CONVERSANDO SOBRE SEXO: A REDE SOCI OFAMI LI AR COMO BASE
DE PROMOÇÃO DA SAÚDE SEXUAL E REPRODUTI VA DE ADOLESCENTES
Ana Luiza Vilela Bor ges1 Lúcia Yasuk o I zum i Nichiat a1 Néia Schor2
Borges ALV, Nichiat a LYI , Schor N. Conversando sobre sexo: a rede sociofam iliar com o base de prom oção da saúde sexual e reprodut iva de adolescent es. Rev Lat ino- am Enferm agem 2006 m aio- j unho; 14( 3) : 422- 7.
Com o obj et iv o de ident ificar com quem adolescent es com par t ilhav am infor m ações e diálogos sobr e sexualidade, foram ent revist ados, em 2002, 383 adolescent es de 15 a 19 anos de idade, m at riculados em um a unidade de saúde da fam ília da zona lest e do m unicípio de São Paulo. Os am igos for am apont ados com o os indiv íduos com quem os adolescent es m ais fr eqüent em ent e conv er sav am sobr e sex o. Apesar disso, os par es f or am p er d en d o p r ior id ad e n o t ocan t e ao esclar ecim en t o d e d ú v id as d e acor d o com a “ com p lex id ad e” d o assunt o a ser abordado, sendo m ais cit ados os professores e profissionais de saúde quando as dúvidas diziam r espeit o à pr evenção de DST/ aids. Os pais for am r efer idos por apr oxim adam ent e 20% dos adolescent es com o font e de esclar ecim ent o de dúvidas, independent em ent e do assunt o abor dado. Assim , t odos esses suj eit os, ao ser em int er locut or es no diálogo com adolescent es sobr e sex o, gr av idez e DST/ aids necessit am ser agr egados com o par t ícipes das ações de pr om oção da saúde sex ual e r epr odut iv a de adolescent es.
DESCRI TORES: saúde do adolescent e; educação sex ual; pr om oção da saúde; enfer m agem
TALKI NG ABOUT SEX: THE SOCI AL AND FAMI LI AL NET AS A BASE
FOR SEXUAL AND REPRODUCI VE HEALTH PROMOTI ON AMONG ADOLESCENTS
This st udy aim ed t o assess w hom adolescent s shar ed infor m at ion and dialogues about sex ualit y w it h. Therefore, 383 fift een t o ninet een year- old adolescent s enrolled in a fam ily healt h unit in t he cit y of São Paulo ( Br azil) w er e int er view ed in 2002. Adolescent s m ost fr equent ly seem ed t o t alk about sex w it h peer s, alt hough t h ey lost pr ior it y accor din g t o t h e com plex it y of t h e t h em e. Th u s, t each er s an d h ealt h pr of ession als w er e m ainly indicat ed as a r efer ence w hen t alk ing about st d/ aids. For 2 0 % of t he adolescent s, par ent s w er e t he m ain per sons t o get infor m at ion fr om , no m at t er t he subj ect . The r esult s indicat ed t hat t his ent ir e social and f am i l y n et w or k sh ou l d b e i n cor p or at ed as p ar t n er s i n sex u al an d r ep r od u ct i v e h eal t h p r om ot i on am on g ad olescen t s.
DESCRI PTORS: t een healt h; sex educat ion; healt h pr om ot ion; nur sing
HABLANDO SOBRE SEXO: LA RED SOCI AL Y FAMI LI AR COMO BASE DE LA
PROMOCI ÓN DE LA SALUD SEXUAL Y REPRODUCTI VA DE LOS ADOLESCENTES
Con obj et o de conocer con quien los adolescent es com part ían inform aciones y diálogos sobre sexualidad fueron ent revist ados en 2002, 383 adolescent es de 15 a 19 años de edad, m at riculados en una unidad de salud de la fam ilia del m unicipio de São Paulo ( Br asil) . Los am igos fuer on r efer idos com o las per sonas con quienes los adolescen t es m ás fr ecu en t em en t e con v er saban sobr e sex o. A pesar de eso, los par es fu er on per dien do pr ior idad par a la aclar ación de dudas de acuer do con la “ com plej idad” del asunt o a ser t r at ado, siendo m ás cit ados los profesores y profesionales de salud cuando las dudas t enían a ver con la prevención de ETS/ SI DA. Los padr es fuer on m encionados por apr ox im adam ent e el 20% de los adolescent es com o fuent e de aclar ación de dudas, independient em ent e del asunt o t r at ado. Así, t odos eses suj et os, al ser int er locut or es en el diálogo con adolescent es sobre sexualidad, necesit an ser t enidos en cuent a com o part ícipes en las acciones de prom oción de la salud sex ual y r epr oduct iv a de los adolescent es.
