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A ENGENHEIRA
UM ESTUDO EMPiRICO
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DE ADMINISTRAC~O
DE EMPRESAS
DE S~O PAULO
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M~RCIA
TERRA DA SILVA
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UM ESTUDO
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Escola de Admlnlslraçao ~ . ~
de Empresas de SAo Paulo •..~ "; Biblioteca ~-"'}."~..,.i/'
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apresentada
ao Curso
~
de P6s-Graduaçio
da EAESP/FGV
~rea dE Concenlraçio~
Teoria do
Comportamento
Organizacional.
como requisito
para obtençâo
Me
•• q.--,
t (lulo de mestre
em Administraçic.
.~
íNDICE
PARTE I - INTRODUCiO
2 - A Escola Politécnica de sio Paulo
PARTE II - AS PIONEIRAS
i - As Quatrocentonas
2 - As Primoginitas
3 .-. A Empl'·(·:~f.?<h·i,:\
PARTE 111 - CONCLUSXO
-,
,,;1.
"
",
PARTE I - INTRODUÇ~O
Na primeira metade deste século~ a sociedade presenciou
uma mudan,a profunda no papel social desempenhado pela mulher.
Entre os direitos conquistadós ~elas mulheres nesse perrodo~
fi-trada em profissSes at~ entio masculinas.
No final do s~culo passado, as mulheres ainda eram
for-malmenteproibidas de frequentar alguns cursos, como Medicina
[1]. curso em que, em 1971. 24% dos alunos eram mulheres, de
"acordo com o Quadro I. Verificamos pelos dados desse Quadro [2J,
que o acesso da mulher ~ Universidade foi facilitado de uma
ma--universit~ria e atingiram 40% em 1971. No entanto, persiste, ou
a concentraçio de mulheres em algumas C ,':\1" I" (~ iI"as,
'como Letras, Ciincias Humanas e Filosofia, onde a participaçio
'feminina pa~sade 67% para 77%. e Servi,o Social. que passa de
77% para 95%. Enfermagem se mantém com uma pcpula,So
essenciaI-:mf.~ntf?feminin.:\. com ,1 P()I"c(",nt:.:\g(~~md(,;: muLhere s varl and o d e 99%
p(':\'-ra 94%. Por outro lado, algumas ~reas como Engenharia e Agronomia
f &', , t '"
conservam-se re ra,arlas a a:uaçao da mu lIH'!:I" • c01'1t:f'.:\!;;t:,':\1'1do com
aquelas de alta participa,io feminina - Engenharia,
principalmen-te. apresenta porcentagens extremamente baixas e nenhum sinal de
crescimento (as porcentagens de mulheres entre seus alunos s ao",
QUADRO I - Porcentagem de mulheres entre os alunos matriculados no
in{cio do ano - Ensino Superior - Brasilu
('"~ngen1arla! . UU"UUUU"uuuuuuuu
•••• •••••••••••• •••• '••••••••••••••" .••••••••••••,••••••••••••o'" •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• lO •••••• , ••••••••••• o,,, •••• " •• _ •••••••••••••• "'0 .", "" OI ••••••• "••••••••••••••••••••••••• , ••••••••••••••••••• ,•••••••••••••••• , ••••••• "" ••••••••••••••• 0 ._•••••
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Ciências EconBmicas e
nistraçio de Empresas
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) ( !~:i6:1...::l97)----_._---FONTE de dados brutos~ MEC" Serviço de Estat {st ica da Educaçâo e
Cul-tura. Sinopse Estat{stica do Ensino Superior
(j.(?~;:j6. 1.961., 3,(166, j.(?71.), in B<·:\I"·I'·<:)~:;o>C .. (,.: 1'1(·:·:1....
10. G .. "O Acesso da Mulher ao Ensino Superior
Brasileiro" .. Cadernos de Pesquisa n2 :1.5,DEZ/75
iu Dos cursos classificados em uFilosofia. Ciências E Letras". s50
apresentadas duas categorias:
(a) F(sica, Qu{mica. Matemática e Biologiau
Cb) Ciências Sociais. Geografia. Histdria. Psicologia. Filosofia,
Letras e Pedagogia ..
2. Dos demais cursos. sio apresentados os que tiveram mais de 1. ••i00
matriculados em 1.956 e/ou mais de 2u200 em i971...
3 .. Os cursos que nio satisfazem o critério acima sio incluidos no
to-tal mas n50 apresentados isoladamente ..
4u A categoria "Comunicaç~es" em 1.956 e i96:1. inclui apenas o curso de
.Jor: n .:\I i ~:;mo ..
3
Outras carreiras~ como Direito, Arquitetura e
Odontolo-gia~ apesar de terem uma baixa porcentagem de mulheres entre seus
alunos (menor que 50%) apresentam um crescimento constante dessa
taxa de 1956 até 1971. Direito, cresce de 12% par'a 25%~
Arquit~-tura, passa de 14% para 36%~ e Odontologia, vai de 17% para 35%.
Se essa tendincia tiver se mantido apds 1971, podemos super que
esses cursos equilibraram as porcentagens de homens e mulheres
entre seus alunos, como aconteceu com o curso de Farm~cia (passou
de 34% para 50% em 1971).
Utilizando a conceituaçio de Fer'retti [3], podemos
agru-par essas profissies em ufemininasu: Letras, Ciências Humanas e
Filosofia, Servi~o Social e Enfermagem, umasculinasu [4]n
Enge-nharia. Agronomia, Veterin~ria e Ciências Cont'beis e
Administra-çio de Empresas; e uneutrasN~ Direito, Arquitetura, Odontologia,
Farm'cia. F{sica, Qu{mica, Matem~tica, Biologia, Comunica~ies e
Educaçio F{sica. Evidentemente, esse nio é um quadro est~tico.
Como vimos, Direito, Arquitetura e Odontologia sio profissies em
que a porcentagem de mulheres entre seus alunos dobra entr'e 1956
e 1971, permitindo a hipdtese de que hoje sejam cursos uneutrosu•
Esse movimento de profissies umasculinasu para uneutrasu p de
-NneutrasN para ufemininasu [5] pode ser explicado pela expansio
da participa~io das mulheres nas Universidades de maneira geral,
q~e se d' nesse per rodo. No entanto, esse quadro ser' sempre
di-nimico. ou por pressies externas, como foi a entr'ada das mulher'es
nas Universidades, ou porque novos cursos sio criados ou
elimina-dos. gerando acomodaçies das ~reas, ou entio porque profissies
antigas sofrem mudanças internas que as tornam mais atraentes
4
Quadro 11 - Porcentagem de Mulheres entre os candidatos
ao vestibular 1975
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(2) MG C~)MA
(4) RS (5)---Engf~nha"· ia
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46 45 47 59 45---(1) Sio Paulo: Cesc8m, Cescea ·e Mapofei
(2) Rio de Janeiro: Cesgranrio
(3) Minas Geraisn UFMG
(4) Maranhão: Fund .. Un .. do MaranhSo
(5) Rio Grande do Suln UFRGS unificado
Fonte: Barroso, Carmen- I...dcia de Melo e Melo, Guiomar Namo de
"O
acesso da Mulher no Ensino Superior Brasileiro", inPor outro lado~ ao examinarmos no Guadro 11 as
POFcenta-gens de candidatas ao vestibular em 1975r verificamos que as
pre-ferincias se repetem em aio Paulor Rio de Janeiro7 Minas Gerais,
Maranhio e Rio Grande do Sul com poucas exce~iesn as carreiras de
maior participa~io feminina em um Estado sio em geral modalidades
femininas nos outros Estados; Engenharia7 Agronomia e
Administr'a-~io de Empresas mantêm-se com uma porcentagem de candidatas muito
baixa em todos os Estados. Mar'anhio é o ~nico Estado que
apresen-ta maiores diferen~as entre as porcentagensr tanto na
participa-çio feminina geral, maior que a dos outros Estados (59%). como
nas porcentagens de mulheres em alguns cursos (como em Matemática
- 20%). Barroso [6] explica essa discrepincia pela no
'Estado, de alguns cursos de alta participa~io masculina
(Engenha-'ria, Agronomia e Administra~io)~ o que pode provocar tanto a
eva-'sio de alunos para outras regiies quanto o ingresso daqueles que
'nio podem estudar em outro Estado em carreiras quer de outra
ma-:neira. seriam uma segunda op~io.
