PAULA LEITE, Christina Britto Larroudé de. Desenvolvimento de
Carreira e Significado do Trabalho. São Paulo,EAESP-FGV,1998. 233
p. (Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós-graduação da
EAESP-FGV, Área de Concentração: Organização, Recursos Humanos
e Planejamento).
Resumo: Estudo sobre o desenvolvimento de carreira e o significado do
trabalho
para
a turma
de formandos
de 1982 do Curso
de
Administração de Empresas da EAESP-FGV. Aborda a trajetória
profissional desde o primeiro
emprego até o atual,
estabelece
comparações entre mulheres e homens e examina os principais
conteúdos do significado do trabalho para esses ex-alunos.
·
.
~.'
Helio,
O desenvolvimento de carreira e o
significado do trabalho só têm
ÍNDICE
Introdução..
... .
.. .. .. ..
.. .. ... ... .. ... .. .. .... .. ..
0011.0 significadodo Trabalho na História...
006LI
Distinções entre labor e trabalho.. ...
0071.2
O Trabalho e a Bíblia. ..
.. ..
.... ... ... ... ... ..
0091.3
As sociedades primitivas...
0101.4
A Antigüidade...
0121.5 A
Idade Média e o Renascimento...
0151.6
A Revolução Industrial...
0181.7
O Trabalho segundo algumas religiões...
0211.8
As dimensões atuais do significado do Trabalho...
02411.
Osignificado do Trabalho para o indivíduo...
....
02911.1
As diferenças individuais dos sexos...
02911.1.1
Os fatores biológicos...
03011.1.2
Os fatores sócio-culturais...
03111.1.3
As funções sensoriais e motoras...
03311.1.4
As funções mentais
.
035 11.1.5As realizações...
....
03911.1.6
Os interesses e a motivação. ...
04011.1.7
A sociabilidade, a moral e a religião. ...
04311.2
O tempo do Trabalho e o tempo do Lazer...
04611.2.1
O tempo do Trabalho...
04611.2.2
O tempo do Lazer. ...
05211.3
A remuneração e o Trabalho...
05811.3.1
A remuneração indireta.. .. ... ... ...
.. .. ... .. ...
06011.3.2
A remuneração variável.
~
064 11.3.3A remuneração desigual.. ... ...
.. .. ... .
06711.4
A alienação e o Trabalho...
069111.Metodologia.i. ...
080IV. Resultados da Pesquisa...
...
104'IV.l Consolidação Geral
,...
104IV.l.l Identificação da amostra. ...
104IV.
1.2Descrição da carreira dosentrevistado.
121·- ,
•.IV.l.3 Características do trabalho atual...
131
IV.l.4 Treinamento e perspectiva....
136
IV.l.5 Significado do trabalho...
149
IV.l.6 Autonomia no cargo e utilização de habilidades e
conhecimentos...
160
IV.l.7 Tempo do trabalho e tempo do lazer...
165
IV.l.8 Remuneração e satisfação...
172
IV.2 Comparação das sub-amostras por sexo....
181
IV.?1 Identificação da amostra. ... .. .
..
181
IV.2.2 Descrição da carreira dos entrevistados...
183
IV.2.3 Características do trabalho atual...
186
IV.2.4 Treinamento e perspectiva...
188
IV.2.5 Significado do Trabalho...
190
IV.2.6 Autonomia no cargo e utilização de habilidades e
conhecimentos. ...
194
IV.2.7 Tempo do trabalho e tempo do lazer...
197
IV.2.8 Remuneração e satisfação...
199
V. Conclusões...
202
Bibliografia .
216
Anexos:
Q'"
uesnonano .223
INTRODUÇÃO
Durante o curso de doutorado aprendi que a tese que deveria elaborar nasceria espontaneamente de uma preocupação intelectual que vivenciava. No início do curso, tal conceituação me parecia extremamente frágil, não se
consubstanciando em uma orientação segura para uma candidata ao
doutorado muito ansiosa para definir o tema de sua tese. No meu caso, entretanto, o tema da tese foi sugerido pela minha própria experiência profissional atuando na EAESP como professora de carreira e coordenadora da CECOP (Coordenadoria de Estágios e Colocação Profissional). Quando este tema nasceu e foi aceito pelo orientador, já percebi a abrangência e o real significado que poderia ter para aqueles que como eu têm a honra de pertencer aos quadros desta Escola.
Com efeito, o significado do trabalho e o desenvolvimento de carreira são ternas hoje centrais na bibliografia da Teoria de Administração e Recursos Humanos. Essa importância nuclear foi por mim percebida nas cadeiras do doutorado que participei, tanto no Brasil, como na França. Esses temas
oferecem o cenário ideal diante do qual pode-se deixar emergir a
preocupação natural com os destinos profissionais dos ex-alunos da Escola.
A tese a seguir apresentada é, sobretudo, uma tentativa de se conhecer como os ex-alunos formados em 1982 iniciaram e desenvolveram suas carreiras, identificando o real significado que o trabalho tem em suas vidas. Como
subproduto e como complementação à nossa dissertação de mestrado
(apresentada em 1990) procuramos, também, desenhar um esboço das
trajetórias percorridas pelas nossas ex-alunas formadas naquele ano. Seria, afinal, uma boa oportunidade de contrastarmos as características específicas
do desenvolvimento das carreiras de mulheres e homens que, tendo
recebido uma formação de reconhecida excelência, ocupam hoje posições destacadas nos organogramas das empresas e organizações onde trabalham.
Acostumada às freqüentes entrevistas com candidatos a estágios e
formação no campo da psicologia do trabalho, procuro dar a esses jovens
alguma orientação ditada por uma experiência maior de vida. Mas não
consigo deixar de partilhar com eles esta angústia natural dos começos de grandes caminhadas. Nesse sentido, esta tese tentará responder, ao menos em parte, algumas das indagações que povoam a mente dos alunos quando eles, nessa condição, cruzam pela última vez, nossos portões.
Creio que os professores que trabalham ou trabalharam na Escola, seus alunos e ex-alunos, funcionários e gestores dessa Instituição encontrarão nesta tese algumas revelações importantes que, de alguma forma, servem de efetiva avaliação do trabalho realizado pelo corpo docente da Escola desde
1954. De pronto, posso assegurar que, como verão, os resultados são
bastante positivos.
Olhando pelo aspecto acadêmico, ao empreender o projeto da tese, procurei lançar seu foco sobre duas questões nucleares da atual situação das carreiras dos altos executivos de nossa sociedade. A primeira hipótese desta tese é que nossos ex -alunos atribuem ao trabalho um elevado significado em suas vidas. Nossa pesquisa vai, portanto, dar muita ênfase à questão do valor e
do significado do trabalho nas vidas dos nossos ex -alunos. Se o bom
desenvolvimento de suas carreiras dependeu de um intenso trabalho, quinze anos após suas formaturas, é importante conhecer qual a relevância atual e futura do trabalho para eles.
A segunda hipótese da tese se refere à trajetória profissional percorrida por
nossos ex-alunos. Desejaria conhecer em que nível da hierarquia
empresarial começaram eles suas carreiras. Desejo também avaliar a
estabilidade ou a instabilidade de suas carreiras e como o desemprego pode ameaçá-las nos tempo "bicudos" que estamos vivendo.
A terceira hipótese da tese diz respeito à identificação dos aspectos do trabalho mais e menos valorizados pelos ex-alunos. Como avaliam eles, por exemplo, atividades que concorrem com o trabalho em importância (lazer, religião e política). Desejo também conhecer quais as características mais e
menos valorizadas do trabalho em si, ou seja, como eles avaliam a
autonomia, o uso intenso de habilidades, conhecimentos e experiências
acumulados. Dentro desse âmbito, ainda, procurarei descobrir qual a
relevância que eles atribuem às atividades de treinamento, retreinamento e
educação continuada. Também, creio ser interessante julgar, pelo
desenvolvimento da instrução formal dos alunos em comparação com o
I
\
nível maxnno de instrução de seus progenitores, o grau de mobilidade
social que eles alcançaram. Evidentemente, o progresso intelectual em
relação aos pais não é o único indicador que pode balizar a mobilidade
social, mas, mesmo assim, creio que este é um dos aspectos relevantes da
ascensão social.