DESCRI PTORES: salud de los adolescent es; educación sex ual; pr om oción de la salud; enfer m er ía
1 Professor Dout or da Escola de Enferm agem da Universidade de São Paulo, e- m ail: [email protected], izum [email protected]; 2 Professor Tit ular da Faculdade de Saúde
I NTRODUÇÃO
N
a agenda par a a pr om oção da saúde do adolescente, os aspectos que concernem à sua saúde sexual e reprodut iva t êm adquirido novas dim ensões n o ca m p o d a sa ú d e co l e t i v a . I sso p o d e e st a r ocor r en do, ent r e out r os, dev ido ao in cr em ent o do n ú m e r o a b so l u t o e r e l a t i v o d e g e st a çõ e s e n t r e adolescent es. No Br asil, dados de 1994 m ost r ar am que os nascidos vivos das m ulheres brasileiras com m enos de 20 anos de idade corresponderam a 20,8% d o t o t a l , e n q u a n t o q u e , e m 2 0 0 2 , a p r o p o r çã o au m en t o u p ar a 2 2 , 7 %( 1 ). É t am b ém l ar g am en t ediscutido o increm ento da fecundidade na faixa etária que com preende a adolescência, principalm ente entre as m en in as m en os escolar izad as, n eg r as e m ais pobr es, de r egiões ur banas, fazendo com que haj a a u m e n t o n o p e so r e l a t i v o d a s m a i s j o v e n s n a fecundidade geral( 2- 3).
Um out ro aspect o a ser ressalt ado é que o im pacto que a epidem ia de aids vem produzindo sobre os j ovens em todo o m undo parece ser um a evidência de que esforços crescent es devem ser em preendidos no cam po da prevenção da t ransm issão do HI V. No Brasil, do t ot al de 362.364 not ificações por aids at é 3 0 d e j u n h o d e 2 0 0 4 , con st at ou - se q u e a m aior concent ração dos casos é na faixa et ária de 20 a 34 anos ( 49,3% ) . Considerando que há um int ervalo de cer ca de 1 0 a 1 5 anos de infecção assint om át ica, est im a- se que a t r ansm issão do v ír us possa est ar ocorrendo no período da adolescência( 4).
Desde o surgim ent o dos prim eiros casos de aids no cenário epidem iológico m undial, há m ais de 20 anos, a prevenção da t ransm issão do HI V ent re os adolescent es t em sido um dos m aior es desafios no controle da epidem ia. A despeito do conhecim ento a d q u i r i d o so b r e a i n f e cçã o , n ã o se a l t e r o u subst ancialm ent e a vulnerabilidade dos adolescent es brasileiros ao HI V e à aids. I sso deve- se à confluência d e v á r i o s a sp e ct o s d a v u l n e r a b i l i d a d e , co m o a desint egração da sociedade civil, gerando a exclusão social, a v iolên cia e a p ob r eza; o p r econ ceit o e in t oler ân cia à d iv er sid ad e e à op ção sex u al e ao “ l i m i t a d o d i á l o g o co m a s n o v a s g e r a çõ e s e a co n seq ü en t e i n co m p r een sã o d o s seu s v a l o r es e proj et os”( 5).
