A relação entre o trabalho, a saúde e as condições de vida: negatividade e positividade no trabalho das profissionais de enfermagem de um hospital escola.

Loading....

Loading....

Loading....

Loading....

Loading....

Texto

(1)

A RELAÇÃO ENTRE O TRABALHO, A SAÚDE E AS CONDI ÇÕES

DE VI DA: NEGATI VI DADE E POSI TI VI DADE NO TRABALHO DAS

PROFI SSI ONAI S DE ENFERMAGEM DE UM HOSPI TAL ESCOLA

1

Marisa Aparecida Elias2

Vera Lúcia Navarro3

Elias MA, Navarro VL. A relação ent re o t rabalho, a saúde e as condições de vida: negat ividade e posit ividade no t rabalho das profissionais de enferm agem de um hospit al escola. Rev Lat ino- am Enferm agem 2006 j ulho-agost o; 14( 4) : 517- 25.

Este artigo é resultado de pesquisa realizada com profissionais de enferm agem do Hospital das Clínicas da Univ er sidade Feder al de Uber lândia, MG, e t ev e por obj et iv o inv est igar as r elações ent r e o t r abalho, a saúde e as condições de vida daquelas profissionais. Os dados foram colet ados at ravés de ent revist as sem i-est rut uradas e de observações do am bient e de t rabalho. Os result ados apont am ser com um a ocorrência de problem as de saúde orgânicos e psíquicos decorrent es principalm ent e do est resse e do desgast e provocado pelas condições laborais, com reflexos nas condições de vida. Paradoxalm ent e, os dados revelam que aquelas trabalhadoras não realizam seus tratam entos de saúde de form a sistem atizada. A análise do trabalho, articulada à quest ão de gênero e à especificidade da at ividade de enferm agem , cont ribuiu para m elhor com preensão das condições de t rabalho, vida e de saúde desse grupo profissional.

DESCRI TORES: enferm agem ; trabalho fem inino; condições de vida; condições de trabalho; saúde do trabalhador

THE RELATI ON BETW EEN W ORK, HEALTH AND LI VI NG CONDI TI ONS:

NEGATI VI TY AND POSI TI VI TY I N NURSI NG W ORK AT A TEACHI NG HOSPI TAL

This article results from a research carried out am ong nursing professionals at the Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia ( MG) , locat ed in Uberlândia ( MG) , Brazil, and aim ed t o exam ine t he r elat ion s b et w een t h ese p r of ession als’ w or k , h ealt h an d liv in g con d it ion s. Dat a w er e collect ed t h r ou gh sem istructured interviews and observations in the work environm ent. The results indicate the com m on occurrence of physical and m ental health problem s, m ainly resulting from stress and exhaustion provoked by work conditions, which cause int erferences in t heir living condit ions. Paradoxically, t he result s show t hat t hese workers do not realize t heir healt h t reat m ent s syst em at ically. The analysis of t heir work, in com binat ion wit h t he gender issue and the specific nature of nursing work, contributed to a better understanding of this professional group’s work, living and healt h condit ions.

DESCRI PTORS: nursing; wom en, working; social condit ions; working condit ions; occupat ional healt h

LA RELACI ÓN ENTRE TRABAJO, SALUD Y CONDI CI ONES DE VI DA:

NEGATI VI DAD Y POSI TI VI DAD EN EL TRABAJO DE PROFESI ONALES

DE ENFERMERÍ A EN UN HOSPI TAL DE ENSEÑANZA

Est e art ículo result a de una invest igación llevada a cabo con profesionales de enferm ería del Hospit al das Clínicas da Univ er sidade Feder al de Uber lândia ( MG) , sit uado en Uber lândia ( MG) , Br asil y t uv o com o obj et iv o inv est igar las r elaciones ex ist ent es ent r e el t r abaj o, la salud y las condiciones de v ida de esas p r of esion ales. La r ecop ilación d e d at os f u e r ealizad a a t r av és d e en t r ev ist as sem iest r u ct u r ad as y d e observaciones del am bient e de t rabaj o. Los result ados indican que es com ún la ocurrencia de problem as de salud orgánicos y psíquicos provenientes principalm ente del estrés y del desgaste provocado por las condiciones de t rabaj o, con reflej os en las condiciones de vida. Paradoj alm ent e, los result ados señalan el hecho que est as t rabaj adoras no realizan sus t rat am ient os de salud de form a sist em at izada. El análisis del t rabaj o, art iculada a la cuest ión de género y la especificidad del t rabaj o de la enferm ería, cont ribuyó para una m ej or com prensión de las condiciones de t rabaj o, vida y salud de est e grupo de t rabaj adoras.

DESCRI PTORES: enferm ería; t rabaj o de m uj eres; condiciones sociales; condiciones de t rabaj o; salud laboral

(2)

I NTRODUÇÃO

A

s t r an sf or m ações ocor r id as n as ú lt im as décadas no m undo do t r abalho t êm r eper cut ido na saúde dos indivíduos e do colet ivo de t rabalhadores d e f or m a in t en siv a. A in cor p or ação cr escen t e d a m icr oelet r ônica, da infor m át ica, da t elem át ica e da r obót ica, som adas a um novo e com plexo conj unt o d e i n o v a çõ e s o r g a n i za ci o n a i s m o d i f i co u p r of u n d am en t e a est r u t u r a p r od u t iv a d os p aíses capit alist as avançados e, em níveis diferenciados, a dos países de desenvolvim ento capitalista tardio, com o é o caso do Brasil, provocando m udanças profundas n a or g an ização, n as con d ições e n as r elações d e trabalho. A intensificação laboral é traço característico da atual fase do capitalism o e tem levado ao consum o d esm ed id o d as en er g ias f ísicas e esp ir it u ais d os t r abalhador es. A insegur ança ger ada pelo m edo do desem prego faz com que as pessoas se subm et am a r e g i m e s e co n t r a t o s d e t r a b a l h o p r e cá r i o s, per cebendo baixos salár ios e ar r iscando sua vida e saúde em am bient es insalubres, de alt o risco.

