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REVISTA
PAULISTA
DE
PEDIATRIA
ARTIGO
ORIGINAL
Perfil
de
pacientes
com
anormalidades
geniturinárias
atendidos
em
servic
¸o
de
genética
clínica
no
sistema
único
de
saúde
Ilanna
Fragoso
Peixoto
Gazzaneo
a,
Camila
Maia
Costa
de
Queiroz
a,
Larissa
Clara
Vieira
Goes
a,
Victor
José
Correia
Lessa
a,
Reinaldo
Luna
de
Omena
Filho
b,
Diogo
Lucas
Lima
do
Nascimento
b,
Reginaldo
José
Petroli
a,
Susane
Vasconcelos
Zanotti
ae
Isabella
Lopes
Monlleó
a,∗aUniversidadeFederaldeAlagoas(Ufal),Maceió,AL,Brasil
bUniversidadeEstadualdeCiênciasdaSaúdedeAlagoas(Uncisal),Maceió,AL,Brasil
Recebidoem27defevereirode2015;aceitoem11dejunhode2015 DisponívelnaInternetem9deoutubrode2015
PALAVRAS-CHAVE
Genitália; Diferenciac¸ão sexual/genética; Etiologia
Resumo
Objetivo: Descrever o perfil de pacientes com anormalidades geniturinárias atendidos em servic¸odegenéticadehospitalterciário.
Métodos: Estudotransversal de 1.068 prontuários de pacientesatendidos entre abril/2008 e agosto/2014.Foram selecionados115 casos sugestivos deanomalias geniturinárias, inde-pendentemente da idade. Usaram-seprotocolo clínico padronizado, cariótipo,hormôniose ultrassonografiageniturináriaparaavaliac¸ãobásica.Laparoscopia,biopsiagonadaleestudos moleculares foram feitos em casos específicos. Pacientes com malformac¸ões genituriná-rias foramclassificados como defeitos geniturinários(DGU), os demais,como distúrbios da diferenciac¸ão do sexo (DDS). Usaram-se qui-quadrado, Fisher e Kruskal-Wallis para análise estatísticaecomparac¸ãoentreosgrupos.
Resultados: Preencheramoscritérios de inclusão 80 sujeitos, 91%comDDS e9% com DGU isolados/sindrômicos. Aidade foimenornogrupoDGU(p<0,02),masesses gruposnão dife-riramquanto agenitáliaexterna,internaecariótipo.Verificou-secariótipo46,XYem 55%e aberrac¸õescromossômicasem17,5%doscasos.Ambiguidadegenitalocorreuem45%, predo-minouempacientes46,XX(p<0,006).Distúrbiosdadiferenciac¸ãogonadalrepresentaram25%e hiperplasiaadrenalcongênita;17,5%daamostra.Consanguinidadeocorreuem16%,recorrência em12%,ausênciaderegistrocivilem20%einterrupc¸ãodoseguimentoem31%doscasos.
DOIserefereaoartigo:http://dx.doi.org/10.1016/j.rppede.2015.06.024
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](I.L.Monlleó).
Conclusões: Predominaram pacientescomDDS. Ambiguidade genital e diferenciac¸ãosexual anômalaforammaisfrequentesentrerecém-nascidosepré-púberes.Hiperplasiaadrenal con-gênitafoianosologiamaisprevalente.PacientesmaisjovenspertenciamaogrupoDGU.Menor frequênciaderegistrocivileabandonoocorreramempacientescomgenitáliaambíguaou mal-formada.Essascaracterísticascorroboramaliteraturaeevidenciamoimpactobiopsicossocial dasanormalidadesgeniturinárias.
©2015SociedadedePediatriadeSãoPaulo.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Esteéumartigo OpenAccesssobalicençaCCBY(https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt).
KEYWORDS
Genitalia; Sexual
differentiation/ genetics; Etiology
Profileofpatientswithgenitourinaryanomaliestreatedinaclinicalgeneticsservice
intheBrazilianunifiedhealthsystem
Abstract
Objective: Todescribetheprofileofpatients withgenitourinaryabnormalitiestreatedata tertiaryhospitalgeneticsservice.
Methods: Cross-sectional study of 1,068 medical records of patients treated between April/2008andAugust/2014.Atotalof115casessuggestiveofgenitourinaryanomalieswere selected,regardlessofage.Astandardizedclinicalprotocolwasused,aswellaskaryotype, hor-monelevelsandgenitourinaryultrasoundforbasicevaluation.Laparoscopy,gonadalbiopsyand molecularstudieswereperformedinspecificcases.Patientswithgenitourinarymalformations wereclassifiedasgenitourinaryanomalies(GUA),whereastheothers,assexdifferentiation disorders(SDD).Chi-square,FisherandKruskal-Wallistests wereusedforstatisticalanalysis andcomparisonbetweengroups.
