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Continuum psicofísico: uma abordagem baseada no pensamento de Charles S. Pierce

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Academic year: 2017

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JORGE LUIZ VARGAS PRUDÊNCIO DE BARROS PIRES

CONTINUUM PSICOFÍSICO:

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JORGE LUIZ VARGAS PRUDÊNCIO DE BARROS PIRES

CONTINUUM PSICOFÍSICO:

UMA ABORDAGEM BASEADA NO PENSAMENTO DE CHARLES

S. PEIRCE

Dissertação apresentada à Faculdade de Filosofia e Ciências da universidade Estadual Paulista "Júlio Mesquita Filho", Campus de Marília, para obtenção do título de Mestre em Filosofia (Área de concentração: Ciências Cognitivas e Filosofia da Mente).

Orientador: Prof. Dr. Lauro Frederico Barbosa da Silveira

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JORGE LUIZ VARGAS PRUDÊNCIO DE BARROS PIRES

CONTINUUM PSICOFÍSICO:

UMA ABORDAGEM BASEADA NO PENSAMENTO DE CHARLES

S. PEIRCE

COMISSÃO JULGADORA

DISSERTAÇÃO PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE

Presidente e Orientador: Dr. Lauro Frederico Barbosa da Silveira

2° examinador: Dr. Adolpho Menezes de Mello

3° examinador: Dr. Alfredo Pereira Júnior

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AGRADECIMENTOS

A realização deste trabalho só foi possível graças à preciosa colaboração direta ou indireta de muitas pessoas:

Ao grande amigo Prof. Dr. Lauro Frederico Barbosa da Silveira, meu eterno orientador, cuja beleza do pensamento é de indispensável inspiração;

A todos os colegas do programa de Pós-Graduação, pelos agradáveis momentos de discussão;

Aos professores: Dra. Maria Eunice Quilice Gonzales, Dr. Alfredo Pereira Júnior, Dra. Maria Cândida Soares Del Masso, Dra. Mariana Claudia Broens, Dra. Carmem Beatriz Milidoni e Dr. Michael Beaumont Wrigley, pela preciosidade de seus pensamentos;

Ao Prof. Dr. Adolpho Menezes de Mello, por suas contribuições;

À Ms. Eleonora Gonçalves Smits, por nossas discussões e por suas revisões em meus textos;

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SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS... 6

1 INTRODUÇÃO... 7

2 EVOLUÇÃO DOS HÁBITOS E CONDUTA MENTAL NO MÚSCULO... 11

3 LEIS DO HÁBITO E INDETERMINISMO NA CONDUTA MUSCULAR... 19

4 CONTRAÇÃO MUSCULAR E OS DOIS TIPOS DE CAUSAÇÃO... 29

5 EXPRESSÃO CRIATIVA COMO PARTE DO CONTÍNUO TEMPORAL... 39

6 HÁBITO E RACIOCÍNIO NA CONDUTA METABÓLICO MUSCULAR... 47

7 CONCLUSÃO...59

8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 64

ANEXO I... 69

ANEXO II... 70

RESUMO... 71

ABSTRACT... 72

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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 01 - DIAGRAMA DA ORGANIZAÇÃO GERAL DE UM MÚSCULO

ESQUELÉTICO... 17

FIGURA 02 - SARCÔMERO CONTRAINDO-SE... 20

FIGURA 03 - ESQUEMA DE UMA JUNÇÃO NEUROMUSCULAR... 21

FIGURA 04 - ROTAS METABÓLICAS... 23

FIGURA 05 - CURSO DO TEMPO DA CONTRIBUIÇÃO DOS DIFERENTES SISTEMAS DE ENERGIA... 35

FIGURA 06 - RELAÇÕES ENTRE PASSADO, PRESENTE E FUTURO NA CONTRAÇÃO MUSCULAR... 42

FIGURA 07 - FASES DA MODIFICAÇÃO DA CAPACIDADE DE REALIZAR CONTRAÇÕES DEPOIS DE ESTÍMULOS DE CARGA... 44

FIGURA 08 - FATORES QUE INFLUENCIAM A ADAPTAÇÃO MUSCULAR... 45

FIGURA 09 - DIAGRAMA DO SIGNO... 49

FIGURA 10 – ESQUEMA DAS ETAPAS DE UMA CONTRAÇÃO MUSCULAR... 51

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1 INTRODUÇÃO

Os organismos vivos possuem várias características fascinantes. Eles são estruturalmente complexos e altamente organizados; manipulam a energia do ambiente; possuem a capacidade de auto-replicação e automontagem; e cada componente de seu sistema possui um papel específico dentro do organismo. Há alguns anos percebi que, em meio a todas essas maravilhas presentes nos grandes organismos biológicos, o músculo esquelético me encantava de forma especial.

As interações moleculares da contração muscular se apresentam com uma beleza e engenhosidade ímpares, cuja admirabilidade me seduz profundamente. Não pretendo dizer, com isso, que o sistema muscular possua características únicas ou que ele possua qualquer privilégio em relação a qualquer outro sistema. O que digo é que os processos fisiológicos e bioquímicos do músculo esquelético se me apresentam como algo extraordinariamente admirável, que, convidando-me a entrar em um circuito dialogante, irá permitir a expansão não só de sua admirabilidade, mas também de sua razoabilidade.

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rede de relações não determinísticas, um espetáculo de poesias cujos protagonistas centrais são os signos.

O diálogo entre as Ciências do signo e a Fisiologia muscular pode proporcionar avanços significativos na compreensão das relações representativas do músculo esquelético. Avanço esse que é possível devido aos estudos de sistemas biológicos de uma forma geral, e o sistema muscular em particular, parecerem ser um rico campo para as investigações semióticas, da mesma forma que a Semiótica parece ser uma poderosa ferramenta para a superação das limitações encontradas pela biologia tradicional no estudo de sistemas vivos.

A Biossemiótica surgiu no século XX como uma rica base conceitual para novas idéias e explicações acerca dos processos biológicos.1 Segundo essa abordagem, todos os seres vivos devem necessariamente possuir um sistema de sinais (macroscópicos ou microscópicos) capazes de atuar na organização do sistema em que estão inseridos. Os estudos semióticos na Biologia parecem ser uma poderosa ferramenta para investigar relações que não se reduzem à imediaticidade da ação-reação. (Cf. Kull, 1998; Sebeok, 1995; Uexküll, Geigges e Herrmann, 1993).

Contudo, é importante ressaltar que nem todas as correntes semióticas possuem lastro teórico para o estudo da semiose muscular. Embora todas se propõem a estudar signos, possuindo pontos em comum, parece haver algumas diferenças bem marcantes. Por isso, serão excluídas da presente discussão aquelas semióticas que se limitam a classes muito particulares de signos, tais como: semiótica militar e semiótica sísmica, entre outras, que visam a condutas restritas. Tal opção justifica-se por tratarem de codificações que se restringem a propósitos muito limitados, não se caracterizando Ciências Gerais dos Signos. (Cf. Silveira, 1983).

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A Semiótica de tradição francesa será descartada devido ao fato de seu objeto estar vinculado à lingüística e sua característica ser fundamentalmente social.2 A teoria de Saussure, por exemplo, visa a estabelecer a natureza do signo lingüístico, restrito ao domínio dos fatos humanos. (Cf. Saussure, 1969, 24). A utilização dessa abordagem no estudo bissemiótico da conduta muscular tem como conseqüência um entendimento nominalista daquilo que ocorre com o organismo. Essa perspectiva acarreta o problema de distanciar o referente do signo de seu horizonte. (Cf. Emmeche, 1991, p.325). Uma abordagem Diádica, como a de Saussure, mostra-se insuficiente para explicitar as minúcias de uma semiose biológica.

Nos dias atuais, o Biosemiotics Group3 tem sido uma referência quase

necessária a qualquer estudo em Biossemiótica. Tal grupo é composto por vários cientistas e filósofos4 que tem em comum o interesse pelas relações representativas no mundo vivo. Pude perceber que há uma grande compatibilidade entre a teoria sígnica proposta pelo Biosemiotics Group e a Semiótica de tradição peirceana. Ambas as teorias

assumem o signo como algo que mantém uma relação triádica, no qual um mediador estabelece a relação entre um objeto e seu interpretante.

Entretanto, uma diferença importante deve ser ressaltada entre as duas formas de investigação aqui citadas. A Biossemiótica postula a existência de uma instância mínima para que se inicie a semiose: a célula ou as macro-moléculas presentes nos organismos vivos. Tal perspectiva assume um mundo semiótico para os seres vivos e um mundo não semiótico para o restante do universo (mundo físico). Há um fio condutor muito bem definido: o signo é entendido como um fenômeno que emerge5 nas relações biológicas. (Cf. Emmeche, 2000, 1997, 1994). Essa abordagem possui o inconveniente de exigir uma explicação de como o signo surgirá nas relações dos componentes musculares.

