ASPECTOS NEUROLÓGICOS E ELETRENCEFALOGRÁFICOS DA
TOXOPLASMOSE
ADHEMAR M . FIORILLO * JORGE ARMBRUST FIGUEIREDO * *
R U B E N S MOURA R I B E I R O * * *
Desde 1937, quando Wolf e Cowen
1 8demonstraram a ocorrência da
to-xoplasmose na espécie humana, numeroso grupo de investigadores,
consti-tuído principalmente por obstetras e pediatras, passou a se interessar pelo
problema, em razão de natureza predominante congênita da moléstia.
En-tretanto, a forma tardia da toxoplasmose com acometimento visceral,
mus-cular, ocular e do sistema nervoso, evidencia em geral um quadro clínico
discreto ou, na maioria das vêzes, assintomático
12, 1 5. N o que diz
respei-to ao sistema nervoso, a dificuldade do diagnóstico da respei-toxoplasmose,
decor-rente da impossibilidade de se demonstrar in vivo o comprometimento
cere-bral dos pacientes, torna necessária a utilização dos exames subsidiários
com intuito de obter apoio mais objetivo à suspeita clínica.
A oportunidade que tivemos de observar os aspectos neurológicos em
um grupo de pacientes com toxoplasmose, permitiu-nos realizar um estudo
descritivo e assinalar de maneira objetiva as alterações verificadas.
M A T E R I A L E M É T O D O S
O m a t e r i a l c o n s t a de 30 p a c i e n t e s c o m t o x o p l a s m o s e , c o m p r o v a d a p e l a p r e s e n ç a de c o r i o r r e t i n i t e e p e l a p o s i t i v i d a d e da r e a ç ã o S a b i n F e l d m a n . N o q u a d r o 1 f i g u r a m os d a d o s r e l a t i v o s à i d e n t i d a d e , s e x o e i d a d e dos p a c i e n t e s , a s s i m c o m o os r e -s u l t a d o -s da r e a ç ã o d e S a b i n - F e l d m a n cujo-s t í t u l o -s v a r i a r a m d e 1/64 a t é 1/8000.
C o m p l e m e n t a n d o os e x a m e s c l í n i c o s e n e u r o l ó g i c o s f o r a m f e i t a s r a d i o g r a f i a s do t ó r a x e do c r â n i o , e x a m e d o l í q u i d o c e f a l o r r a q u e a n o e e l e t r e n c e f a l o g r a m a . A s r e a ç õ e s s o r o l ó g i c a s d e W a s s e r m a n n , de M a c h a d o G u e r r e i r o e de f i x a ç ã o d e c o m p l e -m e n t o p a r a b r u c e l o s e f o r a -m n e g a t i v a s e -m t o d o s os casos.
R E S U L T A D O S
O e x a m e de l í q u i d o c e f a l o r r a q u e a n o f o i n e g a t i v o e m t o d o s os casos. O e x a m e r a d i o l ó g i c o m o s t r o u c a l c i f i c a ç õ e s i n t r a c r a n i a n a s e m 3 ( c a s o s 1, 2 e 7 ) . O e x a m e n e u r o l ó g i c o n a d a m o s t r o u e m 25 c a s o s ; e m 4 casos ( 8 , 11, 16 e 2 4 ) h a v i a e s t r a b i s
m o e, e m u m ( c a s o 4 ) , foi a s s i n a l a d a d i m i n u i ç ã o d o r e f l e x o c o r n e a n o à e s q u e r d a . N e n h u m p a c i e n t e a p r e s e n t a v a crises c o n v u l s i v a s . E n t r e t a n t o , e m 22 casos, o u seja 73,4%, f o r a m r e g i s t r a d a s a l t e r a ç õ e s e l e t r e n c e f a l o g r á f i c a s , d i s t r i b u í d a s da s e g u i n t e f o r m a : d i s r i t m i a p a r o x i s t i c a ( 1 4 casos, ou seja 4 6 , 6 % ) ; d e s o r g a n i z a ç ã o do r i t m o ( 6 casos, o u seja 2 0 % ) ; a s s i m e t r i a de r i t m o ( 5 casos, ou seja 1 6 , 6 % ) . A s o m a dos r e s u l t a d o s e l e t r e n c e f a l o g r á f i c o s p a r c e l a d o s u l t r a p a s s a o v a l o r t o t a l e m v i r t u d e de u m m e s m o t r a ç a d o e v i d e n c i a r m a i s d e u m t i p o de a l t e r a ç ã o .
