"
TRAGÉDIA: UMA ALEG ORIA DA ALIENAÇÃO*
Mário Feando
BOLOESI**
RESUMO: A prieira peça e Vladímir Maiavski, Vladímir M aik6viski: uma tragédia, de 1913 , é coposta sob o sigo da abstração. A metfora das personages, a poesia meton{mica e o deslcmeto do fco e ação do sujeito para o objeto contribuem para a construção de iages cênicas abstratas da alieção. O pricipl procedieto pético do autor é o aleg6rico.
UNTERMOS: Abstração; alegoria; alieação; teatro e hst6ra; parábla.
1 . Vladímir Maiakóvski: uma tragédia: é a primeira obra dramatúrgica de Vladímir Maikóvski (1893- 1930), comosa em 19 13. As primeiras denominaçes da eça foram A esrada de ferro e A revolta dos objetos (7, p. 45).
O
segundo título deixa entrever o tema abordado; o primeiro, remete, alusivamente, ao ambiente scio-conômico russo, evcano o Plano de Indusrialização czarisa. Contudo, o título com o qual a bra icou conhecida é resulado de uma confu�o com a Censura, que deu ermissão para a representação da eça Tragédia Vladímir Maiakóvski,l
como incrito na primeira página do original (7, p. 46).*
Este texto é um resumo da dissertaço de mesrado Tragédia: a alegoria da alenaçáo. São Paulo, Escola de Comunicações e rtes da USP.
1987. 199 p.
* *
Deprtamento de Filosofia - Faculdade de Filosofia e Ciências - UNESP
- 1 750
_A Tragédia· é comosta de dois Atos, um Prólogo e um Epílogo. Não é fácil decrever sucinamente o seu enredo. Ele gia em tomo de uma revola que se manifesa sb dois asectos: em primeiro lugar, próximo o fatual, á alusão de uma reelião dos páias conra os gordos burgueses; logo em seguida, a rebelião anterior, de cunho hisórico, ansforma-se na lua absraa dos objeos conra os homens.
Com exceção do Pea Maiakóvski, as demais personagens se apresenam como imagens de uma mutilaço. São es: Uma Mulher Enorme, amiga do Pea; Velho com Gatos Negros e Magros; Homem Zarolho e Penea; Homem com Uma relha; Homem sem Caeça; Homem de Ca onga e Macilena; Homem com Dois Beijos; Jovem Convencional; Mulher com Lagrimazinha; Mulher com Uma Lágrima; Mulher com Uma Lagrimazona; Groos Vendedores de Jonal (Beijos Infanis).
Na nrraço do Prólogo, o Peta ergunta ao esecador e este ae a razão ela qual, em meio à tormena, ele entrega sua alma pra um banquete do futuro. Aós este questionamento, ele enumera fatos que coniguram os temos temestuosos: o tdio, enforcado, sobre as alameas de pedras; ones retorcendo-se; o céu aos prantos; uma nuvem de ca tora; m servo moto a eijos; um mulher grávia, a quem Deus á um imecil zarolho, etc. Terminadas as imagens que comem o quadro de desordem, o Pea convca a odos para que se juntem a ele e partilhem de uma revelação advinda aravés de sua esia. Desta revelaço, resultará o enconro do homem consigo mesmo, quando seus lábios estarão prontos para imensos beijos. Finalmente, o homem enconrá harmonia com a máquina e uma ra de rem oderá abraçar o pescço do Peta.
No rimeiro Ato, o Pea conva e incia os mutilados pra e reelarem cona os burguees. Dese inciamento, o Velho com Gaos Negros e Magros chama a atenção para a oura revola, a dos bjeos. A partir de enão, tdo o rimeiro Ato rancorre em tomo da dicussão sobre a naureza dos objeos, se estes ossuem, ou não, uma alma. Ao inal dese Ato, o Homem arolho e Penea vem nunciar a revolta s coias, que esá mno cona da cie.
No Segundo Ato, pasada a reelião, o Peta está coroado em eu rono quando rês mulheres vêm rzer-lhes suas lágrimas. Ele não quer rceê-las; não sae o que fzer com anas dores. Diante deste dilema, aprcia o relao de um homem que recee dois eijos de preente e não vê utilidade neles. Ao inal, recolhe as lágrimas das mulheres paa enregá-las ao eus s Tomenas.