Par t in do do pr in cípio qu e a pr ev en ção de g est a çã o n ã o p l a n ej a d a e d o en ça s sex u a l m en t e t ransm issíveis ( DST) com o aids deveria se const it uir em u m a ação co l et i v a e n ão f o cal i zar ap en as a
responsabilidade individual. O obj et ivo dest e est udo foi identificar com quem adolescentes com partilhavam in for m ações e diálogos sobr e assu n t os r elat iv os à sexualidade, vist o que esses suj eit os, int erlocut ores no diálogo com adolescent es sobre sexo, gravidez e D ST/ a i d s, n e ce ssi t a r i a m se r a g r e g a d o s co m o part ícipes nas ações de prom oção da saúde sexual e r epr odut iv a de adolescent es.
PROCEDI MENTOS METODOLÓGI COS
Foi con du zido est u do qu an t it at iv o do t ipo t r a n sv e r sa l e m u m a a m o st r a r e p r e se n t a t i v a d e adolescen t es solt eir os de 1 5 a 1 9 an os de idade, m at r iculados em um a unidade de saúde da fam ília d a zon a lest e d o m u n icíp io d e São Pau lo/ SP. Os i n d i v íd u o s f o r a m se l e ci o n a d o s p o r a m o st r a g e m sist em át ica sem reposição, a part ir de um a list agem pr ov enient e do Sist em a de I nfor m ação da At enção Básica ( SI AB) . Foram ent revist ados 383 adolescent es ent re 15 e 19 anos de idade por m eio de form ulário est r u t u r ad o, en t r e j u n h o e d ezem b r o d e 2 0 0 2 . A população de est udo dist ribuiu- se em 203 m ulheres e 180 hom ens, com idade m édia de 16,7 anos, sem diferença estatisticam ente significativa entre os sexos. Obser v ou- se que 71% dos adolescent es concluír am o en si n o f u n d am en t al , n o en t an t o , co n si d er áv el p r o p o r çã o e n co n t r a v a - se a u se n t e d o si st e m a e d u ca ci o n a l ( 2 1 , 1 % ) . Em t o r n o d e 6 0 % d o s adolescent es referiu- se com o de cor parda ou pret a e 25,3% relat aram m orar em um dom icílio ocupado, r ev elando condições habit acionais pr ecár ias.
Os adolescent es possuíam est rut ura fam iliar com preendida, em sua m aioria, pela coabit ação com am bos os pais, t ot alizan do 6 6 , 3 % . Ou t r os 2 3 , 8 % coabitavam som ente com a m ãe, ao passo que 3,4% som ente com o pai e 6,5% com nenhum dos pais. Os pais e m ães er am pr edom in an t em en t e m igr an t es, t endo nascido, em sua m aior part e, em Est ados da Região Nor dest e.
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Pau lo.
As variáveis pesquisadas com preenderam as p e sso a s co m q u e m o s a d o l e sce n t e s m a i s f r e q ü e n t e m e n t e c o n v e r s a v a m s o b r e s e x o , e s c l a r e c i a m s u a s d ú v i d a s a r e sp e i t o d e s e x o ,
p r e v e n ç ã o d e g r a v i d e z e d e D ST/a i d s, a l ém d a
p ar t icip ação em at iv id ad es ed u cat iv as p r om ov id as
pela escola e pela u n idade básica de saú de. Foram co n si d e r a d o s co m o p a i s e m ã e s t a n t o o s p a i s biológicos quant o os padr ast os e m adr ast as, desde qu e est iv essem coabit an do com o adolescen t e n o m om ent o da ent r ev ist a. For am consider ados com o outros fam iliares os irm ãos, tios e prim os. Na categoria “ o u t r o s”, f o r a m a g r u p a d o s o s p r o f e sso r e s e profissionais de saúde.
A digit ação do banco de dados foi realizada ut ilizando o soft w ar e EPI I NFO 6.04. Os dados foram an alisados u t ilizan do o so f t w ar e SPSS ( St at ist ical Pa ck a g e f o r t h e So ci a l Sci en ces) p a r a W i n d o w s v er são 10. 0. As pr opor ções for am com par adas por m eio do t est e de associação pelo qui- quadrado.
