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Biografema de Mário de Andrade: do plural.

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Academic year: 2017

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BIOGRAFEMA DE MÁRIO DE ANDRADE - DO PLURAL

E l isa A N G OTTI K O S S OV I TC H *

RESUMO: Este texto é a primeira pate do terceiro captulo de minha tese de doutoramento -M Á R I O D E A N D RA D E , PLU R A L (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo). A, tenta-se a produção de um biografema à maneira de Roland Bathes, de quem é a eprgrafe do captulo. O bio­ grafema é uma livre-podução textual na medida em que não deriva de significado (como a biografia), mas, enfa­ tizando imagens, cenas, gestos, fragmentos textuais, pulsões, opera significâncias. O biografema não dispensa a biografia - usa-a, desmembra-a, desgasta-a. Disseminação, o biografema não hesita em lançar mão de todos os operadores de linguagem à disposição. Se a biografia opera com dados, instituindo a verossimilhança no bio­ grafado, o biografema retém o arbitrário na produção do ser-de-tinta que imprime no papel.

UNI TERMOS: Verossrmil; arbitrário; d oxa; paradoxo; texto; escritura; enunciação; enunciadores; enunciado; biografia; memória; significância; intertextualidade; polifonia; semiologia.

S i j'éta is écriva i n , et m o rt, co m m e j ' a i merais q u e m a vie se réd u isit, pa r l es so i n s d ' u n b i o g ra p h e a m ica l e t d ési nvo lte, à q u e l q ues d éta i ls, à q u e l q u es g o üts, à q u e l ­ q ues i nflexions, diso ns: d e s " b i o g ra p h ê m es", d o nt l a d isti nctio n e t l a m o b i l ité pou rra ient voya ger h o rs de tout dest i n et ven i r to ucher, à la faço n des ato mes épi­ curiens, q u e l q ues corps futu r, pro m i s à l a même d ispersio n " . (R. B a rthes - Sade, Fourier, Loyola , p. 1 4)

E xata me nte como a mosca na sopa, o biog rafema é o estra n ho: o deslocado. Biog ra ­ fe ma, n ã o biog rafia. E sta p rese rva o d u plo sentido de "g rafia", " g ravu ra", pois, com o graphein, põe em relação escritura e pi ntu ra. E m graphein, opera perigraphein (ci rcu n scri ­

ção, delim itação, por g ravu ra, de conto rno); a i n d a q u e aperigraphein ( i l i m itação, po r gra­ v u ra, de conto rno, i n esgota b i l idade) não deva ser exc l u ído, o fecham ento se i m põe ( u m dos eixos pri ncipais da q u e rela biza nti na e nt re ico n ó d u los e iconoclastas situ a - se p reci ­ sa me nte nesta oposição, pois é ela q u e p ro põe a legitim idade, o u não, da fi g u ração i cô n i ­ ca l . O i ncontornado su bsu m i d o ao co nto rnado opera, p o r exem plo, nas Vidas, de P l uta r­ co: na co m pa ração das de Alexa n d re e Césa r, põe em paralelo escritu ra e p i nt u ra, u m a vez q u e fixam ou o s traços de u m ca ráter (kharakter) o u os d e u m rosto, respectiva m e nte. Disti n g u i n d o - se da h istória, que ex põe os aconteci m entos pormeno rizad a mente, sej a m eles mag nos ou ínfi mos, P l uta rco s i t u a a biog rafia e m p l a n o disti nto: n ã o s e prendendo

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nem aos g ra ndes eventos nem aos l a nces notáveis dos retrata dos, va l o riza as pa rticu l a r i ­ dades q u e l h es evi denciem as vi rtudes e os vícios. E s boça ndo, assim, u m a biog rafia d e se ntido m o ra l , destaca o a n edótico, não porém co mo si n g u l a rida de, porq u e o m i ú do é a penas sign ificativo, pois adequado à visada moral. A biog rafi a constitu i - se, nele, como ence nação, ta nto no m i ú d o q u a nto no g ra ú d o ( q u e são atos significativos em si mesm os, pois m e m o ráveis), de fi g u ra, em q u e o aperigraphein opera nos p a rã m etros do perigra­ phein: o a n edótico ou o pito resco não se i n screvem no aleatório, pois efetu ados com o sa ­ l i ência q u e reitera a ci rcu nscrição ( m icro - sentido que não a b a l a a isoto pia do texto ). D i ­ fe rentemente da del i m itação biog ráfica, represe ntativa, o biog rafema aciona de modo a leatório eleme ntos q u a isq u e r de u m siste m a de escritu ra ( g rafema), desloca ndo, assi m, o verossím i l , a q u e o p róprio pito resco pertence, com a flutuação prod utiva da si g n ificâ n ­ cia. T a l distinção entre biog rafia e biog rafema corresponde em grande pa rte à q u e R o ­ l a n d B a rthes opera entre escrevê ncia e escritu ra: e n q u a nto aquela é reprodução, pois s i g n ifica d o d e l i m ita d o po r reg ras que p rescrevem o verossím i l , esta é produção; não se deixando ca ptu ra r, com o aquela, por doxa, i n screve - se, fl utua nte, no pa radoxo.

O g rafema produz significância na d i ssem i n ação, posto que não encena origem, de que seria o si n a l . O biog rafema não de riva de si g n ifica do (como a biog rafia ), mas, sig n ifi ­ cância, faz q u e os sentidos fl utuem na escritu ra ou nas imagens (fotog rafia, p i ntu ra, fita , etc.); q u a ndo recu pera a l g u m si g n ificado, este é pulsional, poi s as i nte nsidades vêm com o a rbítrio do factício, em que se i n c l u i o gosto ( N ota 1 ) . O biog rafemador é, assi m , ore ­ lhas fl utua ntes e o biog rafema, travessia de escutas pu lsionais. O o perador eng ata desejo nos textos q u e g rafa, atração por a l g u m signo -texto biog rafematizáve l : a m biva l ência da sed ução, pois, nela engatada, atra i o leitor. A a m biva lência opera com o um tru nfo, a ser bem em p reg ado: o m e n o r equ ívoco com uta a sed ução em re pu lsa. Por isso, a atenção fl utua nte se m a ntém sob co nsta nte tensão: a do texto -tutor, que engata a do biog rafema, q u e engata a do o perado r ( n o biog rafema são s i m u ltâ neas as pu lsões do texto -tutor) e as que engata m , outras d ife rentes, no biog rafemador ( 1 2, p. 1 2 ) .

O biog rafema de M á rio não s e desencadeia co m o discu rso q u e reitera ou va lida o i n s ­ titu ído ( nã o m e n o s a rbitrário no efeito de ve rossi m i l h a nça q u e prod u z ) , pois, engata n d o textos, fl utua e faz flutuar, s i g n ificâ ncia. P l u ra l , o discu rso de M á ri o suscita leitu ras q u e o p l u ra lizem, com o as das fi g u ras ou e n u nciadores m ú lti plos e tensivos que, desl izando pelo discu rso , insistem na produção de biog rafema. N a escuta de tantas vozes ( N ota 2 ), a co rpoacta ncialidade dispersa o corpo na e n u nciação pierrô - a rleq u i n a l , entre m u itas efe ­ tu áveis.

Ped ro N ava vai ti ra ndo do baú escu ltu ras, pi ntu ras, pastéis, fotog rafias, engenhando com plexo biog rafe m a de M á rio: biog rafema nos efeitos de biog rafia q u e produz com a verossi m i l h a nça, repa rti d o ra das i magens entre adeq uadas e inadequa das. R etratos ve ­ rossímeis o ra nas pa rtes, postu ra correta do pescoço e do crânio em An ita , mais p recisa a i n d a em F i g u e i ra ou B ru no G iorgi, i m p ressiona nte na másca ra m o rtuária, o ra no co n ­ j u nto: P o rti nari n ã o pi nta M á rio, m a s " megaforma" de "We nceslau P i etro Pietra. É tórax demais e q ueixo dema is"; Sega l l ca pta bem a miopia, F l ávio de Ca rva l h o a a m a rg u ra, Ta rsi la a resig nação ( N ota 3 ) .

É

N elson N ó b rega q u e ati nge a mais exata " pa rece nça e penetração psico lóg ica", isto é, rea l iza os pri ncípios do ve rossím i l de Pedro N ava ( 1 7 , p. 26). Na fotog rafia, a d isti nção entre i nsta ntâ neo e a rte ( q u e tOem o tem po d a s u r p resa na ete rnização psicológ ica do modelo) ( 1 7 , p. 26 ) . H á fotos q ue ca pta m o "jeitão" no M á ri o ­ s o l d a d o , n o M á rio-tu rista , no M á rio da Avenida R i o B ra nco ( 1 7 , pp. 26-27 ) . N a s foto g r a ­ fias de Bend ito J . D u a rte, o M á ri o aleg re ( 1 7, p. 2 8 ) ; nas de Warchavch i k, - excelente aná ­ l i se de m etades por N ava ( N ota 4 ) - , os " p rodígios de sem e l h a nça física e de pu nção psico l óg ica" ( 1 7 , p. 27 ) . O verossím i l , a rticu lado co m o adeq u ação física e psíq u ica, refo r­ çado na "eternidade" e n o "futu ro", efetuado como se m e l h a nte (ou idê ntico ) ao p resente do biog rafemador ( 1 7 , pp. 25 e 28) , d á -se no fechamento da conco rdância psicofísica e da u n ifo rmidade tem po r a l . O pe ração q u e desfaz a ci rcu nscrição bem co nseg u i d a : não nos

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pedaços de A n ita, F i g u e i ra ou B ru n o G iorgi, q u e i m p l ica m convergência, nem no q u e se ­ ri a m as trezentas e ta ntas faces de u m mesmo pol ied ro, nem mesmo na convergência i g u a l a d o ra dos tem pos no p resente do e n u nciador, m a s no a leatório das i m a g ens ( nem gené ricas, nem moral istas, nem a n edóticas ou pito rescas) que Pedro N a va seleciona; em bora por vezes v a l o rize a convergência de ci rcu nscrição, mostra, na seleção, não u m á l b u m que i nteg ralize personagem, mas o ca leid oscó pio q u e d i ssem i n a o biog rafemado (até nas u n ificações pa rciais q u e efetu a ) . A ênfase na fa la, suas dife renças exte rnas e i n ­ ternas ( N ota 5 ) , v a i desl oca ndo o biog rafemado pa ra outros la dos. D a í o índice - e m blema, "trezentos e cinqüenta" ( N ota 6 ) .