No Epílogo, o Pea retoma à cena, dirigindo-e ao público, para mr que eus é um ladrão. Por ouo lado, interroga obre o resonsável ela desumanidade das idéias, Termina sua narração volando-se obre si memo, vendo-se ora um galo holandês, ora como rei de uma república. Contudo, há momentos em que aprcia exclusivamente o seu próprio nome: Vladímir Maiakóvski .
•
Denominação adotada no decorer deste rabalho pra a obra
Vlad{mir Maiaóvski: a tragdia.2. Provavelmene, dese Epílogo enha deivdo o ítulo inl
a
a
. Ela nãofz
referência explícia ao complexo signiicado a oba; nes, deixa ansparecer um ossível eixo de discussão, aquele que se aceca e uma única erongem, o própio Poeta. Se o Pea é, efetivamente, a única ersonagem, sendo as demais aenas expreses esquemátics que servem de aoio a um apente iálogo (7, p. 47), enão termina-se or admiir o cenalismo signiicne desa eronagem. Ms isto, or si Ó, não coesone à signiição em eu conjuno, uma vez que, fruos e uma absao do autor, as outras personagens são suortes a coniguração desumana s idéias olemiadas em cea.ss
eoagens equemics comem um único e vso Coo, qe vem a r o auênico pgnisaa
ç.A fábula apesena uma cera unidade. Ela inicia-se sob o signo da ormena. Desenvolve-se, no Primeiro Ato, em tomo da mutilação das personagens, problematizando a si,
o mundo e s
coiss, em meio a uma reelião exterior que, aos poucos, toma conta de toda a cidade. No Segundo Ato, passada a revola, o Peta defronta-se, mais uma vez, com as dores humnas, expressas nas lágrimas das três Mulheres. A dúvida toma cona da cena. Ao final da parábola do Homem com Dois Beijos, o Pea resolve entregar o sofimeno ao eus provcador as ormenas. Assim, o pincipal motivo do enredo retoma à sua origem, após ter se cristalizado nas esonagens mutiladas, em meio a uma reelião toal das coias. Não há, nesta ajetria, uma solução nívca pa nas ess qe e abem sobe s eronagens.s principais momentos a Tragéia ão nrivos. s nrçes, como de eso tdo o texto éico, não odecem a criérios de veacidade. Els e erguem obre imagens éticas, diversiicndo um mesmo esao de cois: o caos e a esordem.
rólogo e Epílogo descam-e ela imdiaez com o público. Os Atos têm sentido próprio e, em concordância com o tdo, e jusapem, de forma que a eelião dos objetos ssume lugar de desaque, como marco divisóio e como índice simólico de emoiade.
No á, a Tragédia, uma ação earal poamene dia. Quando picia da obra, ela não acontce em cena: é aenas relatada. Qualquer esbço de aço é resosta a uma movimenação de maior vulto que acontece exteriormente. Este fator impime uma culiariade à a: a de eor-e consnemene a foa de si. Uma ligaço esteia e esaelce enre a ação exena e o tom predominanemene nrativo que toma cona das cenas. Não há um desenrolar autônomo do enredo. Ele está conjugado com o nscoer exeno de alguns fenômenos, vndo a r uma elexo oe eles.
3. As personagens concebidas por Maia:óvski são fragmentos de homens. Apresenm-se mutilas, ansfomaas, como e fsem coiss. Pa cada uma fala-lhe uma determinada pe. A mutilação preena-se sob dois asectos: um primeiro, de ordem ísica, no qual e realça a ausência de membos e outros órgãos do coo, como ea, olho, caeça e relha; o eguno e á ea mnifesação hierólica da principl cracteística a ersonagem. Assim, o Homem com Dois Beijos, or exemplo, realça sua muilação emcional e fetiva aavés dos eijos. O Velho milenr, represenane do
temo e da história, crrega gatos negros esquálidos, ois estes, segundo as miologias egícia e grega, o eem acariciados, roorcionm a faíca elétria· (7, p. 23).
Com exceção do Pea, todas as ouras ersonagens comõem um vasto coro, ccerizado ela mutilação. O Pea, no rimeiro Ato, cumpre o pael decisivo de principl anagnisa do Coro dos Mutilados, qe tem cmo Corifeu o Velho com Gatos Neos e Magros. No egundo Ao, entreano, o Peta deixa esa funço, integrndo-e ao Coo e à sua poblemática.
O proagonisa da Tragéia, o Coro dos Mutilados, é comosto de várias silhueas, imagens de m mesmo fenômeno: a alienação. Pora-se. Nesse aspecto, como uma meáfoa e uma sitaço crcea esencimente ela coisiicão dos homens. Sob a forma de ersonagens-imagens, esta metáfora sintetiza a fagmenação do sujeito. Ao Coro resta uma única unidade: a unidade na mutilação, tanto corporal como da consciência.