A uniformidade da partieipa~io feminina entre várias
r'e-giies dt.pares e a coincidincia entre esses rndices e a
classifi-dados médios do Brasil, nos leva a crer numa determina~io pelo
.sexo das escolhas voeacionaisr que transforma ear'~eiras como
En-fermagem, Psicologia e Letras em áreas femininas e carreiras como
Engenharia. Agronomia e Administraçio em áreas masculinas [7J.
Nessa pesquisa pretendemos avaliar o ingresso de mulhe- ~
r'es em engenharia pressupondo que estas receberam dur'ante o
pe-rrodo pré-universitário uma série de influências que as
6
entrada de mulheres na carreira se dá muito tarde (em 1971. a
porcentagem de mulheres matriculadas em engenharia er"a de 3%. de
acordo com o Quadro
I).
possibil itando o nosso acompanhamento da, !r."
nossa hipdtese que, no ex€rcrcio da profissio, essas mulheres se
concentram em algumas áreas, reproduzindo inter"namente ~
engenha-'ria a divisio em fun~Bes "mais ad~quadas" e "menos adequadas" ~
,atua~io feminina que encontramos na divisioem profissBes
umascu-'linas", "femininas" e "neutras".
Para atingirmos esses objetivos. deveremos avaliar as
biografi~s de algumas engenheiras procurando verificar como se
di
a entrada na profissiof o desenvolvimento da carreira e a
compa-tibiliza~io da atividade profissional com a vida familiar.
A
fim de homogeneizar a popula~io pesquisada. 1i m i t: amo so estudo emprrico ~ Escola Pol itécnica da USP, Já que a
generali-za~io dos dados poderia impedir uma maior profundidade de
análi-se. Por ser a escola mais ant iga do estado, a Politécnica tem uma
'histdria suficientemente longa para permit ir o acompanhamento da
'evolu~io da profissio atrav~s de seus alunos. Estamos conscientes
"que a 1imitaçio dos dadas vai nos trazer viés ~ análise, pois a
'populaçio dessa Escola tem várias caracterrsticas espec{ficas. Em
sempl"(-;~
7
1 - Engenharia: profissio masculina
Por que determinadas fun,aes assumem o ginero masculino.
enquanto outras aparecem como femininas?
Para Sullerot [8J, o que separa uma carreira feminina de
uma masc~lina
é
o prestrgio p a remuneraçio que acompanham o~exerc(cio da PFofissio. e nio o saber e habilidade exigidos pela
NNá m(!·~did ,':\em qI.I.('~ uma PI"of ismí~c)pI" OP or c:i01'1,:\. !:iimult,:\1'1(;~a....
mente, riqueza e prest(gio, dificilmente ela ~ concedida ~s
mu-Iheres. Mas. se esta profissio se degrada, mesmo que o exercrcio
'cotidiano se complique e dificulte, e que a bagagem de saber
ne-ce!,i!,i
á
r: i a para ,\\ (?~Xf::'" C E: I" sej a c ad ,;\ ve ~:~1\1,':\ili> impC) I"t
an t:€.~, ent
~\o• aSem negar a evidincia dos dados apresentados pela
pes-quisadori (também nos trabalhos de Blay (1978) encontramos dados
sobre a r~alidade brasileira) notamos que mu.ito pouco tem sido
'~scrito a respeito de como a mulher participa dessa trama.
Recen-·temente, Colette Dowling recebe o rep~dio das feministas ao
cons--tatar pela primeira vez que as ~ulhe~es buscam uma rela,io de
de-;~.ndincia,, afetiva ou profissional, enio sio impelidas a ela por
'demos explicar porque algumas profissaes sio consideradas femini-'
-nas, como enfermeiras ou secretárias, profissaes em que os papéis;
desempenhados pelas mulher'es mio essencialmente de dependincia ~s
pl"ofiss(")(,:':f:imasculinas do médico ou chf.~fe" Ní\\o t:(,:~mos c on dlc âe s
8
ficar essa situa~So nas demais profiss~es. No entanto~
propomo-n o s a hu s c ar as d e
t
erm in ante s de) !3(:}nf:~I"Od a PI"C)fism~~o d e en s enh •.:\····ria nio s6 na sua evoluçio quanto aos aspectos de degrada~io
pro-p a ).ad o s P<:11" Sull ("~I"o+ , I\H:\~;; FW inc;ip •.:\1men t:f:~ IH:Ui; c<U' ac t:E-:~Y'í~;;t: ic aS
in·-trínsecas ~s tarefas desempenhada~. Como caracterlsticas da
tare-"fa estamom considerfundo a habilidade e capacidade exigida pela
-tarefay o fato de ser rotineira ou nio, o domínio que se tem
so-:bfeó objeto trabalhado e a rela~io de domina,io criada entre as
-pessoas que partilham da mesma tarefa.
Invemtigando a evolu~io da Engenharia. ressaltamos e
si-tuamos n6 tempo alguns pontos que podem expl icar o ginero da
pro-começary sua origem militar pode ter influenciado a im':\fJf:~mque
guarda at~ hoje. De fato. o ensino de Engenharia no Brasil in i····
'CiCH1'-~:}ecom du;;\se s c o la a miLitare sa a Emcola d€~ I~y·tilh'":\r·i<:\e A,,.····
quit:etura Militar na Bahia. fundada em 1696. e a Academia Real
'Militar, fundada em 1811. no Rio de Janeiro. Somente em 1855, os
:civis tivéram fucesmo ao enmino de Engenharia. com o demdobramento
-da Academia Real Militar na Escola Central (mais tarde. Escola
:Polit:~(~nica do Rio d e •Janeiro ) (-? n a Ac,,\(h:~llli,:\Milibu'" Até o fin,~l
-do século, foram fundadas outras escolas civis. como a Escola
de-Minas de Ouro Preto (1876). Escola Politécnica de SSo Paulo
'(1894) e a Escola de Engenharia Mackenzie (1895) [10J. Ainda
ho--ji, no entanto, encontramos escolas mil itares. como o ITA,
aber-tas momente para homens.
Assumir a modalidade militar significa uma recusa formal
mili-9
tar? significa também a pr~paraçio de homens para postos de
co-mando. como oficiais. Sabemos que. no século XIX. as funç~es para
as quais se destinavam os engenheiros consistiam de empreitadas
militares e obras p~blicas (civis)~ como define a Carta Régia de
D. Joio VI de 1810 - "o ~til emprego de dirigir objetos
adminis-trativos de Minas. de Caminhos. Portos. Canais. Pontes e
Cal~a--das" é fun~io dos "Oficiais de artiIhariap engenhariap gedgrafos
e topdgrafos". [11J Como veremos adiante~ a car'acter{st ica de
co-'mando de trabalhadores permaneceu na ~ngenharia civil mesmo
quan-do su~ origem militar estava esquecida. Ressaltamos que se cria
assim um pala do~inante na rela~io de trabalho. polo donde as
mu-lheres~ em geral. sio afastadas.
Com o crescimento das cidades. alargou-se o mercado de
trabalho do engenheiro. Em Sio Paulo~ a partir do final do século
passado, a r'pida urbanizaçio exigia trabalho de infraestrutura
para ilumina~io~ transporte. distribui~io de gásy redes de água e
etgoto. Por outro lado. instalavam-se ind~strias como a ind~stria
-qu{mica, elétrica e mecinica cujas atividades de planeJamento~
instala~io e operaçio foram posteriormente apropriadas por
enge-nheiros. Dessa maneira. seu campo de atuaçio é ampliado~
acompa-nhando a expansio eeonBmica e o desenvolvimento tecnol6gico da
época. Se compararmos os dois tipos de trabalho~ os relacionados
'co~ a urbaniza~io e os relacionados com a industr'ializa~ior
nota-mos que Mos primeiros. a implanta~io da infraestrutura se dá "a
céu aberto". enquanto que nos ~ltimos o trabalho na fábrica é. em
'geral. intra-muros. Nos trabalhos de urbanizaçio. distinguimos
ainda uma etapa de planejamento e administra~io. passlvel de se
exi-10
gem trabalho no local. Essa diferen~a é significat iva quando
es-tudamos o trabalho das mulheres? que raramente atuam no pr'imeiro
tipo de trabalho. No in{cio da urbaniza~io de Sio Paulo, a
admi-nistraçâo estadual ou municipal contr'atava consultor'es para
rea-lizar o planejamento. e empregava (poucos) engenheiros menos
co-nhecidos para a manutençâo das instalaç~es. sendo raro, portanto.
encontrar engenheiros trabalhando para o Estado em gabinetes
:[12J.
