METABOLISMO DO COBRE NAS EPILEPSIAS
L u í s M A R Q U E S DE A S S I S *
Os conhecimentos sobre epilepsia tiveram impulso com os trabalhos de
Jackson
3 5, no século passado. N o s últimos anos investigações de ordem
bio-química adquiriram tal importância que j á está consagrada a expressão
"neu-roquímica das epilepsias", alusiva aos processos postos em jogo antes, durante
e após a descarga epiléptica. A leitura de tratados sobre epilepsia
3 9>
1 8e de
compêndios sobre neuroquímica
6 5mostra que as pesquisas nesse sentido têm-se
concentrado principalmente sobre os mecanismos despolarisantes em que
en-tram em j o g o certos íons (potássio, cloro, sódio) e sobre os sistemas
excitado-res e inibidoexcitado-res, com referências a processos metabólicos oxidativos e ao
me-tabolismo de glucídios e aminácidos. Existem poucos trabalhos sobre outros
elementos químicos, como o cobre, nas epilepsias.
P a r a situar as posibilidades da neuroquímica no tocante ao estudo das
epilepsias, cabe mencionar as seguintes palavras de Gibbs (cit. por Lennox e
L e n n o x
3 9, pág. 768) : Ã medida que os epileptólogos trocarem os níveis
morfo-lógicos estáticos de estudo, nos quais as epilepsias não são bem compreendidas,
por níveis submicroscópicos e dinâmicos da química neuronal, verifica-se-há
aumento de facilidades no sentido de predizer, de controlar e de compreender
os fenômenos epilépticos".
N o sentido de desenvolver pesquisas bioquímicas em diversas afecções
neurológicas, a Clínica Neurológica e a 1.* Clínica Médica do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de S ã o Paulo,
represen-tadas, respectivamente, pelo Prof. H o r á c i o Martins Canelas (Chefe de
Clí-nica) e pelo D r . Francisco Bastos de Jorge (Chefe de Laboratório) v ê m
rea-lizando pesquisas, em esforço conjugado, de alguns anos a esta parte. Coube
ao primeiro a idéia de estudar o comportamento do cobre nas epilepsias,
sendo as investigações iniciadas em 1962. E m 1964
7foram apresentados os
primeiros resultados, ressaltando o aumento da cupremia e diminuição da
cuprorraquia nos pacientes epilépticos, mantendo-se a ceruloplasmina do
san-gue em níveis normais. A l é m disso foi verificado que as convulsões
epiléptiT e s e de D o u t o r a m e n t o e l a b o r a d a na C l í n i c a N e u r o l ó g i c a da F a c u l d a d e d e M e d i -c i n a da U n i v e r s i d a d e de S ã o P a u l o ( P r o f . A d h e r b a l T o l o s a ) : * M é d i -c o a s s i s t e n t e .
cas ou as provocadas pelo eletrochoque determinavam quedas significativas
do teor de cobre total do soro e dos níveis de ceruloplasmina do sangue.
E s t a tese complementa aquele trabalho inicial, sendo visados dois itens
fundamentais que não tinham sido explorados convenientemente naquela
pu-blicação: a forma sob a qual o teor de cobre se apresenta alterado e, com
utilização do curare, a influência que exerce a hiperatividade muscular
pró-pria da crise convulsiva sobre o metabolismo do cobre. A l é m disso foram
estudadas as correlações entre sexo e idade dos pacientes epilépticos e
cupre-mia e cuprorraquia, sendo feita, também, a correlação entre os níveis de
cobre no soro e no líquido cefalorraqueano ( L C R ) desses pacientes.
Metabolismo do cobre em condições normais — O cobre é
universalmen-te distribuído nos animais e na plantas. A despeito dos estudos realizados
até agora, o exato significado biológico desse elemento ainda é desconhecido.
N a espécie humana, o cobre se apresenta no soro sob duas formas
2, β , 27, 4 i ;
amenor parte (cerca de 7%) reage diretamente com o
dietilditio-carbamato sódico e está unida làbilmente à albumina sérica (cobre de
rea-ção d i r e t a ) ; a maior frarea-ção (93%) está unida a u m a alfa-globulina e não
reage diretamente com o carbomato, constituindo a ceruloplasmina. O valor
médio do cobre total do soro varia um pouco, segundo diferentes
pesquisa-dores; C a r t w r i g h t e W i n t r o b e
8dão como valor médio 114 jug/100 ml. Os
mesmos autores dão como 7 j a g / 1 0 0 ml o valor médio do cobre de reação
di-reta e 33 mg/100 ml o valor médio da ceruloplasmina. O conteúdo de
co-bre da ceruloplasmina é de 3,2 ^ g / m g de proteína. Os valores médios do
cobre e da ceruloplasmina são significativamente mais elevados nas
mulhe-res. Quando considerado um mesmo indivíduo, as variações no decorrer de
dias ou de semanas não são significativas
3 6.
E m b o r a S a r a t a
5 8assinale elevação do cobre no sangue no período
mens-trual de mulheres jovens, parece que o ciclo mensmens-trual não exerce influência
significativa nesse sentido
2. Gubler e c o l .
2 8atribuíram a hipercupremia
fi-siológica da gravidez a aumento da fração ceruloplasmínica; Cartwright e
W i n t r o b e
8, em recente revisão sobre o assunto, referem elevação do cobre
total à custa do cobre de reação direta e da ceruloplasmina, no terceiro
tri-mestre da gravidez. A esse propósito D e Jorge e col.
1 5fizeram estudo mais
completo, concluindo haver aumento progressivo do cobre total e da
ceru-loplasmina séricos na gravidez normal.
Os eritrócitos contém, em média, 98 ^.g de cobre por 100 ml de células
centrifugadas. A eritrocupreina, que é uma cuproproteína, foi isolada de
eritrócitos normais, sendo sua concentração média de 16 m g por 100 ml de
células centrifugadas. N a s hemácias existe outra fração de cobre, não
eri-trocupreínica, ainda não bem avaliada
8.
N a urina o cobre existe em quantidade muito pequena (cerca de 15
j i g / d i a
8) . Segundo de J o r g e
1 1, a excreção renal do cobre depende do tipo
de dieta. Nesse material a ceruloplasmina não é dosável.
cobre de reação direita do soro está em equlíbrio com o do líquido
cefalor-raqueano. A ceruloplasmina não é dosável nesse material
8.