O exto ético é o suorte máximo de sustenaão s eronagens e da obra como um todo. Ele se consrói, basicamente, sobre imagens hiperólicas, nas quais se valorizam as caracerísticas incomuns dos objetos. As coias abandonam o eu lugar e uo coidianos, e ganham existência humana. Ao e narem auônoms, elas traduzem coneúdos e propiedades dos homens. Nese caminho, o exo apresenta a humaniação dos objeos, uma expresão ética da coisiicação dos homens. Os rcusos formis que ossibilitam este ato ão, ao nível do texto, a metonímia e o deslocamento do fco de imagem, o sujeio para o objeo.
Quando a meáfora e a metonímia se enconam e vêm aplicadas junamente ao deslcameno do fco de imagem, do sujeito pa o objeo, o enredo gnha complexiade. Além da reelião dos mutilados contra seus opressores, o tema da revolta passa a er visto tamém ao nível dos objeos. Estes ganham existência auônoma, emora fruo do mesmo processo de mutilação que der origem às personagens. O resultado é a cristalização de um universo imagético absrao, que fz da eça um confrono conceitul obre a lieaço, o eio s relaçes de rabalho.
Assim, de-e ecr três níveis distintos de comosição. So distintos apenas pa efeito de comprenão, ois atuam conjunamente no trancorrer do enredo. São eles: a) imagem da mutilação das ersonagens; b) no âmbio da esia, imagem deslocada do sujeito pra o objeo; c) imagem absaa da mutilação: preença convergene da meáfoa ciência e da metonímia, o nível ético.
A consante interecção destes níveis ermite a exploração da complexidade do fenômeno da alienço. Assim, aravés da meáfora s ersonagens-imagens, o ecurso
metonímico, próprio do exo ético, e do deslmento do fco de ação do sujeito pra
o objeo, é ossível aordar o tema sob vários ângulos: a) o do traalhador em relação à
•
Note-se a ambivalência de signiicado dos gatos. Eles raduzem o tempo em sua
manifestação do passado, aoiado na mitologia, e do presente, qundo produzem faísca
elética pra o cionr das máquins.
máquina (que resula na metáfora da mutilação, própria das ersonagens); b) o do rabalhador com os objetos, quando a metonímia da oesia é osta ob o fco do deslmento da ção, alcnçando, assim, a humanização do objeto; c) or im, o dos obetos que e revolam conta tudo (momeno inal de absrção da cena, no qual e deenrola a dilética do rabalho ob a coisiicaçãohumniação do objeto, do homem e da mquina).
4. A mutilação as ersonagens e a personiicação das coisas têm sua plenitude pética no relato do Homem com Dois Beijos. O Homem com ois Beijos é uma personagem que faz o relao de um homem que recee dois eijos de presente. Ele apeena-se como um tio encnador e o ae o que fazer com os eijos rcebidos. Escolhe o maior e alçao feio galcha, a rebater o frio que vem elos burcos da ola de eus apatos. Vendo a inutilidade dos eijos, joga-os fora. Em um deles crecem orelhas e logo o eijo começa a chorar. O homem, então, rcolhe-o em alguns aos, levando-o pa caa. Uma vez lá, o eijo crece desproosiamene, querendo acá-lo. eao, o homem e enfoca.
O Homem com Dois Beijos é uma ersonagem que vola-e sobre si mesma. Aavés do recurso narrativo a personagem mantém-se distanciada de seu próprio relato, consruindo, assim, uma imagem de si. Seu relato é basante complexo e deixa enrever ua ecie de áola da induslação e da lieação na ciedde cpilisa, raa do onto de visa dos muilados, ralçando os frutos inatingíveis da prdução e a erda s essêncis dos homens.
Uma páola e carcteia or evar ouas raliades, como uma repeenação e
um enamento or meio de um ouro diferente, geralmene utiliando-e de metáforas, através de um procedimento alegórico (2, p.193). Com freqüência, a parábola se mnifesa em voz nrrativa e evca conteúdos religiosos. No cso do Homem com ois Beijos, sua nrração não oe a raliades orenatais. Sua áola e eora a uma absração, qual seja, à alienação. Ela se dirige, oeticamente, através de algumas imagens, à aparente contradição enre a coisa personifícada e a essoa coisificada. Ademais, subjazem nela conceitos próprios da nálie de Mx sobre a Economia Política, quais ejam, os de valor de uso e de rca, valores sobre os quais se erguem a mecadoria e o seu fetichismo.