J~
o trabalho relacionado com a industrial izaçâo -pla-nejamento e manuten~iD de ind~strias - nio foi muito aplicado
pe-los engenheiros no começo do século. Apesar de já existir a
moda-'lidade Engenharia Industrial, sio poucos os profissionais que se
:dedicaram a essa área. Ressaltamos que, nessa época. a ind~stria
começava a se ~esenvolver, existindo pouco espaço para a atua~io
da engenheiro nessa ~rea. Como escreve R~lY Leme~ "Em um paes de
-economia primária, temos apenas a Engenharia de Construç50 e a de
~Manutençâo. Barragens, estradas p pontes, que nio podem ser'
im-·portadas sio construidas no próprio pa(s." [13]
Mais tarde. por volta da década d* 50, uma-nova fase de
transi~io se apresenta. Com a chegada de ind~strias de capital
-e~trangeiro e com a maior participa~io, no parque industrial, de
'seteres mais "modernos" de produ,io (ind~strias de tecnologia
·mais sofisticada, como as ind~strias qu{mica, metal~rgica e
meci--nica), expande-se o mercado de trabalho do engenheiro nas
ind~s--trias, em atividades de racionaliza~io da produ~io e de
adminis-traçio. [143 Recentemente. novas funçaes surgiram. sendo ocupadas
por engenheiros, entre outr'os profissionais (por exemplo.
u,
Hoje o trabalho ~o engenheiro se reduz, o mais das
vi-zes, a posi~3es de assalariado, com baixo poder de decisão e sem
oportunidades de comando. Se por um lado a remunera,ão e
prest{-9io cairam. por outro lado. as atividades da profissão assim como
as rela,3es de trabalho tambcim mudaram: atravcis da divisão do
. t:r'(':\IH:\1tio do en fH:!nhf.'~ir' o c r io1.1... S(,~ um (-?xérc i t:o d (~ Ue )·wc ut:OI" f:~~;iU q1J,f.~
"realizam um trabalho semelhante ao de outros tcicnicos isolados do
podeI" n
(.~/'n~'1.i s amo s <:\qu i <'~ ab.l.(:\(~~\O d a 1l1lJ.IIHi~l" n o c<:\IllPo, '1.e van bUle:l o
as ~reas'em que me concentram, examinando o tipo de atividade que
d e!i;(::~nVC) 1vem , df.~acor d o com ,,\s ccu'acter: {!i;t: ic as de 1'-emun 0~1"<:\ç:io.
'cargo, posi,io hierirquica na empresa, projeção externa
à
empre-sa, necessidade de atitudes de comando, assim como a
12
2 - A Escola Politécnica de S~o Paulo
2.1 - Ambientep alunos e professores
A Escola Politécnica de Sio Paulo foi fundada em agasto
de 1893~ iniciando suas atividades em fevereiro de 1894p gra~as
aosesforçosy principalmentey de Antonio Francisco de Paula
Sou-zay na .poca deputado estadual. Até aquela data~ existiam mais
duas escolas civis de engenharia no Brasil: a Politécnica do Rio
de Janeiro (antiga Escola Central - 1810) e a Escola de Minas de
'Ouro Pretop de 1875.
A fundaçio da Escola Polit~cnica de aio Paulo coincide
com um mbmento de grande expansio econ8mica no Estado - é a época
~urea do cafép dos primeiros investimentos em ind~strias p da
'constru~io de estradas de ~erro. ~ também no final do século
pas-sadoque se acentua o crescimento da cidade de sio Paulo. V~rios
-autores expli~a~ o surgimento da Escola Politécnica nessa época
!tomo uma for~a de suprir a necessidade de técnicos que
viabiliza-riam essa expansio econ8mica. Como observa Santos:
UNesse contexto (industrializa~io de sio Paulo em ritmo
acelerado e rápida expansio urbana)p surgiu a consci~ncia de se
criar uma escola de engenharia quep através do conhecimento das
ci~ncias puras e aplicadas. proporcionasse a solu~io dos
proble-,mas t.cnicos que a cidade vinha sofrendo e as s6lidas bases para
a industrializa~io paulista e brasileirau
• E15J
Esta fundamenta~io está baseada nios6 nos dados
13
da Escola. Afirmava Paula Souza, ao defender o projeto de cria~io
da escola na Cimara dos Deputados:
"V.Excia. sabe que as principaes difficuldades com que
hoje luctamos sio em grande parte devidas ~ falta de pessoal que
tenha conhecimentos praticas necess~rios das innumeras industrias
que nesta epoca de progresso surgem espontaneamente no nosso
Es-tado". [16]
Santos vi também uma razio pclrtica para a cria~io da
Escola Politicnica. Segundo ela?
"u ••
se o Império se alimentou de uma burocracia calcadana tradi~io de bacharéis, a Rep~blica investiu contra esse
lega-dar preocupando-se em formar homens pr~ticosF dotados de esp{rito
Ora. ( ••• ) a iniciativa do governo paulista. ao fundar a
Escola Politicnicar constituiu-se nio
s6
numa verdadeira campanha'pela cultura cienl{fica e tecnoldsica. mas também numa das pe~as
b~sicas para implantaçio e cansaI ida~io do pensamento republ icano
Er realmente. a Politicnica constituiu-se em um foro de
divulga~io dos ideais republicanos, nio ~d pelo cient jficisillo de
seus estudos, mas principalmente pela coincidincia entre as
idiias de maior parte dos professores e os ideais republicanos.
!Paula Souza foi um dos professores que muito lutou pela
Proclama--çio da Rep~bl ica, como lembrou o Deputado Veiga Miranda no
dis-curso in memor'ia de Paula Souza~
"Foi assim que, quando se promoviam os estudas da
Estv'a-da de Ferro Ituana. em uma reuniio para tomar conhecimento dos
op-14
portunidade para congregar em Itu os precursore. da propaganda
r'epublicana. na celebre Assembléa que se chamou
era frequente dar-se o caso de interr'omper uma
pre-lec,io technica para passar a exhorta,~es civicas •••" [18l
Do ponto de vista econ8mico e polrtico, a funda~io da
Escola Politécnica parece ter sido ideal para o mom~nto que
atra-vessava. No entanto, devemos levar em conta tamb~m a clientela
que primeiro se valeu da criaçio da escola~ os filhos da classe
'dominante de Sio Paulo que, com ela, ganhavam uma op,io ~
Facul-dade de Direito do Largo de Sio Francisco. Até aquela época. para
'se estudar engenharia, era necessário mudar-se para o Rio de
Ja-,neiro ou para o exterior. como coloca o deputado Alfy'edo Pujol em
um discurso antes da funda,io da escola~
"Nio
é
menos verdade que esta escola d~ engenhar'ia civilem S.Paulo, si nio
é
uma necessidade palpitante para o Estadose-rá incontestavelmente um grande melhoy'amento. porque os filhos
-desta terra nio precisaria sujeitar-se ao clima do Rio de Janeiro
'para fazer seu curso de engenharia." [19]
Nio podemos esquecer que. devido. raridade das
opor'tu-nidades de escolariza,io no final do século passado, o diploma de
n{vel superior alcançava uma valorizaçio comparável aos t{tulos
de nobreza no Império. Afinal. havia pOuqu(ssimas escolas no
Bra-sil e nelas se agrupavam alguns membros da classe dirigente
na-cional, enquanto outros part iam para o que se configllrava como a
elite da profissio. indo estudar na Europa.