2 Veja a respeito das teorias semióticas francesas em Noth (1995, 1990) e diretamente em Greimas, Fontanille (1993); Barros (1984); Saussure (1969).

3 As idéias centrais deste grupo podem ser acessadas na rede mundial de computadores (Internet) no endereço: http://www.ento.vt.edu/~sharov/biosem.

4 Hoffmeyer, Emmeche, Sharov, Kull, Uexküll, são alguns dos mais representativos investigadores em biossemiótica dos dias atuais.

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A Semiótica peirceana, por sua vez, não requer um patamar mínimo para que a semiose aconteça. Pelo contrário, o universo constitui-se de signos e qualquer relação triádica em que um primeiro medeie a relação entre um terceiro e um segundo será suficiente para caracterizar a semiose. (Cf. CP 5.448).6 O universo inteiro é constituído de signos e nele não ocorre qualquer tipo de emergência. A noção Peirceana de signo é tão abrangente que qualquer relação de ação ou reação, qualquer ato passado ou qualquer qualidade de sentimento podem assumir o papel de signo, independentes de um sujeito psicológico ou de um organismo biológico que os abrigue ou interprete. (Santaella, 1993, p. 37).

A idéia de discutir as divergências e convergências que esses estudos possuem, não me parece viável no contexto do presente trabalho. A tarefa de estabelecer as relações possíveis entre as diferentes Semióticas merece uma pesquisa que se dedique exclusivamente a esse tema. Assumir tal tarefa, nesse momento, desviar-nos-ia do objetivo principal traçado para nossa pesquisa.7 As dificuldades encontradas na Biossemiótica fazem com que seja considerado para este estudo apenas o pensamento do autor norte americano Charles S. Peirce (1838-1914).

É fundamental enfatizar que a Semiótica peirceana é uma das divisões de sua Filosofia, devendo ser concebida como uma Filosofia científica. Esse é o ponto de partida quando se pretende introduzir as idéias de Peirce. Quando os fundamentos fenomenológicos e epistemológicos que suportam seu pensamento são esquecidos, corre-se um grande risco de tornar sua Semiótica em mera taxionomia, ou um conjunto de terminologias vazias. Tendo isso em mente, problemas ontológicos e epistemológicos ganharão uma posição de destaque em minha discussão a respeito da conduta muscular.

6 Referir-nos-emos aos textos de Charles S. Peirce contidos nos

Collected Papers pelas iniciais CP,

seguidas do número do volume e do parágrafo.

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2 EVOLUÇÃO DOS HÁBITOS E CONDUTA MENTAL NO MÚSCULO

É flagrante que os problemas sobre a natureza do pensamento, as possibilidades do conhecimento, o estatuto dos processos cognitivos e suas relações com o corpo têm inspirado pensadores da tradição filosófica ocidental faz muitos séculos. A questão da mente em geral, e suas relações com substratos físicos em particular - a contração muscular em nosso caso - são considerados problemas súperos, ainda que a definição desse problema possa variar consideravelmente entre os filósofos.

Não me cabe discutir as diferentes propostas de solução para o problema mente-matéria; isso seria pretensão de minha parte. Por outro lado, estabelecer uma estratégia que permita dialogar com o músculo esquelético, estabelecendo um diagrama que proporcione um conhecimento mais amplo a respeito das razões subjacentes à sua conduta, me parece um desafio encantador.

Nenhum sistema orgânico é fácil de investigar. Para quem deseja compreender os alicerces racionais da conduta de qualquer um deles a tarefa é árdua. Entretanto, é difícil supor, ao menos para o presente autor, um desafio mais instigante para a reflexão e a investigação do que tentar compreender a conduta muscular, pensar com ela.

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biológicos da contração muscular, o que tenho em mente é uma sucessão de condutas altamente inteligentes que, em sua natureza, nada se diferenciam de qualquer conduta racional humana.

Ao contrário da noção dualística de mente e matéria8, tão proeminente no cartesianismo, e do monismo fisicalista9, presente em grande parte dos estudos científicos e filosóficos do último século,10 admito que a conduta muscular é da natureza do pensamento; é geral e eidética; é um processo tipicamente mental.

Muitos poderiam tentar refutar essa idéia, dizendo que a atividade muscular é um processo mecânico e quase totalmente dependente da ativação neural. Afinal, o músculo esquelético é amplamente conhecido por ser voluntário e atuar sob os ditames do sistema nervoso central. Ainda mais, o músculo sendo uma substância material, como poderia ter uma conduta mental? Com base em quê alguém poderia defender tal idéia?

Creio que a mente e o pensamento não deveriam ser encarados como um atributo da natureza humana. Longe disso! Nossa natureza e toda a natureza na qual estamos imersos são expressões dessa generalidade. Não há nenhuma cogitação de que a mente possa ser separada do mundo físico. “Do mesmo modo que dizemos que um corpo está em movimento e não, que o movimento está em um corpo, devemos dizer que estamos em pensamento e não que pensamentos estão em nós (CP 5.289, n.1)”.

Compreender-nos como personificação da mente e do pensamento, do mesmo modo que o restante do Cosmos, diferindo apenas na expressão que lhes é própria, permitir-me-á representar espírito e matéria como aspectos de uma única realidade. (Cf.

8 A lei física e a lei psíquica são consideradas substâncias independentes. Cf. Descartes, 1970: O discurso do método, Meditações sobre a Filosofia primeira e Princípios da Filosofia.

9 A lei psíquica é considerada derivada e especial, enquanto a lei física é considerada primordial. Cf. o livro Mind and Cognition, organizado por Lycan (1990). Esse livro contém uma das mais amplas revisões a respeito do desenvolvimento da questão mente e matéria de nosso tempo. Pensadores, tais como, Putnam, Dennett, Lycan, Dretske, Feyerabend, Churchland e Churchland, Fodor, Block, Jackson, Campbell, Chomsky, entre outros, podem ser encontrados nesse livro (cf. também Damásio, 1994; Gardner, 1985).

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Silveira, 2000). O realismo, na visão de Charles S. Peirce (1839-1914), é mais que a aceitação dos elementos universais propostos pela Fenomenologia,11 ao nível da aparência. Admitir a realidade de um fenômeno é aceitar seu caráter racional inteligível.

Dessa forma, segundo Peirce, a racionalidade se encontra no âmbito da categoria de Terceiridade, ou seja, ao nível do pensamento, uma forma de ser análoga à mente. (Cf. CP, 6.339, 3.422 e 1.420). Para Peirce (CP 5.431), “a generalidade é, de fato, um ingrediente indispensável da realidade; pois a mera existência individual, ou a atualidade sem qualquer regularidade que seja, é uma nulidade. Caos é puro nada.”

Peirce, ao romper com a representação dual mente-matéria, propondo uma forma de relação onde ambos são de natureza mental, abre as portas para o seu Idealismo Objetivo. (CP 6.23-25). “Esse método promete tornar a totalidade das coisas pensável; e é elementar que não existe outro modo de explicar qualquer coisa senão mostrar como ele rastreia sua linhagem até o útero do pensamento.” (CP 7.563).

Tal proposta faz desmoronar qualquer dualidade ou descontinuidade preconcebida entre mente e matéria, fazendo emergir uma noção de continuum. Segundo tal noção, não se pode admitir algo possuidor de barreiras estanques ou diferenças substanciais. Pelo contrário, pressupõe-se um todo infinito, divisível sim, porém suas bordas devem possuir limites em comum.

Portanto, para entendermos a conduta muscular como sendo de natureza mental será necessário aceitarmos a matéria como algo provido de hábitos de conduta na forma de leis naturais. Dessa forma seremos impelidos a concebê-la como uma forma de

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mente. Tal idéia é o que Peirce denomina como Idealismo Objetivo. (cf. Ibri, 1992, p.58).

Não resta dúvida que esse é um dos pontos mais polêmicos do pensamento Peirceano. A sua hipótese de que matéria e mente são contínuas, não possuindo nenhum tipo de barreira absoluta entre elas, pode proporcionar mal-entendidos significativos. Se, por um lado, a continuidade entre mente e matéria pode ser considerada uma espécie de materialismo, por outro, analisar o Idealismo Objetivo fora do contexto do Sinequismo12 pode levar a uma idéia de idealismo puro, uma espécie de pampsiquismo. (Cf. Farias, 1999).

Contudo, o Idealismo objetivo, apesar de seu caráter indubitavelmente polêmico, uma vez bem contextualizado e se mantendo consistente dentro do edifício filosófico de Peirce, é um ótimo aliado para a compreensão do problema mente e matéria, particularmente no que se refere ao nosso problema específico: o músculo esquelético. Isso porque o Idealismo Objetivo tem na Semiótica Peirceana uma teoria abrangente e suficientemente consistente para buscar seus subsídios.