A v o z ta m bém p o n t u a o M á rio, de N i n o G a l o : "aquele s e u vozei rão de barítono fa ­ n hoso" ( N ota 7 ) . Diferente mente do biog rafema de Ped ro N ava, q u e sente "de esta lo a i m ensa sim patia, a a m iza de em estado nascente e a enorme i nfl u ê ncia de sua perso n a ­ lidade so b re o raro q u e eu escrevi a" ( 1 7 , p. 28 ), o texto de N i no G a l o desenvolve o pro­ cesso, ca ptado em ta ntos sign ifica ntes e refe rencia is, de conve rsão dos afetos, que eng a ­ ta, a l é m d o s signos a nti páticos de " d a n d ismo", outra conversão, a d o s efeitos d o s sa be­ res do biog rafado sobre o sujeito do e n u nciado: " E u não gostava de M á ri o de A n d rade ( ... ). Apenas considerava M á rio de A n d rade u m sujeito que, entrinchei rado atrás daque les seus g rossos ócu l os de m u itas dio ptrias, se, dive rtia a solta r paradoxos, pa ra i m p ressi o n a r s e u s o uvi ntes e a si próp rio" ( 1 4, p. 1 63 ) . E u m a biog rafia, d i rigida por m o ra l is m o e doxa

censora, que, nada deixando esca pa r, produz, n o p rocesso mesmo de sua conversão, sign ificantes soltos de sistema: além da "tri nchei ra", o " postiço" e " i nsi ncero", "todo cheio de u nção, el evava aos l á bios um bojudo copo de vmho fra ncês", as meias " m u ito ca ras, enxad rezadas de vermel ho e a z u l " ( 1 4, p. 1 63 ) . C o rte, outra cen a : Teatro M u nicipal, em no ite de gala (a na rrativa vai moralizando e n q u a nto o pera refe rencia i s exatíssimos): casacas, exi bição de d i n h e i ro, estu pidez h u m a na ; fasci nado por Verdi, d i ri g e - se, "sem sa ber por q u e", a M á rio, "encosta do na pa rede", só: vaza ndo senti m entos, sofre co rte no i m a g i n á rio, " h o r rível, meu ca ro, h o r rível", compensado por sim patia, "espera - me à sa í­ da, pa ra i r m os j u ntos tom a r q u a l q u e r coi sa", e a l ição q u e lhe co rrige a "fo rm a ção m u s i ­ ca i de secu ndário ita l i a no" ( 1 4, p. 1 64). Depois, a convivência d i á ria c o m o fu nci o n á rio ­ chefe, "Colona de pés enormes, do P o rti n a ri q u e enfeitava seu g a b i nete de traba l h o " ( 1 4, p. 1 64). O acú m u lo de significa ntes e m icrorrefe renciais te r m i n a em h i no, e os pa radoxos se meta mo rfoseiam em m u ito saber: " Foi a â nsia de perfeição, a l uta co ntra o V u l g a r e o L u g a r C o m u m , q u e fez M á rio de A n d rade o g ra n d e M á ri o de A n d rade" ( 1 4, p. 1 65 ) . N ão é mais o pa radoxo, mas a su perioridade q u e co n cebe u m fo ra pa ra o l u g a r - co m u m e o v u l g a r, d i m i n u ídos com a m a i úscu la, i nventa ndo pa ra si mesm o m u n do à pa rte. A de­ m a rcação moral ista dos espaços do vulgar e do su perior, a m i n u dência refe renci a l e a memória exata efetuam u m a cl assificação su m a ríss i m a , na q u a l se exe rce u m a sim patia oceânica , desdobrada em a u tocrítica d i reta , os eq u ívocos dos p reconceitos ( 1 4, p. 1 63 ) . E sse ca lor h u m a n o confo rta M á rio: em ca rta a P a u l o D u a rte, vem : " O (. .. ) N i no, q u e é o tipo do sujeito q u e a gente q u e r bem e o ti po do óleo ca nfo ra d o p ra rea n i m a r" ( 1 4, p. 1 63 ) . N a biog rafia de N i no G a lo, a h i pe r - es pecificação dos eventos e das cenas, em q u e s e i m brica m j u ízos de va l o r sobera nos, t e m t u d o do fec h a m e nto; o efeito de verossi m i ­ lha nça, nela, contra põe - se à ve rossi m i l h a nça de efeito no oiog rafema de Pedro N ava.

O biog rafema e a biog rafia, aqui esco l hidos a r b rita riamente ( h á -os excelentes de P a u l o D u a rte, O neyda Alva renga, etc.), não se exe rcem a penas a pa rt i r de textos, rem e ­ tem - se à convivência c o m o biog rafado ou biog rafemado. C o n q u a nto o biog rafema difi ra da biog rafia, o ve rossím i l pode se r usado como proced i m ento de efeito textua l , u m a vez q u e o sign ifica nte e o refe rente são o pe ráveis com o texto -tutor. A pa ráfrase, m otivada e a n a l óg ica, não é menos pertinente q u e a sign ificâ ncia e seu a rbítrio: i ntertexto, o biogra­ fem a pode prod u z i r atestado de nasci m e nto, com o na fa lsa citação:

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São P a u l o o vi u primei ro, 9 de outu bro de 1 893. / N a rua Au rora nasceu. / N ome: M á rio R a u l , digo, L u a r, digo R a u l , de M a ria L u ísa e Ca rlos Augusto . / M a s q u e bom se ria si ( ... ) pudesse ju nta r o nome da ( ... ) Mãe ao nome do ( ... ) Pai, sem fica r (se) pa recendo com n i n g u ém ! ( N ota 8)

o biog rafema tam bém pode opera r a n á l i ses ou i nte rpretações na flutu ação da sig n i fi ­ cância do próprio texto -tuto r, sem nele i ntervir. Pode reter, assim, a " B i o g rafia",

S ã o Paulo o viu p r i m e i ro F o i em 93 .

N asceu , aco m p a n hado daquela estrag osa sensi b i l i dade q u e deprime os seres e p reju d ica a s existências, m ed roso e h u m i l de. E , pa ra a p u b l icação destes

poemas, senti u - se m a i s med roso e mais h u m i l de, q u e a o nascer (5, p. 8),

q u e denu ncia o e n u ncia dor na i m pesso a l idade da tercei ra pessoa ou no dista nci a m ento fi n g i d o, que tudo co n h ece do biog rafado, até m esmo seu s predicados, "estrag osa sensi ­ b i l i dade", "med roso e h u m i lde". O biog rafema põe - se à escuta de " Li ra P a u l ista na", q u e ressoa a utobiog rafias: o e n u nci a d o r s e pe rso n a l iza, denu ncia o l u g a r de o r i g e m ou d e nasci me nto e p e d e à mãe a l u a :

N a r u a Au rora eu n asci Na a u ro ra da m i n ha vida E n u m a a u ro ra cresci. ( ... )

M a mãe ! me dá essa l u a . (6, p. 298 )

N a s crô n i cas, o biog rafe m a s u r preende o "sueto, a vá lvula verdadei ra por o n de eu me d esfatigava de mim" ( 1 1 , p. 9), a b revi dade e o l u dismo no prazer da escritu ra. E lê "Xa rá, xa r a p i m , xêra"; i ronizando, como o biog rafemado, a h o m o n ímia, deseja heteronímia pa ra q u e ele n ã o fiq u e se " pa recen d o com n i n g uém" ( 1 1 , p. 1 51 ). N a pista dos homôni­ mos, o biog rafemado ta m bém se perso n a l iza co m o co leção: os xa rás, co mo as fig u ras da e n u nciação e do e n u nciado a n d ra d i no, fo rmam legião.

O biog rafema pode ocasi o n a r desenco ntro, o l ivro equ ivoca do.

À

ag itação su scitada n o biog rafe m a d o r pelo nome na ca pa: - Um i n éd ito?, seg u e - se a restituição pela contra ­ ca pa: "em ca l m a o ser". Nela, a foto e, por trás dos ócul os, o neg ro, "tão átrica" ( 1 , p. 1 1 4 ) , " a penas mais um xêra, enfi m , seu Xa ra pi m " ( 1 1 ,p. 1 50 ) , o homônimo, do outro lado do ocea no.

