UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL DAS RELAÇÕES POLÍTICAS
ADENILSON MENDES DOS SANTOS
A POLÍTICA TRABALHISTA COMO PROPOSTA CONCILIADORA
DOS CONFLITOS ENTRE TRABALHO E CAPITAL
(1930-1945)
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL DAS RELAÇÕES POLÍTICAS
ADENILSON MENDES DOS SANTOS
A POLÍTICA TRABALHISTA COMO PROPOSTA CONCILIADORA
DOS CONFLITOS ENTRE TRABALHO E CAPITAL
(1930-1945)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em História. Área de concentração: História Social das Relações Políticas.
Orientador: Prof. Dr. Valter Pires Pereira. História- UFES.
Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)
(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)
Santos, Adenilson Mendes dos, 1973-
S237p A política trabalhista como proposta conciliadora dos conflitos entre trabalho e capital : (1930-1945) / Adenilson Mendes dos Santos. – 2009.
128 f. : il.
Orientador: Valter Pires Pereira.
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Sociais.
1. Política de trabalho. 2. Política social. 3. Estado. 4.
Trabalhadores braçais. 5. Mediação e conciliação trabalhista. 6. Dissídio trabalhista. I. Pereira, Valter Pires. II. Universidade Federal do Espírito Santo. Centro de Ciências Humanas e Sociais. III. Título.
ADENILSON MENDES DOS SANTOS
A POLÍTICA TRABALHISTA COMO PROPOSTA CONCILIADORA DOS
CONFLITOS ENTRE TRABALHO E CAPITAL
(1930-1945)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em História. Área de concentração: História Social das Relações Políticas.
Aprovada em ____ de __________ de 2009.
COMISSÃO EXAMINADORA
_______________________________________
Prof. Dr. Valter Pires Pereira
Universidade Federal do Espírito Santo Orientador
_______________________________________
Profª. Drª. Sônia Maria da Costa Barreto Faculdade Batista da Serra
_______________________________________
Para Terezinha Mendes, que em seus dias de vida torceu
por mim, José Augusto, Vadilza, Ana Maria, Cleide e
AGRADECIMENTOS
A Deus, meu bondoso e misericordioso Pai Eterno, que me deu esta chance e me
permitiu aproveitá-la, mesmo diante de grandes desafios profissionais e
principalmente emocionais. No momento em que me vi sem condições emocionais
para realizar tal tarefa, O Senhor me fez grande e dentro das minhas limitações, me
concedeu a graça de produzir este trabalho.
Ao meu orientador, Prof. Dr.Valter Pires Pereira, agradeço as sugestões, a troca de
conhecimentos, a contribuição para meu crescimento intelectual.
Ao Professor Prof. Dr.Sebastião Pimentel Franco, nem sei como agradecer tamanha
bondade ao me receber em sua sala e estender suas mãos a quem queria realizar
um sonho.
Ao Prof. Dr. Geraldo Antonio Soares, agradeço não somente pelas dicas na banca
de qualificação, mas também pela grandiosidade com que aceitou dar sua
contribuição.
À professora Drª. Sônia Maria da Costa Barreto, agradeço pela boa vontade com
que aceitou meu convite para fazer parte de minha banca e pelas contribuições
prestadas para o enriquecimento desta dissertação.
Aos funcionários da Fundação Getúlio Vargas e do Arquivo Nacional do Rio de
Janeiro, agradeço o tratamento e as dicas.
Aos professores das quatro disciplinas cursadas: Beatriz, Ricardo, Márcia,
Sebastião, Valter e Mauri e aos amigos Auxilia, Maxlander, Suelem e Wéber,
Quem quer que observe a história e a dura lição sofrida por outros povos verá que os extremismos, mesmo quando logram uma vitória efêmera, caem logo vítimas dos próprios erros e das paixões que desencadearam, sacrificando muitas aspirações justas e legítimas, que poderiam ser alcançadas pacificamente. A sociedade brasileira, felizmente, repele, por índole, as soluções. Corrigidos os abusos e imprevidências do passado, podemos encarar o futuro com serenidade, certos de que as utopias ideológicas, na prática, verdadeiras calamidades sociais, não conseguirão afastar-nos das normas de equilíbrio e bom senso em que se processa a evolução da nacionalidade. Só o trabalho fecundo, dentro da ordem legal que as segura a todos os patrões e operários, chefes de indústrias e proletários, lavradores, artesãos, intelectuais - um regime de justiça e de paz poderá fazer a felicidade da pátria brasileira.
Discurso nas comemorações do Dia do Trabalho em 1º de maio de 1940.
RESUMO
Esta dissertação insere-se na História das Relações Políticas, trazendo como tema
geral a política trabalhista do período de 1930 a 1945. A mesma destaca a
importância do Estado como mediador dos conflitos entre trabalho e capital e analisa
a política trabalhista de Getúlio Vargas como alternativa de resolução desses
conflitos. Utiliza alguns discursos do presidente Vargas, os relatórios enviados para
apreciação do Congresso de 1933 a 1937, os relatórios enviados ao presidente
pelos Ministros do Trabalho e a legislação da época. Assim, verifica nos discursos
do presidente, suas intenções em relação à questão social trabalhista brasileira, ao
apresentar novas propostas para a atuação do Estado como mediador dos conflitos
entre patrões e empregados. Ao mesmo tempo, faz uma análise da questão social
trabalhista na Primeira República, buscando aí as bases da formação do direito
social trabalhista que foi redefinido em Vargas. A partir desta análise, compara-se o
interesse do Estado nas referidas questões, estabelecendo diferenças entre os
governos da Primeira República e o do período estudado. A partir da legislação
estudada, constata-se a política desenvolvida a partir da criação do Ministério do
Trabalho, indústria e Comércio, uma instituição criada para resolver as questões
relativas ao trabalho urbano, de forma a atender as três classes definidas no próprio
nome do ministério. Trabalha com a hipótese de que, no interior das relações de
produção, a importância do poder publico, representado pelo Estado, é tão grande
que, sem ele os conflitos tendem a ser acentuados.
Palavras-Chave: Política social trabalhista; Estado; Operário; Intervencionismo;
ABSTRACT
This dissertation is part of the History of Political Relations, bringing as overall theme
the labor policy for the period 1930 to 1945. It shows the importance of the state as
mediator of conflicts between labor and capital and analyzes the labor policy of
Getúlio Vargas as an alternative for solving these conflicts. Uses some words of
President Vargas, the reports submitted for consideration in Congress from 1933 to
1937, the reports sent to the President by the Ministers of Labor and the law of the
time. Thus, the case in speeches of the president, his intentions in regard to social
workers in Brazil, to present new proposals for the performance of the state as
mediator of conflicts between employers and employees. At the same time, makes
an analysis of the social labor issue in the First Republic, seeking there the
foundations of the formation of the social labor law that has been refined at Vargas.
From this analysis, compares the state's interest in these issues, establishing
differences between the governments of the First Republic and the period studied.
From the legislation studied, there is a policy developed from the creation of the
Ministry of Labor, Industry and Trade, an institution created to resolve issues relating
to urban work in order to meet the three classes defined in the name of the ministry .
Works with the hypothesis that, within the relations of production, the importance of
the public power, represented by the state is so great that without it, conflicts tend to
be pronounced.
Keywords: social policy work; State; Workers; Interventionism; conflict work / capital;
LISTA DE SIGLAS
AIB - Ação Integralista Brasileira
AL - Aliança Liberal .