A l é m da ceruloplasmina e da eritrocupreína, existem outras proteínas
cúpricas: hepatocupreína, citrocromo-oxidase, hemocupreína e tirosinase
5 9.
Finalmente, ainda dentro das proteínas cúpricas, devemos mencionar a
cere-brocupreína I , isolada por Porter e F o l c h
5 5, que contém 0,29% de cobre em
sua molécula
5 9.
N o que se refere à quantidade de cobre existente nos tecidos, C a r t w r i
-ght e W i n t r o b e
8encontraram maior concentração desse elemento no fígado
e no cérebro; no sistema nervoso, o cobre se concentra mais no cerebelo e
nos gânglios da base. Resultados semelhantes foram referidos por T i n g e y
6 3.
Grashchenkov e G e k h t
2 5encontraram cobre em maior quantidade no globo
pálido e núcleo caudado, seguindo-se o córtex, o tálamo óptico e as
estrutu-ras subtalâmicas; na substância branca dos hemisférios cerebrais o cobre foi
encontrado em quantidade menor. W a r r e n e col.
6 7encontraram
concentra-ções duas a três vezes maiores na substância cinzenta, particularmente na
substância negra e locus ceruleus. E a r l
1 7confirmou esses achados, na
pro-porção de 29,1 μ g/g na substância cinzenta para 11,4 ju,g/g na substância
branca.
O cobre é absorvido nas porções superiores do trato digestivo por
meca-nismos ainda não perfeitamente esclarecidos. O cobre absorvido une-se
fra-camente à albumina sérica, sendo, então, rapidamente transportado p a r a o
fígado, medula óssea e outros órgãos, onde é armazenado e incorporado às
cuproproteínas. Ι a partir do cobre da albumina sérica que, provavelmente
em nível hepático, é sintetizada a ceruloplasmina. Esta é, em parte,
arma-zenada no fígado, sendo o restante excretado pela bile, que é a maior via de
excreção desse metal. O cobre da ceruloplasmina é fixo, sendo improvável
que seja trocado ou liberado quando sob essa forma. Estudos com cobre
radioativo demonstraram que o ritmo de excreção desse elemento está
re-lacionado à concentração sérica do cobre não ceruloplamínico
2.
Metabolismo do cobre em condições patolσgicas — Várias têm sido as
entidades em que foi assinalado aumento da cupremia
2.
3 7>
6 7>
6 6, podendo ser
citadas infecções agudas e crônicas, leucemia, doença de Hodgkin, diversas
formas de anemia, policitemia vera, purpuras, síndrome de Banti, várias
afecções hepáticas, doença de Addison, diabetes, colagenoses, câncer,
hiper-tireoidismo, hemocromatose, reações alérgicas, intoxicações, malária.
Doen-ças neurológicas, especialmente processos desmielinizantes, têm sido
estuda-das no que se refere ao cobre; enquanto que em meningites
3 4e em "certas
afecções cerebrais"
2 3o cobre foi encontrado em níveis superiores ao normal,
nas doenças desmielinizantes nada foi concluído de maneira d e f i n i t i v a
4 0.
5 1.
Sob esse aspecto, também as esquizofrenias têm sido estudadas de modo
particular, sendo referida hipercupremia, embora alguns autores considerem
normais os valores encontrados nessa doença
3-
4>
5> «>
1 8>
2 2> *°>
4 5> * ° .
E m intoxicações agudas e crônicas pelo cobre não têm sido descritas convulsões2
!. 2 4 -3 e
- .5 0 . 6 1
. Peters e W a l s h e4 9
injetaram ions cuprosos no espa-ço subaracnóideo de pombos anestesiados provocando convulsões imediatas e óbito.
Bennets e Beck (cit. por W i n t r o b e e c o l .6 8
) verificaram, em pombos de
certas regiões da Austrália, onde o solo é pobre em cobre, o aparecimento de ataxia, que era evitada com terapêutica contendo esse elemento; nos casos em que essa deficiência não era corrigida, ocorria desmielinização ce-rebral difusa e simétrica, especialmente do corpo caloso e cápsula interna.
N o que se refere ao estudo do cobre nas epilepsias, até o trabalho de P l u m e Hansen ( I 9 6 0 )5 1
poucas investigações haviam sido desenvolvidas. A s raras referências da literatura se relacionavam a pesquisas sobre o cobre em diversas afecções, entre as quais, incidentalmente, e r a m incluídos casos de epilepsia. Heilmeyer e c o l .3 0
(1941) estudaram pacientes esquizofrêni-cos; no seu material incluíram três pacientes epilépticos nos quais dosaram o cobre do sangue, tendo encontrado valores acima do normal. A x t r u p (cit. por M u n c h - P e t e r s e n4 4
) dosou o cobre no L C R em três grupos de pacientes, um dos quais constituído por pacientes epilépticos e doentes portadores de enxaqueca, não tendo encontrado diferenças em relação aos normais. Munch-- P e t e r s e n4 4
(1950) estudou u m grupo de pacientes epilépticos, um grupo com afecções neurológicas diversas e u m grupo de pacientes neuróticos e psicó-ticos, que considerou como normais do ponto de vista do metabolismo do cobre. Este autor separou os pacientes de cada grupo em dois subgrupos: com L C R normal e anormal (no que se refere à citologia, dosagem de al-bumina, pesquisa de globulina e reação de W a s s e r m a n n ) . Nessas condições o autor dosou o, cobre no L C R normal de 10 pacientes com epilepsia cripto-genética e u m com epilepsia sintomática, e em 6 casos de epilepsia criptoge-nética e u m de epilepsia sintomática com L C R alterado; tendo encontrado níveis de cobre variando entre 5 e 23 jug/100 ml nos doentes epilépticos, concluiu não haver diferenças significativas em relação aos demais casos estudados.
A b o o d e col.1
(1957) estudaram a atividade da ceruloplasmina no soro de, entre outros, 150 pacientes epilépticos, dos quais 119 com epilepsia psico-motora e 31 com outros tipos de epilepsia, dividindo os resultados em 4 gru-pos: g r u p o 0, sem atividade oxidásica; grupo I, com densidade óptica de 0,100 a 0,150; g r u p o I I , com densidade óptica de 0,151 a 0,250; grupo I I I , com densidade óptica de 0,251 a 0,350; grupo I V , com densidade óptica maior que 0,351. Os autores consideraram, como resultados positivos, os valores dos grupos I I , I I I e I V . Assim considerados, 22 casos de epilepsia psicomotora estavam incluídos nos grupos I I e I I I (23% de positividade) enquanto que, das outras formas de epilepsia, 7 casos faziam parte do grupo I I (7% de positividade).