~ nesse contexto que a Escola Politécnica de Sio Paulo,
ss
entre seus professores e alunos uma fra~io da classe dirigente
PI"CI$H'(:'!!:ISi!:lt:a~como Paul,:\.Sou;:.~a~Ramo s d e A:':~fi:v(:~do0: Anha i,"1\M(:~ll!:1.
entre os professores, e Roberto Simons.n e Luiz Augusto de
Perei-ra Queiroz~ entre os alunos.
Esses primeiros engenheiros ligados ~ institui~io
tive-ram grande importincia para a imagem atribuida ~ Escola
Politéc-nica.
O
nome da escola passa a ser associado ~s posi~ies ocupadaspor seus alunos, ~s realiza~ies na profissio. aos nomes de suas
f,1Il1í1ia s ,
Er:-.!:laim,"1\g0:m,:\inda P«(o:I"dlJ.l",':\V,":\qu an d o as PI"i!IH:: i1"(,Hi 11\1.I.11H'::1"0:I,;
entr~ram na escola~ embora de maneira mais difusa. Na década de
40. quando chegaram as primeiras alunas~ j~ existiam mais escolas
-em sio Paulo e mais vagas na Politécnica. A média de alunos
for-mados por ano chegava a 150 na década de 50. deixando longe a
mé-dia de 20 alunos por ano que vigorava at~ 1920. Ainda era alta a
orl s em s oc lal do!:\aluno s d a Po I l t écn ic;a (vc\I"i,:\!!.>en
t
rev ist
ad a s ,-formadas nas décadas de 40 e 50. frisaram os nomes de colegas que
sio conhecidos como empresários ou por ser'em da alta burocracia
-estatal) e muito disputadas as vagas para o curso. Afil1al~ cursar
'a Politécnica. nessa época. podia significar a garantia de um bom
2.2 - As polit~cnicas
Da inaugura~io da Escola Polit~cnica de Sio Pauloy em
1894~ at~ 1980, ~ltimo ano pesquisadoy formaram-se 10.903
enge-n h (.;~ir'o sy d os q u a is ~,:~j,i. <;:1"am mu 1hE-:!I"(,~s;..A par:t ic ipc':\ç:\\\0 fl!.~min ina n .:\
'E~cola Pol it~cnica est~. portanto. abaixo de 2% ..
Nos pri~eiros 50 anos de escolay de 1.390 engenheirosy
apenas um era mUlher: Anna Maria Frida Hoffman. formada em i.927r
'em Qutmica e, em 1928. em Engenhar ia Qu{mica ..Quando ela se
for-'mau em Gutmica. esse curso j~ estava oficialmente extinto desde
'1925 (os alunos que entr'aram antes de 1925 acabavam de cur's~-lo)
e em seu lugar havia sido criado o curso de Engenharia Gutmica.
Anna Mar'ia teve apenas que cursar mais algumas cadeiras para
re-'ceber a titula~io de engenheira. Ela foi uma das ~ltimas pessoas
(':\ Sf:~ f()I" In ,;\I" em (~I.l,tInicl':\ E-:! uma da ~r. pI" ime i r'a Si ,:\ m(,~ t: i t:1.1,1,:\1" em En 9 (:::....
nh ar ia Qu{mica.
Anna Maria faleceu há alguns anos e temos poucos dados a
respeito de sua at ividade profissional. Segundo
confirmadas. ela trabalhou no IPT.
De 1945 em diante. come~a a ser mais comum a presença de
mulheres'na Escola: de 1945 a 1950. titulou-se. em m~dia. uma
en-genheira por ano; de 1950 a 1965. elas já formavam pequenos
gru-pos de at~ 4 mulheres por turma e, de 1965 em diante. a
partici-pa~io feminina foi aumentando sempre. O Quadro 111 indica as
por-'centagens m~dias por especialidade, agrupadas por 3 anos (o
agru-pamento em 3 anos ~ suficiente para eliminar oscilaçBes anuais p
_._..__..__...._-
-~_
.._-~.._---~----QUADRO III - Engenheiras formadas. por especial idade
I I I EI...Err~{:)·- I I PRODU'- I MIN(:)S t·iECf':,·- lEI..,·
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I .::)0....6;.:? I j. 4.~:1 I 0 0.0 I 1. 0,.!::; I (1) 0,0 I (1 '1,0 I 0 0.0 1
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I 7D....D0 l:i. 4 :i.7
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1 U. 6ya
I :]~!. 6,7 I 7a,
<;> I :i. :i.,7 I ;.? La
I 0Notas~ (1) Atci 1955. foi considerada a modalidade Mecânico-Eletricista. quel
a Eletr3nica. Eletrotécnica. Mecânica de Projetos e Mecânica PrOl
(2) Atci i955. foi considerada a modal idade Minas~Metalurgia. que de~
Minas e Metalurgia.
(3) Até 1975. é vinculada a Mecânica. A opç50 entre Projetos e Produ
no 42 ano. Depois de i975. até 1980, ci modalidade independente.
,
~
I
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I METALUR-I
CNICA
1
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I~ I n'9. ~{: I n':!
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0 0,(1I 7
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0.0 I 0 0.0 I 0 0,0 I 9 2,0 1
..
---I---I---I~---I
0:--~~ I 0 0:--0 I 0 Ç?:~0 I ,/7 j.ré I
... I - ...•... ·1 1 I
3.1 1 0 0.0 I 0 0.0 I 4 0.7 I
..
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d (.,:.I.!. ClI'" iEI (.:.~m
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I ..)/"J.. " ('1''''' 1'\.: •••• t <;••".'
Perc8bemos, pelos percentuaisy qU8 a pr8S8nça de mulh8res na
es-(:01.:\ ~.Ó s(·?f:~st:(;\bi1 iz a E~ c ome
c
a a CI/'E~~:iC(~I/ df.·~p(:)isde j.<;i6~:i.. Até e~n""tio. a porcentagem geral oscila de quase 0 a 2%f com um n~mero
apenas 8 eng8nheirasf num pertodo em que a 8scola havia expandido
responde a uma.reforma no ensino da escolaf que divide o curso de
engenheiros Mecinico-Eletricistas nos cursos de engenheiro
Ele-tricista <modalidade EletrBnico e Eletrotécnico) e engenheiro
Me-engenheiros de Minas - Metalurgia também é dividido e criou-se
sos mais atrativos e expande as vagas de modalidades de menor
participa~io feminina <Metalurgia. Naval. Eletrotécnica.
Mecini-ca-projetos e Minas). Por outro lado. cria-se uma 'reaf
Eletr3ni-C.r onde, na década de 70, encontraremos uma pequena cancentr'a~io
de mu'1 here s ,
De 1965 em diante. as porcentagens crescem. mas mesmo
assim estio abaixo daquelas vistas no Quadro 11 para as
candida-nos fornece a porcentagem de mulheres entre os aprovados nesse
vestibular~ 7% ..Comparando com a taxa de 1980. ano em que
esta-riam se formando, vemos que o perc8ntual de politécnicas é
rior~ em 1980. formaram-se 525 engenheiros. dos quais 24 eram
mu-Iheres - 4,6%. Essa diferen~a pode significar que h' uma taxa de
provocando um~ reduçio da porcentagem de mulheres entre os
:1.9
No entantoy de acordo com Rosemberg (i97~)F um resultado
Justamente oposto seria de se esperar~ a autora detectou uma
maior perseveran~a das mulheresy em rela~io aos homensy para
com-sitáF io ..
