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O conceito de inclusão e a diversidade na política educacional brasileira

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II Congresso Nacional de Formação de Professores

XII Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores

O CONCEITO DE INCLUSÃO E A DIVERSIDADE NA POLÍTICA EDUCACIONAL BRASILEIRA

Jose Geraldo Alberto B Poker, Rosimar Bortolini Poker

Eixo 5 - A formação de professores na perspectiva da inclusão - Relato de Pesquisa - Apresentação Oral

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O CONCEITO DE INCLUSÃO E A DIVERSIDADE NA POLÍTICA EDUCACIONAL BRASILEIRA

José Geraldo Poker;Rosimar B. Poker. FFC, Unesp.

O conceito de inclusão não pode ser compreendido em sua

complexidade sem que seja conjugado ao conceito de reconhecimento.

Ambos se referem às condições essenciais e básicas para a construção de

sociedades nas quais as relações sociais sejam orientadas pelo princípio da

diversidade. Neste sentido, a diversidade pode ser observada como uma ética

que preside e organiza relações sociais, indicando o valor máximo que se

pretende consolidar na vida coletiva dos integrantes de sociedades

determinadas, sobretudo aquelas nomeadas como multiculturais.

Foi escolhida como referência para este estudo a abordagem do

filósofo-sociólogo alemão Jürgen Habermas. Em sua análise, merecem

atenção o fato de que os conceitos de inclusão, reconhecimento e diversidade

estão ligados a um contexto histórico bem definido, notadamente aquele no

qual a globalização, os movimentos migratórios e o desenvolvimento

tecnológico afetam a estrutura das instituições nas sociedades ocidentais.

Habermas se concentra em analisar a incidência da globalização em quatro

aspectos da sociedade contemporânea, a saber: a segurança jurídica e a

efetividade do Estado administrativo, a soberania territorial, a identidade

coletiva e a legitimidade democrática do Estado nacional.

Em relação aos dois primeiros aspectos, Habermas observa que, com

o alto grau de interdependência presente no sistema internacional,

praticamente todos os problemas enfrentados pela administração estatal se

tornaram planetários. Problemas ambientais, fiscais, monetários, de

segurança interna, nada disso mais pode ser resolvido por um Estado sem a

cooperação de todos os outros. Por isso, os Estados nacionais perdem parte

de sua força de coação e torna-se difícil garantir a efetividade das leis

internas, ou o cumprimento pleno de decisões judiciais, porque tudo isso

depende do pleno domínio sobre o território, o que não existe mais.

Quanto ao terceiro aspecto, que trata da influência sobre a identidade

coletiva, a análise feita por Habermas considera que, da mesma forma que

atinge as demarcações territoriais, a globalização embaralha culturas e assim

atua sobre os fatores de etnicidade com os quais se constroem os

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o endurecimento da indentidade nacional e o amolecimento das formas de

vida homogêneas em cada cultura local (Habermas, 2001, p. 92)

Mas isso não significa que o processo democrático esteja

inviabilizado. Segundo Habermas, o processo democrático e a prática da

autolegislação dependem mais da existência de uma cultura política, quer

dizer, da disposição de participação das pessoas nos debates sobre as

decisões públicas, do que das formas pelas quais elas constroem suas visões

de mundo.

É nesse ponto que se pode observar um dos significados atribuídos

por Habermas à expressão inclusão. Tal expressão indica um

aperfeiçoamento necessário da democracia moderna, para que ela se torne

“uma prática de autolegislação que engloba igualmente todos os cidadãos”

(Habermas, 2001, p. 93), e suporte as mudanças culturais e sociais

provenientes da globalização. Ou ainda, inclusão significa “que a coletividade

política permanece aberta para abarcar os cidadãos de qualquer origem, sem

fechar esse outro na uniformidade de uma nação homogênea” (idem, p. 94).

Por isto, segundo Habermas, o aperfeiçoamento do processo

democrático permite que diferentes culturas coexistam num espaço de

liberdade, à medida que a condição de igualdade derivada dos direitos

fundamentais garantidos aos indivíduos possibilita que as culturas afirmem

seus modos de vida umas em relação às outras, sem que isso venha a

ameaçar a integração da sociedade. Do mesmo modo, os indivíduos também

se tornam livres para escolher a referência cultural a qual querem pertencer.