A quarta hipótese da tese refere-se ao estabelecimento das condições de
ingresso de ex-alunas no concorrido mercado de trabalho. Tal ingresso
ocorre no começo da década de 80, onde ainda grandes transformações
econômicas e sociais não tinham se concluído (o muro de Berlim ainda
estava em pé e os computadores eram máquinas caras e não acessíveis ao
consumidor médio).
Minha hipótese é que as ex-alunas conseguiram atravessar bem a
turbulência dos anos 80 e, como pioneiras, tiveram sucesso em ocupar
espaços importantes nas organizações.
A quinta hipótese se orienta no sentido de saber o grau de satisfação e
realização pessoal que os formandos da turma de 1982 alcançaram, tanto
em termos de sucesso na carreira profissional, como no de satisfação geral
com a vida que edificaram. Vivendo com eles no dia a dia da Escola, os
alunos acabam se tomando tão próximos quanto os membros da família.
Saber como eles estão hoje, 15 anos depois de freqüentarem os bancos da
EAESP, é como ter notícias de um parente que, em função da vida, se
afastou de repente.
A tese está fundamentada em uma pesquisa desenvolvida através de
questionários enviados a todos os formandos de 1982 que puderam ser
localizados. Na verdade, enviamos 119 questionários e recebemos 58
respostas, definindo um elevado índice de retomo. Assim, gostaria de
registrar meu reconhecimento a esse grupo de executivos e empresários que
encontraram, em suas concorridas agendas, um tempo que não foi curto,
para responder às 70 perguntas do questionário. A seguir, transcrevo o
nome dos componentes da amostra em ordem alfabética:
Mitropoulos Ponteli, David Sabelman, Dilson de Oliveira, Eduardo Nagashima, Edson Andreucci, Estevam de Novaes França, Felício Mituo Akaishi, Fernando Silva Xavier Júnior, Flávio Artur Gonçalves da Silva, Geraldo Guagliano Júnior, Geraldo Luiz Pachi, Gilberto de Castilho Masella Lopes, Jín Tae, João Batista Machado, Jordí Wiegerinck, José André Beretta Filho, José Eládio Rodriguez Fernandez, Lillian Maria Ferezim Guimarães, Luana Davidsohn Zinn, Luís Cesar Aloe Nascimento, Luiz Alberto Branco, Luiz Favali Júnior, Luiz Otávio Reis de Magalhães, Manoel Antonio Ribeiro Machado, Marcelo Castro Ferreira de Mello, Marcelo Haddad Buazar, Marcelo Velloso Dias Cardoso, Maria Beatriz de Faria Linardi, Maria Inês de Paula Leite Moraes, Maria de Fátima de A. Alves Martins, Maria Heloisa R. Sugahara Ungaro, Mauro Moreira, Milton Kluger, Mônica Rocha Lima de Almeida, Monique Schiffer Acar, Oswaldo Cantarelli Júnior, Paulo de Tarso Midena Ramos, Pedro Lombard Branco, Pedro Paulo de Araújo Neves Júnior, Pierre François Roulet, Renate Kriegler Schmitt Nogueira, Renato de Aguiar Faria, Ricardo Aulicino Correa, Ricardo Souto Ferreira, Roberto Crissiuma Mesquita; Robson Sebastião Pavan Sagula, Susan Patrícia Rivetti, Teresa Cristina E. S. Moreira Philips.
o
primeiro capítulo da tese vai projetar o tema "Significado do trabalho"em um amplo plano de referência histórica, abrangendo inclusive o
significado atual do trabalho. O segundo capítulo desenvolve um
levantamento dos aspectos relevantes da atividade do trabalho para o
indivíduo, considerando as diferenças entre os sexos, o tempo e a
remuneração produzida pelo trabalho. Neste capítulo, também, será tratada a questão da alienação pelo trabalho.
O terceiro capítulo descreve e comenta a metodologia usada nesta pesquisa. O questionário da pesquisa é, então, apresentado e comentado em seus itens
. . . pnncipais,
Os resultados da pesquisa são reunidos, apresentados e comentados no
quarto capítulo da tese. Vinte conclusões são extraídas dos resultados da pesquisa para validar ou negar as hipóteses aqui levantadas. Finalmente, é
4
listada a bibliografia que serviu de suporte para as reflexões da tese e, em
anexo, é colocado o questionário que foi enviado e respondido pelos
componentes da amostra.
Encerrando esta introdução, desejo apresentar um agradecimento especial ao Prof. Roberto Venosa, meu orientador, sem o qual não teria sido possível a realização deste projeto de fundamental importância para minha vida. Agradeço também a paciência e a compreensão dos demais membros da Banca, que vão dedicar seus preciosos tempos na leitura e julgamento das páginas que vêm a seguir. Agradeço também ao meu aluno do curso de
graduação, Katsuyuki Vittor Nakai, que se dispôs a trabalhar como
assistente de pesquisa neste projeto, com competência e dedicação. Um agradecimento muito sincero é para minha filha, Tininha, que me ajudou a procurar os endereços da turma de formandos de 1982 e me "agüentou" em tantos momentos de desânimo. "The last, but not the least" um
reconhecimento muito profundo ao Helio, meu marido, que mais uma vez
confiou em mim e achou que era possível fazer esta tese.
Preparar uma tese é um angustiante exercício de paciência e perseverança. Mas é a humildade a qualidade mais relevante que se requer do candidato pois, de qualquer forma, o que se está tentando fazer é retratar friamente a realidade para fazer crescer o conhecimento. Obviamente, esta não é uma
tarefa fácil e nunca se sente que se está preparado para fazê-la
,
CAPITULO I
O SIGNIFICADO DO TRABALHO NA HISTÓRIA
Trabalho implica desutilidade. Quando se fala sobre "trabalhe" freqüentemente se tem uma idéia negativa, ligada ao esforço, ao sofrimento e à dor: dor de dar à luz para as mulheres, sofrimento pelo cansaço e stress
gerado pela necessidade do trabalho forçado, esforço físico, dores
musculares, carregamento de pesos, enfim toda sorte de mal-estar que o ser humano pode sentir. Etimologicamente a palavra trabalho origina-se do vocábulo latino "tripaliare" (martirizar com o "tripalium"), do substantivo "tripalium", um aparelho usado para a tortura, formado por três paus para impor dores aos condenados.
Conta uma lenda grega que Sísifo, rei de Corinto, foi condenado à morte
por Zeus que lhe enviou Tânatos, o deus da morte. Tendo escapado
astuciosamente, Zeus resolveu castigá-lo e ordenou que Hermes o levasse ao Inferno. Foi-lhe dada a incumbência de rolar uma rocha até o cimo de
uma montanha, de onde ela invariavelmente despencava, devendo o
condenado recomeçar incessantemente seu trabalho. Era um trabalho
esgotante e inútil, pois uma vez terminado, tinha que ser recomeçado. Essa lenda passou a ser conhecida como o mito do "Trabalho de Sísifo" para designar um trabalho que deve ser eternamente refeito, sem proveito algum, apenas como punição.
Independentemente do local, da época, da raça, da riqueza e até da idade, o trabalho é uma constante na vida dos indivíduos. Trabalha a criança que aprende a andar e a comer sozinha, trabalha o jovem que só estuda, trabalha o pobre para conseguir sua sobrevivência, trabalha o rico para satisfazer suas necessidades ilimitadas, trabalha o velho para manter-se em equilíbrio
e poder andar sozinho ... O trabalho é um componente fixo na vida de
qualquer indivíduo e aqueles que não estão envolvidos, sentem-se excluídos da sociedade.
