PADRES CONCILIARES BRASILEIROS
NO
VATICANO II
:
PARTICIPAÇÃO E PROSOPOGRAFIA
1959-1965
JOSÉ OSCAR BEOZZO
TESE APRESENTADA À FACULDADE DE FILOSOFIA,
LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA UNIVERSIDADE
DE SÃO PAULO, USP, COMO EXIGÊNGIA PARCIAL PARA A OBTENÇÃO DO TÍTULO DE DOUTOR EM
HISTÓRIA SOCIAL, SOB A ORIENTAÇÃO DA PROFESSORA DOUTORA MARIA LUIZA MARCÍLIO
RESUMO 3
AGRADECIMENTOS 4
ABREVIAÇÕES, SIGLAS, OBSERVAÇÕES SOBRE AS FONTES E A METODOLOGIA 7
INTRODUÇÃO 22
I. ANÚNCIO E PREPARAÇÃO: 1959-1962 42
1. ANÚNCIO DO CONCÍLIO: 25 de janeiro de 1959 42
2. FASE ANTE-PREPARATÓRIA - OS VOTA DO EPISCOPADO: 1959-1960 48
3. FASE PREPARATÓRIA: 1960-1962 94
II. O CONCÍLIO: 1962-1965 115
1. CONCÍLIO: EVENTO POLÍTICO-RELIGIOSO 115
2. A ABERTURA DO CONCÍLIO 125
3. LOCAL DE MORADIA E TRABALHO: A DOMUS MARIAE 131
4. PONTO DE APOIO: O COLÉGIO PIO BRASILEIRO 137
5. PONTOS DE ARTICULAÇÃO: AS REDES DE RELAÇÕES 144
5.1. Redes preexistentes 144
5.2. Redes constituídas durante o Concílio 153
6. AS CONFERÊNCIAS DA DOMUS MARIAE 162
7. ELEMENTOS PARA A INTERPRETAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA 180
7.1. Intervenções do episcopado: 1962-1965 180
7.2. Temáticas próprias e intervenções desaparecidas 216
7.3. Mensagens dos bispos ao povo brasileiro 224
8. PASTORALIDADE E COLEGIALIDADE: 238
8.1. Do Plano de emergência ao Plano de pastoral de conjunto 238
8.2. Concílio e nova dinâmica episcopal 242
8.3. Encaminhando a recepção: o olhar voltado para o futuro 249
III. PROSOPOGRAFIA 255
1. INTRODUÇÃO 255
2. BISPOS BRASILEIROS NA ÉPOCA DO CONCÍLIO 270
3. TABELAS 378
IV. CONCLUSÕES 383
V. INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 400
A tese estuda a participação do episcopado brasileiro no Concílio Vaticano II, convocado e
inaugurado pelo Papa João XXIII (1959-1963), continuado e concluído por Paulo VI (1963-1965): etapa
ante-preparatória (1959-1960), com as respostas (vota) dos bispos e prelados à consulta romana; etapa preparatória,
com os trabalhos nas comissões preparatórias (1960-1962) e etapa conciliar, nos seus quatro períodos, com
as intervenções na Aula Conciliar ou depositadas por escrito (1962-1965). Analisa outros aspectos da vida e
atividades do episcopado brasileiro em Roma: local de moradia e trabalho; pontos de apoio; inserção nas
redes de articulação formadas antes e durante o Concílio; promoção das assim chamadas Conferências da
Domus Mariae, Mensagens ao povo brasileiro; elaboração do Plano de Emergência da Igreja do Brasil (PE –
1962) e encaminhamento da recepção do Concilio, com o Plano de Pastoral de Conjunto (PPC - 1965).
Conclui com a prosopografia de todos os bispos e prelados brasileiros que tiveram direito, nem sempre
exercido, de participarem das diversas etapas do Concílio; a bibliografia e um caderno iconográfico.
Palavras-chave: Concílio - Vaticano II – CNBB - Bispos brasileiros - D. Helder Camara
ABSTRACT
The thesis studies the participation of the Brazilian episcopate in the Second Vatican Council,
convoked and inaugurated by Pope John XXIII (1959-1963), continued and concluded by Paul VI
(1963-1965): the pre-preparatory phase (1959-1960), with the replies (vota) of the bishops and prelates to the Roman
consultation; the preparatory phase, with the work done in the preparatory commissions (1960-1962) and the
conciliar phase, with its four periods, and with the interventions in the Plenary Sessions of the Council or
submitted in writing (1962-1965). The thesis also analyses other aspects of the life and activities of the
Brazilian episcopate in Rome: where the bishops stayed, where they found support; how they were linked into
the various net-works that were formed before and during the Council; the promoting of the events that went
under the title of the Domus Mariae Conferences, of the Messages to the Brazilian People; the elaboration of
the Emergency Plan for the Church in Brazil (PE – 1962) and the steps taken to ensure the reception of the
Council, with the Joint Pastoral Plan (PPC – 1965). It finishes with a prosopography of all the Brazilian
bishops and prelates who had the right, not always exercised, of participating in the various stages of the
Council; a bibliography and iconography.
A realização desta pesquisa sobre os padres conciliares brasileiros e sua participação nas várias etapas da consulta, preparação e realização do Vaticano II, só foi possível, graças à cooperação de muitas pessoas e instituições, em primeiro lugar daquelas que cederam sua documentação para a constituição do Fundo Vaticano II de São Paulo (FVatII/SP).
A algumas delas, agradeço pela compreensão diante de um empenho pastoral, familiar e profissional mais limitado de minha parte, durante algumas etapas da pesquisa e da redação da tese: à diocese de Lins e ao seu Bispo, Dom Irineu Danelon, às queridas comunidades da Paróquia São Benedito, ao seu atual Pároco, Pe. Márcio Trojillo, ao Pe. Hugo d’Ans, Pe. Beto da Catedral, à comunidade das Irmãs de Jesus Crucificado e aos leigos e leigas que cobriram, muitas vezes, minhas ausências forçadas. O mesmo agradecimento dirijo ao CESEP, aos companheiros e companheiras da Equipe Executiva e à Diretoria, que me liberou para algumas semanas de pesquisa em Bologna, assim como a meus familiares e amigos.
No plano acadêmico, meu mais sincero agradecimento à orientadora e amiga, Profª Drª . Maria Luiza Marcílio, que me incentivou a preparar este doutorado e acompanhou-o com competência e, ao mesmo tempo com paciência e compreensão em relação às minhas limitações de tempo, para a pesquisa e redação da tese. Na USP, dirijo um cordial agradecimento à professora Dra. Nanci Leonzo e ao professor Dr. Augustin Wernet pela leitura atenta do trabalho e preciosas sugestões quando do exame de qualificação. Vilma Laurentina Paes, da secretaria do CEHDAL foi o anjo da guarda destes anos todos, para que não perdesse prazos de matrícula e de entrega de relatórios à Universidade.
Para o exame de qualificação, agradeço muito a Claudir Busnelo, Julimar Ângelo Kozievitch e a Lourdes de Fátima Paschoaletto Possani que cuidaram do preparo dos originais, formatação, multiplicação e encadernação dos textos.
Galeotti da Secretaria; as bibliotecárias Marina Camponovo e Luigia Spaccamonti, Pietro Panizzi na informática e os objetores de consciência que trabalham no ISR.
Aqui, no Brasil, Luiz Guilherme Baraúna foi parceiro humano e cuidadoso na pesquisa da participação do episcopado brasileiro no Concílio Vaticano II e junto com os companheiros e companheiras da CEHILA, ajudou a preparar o Simpósio de Houston, TX, dedicado ao estudo dos vota do episcopado latino-americano e caribenho. Luiz Carlos somou-se mais tarde ao grupo, pesquisando a figura conciliar de Dom Helder Camara e concluindo um doutorado sobre a correspondência conciliar de D. Helder.
Recordo com carinho e gratidão a hospitalidade amiga e generosa de Don Giulio Malagutti, pároco de San Vitale e San Sigismondo, em Bologna, em cujas casas paroquiais fui sempre acolhido fraternalmente, assim como por sua cunhada Maria Malagutti e as famílias Belinato, Buggeti e Brandani que cuidaram da Casa Paroquial, em momentos sucessivos.
Aos colegas da comunidade redentorista Pesquisas Religiosas, Antonio Carlos Oliveira Souza, Dorival Pires de Camargo, João Rezende (in memoriam); ao atual coordenador da comunidade, Luiz Gonzaga Scudeler, pela compreensão em facilitar-me um espaço adicional onde pudesse acomodar os livros, nesta etapa final de redação; a Márcio Fabri dos Anjos que me convidou para morar na casa; ao Gilberto Paiva e ao irmão Antônio Aparecido dos Santos, com os quais partilhei momentos de oração e distensão, nas semanas finais da tese, em janeiro/fevereiro de 2001 e, de modo especial, ao Antônio Silva que ajudou a organizar o Fundo Vaticano II e o recebeu na Biblioteca da casa e aos que o sucederam na Biblioteca pelo cuidado em enriquecê-la com toda a documentação oficial relativa ao Concílio Vaticano II, minha gratidão muito profunda, assim como às bibliotecárias e recepcionistas, Eunice K. Rodrigues, Andréa Alves Oliveira, Maria Cecília Pereira da Silva, Maria José Eufrásio Pereira e às senhoras que cuidam da casa, lavanderia e cozinha, não deixando faltar o necessário à vida quotidiana: Dona Ana Maria Remorini, Valquíria Aparecida Remorini, Luciana de Jesus Santos. Frei Oscar Lustosa e Frei Márcio Couto foram extremamente generosos em abrirem a Biblioteca do Convento dos Dominicanos, fora de horário e em auxiliar-me na localização da documentação.
de Mesquita Filho, Zeferino Vaz, François Houtart, José Ernanne Pinheiro, D. Eugênio de Araújo Sales, D. Boaventura Kloppenburg, D. Clemente Isnard, D. Luiz Gonzaga Fernandes, D. Aloísio Lorscheider, D. José Maria Pires.