Assim, as sociedades multiculturais podem ser apresentadas como

espaços sociais constituídos e mantidos pela permanente negociação de

identidades de sujeitos que se vinculam a matrizes culturais diversas. Nelas o

conceito de coletividade não depende de laços pelos quais indivíduos se

vêem como companheiros de destino. Ao contrário, a coletividade deve se

formar mediante a livre associação de companheiros de direitos (Habermas,

2001, p. 128).

Em relação a isso, identifica-se um significado secundário de inclusão,

que consiste na emancipação decorrente do processo de universalização dos

direitos fundamentais. Disso resulta um processo de individualização, à

medida que todo ser humano precisa ser tratado como indivíduo, e todo

indivíduo deve ser considerado como sujeito de direitos, não importando sua

procedência ou vinculação cultural. Segundo Habermas, o multicuturalismo e

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simbiose do Estado constitucional com a ‘nação’ como uma comunidade de

origem, para que a solidariedade entre os cidadãos possa se renovar em um

nível mais abstrato, no sentido de um universalismo mais sensível às

diferenças” (2001, p. 106).

Por inclusão, então, na teoria de Habermas, deve-se entender o

empenho pela abertura à diversidade necessária à preservação das

condições de convivência nas sociedades multiculturais. Tanto mais

aumentam as condições de convivência, quanto mais se aperfeiçoa a

democracia nos processos de tomada de decisões. Tal aperfeiçoamento, por

sua vez, depende do esforço pela extensão dos direitos fundamentais, que

permite a todos os cidadãos participarem das discussões públicas

representando seus próprios interesses, juntamente com os da cultura a qual

escolheram pertencer.

Para compreender o argumento de Habermas, primeiramente há que

se tentar definir o que seria reconhecimento para ele, salientando que uma

definição assim não se encontra já pronta. Ele do pressuposto que cada

modo de vida existente numa coletividade possui especificidades, e que cada

um afirma sua existência a medida que considera a igual legitimidade da

existência de todos os outros, não importando se compõem minorias ou

maiorias na sociedade que integram. Nesse sentido, qualquer

reconhecimento implica um tipo de relacionamento entre grupos étnicos, ao

mesmo tempo que se refere à validação das especificidades e à consideração

do direito a existência que os grupos se concedem mutuamente.

A expressão luta por reconhecimento pode ser entendida de duas

formas: como o projeto e as estratégias políticas empregadas por um grupo

para afirmar a legitimidade de sua especificidade diante de outros e

conquistar espaço na sociedade; ou pode ser entendida também como a

mobilização política de um grupo étnico para dirigir demandas ao Estado,

exigindo dele a proteção na forma de benefícios adicionais, quando as

especificidades do modo de vida do grupo se tornam fatores de privação

econômica e inferiorização social dos seus integrantes. Em virtude disso,

qualquer luta por reconhecimento empreendida numa coletividade esbarra de

alguma forma na configuração ética do direito racional existente e que regula

as relações inter-individuais e inter-grupais na sociedade, ao mesmo tempo

que confronta o sistema de distribuição dos direitos gerenciado pelo Estado.

O argumento de Habermas começa com um questionamento dirigido

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individualista pode dar conta de lutas por reconhecimento nas quais parece

tratar-se sobretudo da articulação e afirmação de identidades coletivas?”

(Habermas, 2002, p. 229). Com tal pergunta, ele observa que o direito

ocidental pode ser considerado um instrumento eficiente para solucionar

demandas no âmbito individual da vida, servindo bem ao propósito de

consubstanciar as lutas históricas de emancipação na sociedade ocidental,

que culminaram na conquista da igualdade de oportunidades e no Estado de

bem-estar social.

Se houver a efetivação do direito liberal, esta é a condição suficiente

para estabelecer uma ordem social legítima, que incorpore a afirmação e

reconstrução das identidades na convivência intercultural (liberdade de

escolha), ao mesmo tempo em que proporciona as formas correspondentes

de correção das situações de inferioridade, mediante o reconhecimento da

dignidade de quaisquer grupos étnicos (Habermas, 2002, p, 242).

