163 Arq Bras Endocrinol Metab vol 50 nº 2 Abril 2006
P
OR QUE UMA PLETORA de condições mórbidas resolve se juntar numúnico indivíduo e promover, como objetivo prosaico, sua morte pre-matura por doença cardiovascular? Respeitada as proporções, esta parece ser uma ampliação do microcosmo intracelular, quando do início do processo de apoptose celular, desencadeando as várias reações que culmi-nam com sua morte. Qual a razão teleológica desses dois processos? O quê determina o início da apoptose celular e da síndrome metabólica, que ao cabo de algum tempo culmina tanto com a morte celular como com even-tos cardiovasculares e morte do indivíduo?
Existe alguma analogia entre obesidade, resistência à insulina e hiperinsulinismo e o acúmulo de gordura intracelular e deprivação de gli-cose? E entre sedentarismo e inatividade celular, e dificuldade de lidar com stress e tensão intracelular?
Era senso comum, há décadas atrás, que alterações patológicas envolvendo o metabolismo de glicídios e lipídios apresentavam-se mais comumente juntas do que isoladas em indivíduos vistos no consultório do endocrinologista. Intolerância aos carboidratos e diabete melito manifesto (apud Fajans e Conn) ocorriam naqueles geneticamente pré-dispostos, bem como hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia, isoladas ou combi-nadas de várias formas, segundo uma antiga classificação de dislipidemias de Friderickson. Freqüentemente esses indivíduos tinham, também, exces-so de peexces-so e eram hipertenexces-sos. E não raramente tinham ácido úrico eleva-do com manifestações de “artrite gotosa”, tofos eleva-dolorosos e inflamaeleva-dos na articulação do hálux, lembrado nas tiras cômicas “Os Sobrinhos do Capitão” pelo próprio Capitão, com sua bengala e a perna enfaixada.
Víamos também que xantomas, xantelasmas, acantose nigricante e esteatose hepática eram manifestações relativamente corriqueiras no exame desses pacientes. Nas mulheres com a então síndrome de Stein-Leventhal, a avaliação do hirsutismo e da infertilidade que antecedia seu preparo para a muito utilizada cirurgia de Taller (ressecção em cunha de tecido ovari-ano, visando ovulação e gravidez), mostrava a presença habitual de obesi-dade, quando não hipertensão e diabete. Lembro do Dr. Mário (Mário Ph. Caleiro Lima, professor na Disciplina de Endocrinologia da então Escola Paulista de Medicina) discutindo enfaticamente os casos de síndrome de Achard-Thiers (diabetes da mulher barbada!), além daqueles mais nebu-losos que hoje têm elucidados, pelo menos parcialmente, seus mecanismos de doença e nos quais obesidade, hipertensão e dislipidemia eram manifes-tações freqüentes: síndromes de Lawrence-Moon-Biedl, Seip-Berardinelli, Frölich, Pickwick e muitos outros.
Em nada daquilo se vislumbrava uma solução apropriada naqueles tempos, a não ser as perenes recomendações de regimes rigorosos através de dietas hipocalóricas (800 calorias!), estímulo à prática de exercícios físi-cos e, ocasionalmente, alguma medicação. Na minha época de residente, tínhamos tão somente as anfepramonas, a clorpropamida, alguma coisa ineficiente para o colesterol e um ou outro diurético e só! Comparado à
editorial
A Síndrome Metabólica e o X da Questão
Claudio E. Kater
A Síndrome Metabólica e o X da Questão
Kater
164 Arq Bras Endocrinol Metab vol 50 nº 2 Abril 2006
crescente gama de medicamentos atuais com diversos mecanismos de ação específicos para tratar cada um desses distúrbios, nosso “arsenal terapêutico” de ou-trora era apenas um tacape.
Mas havia um co-adjuvante, a fenformina, que foi proscrita por décadas nos EUA por razões até hoje não totalmente esclarecidas (acidose láctica era a justi-ficativa, mas questões estatísticas mal resolvidas do estudo e outros interesses não manifestos liquidaram a medicação). Sua ressurreição, sob a forma de met-formina, é mais do que oportuna neste quadro atual, como facilitador da ação da insulina um dos pontos-chave do tratamento da síndrome metabólica, como sabemos de sobejo.
A resistência à insulina e a hiperinsulinemia já eram conhecidas, mas apenas no contexto do “dia-betes lipoatrófico”, quando pacientes jovens resistentes à administração de insulina entravam em ceto-acidose e, ocasionalmente, precisavam de insulina cristalina endovenosa na faixa dos milhares de unidades!
Nos últimos anos, o enorme avanço na com-preensão deste conjunto de disfunções metabólicas, hoje conhecido singelamente como “síndrome metabólica”, mas inicialmente descrito como “síndrome X” por Rea-ven, como a expor a plena ignorância de suas causas e porquês, propiciou a realização dessa Edição Especial exclusivamente sobre o tema.
Quero agradecer aos editores convidados, Maria Teresa Zanella, Sandra Roberta Ferreira e Mario Saad, por terem juntado suas habilidades, seus co-nhecimentos e seus conhecidos e posto em papel uma obra magnífica. Agradeço, também, a todos os autores que foram pontuais e precisos na confecção de seus artigos, permitindo que esta Edição Especial, com material ainda fresco e da mais alta qualidade, chegasse às mãos dos leitores em tempo hábil.
O Volume 50 dos ABE&M.
Neste ano de 2006 estamos publicando o volume de número 50 dos Arquivos. Portanto, é agora que ver-dadeiramente estamos completando 50 anos de pu-blicação. A divergência de datas acontece por conta dos seis anos de interrupção que a revista sofreu, o primeiro deles em 1956, logo após a morte do seu fun-dador e editor-chefe, Waldemar Berardinelli, e os ou-tros cinco (1973 a 1977) quando razões variadas min-guaram a vitalidade da revista.