Results: 80subjectsmettheinclusioncriteria,91%withSDDand9%withisolated/syndromic GUA.TheagewasyoungerintheGUAgroup(p<0.02),butthesegroupsdidnotdifferregarding externalandinternalgenitalia,aswellaskaryotype.Karyotype46,XYwasverifiedin55%and chromosomalaberrationsin17.5%ofcases.Ambiguousgenitaliaoccurredin45%,predominantly in46,XXpatients(p<0.006).Gonadaldifferentiationdisordersaccountedfor25%andcongenital adrenalhyperplasia,for17.5%ofthesample.Consanguinityoccurredin16%,recurrencein12%, lackofbirthcertificatein20%andinterruptedfollow-upin31%ofcases.
Conclusions: PatientswithSDDpredominated.Ambiguousgenitaliaandabnormalsexual diffe-rentiationweremorefrequentamonginfantsandprepubertalindividuals.Congenitaladrenal hyperplasiawasthemostprevalentnosology.YoungerpatientsweremorecommonintheGUA group.Abandonmentandlowerfrequencyofbirthcertificateoccurredinpatientswith ambi-guousormalformedgenitalia.Thesecharacteristicscorroboratetheliteratureandshowthe biopsychosocialimpactofgenitourinaryanomalies.
©2015SociedadedePediatriadeSãoPaulo.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisanopen accessarticleundertheCCBYlicense(https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/).
Introduc
¸ão
Anormalidadesgeniturinárias (AGU)representam35 a45% dosdefeitoscongênitosecompreendemumconjuntoamplo deanomaliasestruturaisdostratosurinárioereprodutivo, cujaocorrênciaconjuntarefletesuaorigemembriológicae controlegenéticocomum.1-3Oespectroclínicoseestende
desdeanomaliasminor,comohipospadiaglandar,até qua-drosgravescomoextrofiadebexiga.Aapresentac¸ãoclínica podeser isolada ouassociada a outros defeitos anatômi-cosecomporquadrossindrômicos.Aetiologiacompreende causas genéticas decorrentes de anormalidades cromos-sômicas, monogênicas ou multifatoriais, e não genéticas, relacionadasàexposic¸ãoateratógenos.Háaindaascausas desconhecidas.1,4
Os distúrbios da diferenciac¸ão do sexo (DDS) consti-tuemumgrupoespecialdeAGUemqueodesenvolvimento
do sexo genético, gonadal ou anatômico é atípico ou incongruente. As manifestac¸ões clínicas abrangem desde ambiguidadegenitalclássica, manifestadaao nascimento, até infertilidade em adultos.4,6-11 A heterogeneidade
clí-nica e o uso de diferentescritérios de inclusão, métodos de coleta, codificac¸ão e registro das AGU são responsá-veis porvariac¸ões amplasde prevalência.Excluindo-seas anormalidadesminor,comoashipospadiasisoladascom pre-valênciade 1:250nascidosvivos, algunsdistúrbiospodem sertãorarosquanto1:100.000,comoocorrenaextrofiade cloaca.12,13NogrupoDDS,admite-seprevalênciaglobalde
1-2:10.000nascimentos,2,4,9,11oqueposicionaessascondic¸ões
nogrupodaschamadasdoenc¸asraras,focorecentede polí-ticasdeatenc¸ãoàsaúdeemgenéticanoSistemaÚnicode Saúde(SUS).14
endocrinológicas, genéticas, sociais, psicológicas e éticas subjacentes.4,6-10 Todosesses aspectosfazemdas AGUum
importantedesafioepidemiológicoeclínico.Assim,na pers-pectiva de subsidiar propostas de melhoria da atenc¸ão à saúdenessaárea,oobjetivodesteestudoédescrevero per-filclínicodospacientescomAGUatendidosem servic¸ode genéticaclínicaemhospitalterciárionoSUS.