Caract eriza t am bém essa nova conj unt ura o crescim ento, em escala global, da exploração da força de t rabalho fem inina, que leva à com plexificação das relações ent re gênero e classe. Na divisão sexual do t r a b a l h o , o p e r a d a p e l o ca p i t a l , g e r a l m e n t e a s at iv idades de con cepção ou aqu elas baseadas em ca p i t a l i n t e n si v o sã o p r e e n ch i d a s p e l o t r a b a l h o m ascu l i n o , en q u an t o aq u el as d o t ad as d e m en o r q u alif icação, m ais elem en t ar es e f r eq ü en t em en t e f u n dadas n o t r abalh o in t en siv o são dest in adas às m ulheres, o que estaria deixando- as m ais vulneráveis à superexploração( 1- 2). O t rabalho na área de saúde

nos serve de exem plo.

Nas décadas de 1970 e 1980, principalm ente a partir de 1975, o m ercado de trabalho em saúde se expandiu significat ivam ent e t ornando- se um ram o de ex pr essiv a absor ção de m ão- de- obr a( 3), ent r et ant o,

a e x p a n sã o d e v a g a s n o se t o r n ã o se f e z acom panhada de significat iva m elhoria nas condições de t rabalho.

Tom ando com o obj et o de est udo o t rabalho d as p r of ission ais d e en f er m ag em d o Hosp it al d e Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, MG ( doravant e grafado com o HC/ UFU) , a pesquisa t eve p o r o b j e t i v o i n v e st i g a r a s r e l a çõ e s e n t r e e ssa atividade e a saúde das profissionais que a realizam , quais são as negat ividades e posit ividades present es em seu cot idiano labor al, bem com o saber em que m edida isso repercut e nas condições de vida dessas

m u l h e r e s. A m o t i v a çã o p a r a a r e a l i za çã o d e st a p esq u isa su r g iu a p ar t ir d o t r ab alh o d e u m a d as aut or as, psicóloga que, dur ant e seis anos, pr est ou a t e n d i m e n t o a o s t r a b a l h a d o r e s d o HC/ UFU, e m am bulat ório de saúde m ent al. A grande procura pelo at en d im en t o, p r in cip alm en t e p or f u n cion ár ios d o hospit al ( especialm ent e aquelas que t rabalhavam em enferm agem ) sensibilizou a autora e a levou a buscar entender um pouco m ais a respeito daquela realidade.

O TRABALHO NO HOSPI TAL

O hospit al, de m aneira geral, é reconhecido com o um am biente insalubre, penoso e perigoso para os que ali trabalham . Estudos anteriores( 4- 5) apont am

-no com o local privilegiado para o adoecim ent o. Além dos r iscos de acident es e doenças de or dem física a o s q u a i s o s t r a b a l h a d o r e s h o sp i t a l a r e s e st ã o expost os, o sofrim ent o psíquico é t am bém bast ant e com um( 4) e parece est ar em crescim ent o, diant e da a l t a p r e ssã o so ci a l e p si co l ó g i ca a q u e e st ã o subm et idos aqueles t r abalhador es, t ant o na esfer a do trabalho quanto fora dela. As difíceis condições de t rabalho e de vida podem est ar relacionadas com a ocorrência de t ranst ornos m ent ais com o a ansiedade e a d ep r essão, f r eq ü en t es en t r e as au x iliar es d e enfer m agem( 6).

A e n f e r m a g e m e st á l i g a d a , d e sd e su a s origens, à noção de caridade e devot am ent o, sendo seus prim eiros execut ores pessoas ligadas à igrej a, ou leigos prat icando a caridade. Esse fat o im prim iu m ar cas que per dur am at é hoj e e se ex plicit am na concepção de enferm agem de alunos e enferm eiros. Com o passar do tem po, o hospital deixou de ser um l u g a r p a r a o n d e a s p e sso a s e r a m l e v a d a s p a r a esperar pela m ort e e se t ransform ou em espaço de cura( 7).

A ideologia que perpassa a profissão desde su a o r i g e m si g n i f i ca a b n e g a çã o , o b e d i ê n ci a , dedicação. O conflit o par a esses t r abalhador es fica ev iden t e dado qu e a m ot iv ação car act er izada por sent im ent os idealizados da profissão conflit a com a r ealid ad e d et er m in ad a p elo m er cad o d e t r ab alh o capit alist a( 7).

(3)

A div isão do t r abalho no hospit al r epr oduz em seu interior a evolução e a divisão do trabalho no m odo de pr odução capit alist a, sendo pr eser v adas, no ent ant o, as caract eríst icas carit at ivo- religiosas. O hospital carrega o ônus da dor, da doença e da m orte desde sua criação. O processo de t rabalho hospit alar é p a r ce l a d o e r e p r o d u z a s ca r a ct e r íst i ca s d a or g an ização d o t r ab alh o in d u st r ial, o q u e p r od u z t r a b a l h a d o r e s o r a co m p r o m i ssa d o s, o r a desesperançados. Ele freqüent em ent e repet e a lógica do t r abalh o t ay lor izado, m u it as v ezes ocu lt o pelo discur so do ‘t r abalho em equipe’( 8). A incor por ação

de n ovas t ecn ologias n ão sign ifica, n esse set or, o “ alív io da labut a hum ana”, ao cont r ár io, o set or é essencialm ent e de t rabalho int ensivo( 8). Na lit erat ura

ci e n t íf i ca cr e sce o n ú m e r o d e co m u n i ca çõ e s referent es a agravos psíquicos, a m edicalizações e a su icíd ios d e m éd icos, en f er m eir os e p or t eir os d e hospit ais( 4).