Iremos tratar o problema da contração muscular sob ponto de vista da Semiótica nos capítulos posteriores; por hora é importante que entendamos que o músculo esquelético possui hábitos adquiridos e, tal como o cosmos em que está inserido, ele não necessita ser regido, exclusivamente, por leis diferentes daquelas que produziram sua própria evolução, a lei de aquisição de hábitos. (Cf. Silveira, 2000)

De acordo com Peirce (CP 7.570), o sinequista deve admitir que os fenômenos físicos e psíquicos não são inteiramente distintos, como categorias diferentes de substâncias; pelo contrário, afirmará que todos os fenômenos possuem um único caráter, sendo mais mentais e espontâneos em um momento e sob uma perspectiva e em outros, mais materiais e regulares.

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A aparente regularidade encontrada no músculo esquelético, em um determinado nível, não provoca nenhum tipo de ruptura que imponha obstáculos ontológicos entre suas propriedades materiais e uma conduta mental. Matéria, para Peirce, é mente enfraquecida pelo desenvolvimento do hábito. Mente é uma outra face da matéria e vice-versa, como água e gelo. O Idealismo Objetivo faz da matéria e da mente um continuum, diferindo em grau e qualidade, possuindo assim, conaturalidade.

(Merrell, 1996, p.64 e 199. Cf. também Merrell, 1991, p. 250 e CP 5.257, 283, 313, 8.318).

Em obediência ao princípio ou máxima de continuidade, segundo o qual devemos imaginar as coisas na medida em que possamos, realce-se que devemos supor uma continuidade entre os caracteres da mente e da matéria, tal que a matéria nada seria senão mente que teve seus hábitos cristalizados, fazendo-a agir com um alto e peculiar grau de regula ridade mecânica ou rotina. (CP 6.277).

A concepção Peirceana, ao contrário das Filosofias que defendem o transcendental e o mecanicismo, apresenta as formas materiais e mentais como infinitas realizações evolutivas da unidade psíquica que é o Cosmos. “Tais realizações são devidas ao princípio constitutivo da afeição e à lei da aquisição de hábitos. Mediante este princípio e esta lei, regularidades vão se impondo diante do acaso, de modo mais ou menos eficaz e definitivo.” (Silveira, 1985, p. 16). Segundo a teoria cosmológica de Peirce:

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Dessa forma, a hipótese de que o músculo possui hábitos adquiridos não me parece um devaneio ou um capricho, enquanto alternativa às abordagens fisicalistas e dualistas. Ao observar o músculo, percebemos que ele participa de uma longa tradição, adquirida desde o surgimento das primeiras células musculares. Essa tradição guardada, ao menos, nas estruturas tridimensionais das proteínas13, permitiu que ele se adequasse às experiências que lhe eram impostas. “Adaptou-se por um processo evolucionário tal, que não está longe de ser correto considerar que a mente é que constitui o organismo.” (NEM, v. 4, p. 141).14

Perceba que as primeiras estruturas especializadas para a motilidade provavelmente surgiram com o crescimento em tamanho e o aumento da mobilidade dos organismos, requerendo a construção de uma estrutura que pudesse, com maior eficiência e menor desgaste energético, satisfazer as exigências dos meios interno e externo do organismo.

As células, das quais o músculo se desenvolveu, passaram por um longo e gradual processo adaptativo. O citoesqueleto dessas células sofreu transformações estruturais e evoluiu para uma forma conhecida hoje por fibras musculares, que, agrupadas, formam o músculo esquelético (um esquema geral da organização de um músculo é apresentado na Figura 1).

A estrutura morfológica atual do músculo esquelético permite uma conduta que, com um grande grau de aproveitamento, se mantenha dentro dos padrões de equilíbrio energético que o organismo exige. (Voet, Voet, 1995, p. 1234). O hábito não pode ser colocado de lado na compreensão de condutas autocontroladas que coordenam a maneira pela qual a energia será aplicada no contexto da experiência, variando o modo de agir de acordo com caminhos preferenciais. (Cf. Silveira, 2000).

13 Convém esclarecermos que as proteínas controlam quase todas as atividades dos seres vivos. As possibilidades conformacionais das proteínas conferem aos seres vivos uma grande especificidade e uma extraordinária capacidade de reconhecimento de formas. “Se o DNA é o mapa, a planta de um ser vivo, as proteínas são seus elementos constitutivos essenciais.” (Aires, et al., 1999, p. 27).

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FIGURA 1– DIAGRAMA DA ORGANIZAÇÃO GERAL DE UM MÚSCULO ESQUELÉTICO:

aqui podemos observar um músculo bíceps braquial e sua organização básica.15 Os músculos esqueléticos são formados por grupos de muitos milhares de feixes, ou fascículos, musculares que se ligam a tendões inseridos nos ossos em cada uma de suas extremidades. Esses feixes são formados por numerosas fibras musculares (Voet, Voet, 1995, p. 1234). É no sarcoplasma da fibra muscular que se encontram as proteínas contráteis do músculo. Elas são organizadas em vários milhares de miofibrilas de 1 a 3 µm de comprimento. Ao observar um músculo esquelético ao microscópio eletrônico, notamos que os filamentos ficam parcialmente interdigitados, caracterizando áreas claras e escuras. (Cf. Vieira, et al., 1995, p.363-364). Essa aparência estriada é conseqüência do arranjo estrutural da miofibrila. Como se pode observar, a banda I, é formada pelos filamentos do complexo actina, enquanto que a banda A é formada pelos filamentos de miosina entremeados pelas extremidades dos filamentos do complexo actina. A área mais clara na parte central da banda A é chamada de zona H. Veja que os filamentos grossos possuem uma pequena projeção, exceto na região da zona H. Essa projeção é chamada de Ponte Cruzada. Na região central da banda I há uma faixa escura chamada de disco Z. É nesse disco que as extremidades dos filamentos finos estão fixados. A região compreendida entre dois discos Z é chamada de sarcômero. (Cf. Douglas, 1999, p. 149)

Peirce propôs um processo evolucionário para a realidade. As leis do universo são resultado da evolução do cosmos. Elas surgiram num momento longínquo, sem lei que as regulasse, chegando até o momento atual, no qual as leis são parcialmente responsáveis pelos modos de ser no mundo da experiência (CP 7.514-515). Mais ainda, se a própria lei é fruto de evolução, ela sofre correções e desvios permanentes (CP 6.101).” Desse modo, o processo evolutivo pelo qual o músculo esquelético passou o coloca em um estágio em que a lei estabilizadora do hábito lhe confere uma aparente, mas não estrita, cristalização da conduta.

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Examine qualquer ciência que lida com o curso do tempo. Considere a vida individual de um animal, de uma planta ou de uma mente. Olhe para a história dos estados, das instituições, da linguagem, das idéias. Examine a sucessão de formas evidenciadas pela paleontologia, a história de nosso planeta narrada pela geologia e que o astrônomo é capaz de dizer no que concerne às mudanças do sistema solar. Por toda parte o fato primordial é o crescimento e a crescente complexidade. [...] Desses amplos e onipresentes fatos podemos satisfatoriamente inferir, por meio da lógica mais irrepreensível, que há, provavelmente, na natureza, algum princípio pelo qual a complexidade e diversidade das coisas podem crescer; e que conseqüentemente o domínio da necessidade mecânica encontra de alguma forma com a interferência. (CP 6.58).

No estado atual das coisas, podemos observar que no Cosmos, de forma geral, e no músculo, em especial, há uma conformidade com a lei, que está sendo constantemente desenvolvida devido à própria tendência do hábito em adquirir hábitos. (cf. CP 8.317). Subjacente ao processo aparentemente mecânico que se observa na contração de um músculo está o acaso, possibilitando a ele que adquira novos hábitos e evolua. O acaso ainda se faz notar, mantendo uma margem de indeterminação e de transformações muito significativas. (Cf. Silveira, 1985, p. 15).

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3 LEIS DO HÁBITO E INDETERMINISMO NA CONTRAÇÃO MUSCULAR

Na seção anterior o músculo esquelético e seus processos moleculares foram colocados à luz do Idealismo Objetivo de Peirce. Foi possível perceber-se que, ao longo do tempo, hábitos foram adquiridos de forma evolucionária pelo músculo. Propus, também, que, de acordo com o pensamento Peirceano, deveria haver uma margem à indeterminação e ao acaso, que não deveriam estar totalmente subjugados pela força da lei. No momento, procurarei discutir até que ponto o músculo teve seus hábitos estagnados. Para isso devo compreender como é sua conduta e, com a ajuda dela própria, verificar suas irregularidades.

Embora o modo pelo qual a interação molecular ocorre durante a contração não seja completamente conhecido (o que não poderia ser diferente), abordagens inter e multidisciplinares permitiram que se chegasse a uma idéia muito boa dos processos moleculares que levam à contração do músculo. (Cf. Alberts, et al., 1989, p. 613-614, Fox, Bowers, Foss, 1991, p. 68-69 e Junqueira, Carneiro, 1991, p. 114, por exemplo).