A solução para todos os problemas relacionados ao reconhecimento

encontra-se disponível na arquitetura do direito racional e na vinculação do

Estado de Direito e a democracia. Para solucionar eventuais conflitos

interculturais, basta ao Estado garantir a participação de todos os cidadãos

nas instâncias deliberativas, em que serão produzidas demandas na forma de

cobrança pela efetivação dos direitos.

No Estado democrático de direito, segundo analisa Habermas, não é

preciso que sejam criadas políticas de reconhecimento, pois isso resultaria na

perda da neutralidade ética do Estado. Se o Estado protege um tipo de vida

determinado em detrimento de outros, ele não consegue garantir as

autonomias privada e pública, porque torna obrigatória uma escolha que cada

cidadão deve ser livre para fazer. Ao invés de tutelar as minorias, cabe ao

Estado democrático desenvolver políticas de inclusão, quer dizer, de

universalização dos direitos fundamentais, que são imprescindíveis à

participação de todos os cidadãos no discurso público e nas deliberações, por

meio do que os diferentes grupos étnicos podem expressar sua identidade e

conquistar o reconhecimento uns dos outros.

No Brasil, um conceito de inclusão foi originalmente apresentado no

âmbito da política educacional, em que passou a ser associado ao conceito

de necessidades educacionais especiais, associação esta que teve como

conseqüência a vinculação entre inclusão e ações contra discriminação de

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Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB),

promulgada em 1996, a terminologia necessidades educacionais especiais foi

utilizada, mas sem que seu conceito fosse explicitado, ou seja, o conceito

apareceu como se já fosse conhecido. Fazendo uma análise do contexto da

época, é possível supor que o uso do termo na LDB se deu sob influência da

Declaração de Salamanca, de 1994, resultante da Conferência internacional

que tratou dos princípios, políticas e práticas na área das necessidades

educacionais especiais, reafirmando o direito de todas as pessoas à

educação.

Embora não tenha participado dessa Conferência, o Brasil foi

signatário da declaração, que se referiu aos alunos com necessidades

educacionais especiais como “crianças e jovens cujas necessidades

decorrem de sua capacidade ou de suas dificuldades de aprendizagem”

(ONU, 1994). Importante destacar que na Declaração, o conceito de

necessidades educacionais especiais é bem explanado, e inserido em um

princípio maior que deve reger a escola denominada inclusiva, a de uma

escola acolhedora, que utiliza uma pedagogia centrada no aluno, que é capaz

de assumir o desafio de ensinar todos, independentemente das condições

físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas, étnicas, culturais ou

outras. Na LDB de 1996, a expressão necessidades educacionais especiais

aparece sem definição, e encontra-se no tópico relacionado estritamente à

educação especial, conforme se pode observar na leitura do seu Capítulo V.

A falta de esclarecimento a respeito da nova terminologia utilizada, e a

vinculação direta do alunado com necessidades educacionais especiais com

a modalidade educação especial, conforme foi proposta pela LDB, levou a

sérios problemas de interpretação, que repercutiram no cotidiano das escolas.

Isto porque, em uma primeira interpretação do que consta na LDB, se o

conceito de educandos com necessidades educacionais especiais for

compreendido na mesma perspectiva apresentada pela Declaração de

Salamanca, amplia-se consideravelmente a área de abrangência da clientela

atendida pela educação especial, já que na Declaração, tal alunado refere-se

a todo aluno que apresenta dificuldades em seu processo de escolarização,

conforme exposto acima. Diferentemente, se a compreensão de

necessidades educacionais especiais se basear, única e exclusivamente,

naquilo que está escrito na LDB - sem referência a Declaração de Salamanca

- como o conceito apareceu diretamente atrelado ao capítulo que trata

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os alunos com algum tipo de deficiência apresentariam necessidades educacionais especiais.