As at ividades dos profissionais de saúde são f o r t e m e n t e t e n si ó g e n a s, d e v i d o à s p r o l o n g a d a s j o r n a d a s d e t r a b a l h o , a o n ú m e r o l i m i t a d o d e profissionais e ao desgaste psicoem ocional nas tarefas realizadas em am bient e hospit alar( 9).

O am b ien t e h osp it alar, p er se, ap r esen t a aspect os m uit o específicos com o a ex cessiv a car ga de t rabalho, o cont at o diret o com sit uações lim it e, o elev ado nív el de t ensão e os alt os r iscos par a si e p ar a os ou t r os. A n ecessid ad e d e f u n cion am en t o diuturno, que im plica na existência de regim e de turnos e plantões, perm ite a ocorrência de duplos em pregos e lon g as j or n ad as d e t r ab alh o, com u n s en t r e os t r abalh ador es da saú de, especialm en t e qu an do os salários são insuficient es para a m anut enção de um a vida digna. Tal prát ica pot encializa a ação daqueles fat or es que, por si só, danificam suas int egr idades física e psíquica( 4).

A profissional de enferm agem , com o grande parte das m ulheres, ao buscar o trabalho fora de casa l e v a co n si g o co m o r e f e r ê n ci a i d e n t i f i ca d o r a a m at ernidade e t odos os signos que lhe designam o que é ser m ulher, t ent ando r ealizá- los a par t ir do m odelo tradicional que lhe foi ensinado. A convivência da necessidade de trabalhar fora de casa e do desej o de cuidar dos filhos e da casa, segundo os m oldes t r adicionais, t r az par a as m ulher es cont r adições e conflit os( 10).

As profissionais de enferm agem são expostas a am bien t es de t r abalh o in t en sam en t e in salu br es, t an t o n o sen t ido m at er ial qu an t o su bj et iv o e, por

e st a r e m su b m e t i d a s a co n d i çõ e s d e t r a b a l h o p r e ca r i za d a s e à b a i x a q u a l i d a d e d e v i d a , sã o ex post as a sit u ações n as qu ais a m an u t en ção da saúde est á prej udicada.

METODOLOGI A

Pesquisa de cunho qualitativo, cuj a coleta de dados foi realizada com profissionais de enferm agem do HC/ UFU no período de setem bro de 2001 a j aneiro de 2002, at r av és de ent r ev ist as sem i- est r ut ur adas, com dur ação que v ar iou ent r e 30 e 60 m inut os. O cr it ér io de seleção foi per t encer ao sex o fem inino, sendo consider adas elegív eis t odas as pr ofissionais d e en f er m ag em q u e f azi am p ar t e d o q u ad r o d e funcionários da instituição. Todas as entrevistas foram g r av ad as n a ín t eg r a e t r an scr it as p ar a p ost er ior a n á l i se. Os d a d o s o b t i d o s f o r a m cl a ssi f i ca d o s e div ididos por t em as, de acor do com o obj et iv o da inv est igação. Com aut or ização do Com it ê de Ét ica d a Un i v e r si d a d e Fe d e r a l d e Ub e r l â n d i a , f o r a m ent revist adas dez profissionais de enferm agem ( t rês a u x i l i a r e s d e e n f e r m a g e m , q u a t r o t é cn i ca s e m e n f e r m a g e m e t r ê s e n f e r m e i r a s) . O n ú m e r o d e ent revist as não foi est abelecido previam ent e, sendo conduzidas at é se consider ar suficient e o cont eúdo das r espost as obt idas. A seleção das ent r ev ist adas f o i f e i t a d e f o r m a a l e a t ó r i a , co m p a r t i ci p a çã o volunt ária. As observações do am bient e de t rabalho foram realizadas durant e as visit as ao hospit al para a realização das ent revist as, aproveit ando o período e n t r e u m a e o u t r a e n t r e v i st a , p r o ce d e u - se à obser v ação e às anot ações em cader no de cam po das caract eríst icas do local de t rabalho, que deixava t r an sp ar ecer u m ir e v ir con st an t es, g er alm en t e apressado do pessoal de enferm agem nos corredores do hospital. O fato de, em geral, estarem em grupos e conv er sando suger e ser essa, t alv ez, um a for m a de quebrar a t ensão e aliviar a labut a diária.

RESULTADOS

Est e e st u d o co n f i r m o u o s r e su l t a d o s en con t r ados n a lit er at u r a. Com o ex em plo pode- se ci t a r e st u d o r e ce n t e a r e sp e i t o d a sa ú d e d o s t r ab al h ad o r es d e en f er m ag em d e u m a f u n d ação hospit alar do Est ado de Minas Ger ais( 11), r ev elando

(4)

por problem as de saúde de carát er físico e psíquico, dest acando- se as lesões por esfor ços r epet it iv os, a depressão, a angúst ia, o est resse, dent re out ras. As co n d i çõ es i n ad eq u ad as d e t r ab al h o são t am b ém det erm inant es na qualidade do at endim ent o prest ado p e l o p e sso a l d e e n f e r m a g e m( 1 2 ). No e st u d o o r a

r ealizado, ficou ev ident e que as car act er íst icas do co t i d i a n o d o s p r o f i ssi o n a i s d e e n f e r m a g e m e m grandes hospitais são causadoras de sofrim ento físico e psíquico.