U
Foi o trabalho que desbrutalizou o homem, que lhe abriu as
portas da ascensão social e intelectual. Foi o trabalho que o
libertou dos grilhões da ignorância e da servidão. Foi o
trabalho que deu ao homem a consciência
das suas
potencialidades. Foi o trabalho que propiciou ao homem conhecer e tomar-se 'Senhor do Universo'."
PAULA LEITE,
C.L. (1989;
p.457)
o
trabalho foi o elemento fundamental da ascensão da mulher nesse século:
somente através dele é que a mulher pôde se elevar na estrutura social se
igualando, pela primeira vez em cinco mil anos, aos homens que, desde a
Antigüidade, monopolizaram os estratos mais elevados dessa estrutura. O
trabalho tem sido a redenção da condição feminina.
1.1 - Distinções entre labor e trabalho
Na sua brilhante e incisiva análise sobre a condição humana ARENDT, H.
(1958) distingue "labor" e "trabalho". O primeiro está sempre relacionado
com
"painful efforts of our body 'necessitaded by its needs' ",
ou seja, é a própria sobrevivência ou a manutenção da vida humana. A
produtividade do
"labour"só ocorre ocasionalmente, considerando que a
preocupação principal reside na satisfação e garantia dos meios da própria
reprodução. O segundo, refere-se ao trabalho com as mãos que fabrica
"the sheer unending variety of things whose sum total constitues the human artífice. "
Os homens transformam a natureza com o objetivo de satisfazer suas
necessidades, dando origem ao
homo faber,aquele que inventou os
utensílios e ferramentas para construir o mundo e não somente para
satisfazer suas necessidades de sobrevivência. Para ARENDT, do ponto de
vista lingüístico, a palavra
"labour"não designa o produto final, o
resultado da ação de laborar, mas é da palavra correspondente a
"work"que
deriva o substantivo próprio da produção, ou seja, o trabalho.
Mantendo a mesma linha de pensamento, UDY, S. (1970) considera "labor"
como a produção de bens de consumo imediato e curta durabilidade para
necessidades imediatas no sentido de manutenção da vida. O processo
move-se sempre no mesmo sentido, como no círculo próprio da reprodução
biológica do organismo vivo e só termina com a morte desse. O "labor"
constitui
"man's metabolism with nature."
O "trabalho", por outro lado, cria bens de consumo durável, geralmente
através de intervenções no sistema de produção e modificações no ambiente
físico. Produz valor de uso ou de troca e só termina quando o produto está
acabado, pronto para ser agregado ao mundo das coisas, não estando
contido necessariamente no ciclo repetitivo da vida humana. Um "trabalho"
pode ser começado por um ser humano e terminado por outro, por uma
geração e terminado por outra, dependendo de sua complexidade e
necessidade social.
Após as diferenças assinaladas entre
"labour"e
"work", ARENDT(1985)
conclui afirmando:
"Se o 'animal laborans' precisa do auxílio do 'homo faber'
para atenuar seu labor e minorar seu sofrimento e se os
mortais precisam do seu auxílio para construir um lar na terra,
os homens que agem e falam precisam da ajuda do 'homo
fazer' em sua mais alta capacidade, isto
é,a ajuda do artista,
de poetas e historiógrafos, de escritores e construtores de
monumentos, pois, sem eles, o único produto de sua atividade,
a história que eles vivem e encenam não poderia sobreviver. "
(p. 187)
Portanto, para esses autores, "labor" está relacionado com a atividade de
satisfazer as necessidades de sobrevivência do ser humano, enquanto que
"trabalho" é a criação de bens que podem ter valor de uso ou valor de troca,
no momento em que eles estão prontos para o consumo.
"What everything really costs to the man who wants to acquire
it, is the toil and trouble of acquiring it. What everything is
really worth to the man who has acquired it, and who wants to
dispose of it or exchange it for something else, is the toil and
trouble which it can save to himself, and which it can impose
upon the other people."
SMITH, A.
(1937, p.30-31)Conceituar "trabalho" e entender seu real significado no cotidiano da vida das pessoas tem sido uma tarefa complexa, diante da multiplicidade de enfoques que ele tem adquirido ao longo da história e das transformações histórico-sociais por ele sofridas.
1.2 - O Trabalho e a Bíblia
A idéia de trabalho ligada à dor e ao sofrimento aparece na Bíblia, em seu primeiro livro. Tendo Deus criado a Terra e visto que ela era boa, criou o Homem para dela ser o seu senhor. Criou também a mulher para ser companheira dele pois não era bom que o homem estivesse só. Entretanto, por influência da serpente, eles desobedeceram a Deus e pecaram ao tomar
conhecimento do bem e do mal através da maçã da árvore proibida.
Desgostoso, Deus resolveu castigá-los e condená-los dizendo:
"maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela
todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e
abrolhos; e comerás das ervas do campo. Do suor do teu rosto
comerás o teu pão, até que tornes
àterra, porque dela foste
tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás. "
Gênesis3:
17-19A mulher, por ter tentado o homem também não escapou da condenação do Senhor:
•
"Multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor
darás
àluz filhos; e o teu desejo será para o teu marido e ele
te dominará. "
Gênesis3:
16trabalho com sofrimento. A Igreja Católica, prometendo felicidade futura no céu, dignifica o sofrimento no trabalho diário, pois a recompensa virá com certeza. Ao homem, então, só resta a resignação da vida presente para a obtenção da glória futura.
No Novo Testamento, em carta dirigida aos Tessalonicenses (Segunda
Epístola), São Paulo apóstolo adverte sobre a inevitabilidade do trabalho:
"Nem comemos de graça o pão de ninguém, antes com
trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia para não sermos
pesados a nenhum de vós. Porque, quando ainda estávamos
convosco, isto vos mandamos: se alguém não quer trabalhar,
que também não coma."
(3: 8-10)Somente aqueles que estiverem dispostos a trabalhar, deverão ganhar seu sustento e terão direito a comer.
o
trabalho representa, pois, não somente o meio de subsistência, mastambém, a única maneira do indivíduo estar integrado à sociedade, não
sendo o homem considerado como um peso para seus semelhantes. Pelo
trabalho, o homem passa a ter deveres e obrigações mas, também, direitos adquiridos.
ARENDT (1958) argumenta que o trabalho, no Antigo Testamento, é claramente considerado como uma punição ao pecado original.
"The redeeming value of working is of a secondary order:
through sharing the fruits of working with people in poverty
and distress. "
Somente através da divisão do trabalho e da produção de bens que possam repartidos é que é possível ao homem encontrar o caminho da redenção.
1.3 - As Sociedades primitivas
Nas sociedades pré-letradas não há uma designação específica para o
separação entre o tempo destinado ao lazer e ao trabalho, pois a questão principal era a sobrevivência do grupo, lutando contra as intempéries, os
animais e falta de conhecimento.
É
pouco provável que os homensvivessem em famílias isoladas pois a inferioridade do homem em relação à natureza hostil o teria dizimado. O homem salvou-se pela solidariedade do grupo.
De acordo com ORTEGA & GASSET,
"o homem primitivo ignora sua própria técnica como tal e não
sabe que, entre suas capacidades, há uma especialíssima que
lhe permite reformar a natureza no sentido de seus desejos.
Assim, a sua técnica ainda está na fase da descoberta casual. "
(In Ensimismamiento
y
Alteración, Buenos Aires, 1939)A diferença física que hoje divide os sexos não era reconhecida naquele
tempo. Homens e mulheres desempenhavam funções semelhantes, de
acordo com a necessidade do clã. Segundo DURANT, W. (1963, p.24):
"A mulher,
àparte sua perturbação mensal, igualava o homem
na estatura, na resistência, na habilidade e na coragem; não
era um ornamento social, um objeto de beleza ou um
brinquedo sexual, mas um robusto animal, com capacidade
para realizar durante horas os mais rijos trabalhos e, se
preciso fosse, lutar até a morte, pela progênie epelo clã."