Método
Estudo descritivo e transversal baseado na análise de 1.068prontuáriosdigitaisdepacientesatendidosnoServic¸o de Genética Clínica do Hospital Universitário Profes-sor Alberto Antunes da Universidade Federal de Alagoas (SGC/HUPAA/UFAL) entreabrilde 2008e agosto de2014. Esse Servic¸o, único no estado, atende a toda demanda do SUS. Os casos são referenciados via Coordenac¸ão de Regulac¸ãodaAssistência,comvolumemédiodeoitocasos novosporsemana. Pacientesaté18 anos queapresentam defeitosdamorfogênesecomousemassociac¸ãocomatraso neuropsicomotor/deficiênciaintelectualconstituemogrupo predominante.
Foram mapeados 115 casoselegíveis a partirda busca dos seguintes descritores, independentemente da idade na primeira consulta: ambiguidade genital; micropênis; hipospádia(qualquer grau);fusão labialposterior; gineco-mastia;criptorquidia;clitoromegalia;amenorreiaprimária; hipodesenvolvimento sexual secundário;disgenesias gona-dais.Casoscomdescric¸ãoincompletadamorfologiagenital externa,ausênciadecariótipoe diagnósticoconclusivode condic¸õesforadoespectrodasAGU,comohérniasinguinais esíndromedeNoonan,foramexcluídos.Aamostrafinalfoi de80 sujeitos.
Os dados foram obtidos com o uso de protocolo pró-prio do ambulatório de AGU, que consiste de anamnese dirigidaàqueixaatual,antecedentesgestacionais,fatores derisco genéticos e ambientais e examefísico geral com ênfase nas manifestac¸ões genitais. Esse protocolofoi ins-tituído em 2009 e aplicado prospectivamente a 70 (87%) casos.Osdemais 10 (13%)pacientes, atendidosem2008, tiveramseusdadosobtidosapartirdoprontuáriodigitaldo servic¸o.
Micropênis foi definido como tamanho peniano abaixo de 2,5 desvios-padrão para a idade; criptorquidia, como localizac¸ãoextraescrotaldotestículo;eambiguidade geni-talfoiclassificadadeacordocomcritériosdePrader:5P1
---Genitáliaindistinguível dafeminina,excetopeloaumento dofalo; P2 --- Aumentomaiordo falo, fusão labioescrotal posterioresemseiourogenital;P3---falodeaspecto peni-ano,fusãolabioescrotalquasetotaleaberturaperinealdo seiourogenital; P4--- Faloaumentado, fusão labioescrotal totaleaberturadoseiourogenitalpenoescrotal;P5---Falo deaspectopeniano,fusãolabioescrotaltotal,aberturado seiourogenitalnocorpodofalooubalânica.15
Aavaliac¸ãocomplementarbásicacompreendeucariótipo desangueperiféricocombandeamentoGTGeresoluc¸ãode 400-450bandas.Foramanalisadas,nomínimo,40metáfases porpaciente,feitasnoLaboratóriodeCitogenéticaHumana daUniversidadeEstadualdeCiênciasdaSaúdedeAlagoas (Uncisal);exames hormonaisdirigidos, ultrassonografiado
tratogeniturinário(TGU)e,quandonecessário,laparoscopia ebiópsiagonadal.
Estudo dos seguintes genes foi feito em parceria com o Grupo Interdisciplinar de Estudos da Determinac¸ão e Diferenciac¸ãodoSexo(GIEDDS)eCentro deBiologia Mole-cular e Engenharia Genética (CBMEG) da Universidade EstadualdeCampinas(Unicamp):androgenreceptor (AR),
nuclearreceptorsubfamily5,groupA,member1(NR5A1);
steroid-5-alpha-reductase, alpha polypeptide 2 (SRD5A2);
sex determining region Y(SRY); cytochromeP450,family
21,subfamilyA,polypeptide2(CYP21A2)ehydroxysteroid
(17-beta)dehydrogenase3(HSD17B3).