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um tipo de deslizamento do filamento de actina (fino) sobre o de miosina (grosso). Dessa forma, haverá uma diminuição no comprimento do músculo. (Cf. Figura 2).

FIGURA 2 - SARCÔMERO CONTRAINDO-SE:16 Os componentes contráteis de uma fibra muscular são formados por quatro tipos de proteínas (actina, miosina, tropomiosina e troponina) em dois conjuntos multimoleculares dispostos lado a lado: os filamentos grossos (miosina) e os filamentos finos (o complexo actina-tropomiosina-troponina). (Cf. Junqueira, Carneiro, 1990, p.148-149). A interação dos filamentos grossos com os filamentos finos é que possibilitará a contração muscular. Na primeira fase, o músculo está relaxado e seus filamentos finos (actina) e grossos (miosina) permanecem imóveis. Na segunda fase, os filamentos estão quase que totalmente sobrepostos (os filamentos nunca se sobrepõe totalmente), caracterizando um estado de contração máxima.

A contração muscular pode ser dividida em quatro grandes fases: a) repouso; b) excitação-junção; c) contração; e d) restauração-relaxamento. Em repouso, as pontes cruzadas não estão ligadas aos filamentos finos. As pontes cruzadas de miosina apontam para o filamento de actina sem tocá-lo. A ponte cruzada possui uma molécula de ATP (adenosina trifosfato) ligada a sua extremidade. Esse conjunto é chamado de complexo ATP-ponte cruzada "carregada". Na ausência de cálcio livre17, a troponina presente no filamento fino inibe a ligação entre a ponte cruzada e a actina. (Cf. Vieira, et al., 1995, p.371-372).

As fibras musculares estriadas são ativadas por nervos mielinizados, cuja origem é a medula espinhal. Tais fibras nervosas estimulam de três a várias centenas de

16 Figura retirada e adaptada de Alberts, et al. (1998).

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fibras musculares18. O ponto de ligação do nervo com a fibra muscular é chamado de junção neuromuscular (cf. Figura 3). Essa junção transmitirá um potencial de ação próximo ao ponto médio da fibra,19 que se propagará em direção às extremidades.20 (para maiores detalhes da função neuromuscular cf. Wilmore & Costill, 2001, p. 54-64 e Guyton & Hall, 1997, p. 79-85).

FIGURA 3 – ESQUEMA DE UMA JUNÇÃO NEUROMUSCULAR:21 nesse diagrama podemos observar um neurônio motor ligado ao músculo, formando uma placa motora.

A liberação de íons cálcio, provocada pelo potencial de ação, acarretará uma grande força atrativa entre os filamentos grossos e finos, provocando um deslizamento entre si. A ligação do cálcio à troponina, alterando sua conformação, possibilitará a ligação entre a ponte cruzada e a miosina. A ligação actomiosina ativará a ATPase (componente enzimático do filamento fino), que quebrará o ATP, presente na miosina, em ADP (adenosina difosfato) e Pi (fosfato inorgânico). Essa liberação de energia permite à ponte cruzada mudar de angulação em relação ao eixo central da miosina. (Alberts, et al., 1989, p.621-624). Ocorrendo isso, o filamento de actina deslizará sobre o de miosina.

18 O nervo motor e as fibras por ele supridas são coletivamente chamados de unidade motora.

19 A transmissão do potencial de ação da fibra nervosa para a muscular se dá, principalmente, por meio da secreção de acetilcolina dos terminais nervosos para a fibra muscular, despolarizando-a.

20 A forma como esta mensagem caminha no músculo é muito semelhante a de uma célula nervosa.

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Em algumas frações de segundos após os íons cálcio serem liberados no interior da célula muscular, eles serão reabsorvidos pelo retículo sarcoplasmático, esperando novo estímulo nervoso. Sem uma quantidade suficiente de cálcio, os filamentos de actina e de miosina perderão a capacidade de se manterem unidos, pois a troponina será desativada e o processo contrátil se desfará. (Guyton, Hall, 1997, p. 83-85).

Alguns poderiam até dizer que o processo de contração é apenas uma manifestação do determinismo biológico. Concordo que a conduta biológica do músculo esquelético é altamente estruturada, mas não é necessário pensarmos nela como algo essencialmente diferente do pensamento. Como foi possível ver-se, à página 16, a especialização da mente pode levá-la a uma conduta altamente regular. Sob a luz do pensamento Peirceano, essa rotina pode ser entendida como um hábito adquirido ao longo do tempo, cujo aparente determinismo mecânico não é absoluto. (Silveira, 1999). Se observarmos acuradamente os processos moleculares envolvidos na contração muscular, poderemos perceber que sua conduta não é assim tão rígida.

A natureza não é regular. Nenhuma desordem seria menos ordenada que o arranjo existente. É verdade que as leis especiais e as regularidades são inumeráveis, mas ninguém reflete sobre as irregularidades que são infinitamente freqüentes. Todo fato verdadeiro é relacionado a qualquer outro fato verdadeiro. Mas a imensa maioria dessas relações é fortuita e irregular. (CP 5.342). Mas não prestamos atenção às relações irregulares, como se não tivessem interesse para nós (CP 1.406).

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Milhares de interações químicas estão ocorrendo por todo o nosso corpo em cada minuto de nossa vida.22 As sucessões de estados bioquímicos se fazem de forma organizada e em múltiplas etapas denominadas rotas. O conjunto dessas interações, mediadas por relações enzimáticas, é chamado de metabolismo.23 (Cf. Powers, Howley, 199-, p. 22). Confira na Figura 4 um esquema das principais rotas metabólicas.

FIGURA 4ROTAS METABÓLICAS:24Ao menos quatro características principais das rotas metabólicas devem ser ressaltadas: a) as rotas são irreversíveis; b) cada fase de uma rota metabólica é comprometida com os metabólitos gerados em seu primeiro passo em busca do equilíbrio; c) muitas rotas metabólicas são controladas pela regulação das enzimas que catalisam sua primeira fase; esse tipo de controle previne a produção desnecessária de novos metabólitos ao longo da rota; d) nas células eucarióticas, as interações metabólicas ocorrem em locais específicos da célula (Cf. Voet, Voet, 1995, p. 414-415).

Cada passo das rotas metabólicas produz uma mudança química pequena, porém muito específica; geralmente são remoções, adições ou transferências de uma

22 Uma ótima página da web pode ser visitada para a visualização detalhada dos processos bioquímicos celulares: http://www.expasy.ch/cgi-bin/show_thumbnails.pl?2 (Celular and molecular processes).

23 Para informações mais detalhadas a respeito do metabolismo e do mapa metabólico cf. http://www.expasy.ch/cgi-bin/show_thumbnails.pl (Biochemical pathways) e cf. também o ótimo artigo de Jeong, Tombor, Albert, Oltvai, Barabasi (2000) a respeito da organização em larga escala da rede metabólica.

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molécula, grupo funcional ou, até mesmo, um átomo específico. Nessa cadeia de transformações um substrato precursor servirá de base para uma outra interação, por meio de mediadores metabólicos, os metabólitos. (Cf. Lehninger, Nelson, Cox, 1995, p.270).

Dessa forma, a interação entre as moléculas de um organismo é o que determinará, de algum modo e num determinado sentido, sua sobrevivência. Contudo, inversamente à posição determinista de que essa complexa rede de processos bioquímicos é fruto de uma determinação causal restrita, creio que uma investigação apurada nos mostre o contrário.

É fundamental percebermos que a seqüência de subunidades em uma macromolécula contém informação que determina o contorno tridimensional de sua superfície. Esses contornos, por sua vez, controlam o reconhecimento entre as moléculas, ou entre diferentes partes de uma mesma molécula, por meio de fracas ligações não covalentes. Moléculas estão constantemente em movimento e elas se reconhecem umas às outras graças, primeiramente, aos encontros baseados num processo de difusão randômica. Apenas após esses encontros casuais é que elas se ligarão umas às outras, com uma força que pode ser expressa em termos de uma constante de equilíbrio. No entanto, reações que são energicamente desfavoráveis acontecem ocasionalmente. O único meio de tornar reconhecimentos infalíveis é tornar a energia das ligações infinitamente grande, mas isso é impossível. Como conseqüência, as células vão cometer erros continuamente e terão que tolerá-los. Aqueles que forem intoleráveis serão corrigidos por um processo específico de reparo. Caso contrário, todo o sistema poderá entrar em colapso. Por outro lado, erros são essenciais à vida. Se não houvesse erros ocasionais na manutenção da seqüência do DNA, não ocorreria evolução. (Cf. Alberts, et al., 1989, p. 94-95 e p. 71, 97, 217-223; cf. também: Voet, Voet, 1995, p. 48).

