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Reestruturação produtiva e saúde do trabalhador: um estudo de caso.

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Academic year: 2017

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Reest rut uração produt iva e saúde

do t rabalhador: um est udo de caso

Re structuring o f p ro d uctio n and wo rke rs’

he alth: a case stud y

1 Departam en to de En ferm agem , Un iversid ad e Fed eral d e São Carlos. C.P. 676, São Carlos, SP 13565-905, Brasil. 2 Departam en to de Saú de Am bien tal, Facu ld ad e d e Saú d e Pú blica, Un iversid ad e d e São Pau lo. Av. Dr. Arn ald o 720, São Pau lo, SP 04023-062, Brasil.

M aria Silvia Mon teiro 1

Jorge d a Roch a Gom es 2

Abst ract We p erform ed a case stu d y on a com p an y focu sin g on th e form of m an agem en t an d th e sh op floor w ork ers, in ord er to id en tify th e p ossible effects of p articip an t w ork strategies on w ork ers’ h ealth . Data on th e com p an y in clu d ed its h istory, typ e of m an agem en t, an d organ iz a-tion of both p rod u ca-tion an d th e w ork p rocess. Data on sh op floor w ork ers in clu d ed age, sch ool-in g, p ercep tion s of w ork , fam ily life, recreation , an d self-rep orted d isease h istory. We con clu d ed th at th e ch aracteristics of th e m an agem en t m od el ad op ted by th e com p an y origin ated from id eas im p orted from Jap an , in clu d in g flexibiliz ation of p rod u ction , ou tsou rcin g, p erform an ce of m u l-tip le task s, an d p articip ation in th e w ork p rocess. Work ers referred to p articip ation in th e w ork p rocess in an am bigu ou s ton e. Som e rep orted p ositive effects, lik e greater freed om an d resp ect, w ith p ositive effects on life both in sid e an d ou tsid e th e w ork p lace. For p art of th e grou p stu d ied , th e ch aracteristics of th e w ork organ ization m od el p racticed in th e com p an y h ad n egative effects on h ea lt h , lea d in g t h em t o com p la in of in som n ia , n erv ou sn ess, w ork - rela t ed d rea m s, a n d h ead ach es.

Key words Occu p ation al Health ; Organ ization al Beh avior; Social Psych ology

Resumo Foi realiz ad o u m estu d o d e caso em u m a em p resa ten d o com o objetos d a p esqu isa a form a d e ad m in istração p raticad a e os trabalh ad ores d a área d e p rod u ção, e com o objetivo id en -tificar os p ossíveis efeitos d as estratégias p articip ativas n o trabalh o sobre a saú d e d os trabalh a-d ores. An alisaram -se a-d aa-d os relativos à em p resa: h istórico, características a-d a aa-d m in istração p ra-ticad a, organ iz ação d a p rod u ção e d o p rocesso d e trabalh o; e tam bém d ad os relacion ad os aos trabalh ad ores d a área d e p rod u ção: id ad e, grau d e escolarid ad e, p ercep ção sobre o trabalh o, vd a fam iliar, vivd a social, lazer e m orbivd avd e referivd a. Con clu iu -se qu e as características vd a avd m i-n ist ra çã o p ra t ica d a t ivera m origem i-n a s id éia s v ii-n d a s d o Ja p ã o, ii-n clu ii-n d o a flex ibiliz a çã o d a p rod u ção, a terceiriz ação, a p olivalên cia e a p articip ação n o trabalh o. Para os trabalh ad ores, a p articip ação n o trabalh o foi sem p re referid a d e form a am bígu a, algu n s relatan d o efeitos p ositi-vos, com o m aior liberd ad e e resp eito, com boas rep ercu ssões n a vid a d en tro e fora d o trabalh o. Para u m a p arte d a p op u lação estu d ad a, as características d a organ ização d o trabalh o p raticad a n a em p resa têm efeitos d eletérios sobre su a saú d e, geran d o qu eixas d e d ificu ld ad e p ara d orm ir, n ervosism o, son h os com o trabalh o, d ores d e cabeça etc.

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Introdução

Nos ú ltim os an os, têm ocorrid o n o Brasil m u i-ta s d iscu ssõ es so b re q u a lid a d e d o s p ro d u to s, p rod u tivid ad e e n ovas estratégias ad m in istrati-va s visa n d o d a r m a ior flexib ilid a d e à s em p re-sas e, con seqü en tem en te, m aior p rod u tivid ad e (Freyssen et & Hirata, 1985; Diesat, 1993).