Na árdua pesquisa para a montagem da Prosopografia sou particularmente grato às pessoas que colaboraram na obtenção dos dados para o escorço biográfico de cada bispo: Fernando Altemeyer Jr., Carlos Mário Vasquez e Marta Lima e às dezenas de bispos, dioceses e congregações religiosas que forneceram prontamente os dados que faltavam.
Agradeço de modo muito especial, a Maria Helena Arrochellas Corrêa que realizou a transposição das intervenções, para a biografia de cada um dos padres conciliares.
Sou muito grato a Dom Raymundo Damasceno, secretário geral da CNBB, ao Pe. Manoel Godoy, assessor da CNBB e a Luiz Alberto Gómez de Souza, diretor do CERIS, por cederem-me os bancos de dados de suas entidades, sobre a Igreja do Brasil e ao Mons. Jamil Abib, pároco em Rio Claro que franqueou-me sua biblioteca e arquivos particulares. Este texto foi sendo escrito, numa longa peregrinação, por muitos lugares e casas que me acolheram: em Bologna, a da Chiesa San Vitale; Genebra, a de Júlio e Violaine de Santa Ana; em Lins, as de minhas irmãs e cunhados, Márcio e Mana; Waldir e Zélia; em São Paulo, a de Hélio e Cláudia Villela Nunes e a de Leonard Michael Martin e Luiz Carlos; em Petrópolis, a de Maria Helena, assim como o Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, cuja biblioteca e documentação foram de grande serventia para a pesquisa.
Em Leuven e em Louvain-la-Neuve, em suas universidades; em Roma, no Colégio Pio Brasileiro e no Pontifício Istituto di Studi Arabi e d’Islamistica; em Paris, com Michele Jarton, na Documentation Catholique e no jornal La Croix; em Genebra, no CMI, pude ter acesso a bibliotecas e arquivos que me foram franqueados, mesmo fora de horário.
Finalmente, não teria sido possível concluir a tese, sem a fraterna cooperação de Luiz Carlos Luz Marques e sua ajuda muito especial para organizar tabelas, revisar criticamente textos e formatar o conjunto dos arquivos; sem a colaboração de minha irmã Lia e sobrinha Ana Cristina, para a revisão do português e a de Cremildo José Volanin na preparação das cópias encadernadas. Sou devedor a muitas outras pessoas por sua ajuda. Os eventuais lapsos e falhas da tese, são porém de minha inteira responsabilidade.
1. Abreviações:
1.1 Documentação publicada
ADA = Acta et documenta concilio oecumenico Vaticano II apparando, series I (antepraeparatoria), Typis Polyglottis Vaticanis 1960-1961.
ADP = Acta et documenta concilio oecumenico Vaticano II apparando, series II (praeparatoria), Typis Polyglottis Vaticanis 1969-.
AP = Annuario Pontificio, Tipografia Poliglotta Vaticana, 1950 ss..
AS = Acta Synodalia sacrosancti concilii oecumenici Vaticani II, Typis Polyglottis Vaticanis 1970-.
Elenco = Elenco dei Padri Conciliari, Tipografia Poliglotta Vaticana, 1962 ss. I Padri = I Padri presenti al Concilio Ecumenico Vaticano II, a cura della Segreteria
Generale del Concilio, Tipografia Poliglotta Vaticana 1966.
RAG = Trascrições das agendas Roncalli, Angelo Giuseppe - Fundo A.G. Roncalli do Istituto per le Scienze Religiose de Bolonha, Itália.
SOCV = SACROSANCTUM OECUMENICUM CONCILIUM VATICANUM II,
Constitutiones, Decreta, Declarationes, cura et studio Secretarie Generalis Concilii Oecumenici Vaticani II, Città del Vaticano 1966.
1.2 Instituições:
AATAth = Acervo Arquivo Tristão de Athayde, do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade - CAALL.
ACB = Ação Católica Brasileira. AIB = Ação Integralista Brasileira.
CEHILA = Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina. CELAM = Consejo Episcopal Latinoamericano.
CEP = Comissão Episcopal de Pastoral – CNBB. CNBB = Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. CRB = Conferência dos Religiosos do Brasil. ISR = Istituto per le Scienze Religiose di Bologna. JAC = Juventude Agrária Católica
JEC = Juventude Estudantil Católica. JOC = Juventude Operária Católica. JUC = Juventude Universitária Católica. LEC = Liga Eleitoral Católica.
MEB = Movimento de Educação de Base.
1.3 Livros citados freqüentemente
A Igreja = J.O. BEOZZO, A Igreja do Brasil: de João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo, Petrópolis 1993.
CAPRILE = Il concilio Vaticano II, a cura di G. Caprile, 5 vv., Roma 1966-1968:
Annunzio e preparazione (parte I: 1959-1960; parte II: 1961-1962); Il primo periodo (1962-1963); Il secondo periodo (1963-1964); Il terzo periodo (1964-1965); Il quarto periodo (1965).
CIC = Codex Iuris Canonici, Roma1917 E 1983.
FESQUET = H. FESQUET, Le journal du Concile, Le Jas du Revest - St. Martin
(Forcalquier) 1966.
KLOP I A V = B. KLOPPENBURG, Concílio Vaticano II; vol. 1: Documentário
preconciliar, Petrópolis 1962; vol. 2: Primeira sessão (1962), Petrópolis 1963; vol. 3: Segunda sessão (1963), Petrópolis 1964; vol. 4: Terceira sessão (1964), Petrópolis 1965; vol. 5: Quarta sessão (1965), Petrópolis 1966.
LA VALLE = R. la VALLE, vol 1: Coraggio del concilio, giorno per giorno la seconda sessione, Brescia 1964; vol. 2: Fedeltà del concilio, i dibattiti della terza sessione, Brescia 1965; vol. 3: Il concilio nelle nostre mani, Brescia 1966. LAURENTIN = R. LAURENTIN, L'Enjeu du Concile, vol. 1: Paris 1962; vol. 2: Bilan de
de la deuxième session, 29 septembre - 4 décembre 1963, Paris 1964; vol. 4: Bilan de la troisième session, 14 septembre - 21 novembre 1964, Paris 1965; vol. 5: Bilan du concile, Histoire - textes - commentaires avec une chronique de la quatrième session, Paris 1966.
HISTÓRIA I A IV = História do Concílio Vaticano II, Petrópolis: Vozes, 1995 e
2000 (traduções de Storia del Concílio Vaticano II, diretta da G. Alberigo , edizione italiana a cura di A. Melloni, vol. 1: Il cattolicesimo verso una nuova stagione. L'annunzio e la preparazione del Vaticano II (gennaio 1959 - ottobre 1962), Bologna-Leuven 1995; vol. 2: La formazione della coscienza conciliare. Il primo periodo e la prima intersessione (ottobre 1962 - settembre 1963), Bologna-Leuven 1996).
WENGER = A. WENGER, Vatican II, vol. 1: Chronique de la première session, Paris 1963; vol. 2: Chronique de la deuxième session, Paris 1964; vol. 3: Chronique de la troisième session, Paris 1965; vol. 4: Chronique de la quatrième session, Paris 1966.
WILTGEN = R.M. WILTGEN, The Rhine flows into the Tiber. The unknown Council,
New York City 1966.
1.4 Periódicos e revistas
BCEF = Boletim Concílio em Foco, 1963 BIEF = Boletim Igreja em Foco, 1964-1966 CivCat = “La Civiltà Cattolica”, Roma.
CM = “Comunicado Mensal”, Boletim da CNBB, Rio de Janeiro. CrSt = “Cristianesimo nella Storia”, Bologna 1980.
DocCath = “Documentation Catholique”, Paris.
InfCath = “Informations Catholiques Internationales”, Paris. OssRm = “L'Osservatore Romano”, Città del Vaticano.
2. Siglas:
2.1 Documentos conciliares:
AA - Decretum de apostolatu laicorum “Apostolicam actuositatem”, 18 novembris 1965. AG - Decretum de activitate misionali ecclesiae “Ad gentes divinitus”, 7 decembris 1965. CD - Decretum de pastoralis episcoporum munere in ecclesia “Christus Dominus”, 28 oct. 1965. DH - Declaratio de libertate religiosa “Dignitatis humanae”, 7 decembris 1965.
