Trópicos do discurso sobre risco: risco-aventura como metáfora na modernidade tardia.

Texto

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Trópicos do discurso sobre risco:

risco-avent ura como met áfora

na modernidade t ardia

Tro p ics o f risk d isco urse : risk-ad ve nture

as a me tap ho r in late mo d e rnity

1 Program a de Estu dos Pós-Grad u ad os em Psicologia Social, Pon tifícia Un iversid ad e Católica d e São Pau lo. Ru a Mon te Alegre 984, São Pau lo, SP 05014-091, Brasil. m jsp in k @p u csp.br M ary Jan e P. Sp in k 1

Abst ract Th is article d iscu sses n ew u ses of in terp retative rep ertoires of risk , esp ecially th ose re-lated to ad ven tu re. Th e au th or argu es th at th e lan gu age of risk as ad ven tu re h as m u ltip le u ses, as both a h ed ge again st d e-trad ition aliz in g p rocesses typ ical of late m od ern ity an d a figu re of sp eech for n ew sen sitiv ities stem m in g from th e im p erative of cop in g w ith th e im p on d erability an d volatility of m od ern risk s. Th e article begin s w ith an overview of th e h istorical m ean in gs of risk , seek in g to argu e th at, as lan gu age in u se, risk is a u sefu l van tage p oin t for u n d erstan d in g t h e t ran sform at ion s cu rren t ly u n d er w ay in t h e form s of social con t rol, su ggest in g t h at w e are ex p erien cin g a tran sition from d iscip lin ary society, typ ical of classic m od ern ity, to risk society. Th e d iscu ssion th en focu ses on recen t tran sform ation s in im ages of risk , w ith sp ecial em p h asis on th e tren d to u se risk -ad ven tu re as a m etap h or for late m od ern ity.

Key wordsRisk ; Risk -Ad ven tu re; Reflexive Mod ern ization ; Risk Lan gu age

Resumo Este artigo tem com o objetivo situ ar as n ovas m od alid ad es d e u so d os rep ertórios in -terp retativos sobre risco, esp ecialm en te n o qu e se refere à p ersp ectiva d a aven tu ra. Prop õe qu e, com o aven tu ra, a lin gu agem d o risco cu m p re atu alm en te fu n ções m ú ltip las, sen d o tan to u m an -tep aro aos p rocessos d e d estrad icion aliz ação típ icos d a m od ern id ad e tard ia, com o u m a figu ra d e lin gu agem u tiliz ad a p ara falar d e n ovas sen sibilid ad es d ecorren tes d o im p erativo d e en fren -tar a im p on d erabilid ad e e volatilid ad e d os riscos m od ern os. In icia com u m a visão p an orâm ica d os sen tid os h istóricos d o risco bu scan d o argu m en tar qu e a n oção, en ten d id a n a p ersp ectiva d a lin gu agem em u so, p erm ite exp lorar as m u d an ças qu e vêm ocorren d o n as form as d e con trole so-cial qu e n os p ossibilit am falar d e u m a t ran sição d a socied ad e d iscip lin ar, form ação t íp ica d a m od ern id ad e clássica, p ara a socied ad e d e risco, form ação em ergen te n a m od ern id ad e tard ia. Fin aliza ap on tan d o p ara as tran sform ações qu e vêm ocorren d o n as im agen s sobre risco, bu scan -d o -d estacar o u so crescen te -d o risco-aven tu ra com o m etáfora -d a m o-d ern i-d a-d e tar-d ia..

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Este texto tem o d u p lo ob jetivo d e sín tese e d e rep osicion am en to fren te à q u estão d o risco n a m od ern id ad e tard ia. Com o sín tese, visa siste-m atizar as reflexões e resu ltad os d as p esqu isas so b re risco p o r n ó s d esen vo lvid a s d esd e 1997 (Sp in k, 1997, 1998, 1999). Co m o rep o sicio n a -m en to, p reten d e a rgu -m en ta r a fa vo r d a exis-tên cia, h oje, d e n ovas m od alid ad es d e u so d os rep ertórios in terp retativos sob re risco. Prop o-rem os, m ais esp ecificam en te, qu e o risco, visto n a p ersp ectiva d a aven tu ra, cu m p re atu alm en -te fu n ções m ú ltip las, sen d o tan to u m an -tep aro a os p rocessos d e d estra d icion a liza çã o típ icos d a m o d ern id a d e ta rd ia , co m o u m a figu ra d e lin gu agem u tilizad a p ara falar d e n ovas sen sib ilid ad es d ecorren tes d o im p erativo d e en fren -tar a im p on d erab ilid ad e e volatilid ad e d os ris-cos m od ern os.

Com eçarem os traçan d o u m a visão p an orâm ica d os sen tid os h istóricos d e risco. Ap oian -do-n os n as teorizações de Hayden White (1994), b u scarem os m ais esp ecificam en te traçar o en red o a rq u etíp ico d o s tró p ico s d o d iscu rso so -b re risco. Preten d em os, p or m eio d essa p an orâ m ica , a rgu m en ta r q u e a n o çã o d e risco, en -ten d id a n a p ersp ectiva d a lin gu a gem em u so, p erm ite exp lo ra r a s m u d a n ça s q u e vêm o co r-ren d o n a s fo rm a s d e co n tro le so cia l q u e n o s p o ssib ilita m fa la r d e u m a tra n siçã o d a so cie-d acie-d e cie-d iscip lin ar, form ação típ ica cie-d a m ocie-d ern i-d ai-d e clássica, p ara a sociei-d ai-d e i-d e risco, form a-ção em ergen te n a m od ern id ad e tard ia.

Co m essa co n textu a liza çã o co m o b a se, o cern e d o n o sso a rgu m en to p ro p õ e q u e esta -m os viven d o for-m as variad as d e d estrad icion a-lização d o risco q u e se fazem visíveis n ão ap e-n a s e-n a m u ltip licid a d e d e e-n ova s m o d a lid a d es d e a ven tu ra , m a s ta m b ém n o u so m eta fó rico d o risco -a ven tu ra p a ra referir-se so b retu d o à im p o n d era b ilid a d e e vo la tilid a d e d o s risco s m an u fatu rad os.

An tes, p orém , são n ecessários algu n s escla-recim en tos con ceitu ais. Ao u tilizar o term o ris

-co-aven tu raestam os n os referin do, ap en as p ar-cialm en te, às n ovas m od alid ad es d e aven tu ra e a o s n ovo s u so s d e a n tiga s m o d a lid a d es d e jo -gos d e vertigem . Op tam os p elo term o com p osto risco a ven tu ra , p a ra en fa tiza r u m d eslo ca -m en to i-m p o rta n te d o s sen tid o s -m o d ern o s d o risco q u e recu p eram a aven tu ra com o d im en -são p ositivad a d a gestão d os riscos.

Os teóricos d o risco, com o Gary Mach lis & Eu gen e Ro sa (1990), b u sca m in co rp o ra r essa d im en são em seu s esq u em as tip ificad ores sob a d en om in ação d e “risco d esejad o”. O risco d esejad o, segu n d o a d efin ição d ad a p or esses au -to res, refere-se à s “ativid ad es ou even tos qu e têm in certezas qu an to aos resu ltad os ou con

seqü ên cias, e em qu e as in certezas são com pon en -tes essen ciais e p rop ositais d o com p ortam en to” (Ma ch lis & Ro sa , 1990:162). Aca ta m , a ssim , a im p ossib ilid ad e d e com p reen d er risco ap en as n a p ersp ectiva ra cio n a liza d o ra d a a n á lise d e risco s, en ten d id a co m o a tria n gu la çã o en tre cálcu lo, p ercep ção e geren ciam en to d os riscos. Fa z-se n ecessá rio escla recer ta m b ém , q u e as p esqu isas qu e vêm sen d o p or n ós d esen vol-vid as focalizam risco n a p ersp ectiva d a lin gu a

-gem em u so. No referen cial qu e estam os elab o-ran d o n o Nú cleo d e Pesqu isa em Psicologia So-cial e Saú d e d a Pon tifícia Un iversid ad e Católi-ca d e São Pau lo (Sp in k & Frezza, 1999; Sp in k & Med rad o, 1999; Sp in k & Men egon , 1999), várias d im en sõ es d e u so d a lin gu a gem sã o en fa tiza -d a s. Bu sca m o s, -d e u m la -d o, en ten -d er a co n s-tru ção d e con ceitos n o âm b ito d e d om ín ios d e sab er esp ecíficos e su a cristalização em d iscu r-so s. Fa la m o s, n esse ca r-so, d e d iscu rr-so s o u d o u so in stitu cion alizad o d e rep ertórios in terp retativos. Mas b u scam os tam b ém en ten d er a lin -gu a gem n a p ersp ectiva d in â m ica d e u so n o con texto d as p ráticas d iscu rsivas. Focalizam os, n essa p ersp ectiva, os p rocessos d e in teran im a-ção d ialógica q u e p on tu am as trocas lin gü ísti-ca s e a d in â m iísti-ca d e p o sicio n a m en to s q u e d a í em ergem .