Em 1990, fo i in tro d u zid a a lib era çã o d a s im p o rta çõ es, co m o o b jetivo d e p ressio n a r a s in d ú strias b rasileiras a se torn arem com p etiti-vas, d en tro d as p rop ostas n eolib erais d o p resi-d en te resi-d a rep ú b lica en tão eleito. Foi in iciaresi-d o o Program a Brasileiro d e Com p etitivid ad e, a fim de “m elh orar o desem pen h o de fabrican tes atra-vés da criação e apoio a in iciativas n o cam po da qu alidade e produ tividade” (Hu m p h rey, 1992). Ou tro a co n tecim en to im p o rta n te q u e d e -sen cad eou a n ecessid ad e d e reestru tu ração d a p rod u ção foi o Tratad o d e Maastrich , d e 1992, q u e elim in o u a s fro n teira s en tre o s p a íses d a Un ião Eu rop éia, a p artir d e p rim eiro d e jan eiro d e 1993, con stitu in d o u m gran d e m ercad o p a-ra exp ortação e gea-ran d o a n ecessid ad e d e q u e os p rod u tos sejam feitos segu n d o regras in ter-n acioter-n ais d e qu alid ad e (Milet et al., 1992).

Nesse con texto d e acirram en to d a com p eti-ção in tern acion al e em face d a n ecessid ad e d e m elh o ria d a q u a lid a d e d o s p ro d u to s, p a ssa a ser in d isp en sável o en volvim en to d o trab alh ad or com o trab alh o (Alm eiad a, 1994), sen ad o, en -tão, ad otad as n ovas estratégias ad m in istrativas q u e la n ça m m ã o d a p a rticip a çã o n o tra b a lh o, em d iversos grau s e com d iferen tes en foqu es.

Perceb eu -se, p ortan to, a n ecessid ad e d e es-tu d ar as p ossíveis relações en tre as estratégias ad m in istrativas recen tem en te ad otad as e su as rep ercu ssões sob re a saú d e d os trab alh ad ores n o Brasil.

M et odologia

Este trab alh o foi d esen volvid o em u m a em p re-sa m etalú rgica d e São Pau lo qu e vem d esen volven d o u m p ro fu n d o p ro cesso d e reestru tu ra çã o p ro d u tiva h á vá rio s a n o s e q u e p er m a n e -ceu em evid ên cia d u ran te m u ito tem p o, em ra-zão d as in ovações im p lan tad as e d o su cesso fi-n afi-n ceiro alcafi-n çad o.

A p esq u isa teve p or ob jetivo p rin cip al rela-cion ar a saú d e d os trab alh ad ores com as carac-terísticas d a ad m in istração p articip ativa p raticad a n a em p resa em estu d o, ab ord an d o in clu -sive a p ercep çã o d o s tra b a lh a d o res so b re seu cotid ian o d e trab alh o e d e vid a.

A m eto d o lo gia u tiliza d a fo i a q u a lita tiva (Min a yo, 1992), em p rega n d o -se ta m b ém in

s-tru m en tos d e ab ord agem q u an titativos, ten d o sid o d esen vo lvid a n a fo rm a d e u m estu d o d e caso (Lu d ke & An d ré, 1986; Triviñ os, 1992; Bec-ker, 1993).

Realizaram -se en trevistas com tod os os tra-b alh ad ores d a área d e p rod u ção e tam tra-b ém co-lh eram -se d ad os relativos à form a d e ad m in istra çã o p ra tica d a n a em p resa , p or m eio d e en -trevista s co m p esso a s d e vá rio s n íveis h ierá rqu icos e d e levan tam en to b ib liográfico em m a -teria l p u b lica d o p ela im p ren sa escrita n o p e-ríod o d e 1988 a 1994.

Análise e discussão dos dados

A em p resa é u m a m etalú rgica d e cap ital n acion a l e fa b rica vá rios p rod u tos; p a ssou p or m u -d a n ça s estru tu ra is p a ra p ro fissio n a liza r-se, ten d o h a vid o d esd e o in ício a o p çã o p o r u m p rocesso p articip ativo en volven d o tod os os n í-veis.

Terceirizou p arte d as ativid ad es d e p rod u -çã o, co n cen tra n d o su a s a tivid a d es em a lgu n s p rod u tos e a m p lia n d o o seu leq u e d e a tu a çã o p ara a área d e serviços e d e im p ortações.

No fin al d e 1993, q u an d o d a coleta d os d d os, a em p resa con tava com 148 p essoas trab alh an d o, e 44 d estes atu avam n a área d e p rod u -ção.

Co m o p a rte d a reestru tu ra çã o, a em p resa reu n iu su as três u n id ad es n u m m esm o local e o organ ogram a foi red u zid o p ara q u atro n íveis h ierárq u icos: p resid en te e vice-p resid en te; ge-ren tes d e u n id a d es; co o rd en a d o res d a s á rea s d e p ro d u çã o d e ca d a u n id a d e e p esso a s sem cargos d e ch efia.