DV - Constitutio dogmatica de divina revelatione “Dei verbum”, 18 novembris 1965. GE - Declaratio de educatione christiana “Gravissimum educationis”, 28 octobris 1965. GS - Constitutio pastoralis de ecclesia in mundo huius temporis “Gaudium et spes”, 7 dec. 1965. IM - Decretum de instrumentis communicationis socialis “Inter mirifica” d. 4 decembris 1963. LG - Constitutio dogmatica de ecclesia “Lumen gentium”, 21 novembris 1964.
NE - Declaratio de ecclesiae habitudine a religiones non-christianas “Nostra aetate”, 28 oct. 1965. OE - Decretum de ecclesiis orientalibus catholicis “Orientalium Ecclesiarum”, 21 nov. 1964. OT - Decretum de institutione sacerdotali “Optatam totius”, 28 octobris 1965.
PC - Decretum de accommodata renovatione vitae religiosae “Perfectae caritatis”, 28 oct. 1965. PO - Decretum de presbyterorum ministerio et vita “Presbyterorum ordinis”, 7 decembris 1965. SC - Constitutio de sacra liturgia “Sacrosanctum Concilium”, 4 decembris 1963.
UR - Decretum de oecumenismo “Unitatis redintegratio”, 21 novembris 1964.
2.2 Fundos arquivisticos
FVatII/ISR = Fundo Vaticano II do Istituto per le Scienze Religiose de Bolonha. FVatII/SP = Fundo Vaticano II de São Paulo.
2.3. Entrevistas
FAM = Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho AF = Dom Antônio Fragoso
3. Observações sobre as fontes do Vaticano II
A documentação disponível sobre o Concílio Vaticano II pode ser classificada, para o escopo deste trabalho, em quatro diferentes blocos:
3.1. Fontes Oficiais do Concílio Vaticano II
Por decisão do Papa Paulo VI, logo após o término do Concílio, iniciou-se a publicação das Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticani II (1962-1965), cura et studio Archivi Concilii Oecumenici Vaticani II, Typis Polyglottis Vaticanis, tendo saído entre 1970 e 1971, os quatro tomos relativos à primeira sessão conciliar de 1962 (Volumem I: Periodus Prima); entre 1971 e 1973, os seis tomos referentes à segunda sessão conciliar de 1963 (Volumen II: Periodus secunda); entre 1973 e 1976, os oito tomos da terceira sessão conciliar de 1964 (Volumen III: Periodus Tertia); entre 1976 e 1978, os sete tomos da quarta sessão conciliar de 1965 (Volumen IV: Periodus quarta); entre 1989 e 1991, os três tomos de processos verbais do Conselho de Presidência, do Secretariado do Concílio para os Negócios Extraordinários, da Comissão de Coordenação dos Trabalhos Conciliares e dos Moderadores (Volumen V: Processus Verbales). Começaram a sair, em 1996, as Atas da Secretaria Geral: Volumen VI: Acta Secretariae Generalis. Pars I: Periodus Prima, MCMLXII. Entre 1996 e 1999 haviam sido publicados quatro tomos: Acta Synodalia VI – Acta Secretariae Generalis, Pars I – IV.
de Paulo VI de mandar publicar todas as atas e papeis conciliares. Da Series II, Praepatoria, já foram editados os seguintes tomos: em 1964, atas de João XXIII (Volumen I: Acta Summi Pontificis Ioannis XXIII); entre 1965 e 1968, os quatro tomos do volume II (Volumen II: Acta Pontificiae Commissionis Centralis praeparatoriae Concilii Vaticani II); em 1969, os dois tomos do volume III (Volumen III: Acta Commissionum et Secretariatuum Praeparatorium Concilii Oecumenici Vaticani II); entre 1988 e 1995, os cinco tomos das sub-comissões (Volumen IV: Acta Subcommissionum Commissionis Centralis praeparatoriae). No total, já saíram publicados 62 tomos, em formato grande. Faltam ainda os processos verbais de todas as Comissões e Subcomissões conciliares que trabalharam durante as quatro sessões conciliares e as três inter-sessões, de 1962 a 1965
3.2. Fontes da Igreja do Brasil relativas ao Vaticano II
3.2.1. Fontes inéditas
a) FUNDO VATICANO II de São Paulo (FVatII/SP): O acervo mais importante encontra-se depositado no FUNDO VATICANO II1, que recolhe cerca de 5.000 documentos doados por bispos e peritos brasileiros participantes do Concílio e que se encontra depositado na Biblioteca da Obra Social Redentorista Pesquisas Religiosas, à Rua Oliveira Alves, 164, no Ipiranga, em São Paulo.
Dentro do acervo, destacamos duas fontes manuscritas de inigualável valor: - As cartas de Dom. Helder Pessoa Câmara, escritas quase que diariamente, durante as quatro sessões do Concílio, para seus colaboradores da CNBB no Rio de Janeiro e, em seguida, também no Recife, para onde foi transferido a 12 de março de 1964.
Depois de seis anos de insistentes pedidos, Dom Helder concordou em ceder cópia de suas cartas, para servir aos pesquisadores de São Paulo e Bolonha, trabalhando na História do Concílio Vaticano II.
As cartas encontram-se depositadas, numa versão datilografada, na Fundação Irmão Francisco do Recife que cedeu uma fotocópia para o Istituto per le Scienze Religiose de Bologna. Uma segunda cópia encontra-se no Fundo Vaticano II, em São Paulo. Com o scanner, foi realizada, por Luiz Carlos Luz Marques, cópia dos originais manuscritos das cartas que se encontravam, no Rio de Janeiro, sob a guarda de Maria Luiza J. de Amarante.
Uma cópia destes manuscritos datilografados e agora um CD-Rom com o espelho dos próprios originais e do texto datilografado, foram também depositados no FVatII/SP.
As cartas de Helder Câmara serão abreviadas HC Circ., seguidas do número da Circular, o ano, o local de onde foi escrita e a data.
No total são, 297 circulares, das quais faltam sete da primeira sessão do Concílio (1962), que se perderam.
Estas são as circulares, ano a ano:
1962: 53 circulares (faltam as de número 8, 10, 11, 32, 34, 42 e 47). 1963: 59 circulares
1963/64: 17 circulares escritas durante a intersessão, no momento em que D. Helder esteve em Roma, para o trabalho das Comissões (existem duas diferentes às quais D. Helder deu o mesmo cardinal [13ª], por isto da carta de número 14, em diante, a numeração de D. Helder não corresponde à numeração “física”).
1964: 79 circulares. 1965: 89 circulares
Existem ainda diversos anexos manuscritos, alguns muito longos, como por exemplo, Perspectives de nouvelles structures de l'Eglise, datado de 19 de novembro de 1964, escrito em Roma, de próprio punho por D. Helder e contando com 23 páginas)
setembro a 21 de novembro de 1964), estão numerados de 121 a 188 e da quarta (65 números, do dia 13 de setembro a 8 de dezembro de 1965), estão numerados de 213 a 278. Há dois saltos na numeração. Não consegui atinar com a razão porque se passa do número 188, ao final da terceira sessão para 213, no início da quarta, pulando-se 25 números. Quanto ao outro salto, do número 60 ao final da segunda sessão para o 121 no início da terceira, compreendendo 61 números, é provável que seja devido ao desejo de dar uma numeração corrida ao jornal, incorporando assim os números da primeira sessão. Do conjunto das três sessões, faltam dois números desaparecidos na Domus Mariae, o número 49 de 22 de novembro de 1963 e o número 238 de 13 de outubro de 1965.
b) Arquivo da CNBB: Na sede da CNBB, encontra-se o arquivo da entidade, com toda a correspondência ativa e passiva da presidência, da secretaria geral, dos antigos secretariados (rebatizados depois como “linhas pastorais” e hoje, “dimensões”). Estão ali arquivadas todas as atas das reuniões da presidência, conselho permanente, comissão episcopal de pastoral, assim como das assembléias da CNBB, desde a sua fundação em 1952.
A Biblioteca do Instituto Nacional de Pastoral (INP), funcionando no mesmo prédio da sede da CNBB, cumpre a função de Biblioteca, mas ao mesmo tempo, de centro de documentação, abrigando um rico arquivo da Ação Católica, mas também do Vaticano II e de outros aspectos da vida da Igreja.
Destes Arquivos, foram feitas para o Fundo Vaticano II, cópias dos documentos mais importantes referentes à atuação dos bispos brasileiros e da CNBB, no Vaticano II
3.2.2. Fontes Impressas
Distinguimos entre as fontes impressas, aquelas de circulação reservada e as de circulação pública.
a) Fontes de circulação reservada: Comunicado Mensal da CNBB, destinado exclusivamente aos membros do Episcopado
CNBB, em São Paulo. Coleção completa só encontramos na Biblioteca do INP, na sede da CNBB, em Brasília. O “Comunicado Mensal” será abreviado CM
b) Fontes de domínio público: Concílio em Foco
Começou a ser editado, no início da II Sessão do Concílio, a 28 de setembro de 1963.