CAPs - Caixa de Aposentadoria e Pensões
CLT - Consolidação das Leis do Trabalho
CME - Coordenação de Mobilização Econômica
CNT - Conselho Nacional do Trabalho
CPE - Comissão de Planejamento Econômico
CTPS - Carteira de Trabalho e Previdência Social
DASP - Departamento Administrativo do Serviço Público
FUG - Frente Única Gaúcha
IAPI - Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários
IBGE - Instituto Nacional do Mate e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
IPASE - Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado
MTIC - Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.
OIT - Organização Internacional do Trabalho
PL - Partido Libertador
PRR - Partido Republicano Rio-Grandense
PTB - Partido Trabalhista Brasileiro
SAPS - Serviço de Alimentação da Previdência Social
SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
SESI - Serviço Social da Indústria
STF - Supremo Tribunal Federal
STM - Superior Tribunal Militar
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...
13
1 A QUESTÃO SOCIAL TRABALHISTA NA PRIMEIRA REPÚBLICA...
20
1.1 O ESTADO E SEU PAPEL CONCILIADOR...
20
1.2. DISCUSSÕES POLÍTICAS...
22
1.2.1 O pós-guerra...
29
1.2.2 Posição da Burguesia...
35
1.2.3 A Questão Social nas Plataformas Eleitorais...
39
1.2.4 Getúlio Vargas Chega ao Poder...
42
2 A QUESTÃO SOCIAL NA ERA VARGAS...
45
2.1 O MINISTÉRIO DO TRABALHO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO...
46
2.1.1 Questão Social de do Capital...
46
2.1.2 Os Ministros...
48
2.1.3 Organização, Órgãos e Funções do Ministério...
58
2.2 VARGAS EXPLICA O MINISTÉRIO...
61
2.3 VARGAS JUSTIFICA A INTERVENÇÃO...
65
2.4 O PENSAMENTO AUTORITÁRIO...
76
3 VARGAS EM AÇÃO: O QUE FOI FEITO NA ÁREA TRABALHISTA?...
83
3.1 SINDICALIZAÇÃO... 84
3.2 PREVIDÊNCIA SOCIAL...
88
3.3 OUTRAS PROVIDÊNCIAS NO CAMPO SOCIAL TRABALHISTA...
93
3.3.2 Salário Mínimo...
95
3.3.3 Carteira Profissional...
98
3.3.4 Nacionalizações do Trabalho...
99
3.3.5 Duração do Trabalho e Lei de Férias... 100
3.3.6 Proteção à Mulher e ao Menor... 100
3.3.7 Higiene e Segurança no trabalho... 102
3.4 RELAÇÕES ENTRE EMPREGADOS E EMPREGADORES... 103
3.5 DISSÍDIOS INDIVIDUAIS E COLETIVOS... 110
3.5.1 Dissídios Individuais... 110
3.5.2 Dissídios Coletivos... 111
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 114
INTRODUÇÃO
A proposta que orienta esta dissertação está vinculada a um melhor entendimento
da política social trabalhista no período de 1930 a 1945, como alternativa de
conciliação dos conflitos trabalho/capital neste importante período conhecido como
Era Vargas. Para este estudo, nos valemos da hipótese de que, no interior destas
relações, o Estado assume um papel fundamental, de tal forma que, sem ele, esta
conciliação torna-se quase impossível. A tarefa de conciliar duas classes com
interesses antagônicos não é fácil e nem afirmamos que Getúlio Vargas o fez
plenamente.
A nossa proposta de estudo é analisar a atuação do Estado neste processo,
considerando que o governo Vargas desenvolveu uma política de aprimoramento
das leis trabalhistas e, ao mesmo tempo, atuou como poder público interessado em
garantir esses direitos aos trabalhadores.
Desta forma, afirmamos que, na primeira República o Estado ficou às margens das
referidas questões, porque não se preocupou em colocar em prática esta política. O
pouco que existia em matéria de legislação concernente ao trabalho, era resultado
do próprio movimento operário que pressionava por melhores condições de trabalho.
Sabemos que, foram criadas algumas leis, como a lei de acidentes de trabalho,
previdência, férias e código do menor, porém, nem sempre saíam do papel,
inclusive, porque não existia um órgão público direcionado à execução das mesmas.
Como exemplo, citamos o projeto de criação do Departamento Nacional do
Trabalho, aprovado em 1918 para cuidar do cumprimento da legislação, mas que
nunca foi colocado em prática.
Dentro do Congresso, apenas alguns deputados como Maurício de Lacerda e
Nicanor Nascimento defendiam uma legislação em favor do trabalhador, enquanto
que os demais eram contrários, apoiando-se na tese de que a Constituição Federal
não permitia legislar sobre o assunto. Segundo os deputados, a questão social
Somente a partir de 1930, com a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e
Comércio, é que a legislação social trabalhista passou a ser efetivamente uma
prioridade do Estado, que se responsabilizou pela criação dos órgãos responsáveis
pelo seu cumprimento, como as juntas de conciliação e julgamento e as comissões
mistas de conciliação.
Para a análise destas questões, lançamos mão de três modelos documentais.
Primeiramente, analisamos os discursos do presidente expostos na coletânea “A
Nova Política do Brasil” de 1938, publicada pela Editora José Olympio, onde consta
uma série de discursos do presidente do período em estudo.
Trata-se de discursos em que Vargas afirmava a importância do desenvolvimento de
uma política em favor do trabalhador, que viesse de encontro com as necessidades
da indústria e do comércio. A partir desta visão, o que se percebeu foi uma maior
preocupação do Estado com a política social trabalhista, ao abandonar o liberalismo
da Primeira República e iniciar uma política intervencionista. Analisamos ainda, os
relatórios de 1933 a 1937, enviados por Getúlio Vargas para apreciação do
Congresso e os relatórios de 1935 a 1940, enviados ao presidente pelos Ministros
do Trabalho, para que fossem analisadas as políticas desenvolvidas naquele
período. Esses relatórios, encontrados nos anais da Câmara dos Deputados e no
site www.crl.edu, nos forneceram importantes informações sobre a atuação do
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio nos assuntos concernentes ao trabalho.
Outra documentação não menos importante e que nos serviu de suporte foi a
legislação da época, disponível no site do Senado Federal (www.senado.gov.br),
reproduzida na íntegra a partir da legislação original.
Além da documentação supracitada, foi feita uma consulta nos acervos do CPDOC
da Fundação Getúlio Vargas e do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Dentre
inúmeros documentos analisados, destacamos nesta dissertação: o discurso do
Ministro Waldemar Falcão ao assumir a pasta do trabalho; as palestras de Alexandre
Marcondes Filho, do programa “Hora do Brasil”; o projeto de lei sobre o salário
mínimo apresentado à discussão pelas comissões executivas dos sindicatos de São
Paulo, Santos e Rio de Janeiro, todos encontrados nos arquivos do CPDOC da
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio do Arquivo Público Nacional do Rio de
Janeiro.
A presente dissertação está subdividida em três capítulos. O primeiro deles traz uma
contextualização do tema ao discutir a política social trabalhista na Primeira
República, dialogando com alguns estudiosos, tais como: Angela de Castro Gomes,
Boris Fausto, Luiz Werneck Vianna, Rosa Maria Barbosa de Araújo, Pedro Cezar
Dutra Fonseca, João Tristan Vargas, dentre outros.