En treta n to, seja n o en fo q u e d o s d iscu rso s cristalizad os, seja n o d as p ráticas d iscu rsivas, é a n o çã o d e rep ertório in terp retativo(Po tter & Weth erell, 1987) qu e ocu p a o p ap el teórico cen -tral. Ch am am os d e rep ertório in terp retativo o con ju n to de term os, con ceitos, lu gares-com u n s e figu ras d e lin gu agem u tilizad os p ara falar d e u m fen ôm en o esp ecífico. Sen do p rodu ções cu l-tu rais e estan d o in scritos n os textos, im agen s e lu ga res d e m em ó ria q u e co n stitu em o im a gin á rio so cia l, o s rep ertó rio s sã o m elh o r co m -p reen d id os qu an d o ab ord ad os n o tem -p o lon go d a h istória. A fam iliarização com essas p rod u -ções im p lica, p ortan to, a realização d e u m a arqu eologia d os u sos d os rep ertórios em d iferen -tes ép ocas h istóricas. Con stitu em , n essa p ers-p ectiva arqu eológica, u m reservatório d e sen ti-d os p assíveis ti-d e serem reativati-d os n os p rocesso s d e co m p reen sã o d o m u n d o, q u e ch a m a -m os d e p rod u ção d e sen tid os.

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ltip la s d im en sões d o d eb a te sob re risco ltip resen -tes em in ú m eros textos p u b licad os em livros e artigos. É com b ase n essa vasta revisão d a lite-ratu ra qu e forn ecerem os u m a visão p an orâm i-ca d os sen tid os h istóricos d e risco.

Uma visão panorâmica dos sent idos hist óricos de risco: o enredo

arquet ípico dos discursos sobre o risco

Mesclam -se n esta p an orâm ica três d im en sões: u m a form a d e se relacion ar com o fu tu ro, u m a form a d e con ceitu ar risco e u m a form a d e gerir o s risco s. Co n sid era n d o, in icia lm en te, o risco co m o u m a form a esp ecífica d e se relacion ar com o fu tu ro, n u n ca é d em ais reiterar qu e a p a-lavra risco em erge n a p ré-m od ern id ad e, ou se-ja , n a tra n siçã o en tre a so cied a d e feu d a l e a s n ova s fo rm a s d e territo ria lid a d e q u e d a ria m origem aos Estad osn ação. Obviam en te, a h u -m an id ad e se-m p re en fren tou p erigos d iversos, seja m o s risco s in vo lu n tá rio s d eco rren tes d e ca tá stro fes n a tu ra is – terrem o to s, eru p çõ es vu lcâ n ica s, fu ra cõ es – seja m a q u eles a sso cia -d os às gu erras, às vicissitu -d es -d a vi-d a coti-d ian a o u a in d a o s vo lu n tá rio s, d eco rren tes d o q u e ch am aríam os h oje d e “estilo d e vid a”. En tretan -to, esses even to s n ã o era m d en o m in a d o s ris-cos. Eram referid os com o p erigos, fatalid ad es,

h az ard sou d ificu ld ad es, m esm o p orq u e a p a-la vra risco n ã o esta va d isp o n ível n o s léxico s d as lín gu as in d o-eu rop éias.

Assim , a p róp ria em ergên cia d a p alavra ris-co n o catalão n o sécu lo XIV, n as lín gu as latin as n o sécu lo XVI e n as an glo-saxôn icas n o sécu lo XVII já co n stitu i u m rico ca m p o d e in vestiga -çã o. Em b o ra ten h a m o s en gro ssa d o a s fileira s d os etim ólogos d iletan tes, n ão se trata aq u i d e exp licita r a s h ip ó teses p rová veis d esse su rgim en to tardio do vocábulo. Basta ressaltar o con -sen so de que a p alavra em erge p ara falar da p os-sib ilid ad e d e ocorrên cia d e even tos vin d ou ros, em u m m om en to h istórico on d e o fu tu ro p as-sava a ser p en sad o com o p assível d e con trole. Va le fa zer a q u i u m a b reve d igressã o so b re a s d iversa s p o ssib ilid a d es d e p en sa r o fu tu ro. Pierre Bou rd ieu , em texto p u b lica d o origin a l-m en te el-m 1963, d efen d e a tese d e q u e a s d is-p o siçõ es so b re o fu tu ro estã o a sso cia d a s à s con d ições m ateriais d e existên cia, q u e p erm i-tem o u n ã o d efin i-lo co m o “...u m a estru tu ra particu lar de probabilidades objetivas – u m fu -tu ro objetivo” (Bou rd ieu , 1979:8). Ap oian d o-se em p esq u isas etn ográficas e estatísticas, reali-za d a s n a Argélia en tre 1958 e 1961, co n sid era q u e a ad ap tação à econ om ia cap italista im p li-ca a in co rp o ra çã o d a d isp o siçã o à p revisib

ili-d a ili-d e e cá lcu lo q u e, p or su a vez, “... exige u m a disposição determ in ada em relação ao tem po e, m ais precisam en te, em relação ao fu tu ro, sen do qu e a ‘racion aliz ação’ d a con d u ta econ ôm ica su p õe qu e tod a existên cia se organ iz a em rela-ção a u m p on to d e fu ga au sen te e im agin ário” (Bou rd ieu , 1979:18-19).

É esse tip o d e relação com o fu tu ro q u e ge-ra o clim a p ro p ício à in co rp o ge-ra çã o p len a d a p ersp ectiva d o “risco”. Nã o q u e h a ja u m a a u -sên cia d e q u a lq u er d isp o siçã o a n te o fu tu ro n u m a eco n o m ia p réca p ita lista . Tra ta se, en treta n to, d e u m fu tu ro p a u ta d o n a “p revid ên -cia” – a h ab ilid ad e d e “ver d e an tem ão” a p artir d a in scriçã o n a p ró p ria situ a çã o, a p a rtir d a id en tid ad e en tre tem p o d e trab alh o e tem p o d e p ro d u çã o. Co m o a firm a Bo u rd ieu (1979:22), “lon ge de serem ditados p elo desejo p rosp ectivo d e u m fu tu ro p rojetad o, as con d u tas d e p revi-d ên cia oberevi-d ecem ao cu irevi-d arevi-d o revi-d e se con form a-rem aos m od elos h erd ad os”. Já o ca p ita lism o im p õe que se rom p a essa un idade. Op õe, assim , ao “futuro p rático”, lugar de p oten cialidades ob -jetivas, a n oção d e fu tu ro com o lu gar d os p os-síveis ab stratos d e u m su jeito in tercam b iável.

Ma is u m a vez é p reciso d eixa r cla ro q u e n ã o se tra ta d a a u sên cia d a p o ssib ilid a d e d e cálcu lo. O q u e Bou rd ieu p arece afirm ar é q u e, n as econ om ias p ré-cap italistas, o cálcu lo está a serviço d a eqü id ad e, p au tad a n u m esp írito d e solid aried ad e, m as “op õe-se em absolu to ao es-p írito d o cálcu lo qu e, fu n d am en tan d o-se n a avaliação qu an titativa do lu cro, an u la as apro-xim ações arriscadas e desin teressadas (pelo m e-n os e-n as ap arêe-n cias) de u m a m oral de gee-n erosi-dade e h on ra” (Bou rd ieu , 1979:35).

A tran sição d e u m fu tu ro p au tad o em soli-d ariesoli-d asoli-d e p ara ou tro m arcasoli-d o p elo cálcu lo soli-d os riscos, p od e ser traçad a a p artir d os rep ertórios lin gü ísticos d isp on íveis p ara sign ificar o fu tu -ro. Há, con form e d iscu tim os em textos an terio-res (Sp in k, 2001), u m a in corp oração grad ativa d e term o s, p a ssa n d o d e fa ta lid a d e à fo rtu n a (Gid d en s, 1991), e in co rp o ra n d o p a u la tin a -m en te os vocáb u los h azard(sécu lo XII), p erigo (sécu lo XIII), so rte e ch a n ce (sécu lo XV) e, n o sécu lo XVI, risco.

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m ações d iscu rsivas p arece exigir q u e o d iscu r-so se m ova d e u m a ca ra cteriza çã o m eta fó rica o rigin a l d e u m d o m ín io d e exp eriên cia , p a s-san d o p ela d escon stru ção m eton ím ica d e seu s elem en tos, p elas rep resen tações sin ed óq u icas d as relações en tre seu s atrib u tos e su a su p osta essên cia, chegan do en tão à elaboração dos con -trastes e op osições qu e p ossam ser d iscern id os n as rep resen tações sin ed óq u icas, fase q u e d e-n om ie-n a iroe-n ia.

No ca so d o co n ceito d e risco, esse lo n go p rocesso en volveu , d e u m lad o, o len to d esen -vo lvim en to d a teo ria d a p ro b a b ilid a d e, cu ja h istória, q u e tem in ício n o sécu lo XVII, é p on -tu a d a d e h eró is d a m a tem á tica , in clu in d o a í Pascal, Ferm at, Leib n iz e De Moivre. Essa h is-tó ria é co n ta d a d e fo rm a co lo q u ia l p o r Peter Bern stein (1997), n o livro O Desafio aos Deu ses, e n a lin guagem social da Filosofia por Ian Hackin g (1975), n o livro Th e Em ergen ce of Probability.

