1 Apoio:FAPESP/CNPq.
2 Endereço:UniversidadedeSãoPaulo,DepartamentodePsicologiae Educação,Av.Bandeirantes,3900,RibeirãoPreto,SP,Brasil14040-901.E-mail:[email protected]ouou[email protected]
SentidosdeDoençaMentalemumGrupoTerapêuticoesuasImplicações
1CarlaGuanaes
CentroUniversitárioBarãodeMauá CentrodeFormaçãoProfissional
MarisaJapur2
UniversidadedeSãoPaulo–RibeirãoPreto
RESUMO–Esteestudoadotaumaperspectivaconstrucionistasocial,quefocalizaomodocomoaspessoasconstroemsentidos desimesmasedemundoemsuaspráticasdiscursivas.Enfatizandoocaráterperformáticodalinguagem,objetivou-se,nesta pesquisa,descreveralgunssentidosdedoençamentalproduzidosemumgrupoterapêuticorealizadoemumambulatóriode saúdemental,easimplicaçõesdousodestessentidosparaasconversaçõesgrupais.Baseadanatranscriçãodas16sessõesdo grupo,aanálisedaproduçãodesentidospermitiuadescriçãodealgunssentidosdedoençamental,bemcomoaconstrução derelaçõesentreestessentidos,avisãodemudançaeosmodosdeinteraçãoporestesfavorecidos.Atravésdessaanálise, apontamosautilidadederefletirsobreasimplicaçõesdousodedeterminadossentidosdedoençamentalemterapiadegrupo, comoumaformadepotencializarastrocasdialógicasentreosparticipanteseaconstruçãoconversacionaldamudança.
Palavras-chave:construcionismosocial;terapiadegrupo;saúdemental.
ImplicationsofMentalIllnessMeaningsinaTherapeuticGroup
ABSTRACT–This study adopts a social constructionist perspective, which focuses on how people make meaning of themselvesandoftheworldintheirdiscursivepractices.Byemphasizingtheperformativecharacteroflanguage,theaimof thisstudywastodescribemeaningsofmentalillnessproducedinatherapeuticgroup,offeredinamentalhealthambulatory, andtheimplicationsoftheuseofthesemeaningstothegroupconversations.Themeaningmakinganalysiswasbasedonthe transcriptionsof16groupsessions.Thisanalysisallowedustodescribesomemeaningsofmentalillness,toconstructlinks amongthesemeaningsandthechangingviewfavoredbythem,aswellastheinteractionamongthegroupparticipants.Based onthis,wesuggestthatthinkingaboutsomementalillnessmeaningsanditsusecanbeusefultopromotedialogicalexchanges ingrouptherapyandtheconversationalconstructionofchange.
Keywords:socialconstructionism;grouptherapy;mentalhealth.
Segundoosautores,aproduçãodesentidosacontecenuma interação situada entre interlocutores (tempo curto), sendo também influenciada pelas possibilidades de significação de uma dada comunidade lingüística (tempo longo) e pela históriaconversacional(tempovivido)dosinterlocutoresque participamdestainteração.Portanto,emboralocalesituado,o processodeproduçãodesentidosétambémmarcadopordis-cursossociais,referentestantoàsexperiênciasindividuaisde socialização,comoàparticipaçãodaspessoasemumacultura naqualalgunsdiscursosemodosdefalasãovalorizados.
Seobservarmosasconversasdaspessoasemseucoti-diano,asmanchetesdejornais,asinteraçõesdepersonagens nastelenovelas,veremosquemuitosdosdiscursossociais acercadadoençamental,produzidosemperíodoshistóricos específicos,participam,aindahoje,dosmodospelosquais aspessoasdãosentidoàssuasvidaserelacionamentos.Ser doente mental, louco, problemático, perturbado, nervoso, pinel,desregulado,desequilibrado,ruimdacabeça,porexem-plo,sãotermosquetiveramorigememmomentoshistóricos específicos,massão,aindahoje,modoscomunspelosquais aspessoasreferem-seaoportadordeumadoençamental.As pessoasfazemusodestasedeoutrasdescriçõessempreque sedefrontamcomsituaçõesemqueestaspodemajudá-lasa darsentidoasuasexperiênciasdevidaerelacionamentos. Esteestudoadotaumaperspectivaconstrucionistasocial,
quesecaracterizacomoumaformadeinvestigaçãoquedáên-faseaomodocomoaspessoas,atravésdesuaparticipaçãoem práticasdiscursivassocial,históricaeculturalmentesituadas, constroemsentidosdemundoedesimesmas(Gergen,1997). Numaperspectivaconstrucionistasocial,entende-sequeo sentidoéconstruídopelaspessoasnumaação-conjuntaede usocorporificadodalinguagem(Shotter,2000).Destaca-se, assim,afunçãodalinguagemedosrelacionamentoshumanos naconstruçãodomundo.Vistacomolinguagememuso,a linguageméconsideradaemseucaráterperformático,isto é,emseupoderconstituintedasrealidadesconversacionais atravésdasquaisaspessoascriamesustentampráticassociais emodosdeagirnomundo.
Em nossa cultura, diversos discursos sociais têm sus-tentadoaconstruçãodadoençamentalcomoumfenômeno complexoededifícilentendimento.Estesentidofoisendo construídotantoapartirdoconhecimentocientífico,através das contribuições da Psiquiatria, Psicanálise e Psicologia, comodasabedoriadesensocomumque,alémdeseuspró-prios conhecimentos, apropriou-se também dos discursos daciência,ressignificando-oseutilizando-osnaconstrução dediferentesentendimentossobreadoençamentalesuas formasdetratamento.
Descreverosdiversosmodospelosquaisadoençamental temsidodescritaaolongodosanosnaculturaocidentaltem sidoobjetodeestudodeautorescomoFoucault(1994/1954; 1995/1961)ePessotti(1994,1996).Estesestudoscontribuem comumareflexãocríticasobreaproduçãodeconhecimento nestecampo,dandovisibilidadeàdiversidadedesentidos sobreoadoecimentomentalconstruídaaolongodahistória eàparticipaçãodosdiscursosmédicoepsicológiconesta construção.
Nãopretendemos,aqui,fazerumaamplarevisãosobre ossentidosdedoençamentalconstruídosaolongodasépo-cas,primeiroporconsiderarmosesteumcampojábastante explorado e discutido (Foucault, 1994/1954, 1995/1961; Pessotti,1994,1996)e,segundo,porqueestatarefafogeaos objetivosdesteestudo.Assumindoadistinçãomarcadapor SpinkeMedrado(1999)entrediscurso(usoinstitucionali-zadodalinguagem)epráticadiscursiva(produçãosituada desentidos,nosmomentosativosdeusodalinguagem),este estudofocalizaoentendimentodaspráticasdiscursivase, portanto,doprocessosituadodeproduçãodesentidosde doençamental,emumgrupodecurtaduração.Contudo, umabreveapresentaçãodealgunsdiscursossociaisquetêm atravessadoaconstruçãodesentidosdedoençamentalfaz-seimportantenesteestudo,permitindorastrearumcampo designificaçãoaoqualtambémosparticipantesdogrupo aquiestudadorecorreramemsuasconversações.