C O M E N T Á R I O S
Analisando os resultados dos exames neurológicos e liquóricos,
verifica-mos que pràticamente são nulos os dados patológicos. Por outro lado, os
registros eletrencefalográficos mostraram alterações em 73,4% dos casos,
percentagem bem maior que a usual em população normal
4, 5, 1 3.
Portanto, o EEG dos pacientes com toxoplasmose é um método
semio-lógico útil, já que os achados neurosemio-lógicos são bastante precários e o estudo
radiológico do crânio nem sempre mostra calcificações cerebrais patológicas
2Considerando apenas os resultados eletrencefalográficos, são evidentes
os sinais de comprometimento cerebral observados em nossos pacientes em
virtude da alta incidência de alteração no ritmo de base.
Comparando nossos achados com os de Thiry
1 6, Lelong e col.
8, que
ana-lisaram os EEG de pacientes portadores de toxoplasmose adquirida,
regis-tramos as mesmas alterações assinaladas por aquêles autores e que são
sugestivas de processo lesional cerebral. Portanto, a presença de disritmia
paroxística e de desorganização do ritmo de base em elevada percentagem
em nossos pacientes, poderia constituir a única seqüela de um quadro me¬
ningo-encefalítico tão comum nesses pacientes
3, 6, 7, 9, 10, 11, 14, 17, 1 9.
Os estudos eletrencefalográficos nos pacientes com toxoplasmose são
ainda pouco numerosos e é nosso intuito valorizar oportunamente a utilidade
do registro eletrencefalográfico nos casos com reação de Sabin-Feldman
significativamente positiva.
R E S U M O
Foram estudados do ponto de vista neurológico 30 pacientes portadores
de coriorretinite e com reação de Sabin-Feldman positiva para
toxoplasmo-se: não foram encontradas alterações de importância nos exames
neuroló-gicos; em três casos o exame radiológico mostrou calcificações
intracrania-nas; em todos os casos foi normal o exame de líquido cefalorraqueano.
A análise dos registros eletrencefalográficos evidenciou, entretanto, a
presença de anormalidades em 73,4% dos casos (disritmias paroxísticas,
de-sorganização do ritmo de base e assimetria entre a atividade elétrica dos
hemisférios cerebrais). O EEG é, portanto, um método útil para a
demons-tração de alterações cerebrais nos pacientes com toxoplasmose.
S U M M A R Y
Neurologic and electroencephalographic aspects of toxoplasmosis.
Thirty patients with chorioretinitis and positive Sabin-Feldman dye
test were studied concerning their neurologic aspects. There were no
strik-ing abnormalities in neurologic examination and skull X-rays. Otherwise
electroencephalographic studies indicate that 73.4% of the 30 patients showed
some degree of abnormalities. The most frequent changes consisted of
paroxysmal sharp waves patterns, diffuse desorganization changes and
as-symetrical brain waves activities. I t should be emphasized the high
in-cidence of electroencephalographic abnormalities in patients with
toxo-plasmosis.
