional de vendas, adição de algumas economias de escala e
lucros marginais, devem justificar o custo gerado pelo processo".
Estes custos não são iguais para as várias variáveis de Marketing.
Bonoma e Shapiro propõem a seguinte representação para o custo direto
envolvido na segmentação dependendo da tarefa de Marketing
conslderada":
Seleção de Mercados
Comunicação Preço Produto
Figura 3 - Custo direto do uso da Segmentação do mercado
Isto quer dizer que a tarefa de se selecionar os mercados a atender é
a menos dispendiosa. Os custos são maiores para outras atividades, como a comunicação, que não engloba somente a propaganda dedicada, mas também a maneira como nos comunicamos com os clientes em termos de
39Bonoma, T. & Shapiro, B., S. M. L, p. 128
nossa força de vendas, que pode ter que estar dispersa geograficamente.
Depois, na escala de custos crescentes vem a fixação de políticas de
preços diferenciadas. Estas políticas envolvem grandes custos, não
somente para a pesquisa de níveis de preços de mercado e a definição de sua política, mas também em termos de custos de oportunidade. Margens
muito grandes podem levar a perda de participação e margens muito pequenas levam a diminuição dos lucros. A correta ponderação entre estes
extremos é uma tarefa bastante complicada. Por fim, temos os custos de
desenvolvimento de produtos e da manutenção de linhas de produtos
específicas para determinados segmentos. Este fator é o que gera maiores custos, tanto em termos de implementação e manutenção como em termos
de custo de oportunidade, pois os clientes com necessidades específicas respondem melhor aos benefícios de uma linha de produtos específica.
A pergunta que fica é qual o ponto ótimo de detalhamento da segmentação de mercado, que permita identificar claramente um segmento
que tenha necessidades específicas, ao qual seja interessante manter esquemas de atendimento dedicados, porém sem sacrificar as margens da
empresa a tal ponto que não valha a pena atender esse segmento.
Também neste caso Bonoma e Shapiro tem uma sugestão de como abordar este problema. Se analisarmos os custos envolvidos na segmentação, vemos que eles aumentam exponencialmente com o aumento
do esforço de segmentação (os segmentos restantes são sempre mais ·difíceis de identificar e atender), enquanto os custos de oportunidade,
Figura 4 - Curvas do custo de segmentação
Alto
Custo
Baixo
Custo Total
Custo de Oportunidade
Baixo Esforço de Segmentação Alto
o
custo total representa a soma dos demais custos e tem uma formaparabólica. Existe um ponto de mínimo nesta parábola, que não éfacilmente identificável em termos quantitativos, mas faz sentido em termos
qualitativos. Devemos portanto procurar um balanceamento do esforço de
segmentação contra os custos envolvidos na implementação deste esquema de segmentação, de maneira a procurar o ponto ótimo identificado.
Existem várias dificuldades que devemos considerar no processo de segmentação, as quais provocarão aumentos dos custos diretos:
• Dificuldades nos levantamentos de dados, principalmente no Brasil, onde não temos bancos de dados tão completos sobre a indústria nacional,
como por exemplo o SIC americano (Standard Industrial Classification), que fornece uma classificação de toda a indústria de acordo com padrões
• No caso de considerarmos a segmentação para mercados internacionais ou globalizados, estas dificuldades se acentuam, pois os
dados referentes aos clientes serão ainda mais difíceis de conseguir, caso
existam.
• Além, disso, os fatores distância e cultura dificultam o conhecimento mais profundo dos clientes, de suas características operacionais, estruturais
e mesmo pessoais.
• O atendimento personalizado ou dedicado a clientes no exterior
poderá ser muito mais complicado e os custos de serviços e comunicação nestes casos poderão ser muito maiores, alterando as características
apresentadas na Figura 3.
4.1.4. Avaliação do método de segmentação
Para que possamos avaliar se a metodologia utilizada para a
segmentação dos mercados em uma empresa é eficiente, devemos avaliá-Ia e verificar se ela apresenta as seguintes característícas":
1. Funcionalidade para a definição do Marketing Mix: a
segmentação utilizada deve ser útil o suficiente para auxiliar na
formulação das estratégias de Marketing da empresa. Se for utilizada uma segmentação que separe clientes que tem utilização para nosso produto contra clientes que não tem, por exemplo, esse critério fornecerá pouca ajuda para a formulação de estratégias, a
menos que essa estratégia consiga fazer com que os clientes
inventem maneiras de utilizar nossos produtos!