RESULTADOS
Os r esu lt ados m ost r ar am qu e er a com os am igos com quem os adolescentes conversavam com m aior fr eqüência sobr e sexo, per fazendo 57,2% no grupo m asculino e 45,3% no grupo fem inino. Ent re as m ulheres, os out ros fam iliares ( 19,7% ) e os pais e m ães ( 1 8 , 7 % ) ocu p av am a seg u n d a e t er ceir a posição. Por outro lado, entre os hom ens, as conversas sobr e sex o dav am - se, m ais fr eqüent em ent e, além dos am igos, com os pais e m ães ( 1 3 , 4 % ) e com ninguém ( 10,6% ) , em um a diferença estatisticam ente significat iva ( p= 0,0320) , de acordo com a Figura 1.
2CKU 1WVTQU (COKNKCTGU
#OKIQU 0KPIWÃO 0COQTCFQC 1WVTQU *QO GO
/WNJGT
Fi g u r a 1 - Pe sso a s co m q u e m o s a d o l e sce n t e s conversavam com m aior freqüência sobre sexo, por sexo, São Paulo, 2002
Quando quest ionados com quem esclareciam as dú v idas sobr e sex o, os adolescen t es r ef er ir am n o v a m e n t e , e m m a i o r p r o p o r çã o , q u e e r a p r i n ci p al m en t e co m o s am i g o s ( 4 5 , 6 % en t r e o s hom ens e 41,4% ent re as m ulheres) . No grupo das adolescent es, a fam ília t am bém era procurada nesse caso, os pais e m ães ( 21,2% ) ou out r os fam iliar es ( 2 2 , 2 % ) . No g r u p o m a scu l i n o , o s p a i s e m ã e s a l ca n ça r a m o p er cen t u a l d e 1 8 , 9 % e o s o u t r o s fam iliar es 10% , m as cham a a at enção que 17, 2% não conversavam com ninguém sobre suas dúvidas r elat ivas a sexo, ao passo que, ent r e as m ulher es, esse p er cen t u al f oi d e ap en as 8 , 4 % ( p = 0 , 0 0 4 0 ) , conform e a Figura 2.
Fi g u r a 2 - Pe sso a s co m q u e m o s a d o l e sce n t e s esclareciam suas dúvidas sobre sexo, por sexo, São Paulo, 2002
Em r elação às dú v idas sobr e com o ev it ar um a gr av idez, os adolescent es cit ar am com m aior freqüência, m ais um a vez, os am igos com o pessoas a quem eles buscav am ( 32,2% ent r e os hom ens e 2 7 , 1 % ent r e as m ulher es) . Os pais e m ães for am m en ci o n ad o s em 2 4 , 6 % d as en t r ev i st as co m as g a r o t a s, se g u i d a s d e n i n g u é m , co m 1 7 , 2 % . D i f e r e n t e m e n t e d o g r u p o f e m i n i n o ( p = 0 , 0 2 8 0 ) , a p r o x i m a d a m e n t e u m e m ca d a q u a t r o h o m e n s ( 24, 4% ) r ev elou que não pr ocur av a ninguém par a esclarecer suas dúvidas sobre gravidez, m as 21,1% procuravam seus pais e m ães ( Figura 3) .
2CKU 1WVTQU
(COKNKCTGU
#OKIQU 0KPIWÃO 1WVTQU
*QO GO
/WNJGT
Fi g u r a 3 - Pe sso a s co m q u e m o s a d o l e sce n t e s esclareciam suas dúvidas sobre com o evitar gravidez, por sexo, São Paulo, 2002
2CKU 1WVTQU
(COKNKCTGU
#OKIQU 0KPIWÃO 1WVTQU
Quanto às dúvidas sobre DST/ aids, 33,9% dos hom ens e 36,5% das m ulheres referiram esclarecê-las com outras pessoas, ou seja, profissionais de saúde e pr ofessor es. Nesse caso, t am bém f oi obser v ada diferença estatisticam ente significativa entre os sexos ( p= 0,0330) . Os hom ens procuravam m ais os am igos ( 22,2% ) , os pais e m ães ( 21,7% ) ou não conversavam com ninguém ( 18,3% ) quando com par ados com as m ulheres ( 17,2% , 19,2% e 14,8% , respectivam ente) , conform e m ost ra a Figura 4.