Essa imprecisão conceitual a respeito do alunado com necessidades

educacionais especiais mudou a partir de 1999 quando, no conjunto de

materiais que tratam dos Parâmetros Curriculares Nacionais, documento

oficial produzido pela Secretaria da Educação/MEC, foi publicado um volume

sobre Adaptações Curriculares, em que apareceu a definição desse termo. O subtítulo do volume é Estratégias para a educação de alunos com necessidades educacionais especiais, e a definição do termo

necessidades educacionais especiais foi apresentada identicamente como

proposto pela Declaração de Salamanca (1994), sem qualquer ajuste ou

adaptação ao contexto brasileiro.

Ao explicitar a abrangência do significado de necessidades

educacionais especiais, compreendeu-se que todos os alunos com

dificuldades de aprendizagem decorrentes de fatores diversos, assim como

os alunos com deficiência, teriam também direito ao atendimento educacional

especializado. Por causa disto, naquele momento ocorreu um aumento

considerável e preocupante de encaminhamento de alunos com dificuldades

de aprendizagem para serem atendidos pelos serviços especializados das

escolas, que ficaram sobrecarregados. Além disso, observou-se que os

professores das salas regulares, de certa maneira, se sentiram a vontade

para se isentar de responsabilidade sobre os alunos identificados com

necessidades educacionais especiais, pois, afinal, eles passaram a ter o

direito de serem atendidos pelo serviço especializado e lá havia especialistas

que poderiam suprir as suas necessidades educacionais.

O Plano Nacional de Educação de 2001, aprovado em forma da Lei nº

10.172/01, também utilizou a terminologia necessidades educacionais

especiais em seu texto. Ele estabeleceu como objetivos e metas para a

educação e atendimento dos alunos com necessidades educacionais

especiais, os padrões mínimos de infra-estrutura das escolas e incentivo à

realização de estudos e pesquisas nas diversas áreas relacionadas com as

necessidades educacionais especiais. Nada mais foi tratado sobre o conceito

de necessidades educacionais especiais ao longo do documento.

A Resolução do CNE/CEB nº 02/2001, que instituiu as Diretrizes

Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, manifestou o

compromisso do país em universalizar o ensino atendendo à diversidade. A

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deveria ser uma escola que se colocava à disposição do aluno,

organizando-se para oferecer ensino de qualidade para todos, asorganizando-segurando atendimento

aos educandos com necessidades educacionais especiais, conforme consta

do seu Art.5º.

Em consonância com estes instrumentos legais já citados, em 2003, a

Secretaria da Educação Especial/MEC elaborou documentos norteadores da

prática educacional para alunos com necessidades educacionais especiais

que mantiveram a mesma definição de necessidades educacionais especiais,

apresentada antes nos Parâmetros Curriculares Nacionais – Adaptações

Curriculares de 1999.

No Brasil, a importação deturpada de conceitos trouxe conseqüências

lesivas para a implementação do modelo educacional inclusivo. Como este

modelo de educação foi vinculado ao atendimento na educação especial, na

prática, se verificou que a mudança efetivamente observada no cotidiano das

escolas em decorrência da inclusão, foi o crescente encaminhamento e

atendimento generalizado de alunos com dificuldades de aprendizagem

provocadas por fatores conhecidos ou não, pelos serviços especializados.

Mas a mudança do paradigma da escola, da superação do modelo

homogeneizador de ensino, na prática não aconteceu. O foco manteve-se na

ampliação do oferecimento do serviço educacional especializado, atingindo

um sensível percentual de alunos, agora denominados alunos com

necessidades educacionais especiais, contrariando radicalmente a lógica da

diversidade.

Assim, em nome da inclusão, um tipo de alunado que anteriormente

não era notado dentro da escola, repentinamente passou a compartilhar dos

diversos tipos de estigmatização que atingem os alunos com deficiência. A

maneira brasileira de compreender e enfrentar a questão da educação para

todos é muito diferente do que propõe, de fato, uma educação inclusiva, uma

modalidade de educação que reconhece a diversidade do alunado e é

orientada pela emancipação. Nesta direção, a escola deve adaptar-se às

características específicas de sua clientela, oferecendo respostas próprias e

adequadas que garantam a aprendizagem de qualquer aluno, não obstante a

existência de causas que eventualmente o levariam a apresentar problemas

de desempenho no processo de escolarização.