Quando desenvolve os nomes q u e vai i nscreve ndo no texto, o biog rafema o pe ra m o ­ tivação nos efeitos d e ca usa l idade ou de rea lidade q u e va i produzindo. Lê os nomes, as letras dos nomes, a si g nificâ ncia que produzem, n u nca se fixa ndo nos sign ificados que . l h es i m pedem a d issem i nação e a d e riva . P o r isso, a i nterpretação n ão o pera, aqui, com o sig n ifica do ( q u e pode ser decri pta do, evidenciado, desocu ltado: fixado) ( N ota 9 ) . E m M á ­ r i o R a u l , o biog rafema l ê o a n a g ra m a de M a ria L u ísa e Ca rlos A u g u sto e a i nda "conj u g ( a ) as m e m ó ri a s de ( se u ) P a i c o m (sua) M ãe" ( 1 1 , p. 1 50 ) . A l é m de de riva r - se de M a ria, M á ­ r i o R a u l está e m M a ri a L u ísa q u ase i ntei ro, fa lta ndo a M a ria L u ísa o R d e M ário Ra u l . Tam bém, R a u l a n a g ra matiza o n o m e de Carlos A u g u sto, tom a ndo d e Carlos o R e o L m ed i a n os e d e Augusto o A i n icial e o U de d u pla oco rrência. O a n a g rama p rossegue

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bri nca ndo na i nversão d e R a u l , L u a r, q u e i l u m i na M á rio, nele a ssi n a l a n do, e m b a ra l ha das as letras, o a n a g ra m a MOira, a um tem po "atri bu ição", "desti no", " m a rca". N a m u ltiplici ­ dade dos g rafem as, bio ma rca o Moi ra, L u a r, derivado biog rafemicam ente: Pierrô L u n a r, emblema i nvertido de M á rio R a u l , Arleq u i m , m ú ltiplo como seu s a n a g ra mas. Fazendo os nomes prol ife ra r, o biog rafema e n g ata a a n á l ise d a hetero n í m i a ( N ota 1 0 ) escritu rai a n ­ d ra d i n a , q ue, dife rentemente d a pessoa na , d á - se no intratexto, extravasa n d o - se pa ra o i ntertexto q u e dele se deriva. Victo r K n o l l desenvolve u m a das modalidades dessa " h e ­ teronímia", q u e s e co nstitu i, a ntes, co m o pa rag ra m a ( N ota 1 1 ) , a n a l i sa n d o os "Ve rsos R e - Ve rsejados" ( 1 5, pp. 75 -99 ) : ve rsos, estrofes, q u e reto m a m outros poemas, o mais das vezes em co ntexto dive rso, efetuando a u tocitação, paragram as, i ntertextu a l idade ( N ota 1 2 ). P a rtindo - se da noção de " pa ra g ra ma", e l a borada po r S a u ss u re ( 1 8, pp. 20, 23, 27, 31 -32, 6 1 -65), esta beleceu - se co nceito de i nte resse n o fu nci o n a mento da l i n g u a g e m , o "para g r a m atismo", q u e co nsiste na a p ro p riação de textos p o r outro ( N ota 1 3 ) q u e com ­ bina, em p ri ncípio i ndefi n i d a m ente, elementos seus (frases, palavras, etc.), p rodução. S a u ssu re tendeu a o pa ra g ra m atismo com a n oção de " pa ra g ra m a " , entendido como com b i nação de fonemas, não de letras ( 1 8, p. 28), fixa n d o - se na "difo n i a " ( 1 8, pp. 46 -47 ), com b i nação de dois sons, q u e se constitu i como o pri ncípio q u e disti n g u e entre " a n a ­ g ra m a " (fo r m a pe rfeita de asson â ncia do conju nto d e síl a bas de u m a pa lavra, a constitu i r h a rmonias fô n i cas; S a ussu re não e m p regava todos o s fo nemas constitutivos d e u m a p a ­ l a v r a o u de u m verso, o q u e p rod uzi ria, pa ra ele, u m jogo seme l h a nte a o s i m p l es troca ­ d i l h o ) ( 1 8, pp. 27 -28) e h i po g ra m a ( q u e é o rea lce de u m nome ou de u ma p a lavra, " pa l a ­ vra -tema" no h i po g r a m a ) ( 1 8, p. 3 1 ) . Da difo n i a passou à " p o l ifo n i a " , com b i nação, n ã o de dois, mas de vários sons, q u e opera no paragrama ( 1 8, p. 48 ). A pa rti r da difo n i a , ati n ­ g i u a s com bi nações d e letras e , enfi m , o texto ( a i n d a q u e de modo i nd i reto, pois, co mo su g e re Sta ro binski, os estudos sa u ssu rianos de poesia não poderiam ci n g i r - se à fo néti ­ ca ) .

E m ca rta a M a nuel B a n d e i ra, de 1 922, M á ri o enfatiza a s e u m odo a m o d e r n i d a d e a q u e t a m b é m s e l i g a S a u ssu re; o " h a rmonismo" refuta a i m itação:

Sei q u e dizem de mim que i m ito Coctea u e P a p i n i . ( ... ) É verdade que m o ­ v o , c o m o eles, a s mesmas á g u a s d a modernidade. I sso não é i m ita r: é se ­ g u i r o espírito d u m a é poca. As disposições ti pog ráficas dos meus ve rsos co r respo ndem não às teo rias dos modernistas B a u d o u i n , Aragon ou Soffi ­ ci, mas às m i n has p róprias teo rias do harmonismo (vertica lidade dos aco r ­ d e s ) (2, p. 1 2 ) .

É

p recisa m ente essa "vertica lidade de aco rdes" q u e está, so n o ra, na b a s e do pa rag ra m a ­ tismo de J u l i a Kristeva; co m b i n a n d o - se textos q u e devem s e r l i d o s "si m u lta neamente",

mas o perando -se ta m bém com a noção de sentidos que se mod ifica m m ut u a m e nte, re ­ d u plica dos, excl u ídos, etc. ( 1 6, pp. 256 - 7 ) , efetu a - se a sucessividade da cadeia fôn i co ­ textua l :

H a r m o n i a : com bi nação de sons si m u ltâ neos / Exemplo: / Arrou bos ... L utas ... Setas ... C a ntigas ... / Povoa r ! .... . ( ... ) / S i pro n u ncio "Arrou bos", co m o faz pa rte / de frase ( melodia), a palavra c h a m a a atenção / pa ra seu insu l a m e nto e fica vibrando, à espera / duma frase que lhe faça adquirir signi­ ficado e / Q U E N ÃO V E M ( ... ) / M a s, si em vez de usa r só palavras soltas, uso / frases soltas: mesma sensação de su perposição, não j á de palavras ( notas) m a s de frases / ( melodias). P o rtanto: polifo n i a poética" ( l O, p. 23).

O exe rcício da polifonia poética i nscreve M á rio na cadeia de produção do parag ramatis­ mo, que, devido a o ca ráte r d i a l óg ico polifônico de paráfrase parodística , a paga fronte i

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ras, e l i m i n a cód i g os, efetua co n stelações de si g n ifica ntes na sign ificâ ncia, movência a berta de pe rmutações, o u a i n da, i ntertextu a l i dade.

P rodução, a i nte rtextu a l idade i n sta ncia desti n atá rio, q u e pode ser o próprio pa ra g ra ­ matizado r efetuado em situação d e fa la d i stinta, n a q u a l não passa d e e n u nciador q u e p o é em relação texto - tuto r e texto p r o d u z i d o . E m ta l fa la, afloram parâ m etros co m pa ra ­ tistas, co m o p o r exem plo, o plágio, q u e denu ncia e n u nciado r m o ra l izado; pois, n a co m ­ pa ração, efetua - se consciência u n ificadora, q u e ca ptu ra o a leató rio d o pa rag ra matismo; 'efeito do e n u nciador, a consciência d e n u ncia a identidade dissi m u lada ( pl á g i o ) q u e a n u l a o texto p rod uzido su bsu m i nd o - o ao tutor. M e s m o q u a n d o s e ex pl ica e s e j u stifica , pre­ texta ndo " l a cu nas da m e m ória" ( N ota 1 4), não va i além de raci o n a l i zação das relações dos dois textos ( q u e podem se r legião). O ra program ática ( l i m itad o ra das poss i b i l idades de permutação) o ra a rbitrária ( p rod uto ra de a leatório l údico, sem pa râmetros assi n a l a ­ d o s ) , a produção é sem p re m otivada; a m otivação não entra em co nfl ito co m a sign ificâ n ­ cia: n o s a n a g ra m a s d e M á rio, a perm utação d e letras, síla bas, sentidos, pa lavras desloca ­ se por co m bi nações e reco m b i n ações em p ri ncípio i nacabadas ao mesmo tem po q u e m otivadas nos nexos q u e reco n d u zem ao texto -tutor. Opera n d o l i n g ü isticame nte, a m o ­ tivação é, no e n u nciador co m pa ratista, rem otivada na atri buição à consciência, m e m ó ria, i m a g i nação (sujeito) do p rocesso com b i natório. I nstitu i - se nesses efeitos s u bjetivizado res u m a espécie de razão reco r re nte, tida por i n o bse rva da ( e m bora opera nte) no processo : meca nicismo, q u e transfi g u ra a ratio em causa do texto p roduzido e a sim ultaneidade em sucessivi dade tem po ra l . A n u l a m - se, assi m , i ntertextua l idade e o pe rações d ispa rata das, insta l a n d o - se, ao mesmo tem po, o e n u nciador na situação de descobridor de nexos, su bjetiva m ente motiva dos, o u na de justifica do r de a na logias, a serem salvas do plágio. Tal j u stifica d o r rem otiva a motivação l i n g ü ística nos efeitos de consci ê ncia, q u e atesta (e é i rônico ) a a nterioridade do i ntertexto relativa mente à consci ência ( n o caso, confusa e o bscu ra) q u e p retexta ser.

O seu " N oturno" é u m a das coisas de você que eu gosto mais. M u ito li e me l e m b rava m u ito dele. Foi ce rta mente por isso que ficado no su bcons­ cie nte, eu me encontra ndo n u m caso mais ou menos idêntico (o "Asso m ­ b ração" é verda dei ro ) , criei p e l a a na l o g i a do caso u m poema id êntico, mesm o processo técn ico, mesmo a m biente psicológico, em ú ltima a n á l ise, m esma idéia. Mas criado o poema, "me esq ueci" i m ed iata mente do de vo ­ cê, o seq ü estrei, até o nome dele seq ü estrei (2, p. 338) .