Fi g u r a 4 - Pe sso a s co m q u e m o s a d o l e sce n t e s esclareciam suas dúvidas sobre doenças sexualm ent e t ransm issíveis/ Aids, por sexo, São Paulo, 2002
Vale ressaltar que a m aior parte dos hom ens que cit ou seus am igos com o as pr incipais pessoas com quem com partilhavam dúvidas e diálogos referiu-se, na verdade, a am igos do sexo m asculino, ao passo que ent r e as m ulher es, esse r elat o diz r espeit o às am igas do sex o f em in in o. Por ou t r o lado, qu an do r e f e r i r a m se u s p a i s co m o p r i n ci p a l f o n t e d e esclar ecim ent o de dúv idas sobr e assunt os r elat iv os à sex ualidade, os adolescent es de am bos os sex os r efer iam - se m aj or it ar iam ent e às suas m ães.
A gr ande m aior ia dos adolescent es r elat ou j á ter participado algum a vez de atividades educativas volt adas à educação sexual, prom ovidas pela escola ( 85,9% ) , ao passo que apenas 26,9% par t icipar am de t ais at iv idades pr om ov idas por algum a unidade de saúde.
DI SCUSSÃO
Os adolescent es relat aram que os diálogos e o esclarecim ento de dúvidas sobre sexo ocorriam com m aior freqüência com os am igos, todavia, enfatizaram t am bém que dúvidas sobre a prevenção de gest ação eram discutidas com os pais, m ães e outros fam iliares, assim com o as dúvidas sobre doenças sexualm ent e
t r a n sm i ssív e i s e a i d s co m o s p r o f e sso r e s e profissionais de saúde, o que parece sugerir que esses a d o l e sce n t e s co n t a v a m co m u m a d i v e r sa e h e t e r o g ê n e a r e d e d e p e sso a s co m a s q u a i s m ant iv er am diálogo, com par t ilhando infor m ações e questionam entos. Essa rede sociofam iliar necessitaria, pois, ser com pr een dida com o par t e de u m elen co f u n d am en t al p ar a con st it u ir a b ase d e ações d e prom oção da saúde do adolescent e.
A proporção de adolescent es que cit ou seus pais ( pai e m ãe) com o pr incipal font e de diálogo e esclarecim ent o de dúvidas t ant o sobre sexo, quant o DST/ aids e prevenção de gravidez, foi curiosam ent e sim ilar. I sso leva a cr er que, ent r e as fam ílias em que foi criado um espaço possível de diálogo sobre t ais assu n t os, os p ais p assam a f azer p ar t e d os r e cu r so s d e a p r e n d i za g e m d e t a i s co n t e ú d o s, in d ep en d en t em en t e d o t ip o d e d ú v id a, h av en d o, possivelm ent e, um sinal de confiança m út ua.
A i m p o r t â n ci a d a f a m íl i a co m o f o n t e d e infor m ações acer ca da sex ualidade foi ident ificada no est udo onde se pesquisou adolescent es de 12 a 18 anos de idade, m at r iculados em escolas de um dist r it o adm in ist r at iv o do m u nicípio de São Paulo. Dentre os achados, constatou- se que 61,6% j á haviam r ecebido or ient ações sobr e sexualidade pela fam ília e um a proporção ainda m aior ( 76,7% ) sobre aids( 6).
É n e ce ssá r i o q u e o s a d o l e sce n t e s m a n t e n h a m diálogos sobr e sex ualidade com seus pais e m ães, porque, além de am pliar a rede de pessoas com quem con v er sam sobr e sex o, acabam u t ilizan do m ais o p r e se r v a t i v o , p r i n ci p a l m e d i d a p a r a e v i t a r u m a gr av idez não planej ada e as doenças sex ualm ent e t r ansm issív eis/ aids( 7).