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experimental que teve sua mente moldada por sua vida no laboratório (cf. CP 5.411), argumenta em favor da irregularidade da natureza:

Tente verificar qualquer lei da natureza e você descobrirá que quanto mais precisas suas observações, mais certamente elas evidenciarão afastamentos irregulares da lei. Nós estamos acostumados a atribuí-los, não digo erradamente, a erros de observação; não obstante, não podemos usualmente dar conta de tais erros por qualquer viés antecedente provável. Rastreie suficientemente suas causas e será forçado a admitir que elas se devem à determinação arbitrária ou acaso. (CP 6.46). [Ainda:] Naquelas ciências de mensuração que são menos sujeitas a erro – a metrologia, a geodesia e a astronomia métrica – nenhum homem que se respeita divulga seus resultados sem lhes afixar os erros prováveis; e se essa prática não é seguida em outras ciências é porque nelas os erros prováveis são demasiadamente grandes para serem estimados. (CP 1.9). Essa tendência ao erro, quando você a coloca sob o microscópio da reflexão, parece consistir nas variações fortuitas de nossa ação no tempo. Mas escapa à nossa atenção que em tal variação fortuita nosso intelecto é alimentado e cresce. Pois sem essa variação fortuita, a aquisição de hábitos seria impossível e o intelecto consiste na plasticidade do hábito. (CP 6.86).

O acaso, como uma presença objetiva no universo, pode soar aos ouvidos como algo de difícil aceitação, sofrendo de certo preconceito por parte daqueles que superficialmente o analisem. Talvez, uma “doutrina” que se embase em ações mecânicas ou leis perfeitas seja mais fácil de ser concebida e aceita devido à herança legada pelo positivismo. No entanto, a noção de Acaso, desde ao menos Aristóteles, tem sido muito tranqüilamente aceita. “Para os antigos, nada havia de estranho em tais noções; elas eram corriqueiras; estranho seria considerar que não havia acaso” (CP 1.403).

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mais propenso a surgir. Isso parece, pois, com as forças não conservativas da física, tais como a viscosidade e outras semelhantes, que são devidas a uniformidades estatísticas no encontro casual de trilhões de moléculas. (CP 6.23).

Num universo que fosse exclusivamente regido por leis mecânicas estritas, por outro lado, os fenômenos musculares somente poderiam interagir por meio das vicissitudes da ação e reação. Assim, cada componente muscular seria afetado por outro componente não como participante da relação, mas na medida que é oposto a ele. Tal relação se daria de forma indiferente ao passado, ao futuro e ao presente como peculiaridades do contínuo temporal.

Para Peirce, as leis mecânicas indicam com precisão um determinado resultado. Isso poderia ser facilmente provado pela mecânica analítica. No entanto, isso não é necessário, uma vez que podemos notar facilmente, por nós mesmos, que a lei “prescreve resultados semelhantes sob circunstâncias semelhantes. Isso é o que a palavra lei implica.” (CP 1.161).

Assumir tal noção nos remeteria a um universo que não deixa espaço ontológico para propriedades importantes da conduta biológica, tais como: aprendizado, evolução, adaptação e, ainda menos, para a espontaneidade, criatividade e liberdade. Tais aspectos estariam excluídos dos processos metabólico-musculares ou de qualquer conduta biológica, pois a lei e a força bruta, conceitualmente, são incapazes de originar algo novo e espontâneo. (Cf. CP 7.521 e 1.161).

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Por outro lado, presumir um mundo regido por leis causais absolutas e que fosse indeterminável epistemologicamente, nos levaria a aceitar o incognoscível. Admitir uma explicação que presume algo capaz de escapar à razão, implica uma contradição lógica com a própria função da explicação (predizer a conduta do objeto). "Então, supor algo inexplicável não é apenas falhar em explicá-la e, assim, elaborar uma hipótese injustificável, mas, muito pior, é estabelecer uma barreira no caminho da ciência e proibir toda tentativa de entender o fenômeno." (CP, 6.171).

...Não há razão para pensarmos que todo fenômeno, em todos os seus detalhes mais minuciosos, seja precisamente determinado pela lei. Vemos que há um elemento arbitrário no universo – a saber, sua variedade. Essa variedade deve, de alguma forma, ser atribuída à espontaneidade. (CP 6.30).

Resta-nos então, assumir, que o único modo possível de explicação para as leis da natureza e para a uniformidade em geral é supô-las resultado da evolução. Passa-se a admitir leis que não são absolutas, que não são precisamente cumpridas. Isso introduz um elemento de indeterminação, espontaneidade, ou acaso na natureza. (CP 6.13). Desse modo, podemos pensar que, se por um lado as leis não são absolutas, por outro, o acaso não é a extinção de todas as leis (CP 7.136).

Não resta dúvida que, para Peirce, ambas mente e matéria são compostas a partir da tendência à aquisição de hábitos e pela precipitação do acaso (cf. Silveira, 1985, p. 16). Para Peirce (CP 6.148), na verdade “... a mente não está sujeita à ‘lei’ no mesmo sentido rígido que a matéria está. Ela somente experimenta forças suaves que a tornam mais tendentes a agir de um modo que de outro. Sempre permanece uma certa porção de espontaneidade arbitrária em sua ação, sem a qual morreria.”

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4 CONTRAÇÃO MUSCULAR E OS DOIS TIPOS DE CAUSAÇÃO

Ao observar o músculo esquelético somos levados a pensá-lo como detentor de um princípio geral ou regra ativa, não uma mera disposição ou uma regra restrita (cf. CP 2.170, 2.643). Ou seja, detentor de hábitos, que são tendências adquiridas para que a conduta assumida seja similar em circunstâncias similares no futuro (cf. CP 5.487). Se observarmos acuradamente os fenômenos musculares, poderemos perceber que suas condutas futuras se darão por meio de constantes interpretações e escolhas baseadas em sua história ontogenética e em suas necessidades imediatas.

As qualidades requeridas pelo modo de ser dos sistemas biológicos inserem o músculo esquelético em um conjunto de variações temporais e evolutivas que o coloca em um estado constante de economia de energia. Isso porque os organismos biológicos são sistemas abertos e, portanto, não podem estar em equilíbrio (ao menos em equilíbrio absoluto). Eles devem continuamente dissipar energia livre para suprir suas necessidades (movimento, alimentação, reprodução, auto-reparação, entre outras). (Cf. Voet, Voet, 1985, p. 437-440).

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manutenção da homeostase (steady state)25 de suas células de acordo com o princípio

‘um por todos e todos por um’. Para que isso ocorra, uma troca incessante de materiais entre o meio extracelular e o intracelular se faz necessária.

Esse processo é complexo, ainda mais quando um esforço físico vigoroso repentinamente aumenta em várias vezes tais trocas (como acontece, por exemplo, com o metabolismo energético que pode aumentar em 30 vezes ou mais durante uma atividade física). (Astrand, Rodahl, 1980, p. 1). O exercício e fatores ambientais tendem a desequilibrar ou quebrar o estado homeostático do organismo, o qual, em repouso, costuma ser mantido relativamente constante (Fox, Bowers, Foss, 1991, p.420).

Contudo, não há estresses normais que se quer cheguem perto daqueles provocados pelo exercício físico intenso. Veja, por exemplo, a comparação entre uma pessoa com febre altíssima (próxima ao nível de letalidade) e um corredor durante uma maratona. Na primeira, o metabolismo alcança níveis em torno de 100% acima do normal, enquanto o corredor, para manter seus músculos ativos, pode alcançar um metabolismo aumentado em até 2000% acima do normal. (Guyton, Hall, 1997, p. 967).

Os músculos esqueléticos podem suportar uma variação em sua taxa metabólica num grau muito maior que qualquer outro tipo de tecido. Ao longo de um trabalho muscular, os processos oxidativos podem aumentar em até 50 vezes, em relação ao repouso. Isso acarreta alguns problemas à célula muscular, uma vez que a necessidade de combustíveis e oxigênio devem ser aumentas, do mesmo modo que devem ser aumentados os níveis de remoção de calor, dióxido de carbono, água, catabólitos, entre outros. (Astrand, Rodahl, 1980, p. 3).

O metabolismo de um organismo deve ser coordenado de forma a proporcionar condições para a manutenção da homeostase, por meio de estratégias que compensem as variações das condições externas e internas, buscando a manutenção de seu estado de equilíbrio dinâmico. Perturbações na homeostase provocam fluxos temporariamente alterados nas rotas metabólicas individuais. Tais alterações disparam processos

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reguladores que têm o propósito de corrigir a conduta e alcançar um novo estado homeostático. (Cf. Lehninger, Nelson, Cox, 1995, p.6 e 314).