O seq ü estro q u ase a bso l u to co m p rovado p e l o enu nciad o r va l o riza o para g ra m a e n ­ q u a nto encena os m o m e ntos dos diversos m o d o s da con sci ência, correlatos a o q u e d i z da produção textu a l . E n u nciado sem e l h a nte ao do Cea rense, q u e diz o i ntertexto e , n ã o o ex plicita ndo e m chave erudita, m a i s se a p roxi m a da produção ( N ota 1 5 ).

O parag ramatismo su scita com p u lsão de procu ra: em todo texto, o i ntertexto, o i ntra ­ texto, o su btexto ( o bsessão dessa espécie se l ê nos ca dernos de Sa ussu re). P rod utiva, tal p u l são a l heia so rtes de gê neses ideais, a d a m i s m os, criacionismos, n i i l ismos de ca rências a s u p r i r o u de vazios a encher; co m b i natório e deslocador, o pulsional é l ú d ico o mais das vezes nos eng ates e prol iferações que efetu a. O caleidoscó pio exem plifica o m ovi mento i n cessa nte de com b i nações de fra g m e ntos, cujos reg istros ta m bém prol ifera m : a n á l i ses, fig u rações, j u ízos, etc., engatadas no texto - tutor. N i sso, a i ntertext u a l i dade a n d radina não tem fi m , cujo contrapo nto teórico, a a be rtu ra e o i n aca bado, constitu i - se co mo e m ­ blema co nceitu a l do parag ra m atismo. Ta m bém as ca rtas (éd itas, inéditas, lacradas) o p e ­ ram i ntertextu a l i dade q u e r na m u lti p l icidade em q u e s e a c h a m , q u e r no parag ramatismo que rem ete umas às outras, reto m a n d o - se, reel a bo ra n d o - se, engata ndo poemas, contos, crôn icas, fontes po p u l a res: i ntertextu a l idade i l i m ita da, ca leidoscópio.

(7)

Intertextualidade epistolar: neste exem plo, g rifa m -se os termos retomados; a i ntertex ­ tua l i dade, a q u i , efetua pa rag ra m ati smo de repetição tota l o u de fa lsa citação (perma nece o contexto ).

A desagradável e a meu ve r errada co m p a ração entre criação artística e dor física da parturição fem i n i na . A criação artística é u m momento sublime, u m a ejaculação a bso rvente, extasia nte, u m desl u m bramento tota l i nco m pa rável, m a ravi l h oso, divino ( ... ). Pela n ossa experiência masculina a criação só pode se r co m p a rada com o momento do êxtase sexual (7, p. 290 ).

o momento da criação é u m prazer sublime, e estou completamente em desa­ cordo com os q u e o consideram u m parto ( ... ). O momento de criação é gos­ tosíssimo, verda deira m e nte aquela subimidade de i nteg ração e dad ivosi ­ dade do ser, em q u e a gente fica na ejaculação sexual (3, p. 35).

R i l ke, você viu, chega a com pa ra r a produção da poesia ao trabalho sublime e penoso do parto. A a p roxi mação a l i á s é reve l h a e m e desa g rada m u ito. A n ­

tes de m a i s nada, é feia po rque evoca as i m a g e n s do parto q u e p o r sublimes e respeitáveis q u e sejam, nada têm positivamente de bonito. Além disso, e o q u e é pior, não q u e r dizer nada, não h á assi m i lação possível, ta nto mais i m a g i nada por um homem (8, p. 38 ). .

Intertextualidade poética I :

Folcl o re ou refrões popu l a res "O meu boi morreu

O q u e será de m i m , M a n d a buscar outro, Morena, lá no Piauí "

( Mea ri m ) varo

"Vá por Seca e Meca!" "O dote q u e ele me dava Oropa, França e Bahia"

( Cf. Asce nso Fe rrei ra, Poemas, p. 201 )

"Bata!' assat ô fôm!" (fu r n ) varo

"Yayá, fruta do conde, Castanha-da-Pará!"

Tra ns/Form/Ação, São Pa u lo , 9/ 1 0: 57- 85, 1 986/87. Poesia

"Si um deus morre, i rei no Piauí buscar outo!"

( Poesias Completas, p. 1 57 ) P a ragrama de repetição p a rci a l (co m reelaboração de co ntexto ) " M o ra l i dade, lei sêca, vá -se E m bo ra ! Vá por Seca e Meca! Darei Seca, Meca e Bahia".

( Poesias Completas, p. 1 7 1 ) P a ra g rama de repetição pa rci a l ( c o m reelaboração de co ntexto )

"Bata!' assat' ô fum!" (Poesias Completas, p. 44)

P a ra g ra m a de repetição tota l ou fa lsa cita ­ ção (com ree l a b o ração de co ntexto ) " Yayá, fruta do conde,

Castanha-da-Pará!"

( Poesias Completas, p. 1 1 8 )

(8)

Intertextuaidade poética " :

P O E S I A

"Quoth t h e Raven, 'Nevermore' " . ( E d g a r A l l a n Poe, "The R ave n")

" Pedro, antes que o galo cante, três vezes me negarás"

( M ate u s, 26, 34; M a rcos, 1 4, 30; Lucas, 22, 34; J o ão, 1 3, 38)

"Kennst du das Land wo die Zitronen blühen ?"

( G oethe, " M i g non", Baladen )

"As armas e os barões assinalados Que da Ocidental praia lusitana "

( C a m ões, Os Lusíadas, Ca nto I , 1 )

P O E S I A

" Material ização da Canaan d o meu Poe ! Never more!"

(Poesias Completas, p. 47 )

P a rag ra m a de repetição pa rci a l ou fa lsa citação (com reela boração de contexto )

"Tia M iséria ta lvez antes que o galo cante Me negarás três vezes Tia M isé ria"

(Poesias Completas, p. 223) P a ra g ra m a de repetição pa rci a l

( c o m reelaboração de co ntexto )

"Kennst du das Land Wo die Zitonen blühen ?"

(Poesias Completas, pp. 1 00 - 1 0 1 ) Paragrama de repetição tota l ou fa l sa citação (com ree l a bo ração de co ntexto )

" - 'Sen h o res, as armas!' ... e os barões assinalados Que da ocidental praia lusitana ...

Marco a cadência com versos de Camões". ( Poesias Completas, p. 97 )

P a ra g ra m a de repetição tota l ou fa lsa citação (com reelaboração de contexto )

Nota: Todos os assi n a lados efetu a m , relativa mente ao texto de referência, além de novo contexto, em que a i ronia é a nota p redo m i n a nte, desloca m ento de sentido, com o tam bém flutuação na leitu ra si m u ltâ nea�

Exemplo de i ntertextualidade pol ifônica e h íbrida ( i m pl ícita e explícita ) é o poem a "Quando eu m o rrer .. . ". N a leitura, produzem -se i soto pias ( d isse m i n ação, m u lti pl icação, etc.), i ntratextua l idade ( referência a outros textos de mesmo e n u nciador) ex plícita de tu ­ tores m ú lti plos: Macunaíma, primeiro poem a de "O Ca rro d a M i séria", pri m e i ro de " R e ­ m ate de M a l es", etc., com o ta mbém i m pl ícita do a rtigo " A m o r e M edo". N a leitu ra ta m ­ bém s e produz i n te rtextua l idade i m plícita na referência a poemas d e Álva res d e Azevedo, com o por exem plo, "Se eu m o r resse a m a n h ã ! " ou "O poema moribu ndo", os q u a is, por sua vez, inte rtextua l izam poemas de Byro n e B ocage. Ta nto em Álva res de Azevedo co ­ mo em M á ri o de A n d ra de, a i nte rtextu a l idade efetua corpoacta nci a l idade desmembrada (arleq u i n a l ) e co mentário i rôn ico do senti m ento rom â ntico da m o rte; a i ro n i a descontex ­ tua l iza a produção de Álva res de Azevedo do R o m a ntismo b rasi lei ro e o co mentário co ntextua l iza a produção de Má rio de A n d ra d e na modern i dade. A i nte rtextu a l idade se faz como leitu ra s i m u ltânea :

(9)

MÁRIO DE ANDRADE

Macuna(ma

( p. 43 ) .... "O herói picado em vinte vezes trinta torresm i n h os"

( p. 1 43 ) .... "Sem pena direita, sem os dedões sem os cocos-da-Bahia sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tesou ros ( ... ). As piranhas tinham co­ mido também o beiço dele e a muiraquitã!"

Poesias Completas

("O Ca rro da M i séria")

(p. 2 1 7 ) .... "Aos pedaços me vim eu ca i o !

-aos pedaços disperso / P rojeta do em vitra is nos joel hos nas caiça ras".

("Remate de m a les")

( p. 1 57 ) .... "Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta".

Aspectos da Literatura Brasileira ( "Am o r e M edo")

(pp. 1 98 -229 ) . (A i ntertextu a l idade é m otivada não pelo o bjeto d o e n u n ciado, o medo do a m o r, mas pelo sujeito do m esmo e n u nciado )

ÁL VARES DE AZEVEDO

"O poeta moribu ndo"

MÁRIO DE ANDRADE

" Poeta s ! Amanhã ao meu cadáver Minha tripa cortai mais so no rosa ! ...

Faça m dela uma corda e ca ntem nela Os amores da vida esperançosa!"

"Quando eu m o r re r"

"Quando eu morrer quero ficar, Não co ntem aos meus i n i m igos, Sepultado em m i n h a cidade,

S a u dade.

Meus pés enterrem na rua A u ro ra, N o Paissa ndu deixem meu sexo, Na Lopes C h aves a cabeça

Esqueçam.

N o Pátio do Colégio afundem O meu coração pa u l ista no: Um coração vivo e u m defunto

Bem ju ntos.