Tentando reverter as consequências da importação a-crítica do

conceito de necessidades educacionais especiais, a partir de 2008, novos

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reconsiderações a respeito da clientela da educação especial que tem direito

ao Atendimento Educacional Especializado. No entanto, o esforço pelo

redirecionamento da política educacional não foi acompanhado da devida e

necessária correção acerca da recepção e compreensão do conceito de

inclusão.

No contexto da educação brasileira, esvaziadas de sentido, inclusão, sociedade inclusiva, escola inclusiva tornam-se apenas palavras utilizadas

para compor discursos políticos novos, em torno dos quais são mantidas

antigas práticas. Permanecem intactas nas escolas, e em alguns casos, como

foi demonstrado logo acima, até mesmo renovadas e ampliadas as práticas

discriminatórias de inferiorização, decorrentes da lógica da homogeneização,

orientação esta que não reconhece a validade de diferenças e peculiaridades

individuais. Na forma como se encontra, o sistema educacional pouco

contribui para a universalização do acesso aos direitos fundamentais, que

permitiriam a participação política dos cidadãos, tornando-se um instrumento

de políticas públicas às avessas.

Nos discursos educacionais brasileiros com freqüência se observa que

a palavra inclusão tem sido pronunciada de modo a designar a situação

contrária à exclusão. Então, inclusão social consistiria em todas as tentativas,

seja do Estado ou de outros agentes, de promover a superação das situações

de exclusão social, que seriam todas as supostas formas e mecanismos que

impediriam determinadas pessoas de fazer parte da sociedade.

Nesse caso, aplicando-se a regra acima, quaisquer pessoas em

situação de privação econômica ou que seja vitima de preconceitos, como os

pobres, homossexuais, negros, mulheres, velhos, índios, deficientes, entre

outros, todos eles estariam fora da sociedade, e precisariam ser colocados

para dentro, incluídos, como gesto de humanidade e de respeito aos direitos

humanos.

Por intermédio da análise feita por Martins (2003), nota-se o erro de

atribuir a uma suposta ação de exclusão a causa para todas as formas de

privação de direitos que ocorre na sociedade brasileira. Segundo Martins, o

ato de excluir implica a retirada de alguém de dentro de uma sociedade, o

que é possível apenas pelo banimento. De fato, a expressão exclusão indica

um fenômeno contrário ao da expulsão. Indica um processo de inclusão

perversa, na qual pessoas com determinadas características são

propositadamente inferiorizadas nas trocas sociais para em seguida serem

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exploração deixaram de fazer parte da sociedade; ao contrário, as pessoas

somente podem ser inferiorizadas e exploradas na condição de integradas à

sociedade.

Outra distorção no emprego das palavras inclusão e reconhecimento,

e dos seus respectivos conceitos, é aquela provocada pela vinculação entre

grupo social (étnico) e grupo estatístico. Grupos étnicos são constituídos

mediante a vinculação automotivada de pessoas que se identificam com

determinada cultura ou modo de vida. Grupos estatísticos, por sua vez, são

coleções de indivíduos montadas por quem interpreta dados demográficos, e

dessa forma classifica as pessoas mediante certas características comuns

que os dados indicam. É o caso, por exemplo, dos idosos, das crianças, dos

deficientes, dos encarcerados etc. Mas nem todo grupo estatístico é um grupo

social ou étnico.

Daí o problema de pretender políticas ou práticas de inclusão

exclusivas para deficientes. A categoria deficientes é uma categoria

estatística, e não expressa qualquer tipo de identidade cultural. Por isso a

deficiência não pode ser evocada para nomear uma cultura cuja

especificidade deve ser reconhecida; ela só pode ser empregada para

nomear características físicas e/ou intelectuais de indivíduos que podem

vincular-se a várias referências culturais.

Além disso, o esforço pela caracterização da peculiaridade,

necessário para justificar as políticas públicas de inclusão, pode dificultar a

superação dos preconceitos aplicados na discriminação de deficientes, a

medida que a justificativa para a inclusão incide sobre a demonstração de

diferenças culturais que precisam ser respeitadas. Nesse caso, pessoas com

deficiência podem vir a sofrer um preconceito ao contrário, mas igualmente

discriminador. Deficientes podem ser considerados como irremediavelmente

diferentes, um outro tipo de gente, dotados de tamanha peculiaridade a ponto

de não poderem mais ser tratados dentro da condição de igualdade referente

às pessoas comuns.