Retomando a história do conhecimento em Psiquia-tria, Pessotti (1994) aponta que “a concepção de loucura como envolvendo um estado ou processo unitário, mais oumenosduradourooucomplexo,envolvendodisfunções orgânicaseafetivas,érelativamenterecentenahistóriado conhecimento”(p.9).Anteriormenteaestadefinição,uma multiplicidadededescriçõesseproduziu,marcadasorapor acentuadomisticismoeabstração,oraporgrandeconcretude eorganicidade.
Antesdaemergênciadesseenfoquemédico/científico(sé-culosXVIIeXVIII),asdescriçõesdaloucuraerampautadas, sobretudo,porsentidosmísticoseespirituais.Entendiam-se oscomportamentosbizarrosedesvianteseasalteraçõesnos estadosdehumorcomomanifestaçõesdebruxaria,deum espíritodemoníacooudeumaalmainquieta,sendooexorcis-movistocomopráticacurativa.Temoremedofaziamparte darelaçãodaspessoascomaloucura,sendoasegregaçãoe amarginalizaçãosocialdosportadoresdadoençamentalum resultadodestetipodeconstruçãodiscursiva.
Umenfoquemaismedicalizadosobrealoucuracomeçou aemergirapenasapartirdoséculoXVII.Énesteséculoque surgeoconceitode“alienaçãomental”,termoqueorgani-zará parte da nosografia do século XIX (Pessotti, 1994). Atravésdesteconceito,aloucurapassouaservistacomo
umaalteraçãoqueseprocessanamente,traduzindo-seem comportamentos, delírios ou idéias, derivando de causas passionaisouinternas.
A partir desse período, alternaram-se, na Psiquiatria, descriçõesdaetiologiadadoençamentaltipicamenteorgani-cistas(ênfasenosaspectosanatomo-fisiológicosdadoença), comdescriçõesmaisvoltadasaseusaspectosafetivosepas-sionais.Estasganharamdestaqueespecialmenteapartirdo séculoXIX,apartirdaobradePinel,quesustentavaaorigem passionaloumoraldaalienação,rompendocomasteorias organicistas precedentes. Para ele, as causas da alienação poderiamserdiversas,incluindofatoreshereditários,orgâ-nicosoumorais,taiscomo“paixões,conflitos,frustrações, hábitos,gostos,vícios”(Pessotti,1994,p.165).
Contudo,comodescreveFoucault(1995/1961),éinútil tentardistingüirasterapêuticasfísicasdaspsicológicasaté oséculoXIX,poisaPsicologianãoexistianesteperíodo. Foiapenasapartirdaquelaépocaquehouveumaseparação entreaexperiênciadaloucuraeseucomponenteorgânico. FoucaultatribuiàFreudeasuateoriapsicanalíticaomérito deconsideraraloucuraemsualinguagem,dandovozàex-periênciaquetinhasidocaladapelopositivismodosséculos anterioresefavorecendoumareconfiguraçãodopsicológico. Assimilando as contribuições psicodinâmicas de Freud, a Psiquiatriaassumiu,então,umolharmaisampliadosobrea loucura,estandoatentaàlinguagemeaosaspectospsicoló-gicosesignificativosdesuaexpressão.
No contexto específico das produções em Psicologia, diversasdescriçõessobrefuncionamentomental,patologia ecomportamentohumanoemergiramapartirdisso,produ-zindoentendimentosque,disseminadospeloconhecimento científico, hoje fazem parte do senso comum, presentifi-cando-se nas práticas discursivas cotidianas. Dentre eles, destacam-se: a relação entre doença mental e o retorno a estadosprimitivos;anoçãodetraumaeaimportânciadas vivênciaspassadas;apressuposiçãodefaseseestágiosde desenvolvimentonormal;anoçãodemundomental,marcado porconstruçõessimbólicas,seguidadanoçãodeconflitos internoseambivalênciaafetiva;aimportânciadasrelações familiaresedasinteraçõessociaisemgeral,considerandoa influênciadomeionodesenvolvimentodadoença;erefe-rênciasaproblemasvividosnosprocessosdesocializaçãoe aprendizagemdenormaseregrassociais.
Atualmente,caminha-seemdireçãoaumentendimento maisampliadodadoençamental,entendendoserestare- sultantedediversosfatores–orgânicos,emocionais,gené-ticos,culturais,sociais,situacionais,entreoutros.Busca-se, assim, uma visão menos reducionista da mesma, quando umaatençãoaobem-estarfísicoepsicológicodopacienteé consideradafundamental.Expandindo-seassignificações, expandem-se também as modalidades de tratamento. Nos serviçosdeatendimentoemsaúdemental,formasdeaten-ção também mais amplas vêm sendo propostas, contando comaparticipaçãodediversosprofissionais–psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, entreoutros.Busca-se,assim,umtratamentomaishumani-tárioquerespondaàcomplexidadedaspossíveiscausasdo adoecimento.
de uma ou outra forma não é um processo inócuo. Estas descrições são criações de uma cultura, sendo entendidas comopráticassociais.Atravésdelas,determinadosmodosde intervençãosãopropostos,identidadesconstruídaseformas devidasustentadas.
Refletindosobreestasquestõesemumnívelsocialmais amplo, vemos, por exemplo, que a proposta de Pinel de compreensãodaloucuracomotendoorigempassionalou moralesteveassociadaàdescriçãodosloucoscomoseres irracionaisepassionais,efoiseguidadaproposiçãodotra-tamentomoral,pautadoemumaseveraebrutaldisciplina. Aocontrário,adescriçãodadoençamentalcomotendouma origemdemoníaca,favoreciaaconstruçãodoloucocomoum seracometidooupossuídoporespíritosoualmasinquietas, sendo seguida do exorcismo como técnica curativa. Do mesmomodo,asexplicaçõesatuaissobreadoençamental possibilitamdiferentesdescriçõesidentitáriasesustentam, também, determinadas formas de tratamento, tais como a conjugaçãodetratamentosmedicamentososepsicoterápi-coseaevitaçãodasinternaçõeshospitalares,quepassaa serindicadaapenasemcasosdegravecrise,porperíodos reduzidosdetempo.
Estareflexãopodeserampliadaseestendidaaoscon-
textoslocais,nosquaistaissentidossãoativamentenego-ciadospelaspessoasemsuasinterações(Guanaes,2004). Aceitandooconviteconstrucionista,maisdoqueinvestigar averacidadedasdescriçõesdedoençamentalexistentesou buscarproporumnovoentendimentodamesma,podemos refletirsobreoquêousodestessentidosdedoençamental, emrelacionamentossituados,gera.Quepráticassociaisestes discursossobredoençamentalsustentam?Queformasde relacionamentopromovem?Queidentidadessãoconstruídas apartirdestesmodosdedescrição?Estasquestões,afinadas comaperspectivaconstrucionistasocial,representamuma visãopragmáticaecríticadeentendimentosobreadoença mental,esustentamtambémapropostadesteestudo.