O primeiro responsável pelo “Concílio em Foco”, foi o jornalista Otto Engel, naquele momento, estudante de teologia na Universidade Gregoriana e aluno do Colégio Pio Brasileiro e, em seguida, Frei Romeu Dale OP, em Roma e Raymundo Caramuru Barros, no Rio de Janeiro. O primeiro número foi duplo e saiu a 28 de setembro de 1963, com o seguinte expediente: “Boletim Semanal editado pelo Secretariado Nacional de Opinião Pública da CNBB e pelo Departamento de Imprensa dos Religiosos do Brasil”.
Inicialmente, saia como um suplemento da “Voz de Santo Antônio”, da Editora Vozes de Petrópolis. Durante a 2a sessão conciliar, de setembro a novembro, sairam 11 números. Com o número duplo 16-17, de janeiro de 1964, o Boletim ganha novo nome “Igreja em Foco”. Para a primeira fase está abreviado como BCEF e para a segunda, BIEF.
Embora conste do catálogo da Biblioteca dos Redentoristas, parte da coleção está desaparecida. Uma coleção completa, entretanto, encontra-se na Biblioteca dos Dominicanos de São Paulo, à Rua Atibaia, 420, nas Perdizes e outra na Biblioteca do INP, na sede CNBB, em Brasília.
3.2.3. Fontes no Istituto per le Scienze Religiose de Bologna - ISR
O ISR2 recolheu a mais importante documentação sobre o Concílio Vaticano3, constituída por fundos de cardeais, bispos e teólogos, além de todos os papeis do Papa João XXIII4. Abriga a que é, provavelmente, a mais rica biblioteca contemporânea de História da Igreja e ciências afins. A Biblioteca encontra-se agora vinculada à Universidade de Bologna. O ISR foi fundado por Giuseppe Dossetti, ex vice-secretário geral da Democracia Cristã, deputado constituinte e membro da comissão de redação da
2 MENOZZI, Daniele, Le origini del Centro di Documentazione (1952-1956), in ALBERIGO, Angelina e
Giuseppe (a cura de), Con tutte le tue forze – I nodi della fede cristiana oggi – Omaggio a Giuseppe Dossetti, Marietti, Genova, 1993, pp. 333-370
3 ALBERIGO, G., Fondo Documentario “Vaticano II” dell’Istituto per le Scienze Religiose di
Bologna, in GROOTAERS J. et C. SOETENS, Sources Locales de Vatican II – Symposium Leuven - Louvain-la-Neuve, 23-25-X-1989, Leuven, 1990, pp. 59-66
Constituição italiana, que se tornou posteriormente sacerdote diocesano da arquidiocese de Bologna e finalmente fundador de uma comunidade monástica contemplativa5. O ISR e seus colaboradores tornaram-se o principal apoio do Cardeal Giacomo Lercaro nos trabalhos conciliares, além de Dossetti ter sido, por um período, o influente secretário dos quatro Moderadores do Concílio, entre os quais se encontrava o Cardeal Lercaro. A obra de Dossetti foi levada avante, com competência, pelo historiador Giuseppe Alberigo que soube reunir um seleto grupo de jovens investigadores para angariar, organizar e explorar o fundo de documentação sobre o Concílio e congregar, nos últimos dez anos, outras universidades e centros de investigação ao redor do mundo, para a tarefa de se escrever a história do Vaticano II.
3.2.4. Outras fontes e bibliotecas
As mais importantes encontram-se nas universidades belgas de Louvain-la-Neuve6 e Leuven7, onde está depositada parte da documentação do Cardeal Leo Joseph Suenens8, moderador do Concílio, de outros bispos do país e de quase todos os teólogos e peritos belgas que atuaram no Concílio.
No Instituto Católico de Paris estão os papeis de Mgr. Pierre Haubtmann9, um dos mais importantes peritos que colaboraram na redação da Constituição Pastoral, Gaudium et Spes e, em toda a França, foi realizado grande esforço para se organizar os fundos diocesanos com os documentos dos bispos locais relativos ao Concílio10.
5 MELLONI, Alberto, Cronologia e bibliografia di Giuseppe Dossetti, in ALBERIGO, o. cit,. pp. 371-389 6 SOETENS, Claude, Les Archives Vatican II à Louvain-la-Neuve, in GROOTAERS J. et C. SOETENS,
o. cit. pp. 33-38; ____, Concile Vatican II et Église Contemporaine (Archives de Louvain-la-Neuve), I. Inventaire des Fonds Charles Moeller, G. Thils, Fr. Houtart, Louvain-la-Neuve, 1989; FAMERÉE, J., II. Inventaire des Fonds ª Prignon e H. Wagnon, Louvain-la-Neuve, 1991; FAMERÉE J. et L. HULSBOSCH, III. Inventaire du Fonds Ph. Delhaye, Louvain-la-Neuve, 1993; E. LOUCHEZ, Inventaire du Fonds J. Dupont et B. Olivier, 1995;
7 SABBE, M., Les Archives du Vatican II à la Katholieke Universiteit Leuven, in GROOTAERS J. et C.
SOETENS, o. cit. pp. 39-46
8 L. DECLERCK et E. LOUCHEZ, Inventaire des Papiers Conciliaires du Cardinal L.-J. Suenens, 1998 9 ABEL, A. M. & RIBAUT, J.-P., Documents pour une Histoire du Concile Vatican II – Inventaire du Fonds Pierre Haubtmann, Institut Catholique de Paris, Paris, 1992
10 ABEL, A.-M, RIBAUT J.-P., Répertoire des Archives de Vatican II en France, in SOETENS, o.cit., pp.
Na Alemanha, há uma grande riqueza de arquivos tanto dos seus bispos como dos teólogos. Estes arquivos foram sumariados por Klaus Wittstadt11 que, de modo particular, trabalhou nos Arquivos do Cardeal Julius Döpfner, um dos quatro moderadores do Concílio12. Na Universidade de Innsbruck, na Áustria, encontra-se parte susbstancial dos arquivos conciliares de Karl Rahner, SJ, um dos mais importantes teólogos do século XX13. Nos outros países, como Holanda14, Espanha15, Inglaterra16, com maior ou menor intensidade, desenvolve-se também um trabalho de organização das fontes do Vaticano II. Na África, a situação é bem mais difícil e muito da sua documentação deve ser buscada nos arquivos das congregações missionárias que atuavam no continente, em tempos do Concílio17. No Canadá, o fundo mais importante é constituído pelos papeis do Cardeal Paul-Émile Leger, arcebispo de Montreal18. Nos Estados Unidos, a Georgetown University de Washington guarda os arquivos de John Courtney Murray, cuja contribuição foi fundamental para o esquema e a Declaração Dignitatis Humanae sobre a Liberdade Religiosa19. Georgetown converteu-se, graças ao trabalho de J. A. Komonschak, no mais importante centro de investigação do país, sobre o Vaticano II. A Universidade de Notre Dame, em Indiana abriga também alguns fundos importantes20.
Foi realizado igualmente grande esforço por inventariar e explorar as fontes do Concílio depositadas em Moscou, tanto no Patriarcado Ortodoxo, que enviou dois observadores para o inteiro período conciliar, quanto nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores e do Conselho dos Assuntos Religiosos do antigo governo soviético,
11 WITTSTADT, Klaus, Deutsche Quellen zum II. Vatikanum, in GROOTAERS J. et C. SOETENS, o.
cit. 19-32. Sobre a contribuição da área cultural alemã (Alemanha, Áustria, Suiça) ao Concílio, cfr. WITTSTADT, Klaus und W. VERSCHOOTEN (Hrgb.) Der Beitrag der Deutschsprachigen und Osteuropäischen Länder zum Zweiten Vatikanischen Konzil, Leuven, 1996
12 WITTSTADT, Klaus (Hrsg.), Julius Kardinal Döpfner, 1913-1976, Bistum Würzburg, 1996
13 NEUFELD, Karl, “Der Beitrag Karl Rahners zum II. Vatikanum”, in WITTSTADT, Klaus und W. VERSCHOOTEN (Hrgb.), o.cit. 109-120; KLINGER, Elmar, “Der Beitrag Karl Rahners zum
Zweiten Vatikanum im Licht des Karl-Rahner-Archivs-Elmar-Klinger in Würzburg”, in M.T. FATTORI – A. MELLONI (eds), op. cit. 261-274
14 JACOBS, J. , Les Pays-Bas et le Concile Vatican II: Premières orientations sur les sources d’archives, in
GROOTAERS J. et C. SOETENS, o. cit. pp. 47-58
15 RAGUER H., Fuentes para la historia del Vaticano II: España, in GROOTAERS J. et C. SOETENS, o.
cit. pp. 81-90
16 STACPOOLE, Aa., Sources for Recording British Participation in the Second Vatican Council, in
GROOTAERS J. et C. SOETENS, o. cit. pp. 67-80
17 MEDEIROS, François, Les Archives Africaines, in GROOTAERS J. et C. SOETENS, o. cit. pp.
95-97
18 P. LAFONTAINE, Inventaire des Archives Conciliaires du Fonds Paul-Émile Leger, Montréal, 1995; ___, Inventaire des Archives Conciliaires du Fonds André Naud, Quebec, 1998
19 GONNET D., L’apport de John Courtney Murray au schema sur la liberté religieuse, in M.
LAMBERIGTS-CL. SOETENS – J. GROOTAERS (éd), Les Commissios Conciliaires à Vatican II, Leuven, 1996, pp. 205-215
20 Vatican II Collection, University of Notre Dame, Indiana, 1991 [Papers E. Lucey; Papers M. Mc
que foram abertos aos pesquisadores21. Sobre a complexa relação entre a União Soviética, a Igreja Ortodoxa Russa, o Partido Comunista Italiano, João XXIII, a Igreja Católica e o Concílio, o Colóquio realizado em 1995, em Moscou, numa colaboração entre o ISR de Bologna e o Instituto de História Universal da Academia de Ciências Russa, trouxe novas e importantes luzes22. Os Arquivos do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em Genebra, abrigam rica documentação sobre a presença dos observadores não católicos no Concílio.