A idéia de trabalho, principalmente relacionada ao sofrimento, dizia
respeito apenas à necessidade, não havendo questionamentos em relação à moral ou à divisão do trabalho propriamente dita.
O papel desempenhado pela mulher nas comunidades primitivas era de
grande destaque. A ela cabia todo o trabalho caseiro, desde cuidar da prole, cozinhar, fazer as vestes e os calçados. Acredita-se que ela tenha descoberto
e desenvolvido a agricultura ao redor do acampamento, aprendido\ a
domesticar os animais, iniciado a tecelagem e a cerâmica. Como a m4lher desempenhasse a maior parte das funções paternais, a posição do homem na
família era, a princípio, superficial. Responsável pela caça para a
Como o papel do homem na reprodução humana não era conhecido até
então, a estruturação dos sistemas sociais primitivos estava centrada na
1figura da mãe. Na hora da divisão dos grupos, quando eles cresciam demais
e a caça se tomava escassa, era através da hereditariedade feminina que se
determinava a separação. Os homens conheciam sua mãe, mas não o pai,
havia um forte elo de sangue entre eles, determinando, portanto a
descendência e a herança pelo lado matemo.
Quando o homem descobre que pode reproduzir os alimentos através da
agricultura intencional, descobre também seu papel na reprodução humana.
A terra na qual ele derramou seu suor para fazê-la reproduzir é de sua
propriedade. Ele deseja ofertar os frutos de seu trabalho para uma mulher
mas, em troca, exige dela a exclusividade. A partir do momento em que a
fidelidade feminina é exigida, a esposa passa a fazer parte dos bens
possuídos pelo marido, assim como os filhos gerados por essa união,
assegurando que a herança realmente só fosse transmitida aos filhos do
casal. O surgimento da propriedade privada, da exclusividade feminina e da
herança determinada pelo homem foi fatal à supremacia da mulher que
existia até então, passando o comando econômico para o homem .. Estava
encerrado o período histórico em que a mulher respondia pela unidade
familiar, pela organização da sociedade e pela herança dos bens.
1.4 - A Antigüidade
"as baixas artes mecânicas, assim chamadas... são tidas em
má reputação pelas comunidades civilizadas e com justiça;
não fossem elas a ruína dos corpos de todos que nela se
envolvem, trabalhadores e feitores, forçados a permanecer
sentados, encerrados em lugares escuros, ou a passarem dias
inteiros curvados diante de fomos. De mãos dadas com a
depressão física, vêm o enfraquecimento e a extinção da alma;
e tomando-lhes todo o tempo, essas mesquinhas artes
mecânicas roubam aos que nela se empregam todo o lazer,
impedindo-os de se dedicarem aos deveres da amizade e do
Estado."
DURANT, W. (1966; p.217)o
comércio também era desprezado, não passando de um meio de fazerdinheiro
à
custa dos outros. O objetivo do comércio não era criar produtos, mas sim comprá-los pelo mínimo e revendê-los pelo máximo, embora não fosse censurável o emprego do dinheiro no comércio, desde que outros fizessem o trabalho.Em toda sociedade em que haja estratificação social aparece uma classe ociosa, geralmente considerada a elite, que se encarrega da concepção do modelo da sociedade. Na Grécia, Platão definiu uma ordem social que pretendia ser imutável e eterna: os sábios em primeiro lugar, ou seja, a raça de ouro; os guerreiros em segundo lugar, ou seja, a raça de prata e os artesãos, em último lugar, como a raça de ferro e bronze. Os escravos não eram considerados como pertencentes à sociedade.
A verdadeira condição do homem livre era o
otium,
que o colocava em umnível verdadeiramente superior. Somente o homem livre era capaz de
pensar, de reconhecer a arte e de aprender as belas coisas da vida, gastando inúmeras horas na discussão filosófica das ciências e dos modelos sociais. O
nec-otium (negação do ócio) que deu origem à palavra "negócio" era
indigno do homem livre. Negociar era próprio dos trabalhadores que
precisavam se sustentar para viver e, portanto, não pertenciam à classe dos homens livres, como dizia Aristóteles, em seu livro "Política".
Os antigos não acreditavam na investigação experimental que depende do manejo de instrumentos e aparelhos, pois este é um trabalho manual. A técnica, como trabalho físico, não devia ser desenvolvida, pois pertencia
à
esfera da atividade humana inferior e servil.
"A representação coletiva do trabalho constituiu-se, portanto, numa condição inibitória do espírito inventivo, que freia os filósofos e os sábios no caminho da técnica, pois que, se eles insistissem neste caminho, estariam abraçando atividades não nobres, degradantes." GUERREIRO RAMOS (1952; p.22)
Platão esperava que os filhos seguissem as mesmas profissões dos pais e
que não houvesse questionamento quanto a isso. Em princípio não havia a
mobilidade social. Cada um deveria seguir exatamente o mesmo tipo de
vida que tivesse recebido como herança e educação de seus pais. A
condição de escravo, por exemplo, é definitiva; não pode ser modificada
pelo esforço competitivo do indivíduo; por mais que ele queira, sua
condição permanecerá a mesma. É incrível que essa concepção tenha
atravessado os séculos e somente tenha sido eliminada no fim do século
passado, quando a Princesa Isabel do Brasil, um dos últimos países do
mundo a libertar os escravos, assinou a lei que extinguiu definitivamente a
escravidão em nosso país.
No início, os gregos distinguiam o esforço do trabalho na terra da atividade
livre do cidadão. O trabalho na lavoura gozava de prestígio, tal qual a
atividade de guerreiro. No período helenístico o trabalho do campo passou a
ser realizado por escravos, perdendo seu caráter de importância. A
necessidade de "dar de comer" ao povo desestimulava o progresso das
técnicas e das máquinas, ocupando a grande quantidade de escravos obtidos
através das guerras vencidas pelos gregos.
"Se a diferença entre os homens livres e os escravos é de natureza, de virtudes, que fazer com estes últimos se, pelo emprego das máquinas, se tornassem inúteis?"
dizia
Aristóteles.
Os inventores preferiam, então, dar um fim lúdico às suas descobertas,
contribuindo para a diversão do povo. A compreensão e a valorização da
técnica só aparecerá mais tarde, com a superação do menosprezo pelo
trabalho manual e trará consigo toda uma transformação radical na estrutura
da sociedade.
decorrente da natureza do sexo feminino e como base para a divisão do
trabalho entre homens e mulheres.
"Xenofonte
justificou plenamente esta situação, invocando a
vontade divina, assim como o argumento da Natureza. 'Os
deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem
para todas as outras. Os deuses a puseram nos serviços
caseiros, porque ela suporta menos bem o frio, o calor e a
guerra. As mulheres que ficam em casa são honestas e as que
vagueiam pelas ruas são desonestas; para os homens seria
vergonhoso ficar em casa e não se ocupar das coisas fora de
casa.'
(economiques, VII)."
SULLEROT,E. (1970; p.28-29)
o
resultado dessa visão antiga do trabalho se resume numa diferenciação de
papéis entre o homem e a mulher, além de relegar a um nível inferior
aqueles ou aquelas que trabalhavam, anulando qualquer esforço de ascensão
social. Somente no século XX é que a mulher consegue se libertar do papel
de administradora exclusiva do lar e, sem se tomar desonesta, ganhar a rua
e todas suas promessas de realização profissional. Finalmente, Xenofonte
pôde ser contestado.
1.5 - A Idade Média e o Renascimento
Algumas características sociais da Antigüidade foram mantidas na Idade
Média e limitaram o desenvolvimento social e industrial, tais como: farta
mão de obra servil, estratificação social rígida, restrita variedade qualitativa
e quantitativa do consumo, insuficiente desenvolvimento econômico,
relativo isolamento das sociedades medievais, além de fatores religiosos. A
questão do desprezo pelo trabalho manual continua existindo e a elite social
utiliza-se dos escravos para todas as atividades diárias, até mesmo para
ajudá-la a vestir-se.
por dinheiro... A gestão dos negócios do mundo e o poder
pertenciam, conjuntamente,
ànobreza e ao clero, e eram
exercidos pela ascendência
espirituale pela violência. Ao
invés de ser uma fórmula de acesso ao mundo, o trabalho era
uma maldição divina, e quem quer que trabalhasse, longe de se
libertar, denunciava, com isso, sua sujeição a essa maldição.