Escobar e N i e t o2 0
(1957) estudaram 19 casos de epilepsia, tendo encon-tratado níveis séricos de cobre variando entre 90 e 200 ^ g / l O O ml p a r a 76 a 143 ju.g/100 ml no g r u p o considerado normal, o que dá a média de 132 para os pacientes epilépticos e 106 para os normais. O ' R e i l l y4 7
240 /xg/100 ml ( p a r a valores normais de 90 a 250 μ -g/lOO m l ) e valores de ce-ruloplasmina ( e m densidade óptica) variando entre 0,200 e 1,200 ( p a r a valo-res normais de 0,250 a 0,650). E m recém-nascidos o autor encontrou níveis normais apesar do elevado teor sang٧íneo materno durante a gravidez, exceto em um caso que apresentou convulsões, no qual o teor de ceruloplasmina era
elevado, aproximando-se do de adultos normais. Nessas investigações, alguns dos níveis mais elevados foram obtidos em pacientes com convulsões severas.
P l u m e Hansen ( I 9 6 0 )5 1
foram, na verdade, os primeiros a estudar por-menorizadamente o problema, investigando em três grupos de pacientes — u m constituído por indivíduos normais, um de casos de esclerose múltipla e um de 109 pacientes epilépticos — tendo sido dosados o cobre e a cerulo-plasmina no sangue e o cobre no L C R . A média da cupremia e m 94 indiví-duos normais foi de 116,81 ± 16,40; em 109 pacientes epilépticos a média foi de 132,89 ± 26,62. Esses dados nos permitiram fazer estudo estatístico, sendo encontrada uma diferença significativa (t . = 5,134 e Ρ < 0,001). A média de ceruloplasmina nos 94 indivíduos normais foi de 0,281 ± 0,053 ao passo que, nos 109 pacientes epilépticos, foi de 0,311 ± 0,096, sendo a dife-rença também significativa (t = 2,699 e Ρ < 0,01). A média da cuprorra-quia não estava significativamente alterada.
Canelas e col. (1964)7
determinaram o valor do cobre total e da ceru-loplasmina do sangue e o valor do cobre total do L C R de 53 pacientes epi-lépticos e de 29 doentes mentais, antes e após convulsão determinada pelo eletrochoque. N o grupo de pacientes epilépticos as investigações foram
fei-tas também em relação à freq٧ência das crises, ao tempo decorrido desde a última crise e ao tipo de anormalidade eletrencefalográfica. O cobre foi estudado também em relação à fase pós-crítica imediata. Mediante análise estatística dos resultados os autores chegaram à conclusão de que o cobre estava significativamente elevado no soro e diminuído no L C R dos pacientes
epilépticos; tanto no soro como no L C R havia queda dos seus níveis após convulsão epiléptica ou provocada pelo eletrochoque. E m pacientes nos quais a crise havia ocorrido menos de 5 dias antes da colheita do material o nível de cobre do L C R era significativamente mais baixo que nos que ha-viam apresentado a última crise há mais de 5 dias. Concluíram os autores
que, provavelmente, as alterações metabólicas do cobre nas epilepsias depen-dem principalmente do componente não ceruloplasmínico e tentaram correla-cionar tais alterações à libertação do cobre da cerebrocupreína I e ao papel desempenhado pela citrocromo-oxidase, uma cuproenzima, na gênese da energia celular.
M A T E R I A L Ε M É T O D O S
a l t e r a ç õ e s n e u r o l ó g i c a s f o c a i s , n e m s i n a i s o u s i n t o m a s de h i p e r t e n s ã o i n t r a c r a n i a -n a . E m -n e -n h u m c a s o h a v i a p r o c e s s o i -n f e c c i o s o f e b r i l . E x a m e d e L C R ( m e d i d a d e p r e s s ã o , c o n t a g e m d e c é l u l a s , d o s a g e m d e p r o t e í n a s , p e s q u i s a d e g l o b u l i n a s , r e a -ç õ e s d e f i x a -ç ã o d o c o m p l e m e n t o p a r a sífilis e c i s t i c e r c o s e ) o b t i d o m e d i a n t e p u n -ç ã o s u b o c c i p i t a l f o i f e i t o e m 83 casos, s e n d o n o r m a l e m t o d o s .
A i d a d e d o s p a c i e n t e s e p i l é p t i c o s v a r i o u e n t r e 10 e 59 a n o s ; 47 e r a m do s e x o m a s c u l i n o e 37 d o s e x o f e m i n i n o ; 72 e r a m b r a n c o s , t r ê s e r a m p r e t o s e 9 e r a m p a r -dos. S e t e n t a e d o i s p a c i e n t e s a p r e s e n t a r a m m a n i f e s t a ç õ e s c o n v u l s i v a s ; desse t o t a l , 13 e x i b i r a m c o n v u l s õ e s p u r a s e, o s d e m a i s , a u r a d e t i p o v a r i á v e l . E m 13 casos h a v i a t a m b é m m a n i f e s t a ç õ e s p s i c o m o t o r a s . S e t e p a c i e n t e s a p r e s e n t a v a m crises d e ausência, e m d o i s c a s o s a s s o c i a d a s a c o n v u l s õ e s d e t i p o g r a n d e m a l e, e m 5, i s o -l a d a s . E m u m c a s o ( 8 3 ) a p e n a s o c o r r i a m crises m i o c -l ô n i c a s . C r i s e s a t í p i c a s o u m a l c a r a c t e r i z a d a s o c o r r e r a m e m 5 p a c i e n t e s . O e l e t r e n c e f a l o g r a m a f o i n o r m a l e m 18 casos, t e n d o s i d o e n c o n t r a d a s a n o r m a l i d a d e s f o c a i s e m 42 casos e difusas e m 24 casos.