Casos de malformac¸ões geniturinárias foram classifica-doscomodefeitosgeniturinários(DGU)eosdemais,como distúrbios da diferenciac¸ão do sexo (DDS). As variáveis independentes e suas respectivas categorias de análise compreenderamascaracterísticas demográficas e clínicas eascaracterísticasgenéticas.As características demográ-ficaseclínicascoletadasforam:morfologiagenitalexterna (ambígua,aparênciafeminina,aparênciamasculinaou mal-formada),achadosdoTGU(derivadosdeMüller,derivados deWolff,anomaliasrenais),idade(<1;1-9;10-19;>19anos), sexo de criac¸ão (atribuic¸ão familiar de sexo social mas-culino, feminino ou não definido, independentemente do registrocivil),registrocivil(masculino,feminino,não regis-trado), interrupc¸ão doseguimento/motivo dainterrupc¸ão (mudanc¸adedomicílio,óbito,abandonodoseguimento).Já ascaracterísticas genéticas avaliadas foram: consanguini-dade,recorrênciaeidadematerna≥35 anos(simounão), cariótipo (46,XY; 46,XX; Outros), presenc¸a de mutac¸ão patogênica/polimorfismonosgenesestudados(simounão). Os dados foram tabulados e analisados por meio dos programas Microsoft Excel e Epi-InfoTM versão 3.5.2. Foi
feita análise descritiva com distribuic¸ão de frequências, medidas de tendência central e dispersão. Teste exato de Fisher e qui-quadrado foram usados para análise de variáveis categóricas e Kruskal-Wallis para igualdade demédias.Adotou-seníveldesignificânciade5%(p<0,05). Estapesquisa teveaprovac¸ãoética em 10/09/2013 (CAAE 17197113.8.0000.5013;parecer390.134).
Resultados
Entre80sujeitoscomAGUquecompuseramaamostra,73 (91%)foramdefinidoscomdiagnósticodeDDSeosdemais como DGU isolado ousindrômico. Atabela 1 apresentaa distribuic¸ãodascaracterísticasgeraisdossujeitosdeacordo comessesgrupos.
Aidadenaconsultainicialvarioudezeroa38 anos,com 55 (69%) abaixo de seis. A média de idade foi de quatro mesesnogrupoDGUe6,8anosnogrupoDDS(p<0,02).Nesse último,observou-segradientededistribuic¸ãodamédiade idadeemrelac¸ãoàmorfologiagenital,de2,9±6,4 anosno grupo com ambiguidade genital,6,5±10,2 anos no grupo comgenitáliadeaparênciamasculinae 15,5±9,1 anos no grupocomgenitáliadeaparênciafeminina(p<0,01).
Tabela1 Distribuic¸ãodascaracterísticasdemográficas,clínicasecitogenéticasdossujeitosemrelac¸ãoaogrupodedistúrbio
Características DGU DDS p-valor
Idadeemanos;n(%) 0,02a
0 6(85,5) 32(43,8)
1---9 1(14,5) 16(22)
10---19 --- 18(24,6)
>19 --- 7(9,6)
Média±DP 0,14(±0,37) 6,8(±9,58)
Morfologiagenitalexterna,n(%) 0,50b
Ambígua --- 36(49,3)
Masculina 3(43) 20(27,3)
Feminina --- 17(23,4)
Malformada 4(57)
---AchadosdoTGUinterno,n(%) 0,51b
DerivadosdeMüller 2(28,5) 35(48)
DerivadosdeWolf 3(43) 35(48)
Anomaliasrenais 2(28,5) 4(5,4)
Cariótipo,n(%) 0,64b
46,XY 4(57) 40(54,7)
46,XX 2(28,5) 20(27,3)
Outros 1(14,5) 13(18)
Ausênciaderegistrocivil 3(43) 13(17,8) 0,13b
Motivosdeabandono 0,56
Óbito 2(50) 3(66,7)
Mudanc¸adedomicílio --- 4(19)
Abandonodoacompanhamento 2(50) 14(14,3)
DGU,defeitogeniturinário;DDS,distúrbiodadiferenciac¸ãodosexo;TGU,tratogenitourinário;Abandono,abandonodeseguimento.
aKruskal-Wallis. b TesteexatodeFisher.
Wolffestavampresentesem38(51%)sujeitos,seisdosquais apresentavamanomaliasrenaisassociadas.
Cariótipo46,XYfoidemonstradoem44 (55%)pacientes; 46,XXem 22 (27,5%);e anormalidadescromossômicasem 14 (17,5%).Nãohouvediferenc¸asestatisticamente signifi-cativasentre osgrupos DDSe DGU quanto à presenc¸ade anormalidadescitogenéticas.
A tabela 2 apresenta a distribuic¸ão das manifestac¸ões genitaisexternaseinternasemrelac¸ãoaocariótipo.A ambi-guidadegenitalfoimaisfrequentenogrupo46,XX(p<0,006). SeispacientescomderivadosdeMüllertinhamcromossomo Ydemonstrávelportécnicacitogenéticaoumolecular.
As categorias clínicas estão apresentadas na tabela 3. Todasasanormalidadescromossômicasencontradastiveram correlac¸ãopatogênicacomosrespectivosfenótipos.Quanto aos genes estudados, até o presente foram identificadas mutac¸ões/polimorfismosem15 (18,8%)casos.