Na América Latina, o Chile foi o país que, ao lado do Brasil, teve a participação mais intensa e organizada no Concílio, graças à atuação do Cardeal Raul Silva Henriquez, respaldado pelos estudos dos teólogos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Santiago e do bispo de Talca, Dom Manuel Larrain E., vice-presidente do CELAM e, logo depois, presidente da entidade, durante o período conciliar. O Cardeal Silva Henriquez publicou suas memórias23 antes do seu falecimento e de Manuel Larrain, morto prematuramente, em 1966, num acidente automobilístico, a diocese encarregou-se da publicação de seus escritos24.
No dia 17 de setembro de 1964, o CELAM começou a publicar em castelhano, um Boletin para los Obispos de América Latina, depois de organizar, em Roma, a partir do III Período um Centro Latinoamericano de Información25.
Para a contribuição conciliar do oriente cristão, o bispo de São Paulo Kyr Pierre Mouallem, da Eparquia Melquita do Brasil, traduziu e prefaciou a coletânea das intervenções na Aula Conciliar e dos demais documentos conciliares dos bispos melquitas, preparada pelo Patriarca Maximos IV26.
21 MELLONI A (ed.)., Vatican II in Moscow (1959-1965) – Acts of the Colloquium on the History of Vatican II. Moscow, March 30 – April 2, 1995 , Leuven, 1997.
22 MELLONI, A. , Chiese sorelle, diplomazie nemiche. Il Vaticano II a Mosca fra Propaganda, Ostpolitik ed ecumenismo, ibidem, pp. 1-14; ROCCUCCI, Russian Observers at Vatican II. The “Council for Russian Ortodox Church Affairs and the Moscow Patriarcate between Anti-Religion Policy and International Strategies, ibidem, pp. 45-72. Sobre o significado para o ecumenismo da participação ortodoxa russa no Vaticano II, cfr. BOROJOIJ V., Il significato del Concilio Vaticano II per la Chiesa Ortodossa Russa, ibidem, pp. 73-90; VELATI M., La Chiesa ortodossa russa tra Ginevra e Roma negli anni del Concilio Vaticano II, ibidem, 91-110; LANNE E., La perception en l’Occident de la participation du Patriarcat de Moscou à Vatican II, ibidem, pp. 111-128. Sobre as dimensões políticas na Itália e na URSS da participação russa ao Concílio, cfr.BURIGANA R., Il Partito Comunista Italiano e la Chiesa negli anni del Vaticano II, pp. 189-226; RICCARDI A., Antisovietismo e Ostpolitik della S. Sede, ibidem, pp. 227-268.
23 CAVALLO A., Memorias Cardenal Raul Silva Henriquez, 2 tomos, Santiago, 1991
24 LARRAIN, M., Escritos completos (organizados por Pedro DE LA NOI), 4 tomos, Santiago,
1976-1986
4. Metodologia da pesquisa
O trabalho inicial foi o de recolher a documentação relativa ao Concílio Vaticano II, aqui no Brasil. Enviei carta a todos os bispos e peritos brasileiros ainda vivos, que haviam participado do Concílio Vaticano II, tentando convencê-los de ceder os seus arquivos pessoais para o Fundo Vaticano II, por mim organizado na Biblioteca dos Padres Redentoristas em São Paulo. Foram também contatadas as dioceses daqueles bispos que já haviam falecido, na tentativa de se obter os seus documentos. Consegui também os papeis do único observador protestante do continente latino-americano, o Dr. Miguez Bonino de Buenos Aires. .
O segundo trabalho foi organizar, classificar e catalogar todos esses documentos, seguindo o mesmo procedimento eletrônico já adotado para o ordenamento da rica documentação sobre o Vaticano II, depositada no Istituto per le Scienze Religiose de Bologna, na Itália. Este procedimento visou tornar compatível a exploração de ambos os fundos documentais, seguindo-se o mesmo método de classificação e utilizando-se os mesmos programas de computador, para o fichamento dos documentos27. Foram assim ordenados e classificados cerca de cinco mil papeis, esquemas conciliares, anotações de bispos, peritos e teólogos brasileiros que participaram do Concílio Vaticano II, em sua fase preparatória (1959-1962) e durante a sua realização (1962-1965).
Numa etapa posterior, Luiz J. Baraúna, um dos pesquisadores empenhados na reconstrução da história da participação brasileira no Concílio Vaticano II, fotocopiou nos Arquivos da CNBB em Brasília, documentação complementar à que havia sido recolhida ao Fundo Vaticano II, depositando estas fotocópias em São Paulo.
Ao lado da organização e exploração da documentação recolhida em São Paulo, a pesquisa foi complementada com três meses e meio de trabalho nos Arquivos e na Biblioteca do Istituto per le Scienze Religiose de Bologna e nos Arquivos e Bibliotecas Romanas, incluindo aí a do Colégio Pio Brasileiro, de março a junho de 1993 e novamente em março de 2000. O acervo de Bologna, como já foi assinalado, é o mais importante para a história do Concílio, por causa da sua biblioteca, a mais completa sobre o tema, e pelos seus fundos documentais aí recolhidos: diários, cartas, anotações de alguns dos mais importantes teólogos, bispos e cardeais que participaram do Vaticano II. Encarregado da
27 Cfr. MELLONI, Per una prosopografia e cronologia critica del Vaticano II, in GROOTAERS J. et C.
análise de todos os papeis do Papa João XXIII, para o seu processo de canonização, o ISR pode dispor de um acesso único a esta documentação privilegiada que permite retraçar o laborioso itinerário do anúncio à abertura da primeira sessão (11-10-1962) do Concílio e da inter-sessão entre 1962 e 1963, podendo seguir a mente e as intervenções do Papa, que havia convocado o Concílio.
Ao lado de Bologna, encontram-se, evidentemente, dos Arquivos Romanos, em curso de publicação, desde o imediato pós concílio, por ordem de Paulo VI28. Da fase Ante-Preparatória, Preparatória e dos quatro Sessões do Concílio já foram publicados 59 grandes volumes.
Como um dos responsáveis pela redação da História do Vaticano II, vim participando, desde 1989 com os demais integrantes do projeto dos encontros e seminários que foram mapeando as principais questões metodológicas e práticas para se escrever a história do Concílio, acontecimento complexo e multitudinário, envolvendo bispos e peritos procedentes de praticamente todos os países e culturas hoje existentes, enfrentando a gigantesca tarefa de repensar, em bases novas, a Igreja Católica, sua missão, tarefas e estruturas no mundo de hoje29.
Com o rápido desaparecimento dos principais protagonistas do Concílio e com a aceleração das mudanças do mundo e da igreja, para as quais sem dúvida contribuiu o
28 Para se estabelecer uma comparação historicamente relevante sobre a publicação da documentação
conciliar, as atas e demais documentos do Concílio de Trento (1545-1563) só se tornaram inteiramente acessíveis aos historiadores trezentos anos depois, com a abertura, por Leão XIII (1878-1903), dos Arquivos do Vaticano. A publicação das Atas, Diários, Cartas só viu a luz em 1901, por obra da Societas Goerresiana de Friburgo. Escreve Hubert Jedin que nos brindou a monumental história do Concílio de Trento em quatro volumes (1949-1962): “Desde Sarpi e Pallavicino, es decir, desde hace trecientos años, está esperando el mundo una historia del conclio de Trento que sea algo más que una acusación y una apología. Ranke la tenía por imposible, pues quienes la querían escribir, no podían, por serles inaccesibles las fuentes; y los que podían, no querían. El obstáculo de la inaccesibilidad de las fuentes há desaparecido por la apertura de los Archivos Vitacanos. Pero subsiste outra dificultad y aun puede decirse que, desde Ranke, se há agigantado. Hoy, más que nunca una história del concilio es una aventura. El historiador tiene delante una tarea, cuyo adecuado desempeño es imposible para uno solo hombre”. JEDIN, Hubert, História del Concilio de Trento, I – La lucha por el Concílio, Ediciones Universidad de Navarra, Pamplona, 1972, p. IX
29 Para uma síntese das questões hermenêuticas e metodológicas implicadas na história do Vaticano II,
Concílio, faz-se mais urgente o trabalho do historiador, tanto no sentido de identificar, salvaguardar, catalogar e tornar disponíveis as fontes, como de afrontar a difícil tarefa de superar a simples crônica conciliar, “historicisando” e interpretando este acontecimento30. Outro imperativo decorre do fato que, para as novas gerações, o Concílio tornou-se um acontecimento já longínquo no tempo e cuja densidade e importância histórica é dificilmente perceptível.