(10)

Escondam no Correio o ouvido Direito, o esquerdo nos Telégrafos, Quero saber da vida a l heia,

Sereia.

o nariz guardem nos rosa is, A língua no a lto do I pi ra n g a Pa ra ca nta r a l i be rdade

S a u dade ...

Os olhos lá no J a ra g u á Assistirão ao q u e há de vi r, O joelho na U n iversidade,

S a u dade ...

As mãos atirem por a í

Q u e desviva m com o vivera m, As tripas atirem p ro Dia bo,

Que o espírito será de Deus. Adeus."

( Dos m u itos versos de Álva res de Azevedo que fa l a m da mo rte com o perda e partida e q u e i ro n iz a m o se ntimento rom â ntico da mesma m o rte, retêm -se, aqui, a penas a l g u ns exe m p l a res).

ÁL VARES DE AZEVEDO

"Se eu m o rresse a m a n h ã ! "

"Se eu orresse amanhã, viria ao menos Fecha r meus ol hos m i n ha triste i rmã;

C

• .

}

Qua1ta glória pressinto em meu futuro! Que auora de porvir e que amanhã! Eu perdera chorando essas cooas

Se eu morresse amanhã!"

"O poeta moribu ndo" e em pa rte "Quando eu morrer" efetuam isoto pias disseminação e/ou multiplicação, p rod utoras de inte rtextu a l idade. "Se eu morresse a m a n h ã ! " e em pa rte "Quando eu m o rrer" efetua m isotopias partida-perda (Álva res de Azevedo) e ficar­ ganhar ( M á rio de A n d rade). As isoto pias disseminação e/ou multiplicação têm nas isotopias partida-perda e ficar-ganhar co rrespondências e entrecru za m entos, ou seja, a disseminação da co rpoacta nci a l i dade a rleq u i n a l , q u e ta m bém é multiplicação, possi bilidade ú n ica de fi­ car, e, a l é m disso, perda de u nidade e ganho em m u ltipl icação. Qua nto ao "eu " româ ntico, enu ncia a m o rte com o perda e m "Se eu m o r resse a m a n h ã ! " - "ao menos", "triste", "Qua nta g l ó ria pressi nto", "eu pe rdera chorando" - e em pa rte de "Qua ndo eu morrer", "sa u d ade", e co m o desm embramento em "O poeta m o r i bu ndo" e em pa rte de "Quando eu m orre r". Apenas o "minha tri pa co rta i" perm ite ao e n u nciado r ficar no ca nto, "uma co rda e cantem nela". A corpoacta ncialidade azevedi a n a efetua a m o rte co m o patir, se­ pa ração da vida, a o passo que a n d ra d i n a a efetua co m o ficar ("sepu ltado", "enterrem", "deixem", "esq ueça m", "afu ndem", "escondam", " g u a rdem", "assistirão", "atirem", "se rá", co rpoacta ncial idades i nsta nciadoras, em g ra u s dive rsos, do ficar pla ntado na vi ­ da).

(11)

A i ntertextu a l idade co m o p rocesso é arleq u i n a l na disse m i n ação e m u ltipl icação do brinq uedo vário da produção textu a l ; é apenas a rleq u i n a l , pois não se faz com p rojeto tra nscende nte, que se encena das prescrições e classificações da fi g u ra oposta à m u lti p l i ­ cidade, P ierrô.

É

convencional o plano que divide o Padre Jesuíno do Monte Carmelo em duas pa rtes, vida e obra. Contudo, p rotegendo o ficci o n a l ("Vida") da pri me i ra pa rte co m refo rço do­ cu menta i em a pênd ice de notas ou com a n á l ises exa ustivas ( " O b ra " ) na seg u nda pa rte, o B ióg rafo dissolve os l i m ites esta belecidos p a ra texto de i nstituição docu mental ( S P H A N ) . Pois a própria partição em dois, com q u e se defende, osci l a : a d m itindo a adequ ação à

"cientificidade" req uerida, o enu nciador das ca rta s a Rodrigo Mello F ra nco de A n d rade i nsiste, todavia , em textu a l idade diversa da ca nôn ica; a p retextação, j á vista , de se r poeta é di rig ida menos pelo a p u ro da redação do que pela pa ixão do biog rafado (4, p. 1 83 ) . A va lorização do "l iterário" da biog rafia, recusa ndo o m odelo textual i m posto, d i l u i a pró­ pria pa rtição: d issem i n a m -se pela pa rte a n a l ítica sign ifica ntes de paixão ( N ota 1 6 ) . E ssa explosão de l i m ites, quer os da ca nôn ica instituciona l por biografia co ncebida co m o "tom ficção" (4, p. 1 83), "conto" ( N ota 1 7 ), "novela ro m a n esca " ( N ota 1 8 ), q ue r os da pró p ria divisão do texto, n ão confi g u ra biog rafema, i nadequado, por ser d i ssem i nado, ao fec h a ­ mento preesta belecido.

À

circunscrição d o texto é devida à p reva lência do se ntido so bre a si g n ificâ nci a : não decorre, assi m , a penas da a n a l iticidade, que a rticu l a conceito e senti ­ do, deve - se, pri ncipa l m e nte, à ci rcu nscrição de ca ráte r ( o biog rafado); em bora o tutor, l a ­ cu na r (o docume nto é ra ro ), enseje a disse m i n ação, o bióg rafo cerca o seu objeto. O P a ­ d re J esuíno é em blem ático: a efetuação psico l óg ica q u e m a rca o texto o pera ta nto a cir­ cu nscrição d a personagem qua nto o m a pea me nto eco nômico, po l ítico, rel i g i oso, etc., q u e especifica a a rte da S ão P a u l o colo n i a l . Fech a m e nto de ca ráter e de ca rtog rafia, req u isitos de emblema (que represe nta um outro, a que co rrespo nde por ide ntificação de p redica ­ dos reco rta dos no rep resenta nte e no representado). E ssa co rrespond ência é d ife rencial; esta belecendo - se em vérios n íveis, o emblema " P a d re J esu íno" pode ser relacionado com outro emblema, "Aleija d i n ho". E m blemático, este rep resenta a Colônia ( referida a um pri m e i ro a que transgride como deform ação ex p ressi o n i sta nos dois sentidos da a m ­ plificaç ão) co m o s u a síntese; ta m bém e m b l e m ático, o P a d re J esuíno rep resenta, n ão co ­ mo o Aleijad i n ho, a Colônia toda, mas a ca pita n i a de São P a u l o : o Aleij a d i n h o corres­ ponde harmon iosa m e nte ao co nju nto, o P a d re J esuíno co r respo nde, espedaçado, ao su bconju nto espedaçado. E nq u a nto o Aleija d i n h o é emblema si ntético, o P a d re J esuíno é em blema heterócl ito (e re p resenta pobreza m a l esta renta , d i áspo ra de hom ens, esta g n a ­ ção econôm ica, etc.) ( N ota 1 9 ). Assi m , hete rócl ito, o P a d re J esu íno classifica - se entre o s i nclassificáveis; espremido entre o erud ito, a q u e n ã o a lcança, e o fo lclórico, de cuja ener­ gia ca rece, não pe rte nce a nenhum dos dois: emblema, m a is, emblema porq u e fratu ra do, do di spe rso, não engata, represe ntativo, biog rafema ( pois a d i spersão é sign ificada, mas não efetu a d a ) .

Apesa r de pi ntor m ú lti plo, enca rnador de i m a g ens, ca ntador de m ú sicas, riscador de a rq u itetu ras: J esuíno não é u m a síntese. E sta síntese a rea liza, bastante ha rmoniosa mente, outro a rtista u m pouco seu contem porâ neo, e de m a i o r gên io, o Aleija d i n ho. J esu íno n ão. J esuíno não rep resenta sínte ­ se n e n h u m a .

É

u m co nju nto desesperado de espécies co ntra ditórias (9, p. 200 ) .

J esuíno fica nesse entrem eio m a l esta rento entre a a rte fo lcló rica legíti m a e a a rte erud ita legít i m a . H á u m q u ê de i r reg u l a ridade, de ... de ba ixeza mesma na obra dêle, que não tem nada das fô rças, fo rmas e fata l i da des da a rte fo lcl órica. Mas J esuíno não chega a erudito. E um po p u l a resco ( ... ). T a m b é m nisto ê l e s e reconfi r m a no g ru po d o s a rtistas brasi leiros d a C o l ô ­ nia, e representa c o m m a i s a g u deza q u e a m a i o ri a d êles, o q ue e r a a cu l ­ tu ra a rtística naci o n a l d e seu tem po (9, p . 202 ) .

(12)

Cl assificação que disti n g u e com va lores, "legíti m o"; é biog rafi a, pois o pera como se n ­ tido. O e m blema fraturado circu nscreve a biog rafia, ta nto d o Padre Jesuíno qua nto da correspo ndência q ue, entre 1 941 e 1 945, M á rio desenvolve a seu respeito com Rod rigo Mello F ranco de A n d rade (em dois registros, ínti m o e ofici a l ) . São textos si m u ltâneos: enq u a nto a co rrespondência i nsiste em desco bertas, dificu ldades, recom eços, o livro se escreve várias vezes (ci nco, seg u n d o o d i reto r do S P H A N ) ( N ota 20 ) . N e n h u m dos dois é tutor do outro, nem seu espe l h o : passos de ca rtas são desenvo lvidos no l ivro, que é re­ su m i d o consta ntemente por relatórios ou co r respo nd ência pessoa l : a relaçã� é de tra b a ­ lho, e m q u e os textos s ã o retoma dos n o s d o i s sentidos, i ndefi n idam ente. E na ca rta d e d o i s de feve rei ro d e 1 943 q u e o bióg rafo enfatiza o sentido da p rodução do P a d re J esuí­ no, q u e o l ivro desenvolve.