Ao reer dois eijos de preene o homem não ae o que fzer com eles, o que quer dizer, no vê uilide nos eijos. O eijo é omdo como exresão ética materialiaa de conteúdos próprios do homem, como, or exemplo, afeto, ensibiliade e amor. Nese onto, e manifesam, na imagem dos eijos recebidos, a ersoniicação do objeto e a reiicação do homem. O homem quer inerir os eijos no cotidiano utilitário dos ens materiais (expresso primeira da prdução de mercaoias - o valor de uo é o primiro aributo da mercadoria; no é, em tdo co, pa o Capialismo, o esencial).
Ao e comprar com a descriço da cidade e ds essoas em festa, a ersonagem objeto do relato se colca como um tio qualquer, um pária, um ser marginalizdo do prcesso scial. Enquano as outras esoas em em vestidas, o homem sente um frio
enone e tem os apaos furados. Escolhe um dos eijos e calça-o. Ou eja, enta, mais
uma vez, empresar o eijo algum valor de uso. Como o eijo no e prsa a isso, o
homem joga-o fora. O ao de se desfzer do eijo á a dimenão a era do homem, da
sua alienação, ou seja, do disanciamento humano em relação aos seus próprios
conteúdos, o eu afeto, ao eu amor.
O eijo, orém, por tazer características humanas, não é um objeto qualquer,
innimado, pssivo e esático. Ele manifesa sa vilidade e gera uma orelha Iso é, gea
uma vida, caracersica que os objetos, em si mesmos, não ossuem. Porém, qundo e
admitem os objeos, as mercadorias, como integrantes de um complexo processo de
prdução, como ruos do abalho aliendo, nota-e que ão prdutos que expesam as
relaçes sociais enre os homens. Ou, inversamente, percee-se que as mercadorias
sineizam a vida humana E, na eça de Maikóvsi, uma
simagens desa síntese na
mercadora esá no eijo infantil, jogao foa, no qual creceram orelhas, que engatinhou
e chamou ela sua me.
O homem, enão, rcolhe o eijo com uma orelha e, em
mgesto de pieade, leva-o
pa caa. Esse recolhimento, contudo, se caracteriza or um novo entido de utiliade,
expresso no intuito de fzer deste beijo um objeto de adoração: ele será oso em uma
molda azulada, tal qual um oratório. Isto evidencia que o homem já está prestes a tomá
lo como um fetiche e, oranto, em prcesso de
r àmoldura (e ao eijo) um vlor de
mercado, um valor de trca, com o qul ele osa identiicr qualiades espirituais e
religiosas. Se isso acontecesse, o beijo esaria crisalizado em um objeto, que
manifesaria o eu valr aavés do fetichismo que e obee ao objeto enquanto
l.Ms iso não aconce. Enquanto o homem prcura a moldura no fundo do baú, o
beijo cresce e, deiado em um sofá, primeiro está risonho; deois, furioso. Ou eja,
alcança, deinitivamente, propriedades humanas aravs da manifesação de estados
psíquicos. O fato de esr furioo lembra a reeldia dos valores dos homens prisioados
aos objeos; em ouas palavras, remee o aniquilameno a que esão sujeitos os homens
no prcesso material e objetivo da prduço. Esa evola e
ácom as coiss
ecom os
homens. O eijo se rebela contra ese seu estado e ambém com a relação scial
capialisa de prdução que o coisiica. Ele exnlia, orano, o seu anseio de evola,
querendo que a ersoagem a páola encone a essência alienada de si, nda a
ça ela humanação do objeo, nese cso, do eijo com orelhas.
Em fce esa sublevção, o homem ene-se do, desorienado diante da erda e
sua identidade, com a coisiicaço de eus coneúdos ntimos, niquiado pelo pceso
maerial da vida a sciade capialisa. Vendo sus qualiicaçes e valoes e eelando
cona si, o homem se enforca. Na páola, esa imagem é a expresão privilegiada da
alienção. Ao
renforcdo, eviencia-se
aconsideraço objetual do homem, um simples
meio, um objeto sem expressão ou vonade póprias, Iue caminha ao sabor das
necessiddes ciais de prdução, única e exclusivamene. Em tdo cso, ese homem
objeto é ainda inferior ao objeto-homem (eijo), ois este manifesa a sua reeldia,
.
enquanto que o primeio omba diante da situação aparenemente insolúvel em que se
ecna. Ese
u
de infrioriae, contuo, ão ssui cnqüêcas qliaivs mis
sérias, ois a relda do objeo é ão somne ma expesão éica da auência a
reeldia do homem. elineia-se, ois, uma apene condição que, em lidade,
mnifesa
eso au e nsfeênca de coneúdo, do homem
a
o objeo. Tm-e,
qui, m
o
típico e deslcmento do fco de imagem.