Os d o e n t e s m e n t a i s p e r t e n c i a m , e m sua m a i o r i a , a s a n a t ó r i o p a r t i c u l a r ( c a s o s 1 a 2 4 ) ; os r e s t a n t e s ( c a s o s 25 a 3 2 ) e s t a v a m i n t e r n a d o s na C l í n i c a P s i q u i á t r i c a d o H o s p i t a l d a s C l í n i c a s d a F a c u l d a d e d e M e d i c i n a da U n i v e r s i d a d e d e S ã o P a u l o . A i d a d e desses p a c i e n t e s v a r i o u e n t r e 18 e 42 a n o s ; 28 e r a m d o s e x o m a s c u l i n o e 4 do s e x o f e m i n i n o ; 25 e r a m b r a n c o s , 6 e r a m p a r d o s e, u m , a m a r e l o . E m 26 casos f o i f e i t o o d i a g n ó s t i c o d e e s q u i z o f r e n i a , e m d o i s d e n e u r o s e , e m d o i s d e d e b i l i d a d e m e n t a l , e m u m d e s í n d r o m e d e p r e s s i v a e, e m u m , d e p s i c o s e r e a t i v a .
N o s p a c i e n t e s e p i l é p t i c o s f o r a m c o l h i d a s a m o s t r a s d e s a n g u e ( 8 1 c a s o s ) e d e L C R ( 6 6 c a s o s ) e m p e r í o d o i n t e r c r í t i c o . N o s d o e n t e s m e n t a i s f o r a m c o l h i d a s a m o s t r a s d e s a n g u e a n t e s e i m e d i a t a m e n t e a p ó s c r i s e c o n v u l s i v a d e t e r m i n a d a p e l o e l e t r o c h o q u e s i m p l e s , na f a s e c o m a t o s a ( c a s o s 1 a 2 2 ) e i m e d i a t a m e n t e a p ó s e l e t r o -c h o q u e s o b a ç ã o d o -c l o r i d r a t o d e s u -c -c i l -c o l i n a , d o s e d e 50 ou 100 m g ( -c a s o s 23 a 3 2 ) .
O m a t e r i a l f o i c o l h i d o d e p a c i e n t e s c o m , p e l o m e n o s , t r ê s h o r a s d e j e j u m , c o m s e r i n g a s e a g u l h a s s e c a s . O s a n g u e dos p a c i e n t e s e p i l é p t i c o s f o i c e n t r i f u g a d o l o g o a s e g u i r ; o d o s d o e n t e s m e n t a i s f o i c e n t r i f u g a d o e m t e m p o q u e o s c i l o u e n t r e 3 e 4 h o r a s a p ó s a c o l h e i t a d o m a t e r i a l . A s d o s a g e n s e r a m f e i t a s n o m e s m o d i a o u o soro, a p ó s c e n t r i f u g a ç ã o , e r a c o n s e r v a d o e m t e m p e r a t u r a d e -10*C.
N o s casos d e e p i l e p s i a f o i d o s a d o o c o b r e t o t a l . E m 22 c a s o s d e p a c i e n t e s m e n t a i s ( c a s o s 1 a 2 2 ) f o i d o s a d a a c e r u l o p l a s m i n a . N o s 10 casos r e s t a n t e s ( c a s o s 23 a 3 2 ) f o i d o s a d o o c o b r e t o t a l .
O m é t o d o d e d e t e r m i n a ç ã o d o c o b r e n o s o r o e n o L C R b a s e o u - s e na r e a ç ã o do d i e t i l d i t i o c a r b a m a t o d e s ó d i o c o m o í o n c ú p r i c o , e m m e i o a m o n i a c a l c o n t e n d o c i -t r a -t o e p i r o f o s f a -t o . A c ô r d o d i e -t i l d i -t i o c a r b a m a -t o c ú p r i c o f o i e s -t a b i l i z a d a c o m á l c o o l p o l i v i n í l i c o g r a u 5 2 - 2 21 3
. A a t i v i d a d e d a c e r u l o p l a s m i n a f o i d e t e r m i n a d a p e l o m é t o d o d e H o u c h i n3 2
, t e n d o s i d o s u b t r a í d a a l e i t u r a da c o l o r a ç ã o p r ó p r i a d o s o r o . C o m esses m é t o d o s f o r a m o b t i d o s os s e g u i n t e s v a l o r e s n o r m a i s : c u p r e m i a 108 jug/100 m l " ; c u p r o r r a q u i a 43 / i g / 0 0 m l1 4
; c e r u l o p l a s m a 33,4 m g / 1 0 0 m l1 2
. T o d a s as d o s a g e n s f o r a m f e i t a s e m d u p l i c a t a *.
Os r e s u l t a d o s o b t i d o s f o r a m s u b m e t i d o s a a n á l i s e e s t a t í s t i c a * * . A s s i m é q u e f o r a m c o m p a r a d a s as m é d i a s da c u p r e m i a e d a c u p r o r r a q u i a c o m o s e x o dos p a cientes, a t r a v é s d o t e s t e "t" d e S t u d e n t p a r a c o m p a r a ç ã o d e d u a s m é d i a s . F o i e s t u dada, t a m b é m , a c o r r e l a ç ã o e n t r e a c u p r e m i a e a c u p r o r r a q u i a e a i d a d e dos p a -c i e n t e s e p i l é p t i -c o s , t e n d o sido a p l i -c a d o o t e s t e d e s i g n i f i -c â n -c i a p a r a os -c o e f i -c i e n tes d e c o r r e l a ç γ o a s s i m o b t i d o s . A i n d a n o q u e se r e f e r e a o s casos d e e p i l e p s i a , f o i c a l c u l a d a a r e g r e s s γ o e n t r e os n í v e i s d e c o b r e n o s a n g u e e n o L C R ; o c o e f i c i e n t e a s s i m o b t i d o f o i t e s t a d o a f i m d e se s a b e r se a i n c l i n a ç γ o da r e t a e r a s i g n i f i c a n t e ( a o n í v e l d e 5 % ) o u n γ o .
* A s d o s a g e n s d o c o b r e e da c e r u l o p l a s m i n a f o r a m f e i t a s p e l o D r . F r a n c i s c o B a s tos d e J o r g e , M ι d i c o C h e f e do L a b o r a t σ r i o d a 1." C l í n i c a M ι d i c a .
a p σ s e l e t r o c h o q u e s i m p l e s , nos casos de p a c i e n t e s m e n t a i s , e s t γ o c o n s i g n a d a s na t a b e l a 2. Os v a l o r e s da c u p r e m i a a n t e s e a p σ s e l e t r o c h o q u e s o b a ç γ o d o c u r a r e f i g u r a m na t a b e l a 3.