A atividade física vigorosa provoca uma série de reações metabólicas que degradam substratos energéticos (proteína, carbohidratos e gorduras) em ATP (adenosina trifosfato), fornecendo energia para a contração muscular. Isso só é possível graças à interação, ao menos, entre o tecido muscular, fígado, tecido adiposo, sistema endócrino e sistema nervoso para a manutenção dos níveis séricos adequados de glicose e ácidos graxos livres, para o aporte adequado de ATP ao longo da atividade muscular. (Cf. Vívolo, Fioretti, 1999, p. 98-99).

As atividades musculares requerem a integração coordenada de muitos sistemas bioquímicos. Rotas metabólicas devem ser alteradas a fim de fornecer os substratos necessários à conduta a ser assumida, sem que ocorra uma alteração perigosa da homeostase orgânica. Tal integração é possível somente se vários tecidos e sistemas do corpo puderem se comunicar adequadamente uns com os outros. (Cf. Wilmore, Costill, 1994, p.124. Verificar também Douglas, 1999, p. 135, Junqueira, Carneiro, 1991, p.100-110, Fox, Bowers , Foss, 1991, p. 428).

Ao falar que as atividades musculares requerem a integração coordenada de muitos sistemas bioquímicos e fisiológicos, que a contração muscular é mediada por uma intrincada rede de mensageiros extra e intracelulares e por um sofisticado e poderoso aparato protéico, falo em uma integração que não ocorre de uma única e privilegiada maneira. Pelo contrário, ocorre por uma adaptação das formas de conduta a um meio em constante mutação, a fim de que o organismo possa manter um estado geral que melhor lhe proporcione as condições homeostáticas que lhe são necessárias.

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estrutura lógica em comum. Assim, estamos falando a respeito de uma tendencialidade, que só pode ser compreendida sob a luz da causação final. (Cf. Santaella, 1992, p. 78-80).

Porém, antes de discutirmos a noção Peirceana de causação final, é importante termos em mente que para Peirce há dois tipos universais de causalidade no Cosmos (CP 6.329-32). De um lado, há a causa final. Triádica em sua essência, ela é um tipo de ação que visa ao futuro, sendo governada por uma lei generalizadora que se identifica com a Terceira categoria fenomenológica26 (cf. CP 1.328 e 1.381). Por outro lado, há a causa eficiente. Diádica por natureza, ela tem por característica a força bruta, não possuindo qualquer comprometimento com o futuro. A causa eficiente está vinculada à Segunda categoria fenomenológica27 (cf. CP 1.24 e 8.330).

Ao tentarmos entender a noção de causalidade proposta por Peirce sob a luz das categorias Cenopitagóricas,28 poderíamos ser levados a pensar que haveria uma forma de ação vinculada à primeira categoria. Mas isso seria um erro, pois essa categoria é pura possibilidade, cuja incondicionalidade a coloca anterior a qualquer ação (cf. CP 1.302 e 5.44). “A idéia de primeiro é predominante nas idéias de novidade, vida, liberdade. Livre é aquilo que não tem outro atrás de si determinando suas ações...” (CP 1.302). Voltemos, contudo, às noções de causalidade, deixando para uma discussão posterior o papel da Primeiridade no desenrolar da ação muscular.

Para Santaella (1992, p. 78-79), Peirce, como Aristóteles, não restringe a noção de causa final aos processos conscientes e, também, não os considera como uma força atual. Ambos entendiam que uma causação final é de natureza geral, pode ser observada e não pode atuar sem a cooperação de causas eficientes. É importante notarmos que

26 “A terceira categoria é a idéia daquilo que é tal como é por ser um Terceiro, ou Meio, ente um Segundo e seu Primeiro (CP 5.66). Então, Terceridade nada mais é que o caráter de um objeto que incorpora a Qualidade de Estar Entre, ou Mediação, nas suas formas mais simples e rudimentares; e eu a uso como nome daquele elemento do fenômeno que é predominante onde quer que Mediação seja predominante e que encontra sua plenitude na Representação (CP 5.104). (Cf. também CP 8.330, 5.459)”.

27 A Segundidade é a categoria que tem no seu modo de ser o fato atual, objetivo. Ela está vinculada às relações que mantém dentro do universo da experiência, sendo essas relações puro fato bruto. Uma experiência privada de objetivo, é ação e reação, esforço e resistência. (CP 1.24, 8.330; cf. também, CP 5.459, 6.140).

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Peirce, ao contrário de Aristóteles, não aceitava que a influência da causa final estava ligada a uma divindade ou a um tipo de atividade primeira e pura ou a alguma divindade.

Do mesmo modo não era simpático com as idéias teleológicas de Kant e o determinismo adotado desde ao menos Hume. Peirce propôs uma nova e extremamente original teoria da causalidade baseado em suas categorias fenomenológicas e metafísicas, devendo ser considerada sob este ponto de vista. (Cf. Santaella, 1999).

Sendo assim, causa final deverá ser entendida como o modo pelo qual as coisas são levadas a acontecer, absolutamente independente de qualquer imposição para que isso aconteça de uma ou outra maneira particular, mesmo quando os meios se adaptam aos fins. Isso porque o resultado geral pode ser produzido de um modo em um momento e de outro modo em outro momento. A causação final não determina de que modo particular o resultado será alcançado, mas somente que esse resultado geral deverá ter um certo caráter geral. (Cf. CP 1.211).

Perceba que, no músculo, o processo fisiológico envolvido na metabolização de combustíveis orgânicos é marcado pela tentativa de se manter o equilíbrio entre o fornecimento de energia e sua utilização para o movimento. Um complexo jogo, cujas relações permitem a escolha dos substratos que melhor correspondam ao tipo de necessidade que o exercício impõe. Dos vários nutrientes absorvidos pelo organismo, apenas a proteína, o carbohidrato e a gordura são utilizados como fonte energética. A participação desses combustíveis na produção de energia dentro da célula muscular não se faz de maneira igual. A utilização da proteína como fonte energética, para o exercício físico, é praticamente desprezível, uma vez que ela somente será mobilizada em quantidade muito pequena e em casos especiais: dietas radicais, subnutrição, ou quando uma quantidade excessiva desse nutriente é absorvida29. Com isso, o fornecimento de

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energia fica quase que restrito às gorduras e carboidratos. (Cf. McArdle, et al., 1991, p. 80 e Weineck, 1986, p. 19-22).

O percentual que cada um desses substratos assumirá no processo de geração de energia será determinado pelo tipo de atividade (intensidade e duração) a qual o músculo é exposto, pelo nível de aptidão física do indivíduo, pelo seu estado nutricional e de saúde, pelos fatores ambientais e, ainda, pela disponibilidade de oxigênio, pela atividade das taxas-limite de enzima, pelos níveis de hormônio no plasma e pela disponibilidade dos substratos energéticos. (Cf. Maughan, Gleeson & Greenhaff, 2000, p. 29-34).

Entretanto, a energia desses substratos não é usada diretamente ao longo do trabalho muscular. A energia dos nutrientes é convertida em ATP (adenosina trifosfato)30 e estocada na célula muscular (numa proporção de 5 Mmol/Kg). A energia do ATP é que será utilizada em todos os processos da célula que necessitam de energia. O exercício exigirá que as rotas metabólicas de produção de ATP sejam incrementadas de forma significativa. Para que isso ocorra, três sistemas de conversão de energia são utilizados, a saber: sistema fosfagênio (sistema ATP-CP), sistema glicolítico anaeróbico (sistema do ácido lático) e sistema aeróbico. (Cf. Wilmore, Costill, 2001, p. 120-127).

O sistema ATP-CP é responsável por fornecer energia em atividades de curta duração e alta intensidade (como uma corrida de 100 metros ou uma prova de arremesso de peso). A energia liberada pela quebra da molécula de ATP será reconstituída pela transferência de um fosfato a partir da fosforocreatina (CP) estocada na célula (numa proporção de 15 Mmol/Kg, ou mais). Esse processo não envolve oxigênio ou nutrientes externos à célula. (Cf. McArdle, et al., 1991, p. 80).

O sistema Ácido-láctico utiliza, predominantemente, tanto a glicose sangüínea quanto o glicogênio muscular e hepático para a glicólise. No entanto, esse processo, por

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ser anaeróbio, acarreta um acúmulo de ácido láctico. Grandes quantidades desse composto prejudica o próprio trabalho muscular, ficando sua utilização restrita a apenas alguns minutos (de 1 a três min.). (Cf. Willmore & Costill, 2001, p-122-123).

O sistema aeróbico (oxidativo), por sua vez, é utilizado em atividades de média a longa duração (acima de três minutos). Esse sistema promove uma glicólise 10 vezes, aproximadamente, mais eficiente que no sistema lático. Mas, os processos oxidativos dependem da presença de oxigênio. Quando os níveis de glicogênio estão baixos (após 30 min. de atividade, aproximadamente) a gordura passa a ser o substrato que, predominantemente, dará origem ao ATP. Mas é bom frisar que o glicogênio, mesmo após um longo período de atividade, será requerido sempre que uma contração vigorosa ocorrer (por exemplo, o sprint final de uma corrida de 5000 metros). (Cf. Weineck,

1986, p. 19-22). Para uma visão geral da integração desses vários sistemas, confira a Figura 5.