Objetivos
Buscamos, neste estudo, descrever alguns sentidos de doença mental produzidos por participantes de um grupo terapêutico.Considerandoaênfaseconstrucionistanocaráter performáticodalinguagem,buscamos,maisespecificamen-te,explicitarasimplicaçõesdousodosdiferentessentidos de doença mental para o fluxo conversacional imediato, especialmente em relação à construção de determinados sentidosdemudançaedemodosderelacionamentoentre osparticipantesdogrupo.
Quadro1.Condiçãodosparticipantesnomomentodeencaminhamentoparaogrupo,emrelaçãoasuasprincipaisqueixas,diagnósticos(CID-10),usode medicaçãoetratamentosanteriores(Guanaes,2000)
Nomes3 Queixas Diagnóstico Medicação Tratamentosanteriores
Roberta Dificuldadesderelacionamentoconjugal,ambivalência afetiva,desânimoeangústia
Transtornode ansiedade
-
-João Maiscalmo,situaçãofamiliareprofissionalmaisestável Semoutrasqueixas
Transtornoadaptativo - Participaçãoemgrupo terapêutico
AnaMaria Melhoremrelaçãoàsqueixasdepressivas,maisanimada edisposta
Realizandoatividadesdetrabalhoedesejandovoltara estudarefazerpintura
Transtornodepressivo recorrente,episódio atualmoderado
Ansiolítica Tratamentopsiquiátrico
Marta Dificuldadesderelacionamentocomamãe;queixa-sede desinteresseeincapacidadedeprocuraremprego
Transtorno esquizotímico
Antipsicótica Tratamentopsiquiátrico (internaçãoemHospitalDia)
Marli Queixa-sedecabeçagrande,irritabilidade,medoquealgo ruimlheaconteça
Dizficarcontrariadasemmotivoeterinsônia
Distimia Antidepressivae ansiolítica
Tratamentospsiquiátrico (11internações).
Irene Refereestarcansadadastarefasdomésticas,dificuldade pararespirareandardireito
Distimia Antidepressiva eansiolitica
Tratamentopsiquiátrico
Estela Referepensaremsematarquandoascoisasnãodãocerto, masnegaplanejarsuicídioQuadrodeescureceravista, inapetência,perdadepeso
Ansiedade generalizada
-
-Valter Sentenáuseas,vômitos,indoempânicoparaohospital acreditandoterhemorragia
Sonoexcessivo
Ansiedade generalizada
Antidepressivae ansiolítica
-Rosilene Usoabusivodetranqüilizantes,problemasde relacionamentocomoex-marido
Ansiedade
Transtorno dissociativo
Ansiolítica Tratamentospsiquiátricos
Marília Melhordasqueixasdeansiedadeedepressão Semsintomasháseteanoseusodemedicação
Distimia Antidepressivae ansiolítica
-Leila Queixasdemedodeandardeônibus,decarroede elevador;medodechuva;crisesdediarréia;taquicardia
Fobiasocial - Tratamentopsiquiátrico
Método
Contextoeparticipantes
Esteestudotevecomobaseastranscriçõesdassessõesde umgrupoterapêutico,realizadoemumambulatóriopúblico desaúdementaldeRibeirãoPreto.Estegrupoteve16sessões deumahoraemeiadeduraçãosemanal,foicoordenadopor umpsiquiatraeobservadopelaprimeiraautoradesteartigo. Participaramdogrupo11pacientes–novemulheresedois homens,comidadeentre29e65anos,amaioriacasada,com primeirograuincompletoetrabalhandoemserviçosdomés-ticos.NoQuadro1,apresentamosumabrevedescriçãodos participantesemrelaçãoàsqueixasreferidasnomomentode encaminhamentoparaogrupo,aseusdiagnósticos,aouso demedicaçãoeàhistóriadetratamentopsiquiátrico/psico-lógicoanterior.
Procedimentosdeconstituiçãoeanálisedocorpus
Todasassessõesdogrupoforamaudio-gravadasetrans-critasnaíntegra,acrescidasdenotasdeobservaçãosobreas interaçõesgrupais(gestos,expressões,tonalidadeafetiva). Também foi realizado um registro contendo informações médicassobrecadaparticipante,incluindodescriçõesdesuas queixas,dousodemedicaçãoedeseusdiagnósticos.Estas notasforamutilizadasparadescriçãodosparticipantesecon-textualizaçãodasconversasgrupaisnocontextoinstitucional maisamplo.Aanálisedatranscriçãodassessõesdogrupofoi realizadaatravésdosseguintespassos:a)leituraexaustivadas sessõesdogrupo;b)análisetemáticadossentidosdedoença mentalemcirculaçãonastrocasdialógicasgrupais;c)análise dasimplicaçõesdousodestessentidosparaofluxoconver-sacional,incluindoaconstruçãodesentidosdemudançae demodosderelacionamentoentreosparticipantesdogrupo; ed)escolhadealgunhasvinhetasclínicas,ilustrativasdas análisesrealizadasnositensbec.
Resultados
Apresentamos, a seguir, os sentidos de doença mental produzidosemnossaanálise,seguidosdealgumasvinhetas clínicas.
a) Adoençamentalcomodecorrentededificuldadesvividas nopassado.
Osentidodequeoproblemaoudoençaatualéresulta-dodeexperiênciasdesofrimentodopassadoemergiuem diferentesmomentosdasconversaçõesgrupais,sendomais prevalentenosrelatosdeMarta,IreneeEstela.Geralmente, derivavadousodestesentido,aconstruçãodelongasnarrati-vas,comestiloderelatosautobiográficos.Istocaracterizava umpadrãointerativobastantepeculiar,noqualapessoaque narrava sua história de vida posicionava os demais como ouvintes silentes. Na maioria das vezes, a justificativa do problemaoudoençaatualporumaexperiênciadesofrimento vivida no passado criava poucas chances de participação grupal e de construção de expectativas de mudança nas conversaçõesdesenvolvidasnestecontexto.
Exemplo: Na sessão 11, os participantes discutem os aspectosemocionaisenvolvidosnaorigemdosproblemas. Robertadiznãoentenderoquetem,queixando-sedevários sintomas e de medo de andar de ônibus. Os participantes discutemascausasdomedoeemergeaexplicaçãodeque estepodeterrelaçãocomvivênciasdainfância.