A c o m p a r a ç γ o e n t r e a c o n c e n t r a ç γ o m ι d i a de c o b r e n o s a n g u e dos p a c i e n t e s e p i l ι p t i c o s d o s e x o m a s c u l i n o e f e m i n i n o , f e i t a m e d i a n t e o t e s t e " t " d e S t u d e n t , p a r a c o m p a r a ç γ o d e d u a s m ι d i a s ( t a b e l a 4 ) , c o m p r o v o u a i n e x i s t κ n c i a d e d i f e r e n ça s i g n i f i c a n t e a o n í v e l d e 5 % , c o m 79 g r a u s d e l i b e r d a d e ( t = 1,99). A c o m p a r a ç γ o e n t r e a c o n c e n t r a ç γ o m ι d i a d o c o b r e d o L C R e m r e l a ç γ o a o s e x o dos p a c i e n tes e p i l ι p t i c o s ( t a b e l a 5 ) p e r m i t i u c o n c l u i r n γ o h a v e r c o r r e l a ç γ o s i g n i f i c a n t e a o t κ n c i a d e d i f e r e n ç a s i g n i f i c a n t e a o n i v e l d e 5 % , c o m 64 g r a u s de l i b e r d a d e ( t = 2 , 0 0 ) .
C o m r e f e r κ n c i a ΰ c o r r e l a ç γ o e n t r e a c u p r e m i a e a i d a d e dos p a c i e n t e s e p i l ι p t i cos, o t e s t e de s i g n i f i c â n c i a p a r a o c o e f i c i e n t e d e c o r r e l a ç γ o o b t i d o ( t a b e l a 5 ) c o m p r o v o u a i n e x i s t κ n c i a de c o r r e l a ç γ o s i g n i f i c a n t e a o n í v e l d e 5 % , c o m 79 g r a u s de l i b e r d a d e ( t = 1,99). A c o r r e l a ç γ o e n t r e a c u p r o r r a q u i a e a i d a d e dos p a c i e n t e s e p i l ι p t i c o s ( t a b e l a 5 ) p e r m i t i u c o n c l u i r n γ o h a v e r c o r r e l a ç γ o s i g n i f i c a n t e a o n í v e l d e 5%, c o m 64 g r a u s d e l i b e r d a d e ( t = 2 , 0 0 ) .
o s n í v e i s d e c o b r e n o s a n g u e e n o L C R . O c o e f i c i e n t e d e r e g r e s s γ o f o i t e s t a d o , o b t e n d o s e v a l o r de t = 3,12, p a r a 61 g r a u s de l i b e r d a d e , q u e f o i s i g n i f i c a n t e a o n í v e l d e 5% ( t = 2 , 0 0 ) .
C O M E N T Á R I O S
N o s estudos bioquímicos que se vêm desenvolvendo sobre epilepsia, n ã o
tem sido dado ao cobre o devido valor. N o entanto, o fato de que o
metabo-lismo desse elemento se apresenta alterado no sangue e no L C R de
pacien-tes epilépticos é de conhecimento mais ou menos antigo, tendo sido realçado
por Canelas e col.
7.
Levando em conta o fato de que, em indivíduos normais, o conteúdo de
cobre do sangue é significativamente mais elevado no sexo feminino, fizemos
estudo comparativo, nos pacientes epilépticos, entre a concentração média do
cobre do sangue e do L C R , de um lado, e sexo, do outro, não encontrando
variações significativas.
E m indivíduos normais não têm sido referidas alterações da cupremia ou
da cuprorraquia em relação à idade. N o entanto, foram observados níveis
séricos de cobre mais baixos em rescêm-nascidos
2. P a r a verificar se a idade
dos pacientes epilépticos estudados tinha influência, ou não, sobre os níveis
de cobre do sangue e do L C R , estudamos a correlação entre esses valores, não
encontrando, porém, variações significativas. Com o intuito de verificar, nos
pacientes epilépticos, o nível de cobre no L C R a partir do nível de cobre no
sangue, fizemos u m a regressão entre essas variáveis, obtendo u m a reta que
nos permite concluir estar o teor de cobre do L C R correlacionado com o do
sangue nesses pacientes.
N o estudo que fizeram, Canelas e col.
7período intercrítico fornecia evidências para essa conclusão. N o entanto, nos
casos em que a convulsão era provocada pelo eletrochoque, as alterações que
ocorriam nos níveis de ceruloplasmina no sangue e r a m significativas (havia
queda desses níveis após convulsão). Esse fato nos leva a admitir que, pelo
menos por ocasião da convulsão, o cobre ceruloplasmínico desempenha algum
papel nas desordens do metabolismo do cobre nas epilepsias. Levando em
conta o pequeno número de casos estudados naquela ocasião ( 1 3 ) , resolvemos
investigar melhor esse aspecto do problema, utilizando 22 casos. N e s s a
amos-tra não enconamos-tramos, do ponto de vista estatístico, alterações significativas da
ceruloplasmina, o que nos leva a concluir que, na verdade, somente o cobre
de reação direta tem implicação nas desordens do metabolismo cúprico nas
convulsões. Esse fato, conforme veremos a seguir, tem grande importância
na interpretação dessas alterações.
A análise dos resultados obtidos por Canelas e col.
7deixou de pé alguns
problemas. Assim, não ficaram esclarecidas as possíveis interferências da
hiperatividade muscular da crise convulsiva sobre o comportamento do cobre.
P o r essa razão, para complementar o estudo, utilizamo-nos de doentes mentais,
nos quais a aplicação convulsoterápica foi feita sob ação de drogas
curarizan-tes, no sentido de eliminar os componentes musculares da crise convulsiva
assim provocada. O eletrochoque j á fora utilizado como método de estudo do
cobre s é r i c o
9.
2 1.
4 3; entretanto, não encontramos referências a estudos
bio-químicos com o emprego do eletrochoque sob ação do curare. E m nossos 10
casos estudados sob esse aspecto, o uso de substância curarizante com
supres-são total das manifestações musculares durante crise desencadeada pelo
ele-trochoque, embora tenha determinado queda dos níveis séricos do cobre, não
o fez de maneira significativa. Logo, somos forçados a admitir que parte das
alterações que ocorrem no cobre sérico por ocasião das crises convulsivas
de-corre da atividade muscular. Esse fato encontra apoio no trabalho de
Cos-t a - F o r u
1 0, que estudou 28 pacientes com neurose astênica e 19 testemunhas;
o cobre foi dosado em repouso e após exercício muscular (20 genuflexões em
dois minutos). Após o exercício muscular o autor observou, nos dois grupos,
queda do nível de cobre no soro. S e levarmos em conta que, durante
convul-são espontânea ou induzida, os músculos entram em ação em maior número
e com mais intensidade que nas experiências de Costa-Foru,
compreendere-mos ser realmente da ação muscular que resulta, na maior parte, a queda dos
níveis de cobre do sangue imediatamente após a crise.