Vinte e dois (27,5%) pacientes permanecem sob investigac¸ão diagnóstica,apenas umdesses comcariótipo 46,XX.Dentreosdemais,14têmperfilhormonalsugestivo dedefeitodesíntese ouac¸ão dos andrógenos esete per-manecemcomo idiopáticosounãoesclarecidos.Nenhuma mutac¸ão patogênica foi encontrada até o momento nos genesestudadosnessesindivíduos.
Como grupo, os distúrbios da diferenciac¸ão gonadal foramosmaisfrequentes,corresponderama20 (25%)casos. Entreessesfoiencontradoomaiornúmerodeanormalidades citogenéticase umadasmenoresfrequências de ambigui-dadegenital.
Ahiperplasiaadrenal congênita foio diagnóstico noso-lógico mais prevalente na amostra (17,5%). Nesse, assim como nogrupo dos defeitos de síntese e ac¸ão de andró-genos,foramencontradasasfrequênciasmaiselevadasde ambiguidadegenital.
Onze (16%) famílias apresentavam consanguinidade e nove (12%),recorrênciadodistúrbio,todaspertencentesao grupoDDS.Idadematerna≥35 anosocorreuemoito (10%) casos,apenasumdessesnogrupoDGU.
Dezesseis(20%)crianc¸asnãotinhamregistrocivile ape-nasumanãotinhasexodecriac¸ãodefinido,semdiferenc¸as estatísticasentreosgruposDDSeDGU(p<0,13)(tabela1). Todavia, a ausência de registro foi maior nos casos com ambiguidadeoumalformac¸ãogenitalexterna(p<0,02).
Houve interrupc¸ão do seguimento ambulatorial em 25 (31%) casos,principalmentepor abandonodo acompanha-mento.EsseresultadonãodiferiuentreosgruposDGUeDDS (tabela1)etampoucoquantoaodomicílionacapitalouno interior(p<0,20).Poroutrolado,essafoisignificativamente menor nogrupodepacientescom ambiguidadegenitalou genitáliamalformada(p<0,01).
Discussão
Tabela2 Distribuic¸ãodossujeitossegundocaracterísticasgenitaisexternaseinternasemrelac¸ãoaocariótipo
Características 46,XY
n(%)
46,XX n(%)
Outrosn(%) p-valor Qui-quadrado
Morfologiagenitalexterna
Ambígua 19(43,2) 15(68,1) 2(14,2)
Prader1 1(2,3) 1(4,5)
---Prader2 1(2,3) 2(9,1) 1(7,1)
Prader3 5(11,3) 11(50) 1(7,1)
Prader4 12(27,3) ---
---Prader5 --- 1(4,5)
---Masculina(micropênis,hipospadiae/oucriptorquidia) 22(50) --- 1(7,1)
Feminina(normal,infantilouhipoplásica) 2(4,5) 5(22,8) 10(71,6)
Malformada 1(2,3) 2(9,1) 1(7,1)
Total 44(55) 22(27,5) 14(17,5) 0,006
Achadosdotratogeniturináriointerno <0,001
DerivadosdeMüller 3(7,5) 22(100) 12(92,3)
DerivadosdeWolf 37(92,5) --- 1(7,7)
hospital evidenciou alguns entraves como desinformac¸ão, dificuldadedeacessoaexames,descontinuidadeno acom-panhamentoedesarticulac¸ãoentreosservic¸os.16Aintenc¸ão
demodificaressarealidadedeterminou,em 2008,oinício
do ambulatório integrado de genética e psicanálise no SGC/HUPAA/UFAL.17 Osresultados aqui discutidos provém
do atendimento sistematizado de pacientes feito nesse ambulatório.