Roberta:Mas eu acho que a infância influencia sim, quandoacriançaémuitosofridadepequena,euachoque ficasim.Porquemeumeninomaisvelhotem10anos,quan-doeutiveele...Eletinhadoisanos,maseujudiavadele, batia,batia,nãotinhapaciênciacomele,eueranervosa, davacadatapanacabeçadele!(...)Eletambémfoimuito judiado, e hoje ele tem problema. Ele tem problema de aprendizagem,né,naescola,eleémuitonervoso,irritado. (...)Emeumeninodeseteanos,eletambémfaztratamento compsicólogo,comfonoaudiólogaecomneuro.Osdois. Porquequandoeletinhaseismeses,eleficoumuitodoente, eleficouinternadoquasedoismesesnohospital.(...)Foi ummeninomuitojudiado,equandoelesaiudohospital, eleficoumeiobobão,meioparadão,masnormal.(...)Pra vocêvercomoéqueé,osdoisquefoimaisjudiados,um quefoijudiadoporqueeuquejudieimaisdele,queficou traumatizado,eooutropelohospital.(...).Euachoque tem sim, viu? Muitos problemas que a pessoa tá hoje é demuitotempopassado,euachoquesim.Éamente,né? Problemaemocionalmesmo.Porqueestemeumeninode dezanosapsicólogafaloupramim,quemuitoproblema deleéproblemaemocional.Queécoisademuitotempo. Sóqueeunãofaleioqueeufiz,poristoqueeutôfalando aqui,queeufiz.Eufuiumaquequandoeuerapequenaeu nãotinhavidaboanão!Eumorei,quandoeuerapequena, meus pais moravam em favela. Meus pais moravam em favela, eu passava fome, sabe? De pequena eu andava descalça,sabe?Nossa,eunãotinhanemoquevestir,a casaeraaberta...
Terapeuta:AquiemRibeirão?
Roberta:Ribeirão.Xi!Eumoreiaquiemfavelamuito tempo.(...)quando eu era pequena eu sofri sim, tinha vontadedeterascoisasenãotinha.Seeuviaboneca, adoravaboneca,nãotinhaboneca,tinhasóaquelasbo-necasqueachavanolixo,assim,sabe?Faltandoperna, cabeça(ri).Entãoéistoaí.Então,quandoeuerapequena eusofrimuitoeapanhavademais!Apanheimuitoassim. Aí quando eu completei 16 anos, casei, aí logo eu já comeceiasofrercommeumarido,quebagunçava,tal. Assim.Depoissofricommeumeninointernado,tudoisto aí,ó,tudo.Querdizer,daminhaparteeunãotiveuma vidaassim,boa,né?Agora,né?Masagoraeujáestou cheiadeproblemajá!
b) A doença mental como decorrente de dificuldades ou conflitosatuais.
Osentidodequesuasqueixasencontram-seassociadasà vivênciadeproblemasnocotidiano,emespecialproblemas derelacionamentofamiliarouconjugal,foiconstruídopelos participantesemdiversastrocasgrupais.Estesentidoapa-receumaisfreqüentementenasfalasdeAnaMaria,Valter, Roberta,JoãoeRosilene.Geralmente,adiscussãodopro-blemacomoestandorelacionadoàvivênciadedificuldades ouconflitosatuaisderelacionamentofavoreciaumamaior interação dos participantes, que buscavam ajudar através deconselhosesugestões.Anoçãodemudançaassociadaa estesentidoremetiaàsoluçãodasdificuldadesvivenciadas nomomento.
Exemplo:Nasessão9,AnaMariaqueixa-seaogrupode quesuadepressãoestárelacionadaàmudançadesuafilha parasuacasa,comogenroeosnetos.Dizqueafilhanãotem responsabilidade,queassumiumuitasdívidasequestionase aajudaquedáaelaéválida.Ogrupodáconselhosdecomo AnaMariapoderiasolucionaroproblemacomafilha,para queelapossamelhorar.
AnaMaria:Desdequeela[filha]chegouqueeunãofiz maisvestibular,porqueeunãotenhoascondiçõesdeestudar! (...)Então,euqueriaretomaraminhavida,eunãotenho maisocompromissodeficarbuscandoelevandocriança naescola!(...)Eistomedeixadoente!Quandoelachegou, queelafalouqueelaiatrabalhar,queeuiaficarcuidando dascrianças,eufalei:“peloamordeDeus,Priscila,nãofaz istocomigoqueeunãovouagüentar!”.Foijustamenteoque aconteceu.Foiquandoeucomeceicomaminhadepressão. (pausa)Eagoraeutôpresadenovo.
Marli:Elatemqueparardefazerdívidapraelapoder ficaremcasa.
Irene:Então, mas ela tá endividada, já, como ela tá explicandoaí,né?
AnaMaria:Eununcafizumadívidadessa!Eusempre planejeiaminhavida,semprefiztudoplanejado.Agoraela vaifazendoassim,astortoeàsdireita.
João:Esteéopontoqueeuqueriachegar.Elatambém sabequevocêvaidaracobertura,entãofazerrado,né?Ela nãotátepoupando,elanãotátepoupando!
Valter:Agoranocasodela,eunãosei,maseuachoque aajudaqueelatemdado,elatemdadoajuda,eassim,a ajudatalvezestáprejudicandoeles.Talvezaajudamesmo seriaorientarelesapegarocarro,énovo,verquantoeles deudeentrada,verquantosmeseselesjápagaram,evailá nafirmaquefor,pedeumacondição,quedevolvapartedo dinheiro,equevaidiminuindoumpoucodadívida!
Terapeuta:Masvejam,asformascomoelavailidarcom istosãomuitas,né?Cadaumdáumconselhoaqui,né?Mas comovocêvailidarcomestasituaçãoagentenãosabe.Mas oqueagentepodelidaraquiécomestesentimentoquevocê trouxedequepormaisquevocêajude,vocêviuqueasua ajudatomaoutrorumo.Agoravocêprecisavaajudarasua filhaanãodependermaisdevocê.Eatéquandovocêvai ficarabrindomãodoquevocêqueriafazer?Istoéqueestá teincomodando,istoéoquedáprapercebernoquevocê começaafalaraqui.
AnaMaria:Euengordeidepoisdetudoisto... Terapeuta:Descompensoutudo...
AnaMaria:Agentecomeçaatomarummontedere-médio,né?
Numaação-conjuntadeproduçãodesentidos,AnaMaria e os demais participantes constroem a explicação de que elaestádoente(depressão)porcausadasdificuldadesque vivenciacomafilha.Bastanteparticipativos,osintegrantes dogrupofazemapontamentosedãoconselhossobrecomo elapoderiamodificarsuasituação,atravésdeumamudança emsuasatitudes.Apossibilidadedemelhoraaparecearti-culada, neste momento interativo, à resolução do conflito atual,eogrupoéativamenteconstruídocomorecursode ajuda–contextoparaencontrarumasolução.
c) A doença mental como decorrente de características pessoais.
Aqui,aqueixaaparecereferidaaaspectosindividuais, como personalidade (comportamentos, gênio difícil, etc); diferençasindividuais,quefazemcomquealgumaspessoas toleremmaisdecepçõesoufrustraçõesdoqueoutras;um “pontofraco”,quequandoatingidolevaaoadoecimento.Ge-ralmente,estesentidonãoerareferidopeloparticipanteque apresentavaanarrativadeproblemanogrupo,masatravés dequestõesoureflexõesdeoutrosparticipantes,sobretudo deJoão,Marta,Irene,AnaMariaeValter.Estaexplicação apareciaemmomentosdegrandeparticipação,eremetiaà responsabilizaçãopessoalpelaprópriamudança.
Exemplo: Marta,nasessão15,queixadesuasdificul-dadescomospais,referindo-seàraivaquesentiadelese entendendoqueeleseramosculpadosporelateradoecido mentalmente.Valter questiona esta explicação, sugerindo queosproblemasqueelavivenciacomospaistambémestão relacionadosàsuaprópriapersonalidade.