2. Acionabilidade: quanto mais a segmentação for utilizada para a
tomada de decisões empresarias, mais eficiente ela será. Um
esquema de segmentação que não é utilizado, ou somente existe para classificar clientes como "A" ou "B", mas não para se decidir
como atendê-los, por exemplo, não é eficiente.
3. Acessibilidade: uma segmentação deve dividir os clientes em
grupos acessíveis através dos esforços de Marketing e de vendas.
Por exemplo, não adianta definir o segmento das empresas que
utilizam computadores para "cálculos complicados" e empresas
que os utilizam para "cálculos simples". Estes dois discriminantes
são bastante subjetivos e diferem de empresa para empresa. Pode-se classificá-Ias mais eficientemente em clientes em
potencial para computadores de maior ou menor porte, mas
mesmo assim existe ainda um grau de dificuldade nesta avaliação. 4. Volume e Utilização: uma boa segmentação deve identificar
segmentos de clientes que difiram em termos de volume e utilização, ou seja, clientes que utilizam quantidades I volumes
maiores e clientes menores. Caso isso não aconteça, é aconselhável rever os critérios de segmentação, sob risco de que esta segmentação não seja tão efetiva em termos de auxílio para a definição de estratégias, pois a conclusão poderá ser a de que
em nenhum deles. Isto poderá gerar custos altíssimos de
atendimento.
5. Durabilidade: um segmento deve ter uma "vida útil"
suficientemente grande para permitir ser acessado e explorado.
Existem indústrias que florescem e desaparecem em certos
períodos de tempo, mas esses períodos não podem ser
demasiadamente curtos, sob o risco de que nossas estratégias criadas para o segmento nunca consigam ser colocadas em
prática.
6. Validade nominal: a segmentação faz sentido? Por exemplo, vale
a pena identificar as empresas que tem a letra "a" no nome como um segmento? Vale a pena sub-segmentar as empresas do ramo
eletro-eletrônico? As repostas parecem óbvias, mas essa obviedade deve estar presente, ou seja, a segmentação deve
parecer boa sob a perspectiva do senso comum.
7. Repetitibilidade: uma estrutura de segmentação deve ser
independente das pessoas que as criaram. Um cliente deve ser alocado a um mesmo segmento sejam os critérios usados por uma
pessoa ou por outra.
8. Multidimensionalidade: as segmentações que reconhecem e
acarretam em abordagens simplistas que não levam em conta a
complexidade do mercado.
9. Globalismo: se nossa empresa pretende se inserir no novo
ambiente globalizado que domina a economia mundial, o esquema de segmentação adotado deverá ser aplicável além das fronteiras
nacionais. "Se uma abordagem não for facilmente adaptável a
diferentes países, você sofrerá a confusão e ineficácia das
estratégias fragmentadas, além de ter que suportar o custo de reinventar uma segmentação única para cada país,,42.Além disso,
o globalismo da segmentação deve reconhecer que as indústrias são diferentes dependendo de seus países de origem e de
localização. Este ponto será discutido com mais detalhes mais a
frente.
4.2. Modelos de Segmentação de Mercado
Existem vários modelos propostos para se efetuar uma segmentação de mercado eficiente, cada autor preferindo por uma variação que ele acredite seja mais eficiente. O que se procura nesta seção é resumir as
principais técnicas, dentro de uma perspectiva de globalização da economia, consoante com a proposta deste trabalho.
4.2.1. O Modelo Macro-Micro
É quase consenso no que diz respeito aos processos de
segmentação em Marketing Industrial que se deve realizar esse processo
em duas etapas. Inicialmente procura-se identificar macro segmentos nos
quais podemos agrupar várias empresas com características semelhantes.
Após isso, procura-se identificar dentro desses macro segmentos algumas
oportunidades de subsegmentação, de maneira que se possa ter segmentos
mais uniformes, que respondam mais homogeneamente aos estímulos
mercadológicos. O modelo mostrado na Figura 5 foi extraído do trabalho de
Wind e Cardozo".
oi
Figura 5 - Um modelo para a segmentação de Mercados Industriais
Recursos e Objetivos Estratégicos da
Empresa Dado um Produto I
Serviço Genérico
Identificar macrosegmentos baseado nas principais características
organizacionais, tais como: • Tamanho
• Grau de utilização • Aplicação do produto • Mercado final servido • Estrutura organizacional • Localização
• Tipo de compra (nova Irepetida)'
Selecionar um "set" de macrosegmentos aceitáveis
Avaliar cada um dos Macrosegmentos, sobre se eles respondem aos estímulos mercadológicos da empresa
s
Pare, e use o macrosegmento como segmentoalvo Responde?