Os at os m ais t écn icos e socialm en t e m ais q u a l i f i ca d o s, h e r d a d o s d a p r á t i ca m é d i ca , sã o r ea l i za d o s p el a s en f er m ei r a s, r esp o n sá v ei s p el a ch ef ia, coor den ação e su per v isão do t r abalh o dos t écnicos e dos aux iliar es de enfer m agem que, por su a v ez, ex ecu t am o t r ab alh o m en os q u alif icad o, d ed ican d o m ais t em p o aos en f er m os. As t ar ef as realizadas pelos t écnicos e auxiliares de enferm agem sã o m a i s i n t e n sa s, r e p e t i t i v a s e so ci a l e financeir am ent e m enos v alor izadas.

A in cor p or ação d e n ov as t ecn olog ias n ão significa, nesse setor, econom ia da força de trabalho. Ao contrário, o setor é de trabalho intensivo. Não foi en co n t r ad o ai n d a n ad a q u e su b st i t u a o cu i d ad o h u m an o , i m p r esci n d ív el p ar a a r ecu p er ação d o s d oen t es. I n ex ist em m áq u in as q u e, p or ex em p lo, banhem os pacientes ou troquem sua roupa de cam a; exist em equipam ent os que, por exem plo, ligados aos pacient es, m onit or am ou subst it uem funções vit ais, m as é necessário alguém para instalá- los e m onitorá-los. Os hospit ais públicos incor por ar am t ecnologias em su as i n st al açõ es p r esen t es t am b ém n a r ed e h osp it alar p r iv ad a, com o cam as q u e lev an t am e a b a i x a m p o r co n t r o l e r e m o t o q u e , e m ú l t i m a in st ân cia, n ão su bst it u em o t r abalh o h u m an o. Os ap ar elh os d e ú lt im a g er ação, r ar os n os h osp it ais p ú b l i co s, sã o d e p o u ca u t i l i d a d e q u a n d o f a l t a m pr ofissionais que possam ut ilizá- los. A ciência e a t ecnologia não podem subst it uir o t rabalho vivo.

É car act er íst i ca d o t r ab al h o h o sp i t al ar a gr ande por cent agem de m ulher es que o r ealiza. É secular a responsabilidade das m ulheres pelo cuidado à sa ú d e, d e b r u x a s a d o u t o r a s, d e r el i g i o sa s a enferm eiras. Os guet os profissionais geram sit uações específicas no processo de t rabalho de enferm agem , on de a desv alor ização, o despr est ígio e o pr ópr io pr ocesso de negação da dor são t r ansfor m ados em devot am ent o e abnegação. A análise dest e t rabalho não pode se fur t ar a consider ar est a singular idade dado que, ent re out ras coisas, as m ulheres, em sua

m a i o r i a , r e a l i za m o t r a b a l h o n ã o p a g o e n ã o r econ h ecido: o t r abalh o dom ést ico, o cu idado aos filhos e o cuidado aos fam iliares doentes. Esses fatores t êm conseqüências im port ant es para a sua saúde.

A p op u lação p esq u isad a ( n = 1 0 ) t in h a em m édia 36,9 anos de idade ( 24 anos a m ais j ovem e 4 7 a n o s a m a i s v e l h a ) . To d a s a s e n t r e v i st a d a s concluíram o segundo grau e as três enferm eiras têm , além da graduação, curso de especialização. Quat ro er am solt eir as, t r ês casadas, u m a separ ada, u m a div or ciada e um a am asiada. Tr ês delas não t inham filhos à época e as dem ais t inham de um a quat ro filhos. Apenas um a não era responsável pela m aior parte da renda fam iliar; as dem ais ou eram as únicas provedoras ou cont ribuíam com a sua m aior parcela. Qu a t r o e n t r e v i st a d a s n ã o r e a l i za v a m t r a b a l h o s dom ést icos e duas delas t inham out ro em prego. As dem ais r ealizav am de t r ês a oit o hor as por dia de t r abalho dom ést ico e um a delas, além do t r abalho dom ést ico, execut ava as funções de enferm eira em o u t r o l o ca l , o q u e p er f a zi a 1 5 h o r a s d i á r i a s d e t r abalho. Quant o ao núm er o de hor as t r abalhadas, com exceção de um a que cum pria j ornada de 12 x 36 horas, as dem ais cum priam j ornada de 36 horas sem an ais.

Tabela 1 - Função, vínculo, salário, tem po de trabalho n a i n st i t u i çã o e j o r n a d a d e t r a b a l h o d i á r i a d o s profissionais ent revist ados nest a pesquisa

o ã ç n u

F Tipode

o l u c n í

v Salário

1 Tempode o h l a b a r t ª 1 a d a n r o J 2 ª 2 a d a n r o

J 2,3

ª 3 a d a n r o

J 2,4

r a il i x u

a UFU 4 19anos 6 3

-r a il i x u

a FAEPU 2,4 6anos 6 3

-r a il i x u

a UFU 2,5 12anos 6 8

-a c i n c é

t FAEPU 2,72 2anos 6 -

-a c i n c é

t UFU 4 16anos 6 -

-a c i n c é

t FAEPU 2,45 6anos 12x36 . m e s /

h 8

-a c i n c é

t UFU 4 17anos 6 6

-a r i e m r e f n

e UFU 4 8meses 6 - 4

a r i e m r e f n

e UFU 8 21anos 6 - 2h/sem.

o ã t n a l p + a r i e m r e f n

e UFU 4 7anos 6 3 6

1 em nº de salários m ínim os; 2 horas/ dia; 3 t rabalho dom ést ico; 4 segundo em prego

A seguir são apresentados os principais tem as lev ant ados nas ent r ev ist as e a sínt ese do discur so das profissionais de enferm agem .