As mulheres trabalharam muito durante a Idade Média. Se não
gozaram de igualdade total com os homens, tiveram contudo,
situações
mais
vantajosas,
relativamente
aos
períodos
precedentes ou seguintes. Realizaram as mais diversas tarefas
e trabalharam, seguramente, em muitas dessas obras que hoje
admiramos: tapeçarias, joalheria, rendas."
SULLEROT, E.(1970; p. 27-49)
Durante toda a Idade Média, a Igreja Católica assume um papel
preponderante, influenciando toda a estrutura social e comportamental da época. Não havia um só castelo feudal que não tivesse em seu interior um representante do clero, interferindo na vida da comunidade e, muitas vezes, impondo uma fé cristã de fachada. Não se pode conceber nessa época o
trabalho como instrumento de elevação social. Segundo
Bernhard
GROETHUYSEN (1943):
"é a Providência divina que cria ricos e pobres, não entrando
em sll:aintenção que os pobres se façam ricos. "
Nesse sentido, a pobreza era conseqüência direta dos inquestionáveis designos do Criador e a riqueza era considerada, em si, pecaminosa, mas em certos casos, inevitável pela herança. A concepção medieval do trabalho abrangia valores religiosos: servia para introduzir na vida pessoal valores de
sacrifício e desprendimento; o agricultor, o operário participam da
sociedade produzindo seus bens com o sentido de colaborar para o bem estar da comunidade, passando o trabalho a ter um sentido espiritual e um lugar na vida interior de cada um.
como sinal de deslealdade ao grupo. O sistema de corporação, vigente na época, reunindo e associando artesãos do mesmo ofício, estabelecia uma vida econômica equilibrada.
Santo Agostinho combateu a idéia de que havia incompatibilidade entre o trabalho e a vida monástica, argumentando que o clero poderia trabalhar sem ofender a Deus, mesmo sendo considerado como pertencente à elite da sociedade. Foi o primeiro a associar à palavra
otium
a imagem de preguiça e não de condição essencial do homem livre. São Bento também dizia que era importante que os Monges estivessem ocupados no trabalho manual em algumas horas e que, em outras, se dedicassemà
meditação das coisas de Deus.É
curioso observar que as mulheres exerceram profissões relevantes entre osséculos X e XIV, inclusive no âmbito da medicina. Algumas viúvas
conseguiram chegar à condição de mestras nas corporações, devido aos
conhecimentos adquiridos junto ao marido.
"Pouco a pouco, a situação das mulheres ia-se degradando.
Elas procuravam cada vez mais o trabalho porque eram mais
numerosas, sobretudo durante os períodos de guerra, e
aceitavam este trabalho a troco de remunerações cada vez
mais insignificantes, o que lhes atraía a desconfiança e, por
vezes, o ódio dos trabalhadores."
SULLEROT, E. (1970; p.57)
O Renascimento terá amplas conseqüências sobre a vida do homem, sua
o
relacionamento causal entre a ética protestante e o nascimento do
capitalismo é magistralmente analisado por Max Weber em seu clássico
livro "A Ética Protestante e o Espírito Capitalista". Ele afirma que é na
concepção do trabalho como instrumento de purificação e meio de salvação
que reside o espírito do capitalismo. O homem passa a ser o agente ativo e
construtor do mundo, e a satisfação do trabalho está contida no próprio
trabalho e não em suas conseqüências.
Dentro
daetapa medieval transcorria uma história secreta da revolução
industrial. Os homens procuravam, nessa época, explicações pelas leis
dedutíveis de observações e mesmo dentro dos próprios mosteiros
começaram a buscar o conhecimento das técnicas, uma vez que a lei natural
é autônoma e independente da verdade da revelação. Vale a pena lembrar as
experiências de Mendel, biólogo e botânico austríaco, com as ervilhas;. em
busca dos gens dominantes e recessivos, hoje conhecidas como as Leis de
Mendel, que não foram fonte de revelação divina, mas da observação
prática realizada pelo monge. Pequenas transformações, a princípio tímidas,
surgem vigorosas a partir da segunda metade do século XVIII, período
conhecido como a Revolução Industrial.
1.6 - A Revolução Industrial
O século XVIII marca uma profunda modificação na concepção do
trabalho, quando os iluministas passam a louvar a técnica, o domínio do
homem sobre a natureza e as artes.
Na Inglaterra surgem filósofos e economistas que propõem uma visão
inédita para o trabalho. Para William Petty, por exemplo, a riqueza tinha
por mãe a terra e por pai, o trabalho. John Locke, David Hume e Adam
Smith fazem parte de uma sucessão de progressos no pe~samento
econômico que elevaria o trabalho ao nível máximo de prestígio social, ou
seja, como fator de explicação da riqueza das nações.
"Não se vêem, porventura, povos pobres em terras vastíssimas, potencialmente férteis, em climas dos mais benéficos? E,
ou em territórios que não são favorecidos por dons naturais?
Ora, se
éessa a realidade,
épor existir uma causa sem a qual
os recursos naturais, por preciosos que sejam, nada são, por
assim dizer; uma causa que, ao atuar, pode suprir a ausência
ou insuficiência de recursos naturais. Em outros termos, uma
causa geral e comum da riqueza, causa que, atuando de
maneira desigual e variada entre os diferentes povos, explica
as desigualdades de riqueza de cada um deles. Essa causa
dominante
éo trabalho."
SMITH, A.
(apudHUGON, P.
1976; p.llO)
De acordo com a classificação de
GUERREIRO RAMOS
em seu livrointitulado "A Sociedade Industrial", a Revolução Industrial pode ser vista sob três ângulos:
1) do ponto de vista
tecnológico,
consiste no emprego intensivo e extensivo de máquinas e processos mecânicos na produção de bens, cuja procuraobteve um incremento extraordinário pela ampliação do mercado. As
inovações técnicas que propiciam maior rapidez são aceitas e valorizadas pois há um aumento de demanda a ser atendido;
2) do ponto de vista
econômico,
se caracteriza pela concentração de capitais e pela constituição de grandes empresas, cujo funcionamento, em vez de ser excepcional, tende a tornar-se a forma normal da indústria;3) do ponto de vista
social,
o aniquilamento do artesanato corresponde à alienação do operário do produto do seu trabalho. Consagra o princípio da competição segundo o qual a categoria e a posição dos indivíduos devem resultar de sua capacidade e diligência, e não de seu nascimento.era justamente em atividades menos remuneradas. Mesmo quando
esboça-se uma reação às condições anti-humanas que prevaleceram nas fábricas, às
mulheres ainda não se reconheciam igualdades de direitos e oportunidades.
"Para Proudhon, a mulher é um ser inferior congênito e de
quem não podemos esperar a menor evolução... Exprime
'cientificamente' o cálculo da inferioridade da mulher por uma
fração que· dá o valor da mulher em relação ao valor do
homem:
8/27!