Marta:Então,(...)temhoraquemepesamuitoeunão perdoarosinimigos,eeunãoseiperdoar,etemhoraque mepesa.Temhoraqueeufalo;“ah,quemeimporta,eu nãoperdôoninguém,eunãovouserperdoada,eoqueme importa?”Destejeito!Temhoraqueeupensoassim,uma horaeupensodeumjeito,outrahoraeupensodeoutro. Eutômeiodesequilibrada,osenhorestáentendendo?Por causadisso,pramimédisso.
Valter:Mastentaseguiroladoespiritualedaroperdão paraaspessoas,porqueaopassoquevocêvaiperdoando Deusvaiperdoar.Evocêperdoandoosseusinimigos,eles vãosetornaramigoseu(...)Seriamelhorpravocê,porque vocêjápensou?Vocêpassaporcimadeumciscoenãolimpa acasa,vocêagedeumjeitoassim,quesenós,eunomeu caso,seeutivessequetedarumpão,eujáiapensarduas outrêsvezespeloquevocêmesmatáfalando!(...)Então,eu observando,euchegoafazerumquadromentaldapessoa quevocêé!Certo?(...)então,euvejopeloquevocêfala,que euficoanalisando,voupensando,vououvindoeeuvejoque vocêtemumcoraçãodifícildelidar!Talvez,eunãoseionde vocêmora,nãoseinadaaseurespeito,seuspaispodemser ruim,masvocêtambémtemumcoraçãodifícil!Entãoquer dizer,doiscoraçõesdifíceis,nãoéfácil.Evocêvaienfrentar isto,porquevaificandoesgotada,vocêvaipensandoquetá certa,seuspaispensamqueestãocerto...
Valter:Nãoconseguemudar,né?Masenquantovocênão mudar,vocênãomelhora...
AexplicaçãodeValterdequeoproblemadeMartaestá relacionado aos seus problemas pessoais (modo de agir, gênio difícil), marca a construção do sentido de que ela precisamudarsuasatitudesecomportamentosemrelação aos pais.Aqui, a possibilidade de mudança requer um reconhecimentodesuaprópriaparticipaçãonacriaçãodo conflito(enquantonãomudarseuscomportamentos,não vaimelhorar).
d) Adoençamentalcomodecorrentedeumacriaçãoda menteoudaimaginação.
Estesentidoapareceassociadoadescriçõesdadoença comoumacriaçãomental,proferidassobretudoporMarlie Roberta,queapontamqueseusproblemasresultamdofato depensaremdemaisou“colocaremcoisasnacabeça”,epor Valter,queafirmaainfluênciadamentenaformaçãodossin-tomas(doençaspsicossomáticas).Aqui,aposiçãoassumida pelosparticipanteséadequenãosãopropriamentedoentes, apesardossintomasqueapresentam.Geralmente,umamaior interação entre os participantes envolve a discussão deste sentidoeapossibilidadedemelhoraaparecerelacionadaa umdesejoedeterminaçãopessoalparacontrolarospróprios pensamentos.
Exemplo:Nasessão02,Martaafirmaterumadoença mental,mencionandoosdiagnósticosquerecebeuaolongo deseutratamento.Naconversaçãogrupal,Valterquestiona suadescriçãodesi,mostrandoapossibilidadedequenão existaumadoençaorgânicaedequeseussintomassejam, naverdade,umacriaçãodamente.
Marta:Não,maseuli(abula),eulietavaescritoassim: “vairegredirossintomas”.Aíqueeutomeimaisanimada, porqueeupensei,nãotemproblema.Eusouumaesquizo-frênica,masaíeuvoutomarremédio,masvairegrediros sintomas,eunãovousercuradapeloremédio,maseuvou melhorar. (...)Aí no retorno eu perguntei pra médica, no retornoprapegaroutrareceitaeupergunteipramédica: “Dra.Cira,eutenhoesquizofrenia?”.Aíelafalouassim: “é,podeser,né,emgraubaixo,né?”
Valter:Mas,ummomentinho,oremédiosódiziaqueera praestetipodedoença?
Marta:Esquizofrenia.
Valter:Sópraisso?Porqueosmedicamentosàsvezes servepra...
Marta:Não,esseremédioépraesquizofrenia,ajudana depressãoereduzossintomas.
Valter:Masseráquetemadoençamesmo? Marta:Eutenho.
Valter:Assim,seráquesevocêvêosintoma,vocêacha quetemadoença?Porquevocêdesconfiadosintoma...
Marta:Mas,ué,ai,tendoosintoma...
Valter:Seeutefalarumacoisavocênãovaiacreditar. Eutiveumproblemasériodehemorragianoestômago,e tivequeficaremtratamento.Eeutinhahemorragiamesmo, preciseiirparaohospital,tal...Nocomeçoeunãoaceitava, eunãosabiaoqueerahemorragia,seeragrave,ounão, porqueàsvezesficavacomduassemanasdehemorragia. Enfraqueci muito. Então eu passei muito mal, e fui pra hospital,eujátinhaperdidoaconsciência.Aíeufiqueitão
traumatizadoquenãopodianempensaremsentirumador-zinhanoestômago,queeuachavaqueeuiaterhemorragia. Aíeradoençamental.Aíeuficavabrigandocomacabeça falandopraelaqueeunãoiaterhemorragia,queeunão tavacomproblemanoestômago,tal,certo?Aícomeçavaa tersintomasdediarréia,porqueseeuobrasse,euiaolhar asfezesesenãotivessecomsangueacabeçacomcertezaia aliviar.Olhasó!Osintomapodeenganaragente...
Ao questionar a explicação de Marta de que ela tem umadoençamental(esquizofrenia),Valterintroduzosen-tidodequeosintomapodeserumacriaçãodamente.Para Valter,adoençamentaléoprópriodescontroledamente, quecriaumadoençaquenãoexisteorganicamente.Nesta interação,amelhorapassaasersignificadacomoapos-sibilidadedecontrolaraprópriamenteedenãosedeixar enganarporesta.
e) Adoençamentalcomotendoumacausaorgânica. Aqui,asqueixasrelatadassãovistascomoprodutodeuma doençamental,descritaoraportermosmédicos(diagnósti-cos),oraporexpressõesdesensocomum(nervosabalados, hormôniosqueatuamnocérebro).Estaconcepçãodedoença comotendoumacausaorgânica(nãoemocional)éreferida emdiversosmomentos,sobretudoquandoosparticipantes encontramdificuldadesdecompreendersuasqueixas.Este discursoapareceuemmomentosdemaiorinteraçãogrupal, eseuusofortaleceuumdiscursopessimistaemrelaçãoàs possibilidadesdemudança.
Exemplo:Na sessão 06, Marli refere no grupo o fato deterseperdidoaotentarencontraropontodeônibusese queixadeesquecimento,devervultos,dedistração.Apartir doexemplodeMarli,AnaMariafaladesuadificuldadede entenderacausadeseusproblemas,apontandoparapossíveis fatoresorgânicos.