A p o lítica sa la ria l b a seia -se em q u a tro n í-veis: salário d e ad m issão, salário d e efetivação (n a m éd ia d o m erca d o ) e d o is a u m en to s d e m érito. Tod os os trab alh ad ores são m en salistas e n ão h á p agam en to p or p rod u ção. A em p resa oferece vários b en efícios e a jorn ad a sem an al é d e q u aren ta h oras, n u m ú n ico tu rn o d e trab alh o. Ha ven d o n ecessid a d e, a m p lia se a d u ra -ção d a jorn ad a d e trab alh o d iária.

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ram en to p o r p esso a , q u e, a n tes d a s ram o d ifica -ções, era d e U$10.000/ p essoa/ an o e, em ju n h o d e 1991, era d e U$60.000, b em com o n a rotati-vid ad e esp on tân ea, q u e em algu n s m om en tos ap roxim ou -se d e zero.

Helo a n i (1994), a n a lisa n d o a cr ise d o fo r-d ism o n o s a n o s 70, exem p lifica a resistên cia d o s tra b a lh a d o res à fo rm a d e o rga n iza çã o d o trab alh o rígid a citan d o Du ran d : “Na in d ú stria au tom obilística o absen teísm o atin giu n a Su é-cia 30% n a Volvo an tes da crise econ ôm ica (com a crise atin giu 20%), con tra som en te 8% n a u n i-dade de Kalm ar, on de as lin h as de m on tagem ti-n h am sid o su bstitu íd as p or equ ip es au tôti-n o-m as”.

Este exem p lo evid en cia a rela çã o en tre a form a d e organ ização d a p rod u ção e o ab sen -teísm o, o q u e certa m en te p o d e ser u tiliza d o tam b ém p ara exp licar a gran d e d im in u ição d a rotativid ad e n a em p resa em estu d o d ep ois d as m u d a n ça s rea liza d a s n a fo r m a d e gestã o e d e organ ização d o trab alh o.

As p rin cip ais características d a ad m in istra-ção p raticad a n a em p resa em estu d o são a fle-xib ilização d a p rod u ção e o en volvim en to d as p essoas através d a p articip ação, p rin cíp ios es-tes oriu n dos do Jap ão. Para Hirata (1993), a p ro-d u çã o flexível é u m p rin cíp io iro-d en tificá vel n o n ovo p arad igm a d e p rod u ção in d u strial, exem -p lificad o n o m od elo ja-p on ês; en tre as característica s d este estã o a s in ova çõ es o rga n iza cio -n a is e o fim d e u m “d eterm in ad o tip o d e rela-cion am en to au toritário n a em presa”.

Qu a n to a o s efeito s d o m o d elo ja p o n ês so-b re as p essoas, Dejou rs (1993) ressalta qu e “po d ese tem er qu e a tran sp arên cia se d esvie im -p erce-p tivelm en te d e seu cu rso, em d ireção à vi-gilân cia gen eraliz ad a e à d esap rop riação, em n om e d a raz ão cívica ou d a raz ão d a em p resa. Desse m odo, o qu e n o in ício do próprio exercício da in teligên cia ardilosa é m ovido pela bu sca da iden tidade correria o risco de se desen cam in h ar n o sen tido de u m a au ton om ia redu zida e de u m con trole h ierarqu iz ad o o qu e sign ificaria u m a reabertu ra trágica em direção à alien ação...”.

A flexib iliza çã o d a p ro d u çã o in clu iu a ter-ceiriza çã o d e a tivid a d es, q u e p o ssib ilita a d i-m in u ição d os cu stos fixos p ara a ei-m p resa, i-m as p o d e tra zer efeito s d eletério s so b re o n ível d e em p rego e a s co n d içõ es d e tra b a lh o p a ra o s terceirizad os.

Em p esq u isa rea liza d a p elo Dieese (1993), fo ra m d etecta d o s o s segu in tes efeito s d a ter-ceirização: d im in u ição d os b en efícios sociais, salários m ais b aixos, au sên cia d e eq u ip am en -tos d e p roteção, trab alh o sem registro em car-teira, p erd a d a rep resen tação sin d ical em razão d a tra n sferên cia d e ca d a esfera d a p ro d u çã o

p ara u m a área e, con seqü en tem en te, p ara u m a ou tra rep resen tação, en tre ou tros.

Para o Dieese/ Diesat (1994) “a terceirização tem sid o m ais u m a estratégia d e red u ção d e cu stos pela exploração das relações precárias de trabalh o d o qu e d e u m a red u ção d e cu stos re-su ltan te do au m en to de produ tividade”; ressal-ta m a in d a q u e“m an tid o o p ad rão atu al ap ro-fu n da o processo de exclu são social brasileiro”. Um exem p lo é d a d o p o r Go rz (1988) ap u d Mattoso (1992): “Nos próxim os dez an os, segu n -d o p esqu isa -d a Cen tral Sin -d ical Alem ã (DGB) do total de trabalh adores ocu pados e desem pre-gad os, 25% serão trabalh ad ores p eriféricos n as em p resas d e su bcon tratação e serviços; 50% es-tarão d esem p regad os ou realiz an d o trabalh os ocasion ais. Ap en as 25% serão trabalh ad ores qu alificad os d e gran d es em p resas e p rotegid os pelas con ven ções coletivas”.