O único destino da mulher deve ser o serviço do
esposo, as ocupações domésticas, a procriação. Sobretudo,
nada de diversões, sobretudo nada de educação, e ainda menos
de instrução e, como trabalho, nada que possa se parecer com
uma profissão. Uma profissão significaria salário, impressão
de independência, desgraça! A mulher, para Proudhon, não
devia poder bastar às suas próprias necessidades. Só a
concebe como doméstica ou cortesã; as boas serão domésticas,
as más serão cortesãs, bem entendido. Chega ao ponto de
desejar uma seleção genética que permita eliminar as más
esposas e formar uma raça de boas esposas, disciplinadas,
como se forma uma raça de boas vacas leiteiras. Pretende uma
legislação que dê ao marido amplos direitos de vida ou de
morte
sobre
a
mulher,
mesmo
em
casos
de
simples
'desobediência' ou 'mau-caráter' ... Para ele, a mulher que
trabalhava era uma ladra que roubava o trabalho de um
homem... "
SULLEROT, E. (1970; p.79)
Entre os socialista utópicos as mulheres encontraram apoio em Robert
Owen,
Saint-Simon
e
Charles
Fourier,
cujas
visões
e
previsões
contrabalançaram um pouco a interpretação mesquinha de Proudhon. A
posição da mulher no mercado de trabalho foi também analisada e
defendida por vários filósofos do século XIX, como por exemplo, Karl
Marx, Stuart Mill e August Babel.
forma o trabalho humano e que não se toma possível na produção industrial
mecanizada e em série. O homem passa a não ser dono do projeto que
produz. Para Marx, o trabalho pertence ao reino da necessidade; o reino da liberdade deverá ser conquistado no tempo livre, que o trabalhador deve reivindicar cada vez mais.
Fazendo um paralelo da concepção do trabalho nas sociedades
pré-industrial e industrializada, percebe-se a degradação e a alienação do
trabalhador.
Nas sociedades pré-industriais (na economia de subsistência), otrabalho é indissociável de seus fins, produz-se para satisfazer necessidades limitadas e o trabalhador decide o quê, como e quando produzir, bem como o ritmo de sua produção. Dispõe de seu tempo de trabalho, de sua duração, intensidade e interrupções. Na sociedade industrializada a situação é muito diferente. A maioria das pessoas não tem a capacidade de decidir qual será o produto de seu trabalho, que se toma uma carga, um esforço e uma fonte de desprazer. Os trabalhadores não podem controlar e determinar o seu processo de produção pois o ritmo é imposto pela máquina.
A Revolução Industrial, apesar de todos os problemas que trouxe, conseguiu
para o homem um novo caminho: através do estudo das técnicas,
multiplicaram-se as inovações, ampliou-se o mercado de trabalho e
consumo e o homem passa a ter oportunidades manca antes imaginadas,
conseguindo com seu trabalho a possibilidade de mobilidade social.
1.7 - O trabalho segundo algumas religiões
A visão judaico-cristã considera o trabalho como uma forma de punição ou um castigo, como um dever ou uma obrigação em relação a Deus e à
sociedade. Pelo fato de ter pecado, o homem trabalhará sempre com
sacrifício, para resgatar o perdão ao pecado original, como forma _de compensação à desobediência aos preceitos divinos. O trabalho é visto como um processo difícil de envolver o homem e a mulher com a natureza, pois Deus não quis facilitar a atuação do homem na terra (Gen. 3), devendo
haver um esforço grande para o conhecimento e desenvolvimento dos
produtos. Há, entretanto, uma ambivalência nessa colocação, pois Deus é considerado como pai, fez o homem à sua imagem e semelhança, e quer a
instrumento de Deus, contribuindo para a realização progressiva do Reino de Deus na terra e no céu.
"Religious pronouncements 'considered (working) as helping
to build God's kingdom - working was good, hard working
better."
DRENTH (1984; 1197-1229)Os hebreus tinham compreendido bem isso, pois partilhavam o tempo entre
o estudo
dos textos sagrados e o exercício de um trabalho manual. Pelo fatodo trabalho ter duas funções, ser manual e penoso, ele representava uma expiação do pecado original; por ser intelectual e enobrecedor, representava uma oportunidade para cada homem participar da salvação da humanidade.
Santo Tomás de Aquino chamava o trabalho de
bonum arduum -
bem árduo- mas, assim mesmo, um bem do homem. Não é só um bem de que se pode usufruir, mas é um bem "digno" que corresponde à dignidade do homem e que a aumenta. Mediante o trabalho, o homem não somente transforma a natureza, adaptando-a às suas próprias necessidades, mas também realiza-se
a si mesmo, tomando-se mais homem. A virtude do trabalho é que ele
faculta ao homem tomar-se bom como homem. O desafio é transformar a natureza e então realizar o desejo de Deus que é de submeter a natureza
para atingir a auto-realização do homem de acordo com Sua imagem e
semelhança.
"O trabalho, portanto, não
éuma virtude em si, mas um meio
de obter a bênção divina e, deve-se salientar, de ter acesso a
uma
vida futura
livre
do
trabalho
manual."
LÉVY-LEBOYER, C. (1994; p.52)
As religiões não-ocidentais parecem colocar uma ênfase diferente em
relação ao trabalho, não mais como uma necessidade de subjugar e
transformar a natureza, mas, principalmente, como a execução de uma
obrigação social, um auto-desenvolvimento, com vistas a receber .
recompensas.
Nos ensinamentos islâmicos, o trabalho aparece como principal atividade humana para tomar o homem agradável e aceitável a Deus. Alguns extratos
de Palavras de Muhammad, recolhidos do Allama por Sir Abdullah
AI-Mamun Al-Suhrawardy (1949) dizem:
"He who neither worketh for himself,not for others, will not receive the reward of God.
Who is able and fit and doth not work for himself, or for others, God is not gracious to him.
Those earn an honest living are the beloved of God.
God is gracious to him that earneth his living by his own labour, and not by begging."
Já para o pensamento budista, só é possível atingir o Nirvana pela liberação
de cada um de suas paixões que impedem e restringem a realização ideal e
total do indivíduo. De acordo do Dôgen (1220-1253), o fundador da 'seita
Sôtô do Zen Budismo, o caminho para o Nirvana é executar as mais simples
e-banais atividades diárias como tomar chá, comer arroz e carregar a água.
O padre Suzuki Shôsan (século XVIT) , estendeu essas noções para a
maneira correta de se agir nas profissões, que ele contrastou com a
influência da paixão pelo ócio:
"When one carries out ardous and difficult tasks and when one suffers from it, one is not constrained by passions. One then
".
practices a Buddhist activity. "
Então, o Nirvana pode ser alcançado através de um trabalho profissional
duro, como por exemplo arar a terra ou através de um trabalho físico que
exija grande esforço. Mas, não só através do esforço físico é que pode-se
chegar ao Nirvana: um avanço espiritual e o desenvolvimento para a
formação do caráter são concebidos como importantes formas de unificação
do processo.
1.8 - As dimensões atuais do significado do Trabalho
Qualquer que seja a origem, o tamanho e o objetivo de uma organização é
através dela que o homem realiza seu trabalho e toma-se atuante na
sociedade em que vive. Foi através do trabalho que o homem se construiu.
É o trabalho humano que marca a existência e permite a sobrevivência do
homem; o homem será o que o seu trabalho for. O trabalho é também uma
via de identificação com o outro, permite tanto a criação como o tédio, leva
à
miséria ou à fortuna, traz felicidade ou tragédia, representa a realização ou
a tortura do homem.
FRIEDMANN,
em seu livro
O trabalho em migalhas,
apresenta os
diferentes enfoques que o trabalho pode assumir, levando em conta alguns
aspectos:
• aspecto técnico, referente à utilização dos conhecimentos específicos da
tarefa, à adaptação social e profissional ao conteúdo do trabalho;
• aspecto fisiológico, se refere ao grau de adaptação do homem ao lugar do
trabalho, ao meio físico em que ele atua, ao problema da fadiga e das
doenças profissionais ocasionadas pela má-postura ou posições forçadas,
extensão das horas trabalhadas, poluição e insalubridade;
• aspecto moral, considerando o grau de consciência e envolvimento com
o trabalho, as relações entre a tarefa e a personalidade do trabalhador,
suas aptidões, motivações e satisfações;
• aspecto social, enfocando a interdependência entre o trabalho e o papel
social do indivíduo, isto é, seus relacionamentos externos ao trabalho
como família, partido político, sindicato, religião, classe social, clube,
etc.