N
Identificar dentro de cada macrosegmento os microsegmentos relevantes (ou seja, com respostas homogêneas) baseado nas características chave das Unidades de Tomada de Decisão (UTD). Estas características podem ser os critérios usados para escolha entre diferentes fornecedores, ou outras características tais como:
• Distribuição de autoridade e rede de comunicações da empresa
• Características pessoais: demográficas, de personalidade • Importância percebida da compra
• lmportância relativa de determinantes técnicos da decisão • Atitude com relação aos fornecedores
• Regras de decisão
Selecionar o microsegmento alvo desejado baseado nos custos e benefícios associados a explorar o segmento
Esta abordagem é muito semelhante à proposta por Bonoma e
Shapiro", onde os autores organizam uma abordagem por níveis, sendo o nível mais externo o demográfico, passando para variáveis operacionais,
para as abordagens de compras, para os fatores situacionais e finalmente
as características pessoais dos envolvidos no processo de compra. Entendo
porém que o esquema proposto por Wind e Cardozo está melhor organizado e fornece ao leitor um esquema de como proceder para obter
resultados satisfatórios.
Tanto as variáveis utilizadas para a definição dos macro-segmentos
como as utilizadas para o detalhamento e definição dos micro-segmentos
merecem ser exploradas em separado. Estas variáveis são as comumente
utilizadas no processo de segmentação, seja ele feito através da metodologia Macro-Micro ou diretamente. Veremos a seguir Alguns tipos de
variáveis de segmentação, que são basicamente as descritas e
recomendadas por esse processo.
4.2.2. Variáveis de Segmentação
Dependendo da abordagem utilizada, do resultado esperado e da relação custo I benefício buscada, as variáveis de segmentação a serem
utilizadas serão diferentes, progredindo em grau de dificuldade de levantamento e de utilização à medida que desejamos um maior
cetaíhamento".
44Bonoma, T. & Shapiro, B., S.M.L
Segue abaixo uma tabulação para alguns tipos de variáveis, em grau
aproximadamente crescente de dificuldade(46} (47)(48):
Variáveis Demográficas
• Tipo de indústria onde se insere o cliente (por exemplo, Indústria
Química, Indústria Eletro-Eletrônica, etc)
• Tamanho da empresa
• Localização, ou área geográfica onde se encontra a empresa
Variáveis Operacionais
• Tecnologia utilizada pelos clientes
• Condição do usuário, ou seja, se é um grande usuário, médio ou
pequeno, ou ainda não usuário
• Capacidades do cliente, ou quais as aptidões este cliente possui,
em termos técnicos, comerciais, etc
• Condições financeiras do cliente
Abordagens de Compra
• Organização da função de compras, ou seja, grau de centralização
ou dispersão dos departamentos responsáveis pela compra.
46Kotler, Philip., Administração de Marketing, São Paulo, Ed. Atlas, 1994, p. 337 47Bonoma, T. & Shapiro, B., S.M.L, capo 2
• Estrutura do poder e dos influenciadores da compra. Quem exerce maior influência: os departamentos de compras, financeiro,
engenharia, outros?
• Natureza das relações existentes. Qual o tipo de relacionamento entre a empresa em questão e nossa empresa? É um
relacionamento de "parceria" ou predatório?
• Políticas de compra, ou seja, se o cliente prefere a compra através
de propostas, contratos, licitações etc.
• Critérios ou foco de compras: foco em preços, em serviços, em
qualidade, em custos globais, em entregas confiáveis, e assim por
diante.
Fatores Situacionais
• Urgência dos pedidos. Pode ser um diferencial para a empresa
fornecedora
• Aplicações específicas
• Tamanho do pedido, onde pode-se querer focar somente em pedidos grandes, ou somente em lotes pequenos
Características pessoais
• Similaridade entre valores e características dos clientes e de nossa
empresa
• Lealdade aos consumidores
As variáveis que envolvem um menor grau de dificuldade de
implementação geralmente são aquelas que consideram o tipo de indústria
servida, sua localização, o tamanho da empresa, seu potencial de utilização do produto em questão e até mesmo as características financeiras das
empresas estudadas. Como já mencionado, nos Estados Unidos existe a
classificação padrão denominada SIC (Standard Industrial Classification),
elaborada pelo órgão recenseador americano", que atribui um códi~o a cada empresa. Este código identifica grupos e subgrupos aos quais a empresa pertence e pode ser uma ferramenta simples e acessível para a
segmentação demográfica, por tipo de indústria ou por mercado final
servido. Entendo que esta classificação, entretanto, é razoavelmente pobre
em termos globais, pois não é utilizada em outros países (existe aparentemente uma intenção de criação de códigos SIC para a Comunidade Européia)50, e caso o fosse ainda não forneceria uma idéia mais
aprofundada do mercado onde essa empresa se insere. Acredito que nos Estados Unidos a classificação SIC não prescinda de um entendimento das condições do segmento de mercado onde a empresa a ser classificada se insere. Isto, para mercados globais, é bastante mais complicado.