A e m p re sa e m e st u d o t e m a lgu n s p r in cí-p ios relativos à cí-p articicí-p ação e à lib erd ad e; vale d esta ca r o by p ass q u e p o ssib ilita q u e a s p es-soas p ossam b u scar a in for m ação d e q u e p re-cisam p ara efetu ar seu trab alh o com q u em for n e ce ssá rio ; isso a giliza o tra b a lh o p a ra a e m p re sa e é p e rce b id o p e la s p e sso a s e n tre vista -d as com o algo m u ito p ositivo, com o será visto m ais ad ian te.

Co n sid ero u -se p o sitivo ta m b ém o fa to d e n ão existirem n a em p resa p ráticas d e p rem ia-ção in d ivid u al ou d e con corrên cia en tre gru p os d e trab alh o, qu e p od eriam levar ao sofrim en to p ela exp loração d a rivalid ad e in eren te ao p ro-cesso d e com p etição. O fato d e n ão h aver ativi-d aativi-d es ativi-d e lazer coletivas n o tem p o livre ligaativi-d as à em p resa p o d e ser igu a lm en te co n sid era d o p o sitivo. Nã o h á p a ga m en to p o r p ro d u çã o, o q u e p od eria p reven ir u m ritm o d e trab alh o in ten so d evid o à b u sca d e m aiores gan h os fin an -ceiros.

Há ain d a a p ossib ilid ad e d e assu m ir os er-ros com etid os n o trab alh o, o qu e p od e ter efei-tos b en éficos sob re a saú d e d as p essoas, já qu e n ão h á n ecessid ad e d e ocu ltar as falh as com tid as e n em d e lid ar com o m ed o e a cu lp a d e-corren tes d esta situ ação.

En tre a s ca ra cterística s rela cio n a d a s à o r-gan ização d o trab alh o, está a ad oção d a p oliva-lên cia ; esta será d iscu tid a m a is à fren te, m a s vale d estacar agora qu e a vivên cia d esta é sem -p re a m b ígu a , u m a vez q u e a m -p lia o co n h e ci-m en to e a exp eriên cia p rofission al d os en volvi-d os, ao m esm o tem p o in ten sifican volvi-d o, p orém , o ritm o d e tra b a lh o e gera n d o in sa tisfa çã o n o m o m en to d a a va lia çã o d e d esem p en h o, co n -form e relatad o p elos en trevistad os.

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m eta d e d ela s tem d e trin ta a q u a ren ta a n o s. Qu a n to a o gra u d e esco la rid a d e, 55% têm a té q u a tro a n o s; 7,5% têm o ito e 12,5% têm o n ze (segu n d o grau com p leto).

O tem p o d e tra b a lh o n a em p resa é gra n d e p a ra a m a io ria d o s en trevista d o s: 40% d estes têm d e seis a d ez a n o s in co m p leto s; 20%, d e d ez a 14 an os in com p letos e 17,5% têm m ais d e 14 an os d e ativid ad e n este em p rego. Vale lem -b ra r q u e é p rin cíp io d a em p resa q u e in d iví-d u os trab alh an iví-d o p ara ela h á m ais iví-d e três an os ten h am su a d em issão ap rovad a p or u m gran d e n ú m ero d e p essoas.

O n ú m ero d e fu n ções qu e cad a trab alh ad or execu ta é va ria d o : 17,5% exercem u m a ; 25%, d u as; 35%, três; 15%, qu atro e 7,5%, cin co.

Com relação à p ercep ção sob re a in ten sid a-d e a-d o ritm o a-d e trab alh o, 10% con sia-d eram o rit-m o rit-m u ito in ten so, 27,5%, in ten so, e 62,5%, regu lar. Vários en trevistad os ressaltaram a in ten -sificação d o ritm o d e trab alh o n a ú ltim a sem a-n a d o m ês, em virtu d e d e a s ea-n co m ea-n d a s d e p ro d u to s se co n cen tra rem n este p erío d o. É u m a d a s co n seq ü ên cia s d a flexib iliza çã o d a p ro d u çã o, q u e im p lica a n ã o -m a n u ten çã o d e estoqu es.

En tre os qu e referem ritm o de trabalh o m u i-to in ten so, a lgu n s rela cio n a m este fa i-to co m o com p rom etim en to d a q u alid ad e d o son o e d a vid a fa m ilia r, en tre o u tro s. Um a p esso a lem -b rou a in ten sificação d o ritm o d e tra-b alh o com o a lgo p o sitivo d ia n te d a a tu a l situ a çã o só -cio -eco n ô m ica e a p o ssib ilid a d e d e vir a fica r d esem p regad o.