No segundo capítulo, destacamos três características importantes apreendidas nos
discursos do presidente Vargas e de ministros: o papel do Estado no que tange à
questão social trabalhista, ao adotar uma política intervencionista; a necessidade de
resolver o problema social a partir do problema econômico, mostrando o elo
trabalho/capital e a atuação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, uma
instituição de peso neste processo de institucionalização desta linhagem de política
pública.
No terceiro e último capítulo, tratamos da implementação desta política, na
perspectiva de perceber o que realmente foi feito. Assim, veremos que, a partir de
1930, o Estado assumiu o papel de intermediador das relações trabalho/capital e se
propôs a organizar as questões relativas ao universo do trabalho pela via da
conciliação. Para isso, Vargas contou com importantes pessoas no Ministério:
Lindolfo Collor, Salgado Filho, Agamenon Magalhães, Waldemar Falcão, Dulce
Pinheiro e Alexandre Marcondes Filho.
O MTIC, também denominado “Ministério da Revolução”, comportou todos os
departamentos que seriam responsáveis pela implementação da legislação
trabalhista, tratando de todos os assuntos relacionados ao trabalho, à indústria e ao
comércio. Na nova proposta do governo, que fez parte de sua reforma
administrativa, todos os assuntos concernentes ao trabalho rural passaram a ser
administrados pelo Ministério da Agricultura, cabendo ao MTIC cuidar das questões
trabalhistas no espaço urbano, administrando-as em conjunto com os interesses da
A idéia de conciliação, como referencial teórico, nem sempre aparece explícita nos
documentos e na historiografia, salvo algumas exceções. Ela é notada quando
afirmamos que, no interior das relações entre trabalho e capital, o Estado aparece
como um terceiro elemento capaz de harmonizar essas relações. Assim, destacada
a conciliação como referencial teórico essencial, consideramos o Estado como parte
primordial nesse processo, com a intenção de propiciar a harmonia. Mesmo zelando
pelos interesses das classes, contribuiu para dissuadir a tese da luta de classes,
amenizando essas relações dialéticas, apesar de Lenin (1979) argumentar que as
idéias de Marx, na concepção de Engels, foram deturpadas pela mentalidade
burguesa e que não existe conciliação entre duas classes de interesses econômicos
antagônicos. Nesse sentido, o Estado existe exatamente porque essas relações são
inconciliáveis.
Gomes (1979) trabalhou com a chamada questão social no Brasil de 1917 a 1937,
identificando os problemas das relações sociais e a necessidade da implementação
da legislação trabalhista. Segundo a autora, a legislação social era o ponto-chave
das relações de produção na sociedade industrial moderna e era tão importante no
terreno econômico quanto no político. Assim, ela afirma que, o debate da questão
social no Brasil veio acompanhado também da situação em que se encontravam o
comércio e a indústria. Segundo a autora, a regulamentação da legislação social
significava para os patrões a responsabilidade com os encargos. Portanto, isso
acarretava perdas nos ganhos, de modo que a regulamentação do trabalho não
poderia supervalorizar os operários, colocando em risco a situação do empresariado.
Para Gomes (1988), a política no Brasil estava ligada a ganhos de natureza social.
Ela destaca tanto a relevância que as manifestações dos operários tiveram nas
questões, quanto a inserção do governo representando o Estado. Em “A Invenção
do Trabalhismo”, a autora evoca o Estado e o Trabalhador como atores principais do
seu trabalho, diferente de “A Burguesia e Trabalho”, onde a burguesia foi o seu
principal destaque. Nesta última obra, ela afirma que na Primeira República, a
questão social não era encarada sob a ótica econômica e sim como um caso de
policia e que esse problema só se resolveria com a intervenção do Estado.
Fonseca (1989) analisa os discursos do Presidente Vargas e suas contribuições
1954, analisando a questão social em seu quarto capítulo. Ele aponta a política
trabalhista como um processo de continuidade das leis criadas na Primeira
República e utiliza-se desses discursos para analisar como o presidente percebia a
questão social antes e durante o seu governo. Ele argumenta que, as atitudes dos
governos vinham de encontro com a necessidade de romper com tudo que era
retrógrado e que a nova legislação seria em benefício de todos, ou seja, beneficiaria
tanto o empregado, como o empregador.
Ainda sobre a questão social na Primeira República, Fausto (2000) analisa os
conflitos sociais de 1890 a 1920, tendo como cenário o Rio de Janeiro e São Paulo.
Ele estuda o comportamento das demais classes socais em relação aos operários e
suas manifestações, tendo como foco o trabalho urbano.
Analisando as dificuldades dessas relações, Simão (1981) argumenta sobre os
acordos entre grevistas e seus patrões. No âmbito das relações privadas, segundo
ele, nem sempre se cumpriam os acordos e somente uma ação por parte do Estado
é que garantiria esses direitos aos trabalhadores.
Araújo (1981) diz que, os setores sociais reclamavam seus direitos junto ao Estado,
denunciando o não cumprimento da legislação. Considera também que a questão
social existia em toda parte, não era exclusividade do Brasil e exigia atenção, já que
este setor da sociedade não poderia mais ser ignorado por parte do Estado. A
criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio foi uma forma de o Estado
interferir nestas relações.
Werneck Vianna (1978), assim como Gomes, argumenta a respeito do início da
sindicalização no Brasil e que a legislação social abriu ao trabalhador novas
perspectivas de reivindicações dos seus direitos.
Oliveira Vianna (1987) também defende que o problema social não é exclusivo do
Brasil e que suas origens estão sempre no estrangeiro. Ele trabalha com a crítica à
forma como a legislação trabalhista era elaborada na Primeira República sem
participação do povo, argumentando que somente após a revolução de 1930 é que o
Dentre os vários tópicos que merecem destaque nesta dissertação, um dos mais
importantes e muito citado nos discursos do período estudado é a questão social
vista sob a ótica econômica. Alguns assuntos relacionados à industrialização e à
urbanização, por exemplo, são lembrados com muita ênfase em Vargas. A partir de
1930, a questão social, dentro do debate político e como prioridade do Estado, foi
enxergada como consequência da situação econômica vigente e como um fator
oriundo das transformações da sociedade industrializada. Assim, ela se destaca
como um problema do capital, visto que as reivindicações dos trabalhadores
também tinham caráter econômico.
Daí, destacamos algumas iniciativas do governo, começando pelas reformas na
sindicalização, iniciada a partir do ministro Lindolfo Collor. Esta política sofreu várias
regulamentações: inicialmente liberal, tornou-se, a partir das constituições de 1934 e
1937, um instrumento atrelado ao MTIC. O sindicato passou a fazer parte do
governo, sendo considerado como parceiro neste processo e não como inimigo.
Outra iniciativa importante e uma das mais brilhantes obras da legislação trabalhista
foi a política de previdência social. Ela teve início em 1923 com a lei Eloy Chaves,
daí para frente sofreu muitas modificações, especialmente no período de governo de
Getúlio Vargas. Desde a Primeira República, esta lei, que inicialmente criou a Caixa
de Aposentadoria e Pensões para os empregados das empresas de estradas de
ferro existentes no país, foi considerada o marco inicial da previdência no Brasil e foi
estendida a outros funcionários com a criação de outras caixas de aposentadoria e
pensões, chegando em 1933, a serem consolidadas através dos Institutos de
Aposentadoria e Pensões, reunindo categorias profissionais afins.