Dediquei-me tanto a uma quanto à outra empresa, a de reunir e classificar as fontes documentais brasileiras e a de iniciar uma primeira interpretação da participação brasileira no Concílio, consciente da urgência da tarefa, como das próprias limitações, em termos de formação histórica e de tempo para dedicar-me a esta tarefa, que de per si, exige um esforço coletivo. O obstáculo crescente para recrutar colaboradores reside no problema do domínio da língua latina, em que se encontram redigidos todos os documentos conciliares oficiais, os debates, anotações, trabalhos em comissões e subcomissões, assim como a maior parte das contribuição dos peritos e teólogos.
Finalmente, esse trabalho sobre o episcopado brasileiro no Vaticano II, insere-se no âmbito de pesquisas insere-semelhantes que vêm insere-sendo conduzidas em outros paíinsere-ses, permitindo um termo de comparação com a atuação dos outros episcopados, com o esforço para o levantamento das fontes, as hipóteses de trabalho e as linhas de interpretação31.
Os estudos sobre os outros países e sobre os diversos grupos informais atuantes no Concílio, têm permitido um proveitoso cruzamento de dados, no sentido de desvendar a complexa rede de articulações e interferências mútuas entre os diferentes atores da aventura conciliar, situando nesta trama a participação do episcopado brasileiro.
30 Cfr. ALBERIGO, G. e A. MELLONI, Per la storicizzazione del Vaticano II, in CRISTIANESIMO
NELLA STORIA, XIII/3, ottobre 1992, pp. 473-474; FOUILLOUX, E., Histoire et événement: Vatican II, ibidem, pp. 515-538; J. O’MALLEY, Interpretare il concilio Vaticano II, ibidem, pp. 585-592; G. ALBERIGO, Il
Vaticano II nella tradizione conciliare, ibidem, pp. 593-612
31 Os seguintes estudos foram apresentados no Colóquio Internacional para a “Storia del Concilio
Vaticano II”, realizado sob os auspícios da Fondazione Giovanni XXIII – Istituto per le Scienze Religiose de Bologna, de 12 a 15 de dezembro de 1996: P. DABEZIES (Montivideo), Los Obispos de Uruguay en el Concilio; M. IMPAGLIAZZO, (Roma), I vescovi nord-africani al Vaticano II; J. KLOCZOWSKI (Lublin), L’Episcopato Polacco al Concilio; A. LAZZAROTTO (Roma), I vescovi cinesi al Concilio; P. NOËL, (Laval), Les épiscopats et leurs organizations – Sinthèse; P. PULIKKAN (Thrissur), The Indian Participation at Vatican II; F. SPORTELLI (Bari),
INTRODUÇÃO
Ao escolher, como tema da dissertação de doutorado, a participação no Concílio Vaticano II (1959-1965) do episcopado brasileiro, articulado na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), orientavam-me alguns pressupostos.
Em primeiro lugar, o da relevância do tema, pois o Vaticano II foi, na opinião dos especialistas, o mais importante acontecimento no campo cristão durante o século XX32 e, provavelmente, sem similar no panorama religioso deste século.
Os Concílios Ecumênicos, em número de 21, marcaram profundamente a história do mundo cristão; os quatro primeiros (Nicéia, em 325; Constantinopolitano I, em 381; Éfeso, em 431 e Calcedônia, em 451) foram recebidos no Oriente quase que com a mesma veneração tributada aos quatro evangelhos33.
Na série dos 21 concílios, os sete primeiros são acolhidos igualmente pelo Ocidente e pelo Oriente cristãos - com exceção das antigas igrejas orientais -; o oitavo foi fator de grande dissensão entre o Oriente e o Ocidente por causa da tensão entre Roma e os patriarcados orientais e da medida disciplinar que destituiu o Patriarca Fócio da sede de Constantinopla34. Os concílios seguintes, a partir do Laterano I (1123), recebidos como
31 Últimas palavras de João XXIII no seu leito de morte, dirigidas ao seu secretário e colaborador,
Mons. Loris Cappovilla e retransmitidas por este a Dom Helder Camara, em carta pessoal: HC III/16, 26-27/09/1964.
32 O Vaticano II, foi “indubitavelmente a mais ampla obra de reforma jamais empreendida pela igreja”,
R. LATOURELLE, verbete Vaticano II, em Dicionário de Teologia Fundamental, sob a direção de R. Latourelle - R. Fisichella. Petrópolis, Vozes, 1994, p. 1043. Latourelle, professor e ex-reitor da Universidade Gregoriana dos jesuítas, em Roma, coordenou grande obra coletiva de balanço dos 25 anos de início do Vaticano II (1962-1987), patrocinada pela mesma Gregoriana: LATOURELLE, R., Vaticano II: Bilancio & Prospettive, venticinque anni dopo - 1962-1987, vol. 1 e 2, Roma, 1987. É reconhecido como um dos principais teólogos deste século.
33 A obra clássica sobre os Concílios Ecumênicos é, ainda, a de HEFELE-LECLERCQ, Histoire des Conciles (1907-1921). O anúncio e realização do Vaticano II provocaram nova primavera de estudos sobre os concílios, dentre os quais se destaca a coleção, Histoire des Conciles Oecuméniques, em 12 volumes, editada pelas Éditions de l’Orante, em Paris, sob a direção de Gervais DUMAIGE, S.J., 1963-1981, além de muitas sínteses, dentre as quais a mais feliz foi a de H. JEDIN, Concílios Ecumênicos - História e Doutrina. São Paulo: Herder, 1961) e a mais recente e competente a de ALBERIGO G. (org.), História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995. O Istituto per le Scienze Religiose (ISR) de Bologna publicou também, sob a direção de ALBERIGO G., edição bilíngüe, latim e italiano, [trilingüe, incluindo o grego, para os oito primeiros concílios, do Niceno (321) ao Constantinopolitano IV (869-70)], dos decretos de todos os concílios ecumênicos: Conciliorum Oecumenicorum Decreta. Bologna: ISR-Dehoniana, 1972.
34 PERRONE, Lorenzo, “O Constaninopolitano IV (869-870): Primado romano, pentarquia e
ecumênicos pela Igreja Latina, são considerados pelos orientais, apenas concílios ocidentais e, portanto, não ecumênicos.
O Vaticano II procurou dar passos para superar a secular ruptura entre o Oriente e o Ocidente cristãos, consumada em 1.054, convidando as Igrejas Ortodoxas35 e as antigas Igrejas Orientais36 a participarem do Concílio, enviando observadores. Ao término do Concílio, na manhã do dia 7 de dezembro de 1965, em celebrações simultâneas, em Roma, perante todos os padres conciliares do Concílio e, em Constantinopla, perante o Sínodo Patriarcal, Paulo VI, o patriarca do Ocidente e Athenagoras, o Patriarca ecumênico de Constantinopla, levantaram, em declaração conjunta, num gesto de paz, no caminho da reconciliação e da unidade, as excomunhões e anátemas proferidos entre as duas igrejas37.
35 As igrejas ortodoxas, seguindo caminho próprio, desde a ruptura de 1054 entre oriente e ocidente e de
posteriores desdobramentos históricos, agrupam cerca de 200 milhões de fiéis que habitam, em sua maioria, os territórios da atual Comunidade dos Estados Independentes (antiga União Soviética), os Bálcãs e o Próximo Oriente, com diásporas importantes nos Estados Unidos, Canadá, América do Sul e Austrália, por conta das migrações da segunda metade do século XIX e século XX. Elas compreendem: Oito patriarcados: Alexandria (o Concílio de Nicéia, em 325, no cânon 6, reconheceu que seu Bispo exercia jurisdição superior sobre toda a diocese civil romana do Egito), Jerusalém, Antioquia, Constantinopla como primus inter pares (o primeiro entre iguais. Estes três patriarcados juntos com Alexandria e Roma, são reconhecidos no Concílio de Calcedônia, 451, como formando a pentarquia que regia a Igreja); Moscou (constituído em Igreja autocéfala no Sínodo de Moscou de 1448 e em Patriarcado em 1589), Belgrado na Sérvia (1920). Bucareste na Romênia (1925), Sofia na Bulgária (1953, 1961); Quatro igrejas autocéfalas: Grécia, Chipre, Polônia e Checoslováquia; Igrejas autônomas (dependentes de algum patriarcado): Igreja da China, do Japão e da Finlândia; Igrejas da diáspora. Sobre o Patriarcado de Constantinopla e o trabalho ecumênico desenvolvido pelo Patriarca Athenagoras, cfr. MARTANO, Valeria, Athenagoras, il Patriarca (1886-1972). Um Cristiano fra crisi della coabitazione e utopia ecumênica. Bologna: Il Mulino, 1996. Cfr. OLIVIER, Clement, L’Eglise Ortodoxe. 4 ª ed., Paris: PUF, 1991; BOSCH NAVARRO, Juan, Para Compreender o Ecumenismo. São Paulo: Loyola, 1995, p. 64; AP 1987, “Patriarcados”, pp. 1706-1707.