É

a ênfase q u e põe o P a d re J esuíno em relação com o Aleij a ­ d i n ho; e n q u a nto este, pe rmanece ndo n o s q u a d ros iconog ráficos esta belecidos, transg ri ­ de a fo rma, defo r m a n d o - a , aquele, p reso aos pad rões fo rmais assentados, viola a icono­ g rafia bra nca com a mão parda. Com o P a d re J esuíno, o m u lato i rrompe co ntra a co n ­ venção, ideal, da pi ntu ra hag iog ráfica; i ntrod uzindo o pa rdo, - a njos, bispo, sa ntos - , de­ sidea liza o modelo co m a observação ( N ota 2 1 ) . O retrato é o espaço do pa rdo: em q u a ­ d ros ou fo rros, a observação s e i ntromete na idealidade branca, que é , de longe, predo­ m i n a nte e m J es u íno. N essa i ntro m i ssão, a relação cruzada nos a n j i n hos: qua ndo seus ca belos são pixa i m , há bra n queamento; q u a n do a pele é parda, os ca belos se alisam. Dis­ si m u lação que ta m bém opera o h i e ra rca, b ra nco e neg ro:

Ê sse sa nto é um m u l ato. E é um m u lato m u ito nosso co n h ecido, m u ito da nossa p rática, de q u a ntos d e nós co nviveram ainda l a rg a me nte na i nfâ ncia, com ex- escravos e neg ros vel hos. Di r - se - i a mesmo q u e é u m neg ro, a pe ­ sa r da cô r disfa rça da.

É

u m h a u ssá de' n a r i z aqu i l i no, maçãs salientes, que os outros sa ntos não repetem, o l h i n hos so rridentes, e u m a bondade geral deriva d a de m u ita obed iência, m u ita i g n o râ ncia e m u ito sofrim ento ( Nota

2 2 )

E ste haussá b r a n q u e a d o é con stituído po r d i ssi m u lação eleme nta r (cor); os anjin hos, q uatro, são pi ntados co m co r e cabelo entrecruzados. Das quat ro dezenas de convencio­ na is, são os ú n icos pousados em a l g u m piso; dos q u atro, a penas u m não se disfa rça, é pa rdo tanto n a pele q u a nto no pix a i m d o ca belo:

Não deixa de ser i m p ressi ona nte a m a n e i ra com que o a rtista m u l ato m a l ­ trata os ca belos d o s seus a njos. E le desco n h ece, i g nora, o s ca belos crespos à eu ro péia , fofos e leves, flexuosa me nte encrespados. Se os faz, po r essa época , de a njos positiva mente brancos, são cabelos lisos, d u ma l isu ra rís ­ pida d u ra , por vêzes, s e m nen h u m a ex periência sensível de observação. Mas se os faz c respos, logo os encrespa em cachos go rdos, m u ito da nossa ex periência e da nossa vida brasi leira. E até, se observa rmos o a n j i n h o q u e ( ... ) seg u ra u m a flo r ( . . . ) to pamos q u ase que g a rantidam ente c o m u m a fi ­ g u ra q u e, a l é m de neg róide no ti po, traz u m a cabelei ra pouco menos que pixai m ! E fáci l a o bjeção: M a s por q u e êste a nj i n h o é branco de pele, e o a njo m u l ato se d i sfa rça? N ã o é ve rdade que êste ú lti m o se disfa rce, êle é fra nca m ente m u l ato na côr d a pele. ( N ota 23)

É

o céu que o dissi m u l a, o peração d o co nju nto:

S ó que o seu bodi n h o foi ca rmelita n a m ente disfa rçado, recebendo aquêle ba n h o de l u z celestia l q u e p rovàve l mente no outro m u ndo nos to rnará to ­ dos i g u a is. Mas entre a p rofusão das q u atro dezenas de a nj i n hos, o a rtista m u lato conq u i sto u o d i reito de a penas um exem p l a r m u lato. Êste porém de fran ca m u lata ria (9, p. 1 88-9).

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o disfa rce por entrecruzamento de características i m pl ica o retrato. Os q u atro q u a d ros de sa ntos, do 'conju nto exta nte de oito, - S a nta Teresa de J esus, São Simão Stock, Sa nto Anido e São J o ão da C ruz - , são retratos pois fogem à convenção. F i l hos do pi nto r, e o bióg rafo va i motiva ndo o a rbitrá rio e to rnando a rbitrário o motiva do, i n cessa ntem ente. Motivação no nome: o retrato de São S i m ão Stock tem por modelo o fi l h o de mesmo nome; o de Sa nta Teresa, a fi l h a M a ria Teresa ( N ota 24 ). Arbitrário do nome: o biog rafa ­ do dissi m u l a a motivação, fazendo do homem S i m ão modelo de outro Sa nto ( n o que rem otiva a motivação : o disfa rce é motivado) (cf. 24 ). J á o São J oão da C ruz tem o fi l h o E l ias po r modelo (o q u e é asseg u rado p e l a a q u a rela do patria rca d o s Dutra, q u e o retrata ) (9, pp. 1 78 - 9 ) . Mas: os qu atro anjin hos dissi m u l ados ( m e nos u m , até ce rto po nto ) e os qu atro sa ntos (assim co m o o M e n i n o J esus de P raga que repete um dos a n j i n hos) (9, p. 1 85; 4, p. 1 7 1 ) são retratos dos fi l hos. E n q u a nto a ca rta i nsiste na ideal idade das sa ntas, o Padre Jesuíno do Monte Carmelo reco rta deste co nju nto fem i n i n o Sa nta Te resa, cujo modelo é a fi l ha ( N ota 25) o retrato difere da i m agem idealizada porq u e a ci rcu nscreve com o ca rater, não menos pa rdace nto do que o dos fi l hos va rões:

A adesão que êle ti n h a p a ra co m êsse retrato da S a nta Te resa era outra, derivada de outro a m o r, de outra p referênci a . J esuíno retratava a l g u é m . A meu ver, a fi l h a . E ra a adesão de u m pai. E êsse rosto dife rente ta m bém sugere o seu ta l ou qual m u latismo (9, p. 1 84 ) .

O retrato é ci rcu nscrito pela o bse rvação e excl u i a idealidade repetitiva da co nvenção; a genera l idade e a ind ife renciação desta são o postas ao i nd ivid u a l , não são si n g u l a r, pois são perig rafia do sentido. A extensão do retrato a u m co letivo q u a l q ue r, " m u lata ria", ope ra resse ma ntização, efetuada psicologica m e nte nos textos; as descobe rtas vão, assi m , ex pl icita ndo o sentido ded utivo da i nvesti gação: i n d iciada por u m a " p u l g a atrás da o re ­ lha" ( N ota 2 6 ) , o pe ra c o m co r rel ações entre a pi ntu ra e a psicologia ( i nd ivid u a l , coletiva ) . Assi m , o ca ráter ci rcu nscrito pelo retrato opera ressema ntização dive rsas c o m co nstel a ­ ç ã o de relações d e b ra nco e pa rdo, q u e s e ex pl icita m e m pelo m e n o s três oco rrências: a s fig u ras pa rdas i nva dem o fo r ro bra nco de I t u , d i ssi m u ladas entre fig u ras tam bém b ra n ­ ca s da co nvenção ( N ota 27); o pa rdo casa -se com bra nca em cidade ca rente d e homem ( N ota 28); a pesa r de esti m a e respeito dedicados a o pa rdo por Feijó ( N ota 29) e outros brancos, ele não co nsegue ser a d m itido na O rdem Tercei ra de N ossa S e n h o ra do Ca rmo, de bra ncos, i n g ressa ndo na Confra ria da Boa M o rte, l igada ao Ca rmo, e d esti nada a pre­ tos e m u l atos ( N ota 30 ) . O bióg rafo rea rtic u l a essas rel ações entre o pa rdo e o branco, resse m a ntiza ndo a pi ntu ra do P a d re J esu íno; nas três espécies de relação, o pa rdo é defi ­ ciente, pois o p róprio casamento com a a lvu ra é atri b u ído à ra reza de va rões; m a is, a dis­ sim ulação dos pardos pelas fig u ras a lvas e pela luz bra n q u eadora (em q u e opera a excl u ­ dência d e ca racterística por outra: tez e traços faci a i s neg róides a l isam o s cabelos; ca belo pix a i m alveja a pele e os traços) é d ra m atizada com diá logo:

Por ce rto que u m prior Lou renço de A l m eida P rado n u nca poderia i m a g i ­ n a r q u e o a rtista de co nd ição h u m i lde tivesse a a u d ácia de botar u m pa rdo nos o rg u l h osos céus ca rmel ita nos.

- Que é a q u i l o , J esu íno F ra ncisco? Por que aquele a njo está m e sa i n do tão escu ro?

- Fa ltou tinta, sen h o r Lou renço, fa lto u ti nta (9, p. 1 89 ) .

A s relações entre bra nco e pa rdo não d isse m i n a m nada, p o i s o p e r a m o positiva m ente ci r ­ cu nscrição. O seq üestro na p i ntu ra de J esuíno é ressema ntizador, p o i s seq üestra s e ­ qüestro por dissi m u l ação; não sendo macu n a ímico, ta l seq üestro não produz l i n has d e fu ga, a ntes s e a p ropria sorrateiramente na pi ntu ra d o s valo res esta belecidos. Absorção que resgata o pa rdo n a própria cena em que é seq ü estrado, co m os bra ncos, de que se

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a p rox i m a , no céu branco q u e a todos i g u a l a ( N ota 3 1 ) : a pi ntu ra, que rese rva canti n h o de céu pa ra a fa mília, ressema ntiza -se a l egorica m e nte ao estender-se à redenção da co leti ­ vidade m u l ata. M a s a redenção pelo retrato, i n d ividual (e fa m i l i a l ), a lego riza a de todo o g r u po: dispositivo sa lváfico que tem a vinga nça por princípio. O seqü estro de seq üestro jesuín ico não leva ao céu macunaím ico; i ncapaz de m u d a r sítio, "est re l i n ha", reafi rma os va l o res que o seq üestram , dissi m u l a ndo-se, resse ntido, e m seu céu de pi ntura (9, p. 1 90). Como q u esti o n a a repressão (9, p. 200 ), i g u a l a com d i sfa rces os brancos q u e no céu têm assento e, alegorica m e nte, os pa rdos que, reiterando os va lo res, po r eles são su bidos.