Tabela3 Distribuic¸ãodascategoriasclínicasdeacordocommorfologiagenitalexterna,sexodecriac¸ãoemétodosdiagnósticos empregados
Categoriasclínicas(n) Genitália externa
Sexode criac¸ão
Métodosdiagnósticos B.gonadal(n)
Citogenéticaclássica Seq.genes
SíndromedeTurner(9) AF F 45,X,45,X/46,X,r(X) ---
---DGPXXeXY(4) AF F 46,XX,46,XY NR5A1,SRY
---Outrasdisgenesiasgonadais(6) P2---P4,AM F,M,ND 46,XY,45,X,a45,X/46,XY,
45,X/47,XY+21
NR5A1,SRY (3)
DDSovário-testicular(1) P3 F 46,XX --- (1)
Deficiênciade5␣redutaseII(2) AF,P4 F,M 46,XY AR,SRD5A2 (1)
DeficiênciadeHSD17B3(1) P3 F 46,XY AR,SRD5A2,
HSD17B3
(1)
Eminvestigac¸ão(14) AM,P2---P4 M,F 46,XY AR,NR5A1,
SRD5A2
(2)
Hiperplasiaadrenalcongênita(14) P1---P5,AM F,M 46,XX,46,XY CYP21A2
---Hipogonadismohipogonadotrófico(12) AM,AF M,F 46,XX,46,XY
---Idiopáticosounãoesclarecidos(8) P1---P4,AM M,F 46,XY,46,XX AR,NR5A1,
SRD5A2, HSD17B3
---Defeitosgeniturinários(7) AM,MF M,F 46,XX,46,XY,47,XX+18,
---Outros:2 AM,AF M,F 46,XY,46,XY,
der(22)t(X;22) (p11.4;p13)mat
SRY (2)
P1,genitáliaambíguagrauIdePrader;P2,genitáliaambíguagrauIIdePrader;P3,genitáliaambíguagrauIIIdePrader;P4,genitália ambíguagrauIVdePrader;P5,genitáliaambíguagrau VdePrader;AM,genitáliadeaparênciamasculina±micropênis,hipospadia glandarecriptorquidia;AF,genitáliadeaparênciafemininanormal,infantilouhipoplásica;MF:genitáliamalformada;F,sexodecriac¸ão feminino;M,sexodecriac¸ãomasculino;ND,sexodecriac¸ãonãodefinido;AR,androgenreceptor;NR5A1,nuclearreceptorsubfamily
5,groupA,member1;SRD5A2,steroid-5-alpha-reductase,alphapolypeptide2;SRY,sexdeterminingregionY;CYP21A2,cytochrome
P450,family21,subfamilyA,polypeptide2;HSD17B3,hydroxysteroid(17-beta)dehydrogenase3.
Nessaamostra,observou-sepredomíniodosDDSsobreos DGUisoladosesindrômicos.EmboraosDGUisoladossutis, comoashipospádiasglandares,sejammuitofrequentesna populac¸ão,13 esseresultadonãosurpreende,umavez que
a prática comum é não encaminhar esses pacientes para investigac¸ãoetiológica.Poroutrolado,opequenonúmero de casos com DGU sindrômico pode refletir a raridade e cursoclínicogravedessascondic¸ões,geralmenteassociadas aóbito.Todavia,umavezreconhecidos,essescasos costu-mamser encaminhados paraavaliac¸ão em idadeprecoce, conformeobservadonestacoorte.
OgrupoDDSmostrou-seheterogêneoquantoàidadede encaminhamentoeàsmanifestac¸õesclínicas.O gradiente dedistribuic¸ãoobservadorevelouque,emrecém-nascidos e pré-púberes, predominaram os casos de ambiguidade genital ou com sinais sugestivos de diferenciac¸ão sexual anômala(micropênis,criptorquidiabilateral,microrquidia, hipospádia, hipertrofia clitoriana, fusão labial posterior, massaspalpáveisemsaliêncialabioescrotalouregião ingui-nal). Em adolescentes e adultos, as manifestac¸ões mais prevalentes foramatraso puberal,desenvolvimento pube-ral atípico e infertilidade. Esses resultados corroboram a literatura.4,6-8,11
Adespeito disso, chamouatenc¸ãoaamplavariac¸ãode idadenogrupocomambiguidadegenital,queincluiu ado-lescenteseumadulto,e aausênciadetratamento prévio emseispacientesdessegrupo.Esseresultadopoderefletir osubdiagnósticoe osub-registrodeAGU,alémde dificul-dadesdeacessoedesarticulac¸ãodosservic¸osdesaúdeno estado.17,18
Osdemaisaspectosclínicosestudados---morfologia geni-talexternae internae presenc¸aounãodeanormalidades citogenéticas --- tiveram comportamento semelhante nos grupos DGU e DDS. Em concordância com a literatura, a análise dessas características revelou que, embora tenha ocorrido predomínio de sujeitos com genitália ambígua, derivadosdeWolffecariótipo46,XY,nenhumdesses parâ-metrosisoladamentepodeserconsideradoparaadefinic¸ão dodiagnósticoedotratamento.4,6-8,10,11,19-21
O grupo com ambiguidade genital é particularmente ilustrativodessasituac¸ão. Note-seque emindivíduos com genitália Prader 1-3 foram detectados todos os tipos de cariótipo, enquanto no grupo Prader 4 todos tinham par sexualXYenogrupoPrader5oparsexualeraXX.Alémdisso, cromossomoYfoiencontradoempacientescomgenitáliade aparênciafemininanormal e em pacientescom derivados deMüller, oquecorroboraanecessidadedeusodevários recursosnaabordagemdiagnósticadasAGU.4,6-8,10,11,19-21
O estabelecimento do diagnóstico nosológico é reco-nhecidamente um desafio, especialmente no grupo com cariótipo 46,XY, devido à extensa sobreposic¸ão clínica e laboratorial.Mesmo com o advento de técnicas de biolo-giamolecular paraabordagem devários genes envolvidos nadiferenciac¸ãodosexo,afrequênciadecasossem diag-nóstico varia de 33% a 80%.4,22-24 No presente estudo, a
frequênciadecasos46,XYsemdiagnósticonosológico esta-belecidoconcordacomosdadosdaliteratura.Aguarda-sea conclusãodosequenciamentodosgenesselecionadospara reavaliaresseresultado.
