Ribeiro ou Miranda-Ribeiro?
Nota biográfica sobre Alípio de Miranda Ribeiro (1874-1939)
José P. Pombal Jr. 1
ABSTRACT. Ribeiro or Miranda-Ribeiro? A biographical note on Alípio de Miranda Ribeiro (1874-1939). Alípio de Miranda Ribeiro was one of the foremost Brazilian naturalisls of his era and published extensively on ali vertebrate groups. His sono Paulo de Miranda Ribeiro ( 1901- 1965), was an ichthyologist, and, as his falher, worked aI the Museu Nacional. in Ri o de Janeiro, Brazil. Although the papers of Alípio and Paulo de Miranda Ribeiro are commonly cited, IWO disti nct forms are found :
Ribeiro and Miranda-Ribeiro. The use a hyphen between Miranda and Ribeiro (spo-radi cally). and verified names of ancestor and descendants suggest lhat the belter form for citalion is MirandaRibeiro. A short biographical note on Alípio de MirandaRi -beiro is provided.
KEY WORDS. Miranda-Ribeiro, biografia
Alípio de Miranda Ribe iro foi um dos mai s profícuos e importantes natura-1 istas de sua era, pub l icand o em todos os grupos de vertebrados. Dentre suas natura-146 publicações (veja lista em TRAV ASSOS 1955), merecem especial destaq ue "Faun a Bras ilensis: Peixes" e "Notas para servirem ao es tudo dos Gymnobrachios (Anura) brasileiros" (MIRANDA-RIBEIRO 1907a, b, 1909, 1911 , 1915 , 191 8a, b, 1926). Seu filho , Paulo de Miranda Ribeiro (190 1- 1965) também trabalhou com peixes no Muse u Nacional - Rio de Janeiro, tend o publicado postum amente alguns trabalhos de se u pai. Uma importante publicação de Paul o de Miranda Ribeiro é sobre os tipos de espécies e subespécies de Alípio de Miranda Ribeiro, depos itados no Museu Nacional (P. MIR AN DA- RIBEIRO 1955).
Nascido na cidade de Ri o Preto, Es tad o de Minas Gerais , em 2 1 de feve reiro de 1874, filho de Theotônio Victor Sayão de Miranda Ribeiro e de D. Josep hina Mascarenhas de Miranda Ribeiro , Alípio de Miranda Ribei ro reali zo u seus es tu dos primários com seus próprios pais. Para freqüentar o curso secundário, tran sferiu-se para o Ri o de Janeiro onde matriculou-se no Colégio Ma lvino Reis, passand o em seg uid a para o colégio do Moste iro de São Bento. Para custear seus es tudos, trabalhava na imprens a (KRETZ 1942.)
Na escola de Medicina, trabalhou como auxili ar do polêmico Dl'. Domingo Freire, que, enquanto Diretor do Museu Nacional , o nomeo u como Preparador Interino da Primeira Seção (Zoologia) em 27 de outubro de 1894, aos 20 anos de idade. Foi efetivado em 4 de fevereiro de 1895; em 25 de junho de 1896 , Naturalista Ajudante Interino e efetivado por concurso em 16 de agos to de 1897. Di spensado deste último cargo em virtude da reforma de 11 de fevereiro de 1899, que ex tinguiu os cargos de naturalistas; fo i nomeado secretári o por Portari a de 20 de fevere iro do
1) Departamento de Vertebrados , Museu Nacional , Universidade Federal do Rio de Janeiro. Quinta da Boa Vista, 20940-040 Rio de Janeiro , Rio de Janeiro, Brasil.
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mes mo ano. Enquanto Secretári o, Alípio de Miranda Ribeiro co ntinu o u, a exercer suas ativ idades de naturalista, acumul ando com as novas funções. Em 1910, por decreto, foi provido como substituto até 20 de agosto de 1929 , qu ando, nova mente por decreto fo i promovido ao cargo de Professor-Chefe da Seção de Zoologia do Museu Nacio nal (KRETZ 1942).
O próprio Alípio de Miranda Ribe iro ( 1945) relata como fo i o despertar de seu interesse pe la Hi stória Natural: "Quand o entre i, pe la primeira vez, no Museu Nacional , era ai nd a estud ante de preparatórios. ( .. . ) ti ve um a formid áve l emoção por enco ntrar aquele repositóri o que e u julgava a solução de todas as dificuldades da zoo logia ...
Percorri , e mbevec ido, todas as salas e vo lte i às de zoo logia, onde, à tarde, a mão amical do Porteiro (c uj o ar severo e barbas a Franc isco José emp res tavam- lhe um a autorid ade res pei táve l), tocando-me no ombro, interrompia-me a co ntemplação e me mostrava, ao mes mo tempo, a porta da rua.
Não era, no entanto, possível a ne nhum a fo rça reti rar-me assim , sem mais ne m menos; trave i co nve rsa co m o ho mem - Antônio Alves Ribe iro Catalão - a quem pedi me aprese ntasse ao Diretor do Museu , pois eu queria permi ssão para freqüentar aquel e templo .