Além disso, outras leis importantes foram reorganizadas como a lei de férias, do
menor e da mulher. Para a criação do salário mínimo, uma novidade na época, foi
estudado regionalmente o custo de vida básico para cada pai de família. Além disso,
a legislação sobre a nacionalização do trabalho, acidentes do trabalho, carteira de
trabalho, duração do trabalho, higiene e segurança incrementaram as novas
condições em favor do trabalhador. Todas essas leis foram regulamentadas,
acarretando encargos ao empregador. Por conseguinte, o risco de conflitos
permanecia, na medida em que o empregador nem sempre cumpria com o que era
Os dissídios eram resolvidos pelas Juntas de Conciliação e Julgamento e pelas
Comissões Mistas de Conciliação, podendo ser individuais ou coletivos. Esses
órgãos trabalhavam diretamente na resolução dos conflitos trabalho/capital com o
objetivo principal de conciliar as partes envolvidas.
A partir da Constituição de 1934, passou-se a usar o termo “Justiça do Trabalho”,
mas a larga discussão do projeto atrasou sua implantação: a Constituição de 1937
manteve o projeto, mas sua criação foi apenas em 1939.
Em 1943, as leis trabalhistas e os órgãos criados para dirimir os conflitos, depois de
passarem por algumas regulamentações, foram acoplados num documento maior
como forma de melhor organizar a legislação social trabalhista, a CLT. Finalmente,
partir de 1946, a justiça do trabalho passou a ser um órgão do poder judiciário.
Todas as questões supracitadas serão discutidas no decorrer desta dissertação, de
forma que o leitor possa entender a política trabalhista como um aspecto positivo no
universo do trabalho, uma conquista do trabalhador que, acima de tudo, contou com
1 A QUESTÃO SOCIAL TRABALHISTA NA PRIMEIRA REPÚBLICA
1.1 O ESTADO E SEU PAPEL CONCILIADOR
Em linhas gerais, podemos dizer que a conciliação é um processo comunicacional,
com objetivo de possibilitar o diálogo e recuperar a negociação, a fim de se chegar a
um acordo sobre os interesses em questão. A conciliação é uma forma de resolução
de controvérsias na relação de interesses, administrada por um conciliador investido
de autoridade ou indicado pelas partes como mediador, a quem compete
aproximá-las, controlar as negociações, sugerir e formular propostas, apontar vantagens e
desvantagens, objetivando sempre a composição do litígio pelas partes.
Partindo do conceito geral de conciliação, o que se observa é que, no conflito de
interesses entre duas partes, tem que haver um terceiro elemento para disciplinar.
Em se tratando de classes sociais, na sociedade capitalista esse consenso é difícil
quando é resolvido entre duas classes de interesses antagônicos. Assim, quando
nos referimos especificamente ao universo do trabalho, não conseguimos imaginar
uma conciliação de interesses entre patrões e empregados porque os mesmos são
conflitantes. Neste particular, Amaral (1994, p.16) registrou que,
A razão de ser da imposição do pertencimento da conciliação reside na introdução de uma oportunidade para resolver amigavelmente os conflitos, antes que alguma das partes inicie uma ação direta. Daí por que em algumas legislações, exige-se que a autoridade seja previamente notificada da intenção de se recorrer à greve ou a lockout para dar-lhe a possibilidade de intervir no conflito, sem que nenhuma das partes solicite.
Essa referência que Lídia Miranda de Lima Amaral faz a respeito da conciliação,
está restrita às questões trabalhistas. Neste caso, a conciliação aparece no
momento em que os conflitos são aguçados para evitar a ação de uma das partes.
No caso específico deste trabalho, que analisa a questão social trabalhista, o termo
conciliação deve ser compreendido como iniciativa política de intervenção nos
conflitos entre trabalho e capital, ou seja, entre patrões e empregados.
Argumenta-se aqui que, o conciliador mais importante é o Estado, por sua legitimidade na
representação política. Nas sociedades onde há um interesse político maior em
que ela é possível quando se trata de interesses antagônicos. Então, defendemos
aqui que, no interior das relações entre trabalho e capital, o Estado deve assumir
seu papel de intermediador. Segundo Engels (apud LENIN, 1979, p.8),
O Estado não é, de forma alguma, uma força imposta, do exterior, à sociedade. Não é, tampouco, "a realidade da Idéia moral", "a imagem e a realidade da Razão como pretende Hegel. É um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. Mas, para que essas classes antagônicas, com interesses econômicos contrários, não se entre devorassem e não devorassem a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da "ordem". Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando cada vez mais, é o Estado.
Esta teoria do Estado na concepção de Engels, citada em “O Estado e a Revolução”
de Lênin, mostra que, assim como Marx, o pensador acredita que não existe
conciliação natural de classes e que o Estado é importante neste processo
exatamente porque as classes são, preliminarmente, inconciliáveis. Segundo Lênin,
a deturpação das idéias de Marx e Engels pela concepção burguesa coloca o
Estado como órgão conciliador das classes, dando sentido à existência de
conciliação. A teoria Marxista não enxerga as classes sociais conciliadas porque
elas têm interesses econômicos antagônicos, por isso, o Estado existe.
Existem várias teorias que explicam o Estado. Porém, estamos longe de um
consenso a respeito deste conceito. A importância do Estado (sociedade política) é
determinada aqui como ponto de partida para a organização das relações de
produção que se definem como relações trabalho/capital. O Estado, neste caso, é o
representante máximo desta sociedade, assumindo o papel de conciliador destas
relações. Assim, ao assumir seu papel, ele promoveria o bem-estar social e tornaria
extintas as chamadas lutas de classes. Na concepção de Lênin (1979, p.9), esta
dialética se define da seguinte forma:
classes. Para Marx, o Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de submissão de uma classe por outra; é a criação de uma "ordem" que legalize e consolide essa submissão, amortecendo a colisão das classes. Para os políticos da pequena burguesia, ao contrário, a ordem é precisamente a conciliação das classes e não a submissão de uma classe por outra; atenuar a colisão significa conciliar, e não arrancar às classes oprimidas os meios e processos de luta contra os opressores a cuja derrocada elas aspiram.
Segundo Lênin, o Estado é um órgão de dominação de classe. A colisão dessas
classes é amortecida porque uma tem que se submeter à outra. Na visão burguesa,
o Estado é um órgão conciliador e dentro desta visão, a partir do momento em que
ele atua, possibilita-se a conciliação.
Não nos cabe desmistificar esta dialética da teoria do Estado entre direita e
esquerda; o que propomos é estabelecer a importância do seu papel enquanto
representação política no interior destas relações. O enxergamos a partir da
necessidade de adquirir direitos. Quando nos propomos a fazê-lo, também não
queremos defender uma classe ou outra. Estamos estudando três elementos
essências para nossa análise: a política, a classe burguesa e a classe trabalhadora.
Pretendemos neste capítulo, analisar como e em que circunstâncias a questão
social trabalhista era percebida no interior das discussões políticas da Primeira
República. Assim, a partir desta análise, teremos bases para discutirmos a temática
durante a Era Vargas de 1930 a 1945.