Os r esu l t a d o s m o st r a r a m q u e h o m en s e m u lh er es adolescen t es con t av am , pr in cipalm en t e, com as m ães p ar a o esclar ecim en t o d e d ú v id as, ev idenciando a ausência de diálogos e par t icipação do pai na vida de seus filhos, especialm ente das filhas, r e l e g a n d o , q u e m sa b e , e sse p a p e l à m ã e( 8 ).
Con st at ou - se qu e o pai é pou co par t icipat iv o n as conversas sobre sexualidade e cont racepção no boj o das fam ílias ( 9),e por m eio do relato de adolescentes
de am bos os sexos, identificou- se m aior abertura para pergunt ar sobre sexo às m ães do que aos pais ( 10).
Os a d o l e sce n t e s r e f e r i r a m , co m ce r t a freqüência, com o fontes de esclarecim ento de dúvidas e conversas sobre sexualidade, um m em bro da fam ília que sej a m ais velho, m as, ainda j ovem , com o, por exem plo, tios e tias, prim os e prim as, sendo necessário
2CKU 1WVTQU (CO KNKCT GU
#O KIQU 0KPIWÃ O 1WVTQU
consider ar esses out r os fam iliar es nas int er venções de educação em saúde.
De t oda form a, sem ignorar a influência da aids com o propulsora do diálogo na sociedade e na fam ília a part ir da década de 80, as conversas sobre assunt os r elat ivos a sexo ainda são incipient es nas fam ílias da m aior part e dos adolescent es( 11- 12), sendo
os am igos apont ados com o os indivíduos com quem eles m ais freqüent em ent e conversavam sobre sexo. Cham a a at enção que os par es for am per dendo a prioridade ent re os adolescent es no que diz respeit o ao esclarecim ent o de dúvidas. Enquant o 45,6% dos gar ot os e 4 1 , 4 % das gar ot as r elat ar am per gunt ar com m ais freqüência quest ões sobre sexo aos seus a m i g o s, e sse p e r ce n t u a l f o i d i m i n u i n d o progressivam ent e, de acordo com a “ com plexidade” d o assu n t o a ser ab or d ad o, alcan çan d o 2 2 , 2 % e 17,2% ent re hom ens e m ulheres quando as dúvidas diziam respeit o à prevenção de DST/ aids. Esse é um aspect o im por t ant e a ser consider ado na pr om oção da saúde do adolescente, pois vários proj etos buscam t r a b a l h a r co m a f o r m a çã o d e a d o l e sce n t e s m u lt iplicador es de in for m ações sobr e qu est ões de sa ú d e se x u a l e r e p r o d u t i v a , n o e n t a n t o , e l e s pareceram não ser, necessariam ente, a principal fonte d e i n f o r m a çõ e s e co n v e r sa s p a r a t o d o s o s a d o l e sce n t e s, a p e sa r d e a v a l i a çõ e s p o si t i v a s a respeit o de int ervenções com esse perfil j á est arem descrit as na lit erat ura( 13).
Há que consider ar que, sim ult aneam ent e à queda do núm er o de adolescent es que esclar eciam su a s d ú v i d a s co m o s a m i g o s so b r e D ST/ a i d s, o per cent ual de adolescent es que r elat ar am pr ocur ar e scl a r e ci m e n t o s, so b r e t a l t e m á t i ca , j u n t o a o s profissionais de saúde e professores, foi aum ent ando ( in clu ídos n a cat egor ia “ ou t r os” ) . Há, cer t am en t e, t en dên cia de qu e assu n t os r elat iv os a DST/ aids e quest ões biológicas sej am priorit ariam ent e discut idos por esses pr ofissionais em suas int er v enções j unt o aos ad olescen t es, lim it an d o su as ab or d ag en s, n a m aior par t e das vezes, apenas aos aspect os físicos d o at o sex u al , ao f u n ci o n am en t o d o co r p o e às co n se q ü ê n ci a s a d v e r sa s d e a t o s se x u a i s desprot egidos, com fort e abordagem no risco.