Marli:Eunãoqueroveraquilo,eunãotôolhando...Eu tenhomedo,viu?
Terapeuta:Ahistóriadogato?
Marli:Umgato,umasombra,umvulto...Eédestelado (apontaladodireito).
AnaMaria:Ai,doutor,euqueriatantoentenderoquese passanacabeçadagente,viu?
Terapeuta:Eutambém...(tombrincalhão)
AnaMaria:(ri,masapresentaosolhoscheiosdelágrimas) Que eu fico ouvindo estas histórias, e de repente a gente lembraquejáaconteceucomagente.Porque?
Terapeuta:Deficarvendovulto?
AnaMaria:É,estascoisasqueelaestáfalando,né?De verumvulto...Derepenteacontececomigotambém.Então quetipodehormônionossocérebroproduz,ouproduzmuito, ouproduzmenos,porquequeagenteficaassim?
Terapeuta:Deficarvendovulto?
Ana Maria:Ah, não só, esta irritação que a gente tem...
Marli:Umaagonia,umacoisaruim,né?
AnaMaria:Ansiedade,estadornopeito(jáestáchorando bastantenestemomento).Ai,nãoseiviu?Àsvezeseufico pensandooquequeeupoderiafazerpramelhorar,sabe? Euachoquesóofatodagentetáaquiagentetáprocurando umasaída,né?
AnaMaria:Mas,oquequeeupossofazer?Eupreciso ficarprocurandoestarespostasozinha.Eupegoumlivro, maseunãoachoaresposta...(chorandobastante).
Aproximando sua experiência da descrição de Marli, AnaMariafaladeseudesejodecompreenderseuproblema. Apontaapossibilidadedequeseuproblemasejacausadopor umadisfunçãohormonale,nainteraçãocomoterapeuta,fala desuadificuldadedeencontrarumarespostaqueesclareça seu entendimento, parecendo não vislumbrar chances de melhora.Aexplicaçãodadoençamentalcomotendouma causaorgânicalevaAnaMariaàbuscaporumconhecimento especializado acerca da mesma (procura as respostas nos livros,masnãoencontra).
f) Adoençamentalcomodecorrentedeproblemassociais oueconômicos.
Porfim,osentidodequeproblemassociaisoueconô-micos,comoviolência,assaltosedificuldadesfinanceiras, guardam relação com os sintomas apresentados também emergiunastrocasconversacionaisdogrupo,especialmente nosenunciadosdeMarli,Valter,RobertaeRosilene.Estesen-tidogeralmenteseconstróiemmomentosdemaiorinteração grupaleestáassociadoàvisãodequesuaspossibilidadesde mudançadependemtambémdeumamudançanosaspectos sociais/econômicosquecausamseusproblemas.
Exemplo: Na sessão 03,Valter e Marli referem que aspectossociaisestãorelacionadosaodesenvolvimentodos sintomasqueapresentam,comonervosoeansiedade.
Valter:Agoraumdetalheimportante:RibeirãoPreto, realmente, tá difícil de viver. Eu mesmo se pudesse ficar numacidadezinhabempequena,umacidademaiscalma, euiaquererumpouquinhomaisdetranqüilidade.Talvezeu teriaoutrosproblemas,masseriamelhor,porqueavidaque agentetálevandoemRibeirãoPreto–agitada,violência.
Marli:Asescolastãoumasujeira,né?Nossa!
Valter:Todotipodecoisa,certo?Fuiassaltadoduasvezes, inclusiveroubaramjáduasmotos,outraquemeroubaram...
Marli:Meu filho também tá pagando uma moto que roubaramdele...
Valter:Entãoquerdizer,agenteficaconvencidodeque precisaterumpouquinhomaisdesegurança,efala:“vou
pelomenoscomprarumcarro,porquetinhaumamotinha velha”.Compreiumamotinhavelhapranãochamaratenção doladrão.Aí,osfilhoscomeçamasair,porqueeutenhohá doisfilhosjádemaior.Filhocomeçaasairanoite,ouvai nacasadenamorada,ouquerfazeralgumacoisa,vaide moto, a gente fica preocupado. (...)É tanta imprudência, tantafalsidadeetantaimpunição.(...)
Marli:Entãocomoqueestepessoalvaisararse...Por issoqueeunãogostodacidade,porquelánaroçanãotem perigo.(...)Segurança?Temossegurança?
Valter:Olha, devido a tanto problema que surge, que agenteprasolucionarosproblemas,evitarverofilhoda genteapegareentregarachaveproladrãoassim,nacal-ma,pensandoqueosegurotalvezpague,porquedepois,o seguropaga...(...)Entãopraqueagentevejaosfilhosda gentechegarempaz,agentecomeçaafazerumasériede dívidas,deproblemasemaiscoisaemaiscoisa,quechega umpontoqueagentevivetrabalhandoecomprando,efica quasedesesperadopratentartrazerpaznumacasa!Quer dizer,écomplicadaavida...
Marli:Vocêescutouaquelahistória,dohomemquepôs fogonosfilhos,quequeimouoapartamento?Amulhertá nohospital,osquatromorreramcarbonizado.
Terapeuta:Masveja,euachoqueanossaconversasobre oqueestavaacontecendocomascrisesdaRobertatomou umrumoaíque,foradonossocontrole,porqueagentenão vaipoderfazernadacontraaviolênciaquetáaíforadentro denossogrupo...
Marli:Maséissoaíquedeixaagentedoente!
Marli eValter trazem, no exemplo acima, relatos que apontamcomoasdificuldadessociais(violência,dificuldades financeiras)quevivenciamemseucotidianoosafetamemo-cionalmente(causandopreocupação,osdeixandodoentes). Nestemomentointerativo,asoluçãodesuasqueixas(ansie-dade,nervoso,etc)ficaatreladaàpossibilidadederesolução detaisdificuldadesque,comoapontaoterapeuta,transcende aspossibilidadesdeajudadogrupo.
NoQuadro2,apresentamosumasíntesedossentidosde doençamentalqueconstruímosemnossaanálise,articulados aospadrõesdeinteraçãoeàsexpectativasacercadotrata-mentopropiciadasatravésdousodestessentidos.