R E F E R Ê N C I A S
d e a l g u n a s c a r a c t e r i s t i c a s de l a a f e c c i ó n . A c t a N e u r o l . L a t i n o a m e r . , 6:257-288, 1960. 2. D Y K E , C. G.; W O L F , A . ; C O W E N , D . ; P A I G E , B . H . e C A F F E Y , J. — T o x o p l a s m i c e n c e p h a l o m y e l i t i s : V I I I . S i g n i f i c a n c e o f r o e n t g e n o g r a p h i c f i n d i n g s in t h e d i a g -nosis o f i n f a n t i l e o r c o n g e n i t a l t o x o p l a s m o s i s . A m . J. R o e n t g e n o l . , 47:830-841, 1962. 3. E I C K E - W E R N E R , J. — T o x o p l a s m o s e E n z e p h a l i t i s . N e r v e n a r z t 25:387-388, 1954. 4. G I B B S , F . A . ; G I B B S , E. L . e L E N N O X , W . C. — E l e c t r o e n c e p h a l o g r a p h i c c l a s -s i f i c a t i o n o f e p i l e p t i c p a t i e n t -s and c o n t r o l -s u b j e c t -s . A r c h . N e u r o l , a. P -s y c h i a t . , 5 0 : 111128, 1843. 5. G I B B S , F . A . ; G I B B S , E. L . e L E N N O X , W . C. — E l e c t r o e n c e p h a l o -g r a p h i c r e s p o n s e t o o v e r v e n t i l a t i o n a n d its r e l a t i o n a -g e . J. P e d i a t . , 23:497-505, 1943. 6. H A F S T R O M , T . — T o x o p l a s m i c e n c e p h a l o p a t h y : a f o r m o f m e n i n g o - e n c e ¬ p h a l o - m y e l i t i s in a d u l t t o x o p l a s m o s i s . A c t a P s y c h i a t . et N e u r o l . S c a n d i n a v . , 34: 310-321, 1959. 7. K R E S T S C H M E R , W . e S C H M I D T , E. — K o m p l i z i e r t e p s y c h o s e b e i t o x o p l a s m o s i s e n z e p h a l i t i s . A r c h . P s y c h i a t . , 193:3847, 1955. 8. L E L O N G , M . ; B E R -N A R D , J.; D E M O -N T S , G. e C O U V R E U R , J. — L a t o x o p l a s m o s e a c q u i s e : é t u d e d e 227 o b s e r v a t i o n s . A r c h . F r a n c . P é d i a t . , 17:281331, 1960. 9. P A I N E , R . S. — E m e r -g e n c i e s o f c e r e b r a l o r i -g i n . P e d i a t . C l i n . N . A m e r . , 9:87, 1962. 10. P I L L E R I , G. — B e i t r a g z u r p a t h o l o g i e d e r t o x o p l a s m a e n z e p h a l i t i s . M o n a t s s c h r . f. P s y c h i a t . u. N e u -r o l . , 127:250-272, 1954. 11. R E M I N G T O N , J. S.; J A C O B S , L . e K A U F M A N , H . E . — T o x o p l a s m o s i s in t h e a d u l t . N e w E n g l a n d J. M e d . , 262:180-186, 1960. 12. S A B I N , A . B . — T o x o p l a s m i c e n c e p h a l i t i s in c h i l d r e n . J A M A , 116:801-807, 1941. 13. S C H W A B , R . S. — E l e c t r o e n c e p h a l o g r a p h y in C l i n i c a l P r a c t i c e . W . B . S a u n d e r s C o . , P h i l a d e l phia, 1951. 14. S E X T O N , R . C ; E Y L E S , D . E. e D I L L M A N , R . E . — A d u l t t o x o -p l a s m o s i s . M e d i c i n e 14:366-377, 1953. 15. S U M , J. C. — A c q u i r e d t o x o -p l a s m o s i s . R e p o r t o f s e v e n cases w i t h s t r o n g l y p o s i t i v e s o r o l o g i c r e a c t i o n s . J A M A , 147:1641-1645, 1951. 16. T H I R Y , S. — É t u d e é l e c t r o c l i n i q u e d'un cas de t o x o p l a s m o s e . A c t a N e u r o l , et P s y c h i a t . B e l g . , 53:230-233, 1953. 17. W E T T I N G F E L D , R . F . ; R O W E , J. e E Y L E S , D . E. — T r e a t m e n t o f t o x o p l a s m o s i s w i t h p y r i m e t h a m i n e ( D a r a p r i m ) a n d t r i p l e s u l f o n a m i d e . A n n . I n s t . M e d . , 44:557-574, 1956. 18. W O L F , A . e C O W E N Jr., D . — G r a n u l o m a t o s e e n c e p h a l o m y e l i t i s d u e t o an E n c e p h a l i t o z o o n ( E n c e p h a l i t o z o i c e n c e p h a l o m y e l i t i s ) ; n e w p r o t o z o o n d i s e a s e o f m a n . B u l l . N e u r o l . I n s t . N e w Y o r k 6:306-371, 1939. 19. W O L H E I M , E. — Z u r K l i n ü k d e r E r w a c h s e n e n T o x o p l a s m o s e . M ü n c h e n . m e d . W c h n s c h r . , 94:194-199, 1952.