1.2 DISCUSSÕES POLÍTICAS
Promulgada a Constituição de 1891, percebe-se a consagração da liberdade de
trabalho em seu artigo 72, mantendo dentro do liberalismo a não-intervenção do
Estado no mercado de trabalho que deveria se organizar sozinho. Como veremos
adiante, este preceito constitucional será usado pelo Congresso como forma de
bloquear vários projetos sociais e como argumento para as discussões em torno do
Código do Trabalho. Mas a temática da questão social começa a surgir dentro das
discussões políticas a partir de 1907, ganhando maior notoriedade a partir de 1917
Embora o decreto nº 173 de 10/09/1893 tenha regularizado as associações com fins
religiosos, morais, científicos, artísticos e políticos e o decreto nº 979 de 06/01/1903,
facultado aos profissionais da agricultura e indústrias rurais o direito à associação,
foi somente a partir do decreto nº 1.637, de 05/02/1907, que criava os sindicatos
profissionais e sociedades cooperativas fora da intervenção governamental, que
teve início as discussões sobre a questão social trabalhista brasileira no parlamento.
Desta forma, “[...] pelo texto da lei, seriam livres da ingerência estatal e se
organizariam sem autorização prévia do governo” (VIANNA, L.W., 1978, p.50).
Então, o movimento operário impulsionava a luta por melhores condições de
trabalho e o fez sem interferência do Estado. O ano de 1907 marca o início da
sindicalização, chegando em 1919 como um período de liberdade sindical. Gomes
(1979, p.58) pondera sobre a liberdade sindical argumentando que,
Desta forma, o inicio do debate mais sistemático em torno da questão social ocorre num contexto em que sindicatos de trabalhadores, legalmente organizados, podem demandar e pressionar por melhores condições de trabalho e salário, num mercado onde praticamente inexistia qualquer papel do Estado.
Daí, passamos a perceber a necessidade do Estado neste processo. As discussões
das questões trabalhistas no meio político são conseqüências do próprio movimento
operário que, a partir de 1907 passa a agir sem interferência do Estado. Mas a
liberdade sindical, na verdade, não resolveu o problema das relações
trabalho/capital. A necessidade cada vez maior de uma política social trabalhista
bem elaborada vinha de encontro com outra necessidade, a de promover uma
política de valorização também do capital.
Mesmo com muitas resistências, a temática da questão social no Brasil vinha se
desenrolando desde tempos anteriores a 1930, questionando os problemas em torno
do trabalho e sua regulamentação. Segundo Gomes (1979), tanto o papel que a
industrialização jogava no desenvolvimento econômico global do país, quanto à
intervenção que o Estado deveria realizar em assuntos de política econômica e
social, eram temas de extrema relevância para a organização da questão social
trabalhista no Brasil. Daí, as relações entre trabalho e capital tornavam-se mais
estreitas, na medida em que o problema social passava a ser visto como
Para Fausto (2000, p.57), “o ascenso do movimento operário nos anos 1917-1920,
coloca pela primeira vez a ‘questão social’ na cena política”.Ninguém, muito menos o
Estado, podia mais ignorá-la. Segundo o autor, era preciso haver uma conquista
política nesse processo, para que o operário realmente confirmasse seus direitos.
Suas reivindicações deveriam transformar-se em lei para que a conquista tivesse
alcance geral na sociedade, em nível nacional. Porém, os direitos através das leis só
seriam possíveis a partir do interesse do Estado neste processo. Para ele,
A conquista dos direitos sociais não pode ser alcançada apenas pelaação direta. Esta só proporciona resultados locais e como necessita de um exercício contínuo e intenso, fortalece alguns homens talhados para a luta, mas enerva e desanima a grande maioria dos proletários. O caminho preferencial é o da política, dentro dos quadros do sistema. Em um país como o Brasil, regido por instituições democráticas, o abandono por parte do proletariado do exercício dos direitos políticos, conduz inevitavelmente ao predomínio dos elementos mais conservadores e plutocráticos que não duvidam em servir-se da formidável máquina governamental para esmagar impiedosamente qualquer agitação, mesmo legal e ordeira. (FAUSTO, 2000, p.57)
Desta forma, a ação do movimento operário através das greves, apesar de
representar uma preocupação para os industriais, nem sempre trazia resultados
satisfatórios. Nenhum resultado, que fosse positivo ou negativo, tinha alcance
nacional, mas apenas local. Somente através de uma ação política por parte do
Estado, esses direitos seriam garantidos a todos os trabalhadores. Mas esta ação,
ao mesmo tempo em que iria atender aos interesses do trabalhador, deveria estar
voltada para o desenvolvimento do capital. Para Gomes (1979, p.59),
[...] o debate da questão social na câmara, ao mesmo tempo em que possuía como um dos seus marcos a situação do movimento operário, organizava-se também em torno de outro ponto básico: o tipo de desenvolvimento que as atividades da indústria e comércio vinham tendo no Brasil.
Na verdade, as demandas operárias envolviam questões bem mais amplas, pois,
seus problemas tinham causas econômicas profundas. Muitos autores afirmavam
que “[...] era preciso ressaltar que, a chamada questão social não era apenas um
problema sanitário e/ou moral, mas sim uma questão política e econômica”
(GOMES, 1979, p.68). Dentro deste universo, a intervenção do Estado torna-se
Percebe-se que, todo o processo de reformulação da questão social no Brasil,
consistia na verdade em um processo de mudanças na ordem burguesa, assim
como as mudanças econômicas consistiam em mudanças sociais. Gomes (1979,
p.23) afirmava ainda que,
Num nível mais restrito, mas não menos fundamental, a constituição de uma legislação social está no cerne das relações trabalho/capital, tanto na órbita da sociedade civil, o que coloca o problema das relações diretas entre patronato/trabalhadores, quanto na órbita do próprio Estado, que vai assumindo papel cada vez mais destacado na questão, colocando-se como um terceiro elemento decisivo com o qual um dos outros terá que entrar em contato isoladamente ou não.
Neste contexto, mais uma vez o papel do Estado como conciliador, na tentativa de
amenizar os conflitos, assume proporções grandes. Porém, não é o que se percebe
na Primeira República. Não existiu no período, uma política trabalhista que
garantisse os direitos dos trabalhadores na íntegra. Os decretos criados não iam à
frente e eram notados apenas quando a situação se agravava através dos
movimentos operários.
Podemos analisar como marco simbólico do início das discussões da questão social
trabalhista mais sistemáticas na Câmara, o encaminhamento dos vários projetos de
Maurício de Lacerda, todos de julho de 1917, visando a regulamentação de diversos
aspectos do problema das condições de trabalho do operário. Assim,
[...] ele apresenta projetos que visam o estabelecimento da jornada de 8 horas de trabalho [projeto nº 119 de 11/07/1917]; de regulamentação do trabalho feminino [projeto nº 125 de 16/07/1917]; e de menores [ projeto nº 135 de 24/07/1917]; da criação de creches em estabelecimentos industriais com mais de 10 operários [projeto nº 136 de 23/07/1917]; da criação de um contrato de aprendizagem [projeto nº 137 de 18/07/1917] e do estabelecimento de Comissões de Conciliação e Conselhos de Arbitragem, com representação de operários e patrões [projeto de 02/07/1917] (GOMES, 1979, p. 65).
Além do deputado Maurício de Lacerda, Nicanor Nascimento ganhou destaque na
Câmara, por apresentar-se em favor das organizações das relações entre as classes
e por entender a necessidade de uma a política social em favor dos trabalhadores.