FIGURA 5 – CURSO DO TEMPO DA CONTRIBUIÇÃO DOS DIFERENTES SISTEMAS DE ENERGIA:31

Podemos perceber, com o que apresentei até aqui e com auxílio da Figura 5, que a conduta do músculo esquelético está intimamente ligada à complexos fatores internos e externos ao organismo. A cada momento, diferentes estratégias bioquímicas são assumidas. Não há nenhum modo particular de conduta pré-determinada. O que há é uma regra geral, com força de lei, que direcionará a conduta do organismo em busca de um fim último, que deve ser alcançado para que todo o organismo possa usufruir de seu bem.

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Mas, onde se encaixa a causação eficiente dentro dessa complexa organização? Bem, a causação eficiente, para Peirce, é uma compulsão determinada pelas condições particulares das coisas, agindo de forma a alterar uma situação de modo perfeitamente determinado. O caráter geral do resultado não poderá ser relacionado à causação eficiente. (Cf. CP 1.212). Isso porque a causa eficiente é um fato, não há nada de geral nisso. Esse tipo de causação é, entendida de acordo com as categorias fenomenológicas de Peirce, força bruta irracional. Ela é um acontecimento que se força sobre a conduta e lhe impõe uma mudança sem qualquer mediação. (CP 1.24, 8.330).

Ao observarmos a ligação de proteínas de actina (complexo actina) às proteínas de miosina em laboratório, nos restringindo à ação de uma sobre a outra, sem levarmos em conta qualquer tipo de mediação e sem considerar qualquer tipo de lei de ação, estaremos visualizando um estado de esforço e resistência, no qual uma proteína impor-se-á sobre a outra. Tal relação será única, não importando o quanto possa ser parecida a outros acontecimentos que tenham surgido ou venham a surgir. Como uma causação eficiente, ela será uma compulsão cega, ocasião singular, não racional, uma ação efetiva.

Contudo, de acordo com Santaella (1999, p. 502), a causação eficiente não pode ser confundida com causalidade determinística. A causa eficiente é mais ampla do que a noção positivista do tipo “se A então B”.32 No entanto, essa diferença sutil somente será entendida ao entendermos qual é a noção de força bruta empregada nos textos de Peirce. Em um fragmento do inacabado livro "Minute Logic" (CP 2.84), Peirce

nos faz notar que:

Há uma binariedade na noção de força bruta; é seu principal ingrediente. Pois a idéia de força bruta é pouco mais do que a de reação, e essa é pura binariedade. Imaginemos dois objetos que não são apenas

pensados como sendo dois, mas dos quais algo é verdadeiro de tal forma que nenhum deles poderia ser removido sem destruir o fato que se supõe ser verdadeiro quanto ao outro. [...] Uma força bruta é apenas a complicação de binaridades. Supõe não apenas dois objetos relacionados, mas sim que, além deste estado de coisas, somando-se a esse, existe um segundo estado subseqüente. Supõe, além do mais, duas tendências, uma, de um dos relatos, tendendo a mudar a primeira relação em um sentido no segundo estado; a

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outra, do outro relato, tendendo a mudar a mesma relação num segundo sentido. Ambas essas mudanças de alguma forma se combinam, de tal modo que cada tendência é em algum grau seguida e em algum grau modificada. Isto é o que queremos dizer por força. É quase binariedade pura. A

brutalidade consistirá na ausência de qualquer razão, regularidade ou norma que poderia tomar parte na ação como elemento terceiro ou mediador.

Dessa forma, na relação entre as proteínas de actina e as de miosina, como vimos na página anterior, a ação será mútua, cada qual sendo modificada e sendo modificadora da outra. Tal noção de causalidade difere da visão positivista, uma vez que a necessidade envolvida é diferente. A noção de causa eficiente está muito mais próxima da compulsão fatual; ela é efetivamente bruta. (Cf. Santaella, 1992, p.78).

Nesse momento, poderia ser questionado a respeito da relação entre a causação final e a causação eficiente. De fato, esse é um ponto fundamental para entendermos a conduta do músculo. Afinal, a integração de ambas é que permitirá uma conduta adequada. Perceba que, para Peirce, causação final é ação exercida por uma lei, que é geral e por essa razão não é uma força. Uma lei sem força que a imponha será uma corte sem xerife (CP 1.213). O modo de ação da causa final, não estando vinculada à força bruta, é uma tendencialidade futura. Desse modo, sem a causa eficiente, a causa final não está apta a agir. Mas, a causa eficiente sem a causa final é ainda pior, é mero caos, sem a causa final ela não é coisa alguma. (CP 1.220).

Não me parece difícil, ao observar a conduta de um músculo, entendermos a relação entre as causações eficientes e finais. Vejamos o exemplo dado para discutirmos a causação eficiente. A relação actomiosina, por um lado, se apresenta como uma relação compulsiva, sem razão aparente. No entanto, quando discutimos o caráter dessa relação, eu sugeri que não se levasse em conta qualquer outro fator que não a relação entre as duas proteínas (complexo de actina e a miosina). Dessa forma, pude acentuar as propriedades da causação eficiente.

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energética, liberando o sítio ativo da tropomiosina e permitindo a ligação com a ponte cruzada. Isso, do ponto de vista Peirceano, é causação final à medida que a relação actomiosina requer uma conformação apropriada para sua efetivação. Ou seja, o complexo de actina, mediado pela ação dos íons cálcio, buscará uma conformação (forma) que perfeitamente alcance o fim a que se destina. Essa tendência teleológica de busca da perfeição da forma é uma regra geral de conduta, é hábito, pelo qual a causação final é a responsável. (Cf. Silveira, 1985, p. 17).

O hábito, porém, não corresponde tão somente a determinação tendencial da conduta pelo fim. Generalizando ações passadas pela representação das mesmas, é também a presença da uniformidade efetiva do universo, a relação inversa do acaso. Por essa efetividade, o hábito atualiza-se na ação do sujeito, que colhe toda sua inteligibilidade do primeiro, o hábito exerce também causação eficiente. (Idem).

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5 EXPRESSÃO CRIATIVA COMO PARTE DO CONTÍNUO TEMPORAL

No capítulo anterior pude discutir a respeito das duas forças atuantes na conduta muscular: a força bruta (causação eficiente) e a força de lei (causação final). Falei sobre o caráter dual da causação eficiente, evidenciando sua brutalidade e sua singularidade. Do mesmo modo, discuti a caução final, cuja capacidade de generalização do fato bruto permite ao músculo estabelecer suas normas de conduta em busca de um fim último. Nesse capítulo, por sua vez, trataremos da Primeiridade e o espaço por ela ocupada na conduta muscular.

Afirmei, na página 33, que seria um erro pensar que um elemento vinculado à Primeiridade pudesse atuar na contração muscular como força compulsiva ou como lei geral. Considerar algum tipo de causação vinculada à novidade, à espontaneidade, à liberdade seria uma contradição lógica com a própria concepção dessas palavras. Veja que para Peirce:

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em nada além disto e que é de si mesma tudo o que ela é. (CP 1.306). Um sentimento é um estado, que assim é em sua totalidade, em todo momento de tempo e na medida em que ele dure. (CP 1.307).

Com essas palavras, Peirce elimina da primeira categoria fenomenológica qualquer traço de compulsão bruta ou de racionalidade mediativa. Nessa categoria, o estado pelo qual o músculo experimenta o novo, a liberdade, a espontaneidade não depende de qualquer tipo de força ou imposição, ainda que em sua vida ordinária ele só encontre essa talidade (suchness)33 em meio a uma rede de determinações34. (Cf. Silveira, 2000). Sendo assim, antes de discutir o papel da Primeiridade na conduta racional do músculo, cabe perguntar quais seriam as qualidades primeiras do músculo?

O próprio Peirce nos dá um caminho para a resposta a essa pergunta. No texto “A Guess at the Riddle” de 1890, em um de seus tópicos denominado The Triad in

Physiology (CP 385-394), Peirce sugere, de forma aproximada, que na conduta das

células nervosas poderiam ser encontradas operações que serviriam de base para atividades mentais. Sugere, também, que na estrutura bioquímica do protoplasma35 dessas mesmas células poderiam ser encontradas operações sensíveis, caracteristicamente monádicas. (Cf. Silveira, 2000)

A combinação de ações excitatórias e inibitórias das cargas eletroquímicas produzidas e recebidas pelas células nervosas, acrescidas da presença do efeito fadiga sofrido por uma célula após um certo tempo de duração de uma excitação, procura-se explicar como surgem fenômenos relacionalmente monádicos, característicos dos sentimentos (feelings)... (Cf Silveira, 1996, p. 73).