Com resp eito ao con trole sob re o trab alh o, 85% referem tê-lo sem p re e 15%, à s vezes. A p ercep ção d e qu e tem con trole sob re o p róp rio tra b a lh o é lem b ra d a ju n ta m en te co m a lib er-d aer-d e exem p lificaer-d a n a fala er-d e u m trab alh aer-d or: “...en tre os p róp rios colegas d a seção a gen te com bin a, u m vai faz er isso, o ou tro aqu ilo, aqu ela ten d ên cia, às vez es até sem o d irigen te saber, con versa cada u m (...) localiza aqu ele lo-cal p ara fazer aqu ele d ia e n ós sabem os d e m an h ã e já sabem os o qu e fazer. Às vezes o dirigean -te ch ega (...) m as ele n ão op in a n ad a, o im p or-tan te é qu e saia o serviço, d ivid em en tre os co-legas”.

Qu a n to a o co n h ecim en to p a ra rea liza çã o d o p róp rio trab alh o, 82,5% referem têlo sem -p re e 17,5%, q u ase sem -p re. Já o con h ecim en to p ara realizar a tarefa d e ou tra p essoa, 60% rela-ta m tê-lo sem p re; 27,5%, q u a se sem p re, e 12,5%, às vezes.

Vale ressaltar qu e execu tar freqü en tem en te u m a ta refa q u e n ã o se d o m in a p o d e ser fo n te d e a n sied a d e e d e so frim en to. Ta m b ém d eve ser lem b ra d o q u e fa zer ta refa s m a is sim p les

qu e a qu alificação d e qu e se d isp õe p od e gerar sofrim en to, com rep ercu ssões n egativas sob re a saú d e.

Qu an d o qu estion ad os se ap reciam cob rir o tra b a lh o d e ou tra p essoa , 90% referem gosta r. A ju stificativa p ara o sim vem d a p ossib ilid ad e d e a p ren d iza d o, d e a m p lia çã o d a exp eriên cia p rofission al e d e sen tir qu e é u m a ob rigação.

Tam b ém o au m en to d a carga d e trab alh o é lem b rad o “...au tom aticam en te você está apren -d en -d o, você n ão está só faz en -d o aqu ilo, você m u d a, tem a op ortu n id ad e d e faz er algo d ife-ren te (...) ao m esm o tem p o, ao faz er tu d o isso você se torn a, acaba se carregan d o d em ais, tem u m a sobrecarga, p or exem p lo, n ão seria p ra gen te (citou u m a ativid ad e), m as você está co-brin d o a falta d o (citou o p rofission al en carre-gad o d a ativid ad e), en tão você faz , você está se carregan do m ais com ou tra operação”.

Ain d a em relação à p olivalên cia, foi citad a p or u m trab alh ad or a im p ossib ilid ad e d e esco-lh a , p ois é n ecessá rio coop era r p a ra m a n ter o em p rego.

Silva (1991), an alisa d ois casos d e n egocia-ção sob re o con teú d o d as ocu p ações. Citan d o Leite, relata u m ocorrid o n o Brasil, n o q u al os trab alh ad ores n egociaram p ara q u e o con teú d o d as ocu p ações se am p liasse; o ou tro foi en -co n tra d o p o r ela n a Grã -Breta n h a , o n d e a gerên cia ten to u im p o r u m a a m p lia çã o d o co n -teú d o d a s o cu p a çõ es e en fren to u u m a recu sa d o s tra b a lh a d o res. A a u to ra co n clu i q u e “as possibilidades para a im plem en tação de form as de trabalh o m ais flexíveis são m ais abran gen tes n o Brasil”.

Ou tro p o n to é q u e a s p esso a s co m m a io r qu alificação têm d e fazer tam b ém tarefas m ais sim p les, o q u e foi referid o p or vários en trevis-tad os com o u m fator d e d esân im o e d e au sên-cia d e p ersp ectivas; além d isso, são p ou cos os trab alh ad ores com m aior con h ecim en to esp e-cífico, e m u itas vezes em u m a u n id ad e d e p ro-d u ção ap en as u m a p essoa ro-d om in a ro-d eterm in a-d a tarefa, o qu e im p lica sob recarga.

Na fala d os en trevistad os qu e vivem esta stu a çã o, a p o liva lên cia a p a rece co m o p reju d icia l à sa ú d e so b vá rio s a sp ecto s, co m o o a u -m en to d a carga d e trab alh o, a vivên cia d a res-p o n sa b ilid a d e d e ter d e fa zer o tra b a lh o sozi-n h o, a au tod esvalorização p or ter d e cob rir ta-refa s m en o s co m p lexa s e a fa lta d e p ersp ecti-vas ad vin d a d esta situ ação.