Durante o Concílio, enviaram observadores para alguma das quatro sessões, o Patriarcado de Constantinopla (III e IV), o Patriarcado Grego Ortodoxo de Alexandria (III e IV), a Igreja Russa Ortodoxa - Patriarcado de Moscou (I, II, III, IV), Igreja Servia Ortodoxa (IV), Igreja Ortodoxa da Geórgia (II, III, IV), Igreja Búlgara Ortodoxa (IV), Igreja Russa Ortodoxa no estrangeiro (I, II, III, IV). Cfr. AS - Appendix Altera, Tabella V, pp. 276-278. Sobre o diálogo e as relações por vezes tensas e difíceis entre a Igreja Católica e a Ortodoxia russa, cfr. TAMBOURA, Angelo, Chiesa cattolica e ortodossia russa. Due secoli di confronto e dialogo dalla Santa Alleanza ai nostri giorni. Milano : Paoline, 1992
36 As antigas igrejas orientais, algumas delas remontando ao primeiro século do cristianismo,
separaram-se da corrente grego bizantina majoritária, à raiz das controvérsias cristológicas que precederam o Concílio de Calcedônia (451), sendo, por isso, também chamadas de monofisitas, nestorianas ou simplesmente não calcedonianas. Agrupam cerca de 30 milhões de fiéis e compreendem a Igreja Apostólica Armênia, a Igreja Síria Ortodoxa, a Igreja Copta Ortodoxa, a Igreja Ortodoxa na Etiópia. Mandaram seus observadores para o Concílio, a Igreja Copta Ortodoxa (I, II, III, IV), a Síria Ortodoxa (I II, III, IV), a Armênia Ortodoxa do Catholicossat de Etchmiazidin (II, III, IV) e do Catholicossat da Cilícia (I, II, III, IV); a Etiópica Ortodoxa (I, II, IV); a Síria Ortodoxa da Índia (II, III, IV); a Assíria do Catholicossat do Patriarcado do Oriente (III) e a Síria Mar Thomas do Malabar (II, III, IV). AS, Appendix Altera, Tabella V, pp. 277-278.
Buscou igualmente superar a divisão oriunda da reforma protestante de 1517, criando o Secretariado para a União dos Cristãos38 e convidando também observadores das igrejas protestantes39. Assinalou, deste modo, a tardia entrada oficial da Igreja Católica na grande corrente do movimento ecumênico contemporâneo40. Essa entrada no complexo campo das relações ecumênicas mexeu com a autoconsciência das várias igrejas, levou a uma notável flutuação semântica na maneira de cada igreja autodenominar-se e de ser denominada pelas outras e continua provocando mal-entendidos e desconforto, como no caso da recente declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, a Dominus Jesus41.
Sem descer à complexidade do assunto, é importante, no mínimo, historicizar o uso habitual e o conceito corrente de Igreja Católica. Pelo menos até o Concílio de Trento, o nome que lhe é aplicado é o de Igreja Latina, para contrapô-la ao Oriente cristão42. Após a divisão de 1054, a Igreja Oriental passou a autodenominar-se “Ortodoxa”, para contrapor-se à Latina que teria se afastado da reta doutrina, ou seja, da Ortodoxia. Em Roma, os ortodoxos foram regularmente chamados de “gregos”.
38 Sobre o Secretariado e sua criação, cfr. KOMONCHAK, Joseph, “O Secretariado de Promoção da
Unidade Cristã”, in História I, pp. 264-272; VELATI, M., “Le Secrétariat pour l ‘Unité des Chrétiens et l’origine du décret sur l’oecuménisme”, in LAMBERIGTS, M. - Cl. SOETENS - J. GROOTAERS, Les Comissions Conciliaires à Vatican II. Leuven: Bibliotheek van de Faculteit Godgeleerdheid, 1996, pp. 181-204.
39 Enviaram observadores as seguintes Igrejas ou famílias confessionais oriundas da reforma ou de
posterior evolução histórica: Igreja Vétero Católica - União de Utrecht (I, II, III, IV); Comunhão Anglicana (I, II, III, IV); Federação Luterana Mundial (I, II, III, IV); Aliança Presbiteriana Mundial (I, II, III, IV); Igreja Evangélica da Alemanha (I, II, III, IV); Conselho Mundial dos Metodistas (I, II, III, IV); Conselho Internacional dos Congregacionalistas (I, II, III, IV); Convenção Mundial das Igrejas de Cristo - Discípulos (I, II, III, IV); Comitê Mundial dos Amigos (I, II, III, IV); Associação Internacional do Cristianismo Liberal - I.A.R.F.(I, II, III, IV); Igreja da Índia do Sul (II, III, IV); Igreja Unida do Cristo do Japão (IV); Federação Protestante da França (IV); Conselho Mundial de Igrejas - Genebra (I, II, III, IV); Conselho Australiano de Igrejas (IV), além de vinte e dois hóspedes do Secretariado para a União dos Cristãos, presentes a título pessoal, pertencentes a estas ou a outras igrejas cristãs. AS, Appendix Altera, Tabella V, pp. 279-282.
40 ROUSE, R. and NEIL S. C., A History of Ecumenical Movement I (1517-1948; FEY, H.E., II
(1948-1978, SPK, London, 1993, 4 ª ed. especialmente o cap. 15, vol. I, de Oliver Stratford Tomkins, The Roman Catholic Church and the Ecumenical Movement, 1910-1948, pp. 677-693 e o cap. 12, vol. II de Lukas Vischer, The Ecumenical Movement and the Roman Catholic Church, pp. 311-352.
41 Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração “Dominus Jesus”, sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja. Roma, 06-08-2000. A Declaração de fato só foi publicada e apresentada oficialmente pelo Cardeal Joseph Ratzinger a 08-09-2000. Para uma leitura crítica da Declaração à luz do Vaticano II, cfr. BOFF, Leonardo, “Quem subverte o Concílio? Resposta ao Cardeal J. Ratzinger, a propósito da Dominus Jesus”.(inédito).
42 O termo latino, por outro lado, evoca más recordações no Oriente, como não deixaram de relembrar
Com a reforma protestante, na tradição luterana, a Igreja Latina passou a ser chamada de Igreja Romana e, atualmente, de Igreja Católica Romana (ICR), nome que lhe é atribuído na literatura do Conselho Mundial de Igrejas.
A Igreja Latina, por sua vez, nos tempos do Tridentino, quando a contradição religiosa principal, liquidada pela tomada de Constantinopla pelos turcos (29-05-1453), deixou de ser entre latinos e gregos, e foi substituída pela tensão entre católicos e protestantes, passou a autodenominar-se Igreja Católica Apostólica Romana, ou simplesmente Igreja Católica.
Durante o Concílio, os católicos orientais reagiram fortemente à identificação entre o ser “católico” e o ser “romano”. Reivindicando a sua plena catolicidade e sua comunhão com Roma, não se sentiam, nem por isso, latinos ou romanos e, sim, orientais. É lapidar a intervenção do Patriarca Antioqueno dos Melquitas, Máximos IV Saigh, sobre a questão em tela, durante a I Sessão do Concílio. Recusando-se a falar em latim, a língua oficial do Concílio, causou sensação ao quebrar, propositalmente, o regulamento e dirigir-se em francês à Asdirigir-sembléia.
“Il ne faut pas oublier en effet qu’on s’adresse ici à l’Église orientale. Église pleinement apostolique dans ses éléments constitutifs, et nettement distincte de la latinité. C’est une Église première-née du Christ et des Apôtres. Son développement et son organisation historique sont l’exclusive oeuvre des Pères, de nos Pères grecs et orientaux. Elle doit ce qu’elle est au Collège des Apôtres, toujours vivant dans l’épiscopat en collégialité, avec Pierre en son centre, avec ses responsabilités et ses droits distinctifs.
Cette Église ne doit historiquement au Siège Romain ni son origine, ni ses rites, ni son organisation, ni rien de ce qui la fait concrètement. En bref, nul ne l’a engendrée dans la foi hors les Apôtres; personne, hormis les Pères, ne l’a constituée dans tout son patrimoine de prière, d’organisation et d’activité. Peut-on dire que les Saints Basile, Grégoire, Cyrille, Chrysostome et autres sont des catholiques de second rang, parce que non romains en tout ce qu’ils ont reçu et tout ce qu’ils ont legué?43”
Assim, pois, os melquitas católicos sentem-se plenamente em comunhão com Roma, mas de modo algum aceitam ser caracterizados como romanos ou identificados com a Igreja Católica “Romana” ou, na sua linguagem, com a Igreja “Latina”. Por outro lado, sentem-se cultural e espiritualmente parte integrante do oriente cristão e da herança
43 Intervenção de Máximos IV Saigh, Patriarca Antioqueno dos Melquitas na XXVIII Congregação
“ortodoxa”, sentindo-se chamados a serem uma ponte para restabelecer a antiga comunhão (sobornost) entre oriente e ocidente.
Esta flutuação no vocabulário, dentro do atual quadro de relações ecumênicas e das transformações internas da Igreja Católica, em boa parte desencadeadas pelo Vaticano II, leva-me a referir-me à “Igreja Católica”, como “Igreja Latina”, quando estão em jogo suas relações com os orientais católicos ou ortodoxos; como “Igreja Católica Romana” (ICR), quando se considera o modo de os protestantes e, em particular, de os luteranos a chamarem; e “Igreja Católica” simplesmente, no uso corrente do Brasil, sem contudo negar o caráter de “catolicidade” a outras igrejas que o reivindicam.