Gomes (1979, p.70) destaca o seguinte no discurso de Nicanor Nascimento:
agora se vê: estamos criando, determinando a explosão dos impulsos violentos, e mais, colocando o operário sofredor, que reclama só o que é justo e honesto, ao serviço das paixões violentas dos agitadores e fanáticos que (...) aproveitam a exaltação das populações humilhadas e roubadas para produzirem abalos sociais desordenadores e, por vezes, anti-sociais. O discurso de Nicanor Nascimento sugere que, a falha do Estado em buscar a
resolução da questão social na punição, provocava mais agitações e que a situação
só se resolveria quando houvesse no Brasil, um olhar sobre o trabalhador brasileiro
de maneira que atendesse às suas reivindicações. Nicanor Nascimento defendia
então, a intervenção positiva do Estado no sentido de dirimir os conflitos entre
trabalho e capital. Por outro lado, de nada adiantaria se, ao resolver o problema do
proletário, a burguesia industrial e comercial ficasse prejudicada. Na verdade, o
problema social era também do capital e o próprio movimento operário,
principalmente a partir de 1917, é que colocava a questão na pauta das discussões
políticas. Mas todas as discussões abertas dentro do parlamento geravam debates,
onde, alguns deputados concordavam com a política social e outros não.
Como afirmavam os deputados, o parlamento não tinha autorização para legislar
sobre as questões trabalhistas e no que se refere às relações entre trabalho e
capital, estas ficavam a cargo do código civil. Assim, legalmente, a constituição não
dispunha de nenhum artigo que versasse sobre as questões do trabalho e o código
civil tratava apenas do conjunto das relações entre trabalhadores e patrões.
Somente a partir de 1926, é que o Congresso ficou incumbido de legislar sobre o
trabalho.
Dentro desta discussão, Tristan Vargas (2004, p.52) afirma que, na opinião de
Maurício de Lacerda, “[...] só o Congresso nacional pode dar uma providência a
respeito. Nem o governo paulista, nenhum governo estadual ou municipal pode
providenciar nessa matéria de lei substantiva [...]”. Maurício de Lacerda faz essa
observação em função da resistência do Congresso Nacional de legislar sobre
matéria de trabalho.
Alguns deputados continuavam afirmando que o problema social trabalhista
brasileiro não era caso de política e sim de polícia, atribuindo aos poderes locais o
O Deputado Gaúcho Joaquim Osório, por exemplo, afirmava que, legislar sobre o
trabalho, implicava em restringir as liberdades individuais. Ele defendia a
regulamentação no plano local, mas temia a limitação das liberdades. Tristan Vargas
(2004, p.54) destaca que,
O deputado nega o argumento de que a jornada, condições de trabalho, trabalho de menores e mulheres etc., por implicarem restrições à liberdade individual, fossem matéria da competência do direito civil. Seriam sim matéria de polícia, a qual é da “competência dos poderes locais.
Contrapondo-se à posição de Lacerda e Nascimento e seus adeptos, encontramos
outro grupo de deputados contrários à intervenção do Estado. Os deputados
gaúchos reagiram à regulamentação do trabalho ao defenderem a
inconstitucionalidade de uma legislação trabalhista. Assim, “[...] negavam à
legislação social a capacidade de solucionar e/ou evitar conflitos entre trabalho e
capital” (GOMES, 1978, p.75). Para os gaúchos, a intervenção do Estado, através
de medidas legislativas, era caracterizada como “truque eleitoral” e era
inconstitucional. Concordavam em alguns pontos e discordavam de outros. Joaquim
Ozório e Carlos Penafiel são claros ao defenderem o amparo do Estado apenas ao
operário do setor público. Neste contexto, Gomes (1979, p.79) destaca o seguinte no
discurso de Carlos Penafiel:
A verdadeira doutrina não é [...] a da tutela do Estado [...], nem as aposentadorias operárias justificam o que se pode chamar de estatização [...] A verdadeira providência é dar todas as suas forças à família, tudo despender para bem educar os filhos, convertendo-os em valores sociais. São os filhos na família constituída, que apresentarão uma aposentadoria para os mais velhos [...].
Além de negarem a capacidade da legislação social de resolver os conflitos entre
trabalho e capital, os gaúchos apresentavam uma argumentação contrária a dos
deputados trabalhistas. Se por um lado, tanto Maurício de Lacerda como Nicanor
Nascimento acreditavam que a regularização da questão social trabalhista através
de uma legislação social seria a melhor opção para colocar fim nos conflitos e
promover a ordem, os deputados gaúchos se opuseram a essa idéia afirmando que,
mesmo nos países mais desenvolvidos que possuíam uma legislação social já
funcionando, os conflitos entre trabalho e capital continuavam. Segundo esses
deputados, uma legislação, ao contrário de promover a paz e a ordem, poderia
leis garantindo seus direitos. Para eles, a nossa indústria ainda era incipiente e não
tinha condições de absorver uma legislação social.
Os gaúchos, de cunho positivista, não negaram a existência da questão social no
Brasil, mas defenderam a idéia de que a interferência do Estado deveria ser apenas
para o funcionário público e não na iniciativa privada. Portanto, havia, segundo eles,
uma necessidade de resolver a questão social, mas que a fizesse a partir de outras
ferramentas que não fosse a legislação.
Os paulistas reconheciam a intervenção do Estado e a elaboração de leis sociais
como um instrumento útil para o enfrentamento da agitação operária. Ao
reconhecerem a necessidade de uma legislação trabalhista, não o faziam
combatendo as atividades dos comerciantes e industriais. Suas propostas
defendiam os interesses privados, ao contrário dos gaúchos. Mas os paulistas
tinham sua própria posição em relação à política trabalhista.
A posição paulista procurava, através da regulamentação do trabalho, evitar as duas correntes básicas que dominavam as discussões: a do individualismo à outrance e a do total intervencionismo, “socializador”. O que se busca era o meio-termo, conciliando os dois extremos numa legislação moderada que impedisse maiores conflitos e prejuízos (GOMES, 1979, p. 82).
Sua defesa da legislação social combinava com outra defesa, a do empresariado.
Na verdade, acreditavam que a legislação social atenuaria os conflitos. Além disso,
associaram todas essas discussões à imigração. Segundo eles, quanto maiores os
benefícios aos trabalhadores, maiores seriam os interesses dos estrangeiros. São
Paulo já possuía um Código Estadual de Trabalho, portanto, eram experientes em
matéria de interferência estatal.
A partir destas discussões, onde há diferentes posicionamentos a respeito da
questão social na Primeira República, não resta dúvida de que a garantia dos
direitos trabalhistas através de negociações diretas, no âmbito privado, seria tão
desgastantes quanto impossíveis. A partir do interesse do Estado, que se colocaria
como um elemento conciliador, neutro, interferindo nas negociações, haveria
maiores possibilidades de alcance de tais direitos. Porém, a própria dificuldade do
trabalhador em conseguir sucesso com suas reivindicações, estava na falta desta
que se percebe é que, mesmo existindo decretos e leis em favor do trabalhador na
Primeira República, esses eram esquecidos quando as manifestações cessavam e a
classe operária continuava no submundo do desemprego ou das péssimas
condições de trabalho, agravando-se ainda mais em momentos de crise econômica.