• aspecto econômico, como fator de produção de riqueza, geração de bens
para atender as necessidades dos indivíduos através de todos os tipos de
organizações.
mesmos colegas, os mesmos fornecedores, ou seja, não havia uma
identidade própria do funcionário, apenas a identidade da empresa. O
indivíduo só existia em função da empresa, adotava até o sobrenome da
empresa (fulano da empresa tal) e o emprego, em princípio, era para
sempre, ou, no máximo, mudança entre duas ou três empresas em toda uma
vida de trabalho. Quem mudava muito de emprego era mal visto, pois não
conseguia se adequar a nenhum tipo de serviço.
Hoje não existe mais relação estável com as empresas, pois a pessoa é a
única responsável pelo seu projeto de vida. A empresa vai oferecer
possibilidade de desenvolvimento para quem tiver empregabilidade, isto é,
características e competências que sejam desejadas para alcançar os
objetivos propostos pelo empregador. Cada um desenvolve sua competência
onde e quando os espaços se apresentarem, sem a preocupação fundamental
de permanecer para sempre na mesma empresa. O comprometimento com a
organização só existe enquanto as duas partes estiverem satisfeitas.
Diante das oportunidades que se oferecem no mercado de trabalho, existem
cinco dimensões do trabalho
(CHIAVENATO, I.1994) que estão sendo
valorizadas
pela
maioria
das
empresas
que
oferecem
colocações
consideradas interessantes pelas pessoas que ocupam posições nas
organizações:
1)
Variedade de habilidades:refere-se
àpossibilidade da pessoa poder
fazer uso de diferentes aptidões, habilidades e talentos. Quanto maior o
grau de variedade de habilidades, mais a pessoa vai ter um trabalho com
operações e equipamentos diferentes, desafios e oportunidades de
executar atividades criativas e inovadoras. Se existe um baixo grau de
variedade de habilidades, o trabalho se apresenta como monótono,
repetitivo, rotineiro, sem qualquer expectativa de mudança.
, '.
3) Significado das tarefas: é
a noção da interdependência da atuação da
pessoa com as outras, ou seja, a participação do seu trabalho na atividade
geral do departamento ou da área e com a empresa como um todo. O
trabalhador precisa ter o conhecimento amplo da repercussão do seu
trabalho sobre os demais que estão sendo executados na empresa. Quando a
pessoa tem uma visão confinada ou míope do seu trabalho, sem perceber o
que é mais importante ou relevante nas coisas que faz, ela apenas cumpre o
que lhe foi pedido sem estar realmente envolvido com a qualidade e os
resultados
do que está fazendo.
4) Autonomia:
tendo conhecimento do que deve ser feito e liberdade para
programar suas atividades, a pessoa aumenta sua responsabilidade com o
desafio que lhe está sendo proposto, eliminando a dependência e a
necessidade do controle externo. Quando o trabalho é rigidamente
programado, com local e equipamentos definidos e o chefe determina o quê,
quando, onde e como fazer, o indivíduo perde sua autonomia e aumenta sua
insatisfação no emprego. A autonomia leva o trabalhador a responder pela
execução completa do projeto, dando-lhe oportunidade de realmente
mostrar do que é capaz.
5) Retroação ou ''feedback'':
o próprio trabalho fornece uma informação
clara e direta sobre o desempenho e os resultados que a pessoa está
conseguindo; isso é fundamental para que a pessoa possa adquirir senso de
auto-avaliação e auto-controle. A ignorância sobre sua performance impede
a auto-realização e o indivíduo passa a depender de avaliações externas e de
incentivos salariais. Quando a pessoa executa um trabalho que ela sabe que
é
de sua competência, conhece os objetivos e a maneira de executá-lo, a
própria realização da tarefa permite a avaliação e a conseqüente
auto-realização.
Uma das fontes mais importantes para a evolução das dimensões atuais do
trabalho para o indivíduo foi oferecida por um grupo de pesquisadores,
MOW International Research Team, que publicou em 1987, pela Academic
Press Inc. de Londres, um trabalho intitulado "The Meaning of Work", onde
relatam não somente o objetivo da pesquisa mas, também, detalham como
foi feito o questionário e quais os resultados obtidos. Consideramos este
trabalho tão importante, que ele serviu de base para nossa pesquisa, embora
adaptando-a para nossa realidade.
.
,A principal contribuição desse estudo refere-se ao conceito da
Centralidade do Trabalho que eles definem como:
"A general belief about the value of working in one's life".
MOW (1987; p. 17)
Existem dois componentes teóricos para a construção da centralidade do trabalho: o primeiro envolve uma orientação valorativa, considerando o trabalho como um papel da vida; o segundo envolve a orientação da decisão sobre a preferência do comportamento de cada um, nas esferas da vida.
A orientação valorativa apresenta duas propriedades: a identificação com o trabalho - resultado de um processo cognitivo baseado na comparação
entre o trabalho como uma atividade e a percepção do eu ("seU),
contribuindo para a auto-identificação; e o envolvimento ou
comprometimento - considerando o envolvimento como uma resposta
afetiva ao trabalho, como uma parte da vida da pessoa e o
comprometimento como resposta às experiências já vividas. Os dois
comportamentos, identificação e envolvimento-comprometimento são
mutuamente reforçadores.
O segundo componente da Centralidade do Trabalho, ou seja, a orientação da decisão parte da premissa que as experiências da pessoa são segmentadas em várias esferas e que as pessoas apresentam diferentes preferências entre elas. A questão da decisão refere-se, portanto, à escolha da esfera pelo indivíduo e o correspondente comportamento em relação a
ela. Como a pessoa não está igualmente envolvida ou comprometida com
todos os segmentos de sua vida, necessariamente há um processo seletivo. Pode-se dizer, portanto, que a Centralidade do Trabalho é:
"A mesure based in cognitions and affects that reflect the degree of general importance that working has in the life of an individual at any given point in time." MOW (1987; p. 19)
O novo ambiente organizacional onde se desenvolvem as carreiras
enfrentar a concorrência no segmento que estiver mais de acordo com sua escolha.
Hoje, a "empregabilidade" é que conta, seja o empregado homem ou
mulher. O capitalismo acabou gerando uma empresa que dificilmente
poderá prescindir do concurso do trabalho das mulheres em todos os níveis hierárquicos.
Em
contrapartida, toda mulher que estiver disposta a enfrentar os riscos e os esforços intelectuais das carreiras profissionais modernas encontrará abertas, como nunca, as portas dos caminhos para a realização pessoal.Analisando a evolução histórica e filosófica do trabalho, verifica-se que ele tem sido, ao longo dos tempos, fator chave e de importância fundamental na vida de qualquer ser humano. Seja ele considerado como obrigação ou fonte
de satisfação pessoal, punição ou meio de agradar a Deus, homens e
CAPÍTULO
11
o
SIGNIFICADO DO TRABALHO
PARA O INDIVÍDUO
11.1- As Diferenças Individuais dos Sexos
Desde os tempos mais remotos, sempre que se tenta estudar o envolvimento humano com o trabalho, surge a questão da diferenciação sexual, da relação entre os sexos, da adaptação do homem e da mulher ao ambiente, assim
como qual o papel que cada um deve desempenhar nas atividades
cotidianas.
Várias foram as ciências que se debruçaram sobre o assunto: a genética tem procurado explicar as causas e os processos -que levam à diferenciação sexual; a endocrinologia mostra a influência dos sistemas glandulares; a
sociologia se preocupa com as conseqüências sociais dos movimentos
feministas, mas é a psicologia que tem estudado os comportamentos
masculinos e femininos, comparando as habilidades e os traços de
personalidade que possam explicar as atitudes diferenciadas.