O retrato, a um tem po i nd ivid u a l e fa m i l i a l (e, alego rica mente, coletivo), é ci rcu nscrição q u e recebe, em J esuíno, senti do genea lóg ico ( N ota 32).

Tal genealogia é u m si m u l acro: desce ndente dos Voado res, J esuíno é excrescência de ra m o pa rdo, a q u e o m ite por s u p ressão do so brenome, a penas g rafa n do " G u sm ão" em docu mentos que o exigem i m pe rativa m ente (9, p. 1 90 ) i g n o rada a do nome, defende a d a salvação, com i ntenso sentido afetivo, d o s s e u s e , a l ego rica mente, do g ru po, ge nea logia q u e reci rcu nscreve o retrato co m o seqüestro ressentido de seq üestro escravista na i m a ­ gem sag ra da . I nsisti n d o - se na biog rafia, q u e s e i m b ri ca na genea logia, a pi ntu ra jesuínica se retra i, pois red u z o d ife rente ao m esmo, a si mesmo ( N ota 33 ). N ova ci rcu nscrição que to rna h i pe r - perig ráfica a pi ntu ra, efetu ada por biog rafi a q u e sema ntiza o significado, h i ­ pertrofi a n d o - o à medida q u e o desenvolve. Pois, co mo o retrato q u e i nterpreta e reinter­ p reta , a biog rafia é, d ra m atica m ente, sua re p resentação em a bismo.

À

medida que cerca o b iog rafado, mesmo na a l egoria q u e o co letiviza,

i

bióg rafo, enu ncia ndo os d i reitos do poeta, vai operando em otiva mente, nova ci rcu nscrição; é do bióg rafo a tese de que os d oc u mentos devem ser person ificados, d ra m atiza n d o - se o emblema J esu íno (o que, em certa medida, ta m bém ocorre com o Aleija d i n h o ( N ota 34) . A l iteratu ra, co m o ficção, conto, novela ro m a nesca, p redete r m i n a o sentido, pelo menos enqua nto ca ptu ra da sig­ nificã ncia; o mesmo se pode dizer das i m a gens, q u e r das fotog rafias ou das de M i g uel A rca njo Dutra, a rticu ladas no senti do do cerco do biog rafado. Nem os m u latos da pi ntu ra con stituem si n g u l a ridade textual, pois o pera m , a ntes, co m o foco di retor de emoções ("curiosíss i m o", " i m po rta ntíssimo" se diz de sua desco berta ), h i pérbole que fig u ra no texto, não u m a desco nti n u i da de, mas o máximo de relevo (ta m bém, em nen h u m mo­ m e nto a fi g u ra é desconstruída p o r outra, i ro n i a , paródia, etc. ). H i pe r - perig ráfica, a bio­ grafia, operada por sema ntizações e ressemantizações, não a d m ite o biog rafema.

Lei a - se a última ca rta d i rigida a Ro d rigo M e l l o F ra nco de A n d rade, que fa l a na mão pa rda. M ã o p a rda, mão l a d ra : o m a n u c ri sto enviado pa ra o Rio é objeto de a r repend i ­ mento,

A pa rte da biog rafia é que m e ata neza , p reciso rel e r, mod ifica r.

É

p reciso. Tive, com a fu g a do l ivro pra a í, o que q u e r dizer que em bora a i nda não p u b l icada, a o b ra principiou vivendo por si, sem m i n h a a utorização nem co ndescendência, tive a noção exata de que, se o tom ficção está ce rto pro caso, me deixei leva r às vezes pra u m a , co m o d i zer, pra u m a l i berdosidade, uma l icenciosidade literária, uma imodéstia no trata m ento do tom . So­ b retudo naquele refrão de J esu íno tom a r co nsciência de seu m u l atismo, o l h a n d o na frente a mão m u lata dele, p i nta ndo, toca ndo nos órg ãos.

É

ter feito d i sso um refrão que to rnou l icenciosa a a n á l ise psicológ ica . E u só po­ dia fazer d i sso um refrão se tivesse a poio bibliog ráfico (4, p. 1 87 ) .

A m ã o p a rda, q u e m a n i p u l a o Padre Jesuíno, é efetu ação psico l ógica q u e, fi g u ra l m ente, segu ra o texto, ta nto como s i n édoq ue da pi ntu ra (ta m bém da m úsica e da a rq u itetu ra), q u a nto co mo m etáfo ra a legoriza nte da a rte m u l ata e, po r exte nsão, da co lonial pa u l ista .

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N o s efeitos d e gên ese psico l óg ica q u e o texto produz, a m ã o parda é o ve rossí m i l de to ­ dos os ve rossím eis que dele esco rrem. N o enta nto, a mão é i n ve rossím i l , não está a po i a ­ da em docu mento. P roduz-se c o m a mão efeito de fra g m e ntação e disse m i n ação dos efe itos de ve rossi m i l h a nça, que a rticu l a m o siste ma, a n u l a n d o - se o traba l ho i nte rpretati ­ vo do bióg rafo. Porque destitu ída de fu ndamento docu menta l, a i nte rpretação em seu co nju nto fica escritu ra l m e nte com p ro metida. A mão:

N a sua fre nte enxerga aquela mão pi nta ndo. E le era u m pa rdo (9, p. 45 ) . J esuíno F ra ncisco n ã o perde vista a sua m ão , essa mão q u e na frente dêle pinta nas pi ntu ras e nos órgãos, a pele de u m dos anjin hos l h e sem p re a o l h a r de ded i l h a n d o nos órgãos ( ... ). N a revoada de a nj i n hos q u e êle des­ pertou e fêz voa r pelo a lvíssi m o fô rro da Ca rmo, enxerg a ndo aquela mão que êle é ta nto fo rçado a o l h a r na pintura e nos órg ãos, a pele de um dos a nji n h os lhe sa i u exata mente da cô r da mão (9, p. 49).

S i g n ificâ ncia, a mão desconstrói o sistem a co nstru ído com sign ifica dos (a pesa r dos pro­ testos do poeta ) . F i g u ra a rticu ladora de fig u ras, não é verossím i l . I nscreve, por isso, o biog rafema na biog rafia, ou m e l h o r, faz da biog rafia efeito verossím i l de biog rafema. Pois até a motivação d a m ão parda e dos a n j i n hos m u l atos na citação é a rbitrária e, as­ si m , a motivação é ela mesma efeito de a rbítrio, disse m i nação de efeitos de senti do sis­ tem ático. Desa rticulado e, assi m , a rticu lado, o biog rafemador- bióg rafo diz a rre pende r - se . dos excessos, seu eq u ívoco. Promete emenda r o texto, mas a correspondência se i

nter-ro m pe.

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A N G OTTI K O S S O V I TC H , E . - B io g ra p h e m e d e M á rio de A n d rade: d u p l u ri e l . Tra ns/Form/Ação, S ã o Pau l o , 9 / 1 0 : 55- 84, 1 986/87.

RÉSUMÉ: Ce texte est une partie du troisieme chapitre de mon Doctorat de 3 eme Cycle -M á rio de A n ­

d rade: Pluriel (Faculté de Philosophie, Lettres et Sciences Humaines - Université de São Paulo). li s'agit d'un essai de production d'un biographeme, à la façon de Roland Barthes. Le biographeme c'est de la poduction tex­ tuelle à la dérive des signifiants. Ne s'inquiétant point de la vérité, le biographeme joue à la vraisemblance tout en la déjouant. Dissémination, un biographeme n'hesite pas à metre en oeuvre tous les opérateurs de langage a sa

poteé. Agissant de la ote, il fait usage de la biographie, I'écatelle en la rendant a utre à I 'éca t Si la biogra­

phie travaille a vec des faits en vue de I'établissement du vraisemblable du biographé, le biographeme retient I'ar­ bitraire de la production de cet "être-en-encre" qu 'il imprime sur le papier. Son enjeu c'est donc le jeu des ima­ ges, des scenes, des gestes, des fragments textuels, des pulsions, c'est-à-dire, des signifiances.

UNITERMES: Vraisemblable; arbitraire; d oxa; paradoxe; texte; écriture; énonciation; énonc

l

ateurs; énon­

cé; biographie mémoire; signifiance; intetextualité; polyphonie; sémiologie.

N OTAS

1. B A R T H E S , R o l a nd - Roland Barthes par Roland Barthes. Pa ris, S e u i l , 1 975. p. 1 1 4: " Le b i o g ra p h e m e n 'est rien d ' a utre q u ' u n e a n a m n ese factice: cel le q u e je prête à I ' a uteu r q u e j ' a i m e " .