1.2.1 O Pós-Guerra
Como vimos, um dos momentos de grandes mudanças políticas no que tange à
questão social trabalhista foi a partir de 1917. Isso porque, a Primeira Grande
Guerra Mundial deixou o mundo com um saldo negativo, refletindo-se no meio
social. O processo de industrialização, que vinha, desde o final do século XIX,
crescendo de acordo com a expansão das exportações, ganhou uma nova direção a
partir da Primeira Guerra. O primeiro efeito da guerra foi a drástica redução dos
investimentos industriais. A produção, todavia, se expandiu em 1915-1916 com a
utilização plena da capacidade instalada, mas começou a se declinar em 1917 e o
seu crescimento tornou-se negativo no ano seguinte pela falta de matérias-primas,
máquinas e equipamentos importados. Essas mudanças na ordem econômica
tiveram reflexos na vida do operário que precisava garantir sua sobrevivência.
O principal efeito da guerra sobre a indústria foi a mudança da atitude do governo.
Até então, não existia o que poderíamos chamar de política industrial. A guerra,
entretanto, evidenciou os limites e as inconveniências de um país destituído de um
parque industrial compatível. Por esse motivo, o governo começou a adotar
consciente e deliberadamente, um incentivo para o desenvolvimento industrial, a fim
de promover a sua diversificação.
A partir da Primeira Guerra Mundial, a intervenção nas relações de trabalho ganha
notoriedade com a homologação do Tratado de Versalhes pelo Congresso Nacional
em 1919, momento a partir do qual o Estado teria se comprometido com tal postura.
Neste contexto, “[...] é esse tratado que recomenda a instituição de um novo tipo de
direito - o do trabalho - capaz de representar uma nova sociedade do pós-guerra
Assim, a Primeira Guerra Mundial gerou grandes problemas na sociedade brasileira
e o mais grave foi o de carestia de vida. E quem mais sofreu com a situação foi o
operário urbano que teve seu salário rebaixado durante a mesma. Então, a questão
social no Brasil foi marcada, no período da Guerra e depois dela, pela agitação
operária, liberdade sindical e crise financeira, gerando um novo debate na Câmara
em torno de questões também ligadas às atividades da indústria e do comércio.
Embora a guerra tenha gerado dificuldades financeiras, por outro lado, proporcionou
o incremento das atividades industriais e comerciais do Brasil. Se por um lado, esse
setor foi beneficiado, por outro, a alta dos preços foi responsável pelas dificuldades
da população urbana que teve que lutar contra a carestia. Conforme salienta Gomes
(1979, p.60),
No curso da discussão da questão social na Primeira República, a necessidade do estabelecimento de medida de proteção social ao trabalhador surge em grande parte associada a um debate maior que constitui um questionamento às atividades industriais e comerciais. Às dúvidas sobre os reais objetivos e efeitos de uma legislação social acoplavam-se questões como a da necessidade do estímulo ao desenvolvimento industrial em nosso país.
Portanto, as relações trabalho/capital não eram tranqüilas no período, somando-se à
carestia de vida e à falta da aplicação ou criação de leis que amparassem o
trabalhador. A expansão da indústria brasileira se deu em função do declínio
comercial internacional e da conseqüente necessidade das importações, expandindo
também o contingente de trabalhadores organizados, fortalecendo o movimento
operário. Isso mudaria a visão política da questão social no período, uma vez que se
passou a discutir a respeito das greves e das medidas necessárias para
enfrentá-las.
A greve foi a expressão máxima do movimento operário. Foi o movimento que
simbolizou a luta por melhores condições de trabalho. No contexto das relações
entre trabalho e capital, as agitações grevistas nem sempre eram bem sucedidas.
Para Simão (1981, p.103),
gestões econômicas na disposição sobre a força de trabalho locada constituía um padrão de comportamento sancionado pelas classes socialmente superiores e pelo Estado. Desde o começo do século, a imprensa operária assinala tal fato, que levava grande número de operários a descrer dos efeitos positivos das greves de reivindicação trabalhista. Neste caso, essa dificuldade ilustra a necessidade de uma maior participação do
Estado nas negociações. A falta de interesse político em resolver a questão social,
coloca o operário sem perspectivas quanto aos movimentos por melhores condições
de trabalho. As negociações trabalhistas na primeira república eram feitas em
âmbito particular e não eram garantidas, nem cumpridas.
No plano internacional, o Brasil participou da Conferência do Trabalho de
Washington em 1919, abrindo espaço para que os candidatos usassem o tema nas
campanhas políticas. Na verdade, toda a discussão em relação à questão social no
congresso continuava gerando posições diferenciadas, causando divisões.
Estudiosos da área defendem que, “[...] a partir de outubro de 1917, um dos
principais temas discutidos na Assembléia vinculava-se ao projeto nº 284 do Código
de Trabalho” (GOMES, 1979, p.66). É em função deste projeto que se delinearam as
posições dentro do congresso, em torno da questão social. Mas o proletariado,
segundo os deputados trabalhistas, era abandonado pelo governo, que se
preocupava com o tema apenas em épocas de eleições presidenciais. Na verdade,
“[...] a situação internacional, a carestia de vida e a movimentação eleitoral fazem
com que a questão social se transforme, particularmente, nas eleições de 1919, num
‘trunfo’ de campanha” (GOMES, 1979 p.86, grifo da autora).
Rui Barbosa, por exemplo, candidato da oposição nas eleições presidenciais de
1919, permaneceu na memória histórica como um marco de mudanças nas atitudes
da elite política com relação à questão social, pois, discursava evocando uma
legislação operária. É o que nos informa João Tristan Vargas (2004, p.82) no
discurso do candidato a seguir:
onde leis adotadas para acudir a tais reclamações têm ido esbarrar, por vezes, a título de inconstitucionalidade, em sentenças de tribunais superiores .
Segundo Tristan Vargas, a fala de Rui marcou a história de outra maneira. Ele
vincula a regulamentação do trabalho a uma reforma constitucional, dando esta
como condição daquela. Portanto, isso comprova que, na prática ainda não existia
uma legislação em torno da questão social, exigindo maior participação do poder
público no processo.
Os anos 20 foram marcados por uma maior repressão ao movimento anarquista e
operário, mostrando que o fator político se ausentava cada vez mais das
possibilidades de resolver os conflitos entre trabalho e capital. A partir de 1921, essa
repressão se acentuou com o decreto nº 4.247 de 06/01/1921 conhecido como lei de
expulsão aos estrangeiros.
Os anos 20 seriam desastrosos para o movimento operário. Por um lado, intensificou-se a repressão, que foi constante no governo Artur Bernardes. Além de decretar o estado de sítio, deportou para os campos de concentração de Oiapoque, no extremo norte do pais, centenas de opositores e militantes operários, tendo muitos deles aí morrido. Por outro lado, as articulações para a criação de um Partido Comunista, vinculado à Internacional Comunista, provocou profundas e definitivas divisões no movimento operário do Brasil (SILVA, 2008, p.17).
Assim, o governo de Bernardes combinou intervencionismo e repressão. A partir daí,
as próprias transformações econômicas oriundas do pós-guerra, colocariam o
Estado com maior preocupação nesta área, aumentando o intervencionismo. O
governo de Bernardes seria duro quanto à repressão aos sindicatos e associações
operárias. Então, o movimento operário na década de 20 foi menos atuante e
praticamente não aconteceram greves. Há um consenso de que “[...] não havia
espaço político para um tipo de movimentação grevista como a dos anos anteriores,
ocorreram apenas pequenas greves como as de 1923 no Rio” (GOMES, 1979, p.92).