Quadro2.Relaçãoentreossentidosdedoençamentalnegociadosnogrupo,visãodemudançaepadrãointerativonastrocasdialógicasgrupais
Sentidodedoença Visãodemudança Modosdeinteração
a)Adoençamentalcomodecorrentede
experiênciasdesofrimentopassadas
Dificuldade/impossibilidadedemelhora
Longasnarrativaspessoais.Poucainteraçãogrupal
b)Adoençamentalcomodecorrente dedificuldadesderelacionamentoou conflitosatuais
Necessidadederesolverosconflitose
problemasatuais
Maiorparticipaçãogrupal,atravésde conselhosesugestões
c)Adoençamentalcomodecorrentede
característicaspessoais
Responsabilidadepessoalpelopróprio
tratamentoepossibilidadedemudança
Maiorparticipaçãogrupal,apontandoa necessidadedemudançapessoal d)Adoençamentalcomodecorrentede
umacriaçãodamenteoudaimaginação
Responsabilidadepessoalpelas possibilidadesdemudança/Necessidade decontrolarospensamentos,pensar positivo,sepreocuparmenos
Maiorparticipaçãogrupal,apontando anecessidadedecontrolaramenteeos própriosospensamentos
e)Adoençamentalmentalcomotendo umacausaorgânica
Dificuldadedemelhora/limitação dogrupoenquantorecursodeajuda/ Conhecimentotécnico
Maiorparticipaçãogrupal,natentativade entenderacausadeseusproblemas
f)Adoençamentalcomodecorrentede
problemassociais
Dificuldadederesoluçãodosproblemas oudificuldade/possibilidadedemelhora
ConsideraçõesFinais
Apartirdaanálisedossentidosdedoençamentalnego-ciadospelosparticipantesemsuastrocasinterativas(tempo curto), percebemos que estes recorreram a muitos dos discursossociaisquetêminformadoaconstruçãosocialde sentidosdedoençamentalaolongodahistória(tempolongo), descrevendoasimesmoseaosoutrosdediferentesmodos, deacordocomasdemandasdainteraçãoemcurso.Omodo como cada pessoa participava da interação, privilegiando oureforçandodeterminadasdescriçõesdadoençamental, guardavatambémrelaçãocomsuashistóriasconversacionais (tempovivido),emquealgumasdestasdescriçõesconstitu-íram-seimportantes.
EsteúltimoaspectopodeserobservadonoQuadro1,em queumabrevedescriçãodasqueixasreferidasnomomento dogrupoedeseusdiagnósticosencontra-seapresentada.A partirdestequadro,podemosrefletir,porexemplo,sobrea influênciadahistóriadetratamentoanteriornaconstrução esustentaçãodedeterminadossentidosdedoençamental. Possivelmente, a participação neste contexto discursivo tenhainstrumentalizadoalgunsparticipantescomumcerto vocabulário (psicológico, psiquiátrico) para descrição de seusproblemas.Nosexemplosaquidescritos,estarelação émaisvisívelnasfalasdeValter,emqueestedescrevea doençamentalcomosendodecorrentedeumacriaçãoda mente,baseadoemsuaprópriaexperiência(vaiparaohos-pitalachandoqueestácomhemorragia);edeMarta,que descreveadoençamentalcomotendoumaorigemorgânica erefere-seaosdiversosdiagnósticosquerecebeuaolongo desuahistóriadetratamentopsiquiátrico.
A partir de uma sensibilidade construcionista social e considerando a linguagem em seu caráter performático, destacamos, ainda, algumas implicações do uso destes sentidosparaainteraçãoimediataentreseusparticipantes e para a construção de sentidos de mudança (Quadro 2). Assim,atravésdestaanálise,podemosnotarquegrupofoi sendoconstruídocomoespaçoconversacionaldediferentes maneiras,criandodiferentespossibilidadesdesignificação paraseusparticipantes.
É importante destacar que os diferentes sentidos de doençamentalapresentadosemnossaanáliseforamusados por diferentes participantes, em diferentes momentos, de acordocomasexigênciasimediatasdoprocessoconversa-cional.Ummesmoparticipantepoderiaenfatizarosentido dadoençamentalcomotendoumacausaorgânicae,num outromomentointerativo,trazerosentidodadoençamental como tendo origem em dificuldades vividas no passado. Sendoresultadodeumaação-conjuntaentreosparticipantes dogrupo,aproduçãoeprevalênciadeumououtrosentido dependiamdocontextoconversacionaledaspossibilidades designificaçãoconjuntamentecriadasnogrupo.
Esta ênfase no caráter local da produção de sentidos dificultaqueasrelaçõespropostasnoQuadro2sejamvis-tasdeummodoestáticoelinear,resultandoemconclusões generalizantes.Apartirdeumolharestáticosobreestema-terial,poder-se-iaconcluir,porexemplo,queumavezque odiscursoda“doençamentalcomodecorrentedeexperiên-ciasdesofrimentovividosnopassado”levavaàlimitação daemergênciadenarrativasdemudança,falardopassado
nogruponãotraziabenefíciosterapêuticos.Poroutrolado, entender-se-iaquesituaradiscussãodogrupoemproblemas atuais,levandoogrupoàbuscaativaporsoluções,constituir-se-ia,emsimesmo,umrecursoterapêutico.Enfim,buscando relações lineares, este quadro poderia levar a conclusões fechadas,orientandotécnicasterapêuticaseformasdeação em grupo. Estas conclusões desconsiderariam o processo conversacional como algo dinâmico e contextualmente situado. É na interação que reside o potencial criativo do processo de construção de sentidos e a possibilidade de construçãoconversacionaldamudança,demodoqueaênfase recaimenossobreoconteúdodasconversasdoquesobreo próprioprocessoconversacional,istoé,sobreomodocomo sedáanegociaçãodestessentidosentreosparticipantes,no contextoespecíficodessegrupo.
Refletirsobreousodestessentidosemcontextoamplia nossaspossibilidadesdeentendimentodasrelaçõesapresen-tadasnoQuadro2.Ogrupoaquiestudadoeraoferecidona instituiçãosobadenominaçãode“grupodeapoio”,tendo duraçãolimitada(16sessões).Estadescriçãoconstruíaalgu-masexpectativasemrelaçãoaoseumododefuncionamento e objetivos, orientando também as interações entre seus participantes.Apergunta,então,torna-se:comoocontexto deumgrupoterapêutico,decurtaduraçãoedescritocom objetivosdeapoio,sustentoudeterminadosmodosdecon-versaeinteraçãoentreseusparticipantes?
A construção da doença mental como decorrente de problemasvividosnopassado,porexemplo,implicavaque seconstruísseumajustificativaparatalentendimento.Isto sópoderiasedarapartirdaconstruçãodehistóriaspessoais, nasquaisarelaçãoentrequeixaatualepassadoseapresen-tasse.Comisso,longasnarrativaseramcontadasnogrupo eaposturadogrupoerabasicamentedeescutasilenciosa. Apossibilidadedeapoio,objetivoprimeirodogrupo,era, então,dificultadapelaprópriadinâmicaconversacional.Se oproblemaatualresultavadevivênciasdopassado,eraim-portantefalardele,mascomodialogarcomestadescrição? Nestesmomentosinterativos,ogruposeconstruíapredo-minantementecomoespaçodedesabafo,ondeainteraçãoe diálogoentreosparticipantesficavamemsegundoplano.Esta “paralisia”,porassimdizer,écondizentecomanoçãodeque investigarasvivênciasdopassadofugiriaaos“objetivos”do grupo.Umaprofundamentodashistóriaspessoaisdeveriaser temadosgrupospsicoterapêuticos–modalidadedeterapia degrupodelongaduração,voltadaàmaiorcompreensão interna,etambémoferecidapelainstituição.