Ansfrência de coneúdo
não deixa de er, em últmo
o
,um
co
fol que oa evidene a ansformação
do omem em moa
a or
aina ais evidne a lienção, a páoa emina or colr mulhes
como fbrics em chaminés, pduzindo milhes e ouos eijos, no rimo lcinane
s dss.5. O
relao do Homem com Dois Beijos (uma práola a insdusrialização, nos
aectos ertinenes
àcondiço iena do homem, na qual os eijos so a esência de
sua muilço) manfesa a sínee de um pcimeno éico que epasa
a
a
a
de Makóvski, qual eja, o alegórico. Ele singua a fução éica da
Tragéia.
Se-se que a alegoria ceeu cnsideável dspesígio em compaação ao símolo,
na Poética clássica alemã. Johann Wolfgang Goethe ( 1 749- 1 832) considerou-a
anística, como uma écnica que ansforma o fenômeno em um conceito, a ese em
uma imagem,
"/ .. ./
oém de
lmdo que o conceio enha de er emre conrvdo e bido
limiado e compleo na imagem e nela expreso" (3, p. 62).
A
alegoria foi despresigiada orque é o tereno do arbirário, no sentido de que,
aavés dela, o aur cide eguno a sua conciêca, or inemdio de uma cnsuço
inelectual, como adução sensível de um conceito. Um conceio está limiado a uma
repreenção do ensameno, com bae em uma clase definia de objeos. Por ese
asecto ele e distingue a idéia, ois esa exresa uma síntee de uma toalidade,
cnforme a não de Knt (4, p. 169).
A
pir desa istnção enre conceito e idéia, pa Gethe, o símolo desona como
rduo a alidae, eosiio da claea, a
ma
e da odem.
aGee,
"A
represenação simólica transforma o fenômeno em idéia, a idéia numa
imagem, e de
lmdo que a idéia ermanece sempre infinitamente eficaz e
inaingível na imagem, e, mesmo que expresa em
s
s línguas, ermance
orém ineximível" (3, p. 62).
Em ouras palavras, no símolo o pticulr, o fenômeno, é o repeenante do
univeral, enquno que na alegora o articulr signiica aenas a univeralidade de um
conceio.
A distinço que e esça, pa Gehe, reside em
m rronológico do símolo,
segundo o qual, anes de signiicar, ele
é.
Já a alegoria remee o exerior: ela expresa
um conceito e, oranto, enas
signica.
A disnção clássia enre smolo e legoa e a conqüene oeria do primeiro
obe a eguna o quesionadas, no culo XX, or Waler Benjamn ( 1892- 140), em
sua oba
Origem o Draa Barroco Aleão,
e 1925. O deenvolvimeno do pitalismo
e a riade do ofimeno, a fragmenação e a uína desig
mquela toalidae do
símolo e a harmonia do mundo. O sujeito clássico, no éculo XX, está morto. Na
éoca contemporânea, objeto e homem sofrem um processo de desintegração. O
capialismo provca uma cião no homem, dividindo-o em clases. Uma vez cindia a
unidade losóica do sujeio, resa, os homens, uma união feichizaa na mercadoria. Se
há , no Capitalismo, uma relação intersubjetiva, ela pasa a e expressr através a
prdução, do rabalho lienado, da propriade privada e, subsancialmente, do valor de
ca que e aloja na mercadoria, ns elaçes de mercado. Enquanto prduo primeio da
dialética exisene enre rabalho e cpil, a meaoria caba eno a expesão última da
relação entre os homens (6,
p.