A saúde física e m ent al

(5)

saúde. No ent ant o, com o decor r er das ent r ev ist as m u i t a s r e l a t a r a m a o co r r ê n ci a d e e p i só d i o s d e e n x a q u e ca , e st r e sse , i r r i t a çã o , d e sg a st e f ísi co , depressão, dores nas pernas, varizes e pressão alt a. É interessante notar que tais queixas foram expostas com o se não fossem problem as de saúde.

Olha, apesar de tudo eu sou um a pessoa que quase não

adoeço. Não tive nenhum tipo de problem a a não ser ficar m uito

irritada, discutir com m uita gente. Você leva um a vida m uito

corrida, é m uito trabalho. O trabalho é m uito estressante, você

acaba ficando m uito irritada. Acaba chegando em casa e ficando

horas chorando até resolver aquilo ou por pra fora o desgaste do

dia. Mas clinicam ente eu não tive nenhum problem a de saúde.

( ...) Esqueci de falar que sem pre que acontece de eu ficar m uito

cansada essa irrit ação vem e eu desencadeio um a crise de

enxaqueca que eu tenho desde criança, em que eu fico acam ada

m esm o. (Joana, enferm eira)

Esse discurso expõe, ou ao m enos indica, a b a n a l i za çã o d a p r ó p r i a sa ú d e. Em r ea l i d a d e t a l procedim ento faz parte de um m ecanism o de defesa, pois o adoecer na sociedade capit alist a é vergonhoso p o r se r u m e m p e ci l h o à p r o d u çã o , e d e v e se r ocult ado, quando não, negado( 4).

To d a s a s e n t r e v i st a d a s r e l a t a r a m t e r necessit ado de algum t ipo de t rat am ent o referent e à saúde m ental. As queixas, em geral, se relacionam a quadr os de depr essão e ner vosism o. O depoim ent o abaixo revela a dificuldade encont rada para obt enção desse t ipo de at endim ent o.

É difícil encontrar um psicólogo, tanto pela falta de

dinheiro ou pelo aperto que a gente tá na hora ( ...) . ( Roberta,

auxiliar)

Cuidados com a saúde

De f or m a ger al, pode- se obser v ar qu e as p r o f i ssi o n a i s e n t r e v i st a d a s n ã o f a zi a m se u s t rat am ent os de saúde de form a sist em at izada sob a alegação de ser difícil conseguir at endim ent o, assim com o falt a de recursos financeiros e t em po para sua r ealização.

( ...) Aqui [ no hospit al] eu não consegui [ at endim ent o

psicológico] Já tentei várias vezes. Conversei com um a psicóloga

ela ia m e atender no consultório dela por R$ 30,00 [ valor da tabela

de convênio] . Só que para quem ganha o que eu ganho não dá...

(Luíza, auxiliar)

Se eu não fizer tratam ento da tireóide eu não em agreço.

Eu faço t rat am ent o, m as não consigo consult a. Nunca t em vaga.

Esse m eu problem a acaba ficando por últim o porque prim eiro

vem a educação da m inha filha, a prestação da m inha casa, o

rem édio da m inha m ãe e, se sobra dinheiro, eu vou consultar.

Quando passo m al no trabalho ainda escuto colega reclam ar. (Elza,

técnica)

Bo a p a r t e d a s e n t r e v i st a d a s r e l a t o u associação entre o alto nível de estresse im posto pelo t rabalho e agravos no est ado de saúde. Tais agravos e r a m a u m e n t a d o s q u a n d o , a o s p r o b l e m a s profissionais, som am - se problem as de ordem pessoal. Obser v ou - se u m discu r so gen er alizado de descont ent am ent o por a inst it uição de saúde onde t r a b a l h a v a m n ã o p r o v e r o cu i d a d o a se u s em pregados, que cuidam da saúde de out ros.

Tod as as en t r ev ist ad as r elat ar am q u e n o am biente hospitalar eram freqüentes os acidentes com o b j e t o s p e r f u r o co r t a n t e s e q u e t o d a s j á f o r a m e x p o st a s, a o m e n o s u m a v e z, a m a t e r i a l cont am inado. Dada a possível gr avidade desse t ipo de aciden t e, f az par t e do pr ocedim en t o padr ão a not ificação por escr it o ao super ior hier ár quico e o início do t rat am ent o prevent ivo. No ent ant o, m uit as das vezes t ais procedim ent os não foram adot ados.

Corte eu tive m as, nem levo em consideração. Eu não

notifico corte nem furo ( ...) . Cuidado eu tom o, m as eu não bebo

rem édio quím ico ( I lm a, técnica) .

Tive acidente sim , m as não teve im portância. Quer dizer,

é im portante. Era m aterial contam inado. Fiz acom panham ento

colhendo sangue de seis em seis m eses, m as não tive nenhum

problem a. Já tive vários pequenos cortes durante o trabalho. Já

queim ei o br aço e fiquei afast ada t r ês dias por causa da

queim adura (Joana, enferm eira).

Ap a r e n t e m e n t e e ssa s t r a b a l h a d o r a s consideravam esses acidentes com o parte do trabalho de enferm agem . Nas situações em que o trabalhador est á ex post o const ant em ent e a r iscos concr et os, a própria colet ividade cria m ecanism os de defesa para evit ar a angúst ia e o m edo. Esses m ecanism os que, por um lado, são fundam ent ais para a sobrevivência p síq u ica, p or ou t r o colab or am com a alien ação à m edida que os riscos de acidentes e doenças presentes no am bient e de t rabalho passam a ser nat uralizados e, de form a inconscient e, aceit os com o inerent es ao t rabalho( 13).