Estemesmotipodereflexãopodejustificaraparticipação ativadogrupoemtornodasnarrativasquetraziam,comosen-tidopredominante,arelaçãoentreaqueixaatualeavivência de conflitos.Aqui, a busca por solução parecia investir os participantesdeumsensodecapacidadedeajuda,daíaênfase nosconselhosesugestões.Estemododeparticiparnogrupo (oferecimentodeapoioeasoluçãodeconflitos)constituir-se-ia umobjetivopossívelaumaintervençãodetempobreve.
derelacionamento(comoapontaValteremrelaçãoàEstela,no exemploapresentado).Amudança,então,ficavadependenteda aceitaçãodapessoadesuadificuldadepessoaledamudança emseuscomportamentos,paraquepudessemelhorardesuas queixas.Omesmoaconteciacomosentidodequeadificuldade eradecorrentedeumacriaçãodamente.
Ambosossentidosremetemanoçõesbastantefamiliares nocampodaPsicologia,ondeaindapredominaaênfaseno indivíduoearelaçãoentremudançaeauto-conhecimento. Contudo,nocontextoespecíficodessegrupodeapoioede curtaduração,provavelmenteadificuldadedeumaprofunda-mentonoentendimentodasquestõesindividuais,faziacom queestediscursofosseutilizadoparamarcar,sobretudo,a importânciadeumamudançadecomportamento,semne-cessariamenteumainvestigaçãosobreasquestõespessoais eemocionaisenvolvidasnacriaçãodoproblema,oquedava margensaculpabilização.
Tambémpodemosrefletirsobreasimplicaçõesdousodo sentidodadoençamentalcomotendoumacausaorgânica nasconversaçõesgrupais.Considerandoocontextodeum grupodeapoio,estetipodedescriçãocomfreqüênciagerava umacertaimpotêncianogrupo,possivelmenteemfunçãoda limitaçãodapossibilidadededescreveroproblemaemfunção deseusaspectospsicológicos/emocionaise,também,pela noçãodegravidadequegeralmenteapareceatreladaànoção de“doença”.Definiradoençaapartirdetermostécnicos davaàdoençaumacertarealidade,aproximandoogrupoda condiçãodedoentesmentaisedificultandoapossibilidade de vislumbrar a construção conjunta de possibilidades de mudança.Enquantodoençaorgânica,outrosmodosdetra-tamentopoderiamsermaisefetivosdoqueaparticipaçãono grupoterapêutico,comoousodemedicação,porexemplo.
Porfim,osentidodadoençamentalcomodecorrentede problemassociaisfoiseguido,nocontextoespecíficodeste grupo, de grande participação.Aqui, parecia haver uma grandeconcordânciadosparticipantes–pessoascombaixo rendimento,queviviamembairrosconsideradospobresda cidadeequeenfrentavamdificuldadessociaisdiversas–de quegrandepartedesuasqueixas(preocupação,ansiedade, nervoso,irritação)nãoexistiriasenãovivessememsituação decarênciaderecursosfinanceirosesociais.Apossibilidade desetersaúdementalaparece,aqui,associadaànecessidade deseterqualidadedevida.Contudo,estandopautadopor concepçõesquefocalizamoindivíduocomolocusdeatenção, nestegrupoterapêutico,osentidodadoençamentalcomo sendocausadapordificuldadessociaisesvaziavaaaçãodo terapeutadegrupo,edificultavaapossibilidadedeconstrução deconversaçõesemtornodestesentidodedoençamental.
Considerandoasproposiçõesconstrucionistas,estetipo dereflexãoacercadasimplicaçõesdousodalinguagempode serparticularmenteútilaoentendimentodaterapiadegrupo (Guanaes,2004).Considerarosprocessosdeproduçãode sentidosemseucaráterlocal,favoreceoentendimentodo grupocomoumrecursoconversacional,privilegiando-seos processosdenegociaçãodesentidosentreseusparticipantes, a partir de uma perspectiva temporal (Spink & Medrado, 1999),eocontextoemqueesteocorre.Pormeiodestetipo dereflexão,oterapeutapodequestionarautilidadedouso destes discursos sociais (no caso, das explicações acerca da origem da doença mental) no contexto conversacional
imediato, potencializando modos de conversa em desen-volvimento.Orientadoporumaposturaconstrucionista,o terapeutapoderefletirsobre:comodeterminadosdiscursos emergemnaaçãoconjuntaentreosparticipantesdogrupo? Qualarelaçãodestescomocontextosocialeashistórias conversacionaisdecadaparticipante?Quedescriçõesiden-titáriasequevisõesdemudançaestãosendopossibilitadas, sustentadasouimpedidasnasnegociaçõesemcurso?Que descriçõesdificultamaparticipaçãocoletiva?Quedescrições favorecemtalparticipação?Comoosparticipantesdogrupo percebemasconversaçõesnogrupo,emdiferentesmomentos dasessão?Queoutrosmodosdeconversapodemsermais úteisparaoprocessoterapêuticoeparaaconstruçãocon-versacionaldamudança?
Maisdoqueumroteirotécnico,taisperguntaspodem servir de recursos reflexivos para o terapeuta de grupo, em suas tentativas de construir aberturas e possibilidades maisdialógicasderelaçãoentreosparticipantesdogrupo –aspectosestesquetêmsidoapontadopordiversosautores construcionistas (Anderson, 1997; Shotter & Katz, 1998) comoúteisaosprocessosdemudançaterapêutica.
Referências
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postmodernapproachtotherapy.NewYork:BasicBooks.
Foucault,M.(1994).Doençamentalepsicologia.(J.T.Coelho Neto, Trad.) Rio de Janeiro: Tempo brasileiro. (Trabalho originalpublicadoem1961)
Foucault,M.(1995).Históriadaloucuranaantiguidadeclássica.
(L.Shalders,Trad.)SãoPaulo:Perspectiva.(Trabalhooriginal publicadoem1954)
Gergen,K.(1997).Realitiesandrelationships:Soundingsinsocial
construction.Cambridge:HarvardUniversityPress.
Guanaes,C.(2000).Grupodeapoiocompacientespsiquiátricos
ambulatoriais:Exploraçãodealgunslimitesepossibilidades.
DissertaçãodeMestrado,UniversidadedeSãoPaulo,Ribeirão Preto.
Guanaes, C. (2004).A terapia como recurso conversacional: O processodenegociaçãodesentidosemumgrupoambulatorial
de curta duração em saúde mental. Tese de Doutorado,
UniversidadedeSãoPaulo,RibeirãoPreto.
Pessotti,I.(1994).Aloucuraeasépocas.RiodeJaneiro:Ed.34. Pessotti,I.(1996).Oséculodosmanicômios.SãoPaulo:Ed.34. Shotter, J. (2000).Conversational realities: Constructing life
throughlanguage.London:Sage.
Shotter, J. & Katz,A. (1998). ‘Living Moments’ in dialogical exchanges.HumanSystems,9(2),81-93.
Spink,M.J.P.&Medrado,B.(1999).Produçãodesentidosno cotidiano:Umaabordagemteórico-metodológicaparaanálise das práticas discursivas. Em M. J. Spink (Org.),Práticas discursivaseproduçãodesentidosnocotidiano:Aproximações
teóricasemetodológicas(pp.41-61).SãoPaulo:Cortez.
Recebidoem14.09.2004 Primeiradecisãoeditorialem04.04.2005 Versãofinalem12.05.2005