Rosemberg explica essa tendêncian
UO
s comportamentos mais frequentemente aceitos eestimu-lados pela escolay sio do tipo passivo condizendo tanto com as
~ t' d ' .
expec~a.lvas e papeIs e estere6tipos femininos quanto com int:
(.:~.-ra~ies centradas no princIpio da autoFidade •• " Ao mesmo tempo, a
menina ~ socializada por agentes exteriores ~ escola (fam(liar
igreja. meios de comunica~io~ livros e manuais) a corresponder a
o
menino. ao contrário. viveria certo desaprumo~ a esc0-la e o mundo a lhe exigirem comportamentos diversosy passivo e
c o ml:n':\t i v o •
correspondência da menina a uma ~nica expectativa socialu
• [21]
Embora nio haja maneira de se comparar objetivamente as
taxas de abandono de homens e mulheres do curso na Polit~cnica.
uma vez que nio temos os dados dos matriculados nessa l n st ltu l
r-~io. podemos hipotetizar que a análise de Rosemberg nio ~
neces-sariamente válida para cursos majoritariamente masculinos como a
Apesar do caráter do ensino ser tio autoritár'io quanto
nos demais cursos? ~ provável que o ambiente essencialmente
mas-culino da escola. tanto do corpo docente quanto discente. venha a
A pr6pria Rosemberg observa que sua conclusio estaria em
desacordo com hip6teses muitas vizes evocadas de que o desempenho
das meninas a n{vel de escola prim~ria est~ relacionado com a
composi~io do corpo docente: "Nos pa{ses em que o corpo docente
da escola elementar é majoritariamente masculino (por exemploy no
Japão e na Alemanha) as meninas nao obtim melhores resultados."
1:22J
Voltando ao Quadro 111. percebemos a diferen~a entre as
porcentagens de mulheres nas v~rias modalidades. Engenharia
Gu{-mica ch ama a ,·,\t:E~n(j:f:(c)nã(:)mó PE~I.,\ .,\lt.,\P(:)I"(:(:,~nt:(:\9E~mem COmp'i\I'·a(j:f.~o
com outras modalidades (B~7% contra 3y4%y na segunda maior
por-centagem)y como também pelo fato de ter acontecido através dela a
entrada de mulheres na escola - as
4
primeiras mulheres a sefor-mai"em n ,',\fio I i t:éc nic ,':\t i t:u lai"am ....s(·:·~em En 9f~I'lI'H,\I" i .:\(~uími(::.:1. ::
- em 1928 - Anna Maria Frida Hoffmann
em 1945 - JO (entrevistada)
_. €-:m 1946 - I ..P •
em 1947 - A.M. (em 1947y formou-se também uma
enge-nh e l r a c l v il )
Em "Qui sont Ies femmes ingenieurs en France?"y
Genevie-ve de Peslouan tambcim verificay na Fran~ay uma porcentagem muito
mais alta d e muth ere s na En!.H~nh<H·ia (~lJímic(:I.do que em out ra s m(;)""
daI idades. Peslouan sugere que esse fato est~ ligado a uma certa
associa~ão entre química e o preparo dos alimentos. tarefa
tiri-camente feminina. [23]
Uma ClI.I.t:I"a h iI:)()t:e s (,~n o r,;(Jcor:1"(": (':\o Vf::I" if ic.:\1" mO!;; ,':\ ,:,. oI" i!HUl !!i
de 1910~ um curso de qu{mica que~ segundo a avaliaç50 da ~poca~
lado~ o curso de engenharia industrial tamb~m nio atendia a essas
"( ••• ) Boa parte dos grandes problemas da indJstria
qu{-mica nio podiam ser convenientemente resolvidos nem por' qu{micos
nem por engenheiros industriais enciclop~dicos. Aqueles~
ignoran-projeto e a fiscaliza,io dos aparelhos~ o que exige conhecimentos
de mecinica. resistincia e tecnologia dos materiais.
eletrotécni-ea e f{sica industrial. Os alunos de engenharia industrial. por
recebiam preparo suficiente em qu{mica. embora o projeto e
dire-~io da aparelhagem industrial depende em grande parte das reaç3es
qu{micas e do c~lculo dos equil{brios f{sico-qu{micos que nela se
verificam." [24]
Como se pode imaginar. a demanda por esses cursos era
extremamente bai~a. De 1920 a 1928~ formaram-se apenas 9
tdcni-cos. menos do que no 19 ano de for'matura da Engenharia Civil.
Também a Engenharia Industrial. criada em 1894~ at~ 1926 formara
preenchesse os requisitos citados pelo professor Theodureto
Sou-to. cr'iou-se. em 1925. o curso de Engenharia Qu{mica. completando
o curso de Qu{mica com cadeiras j~ existentes nos cursos de
Enge-nh ar i a .. (25:1
xa demanda pelo curso até a nova reforma. em 1940.
do curso reside na discrepincia entre os obJetivos deste - suprir
curso. Gomo vimos. o aluno da Escola Polit~cnica do come~o do
cuIa descendia da classe dominante de Sio Paulo e se propunha a
altos obJetivos. A engenharia civil propiciava trabalhos de
gran-de porte (chamados. naquela ~poca. de obras de arte) e. talvez.
uma aseensio r~pida para quem fizesse os contatos certos.
Logica-mente. tamb~m o Engenheiro Industrial tinha chances de
Mas o objeto de trabalho a que se dedicavay interno ~ fábrica.
ro civil. Por outro lado. se lembrarmos das ind~strias qu(micas
existentes na ~poca. podemos verificar que o aproveitamento
des-'ses engenheiros. enquanto mio de obra. dar-se-ia unicamente por
alguns drgios de pesquisa (do Estado) eu em empresas de
consulto-ria (quase inexistentes), pois raras as ind~strias teriam
condi-Essas observa~3es baseiam a hip6tese de que a Engenhar'ia
Industrial e Engenharia Qurmica se configuravam. no come~o do
s~-cuIe. come p610 dominado da profission Naturalmente. as mudan~as
ne parque industrial. ocorridas da metade do s~culo para cá.
transformaram o setor qurmico em drea importante da econemia.
operando uma mudan~a na imgem do profissional. Acreditamos, no
entante. ter essa imagem contribuido para a concentra~io de
mu-POI" out rc Lad o •.a f,'l(:::t:I'·(inica.em contr'apof-,iG:io
à
el etro-:t~cnica. exemplificam uma aparente incongruincia: origin~rias da
mesma modalidade. fazendo parte do mesmo departamento (de
semelhan-tes~ a eletrot~cnica (cujo objeto de trabalho i a geraçio e a
transmissio de energia el~trica) e a eletr8nica (cujo objeto de
trabalho é a aplicaçio dos princ(pios elétricos em aparelhos e
m'quinas) apresentam n(veis de participa~io feminina muito
dif~-Obs ervan do o amb if.°~nt: ~~ de t:1,0abalho dai.;dI.I\':\S moda 1id ade s ,
verificamos que. enquanto a execuçio da primeira se
d'
no campo,gunda se realiza no interior de uma f'brica. Essa distin~io j~
t'veis. ~ vedado ~ mulher o trabalho em obroas. sendo reservado a
ela sempre o trabalho confinado em escrit6rio ou r'brica.
Mas. o que ressalta na distribuiçio entre as modalidades
nio sio as 'reas em que as mulheres mais atuam. mas sim aquelas
em que elas nio atuam: Engenharia Mecinica (6 m~llheres).
Engenha-f'ia de Minas (3 mulheres) [26J. Engenharia Naval (3 mulheres) p
~ participa,io feminina. Isto significa que o campo resguarda
al-sumas funçaes como nio femininas. ou melhor. mostra a
transforma-çio sofrida no campo. que feminilizou determinadas ~reas para
atividades que lhe sio destinadas e as que sao,., PI"O i b idas ..
Poderemos. assim~ chegar a uma nova configuraçio de uma parcela
tabelecer essa classifica,io.
distribuem nessa parcela do campo a elas dest inadas~ como elas se
apropriam desse espaGo e por quais mecanismos entram num terreno
anteriormente imprdprio a elas.
de
entrevistas com uma amostra de engenheiras upioneirasu•
Conside-ramos pioneiras aquelas engenheiras formadas numa faixa que vai
«I
de 1945 at~ 1965~ quando nia existia ainda uma histdria de
mulhe-porcentagens de mulheres no total de formados~ pois ~ nesse ano
ql.lf:~c om(·~ç:a a s(·~e1evar: a par't: ic ip aç:f.~of&~min in,':\n a (;:l,.C o l.':\~ C 01'1for··..·
me Já foi visto. Julgamos que essa ~ uma época de transi~ioy
quanto entra um novo elemento no JOgO e seu espa~D de atua~io ~
del i m i tado ,
Pressupomos que esse espa~o ~ conquistado pelas
mulhe-res~ isto ~~ ele nio ~ preestabelecido~ mas dePRnde dos trunfos
que estas apresentem. Por outro ladov essas conquistas nio
,.,
sao
permanentes e estio sendo rediscut idas a cada momento.