De ou tro lad o, o con ceito d e risco en volve a sofisticação d a estatística e seu u so com o ciên -cia d o esta d o. Nu n ca é d em a is a p o n ta r q u e a ra iz d e esta tística é statu s, q u e em la tim q u er d izer esta d o ou con d içã o. Em seu sen tid o in i-cial, a estatística era o ram o d a ciên cia p olítica q u e d izia resp eito à coleçã o e cla ssifica çã o d e fatos relevan tes p ara a tarefa ad m in istrativa, e é n esse sen tid o qu e ela en con tra u m a p rim eira fu n ção n o govern o d as p op u lações n a Ciên cia d a Po lícia d o s esta d o s a lem ã es d o s sécu lo s XVIII e XIX (Pasqu in o, 1991).

Ma s seria n ecessá rio o a va n ço d o cá lcu lo d as p rob ab ilid ad es p ara qu e a m era coleção d e d ad os se torn asse u m in stru m en to fu n d am en tal d e govern o. É n esse con texto, en tão, qu e en -con tram os o p rim eiro deslocam en to n o en redo arq u etíp ico d o d iscu rso sob re risco. Passam os d a m etá fo ra à m eto n ím ia e en tra m o s n a p ri-m eira fase da gestão dos riscos, que teri-m sua ida-d e ida-d e ou ro n o sécu lo XIX, n a ciên cia sa n itá ria que será o berço do Estado do Bem -Estar Social. En tretan to, será ap en as em m ead os d o sé-cu lo XX q u e p a ssa rem o s à fa se d a sin éd o q u e, com a p rogressiva form alização d o con ceito e a p erfeiço a m en to d a s técn ica s d e cá lcu lo d o s risco s. Essa p a ssa gem , n o d o m ín io d a ep id e-m iologia, foi b rilh an tee-m en te d etalh ad a p or Jo-sé Rica rd o Ayres (1997) em seu livro Sobre o Risco, e é ela qu e leva tam b ém , n a segu n d a m e-tad e d o sécu lo XX, à form atação d e u m cam p o d e sab er m u ito esp ecífico d en om in ad o gestão de riscos: u m cam p o q u e resu lta d o casam en to en tre o cá lcu lo d e p ro b a b ilid a d es e a h era n ça d a fu n ção p olítica d a estatística, e qu e irá gerar os sofisticad os m od elos d e an álise d e riscos.

O cam p o in terd iscip lin ar d a an álise dos ris-cosse in au gu ra, segu n d o algu n s au tores (en tre

eles: Hood et al., 1992; Ren n , 1998), n a d écad a de 50, n o con texto dos riscos associados à en er-gia n u clear. Esse cam p o d esd e ced o en glob ou três áreas d e esp ecialid ad e: o cálcu lo d os riscos (risk assessm en t), a p ercep çã o d o s risco s p elo p ú blico e a gestão dos riscos. Mais recen tem en te, a gestão d os riscos p assou a en glob ar tam -b ém a com u n icação so-b re riscos ao p ú -b lico.

O cálcu lo d os riscoscon siste n a id en tifica -ção d os efeitos ad versos p oten ciais d o fen ôm e-n o em ae-n álise, a estim ativa d e su a p rob ab ilid a-d e e a-d a m a gn itu a-d e a-d e seu s efeito s. Dep en a-d e p o rta n to, d e q u a n tifica çã o, exp ressa n a a b o r-d a gem h egem ô n ica r-d o Qu an titative Risk As-sessm en t(Ho o d et a l., 1992). A p ercep ção d os riscosvolta-se à relação en tre o p ú b lico e os ris-cos tecn ológiris-cos, estan d o associad a p ortan to, ao estu d o d a aceitação d e d eterm in ad as tecn o-logias, com o vem acon tecen d o com as d iversas ap licações m od ern as d a en gen h aria gen ética. Vo lta -se ta m b ém à p ersp ectiva d o co n tro le p reven tivo d o s risco s, b u sca n d o, p o r m eio d a ed u cação, in flu ir n os com p ortam en tos d eletérios p ara a saú d e d o corp o e d o m eio am b ien -te. A gestão d os riscosco m p reen d e q u a tro es-tratégias in tegrad as: os segu ros, as leis d e res-p on sab ilização res-p or d an os, a in terven ção gover-n am egover-n tal d ireta e a au to-regu lação. Progressi-vam en te, p assou a in corp orar tam b ém a com u

-n icação sobre riscos, n a m ed id a em qu e a p articip ação p ú b lica, qu er n a aceitação qu er n o au -tocon trole, p assou a ser elem en to im p rescin d í-vel d o con trole social d os riscos.

Tod as essas aren as in iciaram -se n u m clim a de fran co otim ism o, m as p rogressivam en te, de-p araram -se com críticas, sobretudo de-p or de-p arte de an trop ólogos vin cu lad os à Mary Dou glas e Aa-ron Wild avsky (Dou glas, 1992; Dou glas & Wil-d avsky, 1983). A eles ju n taram -se, m ais tarWil-d e, sociólogos, ecologistas e p en sad ores oriu n d os d e ou tros cam p os d iscip lin ares, in clu in d o aí a Psicologia Social (p or exem p lo: Kad van y, 1997; John son & Covello, 1987). O debate atual é rico e com p lexo dem ais p ara ser abordado n este texto, sen do im p ortan te ap en as, p ara a argum en tação aqui desen volvida, ap on tar que duas dim en sões estão aí im bricadas. Um a refere-se ao n ão-reco-n h ecim eão-reco-n to, ão-reco-n as ab ord ageão-reco-n s ião-reco-n iciais, d a q u es-tão d os valores q u e p erm eia n ão ap en as a p er-cep ção d o p ú b lico, m as a p róp ria d efin ição d o qu e vem a ser risco. A ou tra d im en são refere-se à tran sform ação qu e vem ocorren do n a n atu re-za dos riscos, p rogressivam en te m ais sistêm icos e globalizados. Nessa dim en são, o debate é téc-n ico e qu estiotéc-n a a p róp ria p ossibilidade de cál-cu lo d e riscos cad a vez m ais im p on d eráveis.

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A gestão d os riscos é u m fen ôm en o d a m od er-n id ad e tard ia e, seer-n d o u m a form a d e goverer-n ar p op u lações, d evem os en ten d er esse en red o n a p ersp ectiva d as m u d an ças q u e vêm ocorren d o n a esfera d a govern am en talid ad e e q u e levam m u itos au tores (en tre eles Castel, 1991) a afirm a reafirm q u e esta afirm o s viven cia n d o o fiafirm d a so -cied ad e d iscip lin ar (ou m od ern id ad e clássica) e o in ício d a so cied a d e d e risco (o u m o d ern i-d ai-d e tari-d ia). Isso im p lica en ten i-d er com o p as-sam os d o foco n a gestão d a vid a p ara o foco n a gestão d o risco.

Da sociedade disciplinar à sociedade de risco: a gest ão dos riscos

na modernidade t ardia

Para Fou cau lt (1977), o qu e estava em p au ta n a

socied ad e d iscip lin arera a gestão d a vid a q u e, segu n d o as reflexões d elin ead as n o livro A Von -tade de Saber, en glob ou d u as estratégias. Um a, d esen volvid a a p artir d o sécu lo XVII, cen trou -se n o corp o-m áq u in a con stitu in d o os d isp osi

-tivos disciplin ares. A ou tra, u m p ou co m ais tar-d ia, tar-d esen volven tar-d o-se p or volta tar-d e m eatar-d os tar-d o sécu lo XVIII, cen tro u -se n o co rp o -esp écie e en glo b o u a s técn ica s d e govern o d a s p o p u la -ções. É n o âm b ito d essas ú ltim as qu e se con sti-tu irão os biopoderesessen ciais p ara a m od ern a gestão d os riscos.

O p od er d iscip lin ar, fu n d a m en ta l p a ra o d esen volvim en to d o cap italism o in d u strial, tin h a p or ob jetivo o cotin trole d os corp os, tortin atin -d o-os -d óceis e fortaleci-d os p ara o trab alh o p ro-d u tivo. An corava-se ro-d u p lam en te n a organ iza-çã o d a m a ssa in d iferen cia d a m ed ia n te sistem as classificatórios e n as estratégias de vigilân -cia con tin u ad a. O p rin cip al m ecan ism o classi-fica tó rio n esse tip o d e gestã o era a n o rm a , e m ais p recisam en te a d efin id a a p artir d as d is-trib u ições d e freqü ên cia. Dessa form a, essa orga n iza çã o era p erp a ssa d a p ela n o çã o d o “h o -m e-m -m éd io”, in tro d u zid a p o r La -m b ert Ad o lp h e Jacq u es Qu etelet e alp erfeiçoad a lp or Fran -cis Galton (Bern stein , 1997).