Mas existe um outro aspecto da problemática recepção dos conceitos

de inclusão e reconhecimento que precisa ser evidenciado. Trata-se das

limitações empíricas da abrangência dos respectivos conceitos, que estão

presentes na formulação original, e que somente a introdução deles na

política educacional brasileira permite que sejam observadas.

Conforme já fora demonstrado, os conceitos originais de inclusão e

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meio do princípio da diversidade numa sociedade multicultural. A

peculiaridade do caso brasileiro evidencia os limites das políticas de inclusão,

porque expõem os limites das referências e dos instrumentos do direito

racional para a composição do conceito de diversidade. Na argumentação de

Habermas a diversidade presente nas teorias do reconhecimento é um

objetivo possível de ser atingido quando todos os integrantes de uma

sociedade tornam-se efetivamente recobertos pelos direitos fundamentais, e

se tornam atores políticos atuando sob a regulação do direito racional.

No entanto, as concepções de reconhecimento foram construídas

considerando a diversidade observada em contextos sociais muito

específicos, nos quais as peculiaridades de modos de viver e de pensar de

alguma forma combinam com a subjetividade instituída pela modernidade

ocidental. Por mais que possam parecer diferentes de início, os modos de

vida e as visões de mundo presentes nos contextos cobertos pelas teorias do

reconhecimento pertencem a um mesmo modelo de sociedade. Todos eles

são compostos por meio dos princípios da individualidade, igualdade,

liberdade, racionalidade e historicidade, mediante os quais também se

constitui o direito racional.

No caso brasileiro, se as diferenças de fato forem todas elas

consideradas em suas reais dimensões, a construção de uma sociedade apta

à diversidade no Brasil é uma tarefa muito mais complexa que aquela a ser

realizada na Europa, nos Estados Unidos ou no Canadá. Isto porque existem

no Brasil culturas não modernas, que ainda orientam modos de viver e pensar

em nada referentes aqueles constituídos pela modernidade ocidental.

Caso se pretenda aplicar o modelo de diversidade, é preciso

reconhecer que a diversidade brasileira seria resultante de uma

multiculturalidade na qual se encontram referências simbólicas e sociais as

mais discrepantes possíveis, quadro este que abrange desde diferentes

modos de vida modernos, e se estende a formas de sociedade constituídas

no período pré-colombiano. No Brasil, apesar da ação contínua de forças

contrárias, sobrevivem 817 mil indígenas, que se agrupam em 220 povos e

falam 180 idiomas diferentes. Não bastasse isto, a Fundação Nacional do

Índio - FUNAI, estima que haja 82 povos indígenas que vivem isolados e não

são conhecidos pela sociedade nacional.

Em que pesem as distorções já mencionadas, o contexto brasileiro

serve para demonstrar os limites do conceito de diversidade na forma como

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construção de uma sociedade apta à diversidade pode ser atingida mediante

a efetivação e universalização dos direitos fundamentais. Mas quando se

observa a complexidade do caso brasileiro, de início há que se questionar a

capacidade do direito racional ocidental em ser universal, quer dizer, em ser

plástico o suficiente para conseguir regular relações entre pessoas vinculadas

a modos de pensar e viver totalmente diferentes, ou mesmo conflitantes,

entre si. O direito racional, embora seja eficiente para regular relações e

proporcionar o governo da sociedade na modernidade, consiste num sistema

de regras construído mediante um sistema simbólico, em torno do qual se

estabelece a unicidade ético-valorativa característica do modo de vida na

civilização ocidental.

Nesse sentido, a construção de uma sociedade apta à diversidade no

Brasil dependeria, logo de início, da possibilidade de elaboração de

regulações que sejam extensas o suficiente para abranger com eficácia

relações sociais realizadas dentro de um plano radical de interculturalidade.