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m ais de criar as coisas em cim a do qu e eu estou fazen do e eles m e dão ch an ce p ara fazer isto, às vezes eu ten to m u dar algu m a coisa e às vezes fi-ca m elh or o cu sto e tam bém m elh or p ara a m ão-d e-obra, eles m e d ão ch an ce d e faz er is-to....

Em rela çã o à lib erd a d e viven cia d a n o tra -b a lh o, 97,5% referem tê-la . Nesse sen tid o, o s en trevistad os levan taram algu n s p on tos, com o a au sên cia d e con trole d ireto. Tam b ém fizeram referên cia ao con trole estrito p or qu e p assaram em em p regos an teriores e ao con trole feito so-b re os traso-b alh ad ores d en tro d a p róp ria em p re-sa X, n o p eríod o an terior às m od ificações d es-critas n este estu d o. En tre os en trevistad os, u m tra b a lh a d o r re fe riu p e rse gu içã o p o r p a rte d a ch efia n o m om en to atu al.

Para d iscu ssão d esses asp ectos vale d esta-ca r o m o d elo d e tra b a lh o b ra sileiro (Co ria t, 1994:12), qu e é cen trad o n a flexib ilid ad e extern a, extern o trab alh o p ou co ou extern ão qu alificad o, su b -rem u n era d o, ten d o com o recu rso sistem á tico u m a m ã o -d e-o b ra in stá vel e p recá ria . Este é u m p o n to cru cia l, q u e p o d e a ju d a r n a co m -p reen são d a qu estão d a coo-p eração d os trab a-lh ad ores em face d as n ovas form as d e organ i-zação d o p rocesso d e p rod u ção e d e geren cia-m en to n o Brasil.

Na d iscu ssão sob re a lib erd ad e n o trab alh o, ou tro asp ecto lem b rad o é a p ossib ilid ad e d e se b u scarem as in form ações d e qu e se p recisa p a-ra o ta-ra b a lh o o n d e fo r n ecessá rio, sem ter d e segu ir os n íveis h ierárqu icos, o by pass:“... e h o-je con tin u o com a m esm a carga d e trabalh o, m as ain d a ten h o p od er d e d ecisão em algu n s casos e ten h o u m p ou co d e liberd ad e, m as p or-qu e tem algu m as p essoas or-qu e p articip am , p ela situ ação d a em p resa, a gen te p od e p rocu rar m ais p essoas...”; “...o sistem a d a firm a eu gostei e acabei fican d o, já estou h á n ove an os (...) p or cau sa (...) ach o qu e o qu e m e segu rou aqu i foi a d em ocracia (...) h oje você tem u m a total liber-d aliber-d e liber-d e sair liber-d aqu i liber-d a m on tagem , ir lá con versar com o en gen h eiro, o ven dedor, o diretor, o su -p ervisor, d o m esm o jeito qu e eu con verso com u m aju dan te lá n a fábrica...”.

Nas falas su p racitad as e em várias ou tras, a p o ssib ilid a d e d e b u sca r a s in fo rm a çõ es co m q u em fo r n ecessá rio in d ep en d en te d o n ível h ierárq u ico é sem p re referid a com o m u ito p o-sitiva p elo s en trevista d o s, su gerin d o q u e o by pass atu a com o u m a form a d e recon h ecim en to d o sab er d os trab alh ad ores p ela em p resa, com efeito s p o sitivo s p a ra a a u to -estim a , a id en tid a tid e e, co n seq ü en tem en te, a sa ú tid e. Certa -m en te h á ta-m b é-m gan h os p ara a e-m p resa, qu e con segu e m elh oria d a q u alid ad e d os p rod u tos e red u ção d os cu stos. Foi igu alm en te con sid

e-ra d a p o sitiva a p o ssib ilid a d e d e d ecid ir so b re as p au sas n o trab alh o.

A p o ssib ilid a d e d e a ssu m ir o s erro s ta m -b ém é lem -b ra d a , a sso cia d a co m a li-b erd a d e : ”...a gen te m u d a, n é, se a gen te tem liberd ad e tem agora con d ições d e p rod u zir m ais e se sen -tir m ais m elh or; você sabe qu e pression ado você faz, m as n ão faz con ten te, dessa form a você tra-balh a m elh or, você tem até liberdade de você er-rar e p oder ch egar e falar: – Errei. Se fosse ou tro lu gar, n ão, você ia p en sar: – O qu e eu vou fazer agora? E se tiver u m jeito d ele escon d er aqu ele erro ele escon de, assim vai...”.