A psicologia diferencial estuda as diferenças individuais, ou seja, explica porque
"a 'lei', a relação, verdadeira na sua forma geral para a espécie inteira, diversifica-se entre certos limites quando consideramos sucessivamente indivíduos particulares. "
REUCHLIN, M. (1965; p.45)
Entretanto, a questão fundamental continua a mesma: as diferenças
individuais são inerentes à natureza humana, portanto hereditárias
biologicamente, ou, ao contrário, são forjadas através da ação de fatores
sócio-culturais? Quanto mais os estudiosos procuram respostas, mais
11.1.1 - Os fatores biológicos
Através de um estudo bastante profundo publicado em seu livro
"Psychologie différentielle des sexes"
Roger PlRET
(1965) nos apresentadados da biologia sobre as diferenças físicas dos dois sexos e suas
conseqüências. Além da diferença sexual propriamente dita, que estabelece para o sexo masculino o par de cromossomas XY e o sexo feminino por XX, existem outras características físicas que permitem distinguir os sexos:
os ossos femininos são menos volumosos, as extremidades menos
acentuadas e todas as partes do corpo relacionadas com a função
reprodutora são as mais diferenciadas. A pele feminina é mais fina, sua pigmentação é menos pronunciada e a calvície é quase sempre apanágio do sexo masculino. O peso absoluto do cérebro masculino é, em média 1.360 gramas e o da mulher, 1.220 gramas. A importância da descoberta do peso do cérebro tem ajudado a identificar os sexos dos esqueletos pré-históricos, permitindo a relação entre os objetos encontrados ao redor e o tipo de vida e trabalho desempenhados pelos ancestrais. Recentemente descobriu-se que o cérebro masculino possui 4 milhões de neurônios a mais do que o feminino.
Por outro lado, C. Edward COFFEY, do Hospital Henry Ford de Detroit
no Estado de Michigan estudou problemas do envelhecimento do cérebro e afirmou que:
"nós descobrimos que esse envelhecimento do cérebro é mais acentuado para os homens do que para as mulheres em três regiões do cérebro, que são ligadas ao raciocínio, ao planejamento e à memória. "
O estudo foi feito com 330 homens e mulheres com mais de 66 anos, cujos cérebros foram mapeados por meio de ressonância magnética. Os resultados mostram que entre os 65 anos e os 95 anos os homens apresentam um
aumento médio de 30% da quantidade de líquido cérebro-espinhal que
envolve o cérebro, o que indica o encolhimento desse órgão. Nas mulheres dessa mesma faixa etária, o aumento da quantidade do líquido cérebro-espinhal encontrado pelos pesquisadores foi em média de 1%.
A força muscular constitui um outro fator importante da diferença entre os
sexos. Desde o nascimento, os meninos apresentam músculos mais
desenvolvidos, tamanho maior e propensão a jogos e brincadeiras mais
as mulheres não conseguem alcançar as mesmas médias recordes individuais em esportes como corridas, natação, levantamento e lançamento de pesos, etc.
Além disso, observando os estudos de SCHEINFELD, a taxa de concepção de meninos é 20% superior, reduzindo-se a 5% no momento do nascimento
porque a mortalidade pré-natal masculina é maior. BOUCKAERT,
estudando a população adulta européia estabeleceu que a relação numérica entre homens e mulheres varia de país para país: para cada 100 mulheres existem 93 homens na França, 92,4 na Inglaterra, 95,4 na Alemanha e 97 na Bélgica. As mulheres parecem mais fortes para resistir às doenças, embora os números indiquem que elas apresentam taxas maiores de enfermidades como problemas glandulares, metabólicos e nervosos, diabete, cálculos biliares, câncer no sistema reprodutor, etc.
No mundo animal, principalmente entre os mamíferos, a fêmea é mais
importante para a conservação da espécie do que o macho, pois ela é
responsável pela maternidade e pelos cuidados com a prole. Para o macho, o papel reprodutor não é mais do que uma atividade, deixando-lhe total liberdade após ter dominado a fêmea. Entre os humanos, entretanto, não se pode generalizar esta atitude pois os efeitos da vida social e os fatores
sócio-culturais individualizam a relação. Se homens e mulheres são
diferentes biologicamente, essas diferenças sexuais podem ser ampliadas, dependendo do ambiente em que foram inseridos cultural e socialmente.
11.1.2 - Os fatores sócio-culturais
A história das civilizações nos mostra que a vida biológica do ser humano
está sempre relacionada com os fatos dos quais ele participa,
independentemente do seu conhecimento ou vontade. Desde os tempos mais
remotos, quando os povos primitivos ainda eram nômades, a mulher
do ferro, bem corno a necessidade da força física para a produção, foram
pouco a pouco afirmando a dominação do homem sobre a matéria,
estabelecendo o sistema patriarcal de dominação e levando a mulher a ser considerada como objeto possuído da mesma forma que os outros bens. A mulher passa do domínio do pai para o do marido e os estereótipos sexuais completam a evolução dos papéis masculinos e femininos, ao longo de toda a história da civilização.
A partir do momento em que o sexo da criança é reconhecido
biologicamente, a sociedade lhe atribui um sexo psico-social. Os pais tendem a multiplicar as indicações de que seus filhos e filhas são diferentes:
roupas diferenciadas, brinquedos orientados para um verdadeiro
condicionamento da percepção masculina ou feminina, transmissão de
atitudes e condutas mais aceitas pela família, tudo em busca de uma
concepção generalizada do papel que o homem e a mulher devem
desempenhar na sociedade.
PlRET cita em seu livro que Margaret Mead estudou três sociedades primitivas da Nova-Guiné: nos Arapesh, homens e mulheres são dóceis e sensíveis; nos Mundugumor, os indivíduos dos dois sexos são violentos e
agressivos; nos Chambuli, os homens submetem-se às mulheres que
assumem a conduta da família. Dependendo do meio social e da cultura estabelecida nos diferentes grupos, os indivíduos de ambos os sexos podem
assumir comportamentos e papéis diferentes daqueles que estamos
acostumados a ver nas sociedades ocidentais.
"Mais, de toutefaçon, l'influence du milieu s'exerce três tôt et conditionne la perception de la distinction des sexes. " PlRET,
R. (1965; p.21)
Baseada na diferenciação sexual, a criança faz uma imagem de si mesma não somente do ponto de vista físico, mas também em relação às suas
tendências e interesses. Segundo BUYTENDUK,
"il n 'y a qu 'un être humain, mais il peut différencier son existence suivant deux dimension: 1) un mode masculin d'expansion, qui constitue l'homme en 'homo faber', son monde en un monde d'obstacles et de moyens; 2) un mode féminin d'adaptation, qui est de demeurer
prês
des choses etNa época em que o livro foi escrito de PIRET foi escrito, considerava-se
que as mulheres tinham atitudes mais dependentes, exprimiam sua
melancolia e queixas com maior freqüência do que os homens que, em princípio, estabeleciam objetivos mais definidos, davam conselhos sem desejar recebê-los e se irritavam com obstáculos aos seus desejos. Tanto homens como mulheres podem transitar nas duas dimensões propostas por
BUYTENDUK, buscando maior realização pessoal e profissional.
Geralmente as diferenças entre os sexos são formas de comportamento
condicionadas pela sociedade, visto que a natureza humana tem condições de se adaptar às condições sócio-culturais impostas pelo meio.
As diferenças físicas podem interferir nas diferenças comportamentais, mas
é através do condicionamento social que as pessoas adquirem o
conhecimento da expectativa dos seus papéis sociais, tanto masculino como feminino, levando à aceitação ou rejeição dos estereótipos propostos pela sociedade em que se está inserido.
o
ponto de vista mais amplamente aceito da relação entre a hereditariedade e o meio é o da interação. Tanto os efeitos dos fatores hereditários como os do meio não são cumulativos, mas cada um influencia e contribui com o outro. Segundo ANA TASI, A.:"um fator ambiental qualquer exercerá uma influência diferente dependendo do material hereditário específico sobre o qual atua. Da mesma forma qualquer fator hereditário atuará de maneira diferente sob condições ambientais diferentes. " (p. 73)
11.1.3 - As funções sensoriais e motoras