Como se pode depreender, existem marcadas alterações do metabolismo
cúprico nas epilepsias. N ã o sendo as funções do cobre conhecidas em toda
a sua plenitude mesmo em condições normais, a interpretação dos resultados
obtidos em casos patológicos se torna difícil. N o entanto, dentre as funções
conhecidas do cobre no organismo humano, existe u m a que poderia servir de
ponte entre o metabolismo desse elemento e as epilepsias. Referimo-nos ao
papel desempenhado pelo cobre nos sistemas enzimáticos relacionados com
pro-cessos de oxidação celular.
produ-ção dessa energia desempenha papel importante o processo oxidativo que
me-tabolisa a glicose e que se desenvolve em várias etapas; na última delas, no
ciclo de Krebs, liberam-se electrons e protons que são captados por um
siste-m a de óxido-redução do qual fazesiste-m parte nucleotídios piridínicos,
flavoproteí-nas e citocromos; em presença de oxigênio há formação de água, com
libe-ração de energia, que é aproveitada para a síntese do A T P
6 5.
Ι conhecida a existência de enzimas, relacionadas a sistemas oxidativos,
concentradas na mitocôndria c e l u l a r
4 2. Dessas enzimas, uma das mais
im-portantes, especialmente no que se refere aos processos de oxidação celular,
é a citocromo-oxidase. Schneider e H o g e b o o m
6 2demonstraram que mais ou
menos a metade do citrocromo C está na mitocôndria. Pope e c o l .
5 2me-diante estudos experimentais em ratos, verificaram o elevado metabolismo
oxidativo da substância cinzenta em relação à substância branca cerebral,
confirmando que a citocromo-oxidase está ligada primariamente à
substân-cia cinzenta, espesubstân-cialmente ao citoplasma dos neurônios que é a principal
localização citológica da mitocôndria. Estes autores concluíram afirmando
que o alto metabolismo oxidativo do córtex cerebral é devido ao metabolismo
das células nervosas e seus prolongamentos citoplasmáticos, não participando
de maneira significativa os elementos gliais. Tais fatos foram confirmados
por D u B u y
1 6que asseverou ser a mitocôndria cerebral o elemento que
de-sempenha papel importante, não somente na energia utilizada para a
propa-g a ç ã o do impulso nervoso, como também em outras funções cerebrais.
P o r outro lado, no cérebro humano o cobre é encontrado em
concentra-ção muito maior na substância cinzenta. A esse propósito P o r t e r
5 3,
estudan-do, a distribuição intracelular do cobre no cérebro normal, verificou que cerca
de um terço está localizado na mitocôndria. O mesmo a u t o r
5 4, em 1964,
as-sinalou que, em cérebros de indivíduos normais, para um total de 4,2 ^ g / g
de cobre, 0,08 μ g/g correspondem à mitocôndria.
O u t r a série de experiências possibilitou a conclusão de que o cobre
desem-penha papel importante na citocromo-oxidase. Eichel e col.
1 9, 1950,
estudan-do músculo cardíaco de mamíferos haviam concluíestudan-do ser provável que a
ci-tocromo-oxidase contivesse cobre; tais estudos foram confirmados 8 anos
depois por Okunuki e col.
4 6. E m 1961, Griffiths e W h a r t o n
2 6isolaram e
analisaram as propriedades da citocromo-oxidase da mitocôndria do coração
de boi, concluindo haver fortes indícios de que a citocromo-oxidase seja um
complexo citocromo A-cuproproteina e de que o cobre participe na atividade
da citocromo-oxidase como transportador de elétrons. Confirmando a
parti-cipação do cobre nos sistemas de óxido-redução, três outros trabalhos
mere-cem citação. O primeiro foi feito por Gubler e c o l .
2 9que provocaram
deficiên-cia de cobre em porcos verificando marcada diminuição da atividade da
cito-cromo-oxidase. O u t r o foi desenvolvido por H o w e l l e D a v i s o n
3 3animais são evitadas pela adição de cobre à sua d i e t a
2 4. Finalmente,
Schein-b e r g
5 9assinala, entre os efeitos patológicos da deficiência do cobre em
ani-mais, a diminuição da atividade da citocromo-oxidase.
Tais conhecimentos levam à conclusão de que, indiretamente, o cobre
desempenha papel importante no metabolismo energético celular, com
ób-vias implicações na descarga neuronal. N o entanto, é bastante improvável
que as alterações observadas por ocasião das crises convulsivas epilépticas
ou provocadas pelo eletrochoque ocorram ao nível desses sistemas
enzimá-ticos, relacionados aos processos de oxidação celular. A esse raciocínio
so-mos impelidos não somente em virtude da rapidez com que se processam tais
fenômenos como também porque as enzimas, com ação catalisadora,
prova-velmente não se alteram de maneira significativa por ocasião das descargas
celulares.
Correndo as alterações do metabolismo do cobre nas epilepsias por
con-ta quase que exclusivamente do cobre ligado à albumina sérica, alguns
as-pectos importantes na interpretação das variações do conteúdo de cobre no
sangue e no L C R por ocasião das crises convulsivas podem ser sugeridos.
Sabe-se que é sob essa forma que o cobre é transportado no sangue, do
tra-to gastrintestinal para os tecidos e de u m tecido para outro; admite-se que
o cobre da ceruloplasmina não tem essa capacidade. Esses achados,
soma-dos ao fato de que esse metal existe em maior concentração no fígado e no
cérebro, além de ser encontrado, em valores absolutos, em maior quantidade
nos músculos, devido à sua grande massa ponderai, fazem supor que exista
grande facilidade na passagem desse elemento do compartimento sang٧íneo
para o espaço intracelular desses tecidos. Acreditamos que a rápida queda
observada nos níveis sang٧íneos logo após convulsão, epiléptica ou induzida
pelo eletrochoque, só pode ser explicada dessa forma. A favor dessa
hipó-tese depõe o trabalho de C o s t a - F o r u
9que estudou 26 ratos testemunhas e
26 submetidos ao eletrochoque, tendo verificado, após as crises convulsivas,
aumento da concentração de cobre no cérebro e no baço e diminuição, em
níveis inconclusivos, no fígado e no rim. Estes achados e os resultados que
obtivemos permitem explicar a queda abrupta dos níveis de cobre após a
convulsão pela passagem rápida desse metal para os espaços intracelulares
dos tecidos que mais são solicitados durante a crise convulsiva
(principal-mente o cérebro que descarrega maciça(principal-mente nas convulsões generalizadas
e os músculos que entram em ação de maneira global e intensa nessas
oca-siões). Menor oferecimento do cobre, através do sangue, ao fígado e aos
rins nesse curto período, explicaria as baixas concentrações encontradas por
Costa-Foru nesses órgãos.
al-terações determinadas pela descarga neuronal não atingiriam valores eleva-dos de forma a determinar queda significativa da cupremia após aplicação convulsígena sob ação de substância curarizante.