Am bient e de t rabalho

(6)

equipe, e gr ande pr eocupação com os pacient es. A q u a n t i d a d e d e p a ci e n t e s a t e n d i d o s e a p o u ca d i sp on i b i l i d ad e d e l ei t os f azi a com q u e al g u m as enferm arias ficassem sobrecarregadas com pacient es g r av es.

As r elações en t r e os coleg as d e t r ab alh o foram am bíguas, referidas ora com o m uito boas, com um discurso de t rabalho em equipe, ora com relat os d e d isp u t as in t er n as, r iv alid ad es e d if er en ças d e t r at am ent o.

O envolvim ent o com os pacient es foi cit ado com o im port ant e fat or de desgast e em ocional, sendo as perdas por m ort e consideradas pont os negat ivos do t rabalho.

É bom quando eu chego para trabalhar e encontro todas as crianças que deixei no plantão anterior. É ruim quando eu fico

sabendo que fulano de t al parou. ( Elza, t écnica) .

A m or t e em t odo o hospit al é encar ada de for m a escam ot eada, or a negada, or a silenciada. É tradicional na área de saúde referir- se à m orte com o “ p ar ad a”. Essa é u m a d as f or m as d e d ef esa d os pr ofissionais que lidam diar iam ent e com a m or t e e são obrigadas a encarar sua própria finit ude.

O prazer e o desprazer no t rabalho

O pr azer do t r abalh o est á n a m elh or a do p a ci en t e, n a sen sa çã o d o t r a b a l h o cu m p r i d o . O d e sp r a ze r e st á r e l a ci o n a d o à o r g a n i za çã o e à s condições de t rabalho.

A pressão é grande, m uito grande. A gente se estressa

bastante porque é responsabilidade dem ais. No trabalho estou

sem pre acelerada. Sem pre sob tensão (Roberta, auxiliar). (...) Saúde é você ter um trabalho, é im portante você se

sentir útil, m as para ter saúde você precisa ter lazer, contato com a fam ília, tem po para você. Eu acabo não tendo nada disso( ...)

(Joana, enferm eira).

As pressões sofridas pelas t rabalhadoras não se restringem ao âm bito profissional e são resultantes d o e sf o r ço d e co n ci l i a çã o e n t r e a s a t i v i d a d e s r em uner adas e as dom ést icas, r ealizadas de m odo gr at uit o par a t oda a fam ília( 6). A dupla j or nada de

t rabalho é um dos fat ores que nos perm it e falar em su p e r e x p l o r a çã o d o t r a b a l h o f e m i n i n o , co m o m ost r ad o em v ár ios est u d os sociológ icos q u e se paut am pela quest ão de gênero.

A rot ina

A r o t i n a d e t r a b a l h o r e l a t a d a p e l a s ent revist adas é desgast ant e, rest ando pouco t em po

p a r a o d e s c a n s o . Ta l f a t o s e e v i d e n c i o u p e l a dificuldade que algum as das ent r ev ist adas t iv er am par a encont r ar t em po dur ant e o t r abalho a fim de con ced er su as en t r ev ist as. Foi p ossív el ob ser v ar, d u r a n t e a r e a l i za çã o d o t r a b a l h o d e ca m p o , a i n t en sa m o v i m en t ação d aq u el as p r o f i ssi o n ai s n o int erior do hospit al, ao longo de t oda a j ornada e a g r a n d e p r e o cu p a çã o e m e x e cu t a r a t e m p o se u t r abalh o.

Chega, pega plantão, e aí não pára m ais, até as 18h30.

A gente não pára! Corre atrás de um a coisa, atrás de outra, o que

precisar tem que estar pronto lá ( Felícia, enferm eira) .

O dia de trabalho dificilm ente se encerra após a j ornada no hospit al. Ao chegar em casa t em início out ra rot ina: a do t rabalho dom ést ico, a do cuidado com os filhos e os “ deveres de esposa”. Há t am bém os casos daqu elas qu e possu em ou t r os em pr egos r em u n er a d o s. O t r a b a l h o em t u r n o s f a v o r ece a co n ci l i a çã o e n t r e a a t i v i d a d e p r o f i ssi o n a l e a d om ést ica e/ ou ou t r o t r ab alh o r em u n er ad o, f at o com u m aos pr of ission ais da saú de, especialm en t e quando os baixos salários pressionam a isso, fat ores por si só agravant es no adoecer( 4- 6).

O m elhor e o pior do trabalho

As en t r ev i st ad as ao ser em q u est i o n ad as sobre o que é positivo e o que é negativo no trabalho d e e n f e r m a g e m a f i r m a r a m q u e , a p e sa r d e desgast an t e, ele é, em ger al, per cebido de for m a p o si t i v a. A p o ssi b i l i d ad e d e aj u d ar o p r ó x i m o é referência const ant e e se reflet iu em suas falas.

Eu acho que t em um a desvalorização grande m as que

eu acho que é um trabalho im portante (Joana, enferm eira)

No sentido de executar o meu trabalho nada me entristece

porque eu dou o m áxim o de m im ( I lm a, técnica)

(7)

Eu acho que é um trabalho bonito, m as tem hora que m e

sinto hum ilhada, a gente não é reconhecida aqui. Nem por outras

colegas, nem por médicos, a gente não é reconhecida (Eva, técnica). A relação com os pacientes foi relatada com o fonte de prazer e a gratificação do trabalho, m inim iza as perdas, inclusive as financeiras.

O que é bom é quando o paciente foi bem tratado e vai

em bora pra casa (Roberta, auxiliar).