Os grupos de DDG e hipogonadismo hipogonadotrófico têmnocariótipoenoperfilhormonalimportantesrecursos
para a definic¸ão do diagnóstico. Entre os DDG, o carió-tipo permite esclarecer síndrome de Turnere disgenesias gonadais mistas. Além disso, a biópsia gonadal, indicada deacordocomcritériosestritosdecusto/benefício,é elu-cidativa em casos de DDS ovariotesticular e em algumas disgenesias gonadais.Já apresenc¸adeanomaliasrenaise outrosdefeitoscongênitosempacientescomhipogonadismo hipogonadotróficodeveremeteràpossibilidadedesíndrome deKallmann.6,11Todasessacaracterísticasforamobservadas
nesteestudo.
Deacordocomoesperado,entretodososgrupos diagnós-ticos,amenorfrequênciadediscordânciaentremorfologia genital,cariótipoesexodecriac¸ãofoiobservadaem paci-entescomhipogonadismohipogonadotróficoesíndromede Turner, ao passo que as maiores discordâncias ocorreram nosdefeitosdasínteseouac¸ãodosandrógenosena hiper-plasia adrenal congênita.4,10,25 Essa última,que corrobora
a literatura, figurou como o diagnóstico nosológico mais frequente.26,27
Aelevadafrequênciadeconsanguinidadee recorrência dodistúrbio nogrupo DDSestáde acordocoma reconhe-cidacontribuic¸ãodascondic¸õesautossômicasrecessivasna etiologiadesses distúrbios.24,26,28 Destaca-seque o Estado
deAlagoasapresentafrequênciaselevadasde consanguini-dade, o quefavorece o aparecimentode distúrbiosraros, conformeseobservaemalgunscasosdessaamostra.Aidade materna≥35anoséumfatorqueelevaoriscode aneuploi-diascromossômicas.28Essacorrelac¸ãopodeserinferidaem
doisentreoitocasosdapresenteamostra.
A complexidade biológica da diferenciac¸ão do sexo na espécie humana se sobrepõe a desafiadoras questões psicológicas, sociais e éticas envolvidas no manejo des-ses pacientes. Assim, para o planejamento terapêutico devem-se levar em considerac¸ão, além do diagnóstico etiológico,osexodecriac¸ão,ascondic¸õesanatômicaspara correc¸ãodamorfologiagenitalexterna,apossibilidadede puberdadeespontâneaefertilidade.4,6-8,10,11Adefinic¸ãodo
sexo decriac¸ão e o registro civilda crianc¸asão aspectos particularmente importantes e devem ser analisados de modoabrangente.Nopresenteestudo,umafamília aguar-douoesclarecimentododiagnósticoparadefinirosexode criac¸ão e registro civil e iniciou o acompanhamento com 65diasdevida,semnomeac¸ão.