Tam b ém a vigilân cia d ep en d ia d e d ois m e-ca n ism o s. De u m la d o, a p o ia va -se n a s “d isci-p lin as”, saberes esisci-p ecíficos con stitu ídos e con s-titu id ores d as in ss-titu ições d e vigilân cia: a esco-la , a p risã o, p o r exem p lo. De o u tro esco-la d o, p a ra q u e essas ord en ações fossem in tern alizad as, a vigilâ n cia d ep en d ia d e u m regim e d iscip lin a r exercid o n o esp aço p rivad o d os lares e d as su b -jetivid ad es: a h igien e.

Já o s biop od eresvo lta m -se a o govern o d o corp o-esp écie e têm p or ob jetivo a segu ran ça, estratégia de govern o qu e im p lica o ap

erfeiçoa-m en to e u so d a in forerfeiçoa-m ação. É ierfeiçoa-m p ortan te, n es-sa p ersp ectiva, en ten d er os riscos e seu s corre-la to s. É im p o rta n te ta m b ém q u e se d esen vo l-vam in stitu ições esp ecializad as n a an álise d es-sa s séries q u a n tita tiva s. É o bvia m en te n eses-sa verten te q u e se an coram as m od ern as estraté-gias d e gestão d os riscos.

En tretan to, Fou cau lt p en sa a m od ern id ad e clássica. Seu p rojeto, segu n d o exp licitação n o texto Politics an d th e Stu d y of Discou rse, d e 1968, b u scava d eterm in ar, em su as d iversas d i-m en sõ es, co i-m o d eve ter sid o o i-m o d o d e extên cia d os d iscu rsos e p articu larm en te d os d is-cursos cien tíficos (suas regras de form ação, com su a s co n d içõ es, d ep en d ên cia s e tra n sfo rm a çõ es) n a Eu ro p a , d esd e o sécu lo XVII, d e m a n eira que o con hecim en to que é n osso hoje, p u -d esse ter vin -d o a existir, m ais p articu larm en te, aqu ele qu e tom ou com o seu d om ín io o cu rioso ob jeto ch am ad o h om em (Fou cau lt, 1991).

No en tan to, p ara en ten d er os d eslocam en -tos ocorrid os m ais recen tem en te, a referên cia fu n d am en tal é Ulrich Beck (1993). Para Beck, o p ro jeto d a m o d ern id a d e ta rd ia im p lica a ges-tã o d o s risco s (e n ã o m a is a gesges-tã o d a vid a ). Beck in trod u z o con ceito d e socied ad e d e risco

p ara referirse a esses d eslocam en tos, q u e in clu em três características: a glob alização, a in -d ivi-d u alização e a reflexivi-d a-d e.

A globalização, n a visão d e Beck, se refere à in terseção d e au sên cia e p resen ça ou ao en tre-laçam en to d e relações e even tos sociais qu e es-tão d istan tes d os con textos locais. Trata-se d o p rocesso d e sep aração d as relações en tre tem -p o e es-p a ço q u e tem co m o co n seq ü ên cia s a d esterrito ria liza çã o. Essa a rticu la çã o d e rela -çõ es so cia is q u e a tra vessa m va sta s fro n teira s d e tem p o e esp aço torn a-se p ossível p orq u e o m ovim en to – d e p essoas, d e p rod u tos e d e in form ação – p assou a ser facilitad o p elos avan -ços n os m eios d e tran sp orte. En tretan to, n ão é essa a m a rca registra d a d a glo b a liza çã o ; su a con d ição sin e qu a n on são os d esen volvim en -tos n a m íd ia eletrôn ica.

Qu a n to à in d ivid u aliz ação, n ã o se tra ta m ais d a id en tificação d o sin gu lar n a m assa, fa-to q u e d eco rre d o s p ro cesso s cla ssifica tó rio s d a so cied a d e d iscip lin a r, m a s d a sin gu la riza -ção p or m eio d a d estrad icion aliza-ção. Beck se refere, com esse term o, às tran sform ações q u e vêm ocorren d o n a s in stitu ições tra d icion a is – fam ília, trab alh o e ed u cação – q u e fazem com qu e as b iografias torn em -se p rojetos reflexivos e, com o tal, p rocessos cen trais n a con stitu ição d a su b jetivid ad e con tem p orân ea.

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co m a n a tu reza , à lu z d e n ova s in fo rm a çõ es, p rocesso esse qu e p erp assa n ossa vid a cotid ia-n a, p eia-n sad a com o esfera p rivad a, o p rojeto d a ciên cia e a p róp ria ativid ad e d e govern o. Trata-se, assim , d e m ais u m in d icad or d a p resen ça d a iron ia em n ossas form ações d iscu rsivas, en ten -d en -d o-a (com o su gere Wh ite) com o cap aci-d a-d e n ã o só a-d e a-d izer co isa s so b re o m u n a-d o a-d e m an eira p articu lar, m as tam b ém d e d izê-las d e m an eira altern ativa.

Não q u e as estratégias d e govern o an terio-res – a soberan ia e a discip lin a – n ão con tin u em a vin gar. Fou cau lt bem n os adverte. Mas h á d es-locam en tos im p ortan tes qu e fazem com qu e as n ovas m od alid ad es d e b iop od eres se torn em as p rin cip ais estratégias d e gestão. O q u e m u d a? Diría m o s q u e m u d a a n a tu reza d o s risco s, o s m ecan ism os d e gestão d as p op u lações e as es-tratégias d e gestão n o n ível d as p essoas.

Qu an to à n atu reza dos riscos, Beck e ou tros sociólogos (en tre eles Gid d en s, 1998) falam d e socied ad e d e risco p ara p on tu ar a com p lexid a-d e a-d o s risco s m o a-d ern o s, co m p lexia-d a a-d e essa qu e se refere à n atu reza d os riscos – en fatizan d o a p resen ça crescen te d os riscos m an u fatu rad os, p rod u tos d os d esen volvim en tos d a ciên -cia e tecn o lo gia – e à p ro gressiva ten d ên -cia à d esterrito ria liza çã o e glo b a liza çã o d esses ris-cos. Em erge d aí u m a n ova sen sib ilid ad e: a p er-cep ção crescen te d e q u e os riscos são sistêm ico s, a ico m p a n h a d a d a ico n sciên cia d a im p o n -d era b ili-d a -d e -d o s risco s e -d a n ecessi-d a -d e -d e m ecan ism os igu alm en te com p lexos d e gestão d o im p on d erável.

Essa s n ova s fo rm a s d e gestão n o n ível d as p op u laçõestrazem em seu b ojo q u atro asp ec-to s in teressa n tes. In icia lm en te, a em ergên cia d e sistem as d e gestão q u e são tran sd iscip lin a-res, tran sd ep artam en tais e tran sn acion ais. Em segu n d o lu ga r, a n ecessid a d e d e m eca n ism o s sofisticad os d e gestão d e in form ação qu e atra-vessem d o m ín io s d e sa b er: red es in terliga d a s d e in form ação, con form e d escrito p or Rich ard Ericson & Kevin Haggerty n o livro Policin g th e Risk Society(1997). Im p õem tam b ém , a n eces-sid ad e d e ressign ificação d a ética, q u e p assa a ser n ão m ais u m a ética p rescritiva, m as d ialógica com o im p erativo d a con su lta a rep resen -tan tes d a socied ad e civil (Sp in k, 2000a). Fin al-m en te, ial-m p lica a eal-m ergên cia d e n ovas al-m od ali-d aali-d es ali-d e m ovim en tos ali-d e resistên cia q u e u tili-zam as facilid ad es d e acesso à In tern et, trad u -zin d o-se em m ovim en tos sociais glob alizad os. Já a gestão n o n ível da p essoa,con cern e sob retu d o a o im p era tivo d e gestã o d a in fo rm a -çã o n u m a so cied a d e ca d a vez m a is d estra d i-cion a liza d a e à lu z d e m u d a n ça s su b sta n tiva s n a n a tu reza d a in fo rm a çã o, e a té m esm o n o s

m ecan ism os d e circu lação d a in form ação. As-sim , a in fo rm a çã o n a so cied a d e glo b a liza d a p rescin d e d a s in stitu içõ es ed u ca tiva s (o u a s tran sform a); p assa a ser u m p rocesso con tín u o q u e se d á d en troe forad os esp aços in stitu cio-n a is d a ed u ca çã o. Secio-n d o ca ra cteristica m ecio-n te ca p ila r, se d ifu n d e p or m eio d a s vá ria s tecn o-lo gia s d e in fo rm a çã o (e n ã o m a is a p en a s p o r m eio d e livro s). To rn a n d o -se u m a exigên cia p ara a p rod u ção d e sen tid os n o cotid ian o, im p lica n ovas form as d e vigilân cia, agora su b su -m id as p elo au tocon trole d o estilo d e vid a e p e-la m o n ito ra çã o co n sta n te d e in d ica d o res d e qu alid ad e, com o n o caso p rototíp ico d os d iag-n ósticos p reveiag-n tivos em saú d e.