Em sem in á rio rea liza d o em Sã o Pa u lo, em ab ril d e 1994, o Professor Dejou rs, q u an d o in -d aga-d o se os sistem as -d e a-d m in istração p arti-cip a tivo s p o d eria m leva r a u m a a p roxim a çã o en tre a o rga n iza çã o d o tra b a lh o rea l e a p rescrita, resp on d eu , p artin d o d a exp eriên cia fran -cesa , q u e isso seria p o ssível se h o u vesse a ex-p licitação d o ‘qu eb ra-galh o’, ex-p assan d o ex-p elo co-letivo d e trab alh ad ores, in clu in d o os colegas e a ch efia.

As falas d e algu n s en trevistad os sob re o u so d a criativid ad e n o trab alh o, p ossib ilid ad e d e by passe d e assu m ir o erro, são su gestivas d e u m a a p roxim a çã o en tre o rga n iza çã o d o tra b a lh o real e p rescrita.

O con tra p on to é feito p or u m tra b a lh a d or, q u e ressalta a vigilân cia d os colegas: “...a viglân cia qu e eu sin to agora é u m a base en tre am iz ad e, p orqu e se você está trabalh an d o em con -ju n to n ão ad ian ta, se tem três p essoas traba-lh an d o e u m a en costar os ou tros d ois vão cu i-d ar i-d ele: – Ó, só eu qu e faço, você n ão faz. Qu er d izer, n ão p recisa m ais n in gu ém , d os três ali, se u m ach a qu e ‘ah , h oje eu n ão qu ero n ad a’, al-gu ém vai p egar n o p é d ele. Agora se tem u m a ju stificativa, se você p ercebe qu e a p essoa real-m en te n ão tá legal, qu e n ão é tod o d ia qu e a p essoa está com a m esm a d isp osição, aí tu d o bem ...”.

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de-m issão”. Algu n s en trevistad os ressaltaram a in -satisfação em relação ao salário e aos critérios d e a va lia çã o d e d esem p en h o em fa ce d a p oli-valên cia.

Com relação aos efeitos d o trab alh o sob re a vid a fam iliar, Seligm an n -Silva (1990b )d estaca a com p lexid ad e d essa in teração on d e “as vivên cias do m u n do dom éstico irão ecoar n o am bien -te laboral, d a m esm a form a qu e os fen ôm en os qu e o trabalh o im prim e n o con ju n to psicofísico do trabalh ador irão se fazer sen tir n a qu alidade d e seu con vívio e d e su as p ráticas n as h oras em qu e perm an ece em casa”.

Sob re ter h avid o m od ificações n a vid a p es-soal d ecorren tes d o tip o d e ad m in istração p ra-ticad a n a em p resa, 60% referem qu e sim . En tre os qu e n otaram m u d an ças n a vid a p essoal, vá-ria s p esso a s cita ra m a lib erd a d e n o tra b a lh o com o u m fator d e m elh oria n o relacion am en to co m o s co le ga s d e t ra b a lh o e co m a fa m ília : “Ach o qu e m odifica porqu e você já pen sou você trabalh ar, o en carregado n o teu pé; ch ega a tar-de, você está u m a pilh a de n ervos, às vezes pode até descon tar em casa...”.

Um trab alh ad or referiu m u d an ças d e form a n egativa n a vid a p essoal p or cau sa d a in ten sifi-cação d o ritm o d e trab alh o: “...se você h oje vem a trabalh ar u m pou co m ais n ão posso dizer pra você qu e a em p resa seja cu lp ad a, tem u m p a-drão, você tem ritm o de serviço, en tão você vem n aqu ele ritm o d e serviço, en tão você vem n a-qu ele ritm o. Agora, m u itas vezes, p or você n ão term in ar u m a tarefa d e serviço, você tem qu e acelerar u m pou co m ais e isso aí pode faz er com qu e você ven h a a m odificar com a fam ília...”.

Na com p aração com exp eriên cias d e trab a-lh o a n terio res, o s efeito s d a lib erd a d e, o u d a fa lta d ela , ta m b ém fo ra m lem b ra d o s: “... u m p roblem in h a, eu ch egava em casa, falava algu -m a coisa para -m i-m e eu já estou rava, -m in h a ca-beça estava n a em p resa, en tão isso aí m u d ou ”. “A coisa m ais triste é você trabalh ar n u m a em -presa em qu e você é pression ado, o cara fala as-sim : olh a você con versou com seu colega aí d o lad o e n ão p od e faz er isso...; você ch egou u m m in u to atrasado, vai ser descon tado o dom in go, o sábad o e n ão sei m ais o qu ê e com eça a p res-sion ar você pen san do qu e você n ão en ten de das coisas..., vai faz er p ressão sobre você, você vai p ra casa ch atead o e acaba p reju d ican d o a fa-m ília...”.