2. " L'auteu r q u i vient de son texte e t va dans n otre vie n'a p a s d ' u n ité, i l est u n sim pie p l u riel de 'ch a rmes', l e l ieu de q u e l q u es d éta i ls tén us, so u rce cependant de vives l u e u rs ro m a n esq ues, un chant d i sconti n u d ' a m a b i l ités L .. ); ce n 'est pas u ne perso n ne (civile, m o ra l e), c'est u n corps" ( 1 2, p . 1 3)

3. " M á ri o de A n d rade" - I ntrod ução de Ped ro N ava a Corespondente Contumaz. R i o de J a n e i ro , N o ­ va Fronte i ra, 1 982, p. 25- 26: "O retrato de Porti n a r i , o b ra - pri m a de pi ntu ra não dá u m a idéia perfeita d e M ário. E Il é ex p ressi o n a l izado numa meg afo rma q u e caberia melhor ao g i g a nte Wen ­ ces l a u Pietro Pietra . E tó rax d e m a i s e q u eixo demais. Fo ra isto e fa lta rem o s óculos - a semel h a n ­ ça é q u ase tota l . O de Lasar S e g a l a p rox i m a - se m a i s e d á i d é i a perfeita da m io p i a e do q u e e l a a d i c i o n a à ex p ressão . Trata -se de u m retrato de mocidade e os o l hos de M á rio a i n d a não t i n h a m a d q u i ri d o a a m a rg u ra q u e j á tra nspa rece n o ó l eo de Flávio d e C a rva l h o , nem a resi g n a d a sa nti ­ d a d e q u e está n o pastel de Tarsi l a . O utro paste l, o de A n ita M a lfatti é d essemel h a nte e só d á bem a noção d e sua postu ra d e pescoço e crâ n i o . Esta a i n d a a pa rece m e l h o r nas ca beças escu l pidas de Joaq u i m Fig u e i ra e B ru n o G iorgi e mesmo na i m o b i l i d a d e terrível d a másca ra m o rtuária de M a ­ r i o e n o r m e d e A n d rade".

4. S o bre as fotog rafias de W a rchavch ik, M á ri o - p l u ra l íssi m o nas q u atro m etades d o rosto : " M u ito de i n d ústria deixei pa ra o fi m as m e l h o res foto g rafias de M á rio de A n d rade. As tiradas por War­ chavc h i k . Qua l q ue r dells é fotog rafia d e a rte princi pa l m e nte d ifíci l d e rea l i z a r porq u e a p a n h a o m o d e l o de frente. L .. ) E o retrato d e u m h o m e m em p l e n a fo rma e sem a p resenta r certos sinais de m a g reza fo rçada e d e q ueda de traços tra d u z i n d o reg i m e , m o l ésti a e vel h i ce. Mas q u e retra ­ to ... D i v i d i d o p o r u m a ho rizo nta l q u e passasse pela po nta d o n a riz temos e m baixo o q ueixo vo l u ntarioso e possa nte dum d i o n ísio so rride nte. Já a meta de de cima é a de uma g o rg o n a m ío pe ato rmenta d a p e l a s próprias serpentes. Se fizermos o m e s m o jogo co m u m a vertica l , o l a ­ do esq u e rd o é o d u m fri o e l úcido o bse rva dor, o o l h a r a g u d o e cortante se esg u eirando de d e n ­ t r o da deformação ha bitu a l me nte aca rretad a p e l a s lentes dos ócu los. A m e i a boca é i rôn ica e a l ­ tiva . Mas a meta d e d i reita mostra u m o l h a r m o rto de sofredor e m á rt i r e n q u a nto o resto de s u a boca t e m o heroísmo e a e n d u rãncia d e co nti n u a r sorri n d o a pesa r de t u d o " . I n A n d rade, M ário

de. Corespondente Contumaz: Cartas a Pedro Nava, 1 925 - 1 944 , o.c. I n t r o d u ç ã o de P e d r o N a v a ,

p . 2 7 .

5 . I bi d e m , p p . 28- 29; a s mesmas d i ferenças externas e i nternas o bservadas na i m agem são enfati ­ zadas na fa l a : " E como é? q u e fa lava esse g ra n g a nz á do Mário. C o m a m e l h o r voz e o modo

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m a is macio. Como que l u brificava as palavras baba ndo as síla bas que sa ía m n o seu sota q u e provi n c i a n o , sepa radas feito cu bos de gelo c u j o s â n g u l os e a restas fossem émoussés por derre­ ter. S u as sílabas e p a lavras se a rred o n davam e esco rregavam so bretu d o nos seus CH H . M a rc h a . M a rc h a r, Warchavc h i k . C h i q u e . Meschick. E ti n h a a propriedade d e fa l a r se r i n d o -e ria, como ele ria! riaté sem razão . E era n essa mesma fa l a de pa u l ista no sem se i m posta r nem se i m portar q u e ele e r a u m i ntérprete a d m i rável de poesia e prosa. Lem bro d e tê- lo visto e o u v i d o ler coisas suas em casa d e R o d r i g o . Sua construção o ra l ti n h a , entã o , m o d u l ações de frase musica l . E não era que decl a masse, Deus m e l ivre ! O que e l e era é u m d ized o r fa bu loso até de frase d e co nversa . Deg ustava a p a lavra e essa sua v o l ú p i a p a l ata l é q u e deve ter i ns p i rado seu C o n g resso de Lín­ g u a Naci o n a l Ca ntada " .

6 . I bi d e m , p. 3 1 : "Ti n h a n a d a q u e co m p ree n d ê - l o m a i s do q u e e l e estava s e mostra n d o na s u a fa ntástica d i ve rsidade (trezento s ! trezentos e c i n q üenta ! )" .

7 . Arti go enviado pa ra p u b l icação em O Estado de São Paulo; recusado, é d i v u l g a d o p e l a se nsi b i l i ­ d a d e de P a u l o D u a rte. Cf. D UA R T E , Pa u lo . Mário de Andrade por Ele mesmo. S ã o Pa u l o , E d a rt,

1 97 1 .

8 . O p ri m e i ro seg m e nto está e m " H á u m a G ota d e S a n g u e e m cada Poe m a " , in Obra Imatura , p . 8; o seg u nd o , em " L i ra Pa u l ista n a " , in Poesias Completas, p. 298; o tercei ro seg m e nto está em " X a rá , xara p i m , xêra " , in Os Filhos da Candinha , p. 1 5 1 .

9 . B A R T H E S , R o l a n d . S/Z. Paris, Seu i l , 1 970, p. 1 2: i nterpreta r u m texto, "ce n 'ést pas l u i d o n ner u n sens (plus o u moins fo n d é, plus o u moins l i brel. c'est a u co ntra i re, a p p réci e r de q u e l p l u riel i l est fait. ( ... ) Ce texte est u n e galaxie d e si g n ifia nts, n o n u n e structu re d e s i g n ifiés".

1 O. A l g u n s dos p ri m e i ros escritos de Mário de A n d ra d e são p u b l icados sob n o m es d iversos: M á ri o S o b ra l assi na " H á u m a Gota de S a n g u e em cada P o e m a " e a rt i g os d a época, M á rio R a u l assi na outros, M . S . ou M . R . o u M . de A . o u M . A . , e outros ... As perso nagens em q u e proliferam os índ ices da e n u nci ação : Juca, de "Vesti d a de N e g ro" e de " Frederico Paci ência"; Menino da C a ­

miso l i n ha; Pa u l i no ; M e n i n o Trelento, de " Reco n h ec i m e nto d e N ê m esis"; o na rra d o r- perso n a ­ gem de " P e r u de N ata l " ; J a n j ã o , S i o m a ra P o n g a , Pasto r Fido, S a r a h Lig ht, d e O Banquete; no

Diário Nacional escreve com o pseu d ô n i m o d e Lu ís P i n h o (Entrevistas e Depoimentos, p. 9); neste

mesmo texto, p. 7, outros pseu d ô n i mos: J. H . de A. e G . de N .

1 1 . J u l i a K risteva d i sti n g u e , em Séméiotiké, (Pa ris, S eu i l , 1 970), p p . 256- 257, três espécies de para­ g ra m a , fazendo valer o negativo: 1. Negação tota l : " La séq u ence étra n g êre est tola lement n i ée et le sens du texte référentiel est i n versé"; 2. Negação s i m étrica : " Le sens g é n é ra l l o g i q u e des fra g m ents est le m ême; i l n'em pêche que le para g r a m m e ( ... ) d o n n e a u texte d e référence un n o ­ vea u sens"; 3 . Negação parci a l : " U n e seu le pa rtie d u texte référentiel est n i ée". P a ra essas espé­ cies (o utras poderi a m ser eventu a l mente esta belecidas), a s i m u lta neidade d e l eitu ra é conditio si­

ne qua non de efetu ação de paragra m atismo. Desta q u e-se q u e , na cl assificação d e K risteva , o pe­

ra -se a i n versão o u a m u d a nça de sentido d o novo texto o u do texto d e referência ( o u d a relação q u e a leitu ra s i m u ltâ nea produz). Afi rma r, na efetuação paragramática o u na i ntetextu a l i dade, o

sentido, a i n d a q u e novo, é reto rn a r ao q u e este tra b a l h o recusa, um sentido . Pelo co ntrá rio, pro­

por p l u ra l i d a d e de sentidos e d i ssem i ná - los n a s i m u lta n e i d a d e da si g n ificâ ncia que os prod uz. A l ém d i sso, o para g ra m atismo ( o u a i ntertextu a l i d a d e) o pera tanto d i a l 6g i ca q u a nto pol ifo n ica­ mente (s'e n d o a dual apenas a relação m í n i m a , m e ro .caso entre os possíveis). Todavia, d o i s tex­ tos n o m ín i m o constitu em referência do texto pro d u z i d o . Na relação m ú lti p l a e ntre a referência e o texto prod u z i d o i nfri n g e m -se os princípios q u e se a p l icam às l i n g uagens e n q u a nto as d efi nem operaci o n a l mente. Por isso , o i ntertexto pode efetu a r, sem ca usa r espécie, ta uto l o g i as, repeti ­ ções, fa lsas citações, em q u e os mesmos texto , trecho, verso , frase, p a l avra não são os m esmos em novo seg mento; ta m bém pode efetu a r, sem estra n h eza , contradições (o texto de refe rência é

Referências

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