Por out r o lado, um a pr opor ção r azoável de ad ol escen t es, esp eci al m en t e d o sex o m ascu l i n o, r elat ou não esclar ecer suas dúv idas com ninguém , sej a por que j á se consider av am det ent or es de um saber suficient e para cont er quaisquer dúvidas, sej a por que er am ex t r em am ent e t ím idos e int r ov er t idos
par a m an t er em u m a con v er sa sobr e assu n t os t ão ínt im os quant o esses, indicando m aiores dificuldades no diálogo do que as m ulher es. É pr eciso enfat izar q u e q u a n t o m a i s o a d o l e sce n t e p a r t i ci p a d e program as de orientação sexual e tiver oportunidades d e co n v er sar so b r e o assu n t o , m el h o r es são o s r e su l t a d o s e m t e r m o s d e a d e sã o a m e d i d a s d e prot eção cont ra as DST/ aids( 7,14).
A pr esen ça da escola ( e dos pr of essor es) com o pr om ot or a de educação sex ual é ev idenciada por m eio do relato de 85,9% dos adolescentes que j á h a v i a m p a r t i ci p a d o a l g u m a v e z d e g r u p o s co m at iv id ad es ed u cat iv as v olt ad as à sex u alid ad e n a e sco l a . No e st u d o r e a l i za d o p o r m e i o d e u m a inv est igação conduzida em t r ês capit ais br asileir as, e n f a t i zo u - se o i m p o r t a n t e p a p e l d a e sco l a n a transm issão de conhecim entos e cham ou- se a atenção p ar a o f at o d e q u e a p r ev alên cia d e g r av id ez n a adolescência foi significat ivam ent e m ais baixa ent re os j ovens que m encionaram a escola com o font e de prim eiras inform ações sobre t al t em a. Dessa form a, invest ir na prom oção da saúde das pessoas que se e n co n t r a m n a f a se d a a d o l e scê n ci a si g n i f i ca , cer t am en t e, i n v est i r p r o p r i am en t e em ed u cação form al de qualidade( 15).
Pa r a d o x a l m e n t e , a p e n a s 2 6 , 9 % d o s adolescent es revelaram t er part icipado de at ividades, co m o m esm o o b j et i v o , p r o m o v i d as p o r al g u m a unidade de saúde. Esse aspect o é preocupant e, pois t o d o s o s a d o l e sce n t e s e n t r e v i st a d o s e r a m m at r iculados na unidade de saúde da fam ília que, apar en t em en t e, n ão h av ia con segu ido, at é aqu ele m om ent o, r ealizar um t r abalho de educação sexual en t r e os adolescen t es, o qu e deix a clar o o lon go cam inho a ser percorrido no sent ido de cont em plar as necessidades de saúde par a a pr om oção efet iv a de sua saúde reprodut iva e sexual.
CONSI DERAÇÕES FI NAI S
in t er v en ções, além d o m od elo b iológ ico, e in iciar discussões e incit ar reflexões acerca da sexualidade en q u an t o u m a d im en são socialm en t e con st r u íd a, cont em plando as per spect iv as físicas, psicológicas,
em ocionais, cult urais e sociais, evit ando, cont udo, o r ed u cion ism o b iológ ico, n o in t u it o d e est ar m ais p r ó x i m o d o a d o l e sce n t e e a l ca n ça r co m m a i s pert inência a prom oção de sua saúde int egral.
REFERÊNCI AS BI BLI OGRÁFI CAS
1. Minist ério da Saúde. DATASUS [ hom epage na I nt ernet ] . Br asília: Min ist ér io da Saú de; [ acesso em 2 0 0 4 fev er eir o 25] . I nform ações de Saúde: Nascidos Vivos. Disponível em : ht t p: / / t abnet .dat asus.gov.br/ cgi/ sinasc/ nvm ap.ht m 2 . Ya za k i LM, Mo r e l l MGG. Fe cu n d i d a d e é a n t e ci p a d a . Secret aria de Econom ia e Planej am ent o. Fundação Sist em a Est adu al de An álise de Dados - SEADE. 2 0 an os n o an o 2000: est udos sociodem ográficos sobre a j uvent ude paulist a. São Paulo ( SP) : SEADE; 1998. p. 106- 18.