Se o olhar do outro é sempre um elemento revelador da própria identidade, pelo menos sob o ângulo daquele que a capta, deixo o registro do balanço de um dos pioneiros do ecumenismo, o Professor grego-ortodoxo, Alivisatos de Atenas, ao final do Concílio, depois que Roma e Constantinopla haviam levantado, simultaneamente, as condenações mútuas, datando de 1054: “Par la célébration de ce Concile, l’Église Catholique romaine, de catholique est devenue, sans conteste, oecuménique”44.
Mesmo no interior do que se costuma chamar de Igreja Católica Romana, é preciso estar atento a identidades próprias, herdadas do passado e não de todo abolidas. Assim, a Igreja de Milão conserva sua antiga liturgia que remonta ao século V, o Rito Ambrosiano, e não a Liturgia Romana; na Igreja de Toledo, na Espanha, até hoje, se preserva o rito mozarábico em algumas de suas paróquias e numa capela da Catedral. Durante o Concílio, os Bispos da Espanha imprimiram e ofereceram a Paulo VI, o Ordo Missae Ritu Mozarabico peragendae45. Braga, em Portugal e Lyon, na França, mantiveram, até a reforma litúrgica do Vaticano II, peculiaridades litúrgicas próprias. Ordens religiosas, como os dominicanos, continuam conservando também o seu próprio rito.46
44 ALIVISATOS, jornal Virma (A Tribuna). Atenas, 9-11/01/1966, citado por WENGER, Antoine, Vatican II - Chronique de la Quatrième Session. Paris: Editions du Centurion, 1966 IV, p. 466.
45 Na introdução ao folheto da celebração foi colocado um breve excurso histórico do rito: “Liturgia
mozarabica liturgia occidentalis est et latina, efformata ac evoluta in Hispania sub dominatione wisigothorum, maxime ab eorum conversione, anno 589, usque ad initium saec. VIII. Hinc vetus hispanicus ritus melius et proprius liturgia hispanowisigothica vel, ut saepe dicitur, “toletana” denominaretur quia Toletum, caput regni, centrum religiosum et sedes conciliorum, recognitione ordinum, textuum et melodiae unitati cultuali norma fuit. Non raro etiam ritus isidorianus nuncupatur”. Ordo Missae Ritu Mozarabico peragendae. Toleti: Editorial Catolica Toledana, 1963.
46 “Nell’Ocidente finì col prevalere universalmente la liturgia derivata da Roma. Anche l’antichissima
Por outro lado, após o Vaticano II, é preciso registrar a diversidade que vai emergindo nas Igrejas da Ásia, África e América Latina, conquistando, cada uma delas, seu rosto próprio. Estas Igrejas estão em comunhão com Roma, mas trilhando o caminho de uma crescente inculturação lingüística, litúrgica, pastoral e teológica. Nota-se, nelas, uma progressiva diversidade que, sociológica e historicamente, não permite mais caracterizá-las simplesmente como igrejas “latinas” ou “romanas”.
As Igrejas Católicas Orientais serão aqui chamadas cada uma por seu nome próprio: Copta Católica, Melquita47, Maronita48, Ucraniana49, Armena50, e assim por diante. As quatro últimas estão hierarquicamente organizadas no Brasil, existindo ainda um Ordinariato para os fieis de Ritos Orientais, com sede no Rio de Janeiro, RJ, circunscrição pessoal para aqueles que não contam com um ordinário do próprio rito.51
O Concílio Vaticano II significou, para a Igreja Católica, um divisor de águas, o fim de uma época e o início de outra, pois encerrou, de certo modo, a longa fase inaugurada com o Concílio de Trento (1545-1563), fase de ruptura com o nascente mundo moderno e de confronto com as correntes espirituais, culturais e políticas que emergiram do conjunto da renascença e de modo particular, da reforma protestante.
O catolicismo latino, com o rosto que perdurou até a década de 60 deste século, foi fruto direto da reforma católica selada pelas orientações doutrinais e institucionais do Concílio de Trento52. Para Marc Venard, o Concílio de Trento “abre o
Lugano) sussiste attualmente la liturgia ambrosiana, riordinata da S. Carlo Borromeo. Varie peculiarità di liturgie locali furono soppresse dal Concilio di Trento non avendo autorità da due secoli; ne sopravvissero invece alcune fino al Concilio Vaticano II nelle Arcidiocesi di Braga e di Lione ed in famiglie religiose, ad. es. presso i Domenicani e i Certosini.” AP 1994, p. 1716.
47 Eparquia de Nossa Senhora do Paraíso, em São Paulo, para os fiéis de Rito Melquita, criada a
29/11/1971, sufragânea da Arquidiocese de São Paulo e pertencente ao Patriarcado de Antioquia dos Gregos Melquitas.
48 Eparquia de Nossa Senhora do Líbano de São Paulo, para os fiéis do Rito Maronita, criada a
29/11/1971, sufragânea da Arquidiocese de São Paulo e pertencente ao Patriarcado Maronita de Antioquia.
49 Eparquia de São João Batista de Curitiba. O Exarcado Apostólico para os fiéis do Rito Ucraniano,
foi criado a 20/05/1962 e elevado a Eparquia sufragânea da Arquidiocese de Curitiba a 29/11/1971. Pertence à tradição ritual constantinopolitana ou bizantina.
50 Exarcado Apostólico Armeno para a América Latina e o México, criado a 03/07/1981, tem sua
sede em São Paulo e pertence ao Patriarcado Armeno de Sis e Cilícia.
51 O Ordinariato para os fiéis de Ritos Orientais foi criado em 14/11/1951 e tem sua sede na
Arquidiocese do Rio de Janeiro, tendo sido o Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara (1951-1971), o seu primeiro ordinário.
52 Reforma ou Contra-Reforma? Para este debate, leia-se Chaunu que consegue escapar ao dilema e
novo tempo do catolicismo como confissão nascida no seio de uma cristandade dividida. Resposta tardia ao drama da revolta de Lutero, o Concílio de Trento deverá dar uma definição a todos os pontos controvertidos do dogma católico e reformar as práticas, e, sobretudo, o espírito da velha Igreja, tendo em vista melhor equipá-la para o confronto com as suas jovens rivais”53.
Já à luz da grande virada do Vaticano II, Hubert Jedin, o principal historiador do Tridentino, que iniciou sua pesquisa vinte anos antes do Vaticano II e só a concluiu depois do término do Concílio, alerta, entretanto, que a herança de Trento permanece e é parte do debate na renovada busca da identidade católica no período pós-conciliar.54
De outra parte, o Vaticano II representou, para a Igreja Católica no Brasil, uma ocasião impar em sua história, reorganizando-a, não só internamento, mas inserindo-a também num complexo tecido de relações com as demais igrejas do mundo todo, com as outras igrejas da América Latina e redefinindo suas relações com o centro romano. Usando uma imagem dos dias de hoje, o Vaticano II, tirou a Igreja do Brasil duma relativa
des histoires religieuses confessionnelles (les Anglais diraient dénominationnelles) et, plus limitativement encore, institutionelles qui ont continué d’imposer leurs limites presque jusqu’au milieu du siècle. Au plan des grands traités d’histoire générale, cette manière de fractionner une continuité tronquée et perdue aboutissait aux chapitres séparés, ballottés, où, lontemps après Luther, Calvin, Knox, Elisabeth, les guerres de Religion, émergeaient les articles du concile de Trente, l’oeuvre de saint Charles Borromée, les colonnades de Maderna et puis, plus tard, dans un tout autre environnement, Bérulle, Pascal, les tensions tragiques d’un siècle de saints, classiques et français. Cette problematique des deux Réformes en continuité, Lucien Febvre l’avait entrevue, lui qui a retrouvé, au coeur religieux du XVI siècle, le cheminement spirituel de Martin Luther - un destin qui domine bien plus qu’un long XVI siècle -, dans un survol lucide et intelligent des lourds et savants in -quarto de l’éruditon allemande; il a déblayé le terrain. Il a manqué à Lucien Febvre encore un peu de temps, un peu de familiarité avec le XVII siècle et un peu plus de sympathie pour la spiritualité catholique pour imposer, avec son talent et son autorité, la problématique des deux Réformes en continuité”. CHAUNU, Pierre, Les Temps des Réformes - La crise de la chrétienté: l’éclatement 1250-1550. Paris, Fayard, 1975, p. 9. Na verdade, Chaunu irá falar não de duas reformas, dramaticamente opostas no passado, hoje reconciliadas, mas sim de quatro: a dos que buscaram reformar a igreja na idade média, entre os séculos XI e XIV, protestante - luterana e calvinista -, a reforma católica e os anabatistas, unitários e outras correntes “heterodoxas”. Ibidem, pp. 10-12.
53 VENARD, Marc, “O Concílio Lateranense V e o Tridentino”, in G. ALBERIGO (org.) o. cit. p.
317.
54 Concluindo a redação de sua monumental História do Concílio de Trento, que ocupou 35 anos de