O cru za m en to d o im p era tivo d a in fo rm a -ção com os p rocessos d e d estrad icion aliza-ção tem im p licações im p ortan tes. Há, an tes d e tu -d o, u m a ten -d ên cia à -d esn orm alização, sen -d o a n o rm a su b stitu íd a p elo im p era tivo d a o p çã o. Ma s h á ta m b ém , a em ergên cia d e a n tep a ro s va ria d o s à d estra d icio n a liza çã o, en tre eles a b u sca d o sen tid o d a vid a n a em oção e ad ren a-lin a. Isso n os leva ao ú ltim o tóp ico d a con tex-tu a liza çã o im p rescin d ível p a ra o a rgu m en to aq u i d esen volvid o: a fu n ção d o risco-aven tu ra n esse cen ário d e gestão d os riscos.

A dest radicionalização do risco: o risco-avent ura como met áfora da modernidade t ardia

Tem os d efen d id o em ou tros textos sob re risco (Sp in k, 2001) a existên cia d e u m a d im en sã o p ositiva n o en fren tam en to d os riscos. Há u m a velh a con exão en tre risco e aven tu ra, valoriza-d a p ela ou savaloriza-d ia p assível valoriza-d e levar a valoriza-d escob ertas. Por exem p lo, a com p an h ia d e segu ros W in ter

-th u r In tern ation al, m em b ro d o Cred it Su isse Grou p– qu e se au to-d efin em com o “th e experts in total risk m an agem en t” –, p rod u ziu u m a b e-la série d e a n ú n cios en fa tiza n d o a ou sa d ia d o risco. Trata-se d e fotos d ram áticas em b ran co e p reto, com fu n d o p reto, d e au toria d e Rich ard Aved on , com celeb rid ad es d o calib re d e Mau rice Béja rt (co reó gra fo ), Giova n n i Agn elli (em -p resário) e LordAtten b orou gh (cin easta), q u e fa la m d e seu s m u n d os n a lin gu a gem d o risco. Por exem p lo, n o an ú n cio p u b licad o n a revista

Th e Econ om istem 1998 ( Win th ertu r In tern a -tion al, 1998:56-57) Maurice Béjart afirm a: “Dan

-çar à beira de u m vu lcão é a m ais bela m etáfora qu e con h eço para risco. E ter a coragem de correr riscos é a m aior m otivação para toda a dan ça”.

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re-en d im re-en tos com erciais d e ed u cação através d a a ven tu ra é o Ou tw ard Bou n d, co m in ício em 1941, n o País d e Gales, Grã-Bretan h a, resu ltad o d e u m a p arceria en tre Ku rt Hah n , ed u cad or, e Lawren ce Holt, sócio de u m a em p resa de tran s-p orte m arítim o. O ob jetivo origin al era trein ar

por m eio do corpo, em op osição a trein ar o cor-po(Martin , 1994). Esse p rojeto teve im en so su -cesso n o p ós-gu erra, estan d o h oje firm em en te im p lan tad o em d iversos p aíses. Su a p ágin a n a

In tern et <h ttp :/ / www.ou tward b ou n d .org> d es-creve o s cin co va lo res q u e n o rteia m esse tip o d e ed u ca çã o : (a ) a ven tu ra e d esa fio, (b ) co m -p a ixã o e ser viço, (c) a -p ren d iza gem -p o r in ter-m éd io d a exp eriên cia , (d ) d esen vo lviter-m en to p essoal, (e) resp on sab ilid ad e social e am b ien tal. Seu p rojeto ed u cativo é d escrito d a segu in -te m a n eira : “Até m esm o n u m am bien te tão p ou co d om esticad o com o a n atu rez a (w ild er-n ess) h á m étod o em er-n ossa lou cu ra. Tod os os com p on en tes d e u m cu rso ou tw ard bou n d o aju d am p rim eiram en te a con h ecer-se m elh or, depois o en sin am a abrir-se (reach ou t) e aju dar aos ou tros em su a equ ip e. É essa com bin ação qu e o aju da a ver as coisas com n ovos olh os e faz do ou tw ard bou n d u m a experiên cia in crível”.

H á , fin a lm en te, u m a velh a co n exã o en tre

risco e ap osta, em su a essên cia d e p o ten cia li-d a li-d e li-d e ga n h o s e p erli-d a s, q u e li-d eixo u m a rca s p rofu n d as n o d om ín io d a econ om ia. A revista

Ex am e, d e 13 d e a go sto d e 1997, tra zia co m o tem a d e ca p a a rep o rta gem in titu la d a Os Ho-m en s do Risco, com a segu in te ch am ad a: “Bem -vin d o ao m u n d o d e in ten sa ad ren alin a d a Lin ear. Em oção é o qu e Lin ão falta a qu em se aveLin -tu ra p or seu s fu n d os d e alto risco – qu e p od em faz er a felicid ad e (ou a d ep ressão) d o in vesti-d or” (Figu ra 1). A rep o rta gem a rgu m en ta va a favor d a tese d e q u e sem p erigo n ão se avan ça n o p ro jeto d a m o d ern id a d e. Pa ra fra sea n d o Bern stein (1997), o a u to r d a m a téria a firm a : “Sem o d om ín io d a teoria d as p robabilid ad es e de ou tros in stru m en tos de adm in istração de ris-co, os en gen h eiros jam ais teriam p rojetad o as gran des pon tes, os lares ain da seriam aqu ecidos p or lareiras e as viagen s esp aciais ain da seriam u m son h o. (...) A cap acid ad e d e ad m in istrar o risco e a von tad e d e correr riscos e d e fazer op -ções ou sad as são elem en tos-ch ave d a en ergia qu e im p u lsion a o sistem a econ ôm ico” (Fu cs, 1997:99).

É o p o rtu n o lem b ra r q u e, em seu s p rim ó r-d ios, o r-d esen volvim en to r-d a teoria r-d a p rob ab i-lid a d e a p o io u -se d u p la m en te n o cen á rio d o s jogos d e ap osta e n a astron om ia. Por exem p lo, h á u m fa m o so p ro b lem a m a tem á tico co n cer-n ecer-n te à d istrib u içã o d o va lo r d a s a p o sta s em u m jogo in terrom p id o, qu e circu lou n a Eu rop a

d u ran te q u atro sécu los. In trod u zid o p or Fib o-n a cci o-n o sécu lo XIII, fo i fio-n a lm eo-n te reso lvid o p o r Pa sca l e Ferm a t n o sécu lo XVII, p o r m eio d o cá lcu lo d a p ro b a b ilid a d e d a seq ü ên cia d e gan h os e p erd as n o d esen rolar d o jogo.

Essa m od alid ad e d e en fren tam en to d e ris-cos é fortem en te m arcad a p ela aven tu ra, d efi-n id a aq u i ap eefi-n as com o a d isp osição d e correr riscos. Trata-se d e u m com p on en te im p ortan te d a m o d ern id a d e, exp ressa , p o r exem p lo, n a d isp osição d e in vestir, m otor p rin cip al d a eco-n o m ia lib era l. H á , a liá s, u m fértil ca m p o d e p esqu isa voltad o ao estu d o d o com p ortam en to d o h om o econ om icu s, qu e b u sca en ten d er a to-m a d a d e d ecisã o eto-m situ a çõ es d e risco. Ba sta citar com o exem p lo d u as verten tes d e p esq u i-sa h oje clássicas: a teoria d e jogos d e Joh n Von Neu m an n & Oscar Morgen stern (1947) e a teo-ria d e d ecisão d os p sicólogos cogn itivos asso-cia d a a o tra b a lh o d e Am o s Tversky e Da n iel Kahn em an (Kahn em an & Tversky, 1984; Tversky & Kah n em an , 1981).

En tretan to, d ep aram os h oje com n ovas m o-d alio-d ao-d es o-d e aven tu ra, seja n a verten te o-d os esp ortes ra d ica is, seja n a b u sca d a em oçã o exa -cerb a d a p ela s d ro ga s lícita s e ilícita s. Algu n s a u to res (en tre eles Gid d en s, 1991; Le Breto n , 1996) vêm p ro cu ra n d o en ten d ê-la s à lu z d a s características d a socied ad e d e risco, situ an d

o-Fig ura 1

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as com o form as d e an tep aro aos p rocessos d e d estrad icion alização q u e acom p an h am a glo-b a liza çã o. Tem o s a ssu m id o a p o siçã o d e q u e, p ara en ten d ê-las, é p reciso an tes d e tu d o situ á-las n o con texto d os jogos. Op tam os, p ara isso, p elas teorizações h oje clássicas d e Roger Cail-lois (1958).

Caillois b aseia seu m od elo d e jogos (Tab ela 1) n a in terseção d e d u as d im en sões: as d iferen -tes m o d a lid a d es d e jo go s e o gra u d e d iscip li-n arização d os jogos. Prop õe, d essa form a, qu a-tro m od a lid a d es b á sica s d e jogos: agôn, jogos d e com p etição; alea, jogos d e ch an ce; m im icry, jo go s d e sim u la cro e ilin x, jo go s d e vertigem . As qu atro m od alid ad es ap arecem em d u as for-m a s: u for-m a for-m a is esp o n tâ n ea (o u p rifor-m itiva ) – a

p aid iae a ou tra m ais regrad a – o lu d u s. Pod e-m os p en sá-las n a p ersp ectiva d a sociogên ese, o u seja , a p aid iaco m o u m a fo rm a m en o s so cializad a d os jogos, típ ica, p or exem p lo, d a in -fân cia e o lu du scom o a form a d iscip lin ad a, so-cializad a e p resa a regras d e com p ortam en to.