Portanto, as alterações do metabolismo do cobre nas epilepsias envol-vem dois fatores principais: aumento da cupremia à custa do cobre de rea-ção direta em período intercrítico e queda significativa da cupremia após crise convulsiva epiléptica, pela passagem desse metal p a r a os comparti-mento intracelulares. Dentro de nossos conhecicomparti-mentos atuais a interpreta-ção desses fatos se torna difícil.
A verificação de que o metabolismo do cobre está alterado nas epilepsias nos leva a comparar estas últimas com a doença de Wilson, atribuída a al-terações metabólicas desse metal. N a degeneração hepatolenticular o defei-to ocorre, provavelmente, em nível hepático, na síntese da ceruloplasmia, disso resultando que certa quantidade de cobre alcança o sangue sob forma livre, difundindo-se através dos capilares p a r a os compartimentos intracelu-lares; existe queda do cobre total do soro à custa da ceruloplasmina, encon-trando-se o cobre de reação direta em níveis superiores ao normal. N a s epilepsias as alterações ocorrem à custa do cobre de reação direta que, por motivos desconhecidos, durante período intercrítico não penetraria nos es-paços intracelulares. O fato de que nas epilepsias o cobre, embora perma-necendo em níveis altos no sangue sob forma livre, não se deposita nos teci-dos, foi confirmado, indiretamente, por R e e s5 6
(1961) que, estudando o com-portamento do cobre como veneno enzimático, assinalou que, quando esse metal se acumula nas células, inibe muitos enzimas, podendo daí resultar de-pressão do fornecimento energético; se a energia é indispensável para o funcionamento normal das células, o é muito mais nos estados de hiperati-vidade, como ocorre nas epilepsias. A l é m disso pode-se mencionar a rari-dade, p a r a não dizer ausência, das manifestações epilépticas na doença de Wilson, tudo fazendo crer que, nessa afecção, o cobre se acumularia nas cé-lulas em níveis tão elevados que bloquearia os mecanismos energéticos.
Finalmente, dentro das implicações que o metabolismo do cobre acarre-ta, deve-se salientar o fato da cerebrocupreína I diferir da hepatocupreína, da ceruloplasmina e da eritrocupreína pela natureza de sua ligação: en-quanto nestas a ligação é firme, não havendo reação com agentes do tipo do dietilditiocarbamato, na cerebrocupreína I a ligação é lábil, havendo reação com o c a r b a m a t o3 1
. Devido a essa labilidade é possível que a cerebrocupreí-na I desempenhe importante papel durante a crise epiléptica, tanto mais quan-do se considera que ela contém 0,29% de cobre em sua m o l é c u l a5 9
.
Evidentemente, não h á elementos p a r a considerarmos os distúrbios do metabolismo do cobre nas epilepsias como fator causai das convulsões. Jul-gamos mais prudente considerá-los, pelo menos em relação aos fenômenos que ocorrem na crise e no período pós-crítico imediato, como decorrência da hiperatividade das células nervosas e musculares.
R E S U M O Ε C O N C L U S Υ E S
d i a n t e o uso de c u r a r e e m pacientes m e n t a i s submetidos a o eletrochoque, a
influκncia da h i p e r a t i v i d a d e m u s c u l a r p r σ p r i a da crise convulsiva sobre o
m e t a b o l i s m o do c o b r e . A l ι m disso, o a u t o r estudou as c o r r e l a ç υ e s e n t r e
s e x o e i d a d e dos pacientes epilιpticos, d e u m lado, e c u p r e m i a e cuprorra
quia, do outro, e f e z a c o r r e l a ç γ o e n t r e os níveis d e c o b r e d o s o r o e d o L C R
desses pacientes.
N o s pacientes epilιpticos ( 8 4 ) f o r a m colhidas a m o s t r a s de sangue (81
casos) e de L C R (66 casos) e m p e r í o d o i n t e r c r í t i c o p a r a d o s a g e m do cobre
t o t a l . N o s pacientes mentais ( 3 2 ) f o r a m colhidas a m o s t r a s de sangue an
tes e i m e d i a t a m e n t e apσs c r i s e c o n v u l s i v a d e t e r m i n a d a p e l o e l e t r o c h o q u e
s i m p l e s (22 casos) p a r a d o s a g e m de ceruloplasmina, e i m e d i a t a m e n t e apσs
e l e t r o c h o q u e sob açγo de c u r a r e (10 c a s o s ) para d o s a g e m d o c o b r e t o t a l .
Os resultados f o r a m submetidos a anαlise estatística, t e n d o o a u t o r
c h e g a d o ΰs seguintes c o n c l u s υ e s : 1 ) o n í v e l de cobre d o sangue e do L C R
d o s pacientes epilιpticos n γ o depende do s e x o n e m da i d a d e ; 2 ) o t e o r de
c o b r e d o L C R estα c o r r e l a c i o n a d o c o m o d o sangue nos pacientes e p i l ι p t i
c o s ; 3 ) a supressγo, m e d i a n t e o uso de substância curarizante, das m a n i
festaçυes musculares da crise produzida p e l o e l e t r o c h o q u e a c a r r e t a queda
n γ o significativa do n í v e l de cobre d o sangue; 4 ) a queda d o n í v e l de cobre
d o sangue apσs convulsυes d e t e r m i n a d a s p e l o e l e t r o c h o q u e depende da hipe
r a t i v i d a d e muscular q u e c a r a c t e r i z a a c r i s e convulsiva; 5 ) a queda do n í v e l
de cobre do sangue apσs convulsυes d e t e r m i n a d a s p e l o e l e t r o c h o q u e depen
d e p r i n c i p a l m e n t e do c o b r e d e r e a ç γ o d i r e t a ; 6 ) a queda dos níveis d e cobre
d o sangue apσs convulsυes d e t e r m i n a d a s p e l o e l e t r o c h o q u e ι d e v i d a ΰ pas*
s a g e m desse e l e m e n t o para os espaços intracelulares.