Uma abordagem comum em termos de mercados globais é a
classificação do mercado em termos geográficos, e a partir disso em termos
49 Semenik, R &Bamossy, G., P.M., p. 179
mais detalhados, podendo-se partir para uma classificação por divisões
operacionais dentro da empresa. Porém, "tradicionalmente, as empresas expandem-se para mercados internacionais tratando cada país como um
segmento de mercado separado, definido por fatores geográficos, econômicos e políticos••51
. Esta abordagem será estudada mais
profundamente em seção separada.
O tipo de compra que os clientes desejam ou pretendem efetuar pode
ser uma variável importante a ser considerada. Há clientes que podem desejar nosso produto para uma compra repetitiva, outros para uma compra
incidental. Componentes eletrônicos, por exemplo, podem ser usados para a
fabricação de produtos ou para manutenção de equipamentos de produção.
No primeiro caso, os volumes serão muito maiores, mas no segundo caso os preços a serem aceitos serão com certeza muito maiores, além da
necessidade de uma disponibilidade imediata na maioria dos casos. Ainda nesta linha, os clientes podem ser classificados como compradores de insumos ou de materiais não produtivos, como no caso do exemplo da empresa que fornecia detergentes, mencionado anteriormente.
Existe também a possibilidade de classificar os clientes simplesmente
como usuários e não usuários de nossos produtos, ou seja, dividir o mercado em atendido e potencial. Esta classificação é útil a fim de direcionar os esforços da equipe de vendas no sentido de penetrar em mais clientes ou de conseguir uma maior participação em clientes já atendidos.
As variáveis de "personalidade de compra,,(52)(53)devem considerar o
comportamento de compra da empresa em questão, ou seja, se a decisão de compra é centralizada ou descentralizada, qual a personalidade da
organização de compra, se ela está mais voltada para a agregação de valor ao seu processo de produção ou está simplesmente interessada em reduzir
o custo de sua carteira de compras. Além disso, as influências no processo
de compra devem ser consideradas; há empresas onde a compra é
praticamente decidida no ambiente da engenharia de produtos ou de homologação e o departamento de compras é responsável pela colocação
de programas junto aos fabricantes de insumos ou componentes. Em outras, os decisores são os próprios compradores, que podem pesquisar dentre
fornecedores homologados ou solicitar sua homologação.
Não somente estes fatores mas também outros um pouco mais
subjetivos, como a aversão ao risco, devem ser considerados. Há empresas que desejam parceiros de longo prazo e não uma relação temporária com
seus fornecedores. Podem-se observar no mercado casos em que estas empresas (como via de regra tem acontecido com empresas japonesas) se
permitem pagar um pouco mais por suas compras, com o benefício de terem componentes com qualidade e confiabilidade, de especificações e de entregas. Esta abordagem se aproxima ao que se convencionou chamar, em termos de Marketing de consumo de segmentação por "benefício
52Mahin P., B. B. M., pp. 241-243
esperado,,54. Procura-se entender qual o benefício que o cliente espera do
relacionamento com nossa empresa, ou seja, se ele procura por exemplo
por preços baixos ou por um atendimento confiável, por produtos com
qualidade ou simplesmente de pronta entrega, e procuramos classificar e
fornecer o benefício que esse segmento procura, através da adição "ao bem
físico ou ao serviço industrial (de) um pacote de ações, ordenadas
sistematicamente, configuradas como ferramentas comerciais, selecionadas
segundo critérios de custo-benefício, no mínimo estimados, de forma a dotar
o que foi produzido de periféricos geradores dos benefícios
complementarest".
É interessante ressaltar ainda o modelo de segmentação proposto por
Berrigan & Finkbeiner em seu "Marketing de Segmentação,,56, chamado de
"Segmentação Orientada para o Mercado". Fazendo uma rápida descrição
da proposta dos autores, podemos dizer que eles procuram basear o
processo de segmentação também na hierarquização das possíveis
variáveis a serem utilizadas, considerando as demográficas como as mais
simples e chegando até as necessidades estratégicas dos clientes. Não
basta, segundo eles, basearmos a segmentação nas variáveis mais comuns,
como as "firmográficas", ou até mesmo nas mais complicadas, como as
necessidades mais específicas dos compradores, mas devemos também
avaliar o ambiente em que se encontram os clientes, se possível realizando