Assim, seguindo a trilha deixada por Peirce, podemos inferir que, num nível mais macroscópico, a excitabilidade e a contratilidade, entre outras importantes capacidades fisiológicas do músculo, poderiam ser consideradas propriedades monádicas. Perceba que o músculo, embora em repouso (desativado), se encontra, do ponto de vista energético, pronto para a contração (cf. Voet, Voet, 1995, p. 1247). Essa

33 Sucheness (Talidade) é o termo usado por Peirce para designar aquele aspecto de toda qualidade de sentimento que fará do fenômeno ser absolutamente primeiro. (CF Ibri, 1992, p. 11).

34 Cabe lembrar que estou falando de determinações baseadas nos dois tipos de causação, de forma alguma me refiro ao determinismo mecanicista.

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qualidade que o músculo possui de estar “pronto para”, sem qualquer relação com um outro e sem qualquer mediação, me parece uma qualidade tipicamente primeira.

É importante notar que, embora o músculo possua um grande número de elementos que o constitui, estando eles relacionados entre si, não é esse aspecto que estou observando. Meus olhos estão observando a potencialidade que o músculo possui para uma conduta, que também se encontra na esfera da possibilidade. O exame que estou propondo se volta, dessa forma, para aquelas qualidades que podem se atualizar no futuro, mas que não necessariamente se atualizarão. Para Peirce (CP 8.329), uma qualidade que se mostre mera possibilidade positiva de surgimento é uma Primeiridade.

Em níveis mais microscópicos, por outro lado, também podemos identificar qualidades do tipo que acabamos de expor. Veja os íons cálcio: eles possuem uma potencialidade, expressa por meio de sua carga energética, que pode levá-los a estabelecer uma relação, que também é pura potencialidade, com vários outros elementos do organismo.36

Ao aceitar que a Primeiridade é possibilidade de surgimento de uma qualidade e que essa possibilidade não está relacionada a quaisquer outros elementos, acredito que cada um dos elementos participantes da contração muscular também apresentam essa talidade. Creio que não há necessidade alguma de se pensar que essa qualidade monádica apareça apenas em algumas instâncias privilegiadas. Pelo contrário, o sensível é primeiro e permeia todas as esferas do cosmos.

A Primeiridade, a Segundidade e a Terceiridade mantêm entre si relações includentes, não podendo jamais ser consideradas partes totalmente distintas de um fenômeno. Peirce deixa muito claro que a característica que um fenômeno apresenta, na verdade, é “predominante” em relação às outras. (cf. CP 1.302, 1.325, 1.338).

(43)

Essas categorias estão vinculadas de maneira tal que a Terceiridade, como elemento de generalidade, supõe a Segundidade, como elemento de fatualidade. Do mesmo modo, a segunda e a terceira classe de fenômenos exigem a idéia de Primeiridade, como elemento de potencialidade. (Cf Silveira, 1996).

Essa breve discussão a respeito das características fenomenológicas do músculo mostra que a lei e a força bruta, conceitualmente, são incapazes de originar algo novo e espontâneo. Portanto, somente aquilo que se apresenta como um primeiro pode dar conta dessa peculiaridade do músculo. Com referência à primeira categoria, pode-se dizer que o acaso é o responsável pelo surgimento, ao nível da realidade, de condutas musculares originais e espontâneas. (Cf. CP. 7.521, 1.161).

À luz da doutrina das categorias, parece-me que o entendimento das relações entre o fato bruto, a norma futura de conduta e a espontaneidade na contração muscular está vinculada à aceitação de que, num cosmos evolucionário, uma mente que aprende com a experiência é uma inteligência que se articula no tempo. (Cf. Silveira, 1983, p. 15).

+

Experiência vivida

-

Tempo

+

Leis para a conduta futura

Presente Potencial Livre e Poético

FIGURA 6 – RELAÇÕES ENTRE PASSADO, PRESENTE E FUTURO NA CONTRAÇÃO MUSCULAR: O grau de insistência tanto do passado quanto do futuro sobre o presente fica maior quanto mais próximo estiverem dele.37

(44)

Perceba que o passado, na ação muscular, é aquilo que lhe foi legado pela experiência. A herança transmitida ao músculo é um aglomerado de acontecimentos (exercício, condições ambientais, entre outros) sobre os quais não se tem qualquer persuasão. “Se você se queixar ao passado que ele está errado e não é razoável, ele se rirá. Sua força é bruta (CP 2.84).” A experiência é força bruta que se impõe sobre o pensamento.

O passado age sobre nós da mesma forma que um objeto o faz são fatos que se forçam sobre o músculo, levando-o a mudanças de conduta. (CP 8.330, 5.459 e 6.140). Segundo Peirce (CP 1.324), “estamos continuamente colidindo com o fato duro. Esperávamos uma coisa ou passivamente tomávamo-las por admissível e tínhamos sua imagem em nossas mente, mas a experiência força essa idéia ao chão e nos compele a pensar muito diferentemente.”

Contudo, devo lembrar que somente a razão poderá determinar as leis gerais pelas quais serão efetivadas as novas condutas do músculo. A razão exercerá sua ação causal na medida que planejar a conduta futura do músculo, estabelecendo as leis que determinarão as circunstâncias ou condições em que tal conduta poderá ter lugar. (cf. Silveira, 1983, p. 15). Essa forma de ação só é possível por meio da mediação, uma forma de generalização imprescindível ao pensamento. Esse jogo de relações tem em seu fluxo a temporalidade, que permite a expansão da razoabilidade do universo.

O único momento em que o músculo pode ser, apropriadamente, considerado espontâneo, irredutível à experiência passada e ao futuro provável, é o momento presente. Nesse momento se encontra toda a multiplicidade de possibilidades de efetivação de uma conduta futura. Não há qualquer imposição pré-determinada, ou privilegiada, pelo passado ou pelo futuro. (Cf. CP 8.329).

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nova, embora esteja ligada ao passado como experiência e às infinitas determinações futuras da lei. (Cf. Silveira, 1983, p. 15-16).

Pode-se observar essa relação entre o fato, a lei e o espontâneo quando um músculo é exposto a uma atividade (fato bruto). Quando isso ocorre, haverá um grande decréscimo em sua capacidade de realizar esforço, devido à queda do potencial energético muscular. Logo após o exercício seguirá um processo conhecido por supercompensação. Nesse processo supercompensatório, as reservas energéticas serão repostas a um nível superior àquelas encontrados antes da sobrecarga. (Cf. Maughan, Gleeson, Greenhaff, 2000, p. 179-209, Wilmore, Costill, 2001, p. 184-201, Weineck, 1986, 10-11).

Figura 7 – FASES DA MODIFICAÇÃO DA CAPACIDADE DE REALIZAR CONTRAÇÕES DEPOIS DE ESTÍMULOS DE CARGA.38

A fase 1 do diagrama nos mostra um forte decréscimo na capacidade de um músculo contrair-se. Essa fase corresponde a um momento de atividade intensa a que o músculo é submetido (por exemplo, um trabalho com pesos). Esse momento é marcado pelo rompimento de um estado homeostático, pois a experiência de resistência oferecida pelo trabalho com cargas é um ‘ruído’ que abala o equilíbrio fisiológico do músculo. Essa experiência é força bruta, é algo que se impõe ao músculo de forma compulsiva.

A Figura 7, também nos mostra uma fase de recomposição da capacidade contrátil do músculo (fase 2) e um aumento dessa capacidade acima do estado inicial

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(fase 3). A evolução da curva de recuperação após o exercício intenso (fases 2 e 3) mostra, de maneira esquemática, como o músculo irá se preparar para uma experiência futura. Esse novo hábito, cuja natureza é generalizadora da experiência, permitirá ao músculo suportar, de forma mais econômica, uma exigência motora daquele tipo apresentado ao longo do exercício.

Caso a experiência futura não corresponda às expectativas do músculo, ele poderá se adaptar novamente. Se não houver outra sobrecarga, a capacidade de performance do músculo retornará ao estado inicial (fase 4 do diagrama acima exposto). Mas, se houver uma carga igual ou superior àquela experimentada ao longo da atividade, o músculo irá, respectivamente, manter ou expandir sua capacidade contrátil.

A adaptação do músculo às experiências nem sempre ocorre de forma uniforme. Muitos são os fatores que podem influenciar a escolha de uma norma de conduta que possa satisfazer adequadamente as exigências impostas pela experiência. Entre essas influências há fatores endógenos (por exemplo, fatores bioquímicos) e exógenos (por exemplo, fatores climáticos) que deverão ser levadas em conta, pois eles mesmos são parte da experiência (cf. Figura 8).

FIGURA 8 – FATORES QUE INFLUENCIAM A ADAPTAÇÃO MUSCULAR39

Uma vez concretizada a experiência de um esforço acima daquela que normalmente o músculo está habituado, associado aos diversos fatores apresentados na

39 Figura adaptada de Weineck, 1986, p. 26.

Referências

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