A
impt'w'-plicar a 2a. gera~ioy que serio analisadas numa etapa posterior.
Selecionamos uma amostra de 8 engenheiras formadas até
l.9é!7;y pr'c)cut"l',\ndoab ran ser todo C) PE~I"rodo de t:~~mpo.. Com e1ilf:la
<:\mos-tr',:\f izemo s entrev istada'l!iabel"t:a'l!ion d e pf.~d{,:\IllCll,; ql.l.('~con ta s s e a
histdria de sua vida. Ao final do depoimento~ colhíamos alguns
dados sdcio-econ8micos e verificávamos se alguma
roteiro básico estava faltando (ver o roteiro básico no anexo I e
dados sdcio-econ8micos no anexo 11).
mulher a se formar na escola depois de Anna Maria
Hoffmann~ formada em 1928. Jo trabalhou sempr'e na
Escola PaI itécnica. Hoje est~ aposentada.
BB - Engenheira Civilp formada em 1950. Trabalha na
Pr'e-feitura do Munic{pio de Sio Paulo
NM
-
Engenheira Civil. formada em 1952. Trabalha emem-presa estatal e d~ aulas na Escola Politécnica.
LI -
Engenheira Civilp formada em 1956. Trabalha par'a oEstado.
EB - Engenheira Civilp formada em 1957. Empr'es~riafl
JM - Engenheira Civily formada em 1957.
D'
aulas naUni-versidade.
VC - Engenheira Civil. formada em 1958. Trabalha em
em-presa estatal; na época da entrevista estava
comis-sionada na Escola Politécnica.
RO - Engenheira Gurmica. formada em 1963. Trabalha em
NOTAS:
[1J
SILVA, Alberto ..A
primeira m~dica no Brasil. Rio deJanei-1"0, II'"IIl~~Ol;iPon~,H::t
t
i Ed it ore s , j.<;i~)4•.De acordo com o autorr Maria Augusta ~strelar impedida de
curs ar me d icln a n o Bra si L, vai e stud ar n o s Emtad(;)f:iUn ído s em
1875, onde se forma em 18Bl~
[2] B(..\RROS()y[;al"I1\(":nL.,í,ciadf::Mfdo 8. MELLO)' Guiolll<':\r'Namo .. () ace~;;-"
50 da mulher ao ensino superior brasileiro .. Cadernos de
Pes-quisar aio Paulor ng 15r dez. 75.
Nesse textor Barroso desenvolve c tema da distr'ibui~io das
mulheres entre os cursos universitáriosr enfocando nio s6 a
escolha vocacional como tamb6m o desempenho acadêmico. Util
i-zamos em vários pontos nio s6 os dados e tabelas, mas tamb6m
as conclusies do texto.
c:n
FEI<RETTI7 Cfd,~:H:),J... A 1\\1.I.1I'lel"e a (';:5c011'1<:\ V(:)C(':\C ion a I , Cader ....nos de Pesquisar Sio Paulo, ng 16r mar. 76.
1::4::1N.'t\tab e la , Medicin.:\ o s cil.:l. P(JI" vo Lt a d e ~;?0%" PI"(,::ff.~I"imol:;d ci
v-x~-la fora da classificaçio.
[5] FERRETI, Celso J •• A I\\ulher e a escolha vocacional.
Fel"ret; t: i C) !:IS€~I"v a eS~:ia(JCorrên cj a fi: c on cLuj Sf.~I'um mov j men t:(:1
geral para todas as profissies.
[6J BARROSO, Carmen L. 8. MELLO, Guicmar N. O acesso da mulher ao
ensino superior brasileiro. p. 61.
[7] Quanto ~ engenharia, essa tendência é confirmada em outros
em engenharia
era de 7%~ pr6xirna da de Sio Paulo.
(PESLOUAN~
Gftnevieve.
Qui sont les femmes
ingenieurs
en France?
Paris,
PUF.
1.974"[8l
SULLEROT.
Evelyne.
Hist6ria
e Sociologia
da mulher no
traba-lho.
Rio de Janeiro,
Editora
Expressio
e Cultura.
1970.[93
SULLEROT.
Evelyne.
Hist6ria
e Sociologia
da mulher
no
traba-lho.
p ; U,3.[10l
MESQUITA.
Moacy de.
Ahist6ria
da
legisla~io
profissional
da engenharia,
arquitetura
e agronomia
no Brasil.
Janeiro.
s.ed ••
1981[11]
MESQUITA.
Moacy de.
A hist6ria
da
legisla~io
profissional
R i
o
de
da engenharia~
arquitetura
e agronomia
no Brasil.
p.
17.[12] Essa observa~io
foi feita a partir da leitura de artigos
nas
revistas
do Instituto
de Engenharia.
\:i:3:1
LEME. R
U~"JAS:Ju
j ,:\I"daS i1va et: a 11 ii•
Cc,m t:ro 1
ede
I:woduç:f:\o.
S~\o Pau lo , PiorH?ir'a. :t974~ p ;
4.
in:
~:)(.~Nr()S,
M .. Cecíli;-:\
Escola Polit.cnica
da Universidade
de
sio
Paulo:
1894
1984 T p ; 4:3.
[14l
SILVA. Márcia
Terra
&
FERRO. José Roberto.
Estudo das
tra-jet ór ias pr'of'
iss ion a is de a'lgr.n'fs'
engenhe iro s
de
pr'odu~io..
'
-'sio Ca~los~
U~iversidade
Federal
de Sio Carlos.
1982.
[15JSANTOS.
M ..Cecília.
Escola Polit.cnica
da
Universidade
de
aio Paulo:
1894 - 1984.
sio Paulo. Reitoria
da Universidade
'de Sio Paulo. Funda~io
para o Desenvolvimento
Tecnoldgico
da
'Engenharia,
1985 ..
P ..11.
[16:1
Annaes da Carnara dos Deputados.
68.sessio or'dinária
de
20
de abril de 1892~ p. 46. in: SANTOS. M. Cecília.
Escola
;.;~B
[17J SANTOS, M. C€c{lia. Escola Politécnica da Univ€rsidade de
Sio Paulo: 1894 - 1984. p. 16.
[18l Discurso proferido na Cimara dos Deputados pelo
Vice-Presi-dente, Sr. V€iga Miranda, quando da morte de Paula Souza.
'Boletim do Instituto de Eng€nharia. Sio Paulo. n9 3. 1917,
'P.. j,00····i.0;.:~.
[19l Annaes da Camara dos Deputados. 21a ..sessio ordin~ria de 20
de maio de j.B9~?, p , ;?4L in: SANT()S, M. C(·:~cí1 ia. Escola Po-·
'litécnica da Universidade de Sio Paulo: 1894 - 1984 ..p ..3i.
[20] BARROSOr Carm€n L.
&
MELLO, Guiomar N. O acesso da mulherao ensino superior brasileiro. p. 64.
C21JROSEMBERGr F~lvia. A escola € as diferen~as sexuais.
Ca-dernos'-'de--Pesqúisar S~\o Pault1r n!? j,5r de z , 75, p ; !:I4.
[22l ROSEMBERGr F~lvia.. A escola e as diferen~as sexuais. p ..84.
[23] PESLOUAN. Genevieve. Qui sont les f€mmes ingenieurs en
France? p" :37.
[24l SOUTO. Theodureto ..O curso de Engenharia Química.
TOS, M.,C€cília. Escola Politécnica da Universidade de aio
Paulo: 1894 - 1984. p ..221.
[25] SANTOS. M ..Cecília .. Escola Politécnica da Universidade de
Sio Paulo: 1894 - 1984. p. 222.