Um d o s fen ô m en o s m a is su rp reen d en tes da ép oca atual é o crescim en to vertigin oso, qu a-se d ea-sen fread o, d os jogos d e vertigem (ilin x) e é n esse con texto q u e situ am os o riscoaven tu -ra. Faz p arte d esse m ovim en to d e exp an são, a em ergên cia d a s d iversa s n ova s fo rm a s d e es-p o rtes d e a ven tu ra , ten d o co m o es-p recu rso ra a

W h itbread Ocean Race, co m in ício em 1973. Herd eira d a s d isp u ta s in fo rm a is en tre o s tea clip p ersq u e fa zia m a rota en tre Eu rop a e Ásia n o sécu lo p assad o, a W h itbreadm ob iliza h oje a lta tecn o lo gia e recu rso s so fistica d o s, sem d eixar d e ap elar p ara a em oção d os riscos in e-ren tes ao en fe-ren tam en to d os ocean os.

A d écad a d e seten ta in trod u z m od alid ad es d e risco-aven tu ra q u e u tilizam veícu los m otoriza d o s, e sp e cia lm e n te a s d isp u ta s d e ve ícu

-lo s off-th e-road, se n d o a s m a is co n h e cid a s o

Rali Paris-Dak ar, in iciad o em 1979, e o Cam el Trop h y, realizad o em lu gares in ósp itos em d i-feren tes p aíses a p artir d e 1980.

O fin al d os an os 80 vê em ergir n ovas m od a-lid ad es d e risco-aven tu ra: os ralis h u m an os. A p rim eira co m p etiçã o n essa n ova m o d a lid a d e teria sid o o Raid Gau loise, co n ceb id o p o r u m jorn alista fran cês, Gérard Fu sil e realizad o p ela p rim eira vez n a Nova Zelâ n d ia em 1989. Já o

Eco-Ch allen ge Lifestyles In c., fu n d ad o p or Mark Bu rn ett em 1992, co m o su gere o n o m e, in ova p o r a sso cia r a ven tu ra co m eco lo gia . Tra ta -se, co m o seu a n tecesso r, d e u m a co m p etiçã o d e resistên cia qu e en volve m ú ltip las m od alid ad es d e esp orte: m on taria a cavalo, can oagem , esca-la d a , ra p el, m ou n tain bik ee lo n ga s ca m in h a -d as. Tem com o in gre-d ien tes p rin cip ais o trab alh o em equ ip e, a resistên cia, o esp írito de aven -tu ra e a co m p a ixã o, m escla d o s co m a co n s-ciên cia ecológica m an ifesta n ão só n o resp eito ab solu to à n atu reza (“pack it in , pack it ou t, n o cam p fires, cam p an d travel on ly w h ere perm it-ted” é o lem a d os aven tu reiros ecologistas), com o tacom b écom n a ação acom b ien tal efetiva ap oian -d o in icia tiva s lo ca is. Ta m b ém n ó s, n o Bra sil, ad erim os aos ralis h u m an os, in icialm en te com a Exp ed içã o Ma ta Atlâ n tica , o rga n iza d a p ela

Socied ad e Brasileira Mu ltisp ort Ad ven tu re Ra-cin ga p artir d e 1998, e m ais recen tem en te com os p rogram as p op u lares d e sob revivên cia, co-m o o recen te No Lim ite.

En tretan to, o ilin xn ão se m an ifesta ap en as n essas form as d iscip lin ad as d e jogos d e verti-gem ca ra cterística s d o lu d u s. Pa ra en ten d er a m u ltip licid ad e d e m od alid ad es d e riscoaven -tu ra é co n ven ien te reco rrer m a is u m a vez a Ca illo is e a su a p ro p o sta d e q u e o lu d u sp o d e ter form as cu ltu rais e in stitu cion ais, assim

co-Tab e la 1

A classificação d o s jo g o s se g und o Ro g e r Caillo is.

Agôn (compet ição) Alea (chance) M imicry (simulacro) Ilinx (vert igem)

Paidia(alg azarra, Co rrid as Te so ura, pe dra, pape l Jo g o s d e ilusão Carro sse l

alarid o , tumulto , Lutas Cara o u co ro a Máscaras Dança ag itação , riso so lto ) Fantasias

Ludus(e sp o rte s Bo xe Ap o stas Te atro Esq ui

co m re g ras, té cnicas Esg rima Ro le ta Circo Alp inismo e e q uip ame nto s) Fute b o l Lo te rias Bung e e jump

Bilhar Damas Xad re z

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m o fo rm a s co rro m p id a s. As form as cu ltu rais

en glo b a m to d a s a s m o d a lid a d es d e esp o rtes q u e exaltam a velocid ad e, a ad ren alin a, a ob li-tera çã o d a ra zã o p ela co n cen tra çã o to ta l n a ação. Por exem p lo, o esqu i, o alp in ism o, o su rfe e as d iversas m od alid ad es d e esp ortes q u e en -volvem d esafio, sob revivên cia e vertigem .

As form as in stitu cion ais se fazem p resen tes so b retu d o n a s p ro fissõ es q u e exigem o d o m ín io d a vertigem . Iín serem se a q u i a s tra d icio n ais p rofissões d e risco, com o os gu ias d e m on -ta n h a , o s b o m b eiro s, o s d etetives. Ma s in se-rem -se tam b ém as n ovas p rofissões q u e em er-gem em con seq ü ên cia d os riscos m an u fatu ra-d os. Ericson & Haggerty (1997:102) ra-d efin em as n ovas p rofissões d o risco com o “u m gru po ocu -p acion al qu e reivin d ica -p ara si u m con h eci-m en to abstrato e exclu sivo sobre coeci-m o lid ar com riscos específicos, assim com o a h abilidade de prover serviços especializados para geren ciar esses riscos”. In clu em -se aqu i os geren tes d e ris-co em b an ris-cos d e in vestim en to, os resp on sáveis p ela segu ra n ça d e tecn o lo gia s ca p a zes d e in -d u zir a -d esastres em larga escala, com o a en er-gia n u clea r e o s resp o n sá veis p ela segu ra n ça d as n ovas tecn ologias associad as à en gen h aria gen ética.

Ca illo is p ro p õ e a in d a q u e h á form as cor-rom pidasd os jogos d e vertigem em qu e a razão é ob litera d a , p or exem p lo, p elo u so d e d roga s p sicotróp icas, sejam elas lícitas ou ilícitas. Essa é a form a d e risco q u e Da vid Le Breton (1996) ch a m a d e blan ch eu r. Tra ta -se d o in verso d a vertigem e d o d esafio – em q u e o risco é ativa-m en te b u sca d o – co ativa-m a a tra çã o d irecio n a d a p ara o m en os e n ão p ara o m ais: lon ge d e p ro-vocar a m orte, h á u m d oce ab an d on o a ela p or m eio d o á lco o l, d a d ro ga , d a fu ga o u d a va ga -b u n d agem .

São essas d im en sões d o risco qu e vêm sen -d o fo co -d e reflexã o -d e ta n to s a u to res. Algu n s b u sca m en ten d er a o n ip resen ça d a s form as cu ltu rais d o risco-aven tu ra, su b su m id as p elos esp ortes-radicais, com o form a de exp an são d os p ro cesso s d e d iscip lin a riza çã o p a ra a lém d e su a s fo rm a s in stitu cio n a is. A a ven tu ra , n essa in terp retação, p assa a ser in corp orad a ao coti-d ian o com o estratégia coti-d e ecoti-d ificação. En con tra-m os n a tra-m íd ia exetra-m p los variad os d essa fu n ção ed ificad ora d o risco-aven tu ra, en tre eles:

a) O fortalecim en to d o caráter, com o n a re-p ortagem d e care-p a d a Veja São Pau lo,d e m arço d e 1998 (Fran ça, 1998), in titu lad a Um a Tu rm a Movid a a Ad ren alin a: Os Riscos, os Ben efícios, as Em oções e os Desafios d os Esp ortes Rad icais Praticados por Aven tu reiros In fan tis(Figu ra 2).

b ) A a p ren d iza gem d e flexib ilid a d e e d eci-são n os p rogram as d e trein am en to e d esen

vol-vim en to geren cial, com o o Qu est, d esen h ad os p ara d ar à gerên cia corp orativa u m recu rso d e trein a m en to a ltern a tivo q u e co m b in a a em o -çã o d a a ven tu ra ou td oor co m o trein a m en to corp orativo tradicion al. Segu n do descrição for-n ecid a for-n o site, “o con ceito é apren der fazen do – faz en d o algo fora d o escritório qu e ap resen ta d esafios qu e p od em en tão ser tran sferid os p a-ra o m u n d o real d o ta-rabalh o” (Qu est: <h ttp :/ / w w w.la gu n a p h u ke t .c o m / q u e s t / c o r p o r a t e _ train in g.h tm >).

c) Ou ain d a, a b u sca d e n ovos esp aços p ara o fo rta lecim en to d o s la ço s fa m ilia res, co m o ap regoa a rep ortagem d e cap a d a Veja São Pau -lo,d e ju n h o d e 1999 (Fran ça, 1999), in titu lad a

Laços d e Ad ren alin a: Pais e Filh os Descobrem n a N atu rez a, em Su rp reen d en tes Aven tu ras d e Fim d e Sem an a, a Ch ave p ara u m a Con vivên -cia m ais Estreita.