A definic¸ão do sexo de criac¸ão por uma família ins-creve asinsígnias de umdesejo. Desejoque implicará as representac¸ões imaginárias que se fazem do sexo anatô-micodacrianc¸aedolugarque ocupana família.29 Assim,
o modo como cada sujeito irá apreender o corpo próprio eaconstruc¸ãodapsicossexualidadeseguemadefinic¸ãodo sexodecriac¸ão, enãoosexoanátomo-biológico.29 Aesse
respeito,oestudodeumdoscasosdaamostra,30
fundamen-tadonateoriapsicanalítica,evidenciouqueaatribuic¸ãodo nome própriosituaa crianc¸a,porforc¸adisso, em umdos sexos.
saúde,oqualpossibilitaoacessoaexameseprocedimentos. Neste estudo, aproximadamente 1/5 das crianc¸as chegou aoatendimentosemregistrocivil,amaioriaconstituídade casosdeambiguidadegenitalougenitáliamalformada.Esse resultadosugerequeofatormaissignificativonadecisãode registrara crianc¸aéamorfologiagenitalexternaeindica anecessidadederevisaroscritériosdeacesso aoSUSnos casosemqueacondic¸ãoclínicainterferenoregistrocivil.
Afrequênciadeinterrupc¸ãodeseguimentofoibastante elevadanesteestudo,comdestaqueparaoscasosdeóbitoe abandono.Osóbitosocorreramempacientescom diagnós-ticodehiperplasiaadrenalcongênita,relacionadosacrises adrenais,eemrecém-nascidoscommúltiplasmalformac¸ões do grupo DGU, desfechos concordantes com a literatura considerando a gravidade dos quadros.26-28 Os casos de
abandono incluem pacientes que não retornaram e cujos telefonese enderec¸osmudaram.Umaspectointeressante é observarque a distância entreo domicílio da famíliae o servic¸o no qual ocorreu o acompanhamento não inter-feriunoabandonodoacompanhamento.Poroutro lado,à semelhanc¸adoqueocorrecomo registrocivil,a morfolo-giagenitalexternafoifatordeterminante.Asmenorestaxas deabandonoforamobservadasempacientescom ambigui-dadeoumalformac¸ãogenital.Essesresultadosevidenciamo impactopsicossocialdaanatomiagenitalexternaeindicam anecessidadedemaiorinvestimentonaacolhidaàsfamílias enosesforc¸osparamanteroacompanhamentodepacientes comanormalidadesmenosgraves,emfacedasimplicac¸ões daausênciadetratamentonapuberdadeeidadeadulta.
O conjunto dos resultados permitiu conhecer o perfil dospacientescomAGUatendidosnoSGC/HUPAA/UFAL.As informac¸õesreunidasfornecemsubsídiosparaaprimoraros protocolos clínicosna perspectiva defacilitar e agilizar a conduc¸ãodos casose atomada decondutasbaseadas em evidênciaenasnecessidadesdesaúdeespecíficasdos sujei-tos.Duas importanteslimitac¸ões doestudo sãoo elevado número de casos cujo seguimento foi interrompido e de casosaindasemdiagnóstico,oque,nessegrupo,depende fortementedoestudodegenesaindanãodisponívelnoSUS. Adespeitodisso,umaspectodegranderelevânciafoio esta-belecimentodeparceriascominstituic¸õesdepesquisapara acessoatestesdiagnósticos.Localmente,odesafioquese apresentaéaefetivaincorporac¸ãodeoutrasespecialidades nessa proposta, na perspectiva da abordagem multidisci-plinarafinadacomasdiretrizes eosprincípios daPolítica NacionaldeAtenc¸ãoIntegralàsPessoascomDoenc¸asRaras.
Financiamento
Fundac¸ão de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal). Convênio Ministério da Saúde/CNPq/ Sesau--AL/Fapeal.Processo: 60030 000714/2013. Conselho Naci-onal de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ---Programa Interinstitucional de Bolsas de Iniciac¸ão Cien-tífica (CNPq/Pibic) e Edital Universal (CNPq), Processo: 484491/2013-0.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Agradecimentos
Aos pacientes e parentes sem os quais este estudo não seriapossível. ÀDra. Rosemary Barbosa Marinhopela dis-ponibilidade para fazer as ultrassonografias; Dr. Ricardo Luis Simões Houly e Dras. MariaEduarda Baía Correia de Oliveira e Rafaella Lima Borges de Mendonc¸a, do Servic¸o de Anatomia Patológica do Hospital Universitário Profes-sor Alberto Antunes da Universidade Federal de Alagoas; Dr.GilGuerra-Júniore Dra. Andrea Trevas Maciel-Guerra, do Grupo Interdisciplinar de Estudo da Determinac¸ão e Diferenciac¸ão do Sexo da Universidade Estadual de Cam-pinas; Dra. Maricilda Palandide Mello, do Laboratóriode Genética Molecular Humana do Centro de Biologia Mole-cular e Engenharia Genética da UniversidadeEstadual de Campinas.
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