Para ent ender a relação ent re o prazer e a dor no t r abalho, pode- se usar o conceit o fr eudiano de sublim ação*( 4,14). A relação ent re o t rabalho duro e penoso do hospit al e o fat o de ele ser, ao m esm o t em po, font e de prazer e realização se j ust ifica pela possibilidade de realizar atos valorizados socialm ente, dando ao trabalhador a sensação de prazer que pode co m p e n sa r a s f r u st r a çõ e s, m e sm o q u e m o m en t an eam en t e. D essa f o r m a, o co n cei t o d e su b lim ação aj u st a- se p ar a o t r ab alh o. O h om em civilizado, obrigado a abrir m ão da sat isfação diret a d e u m a p ar cela d e su a en er g ia lib id in al, p r ecisa en con t r ar sat isf ação n a at iv idade su bst it u t iv a. No t r a b a l h o d e e n f e r m a g e m , a su b l i m a çã o co m o est r at égia defensiv a é m ais facilm ent e usada pelas caract eríst icas de benevolência da profissão.

Eu gosto m uito. Penso que é um a coisa que eu sem pre

quis fazer. É um dom que Deus m e deu e que eu vou tentar ajudar

as pessoas. Vou tentar enquanto eu puder. ( Roberta, auxiliar de

enferm agem )

A m aioria das entrevistadas relatou não faltar ao trabalho a não ser em caso de doença de filhos e se orgulha desse fato; elas relataram acreditar que a f a l t a a o t r a b a l h o é e n ca r a d a co m o f a l t a d e r e sp o n sa b i l i d a d e e d e d e sco n si d e r a çã o co m a s colegas e os pacient es.

[ Faltar ao trabalho] só se for em caso da morte de alguém

m uito próxim o. Eu ligo se for necessário e depois eu pago as

horas. Nunca faltei. ( Felícia, enferm eira) .

Saúde e condições de vida

A respeito do cuidado com própria saúde, as ent r ev ist adas r elat ar am ser em descuidadas ( apesar de saber o que deveriam fazer para t er um a saúde m elhor) e, ao tentar cuidar de sua saúde esbarraram em sist em a que não lhes dá oport unidade ( em suas percepções) de cuidados eficientes. Segundo a m aioria

* Sublim ação é o deslocam ent o da libido ( energia pulsional) que, inibida em sua finalidade, é dirigida a obj et ivos socialm ent e “ nobres”, com o a solidariedade, a const rução do conhecim ent o e a busca do belo. A sublim ação pode exist ir em qualquer at ividade hum ana que com port e o m ecanism o de deslocam ent o de im pulsos dest rut ivos para um a ação const rut iva. É considerado o m ecanism o de defesa m ais saudável(15).

das ent revist adas, o t rabalho foi vist o com o o cent ro de suas v idas e, cont r adit or iam ent e, não foi capaz de lhes proporcionar boas condições de vida.

Segundo os relat os das ent revist adas, suas horas de folga, com raras exceções, eram usadas no cuidar da casa e/ ou para out ros t rabalhos.

O que eu faço nas folgas? Trabalho... lavo roupa, passo

roupa (Joana, enferm eira).

O lazer, segundo elas, resum ia- se a dorm ir ou r ezar. As que r elat aram m elhor es condições de vida foram as que conseguiam t er horas de lazer e usufruir do seu t em po livre.

Ter saúde é acordar disposta, passear, sem problem as.

Estou aprendendo a cuidar da m inha saúde. Fazendo dieta, assim ,

cuidando de m inha alim entação, com endo direitinho, fazendo

cam inhada. (Regina, técnica).

As en t r ev ist adas r elat ar am ser t am bém a v ida pessoal f on t e de f r u st r ações e cau sador a de sofrim ent o, às vezes m ais que o t rabalho.

No m eu t rabalho eu canso m uit o m as não m e frust ro.

Me estresso m ais em casa, e com o m arido. ( Maria, enferm eira) O t r ab alh o, m esm o sen d o d esg ast an t e e p e sa d o p ô d e p o r e l a s se r p r e se r v a d o p e l a s possibilidades j á discu t idas da su blim ação. A v ida pessoal sem possibilidades de pr azer par eceu ficar com o cen t r o de pr oj eção de t odas as fr u st r ações. Par a as en t r ev i st ad as, o t r ab al h o t em o f er eci d o poucas opor t unidades par a sua r ealização pessoal. Mesm o sendo font e de sublim ação, observou- se que o t rabalho e o lazer são vividos pelas ent revist adas com o atividades opostas. Dadas as condições em que o t rabalho na sociedade cont em porânea se encont ra organizado e, de m aneira part icular, nessa cat egoria pr ofissional, é m uit o difícil conseguir r ealizá- lo de form a criat iva e pot encializadora.

CONSI DERAÇÕES FI NAI S

(8)

A so b r e ca r g a d e t r a b a l h o é u m a sp e ct o evident e e vivido pelas profissionais de enferm agem co m o i n e v i t á v e l , n ã o se r e st r i n g i n d o à s su a s at ividades. Os result ados revelaram het erogeneidade na dist ribuição da sobrecarga, confirm ando que não é possível falar de um cot idiano da m ulher e sim de vários cot idianos de m ulheres, num a pluralidade que cont ém as difer enças de classe social, ideológicas, cu l t u r a i s e so ci a i s. É co m u m a t o d a s a q u e l a s p r of ission ais, n a h ier ar q u ização d e su as v id as, o cuidar do outro, sej a no hospital, sej a na fam ília, m as o cuidar de si própria quase sem pre est á em últ im o plano, pois o tem po que lhes sobra é exíguo e parece haver pouca consciência da im port ância disso.