Se todas as culturas que designam modos de viver e pensar forem de fato

reconhecidas como legítimas, conforme determina o preceito da diversidade,

a dificuldade se torna ainda maior quando se pretende criar um sistema de

regras para relações sociais que concilie referências simbólicas modernas

ocidentais e não modernas pré-colombianas.

Ao questionamento da pretensão de universalidade do direito

ocidental, segue um outro, que coloca sob dúvidas a continuidade política

educacional inclusiva no Brasil, na hipótese de que ela se mantenha. Se a

inclusão for de fato o objetivo da política educacional atual, mesmo

considerando as distorções existentes na elaboração do conceito brasileiro,

para atingir o plano da diversidade, seria necessário construir um sistema

educacional suficientemente universal para abranger e conciliar todas as

diferenças presentes na sociedade. A concretização deste ideal dependeria

da capacidade de construir escolas coerentes com propostas pedagógicas e

administrativas elaboradas mediante os parâmetros da diversidade no

contexto de uma sociedade multicultural.

Diante disto, um outro horizonte de problemas se torna visível. A

começar pela linguagem. Num espectro de mais de 200 idiomas possíveis,

qual deles as pessoas usariam para se comunicar, considerando a exigências

de universalidade próprias da dimensão da diversidade?

Na perspectiva de uma escola multicultural e coerente com o plano da

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prescritos os currículos e os conteúdos a serem ensinados. Então, o que seria

o saber escolar se fosse definido na perspectiva da diversidade? Nesta

escola, os atores pré-existentes ainda se nomeariam alunos e professores, e

em torno deles ainda ocorreria os processos de ensino e de aprendizagem?

Em síntese, como deveriam ser os sujeitos, as relações e as regulações que

compõem o cotidiano de uma instituição educacional concebida de forma

coerente com os princípios ético-valorativos da diversidade numa sociedade

multicultural de fato?

Considerações finais

Diante de tudo que foi exposto, pode-se afirmar que não é possível

atingir o plano da diversidade de fato enquanto as instituições educacionais

permanecerem presas à forma organizacional convencional, que é orientada

pela homogeneização de pessoas e hierarquização de saberes, de relações e

agentes. Na escola convencional, um tipo de saber é apresentado como único

válido, a ser ensinado por um único agente, por meio de uma relação de

poder vertical e unilateral, numa situação em que todos os alunos devem

aprender o mesmo conteúdo, ao mesmo tempo, do mesmo modo.

O caso brasileiro permite observar os limites ainda estreitos da

abrangência do conceito de diversidade e dos vícios de homogeneização

cultural nele existentes, mesmo em sua concepção original. E as mesmas

limitações também incidem sobre os conceitos de inclusão e reconhecimento.

Para que sejam utilizados em políticas públicas dirigidas à ampliação das

condições fáticas e concretas do exercício da igualdade e liberdade entre

indivíduos na sociedade, é preciso que tais conceitos sejam submetidos a

rigorosos exames críticos. E isto somente é possível quando os conceitos são

confrontados com situações reais e radicais de diversidade, nas quais se

pode testar o potencial de emancipação neles contido.

Referências

BRASIL. Lei 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 1996.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Adaptações Curriculares / Secretaria de Educação Fundamental. Secretaria de Educação Especial. Brasília: MEC/ SEF/ SEESP, 1999.

(14)

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. CEB. Parecer n.17, de 03 de julho de 2001. Estabelece Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica. Brasília, DF, 2001b.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Saberes e práticas da inclusão. Brasília, DF, 2003.

HABERMAS, J. A constelação nacional. Ensaios políticos. São Paulo : Littera Mundi, 2001.

_______ A inclusão do outro. Estudos de teoria política. São Paulo : Loyola, 2002.

HONNETH, A. Luta por reconhecimento. A gramática moral dos conflitos

sociais. 1 ed. São Paulo : Editora 34, 2003.

MARTINS, J. S. Exclusão social e a nova desigualdade. 2 ed. São Paulo :

Paulus, 2003.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. UNESCO. Declaração de Salamanca e linha de ação sobre necessidades educativas especiais. Brasília: M.J.; CORDE, 1994.

Referências

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