S U M M A R Y
Cooper metabolism in the epilepsies
S i n c e copper m e t o b o l i s m is disturbed in t h e epilepsies, t h e author stu
died in w h a t f o r m this a l t e r a t i o n s occurs and, b y means o f curarelike
d r u g s in m e n t a l patients s u b m i t t e d t o electroshock, t h e r o l e p l a y e d b y
c o n v u l s i v e induced muscular h y p e r a c t i v i t y on copper m e t a b o l i s m is analysed.
T h e author studied also t h e c o r r e l a t i o n s of sex and a g e w i t h b l o o d and c e r e
brospinal copper l e v e l s in the epileptic patients.
E i g h t f o u r epileptic patients w e r e studied. C o p p e r w a s d e t e r m i n e d in
blood samples (81 cases) and. cerebrospinal fluid samples (66 c a s e s ) . I n
t h e m e n t a l patients (32 cases) blood ceruloplasmin w a s d e t e r m i n e d (22
c a s e s ) j u s t a f t e r electroshock and b l o o d copper w a s d e t e r m i n e d (10 c a s e s )
j u s t a f t e r electroshock under c u r a r e l i k e drugs.
c u r a r e l i k e drugs, t h e fall of blood copper content is not significant; 4 ) t h e fall of b l o o d copper levels a f t e r the e l e c t r o s h o c k induced convulsion depends on the c o n v u l s i v e muscular h y p e r a c t i v i t y ; 5 ) t h e fall of the blood copper content a f t e r e l e c t r o s h o c k induced is due t o the passage of d i r e c t r e a c t i n g c o p p e r i n t o cells.
R E F E R Κ N C I A S
P O R T E R , Η . — C o p p e r p r o t e i n c o m b i n a t i o n s in t h e b r a i n in W i l s o n ' s disease. In W a l s h e , J. M . & C u m i n g s , J. N . W i l s o n ' s D i s e a s e . S o m e C u r r e n t C o n c e p t s . B l a c k w e l l S c i e n t i f i c P u b l i c a t i o n s , O x f o r d , 1961, p p . 2435. 54. P O R T E R , H . — T i s s u e copper p r o t e i n in W i l s o n ' s disease. A r c h . N e u r o l . ( C h i c a g o ) . 11:341,349, 1964. 55. P O R T E R , H . & F O L C H , J. — B r a i n c o p p e r p r o t e i n f r a c t i o n s in t h e n o r m a l a n d i n W i l s o n ' s d i s e a s e . A r c h . N e u r o l . P s y c h i a t . ( C h i c a g o ) . 77:816, 1957. 56. R E E S , K . R . — C o p p e r a s a n e n z y m e p o i s o n . In W a l s h e , J. M . & C u m i n g s , J. N . — W i l s o n ' s D i s e a s e . S o m e C u r r e n t C o n c e p t s . B l a c k w e l l S c i e n t i f i c P u b l i c a t i o n s , O x f o r d , 1961, p p . 4660. 57. S A C H S , A . L E V I N E , V . E . & F A B I A N , A . P . — C o p p e r a n d i r o n i n h u m a n b l o o d . N o r m a l m e n a n d w o m e n . A r c h , i n t e r n . M e d . 55:227253, 1935. 58. S A R A T A , U . — S t u d i e s in t h e b i o c h e m i s t r y o f c o p p e r . C o p p e r i n r e l a t i o n t o t h e m e n s t r u a t i o n and p r e g n a n c y , w i t h t h e c o p p e r c o n t e n t o f m e n ' s b l o o d . Jap. J. m e d . S c i . I I . B i o c h e m . 3:18, 1935. 59. S C H E I N B E R G , H . — C o p p e r m e t a b o l i s m : a r e v i e w . In W a l s h e , J. M . & C u m i n g s , J. N . — W i l s o n ' s D i s e a s e . S o m e C u r r e n t C o n c e p t s . B l a c k w e l l S c i e n t i f i c P u b l i c a t i o n s , O x f o r d , 1961, p p . 417. 60. S C H E I N B E R G , H . & M O R E L L , A . G. — C o n c e n t r a t i o n o f c e r u l o p l a s m i n i n p l a s m a o f s c h i z o p h r e n i c p a t i e n t s . S c i e n c e 126:925926, 1957. 6 1 . S C H E I N B E R G , H . & S T E R N L I E B , I . — C o p p e r m e t a b o l i s m . P h a r m a c o l . R e v . 12:355381, 1960. 62. S C H N E I D E R , W . C. & H O G E B O O N , G . H . — I n t r a c e l l u l a r d i s t r i b u t i o n o f e n z y m e s . F u r t h e r s t u d i e s o n d i s t r i b u t i o n o f c y t o c h r o m e C in r a t l i v e r h o m o g e n a t e s . J. b i o l . C h e m . 183:123128, 1950. 63. T I N G E Υ , A . H . — I r o n , c o p p e r a n d m a n g a n e s e c o n t e n t o f h u m a n b r a i n . J. m e n t . S c i . 83:452460, 1937. 64. T O W E R , D . B . — O r i g i n s a n d d e v e l o p m e n t o f n e u r o c h e m i s t r y . N e u r o l o g y ( M i n n e a p o l i s ) 8, supl. 1:331, 1958. 65. T O W E R , D . B . — N e u r o c h e m i s t r y o f E p i l e p s y . C h a r l e s C. T h o m a s , S p r i n g f i e l d ( I l l i n o i s ) , 1960, p p . 2463. 66. T U R P I N , R . ; J E R O M E , H . & M m e . S C H M I T T J U B E A U — V a r i a t i o n s p h y s i o p a t h o l o g i q u e s d e l a c u p r ι m i e c h e z l ' e n f a n t . S e m . Hτp. P a r i s . 29:22972308, 1953. 67. W A R R E N , P . J.; E A R L , C. J. & T H O M P S O N , R . H . S. — T h e d i s t r i b u t i o n o f c o p p e r in h u m a n b r a i n . B r a i n . 83:709717, 1960. 68. W I N T R O B E , Μ . M . ; C A R T W R I G H T , G. E . & G U B L E R , C. J. — S t u d i e s on t h e f u n c t i o n s and m e t a b o l i s m o f c o p p e r . J. N u t r . 50:395419, 1953.