Ou tros au tores focalizam as form as corrom -pidase b u scam en ten d ê-las n a p ersp ectiva d os p rocessos d e d estrad icion alização, p róp rios d a socied a d e glob a liza d a e d o ca p ita lism o in for-m acion al. In sere-se n essa verten te a in stigan te reflexão d e David Le Breton (1996), qu e an alisa tan to as form as cu ltu rais qu an to as form as cor-ro m p id a s d o s ilin xm o d ern o s n a p ersp ectiva do ordálio, ou seja: a busca de sign ificado p ara a vid a n o en fren tam en to d a m orte, d an d o ch an

-Fig ura 2

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ces igu ais d e d ela escap ar. Em su m a, “qu an d o o sen tido da vida escapa, qu an do tu do é in diferen te, o ord álio é u m a solu ção. É a ú n ica estru -tu ra an trop ológica qu e p od e d ar u m a segu n d a ch an ce. Ela m etaforiz a a m orte p or m eio d e u m a troca sim bólica em qu e o ator aceita qu e, p ara p od er tu d o gan h ar, arrisca tu d o p erd er” (Le Breton , 1996:58).

São cam in h os p ossíveis, m as qu e n ão esgo-tam as exp licações sob re a on ip resen ça d o ris-co -a ven tu ra n a so cied a d e ris-co n tem p o râ n ea . O q u e estam os p rop on d o, en tretan to, é q u e b u squ em os fu gir d a sed u ção d os esp ortesaven tu ra ou d o q u estion a m en to d a s form a s corrom -p id a s d e ilin x, fo ca liza n d o o risco -a ven tu ra a p artir d e u m n ovo olh ar, b u scan d o en ten d er os u so s m eta fó rico s a q u e se p resta m p a ra fa la r n ão m ais d e riscos m as d e im p on d erab ilid ad e.

O uso met afórico do risco-avent ura

Desd e q u e n os em b ren h am os n a p esq u isa so-b re risco, tem os colecion ad o m atérias soso-b re o a ssu n to em jo rn a is e revista s, n a cio n a is e es-tran geiras, in clu in d o an ú n cios e p rop agan d as q u e u tilizam a lin gu agem d o risco. An alisan d o as m atérias q u e traziam a p alavra risco n o seu títu lo, p u b licad as n a Folh a de São Pau lo n o p erío d o d e 1921 a 1998 (Sp in k, 2000b ), verifica -m os u -m u so crescen te e-m tod as as áreas d e re-p ortagem , in clu in d o esre-p orte, econ om ia, saú d e e p olítica. Mu itas d essas m atérias focalizavam o “risco em si”, seja com o m eton ím ia, seja co-m o sin éd oq u e. Mas ou tras faziaco-m u co-m u so co-m e-tafórico d o term o, q u e era u tilizad o p ara falar d e a lgo q u e, em b o ra rela cio n a d o, já n ã o era m ais risco.

Esse d eslocam en to fica m ais claro q u an d o an alisam os as im agen s; em su m a, m u ito recen -tem en te com eçam os a en con trar im agen s rela-cion ad as a risco-aven tu ra q u e já n ão rem etem m a is à p a la vra risco. É p o ssível ilu stra r esse d eslocam en to con trastan d o d ois u sos d e risco em im agen s. O p rim eiro é u m an ú n cio d e u m a em p resa d e segu ro s, a Allian z Grou p ,q u e se d escreve co m o “líd er em segu ros e serviços fi-n afi-n ceiros fi-n a Eu rop a”, p u b lica d o n a Veja, em m aio d e 2000. A b elíssim a im agem , aq u i ap re-sen tad a n a form a d e croq u is d ad a a recu sa d e a u to riza çã o p a ra su a rep ro d u çã o, m o stra u m o p erá rio sen ta d o em u m a viga d e p réd io em con stru ção, “n o top o d o m u n d o” com a cid ad e aos seu s p és.

A m en sa gem é cla ra : o n d e q u er q u e vo cê esteja, a Allian z d ará cob ertu ra: “p ara n ós, ad m in istração de riscos sign ifica p en sar o im p en -sável p ara evitar qu e riscos se tran sform em em

p erd as. Com o u m a d as m aiores segu rad oras d o m u n d o, tem os a solid ez fin an ceira e a cap aci-d aaci-d e técn ica qu e fazem aci-d a Allian z u m a p arcei-ra em qu e você pode con fiar qu an do e on de pre-cisar”(Allian z Grou p, 2000:100-101).O an ú n cio fala tan to d a n ecessid ad e com o d a p ositivid a-d e a-d o risco, m a s a p a rtir a-d a segu ra n ça a-d eco rren te d a escolh a d e b on s gerren tes d e risco. Em -b ora se ap óie n a m etáfora p ara a com u n icação d a m en sagem , a associação en tre a n ecessid a-d e a-d e co rrer risco s e o s resu lta a-d o s p o ten cia lm en te p ositivos d a elm p reitad a é feita n o con -texto d o geren ciam en to racion al d os riscos (Fi-gu ra 3).

Já a segu n d a im a gem n em m esm o fa la em riscos, em b ora eles estejam p resen tes q u er n a fo to q u er n a id éia d e vo la tilid a d e d o s fu n d o s. Trata-se d e u m d e três textos p u b licad os n a re-vista in glesa Th e Week, d e 29 d e a b ril d e 2000, n a seçã o in titu la d a M ak in g Mon ey: W h at th e Exp erts Th in k. O texto em q u estã o, in titu la d o

Th rill Seek ers or Sou n d Sleep ers(o s q u e b u s-ca m em o çõ es o u o s q u e p referem u m so n o tra n q ü ilo ), d iscu tia a o p çã o p o r fu n d o s vo lá -teis. In iciava afirm an d o q u e “a m aioria d os in -vestid ores evita a volatilid ad e excessiva, m as p ara o jogad or h ip erativo qu e gosta d e en trar e sair d e u m a ação em p ou cas h oras, as altas e baixas oferecem possibilidades m aiores de lu cro a cu rto-p raz o” ( Week, 2000:35). Co n clu ía , a s-sim , qu e as ações m en os voláteis são m ais ad e-qu ad as p ara in vestid ores e-qu e p referem “d orm ir à n oite”.

O texto vem a co m p a n h a d o d a Figu ra 4, tam b ém ap resen tad a n a form a d e croq u i, q u e

Fig ura 3

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tem p or su b títu lo Volatilid ad e: Ap en as p ara os qu e Bu scam Em oções. O salto n o esp aço, p rova-velm en te n a m od alid ad e d e bu n gee ju m p, fala m etaforicam en te d e risco com o aven tu ra, sen -d o esta u m a ativi-d a-d e p róp ria -d e q u em b u sca em o çõ es e, co m o n a rep o rta gem so b re o s h o -m en s d o risco ap resen tad a an terior-m en te, te-m “coração forte”.

Considerações finais

Con clu in d o, é esse d eslocam en to, d o risco m e-ton ím ico p ara o m etaforizad o, q u e d everia ser o foco d e n ossas an álises, p or ser in d icativo d a em ergên cia d e n ovo s d iscu rso s so b re risco. Nestes, n ão é m ais o risco, m as a im p revisib ili-d a ili-d e, a im p o n ili-d era b iliili-d a ili-d e e a co m p lexiili-d a ili-d e q u e m a rca m n o ssa s exp eriên cia s co tid ia n a s; são in d icativos, p ortan to, d o d eslocam en to d a socied ad e d iscip lin ar p ara a d e risco a qu e n os referim os an teriorm en te.

Bu scan d o fazer u m a sín tese d as m u itas tra-m as ab ord ad as n este texto, con clu iríatra-m os rei-tera n d o q u a tro a sp ecto s. Em p rim eiro lu ga r, risco em erge co m o co n ceito q u a n d o se to rn a p ossível p en sar o fu tu ro com o p assível d e con -tro le. Esse é u m p ro cesso q u e en vo lve ta n to o d esen vo lvim en to d o in stru m en ta l n ecessá rio (co m o a teo ria d a p ro b a b ilid a d e) q u a n to a em ergên cia d e u m n ovo o b jeto d e govern o (a p op u lação).

Em segu n d o lu ga r, d a p ré-m o d ern id a d e à m o d ern id a d e clá ssica , a gestã o d o s risco s se form ata em d u as verten tes d istin tas: a p reven -ção e a ap osta. Am b as são fru tos d a cren ça n a racion alid ad e, m as geram m ecan ism os d e con -tro le d istin to s. Na verten te d a p reven çã o, o p rin cip a l m eca n ism o d e co n tro le é a n o rm a , d efin id a p o r m eio d a m éd ia esta tística . Já n a verten te da ap osta, elem en to essen cial do com p ortam en to em u m a econ om ia lib eral, o p rin -cip al m ecan ism o d e gestão é a tom ad a d e d eci-são in form ad a q u e p rivilegia o p rocessam en to d a in form ação n u m a p ersp ectiva cogn itiva in -tra-in d ivid u al.