Catalão era inegavelmente um homem bo nd oso, com toda a sua aparente ferocidade de ex -inspetor de alunos do Mos te iro de S. Be nto: marco u-m e o prim e iro Domi ngo, para a ap resentação e eu ti ve o ensejo de con hecer a impo ne nte figura do Conselheiro Ladislau Neto. Interrogo u-m e este de que ramo da Hi stó ri a Natural eu gostava e, e m seguid a à resposta, deu-me a almejada permissão . Lem bro-me bem desse Domin go, em que hav ia um serviço extraordinário: o preparo duma suçuara-ma, de que fo ra encarregado o então preparador Carlos M ore ira. Neste dia mesmo eu o ajude i e daí por diante começaram e aum entaram gradativame nte as minhas fugas do colégio."
Sua primeira publicação, referente à Entomologia, fo i em 1899; em 1902 (veja Referê nc ias) , inic iam-se suas publicações co m vertebrados (TRAVASSOS
1955), que irão se tornar sua especialidade.
Entre 1908- 1909 foi me mbro, co mo zoó logo , da Co mi ssão de Lin has Tele-gráficas e Es tratégicas do Mato Grosso ao Amazonas , a afamada Comissão Rond o n. Em 19 12, foi nomeado Inspetor de Pesca, onde de mos tro u sua capacid ade de orga nizado r. Es ta Inspetoria foi instalada num a co nstru ção provisória na Pra ia Verme lha (Ri o de Jane iro). Nes te edifíc io, bastante ampl o, qu ase inteiramente de made ira, instalou laboratóri os, bibli oteca e coleção icti ológica. O traba lho era contínu o e se prol ongava até as prime iras horas da madru gada. E m po uco ma is de um ano hav ia biblioteca organi zada e catalogada à disposição dos pesqui sadores a qualquer ho ra do dia ou da noite. Também fo i orga ni zado um pequeno nav io- labo-ratório, "José Bonifác io". Em 1913 , afas ta-se da Inspeto ri a de Pesca devido a problemas co m o novo titul ar da pasta da Agricultura. As ótimas in stalações fo ra m arrasadas e o material dividido por diversas rep arti ções. Coube ao Museu Nac ional o materia l zoo lógico e boa parte da biblioteca; algun s li vros fo ram para a Bibli oteca do Instituto Oswaldo Cruz. O nav io foi entregue à M arinh a de Guerra (KRETZ 1942 ; TRAVASSOS 1955).
Alíp io de Mi rand a Ribeiro casou-se em 1901 com D. Margarida Pere ira filha de seu antigo professor do secundári o, Timotheo Pereira; teve quatro filh os. Faleceu em 8 de janeiro de 1939 (KRETZ 1942).
Embora os trabalhos de Alípi o de M iranda Ribeiro, e de seu filh o Paul o, ainda sejam rotineiramente citados, nos vari ados grupos de vertebrados, são de duas form as d iferentes : como RIBEIRO - em pei xes (e.g. BR ITSK I & GARAVELLO 1984 ; BRITTO 2000 ; MEES 1974; M ENEZES & FIG UEIREDO 1980, 1985 ; REIS 1997; SCHAEFER 1997), aves (e. g. FORSHAW 1981: 445 ) e mamíferos (e.g. COIMBR A-FI-LHO 1990); ou como MIRAN DA-RIBEIRO - em peixes (e.g. REIS & PEREfR A 2000), anfíbi os (e.g. CARAMASCHI & VELOS A 1997 ; DUELLM AN & TR UEB 1986; ETERO-VICK & SAZIM A 1998 ; NOBLE 193 1; POMBAL 200 1; POMBAL & CARAMASCHI 1995), aves (e.g. PI NTO 1978: 24 , 139; SICK 1985) e mamíferos (e.g. A DERSO 1997 ; AVILA-PIRES 1969; LANGE & JABLONSKI 1998 ; NOW AK & PARADlSO 1983: 392) . Os herpetó logos citam Alípio e Paul o como Mi randa- Ribeiro, ao passo que os iCli ólogos, com freq üênc ia os referem como Ribe iro. As citações nos estud os dos diversos grupos de vertebrados são inconstantes (vej a referênci as ac ima).
A j ulgar pelos nomes palern o e materno de Alípi o (vej a ac im a), parece que a melhor citação seria Mirand a-Ribeiro. Além disso, o nelo e bisneto de Alípi o (filho e neto res pectiva mente de Paulo de Miranda Ribeiro) confirm am que o nome de fa míli a é Miranda Ribeiro (Theotôni o Victor de Mirand a Ribeiro e Fláv io de Miranda Ribeiro, com uni cação pessoal). Além disso, em auto-citações Alípio de Miranda Ribeiro usava a abreviação Mir.Rib . (e.g. MIRA NDA-RIB EIRO 1926). Ai nd a, algumas vezes os trabalhos foram ass inados como Miranda-Ribe iro, usand o o hífe n (e.g. M IRANDA- RI BEIRO 1926).
Assim, com intui to de padroni zação das citações de Alípi o de Miranda Ribeiro, um dos mais importantes zoólogos do primeiro qu arte l do sécul o passado, ass im como de seu filho Paul o de M iranda Ribeiro, é sugerido o uso de Mirand a-Ribeiro.
AG RADEC IMENTOS . Theotôni o e Flávio de Miranda- Ribeiro pelas informações e interesse. Flávio Bockmann e Sérgio Maia Vaz pela ajuda com a bibliografia; Vera de Figueiredo Barbosa pela verifi cação da literatura citada; Ulisses Caramaschi, Ronaldo Fernandes e Dante M. Teixeira pela leitura do manuscrito e sugestões. Ao CNPq, Faperj e FUJB pelos auxOios concedidos.
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Recebido 11 .1.2002; acei lo em 02.VIiL2002 .