3. Berquó E. O rej uvenescim ent o da fecundidade [ m onografia na I nt ernet ] . São Paulo: CEBRAP; [ acesso em 2004 fevereiro 1 8 ] . D i sp o n ív e l e m : h t t p : / / w w w . ce b r a p . o r g . b r / pesqui_pop_soc. ht m .
4. Minist ério da Saúde ( BR) . Bolet im Epidem iológico de AI DS e DST 2004 j aneir o- j ulho; 1( 1) : 29- 32.
5 . Ay r es JRCM. Pr át icas edu cat iv as e pr ev en ção de HI V/ aids: lições apr endidas e desafios at uais. I nt er face 2002; 6 ( 1 1 ) : 1 1 - 2 3 .
6. Soares CB, Ávila LK, Salvet t i MG. Necessidades ( de saúde) de adolescen t es do D. A. Raposo Tav ar es, SP, r ef er idas à f am ília, escola e bair r o. Rev Br as Cr esc Des Hu m 2 0 0 0 ; 1 0 ( 2 ) : 1 9 - 3 4 .
7 . Paiva V. É d if ícil se p er ceb er v u ln er áv el. I n : Paiv a V. Fazen d o ar t e com a cam isin h a: sex u alid ad es j ov en s em t em pos de aids. São Paulo ( SP) : Ed. Sum m us; 2000. p. 106-4 0 .
8. Riet h F. Ficar e nam orar. I n: Br uschini C, Hollanda HB, organizadoras. Horizont es plurais: novos est udos de gênero no Brasil. São Paulo ( SP) : Ed. 34; 1998. p. 135- 51. 9. Heilborn ML. O t raçado da vida: gênero e idade em dois b a i r r o s p o p u l a r e s d o Ri o d e Ja n e i r o . I n : Ma d e i r a FR, organizadora. Quem m andou nascer m ulher? Est udos sobre cr ianças e adolescent es pobr es no Br asil. São Paulo ( SP) : Ed. Rosa dos Vent os; 1997. p. 291- 41.
10. Borges ALV. Adolescência e vida sexual: análise do início da vida sexual de adolescent es da zona lest e do m unicípio de São Paulo. [ t ese] . São Paulo ( SP) : Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; 2005.
11. Brandão ER, Heilborn ML, Aquino E, Knaut h D, Bozon M. Juvent ude e fam ília: reflexões prelim inares sobre a gravidez n a ad o l escên ci a em cam ad as m éd i as u r b an as. Rev Est I n t er disciplin ar es 2 0 0 1 ; 3 ( 2 ) : 1 5 9 - 8 0 .
12. Guim arães AMd’NA, Vieira MJ, Palm eira JA. I nform ações d os ad olescen t es sob r e m ét od os an t icon cep cion ais. Rev Lat ino- am Enfer m agem 2003 m aio- j unho; 11( 3) : 293- 8.
13. Ayres JRCM, Freit as AC, Sant os MAS, Salet t i Filho HC, Fr an ça Ju n ior I . Ad olescên cia e aid s: av aliação d e u m a ex per iência de educação pr ev ent iv a ent r e par es. I nt er face 2 0 0 3 ; 7 ( 1 2 ) : 1 2 3 - 3 8 .
14. Choi KH, Coat es TJ. Prevent ion of HI V I nfect ion. Edit orial Rev iew . Aids 1 9 9 4 ; 8 : 1 3 7 1 - 8 9 .
15. Aquino EML, Heilborn ML, Knaut h D, Bozon M, Alm eida MC, Araúj o J, Menezes G. Adolescência e reprodução no Brasil: a h et er ogen eidade dos per f is sociais. Cad Saú de Pú blica 2 0 0 3 ; 1 9 ( Su pl 2 ) : 3 7 7 - 8 8 .