O devot am ent o, a abnegação, a dedicação, caract eríst icas aceit as com o próprias da profissão de e n f e r m a g e m , sã o r e co r r e n t e s n a s f a l a s d a s ent revist adas. O prazer no t rabalho est á relacionado à t a r e f a cu m p r i d a q u e , e m ú l t i m o ca so , é a m a n u t e n çã o d e v i d a s. Há , cl a r a m e n t e , a v i sã o i d e a l i za d a d a p r o f i ssã o se co n t r a p o n d o à d u r a r ealidade do t r abalho r ealizado em condições longe de ideais. Ess a idealização aux ilia na cr iação dos m ecanism os de defesa que lhes perm it em t olerar a convivência diária com a dor a m orte e a im potência diante de situações que lhes fogem ao controle. Som a-se a isso as longas j ornadas de t rabalho a pressão das chefias, dos colegas de t r abalho e m uit as das vezes por part e dos próprios pacient es.

Ou t r o f a t o r d i g n o d e n o t a se r e f e r e à percepção sobre o tem po insuficiente para o descanso

e o lazer. A m aioria delas referiu- se ao pouco t em po para o lazer e relata se conform ar com isso. O prazer n o t r a b a l h o , a f u g a d o d e sp r a ze r sã o d e se j o s perm anent es de t odas as pessoas m as, em face das ex igências da or ganização do t r abalho, esse acaba por con du zir ao sof r im en t o, t r an sf or m an do- se em o b r i g a çã o i m p o st a p e l a n e ce ssi d a d e d e sobr ev iv ên cia.

Apesar de as pr ofissionais de enfer m agem ent r ev ist adas v alor izar em o t r abalho e o buscar em com o font e de pr azer, sat isfação e r ealização, nas condições em que ele é execut ado no hospit al, fica in v iáv el r ealizar esse ob j et iv o. A in sat isf ação, d e acordo com os depoim ent os, é freqüent e, bem m ais pelo não r econhecim ent o do esfor ço ex ecut ado por elas, pela não v alor ização do que pelas condições precárias a que se expõem .

O t r a b a l h o d e e n f e r m a g e m é i n t e n so , desgast ant e e realizado por m ulheres com prom et idas co m u m m o d e l o co n st r u íd o e d e t e r m i n a d o hist or icam ent e que as im pelem a um dev ot am ent o que em nada as aj udam , a não ser a criar estratégias d e d e f e sa co n t r a a d o r e q u e n ã o i m p e d e m o adoecim ent o. Se a saúde est á ligada à liberdade, o t rabalho no hospit al, privando a liberdade, conduz o t r abalhador à doença. Rest aur ar o dir eit o à saúde das profissionais de enferm agem é um a necessidade e o pr ocesso pode se in iciar por desn at u r alizar o cuidado com o outro, atribuindo- lhe um novo estatuto, nem fem inino nem desvalorizado.

REFERÊNCI AS BI BLI OGRÁFI CAS

1. Ant unes R. Adeus ao t rabalho? São Paulo ( SP) : Cort ez/ ED UNI CAMP; 1 9 9 5 .

2 . Ant unes R. As for m as de v iolência no t r abalho e seus si g n i f i cad o s. I n : Si l v a JF, Li m a RB d e & D al Ro sso, S, or ganizador es. Violência e Trabalho no Brasil. Goiânia: Ed. Da UFG; Br asília: MNDH, 2001. p.20.

3. Anselm i ML, Angeram i LS, Gom es ELR. Rot at ividade dos t rabalhadores de enferm agem nos hospit ais do Município de Ribeirão Pret o. Rev Panam Salud Publica/ Pan Am erican Public Healt h 1997; 2( 3) : 44- 50.

4. Pit t a A. Hospit al: dor e m ort e com o ofício. São Paulo ( SP) : Edit or a Hucit ec; 1 9 9 1 .

5. Aquino EML. Gênero, t rabalho e hipert ensão art erial: um est udo de t r abalhador as em enfer m agem em Salv ador / Ba. [ t ese de dout oram ent o] . Salvador ( BA) : I nst it ut o de Saúde Colet iva, Universidade Federal da Bahia; 1996.

6. Aquino EML, Araúj o MJ.; Menezes GM. Saúde e t rabalho de m ulheres profissionais de enferm agem em um hospit al público d e Sal v ad o r, Bah i a. Rev Br as En f er m ag em 1 9 9 3 j u l h o / dezem br o; 46( 3/ 4) : 245- 57.

7. Melo C. Div isão social do t r abalho e enfer m agem . São Paulo ( SP) : Cort ez Ed.; 1986.

8. Silva CO. Trabalho e subj et ividade no hospit al geral. Rev Psicol, Ciência e Pr ofissão 1998; 18( 2) : 26- 33.

(9)

1 2 . Mar ziale MHP. En f er m eir os ap on t am as in ad eq u ad as condições de t rabalho com o responsáveis pela det erioração da qualidade da assist ência de enferm agem . Rev Lat ino- am Enfer m agem 1 9 9 8 ; 6 ( 1 ) : 9 9 - 1 1 7 .

13. Dej ours C. A loucura do t rabalho: est udo de psicopat ologia do t rabalho. São Paulo ( SP) : Cort ez; 1988.

14. Ferraz FA. O m al est ar no t rabalho. I n: Volich M, Ferras FA, Ar a n t e s M, o r g a n i za d o r e s. Psi co sso m a I I : p si co sso m á t i ca p si ca n a l ít i ca . Sã o Pa u l o ( SP) : Ca sa d o Psicólogo; 1 9 9 8 . p. 1 6 3 - 7 3 .

15. Freud S. O m al est ar na civilização. Rio de Janeiro ( RJ) : I m ago; 1930. Edição st andard de obras psicológicas, volum e 2 1 .

Imagem

Referências