[~?6:Jt:Í: t:t"adi!;.~\{oentr e o s minf~il"o~:;qu~:~d<'~ <l;;~<:\I" entr ar mul h er numa
mina. Quando isso acontec€, os trabalhadores paralisam o
trabalho imediatam€nte. Por €ssa razio. mulher'es sio
proibi-das de entrar em minas. Uma €ng€nheira Justificou d€~sa
ma-neira nio ter optado por En9€nharia d€ Minas~
Uo
que adiantaPARTE 11 - AS PIONEIRAS
Nos próximos capítulos analisamos os depoimentos das
primeiras engenheiras a se formarem pela Politécnica (chamadas
aqui de Pioneiras) a fim de per'ceber' as vari~veis que determinam
sua entrada numa carreira masculina e a traJet6ria profissional
posterior. Partimos da hipótese de que o conjunto de
possibilida-des da carreira profissional de um ind iv ídl,H:> ('~s: at '
"
1'\<:'("'"I ••" ••0 "t,'\ o na
hí st õrla df:~~:;uafamília, 01.1 seja , na posic:~{o ~:;ociaJ.ocupada (~~no
decl ínio ou ascensio sofrido num passado recente. na profiss~o do
pai e da mie e num conjunto de valores prdprios da família. que
podemos entender como a sua cultura e que definem as maneiras
le-9ftimas de ascensio ou manutençio do status social.
Os artigos que tratam da sexua, ,za~ao'l ' ,', oasJ
lisam a entrada da mulher em pr'ofiss3es masculinas de acordo com
uma ótica essencialmente mascul ina. Isso introduz distor~3es.
co-mo no caso de Ferretti [1J que. estudou as determinantes da esc
0-a escclha da profissio é feita desde a infincia e que as
seguin--,
t:(-?s inf1uên ci ,~~:;sf,(o ob~:;(,:~I"va d ,',\~;;:: "
a) um conjunto pessoal de preferências representado pela
valoriza~io diferencial das recompensas oferecidas pelas
concretizar as preferincias.
1\ 'I
Para Ferretti essas Pl"eferincias e expectativas sio hie~
il
as pessoas ainda vio ser seleciona~
I
rarquizadas e ele lembra que
d a~"> po I" órgios que avalizam
i
:j,I
UNessas condi~Ses~ a escolha vocacional
é
duplamente derinfluências sociaifu
II
as potencial idades biológicas resultam em caracter{stit
I
I1
det ~::1"111 in a m d in,,: t: a m(,1n t (,~ <~ "
1\
f:iUa
terminada pela estrutura social: de um lado,
ca~;;d o s indiv(duosp algumas das quais
escolha e ao mesmo tempo a estrutura social em processo de mUdant
~I
;(j:a I" ('::Sl.l 1t.':\~ num dad(:1 momen t:o numa df::term in<:\da OI" f:Jan i;:~<~(;:~;{(;)l:;Óc iCI"II,\,
.l
economlca",
p sendo que alguns aspectos dessa organiza~io determina~
~ , dif"(~t: amen t: e 1::2]
Ao colocar a estrutura social como determinante diret~
em um n I,te:1('::0 f (:\mil i,':\I" qlJ.(':~
in'';I!
!!
11 int:er'PI" ~::t: a/I <\\ ~;;:
'1
P<\\I";,~mf:~t:I"OS pró.J
,i I
l,;eI.I.l:i (:\n t ~::pa s ~,;H '..!i
indiv{duop Ferretti esquece o passado
condi~Ses sócio-econBmicas atuais de acordo com
priosp constru{dos pela experiincia acumulada de
dos. Ferrett:i chega ~ hipótese de que a influência do nível sói
"
cio-econ8mico na escolha vocacional das mulheres poder~ ser' ob~
li
servado no fato de que as mo~as de n{vel sócio-econBmico mai~
apoiando-se una sugestio de McGuire a respeito do comportamento
'alpinista' dos Jovens pertencentes às camadas sócio-econBmico
in f er i(:)1'''(o;':s" • 1:3]
Essa h ipdte s e de Ferre t t ir n~\o comPI"(;)vada na P€·:l;iql.lim<l"
nio leva em conta as caracter{st:icas próprias da mulher. que
in-terpreta de maneira diferenciada do homem 0$ estímulos sociais.
manei-cada matrimonial assume maier relevância que o m&rcade
prefissie-nal. E ainda. que o investimento em prcfissionaliza~io através da
escola só
é
poss{vel em um meio que permita esta inserçionEntio. o que levaria a mulher a optar por uma c ,:\1" I"e-~i·rooa
masculina? Abordamos esta questie analisando a entrada na
enge-nharia nio só como investimento numa profissio de retorno r~pido
quanto a renda e quanto a status social. mas também procurando
entender a gama de significados que pode adquirir essa ocupa~io
ligada ~ posiçio na estrutura social de seus pais. que
delimita-ria uma gama de caminhos pess{veis para os filhos. (,,\lém dis s o ,
°devemos buscar na história da fam{] ia das mulheres as mudanças na
sua posiçio social em passado recente. determinando assim aquilo
social nio pode Jamais ser definida apenas em um ponto de vista
muns na medida em que lhes seja comum. ~;;f~ n ,:\rI,o, a
cial. ao menos o sentido ascendente ou descendente de seu
tvaJc-.t ou" [4:1
Com o intuito de apreender o sentido da trajetória
so-cial das entrevistadas. enfocamos alguns fatores como a
mobilida-de social dos pais da engenheira. o casamento dela e a comparaçio
entre sua vida atual e de crian~a.
o 'J ' t' t
Ao anaolsarmos as en~revls~as das Pioneiras. verificamos
que poder (amos subdivid{-las em grupos de caracter{sticas
famil iar com a vida profissional.
Um grupo proporcionalmente bastante grande. 5 das 8
en-trevistadas. apresenta dados prdximos quanto a profissâo. origem
geográfica e social. sio nAS
QUATROCENTONAS
n• grupo assimdenomi-nado pela origem social mais alta das entrevistadas. Analisamos
em seguida a trajetdria profissional. o casamento e a rela~io
en-tre a c arre lra €,~ a vida <:\ff.'~tiv<':\/f,:\mi'1i,':\1" d*:':<;;~:;E: gl"IApO..
Um outro grupo. com 2 engenheiras.
é
analisado nocap{-tulo
"AS PRIMOGiNITAS".
que segue uma estrutura semelhante aoan-moginitas de fam('1 ias de n{vel cultural mais baixo que as do
gru-po anter'ior (quando o n{vel cultural é medido pela escolariza~io
dos membros da fam{lia).
M "1'
erece uma ana&lse ~;(,,?:p,:\1" ,:\di:\, uma
veu uma tarreira profissional e pol {t ica at {pica. projetando-se
como a ~nica nbem sucedida empresária entr'e as Pioneirasu
• que
1 - As quatrocentonas
1.1 - Origem sdcio-econ8mica
~ um grupo proporcionalmente bastante numeroso. 5 das 8
engenheiras entrevistadas [5]. que se originam de elevada classe
social~ sio filhas de profissionais 1iberais. médicos ou
enge-nheiros. e seus avds eram fazendeiros. advogados ou engenheiros.
Como
NM.
que conta descender de uma famlliaUquatro~er-uPapai é de famllia. vamos dizer. tradicional. né.
qua-trocentona. Mamie também. vamos dizer.,uu
E mais tarde. repete e explica~ uA minha famllia. tanto
dos lados do meu pai. como de minha mie. é fam{lia. como se diz.
quatrocent3es. Famllia. assim. de ra{zes bastante profundas.
r'a{-zes mesmo do interior do estado de Sio Paulo.u
Para
NM.
ser de famllia quatro~entona significa nioso-mente a longa linhagem de brasileiros. Ura{zes bastante
profun-das. do interior do estado de sio Paulou, mas tamb~m que sellS
an-tepassados se dist inguem e q1le tim história. Ela apresenta o l~do
materno de sua fam{lia como sendo uos C. e S. de Campinasu• sobre
os quais Hum tio fez a história da famllia. (••• ) a árvore
genea-lógica. e pretende publicarH• Cultivar os dados de seus antepas~
sados s6
é
posslvel entre aqueles que os consideram dignos deno-ta. personagens que mereceriam ser destacadas para o pJblico em
geral e lembrados no futuro. e como tal demonstram o orgulho pela
sua origem social.