71).Uma vez desruída a ordem clássica, em face da realidade coisiicada, Benjmim
redimensiona as nçes de símolo e alegoria. Dane de amanha fagmenação, ão há
como erpetuar a ransprência de sentido do símolo. Este deixa, oranto, de ser um
prcedimento adequado ao século XX. A atenção e volta, enão, para a alegoria, e
Benjamin vai sedimenar sua teorização de alegórico tendo como base o Barroco,
exaamene aquele erído
s s dumene ejeiado nos emos e GeLhe.O principal ponto sobre o qual se aóia a alegoria benjaminiana é exatamente o
esreito vínculo que esa mantém com a hisória (no Brrco, com a conceção rrca a
hisória). Segundo Benjamin,
"Nisto consiste o cene da visão alegórica: a exposição barroca, mundana da
história como hisória mundial do sorimeno, signiicativa aenas nos episdios
do dclínio. Qunto maior a signiicação, no mair a sujeição
àmorte, orque é
a morte que grava mais profunamente a tortuoa linha de demarcação entre a
physis
e a signiicaço" ( 1 , p. 1 88).
Diane da ruína e da ransitoriedade histórics, a alegria é uma tenativa de resauar
alguma conexo em meio ao desconexo. Esa tentativa não em diane de si um mundo
em equilbrio. Trabalha, oranto, com os resquícios de uma peudo-uniade, como um
momento singular que prcura, or intermédio de um esforço de abstração, sdimenar
um sentido que não está dado de anemão. O sentido sucumbiu frente à morte, frente à
hsóia e a sua brárie.
ía ncessidde do alegorisa de colr-e ente os ecombros,
em buca de elemenos que, rrancados do conexto inicial e sua criaço, osm ganhr
signiicção.
A aço violena do pdr alegórico quer br aqeles comonens crcteríicos
e inaleráveis da rnsitoiedade. A alegoria ossui essa cracterísica: uma vonde de
trazer paa a etenidade aqueles momentos e situaçes que e erderiam no deenrolar
históico.
A nço do legorisa vola-e
as cois, para as us, pra quilo que soa
do dilúvio histrico. Ms, vola-se sbre s cois oque amém vê emotdas neas
as relçes enre
shomens. Esa dialética entre coisa e homem recee uma imortância
determinante na represenação do caos. Nela persiste o ato de cracterizar o objeto
enquno esoa.
" . ersonilcação a\eg6rica obscreceu o iam de que sua re�a não era a de
ersonificar o mundo das coiss, e sim a de
ra esas coias uma forma mais
imonente, cracteando-as como esas" ( 1 , p. 29)
Contudo, à alegoria resa o imerativo do exterior, do outro, da caracterização da
mercadoria como essoa. Ela não enconra o seu sentido em si mesma: recore ao
universo histórico e conceitual de sua origem. A alegoria prcra tomar ensível, em
uma imagem, n conceito que originalmene e ergue pra ixar elemenos constitutivos
de na lidade objetiva.
6. Na eça de Maikóvski, o prcedimento legórico está presente nos dois principis
níveis signiicntes: ersonagens e exo ético.
As ersonagens, decepads e desqualiicadas, ão imagens metafóricas da alienação,
em um eríodo histórico preciso, que vai de 1905 à 1 9 17. Elas se multiplicam em
mutilções diversas, como a formar um panteão no qual estão depositados os restos
mortais do homem. Neste panteão não se vê estmpado o culto de grandes feitos
heróicos: nele se vê a imagem da barbárie cotidiana, que no dia a dia termina
desercebida. Esta imagem é cruel em sua coniguração, orque devolve ao homem o
fulcro de sua condição fragmentária. Ela comporta a contradição prioritária,
essencialmente histórica, como um esandarte cistalizador do sofrimento. Esa imagem
se diversiica em dores múltiplas, em um vaso coro que crrega, esquematicamente, a
comonente imagética
e
uma alegria a alienação contemoâna.
Enquanto expressão imagética de uma alegoria, contudo, o Coro dos Mutilados
ncessia de uma complemenação verbal, no
oem foma de esia, que venha conferir
a precisão de seu conteúdo. Este complemento se
ápor intermédio de versos
hiperólicos, metonímicos, cuo-futuristas em sua raiz, que não se contentam em ser
uma simples exemplificação : os versos emprestam às personagens-imagens a
cicunscrição ética do entido do conlio do Coo.
A linguagem ética e pende à maerialidade da mefora das eronagens, vindo a
formr um quadro complexo, no qual uma contradição de caráter histórico está
representada. Palavras, sílabas e sons são os complementos necessáios ao Coro.
Formando um
ó
conjunto, ersonagens e texo ético e emncipam de eu contexto de
origem e desfilam livemente como cois, em meio à coisiicação tol, como uma alegoria ansiando em lierdade elo univeo ético e imaginio, mas que, a tdo insane, e vola pa a hisria em bsa e sua compeeno.