Por outro lado, a influência comunista nos sindicatos foi mais intensa neste período,
chegando ao final dos anos vinte a formar o Bloco Operário. As discussões na
Câmara se davam em torno da luta de classes como fenômeno importado sem
raízes na sociedade brasileira.
Na verdade, um novo elemento contribuiu para o refluxo do movimento operário na
a mão-de-obra e restringir a imigração européia. A partir da de 1923, crescem as
dificuldades para o setor industrial com aumento das importações. Esse período de
mais calma nas agitações operárias, assegurada pela repressão, beneficiou o
patronato que não precisava mais conviver com os pedidos de aumento salarial, que
era a pauta principal dos grevistas.
Mas uma das maiores conquistas operárias aconteceu em 1923 com a lei Elói
Chaves1, apresentada à Câmara pelo deputado, reivindicando a criação das Caixas
de Aposentadorias e Pensões para os ferroviários. É interessante observar que, esta
lei foi de fundamental importância nas relações patrões e empregados, porque os
fundos das CAPs deveriam ser administrados por um conselho formando por
representantes das empresas e dos empregados. Na argumentação do deputado,
havia a preocupação de evitar choques violentos entre patrões e empregados, ao
mesmo tempo em que protegia o trabalhador das difíceis condições que
enfrentavam. A Lei beneficiou inicialmente apenas os trabalhadores ferroviários. Só
três anos mais tarde é que seus benefícios foram estendidos aos trabalhadores das
empresas portuárias e marítimas.
Ainda neste ano, muitos outros benefícios seriam concedidos no campo da
legislação social. A discussão na Câmara girava em torno da reformulação da lei de
acidentes de trabalho com grandes dificuldades, porque na época de sua
elaboração, não houve uma discussão com as partes interessadas. No mesmo ano,
foi instituído o Conselho Nacional do Trabalho, porém, já existia o Departamento
Nacional do Trabalho como órgão do Ministério da Agricultura, Indústria e
Comércio.2 Este órgão foi destinado a fiscalizar e estudar o estabelecimento de uma
legislação trabalhista.
A criação deste Conselho relacionou-se com o abandono do Departamento, mas ele
funcionava apenas como órgão consultivo, não assumindo a função de instituição
1
Pelo Decreto n° 4.682, de 24 de janeiro de 1923, a Lei Elói Chaves (o autor do projeto respectivo), determinou a criação de uma Caixa de Aposentadoria e Pensões para os empregados de cada empresa ferroviária. É considerada o ponto de partida, no Brasil, da Previdência Social propriamente dita. A lei garantia quatro benefícios básicos: ajuda médica, aposentadoria, pensões para dependentes, auxílio funeral, alem de estabelecer que, após dez anos de serviço em uma empresa, o empregado só poderia ser demitido por falta grave.
2
planejadora de uma legislação social, mas com competência de amenizar os
conflitos de trabalho. Porém, “[...] mantinha-se a característica de um órgão em que
patrões e operários teriam representação” (GOMES, 1979, p.97). Segundo Araújo
(1981, p.44),
A legislação social existente é incapaz de atender às inúmeras reivindicações dos trabalhadores. Os setores mais importantes reclamam seus direitos junto ao Estado, não só encaminhando projetos de lei ao Congresso, como também denunciando ao Conselho Nacional do Trabalho o não concedimento de férias e a ocorrência de demissões injustas. O próprio Conselho reconhece que a lei não é cumprida. A fiscalização de férias nos estados não é generalizada, não se sabe como são julgadas as denúncias. Além disso, a fiscalização das Caixas de Aposentadoria e Pensões é inoperante. Os poucos funcionários do Conselho Nacional do Trabalho não dão conta de classificar e registrar as queixas de empregados e ouvir as reclamações de patrões sobre a lei. Os conflitos de ordem social são reprimidos incondicionalmente pela Polícia, não sendo mais possível ignorar a existência de problemas dos trabalhadores nas cidades.
Outro ato importante foi a criação do Conselho Superior do Comércio e da Indústria,
também atrelado ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Dele
participavam apenas parlamentares, altos funcionários públicos e pessoas do
comércio e indústria. Assim, institucionalizavam-se, através do Ministério da
Agricultura, as questões ligadas ao trabalho, à indústria e ao Comércio. A criação
deste Conselho proporcionou ao empresariado maior participação nas iniciativas que
foram tomadas tanto no seu ramo, como das questões sociais.
Ainda em 1923, veio a proposta de um código de trabalho, que deu origem a duas
leis importantes e polêmicas: a lei de férias de 1925 e o código de menores de 1927.
Porém, foram muitas as discussões e reformas até suas aprovações, deixando a
questão social no Brasil ainda sem resolver. Continuava a ser debatida na Câmara,
ainda como uma questão mal resolvida, algo ainda a ser conquistado.
Na verdade, “[...] os anos que vão de 1927-1929 registram a mobilização política do
proletariado, como participante legítimo do processo eleitoral em torno do então
Bloco Operário” (GOMES, 1979, p.99). O Bloco Operário teve origem no Partido
Comunista e contou com o apoio do deputado Azevedo Lima. Este deputado,
denunciava as violências e arbitrariedades policiais cometidas contra os operários.
Era defensor da greve e um crítico dos órgãos criados para implementar a legislação
Desta forma, denuncia a não-aplicação da lei de férias e aponta como uma de suas razões, a falta de fiscalização do Conselho Nacional do Trabalho (CNT), que se encontraria em mãos dos interesses empresariais, sendo um órgão essencialmente burocrático. O CNT é então, sistematicamente, apontado como um verdadeiro instrumento patronal, sendo, por tal razão ineficaz. Azevedo Lima critica também a própria Comissão de Legislação Social da Câmara que após tantos anos, não conseguia aprovar um código de trabalho (GOMES, 1979, p.100).
Assim, a existência do Conselho não resolveu os problemas de conflitos e
continuava existindo a mentalidade dominante que via a questão social como caso
de polícia. Na verdade, a necessidade urgente era uma melhor organização das
referidas questões concernentes à política trabalhista, uma vez que, ainda não havia
se cumprido os direitos dos trabalhadores que vinham lutando desde o início da
Primeira República.
1.2.2 Posição da Burguesia
Não podemos ficar ancorados na situação operária quando falamos de ralações
trabalho/capital sem falar da posição da burguesia diante desta situação. Quando
nos referimos a essas classes, corremos sempre o risco de generalizações,
afirmando que a classe burguesa concordou ou discordou com a política trabalhista
em todos os tempos. Como afirma Gomes (1979. p. 185),
A elaboração de uma legislação social que normatizasse as relações patrão/trabalhadores significava para o empresariado, antes de mais nada, uma limitação das condições objetivas de realização e acumulação capitalista, uma vez que se criavam dispositivos legais dentro dos quais a produção teria que se desenvolver. Implicava também, numa série de encargos pelos quais o patronato tinha que se responsabilizar na quase totalidade.
A criação desses direitos sociais representava o rompimento com o liberalismo
econômico, marcada pela intervenção do Estado na economia, onde deveria garantir
os direitos trabalhistas. Uma vez conquistados esses direitos, a burguesia corria os
riscos de ganhar ou perder, ao mesmo tempo em que, mesmo fundamentada numa
visão liberal, conseguia enxergar eficiência na intervenção e nas leis sociais.
Segundo Gomes (1979), toda a reação da burguesia industrial e comercial vai