Em terceiro lu gar, n a tran sição p ara a socie-d asocie-d e socie-d e risco ocorrem várias tran sform ações: a cren ça n a p ossib ilid ad e d e con trolar o fu tu ro a p artir d a agregação e an álise d e séries d e in form ações, p assa a ser qu estion ad a fren te à n atu -reza sistêm ica d o s risco s m a n u fa tu ra d o s; a n orm a ced e lu gar à p rob ab ilid ad e com o m ecn ism o d e gestão e a gestão d os riscos ecn o esp a-ço p rivad o se d esp ren d e d os m ecan ism os tra-d icion a is tra-d e vigilâ n cia , p a u ta tra-d os n a s in stitu i-çõ es d iscip lin a res, e p a ssa a d ep en d er d o ge-ren ciam en to d e in form ações q u e são d e tod os

e n ã o sã o d e n in gu ém . Am p lia -se a ssim , a exp eriên cia in tersu b jetiva d o im exp era tivo d a oexp -çã o, gera n d o n ovo s m eca n ism o s d e exclu sã o social.

Fin a lm en te, é p o ssível q u e a in d a n ã o te-n h am os os cote-n ceitos te-n ecessários p ara exp res-sa r esres-sa s n ova s sen sib ilid a d es, gera n d o a ssim u m solo fértil p ara a em ergên cia d e n ovos ter-m os, u tilizad os ain d a eter-m sen tid o figu rativo.

Reto m a n d o a teo ria tro p o ló gica d e Wh ite (1994), é p ossível p rop or qu e o tem p o lon go d a gestã o d o s risco s n o s leva d o u so m eta fó rico, com o ap osta n o cen ário d os jogos, p ara o m e-ton ím ico, em q u e im p era a n orm a associad a à m éd ia estatística, à fase d a sin éd oq u e, n a q u al se form aliza o con ceito p rob ab ilístico d e risco, até a fase d a iron ia, en ten d id a com o o qu estio-n am eestio-n to a p artir d a coestio-n trap osição d e exp lica-ções altern ativas. Se a in terp retação d essa tra-jetória d o con ceito d e risco fizer sen tid o, en tão o estu d o m in u cioso d as n ovas form as d e falar so b re ele e a s fu n çõ es q u e essa s p rá tica s d cu rsivas têm n a vid a social, p od em n os d ar p is-tas sob re a em ergên cia d e n ovas form as d e ges-tão n a m od ern id ad e tard ia e d as p ossib ilid ad es d e p rod u ção d e sen tid o a elas associad as.

Fig ura 4

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M ad el Teresin h a Lu z Risco , pe rigo e ave n tu ra n a so cie dade da (in ) segurança: breve co m entário

O a rtigo d e Sp in k so b re riscoco lo ca em jo go qu estões atu ais d e n atu reza teórico-m etod oló-gica e su b stan tiva p ara as ciên cias sociais, q u e valem a p en a m en cion ar, e n a m ed id a d o p ossível, ap rofu n d ar, ain d a qu e em “b reve com en -tário”, p reten são d essas n otas.

A p rop ósito da categoria de risco e seu s u sos d iversos n a con tem p oran eid ad e, q u e a au tora d esign a co m o m od ern id ad e tard ia,Sp in k d e-sen volve u m a reflexão b astan te d en sa sob re as relações en tre lin gu agem , estru tu ra d iscu rsiva, p rod u ção d e sen tid os, su as fu n ções e variações n a cu ltu ra através d a n oção d e repertório in ter-p retativo. Variações q u e são d e n atu reza h istó-rica, é claro, m as tam b ém sim b ólica, exp ressas p or m eio d e lin gu agem ,an corad as em d iscu r-so s m a is o u m en o s estru tu ra d o s, rela tivo s a gru p o s so cia is, a sa b eres o u m esm o a fo rm a s d e agir, a p ráticas.A com p lexa ab ord agem im -p licad a n a an álise d a au tora su -p õe u m a in ter-d iscip lin ariter-d ater-d e em qu e an trop ologia, p sicologia social, sociolosicologia, h istória, gen ealosicologia e lin -gü ística têm q u e an d ar d e m ãos d ad as. A p ro-d u çã o so cia l ro-d e sen tiro-d o s a tra vés ro-d a h istó ria , exp ressa em m etá fo ra s, p a la vra s, co n ceito s, p o d e ser u m a ja n ela a b erta p a ra a co m p reen sã o d a s m u d a n ça s d a so cied a d e, d e seu s m o -m en tos de ru p tu ras, de con tin u idades, be-m co-m o d a ap reen são d a d ireção d essas co-m u d an ças. Atra vés d a a n á lise d a tra n sfo rm a çã o d o s ter-m os, d os con ceitos, d os lu gares coter-m u n s, d as fi-gu ras d e lin fi-gu agem , en fim d o qu e Sp in k d esig-n a co m o rep ertório in terp retativo, é p o ssível ab ord ar, “a p artir d e u m fen ôm en o esp ecífico”, as p rofu n d as tran sform ações em cu rso n a cu ltu ra, atin gin d o talvez o m esm o tip o d e p ercep -çã o q u e Fo u ca u lt (1966) evid en cio u em su a ob ra As Palavras e as Coisascom o a p assagem d e u m a cu ltu ra d a sim ilitu d e a u m a cu ltu ra d a rep resen tação (m od ern id ad e clássica), qu an d o p ôs em foco o con ceito d e ep istem e, estab ele-cen d o u m a reflexã o a in d a h o je a tu a l so b re a gên ese d as ciên cias h u m an as. Deste p on to d e vista , o a rtigo d e Ma r y Ja n e in terro ga essa s ciên cias tan to d o p on to d e vista m etod ológico (com o tra b a lh a r em p ersp ectiva in terd iscip li-n a r p a ra d esveli-n d a r su rgim eli-n to s, evo lu çõ es e

Debate sobre o artigo de M ary Jane P. Spink

De b ate o n the pape r b y Mary Jane P. Spink

In stitu to d e Med icin a Social, Un iversid ad e d o Estad o d o Rio d e Jan eiro, Rio d e Jan eiro, Brasil. m ad ellu z @u ol.com .br

m u tações n a p rod u ção d iscu rsiva d e sen tid os?) com o con ceitu al (q u al o p ap el arq u etíp ico d as form ações d iscu rsivas relativas a d eterm in ad os term os, com o o de risco, p ara en ten der as tran s-form ações cu ltu rais e sociais em cu rso?) Essas q u estõ es sã o em si m esm o in ova d o ra s, e ch a m am a aten ção p ara a in teração en tre a p rod u -ção d e sen tid os, o im agin ário social e as p ráti-cas sociais n as d iferen tes cu ltu ras.

Mary Jan e Sp in k trab alh a com o q u e p od e-m o s d esign a r, p a ra fra sea n d o Isa b elle Sten g-h ers, com o u m op erad or con ceitu al, m a is q u e u m sim p les con ceito, q u e é o d e rep ertório in -terp retativo, q u e evid en cia o p ap el estratégico d a lin gu a gem n a su a a b o rd a gem , b em co m o co m a a n á lise d e u m a ca tego ria q u e esco lh eu com o “m etáfora d a m od ern id ad e tard ia” – risco

– sign ifica tiva d o m o m en to d e p a ssa gem d e u m a socied ad e d iscip lin ar p ara u m a socied ad e d e risco.

A lin gu agem relativa ao risco é situ ad a n u m a p a n o râ m ica só cio h istó rica d essa s va ria -ções, vistas sob u m a trip la d im en são d o risco, en ten d id o e a n a lisa d o co m o form a d e se rela-cion ar com o fu tu ro, co m o con ceitu ação e co -m o gestão. O term o é fo ca liza d o d esd e su a em ersã o n a cu ltu ra em term o s d e p alavra (a q u estão d a lin gu agem é, m ais u m a vez, a b ase d o esclarecim en to d os sen tid os h istoricam en te p ro d u zid o s) n o sécu lo XIV, em ca ta lã o, d a í se esp ra ia n d o p a ra a s lín gu a s la tin a s e a n glo sa -xô n ica s (sécu lo XVII), a p o n ta n d o p a ra a id éia d e even tos im p revisíveis n o fu tu ro,o qu al p as-sa a ser rep resen tad o n o im agin ário social co-m o con trolável. A rep ertorização d os sen tid os n a h istória d o term o risco é feita em p ersp ecti-va gen ea ló gica (n o sen tid o fo u ca u ltia n o ), re-traçan d o a evolu ção d e sen tid os d e “fatalid ad e à fortu n a”, d e h azard (p erigo) – em fran cês aca-so – à aca-sorte e ch an ce, n o in tu ito d e d em on strar a con stru ção m etafórica p rogressiva, d os sécu -los XII ao XVII, d a categoria d e risco, qu e se tor-n a u m d os cotor-n ceitos b ásicos d a m od ertor-n id ad e clássica referid os ao fu tu ro.

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