Fmndo-e como uma imgem auônoma, a alegoria, na
Tragéa,
em ão omne o deejo de resgar o ár ansiório do feichismo e da alieaço: ela quer lvr a a enidade a rbie a fgmenação do proleio, a mutilação do seu coo e do estilhaçamenoa
sua consciência. Ela, oano, não enconta em si mesma o eu enio; como coia, ige-e à osiicço exir a menr o u enido e a sa própria explicação. A sua autonomia, enão, evela-se ilusória. A compeensão da alegoa emee o eu rópio conlio, que, e o, é a cntdição movene do enedo: a alienação histórica. Assim, a alienação não é apenas signiicado, mas é material signiicante que de ser expreso em imagens diversiicadas (orém, únicas em sua cacerística) da mutilação. O conlio da eça é, concominemene, o conlito do pcedimeno legórico.O elato do Homem com Dois Beijos é o principal momento de mnifesação legórica. Ele é uma práoa da alienaço e, nese enido, ta-e cmo uma sínee do eo e o meno do auor.
O eijo da paráola, em sua característica dupla de coia e homem, é a imagem primordial da mutilação, que crrega um conlito só esolvido qundo emeido ao eu verddeiro lugr: a história. O eijo é expresão da perda dos valores do homem, é a imagem de sua fragmenação: é, poranto, sua morte. Ele não se adapa àquela eronagem que erdeu a dimenso de si. Quando visualia a exeno de su cnlito, a ersongem do relao do Homem com ois Beijos e enfoca, no o resulao minal, no ereo, da muilação; de ouro ldo, o enfocmeno cola a real aeza o conlito da eça, como uma morte alegórica que remete à compreensão do entido ágico da
Tragédia.
O Homem com ois Beijos e sua prábola ão a expressão a moe do homem, uma alegoria que ree à consciência a dimensão rágica da alienação do proleio.7. A
Tragéia
noe
em um ambiene de cos e erdem. Muildos, mendigos e a barrie o os quadrs consanes da ça. Só a cso da cenaiaço s imagens de horor em tno do Pea é que o enredo peena uma unide inena Conudo, no é uma unidde qe e molda ao saor a rconsuço ética de m mundo em uína, que erdeu o entido do tdo.É
uma unidade enas foml, que tem na eronagem Pea um eixo privilegido e conduço da rativa Ou eja, é um rcrso mommático qe e peenta como organiador e uma deordem reinane. Nese asecto, a oa o e coniga como uma enativa de apresenar uma harmona e um equilbrio que não e econm no exerior. A uniae é ictícia Girndo em tmo do Peta, o autr eea o teeo da ancenência e consrói imagens cênics absras, esencilmene legórias, paa descever a catásrofe do capialismo ruso. Em meio a um imeno conlito scial, em um momento no qual a conrdição primordial do prcesso de indusrialização daRússa aIora aermene e oma cona
s s,gendo uma pofuna insbiiade, a
Tragéa
e ena cmo a eniva e
lio
o s.
s
magns abss
snis
cs qe aTragéa
ome sm
elm-e a
cetos quaos do lamengo ieter Brueghel (1525-307 - 1569); picularmene o
Dulle
Gite (A louca Meg,
ou
Margaia, a louca).
Nesa pintua, em meio à efevescência
cótia, uma rsongem avança Tz consigo uma epaa aonaa a a ene, dois
cestos com vários utensílios (rigideira, pratos, etc.), e um equeno baú debaixo do
mesmo baço que rega os csos, uma ouxa e um cno endurado. Ao eu dor,
igs monsuos: omns dcaos; ma imna caa ssusdoa, qe m m sa
a
igas ióis; um eixe com as; a ave com uma ea humana e utra de
pau, que mosra as víceras; aos re
gndo gaiolas; uma brrica com roso, chaéu e
es; um guo de olos com lnças; uma mulio de lageldos qe e aut-aaca e
ua ifmide e igrs
ens
e esroociis.
Assim como na peça de Mai:óvski, uma única personagem consegue manter,.
penemene, aluma ineiade. No quaro e Brueghel, crregando erences mmos
pa sua subsistência e uma esaa, a igra cenral (de cordo com o ítulo, uma louca)
avança desbravadoramene. Já o Pea, na oba de Mai:óvki, não crrega nada. Sua
única ma é a palavra, a esia. Mas, a esia, para Mai:óvsi,
"é carícia
slogan
çoie
baionea" (5, p. 122)*
Porano, assim como no quaro, a erongem principal da
Tragédia
amém está
rmada.