34
~ fam{l ia paterna. NM atribui a mesma notoriedade. Ao se
referir ao pai. ela logo adianta que determinado hospital-escola
leva o seu nome: u •• nO hospital-escola tem o nome de papai. WA •••
meu irmio deu o nome em homenagem a meu paiu
• [6]
Mais do que classificar NM em um ponto qualquer das
ca-tegorias sociais. essa citaçio pretende demonstrar como ela vê
sua origem social e d~ o significado de forma abrangente da sua
auto-classificaçio como descendente de fam{lia quatrocentona. N~s
entreI inhas NM procura nos convencer que pertence por direito de
nascimento a um grupo social vis{vel ~ sociedade. qlle se destaca
e ~ conhecido no meio social. quando comenta uvoci deve conhecer
fulanou se refer'indo a pessoas da famrlia nu do c{rculo de
amlza-des.
De objetivo. sabemos que o av8 pater'no de NM tinha uma
fazenda em Tiet& e o avB materno era contador em Campinas. Seu
pai era professor de matem~tica e geografia. Trabalhou em
Barre-tos~ onde NM nasceu. e depois se transferiu para Sio Palllo. Em
Sio Paulo. dava aulas para colégiO do estado p aqui montou um
cursinho de admissio onde lecionava em todo tempo livre.
Sua mie era professora prim~riap também dava aulas em
CDl~gio do estado e ajudava o marido no cursinho de admissio.
NM for'mou-se em 1952 em engenhar'ia civil pela
Politécni-can Antes mesmo de acabar a escola casou-se com um engenheiro.
tamb~m politécnico. que j~ conhecia fora da escola (era amigo de
seu irmio). NM trabalha hoje na CETESB e d~ aulas na Polit~cnica.
Seu marido trabalha na Eletropaulon
JM morou em Araraquara at~ os 6 anos mais ou menos. Seu
pai tinha uma fazenda de café l~ e a famrlia desfrutava de uma
, '
al to p(*:\d''''ão d e vida i,:\t:f.~ P(:)JJ(::O df.·~p()is ele ...JM n(:\-:~C:f:'~I"11 Com a cy·i,f:{e d(·~"
, ~ 'I
1929. a situaç~o econ8mica da fam(lia começa a cair até
total da fazenda. Em 1986. j~ com quase 50 anos o pai de J!1
é
bbrigado a começar carreira em engenharia em sio Paulo.
em que se formara quando Jovem mas que até entio nunca; tinha
exer'cido. O pai de JM casou-se tarde~ quando JM nasceu.
tinha mais de 40 anos. Seu pai tinha um ~nico i1,0m;i'o.
ses. que se fixaram no Rio de Janeiro onde nasceu sua mie. JM nio
sabe precisar' a profissio do seu av8 materno. pois este morreu
cedo. ela nem chegou a conhecer "meu avB era major e era um
ho-se ele nio era da reho-serva"o Dois tios maternos moravam em sio
Paulo - um era médico e outro delegado de poltcia.
vida dos pais antes de perderem a fazenda era bem alto~ unonminha
Europa. aqueles bons tempos. né?"
qu ando
solteiro. lembrando que quando ele estudava na PaI itécnica "ele
Ainda que para a sua fam(lia tenha sido um choque a
per-da per-da fazenper-da. JM atribui maior importincia ao per{odo
profissio-naI de seu pai do que ao de fazendeiro. mesmo porque vivenciou
este ~ltimo por pouco tempo e numa ~poca em que o radrio de vida
j~ era mais baixo.
Depois de perder a fazenda. o pai foi trabalhar na
Se-cretaria da Sa~de como engenheiro sanitarista. JM se estende por
pai. as trabalhas que ele realizou. se publicou ou nio.
tivesse participada ativamente de todas eles:
tiUma das co is '.:\s que me "1f.nnbI" (J. qUf..: a t
é
fu i c:om ~~'1 ,,~r eI"'.i\"Isso eu me lembro que eu acompanhei de perto. e ele até
contava ••• ele trabalhou na legislaçffo (de ventila~io em prédios)
"l1'1fOI,.mou....m(::~p(~~l<:\P(:llité<::nicaem 1.9~:i'l em (:::n!,j<-::nhal"i,:\c i....
vil. Nessa época ela j~ estava casada com engenheiro da 8scola e
tinha um filho~ "O final do meu cl..lrmofoi esticado. porque eu me
c<':\~:;ei no Illf::io do CUI"1!;O (::: df..:pC)i s na s c e u mil::I! f i 1 ho €o: <':\í a pl"i(;)1" ida:..·
técnica em 7 anos e nio em 5". Hoje. ela e o marido dia aulas na
nica ..
"lO conta com entusiasmo a histdria de sua famíl ia. mis....
tl..lrandofantasia e realidade - para ela. a histdria de seus avds
é um ver-d ael e i r'<:1 r' oman c (:~::"M(:,:u.bi~;;<:\V
a
ve io d a AI em,:\1'1h a. er<:\ o Han svon
R.
Esse meu bisava veio como intérprete.[7J Minha bisav6 eradessa família. era do Bario ou Visconde de Caravelas. q11.:\1qUf!~I"
era médico.RnO vov6 (o av6 materno) era advogado. ele era um
ad-vogado de fama. de nomeu
• A mie de "lO também é médica.
conta logo no início da entrevista: "Minha mie é a primeira
médi-ca pau.lista". E "lO ~ praticamente a pr'imeir'a engenheira formada
p(·~la PoI it éc nic a - a ,í.nic:amu lh er' qlJ~~·;:;efOI"m<:\I'''aaté f:·:nt:i~{oera
Anna Maria Fr'ida Hoffmann. em 1928. "lO formou-se em 1945 em
~:il
Hminha mie
é
a primeira médica paulista. e eu sou a primeiraen-genheira da PoliH, conta em determinada altura da entrevista.
"lO n~\c)'!i;E~ c a s ou €~ ~:i(io~mpl'°E-~l(io~ciclnOtAna USPn Hoji':~f.o~~:;t::,:í.apo ....
RO ~ mais reservada. mas tamb~m cita am suas oroigens de
HquatrocentonaH: HA família do meu pai é família chamada
tradi-c ion al pau Li sta , trad ic ion al família de fa;:.':(:,~nd(o:~il"o~;,.tinha uma
fazenda naa regiio de Piracicaba. Meu pai era médico"".e entio
tinha formaçio universit~ria. A fam{lia de minha mie era de imi ....
"grantes ital ianos.".A minha mie era formada. era profemsora
pri-mál"i .:\//.
fF.~za Escola PC)'! i
t
éc nl c a €o~m'7 :::\nc)~:;=e m j0961.. eí a C,:\SDtJ,com (,:~niJt::~....'nheiro formada na mesma escola p largou o cursa. Ano e meia mais
tarde, já com 2 filhos. voltou a estudar porque o casamento nio
estava dando certo. Poucos meses antes de se formar começa o
dr'a-ma: o marido tenta o suicídio e passa diversos meses em coma. Ela
se forma e ele se r'ecupera. mas nio totalmente.
quem sustenta a família, pois o marido nio tem mais autorizaçio
médica para trabalhar. Há poucos anos se desquitaram.
R () (io~nt:rou n o
:I:
Pr
'1ogC) :':\P ()'!iia fClI" mat:ura €~:::\té h oJ~? t:1,0::ü)a ....lha lá. além de dar aulas na Escola Politécnica.
cursos de especializaçio, fez doutorado e está pensando em fazer
a I ivre d oc ên c ia na Poli t écn ic a ,
8B logo no início da entrevista explica sua entrada na
engenharia remetendo-se ao av8 e pai~
Np01,0 qUf,: 1ll0:U Pa i eI'"a en 9 (~:nh0: iI" (). meu a v ()0:1,0,":\ f.o:ng en h e ir'o.