OPea, com sua rmas - a palavra, a esia -, leva as lágrimas
souras
ernagens, em sua alma
a,pa um bnquee do uro. Nese anquee, s máquias
e as coias viro, com enua, aiciar os homens.
Esas ão a promesa e a crença última de Mai:óvski, expresas ao inal do Pólogo.
Obanquete não acone na pça: ele é um guia para nortar o futuro. E, com ele, a
descoisiicação da vida e da consciência: um momento, enfim, de emancipação e
recueração humns, no qual as orelhs, pens, olhos e demais membos deixam as
coisas e retomm
oseu verdadeiro lugar: o homem. Mas ese momento é exterior à
peça. Ele participa de forma subliminar, como um io de eserança em meio às
monstruosidades da industrialização. A situação insuportável do poleariado é o
verdadeiro enredo da
Tragédia.
Ela não esá decria de mdo natul. Mas palpia nas
eoagens e na esia, edimenano a alegoa a lienao.
As ersonagens não existem em si mesmas, ou seja, não ossuem um sentido
imanene. O eu entido é dado ela história. Elas não ão consciêncas em conlio. Se
ossuem rasgos psicológicos, estes se regem elo esfacelameno do coro e do espírito e
*
Convrsas ore o�ia com o scl de rends", rduço de Auguso de Cmos
no fomam, otanto, unidaes psíquics.
Opsiquismo
seroagens é a patologia do
mundo o ralho alieao.
O
significado da peça se constrói
ahistória concrea da Rússia. Ao nascer da
hisóia, a Tragéda no e ora como um eflexo dela, mas antes como uma eflexo. É
uma relexão em ragmentos, através de imagens absras, sem imanência alguma.
Conudo, mesmo eno relexão, ela e dieciona pra uma çO: a revola ds muilados
cona os dominadres, que na eça rce a leitua absaa da eelio dos obetos. E,
neste onto, a aforma e o conteúdo se enconrm
muma única temática: a muilaão;
em
nsó pcedimeno: o legórico.
Pa
omr ensível a bstço
a
históra, o curo adodo or Makóvski em sa
Tragéda é o da alegoria, atavés e imagens absraas que evidencim a mutilço de nimenso Coro. A legoria a alienação resgaa quilo que há de essencial no prcesso de
coisiicação do oerio russo, no erído aneior
à
Revolução de
19 17.
Contudo, além e ser o conteúdo a ça, a histia é tmém o cmo de atução a
alegoria. Enquanto absração, a eça de Mikóvski é uma tenativa de radicalzação da
contradição hisória, convetia em imagens legóricas que evidenciam um conlio que
não pode se resolver no interior do enredo. A alegoria não é apenas a base de
compreensão do conlito. Ela ossibilita a unidade da forma como o conteúdo, uma
uniade, enretnto, ictícia, ois é regia ela ragmenação. Tano o conteúdo como a
foma mostram-se fruos de uma barbrie, resgatdos
sruínas ela ção da alegoria,
como um fragmento no qual
sá
inscito (ainda que aos edaços, ois esa incriço é
obcura, enigmática e complexa) a essência de um do.
BOLGNESI, M.
E -Tragedy:
nallegory of alienation.
Trans/Forml Ação,São Paulo,
1 2 :23-36, 1 989.
ABSTRAf: Vladímir MaiaWvski's trst theater play, called
Yladmir Maiak6vsky: a
ragedy,
written in 1913, ws elaborated by using n abstract ymbolsm. The etphor 01 the characters, the etonymy in the poetry ad the displaceet 01 the ain lcus 01 the play Irom the subject's action towars the object cotributed to the producton 01 scenic images 01alienaton. The ain prcedure used by the author is allegory.
KEY-WORDS: Abstraction; allegory; alieation; theater d history; prable.
REFERÊN CIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 . BENJAMIM,
W. - Origem do draa barroco aleão.São Paulo, Brsiliense, 1984.
2 7 6
p .2 . DUBOIS, J.
et lii.- Retórica geral.São Paulo, Culrix/EDUSP, 1974. 276 p.
3 . GOETHE,
l. W.- Máxims e relexões sobre literatra: seleço.
In:PNA, A. org.
Clássicos alemães sobre literatura.Princípios oéticos, Antologia. Lisboa,
Horizonte, 1 98 1 .
4 . KANT, I . - Prolegômenos.
In:.
Critica da razão pura e outros txtosilos6icos.