Ou tro asp ecto im p ortan te qu e su rgiu n o re-lato d e u m trab alh ad or foi a referên cia à p ossi-b ilid ad e d e au sen tar-se even tu alm en te d o tra-b a lh o n o ca so d e ter p ro tra-b lem a s p a ra reso lver em ca sa : ...às vez es, a fam ília, a gen te tá aqu i, su rge u m p roblem a em casa, a gen te sai ou às vez es n ão vem trabalh ar, d ep ois ch ega aqu i, a

gen te con versa com os en carregad os, eles com -p reen d em , n os ou tros lu gares em qu e eu ten h o trabalh ad o isso foi rígid o, e aqu i n ão. En tão m u dou bastan te o sistem a da fam ília, até a pró-p ria fam ília tam bém n ota, se eu ten h o m ais problem a em casa, a firm a recon h ece, até apóia a gen te; e em ou tras em qu e eu ten h o trabalh a-do, n ão, ela qu er o serviço, ela qu er só o serviço, agora os em pregados, os problem as... en tão n es-te pon to eu ach o bastan es-te in es-teressan es-te aqu i...”.

A p ossib ilid ad e d e recon h ecim en to e com -p reen sã o d o s even tu a is -p ro b lem a s fa m ilia res p ela em p resa em erge n o relato d o trab alh ad or com o algo m u ito p ositivo. Em trab alh o realiza-d o realiza-d e 1981 a 1983 co m tra b a lh a realiza-d o res in realiza-d u s-triais d e Cu b atão e op erários d e em p resa sid e-rú rgica d e São Pau lo, Seligm an n -Silva (1990b ) estu d ou os efeitos d o trab alh o em tu rn os alter-n ad os sob re o cotid iaalter-n o fam iliar e relata a sob reca rga referid a p ela s esp o sa s d o s tra sob a lh a -d ores, p or terem q u e assu m ir as resp on sab ili-d aili-d es fam iliares sozin h as. Neste con texto, a si-tu ação an teriorm en te relatad a p elo en trevistad o, trevistad e ter flexib ilitrevistad atrevistad e n o trab alh o p ara au sen -ta r-se e p a rticip a r d a s reso lu çõ es d o s p ro b le-m as fale-m iliares, p od e trazer rep ercu ssões p osi-tivas p ara a con vivên cia fam iliar.

Ou tro p on to já com en tad o, m as q u e vale a p en a ser resga ta d o n a d iscu ssã o so b re a vid a fa m ilia r, é q u e, q u a n to à p o liva lên cia , u m a s-p ecto s-p ositivo referid o s-p elos en trevistad os era o d e cob rir o trab alh o d e ou tros colegas p orqu e ta lvez h o u vesse d isp o n ib ilid a d e d o o u tro em fazer o m esm o n u m caso d e n ecessid ad e.

Em relação às ativid ad es d esen volvid as n o tem p o livre, Seligm a n n -Silva (1990a :277) res-salta q u e “o lazer é con siderado defesa con tra o esvaziam en to existen cial e o cortejo de m an ifes-tações d e sofrim en to m en tal associad as ao trabalh o e com o com p on en te im p ortan te n a con -secu ção d e m elh ores p ad rões d e qu alid ad e d e vida”.

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-d icato (35%), p raticar esp ortes (27,5%) e b eb er cerveja n o b a r, jo ga r sin u ca , a ssistir a jo go d e fu teb ol n o cam p o (8,8% cad a ativid ad e).

A referên cia à realização d e serviços em ca-sa foi feita p or 32,5% d os en trevistad os. Os p ro-b lem as d e saú d e referid os foram vários e, en tre estes, 53,8% fo ra m rela cio n a d o s a o tra b a lh o. Os p rob lem as d e saú d e n o m om en to atu al re-la ta d o s co m o rere-la cio n a d o s a o tra b a lh o sã o : p erd a au d itiva, can saço n a vista, h érn ia in gu i-n al, d esvio d e colu i-n a, grip e, varizes e sii-n u site, tod os com p atíveis com a h istória d e trab alh o e d e vid a relatad a p elos en trevistad os.

As qu eixas d e saú d e qu e foram referid as cm o freq ü en tes n o s ú lticm o s d o is a n o s sã o : d o-res d e ca b eça e n a s co sta s (40%), d ificu ld a d e p ara d orm ir (17,5%), p ressão alta (12,5%), can -saço qu e n ão p assa com d escan so (10%), en tre ou tros. Ch am a a aten ção o fato d e qu e as qu ei-xa s referid a s sã o su gestiva s d e terem o rigem p sicossom ática, com o resu ltad o d e exigên cias d o tra b a lh o, m a s, q u a n d o in d a ga d o s so b re o ritm o d e tra b a lh o, a m a io r p a rte d a s p esso a s classifica-o com o regu lar, ressaltad a a in ten si-ficação n a ú ltim a sem an a d o m ês.

Um d os en trevistad os exp licitou a con tam i-n a çã o d e su a vid a fo ra d o tra b a lh o em d eco r-rên cia d o ritm o excessivo d e trab alh o “... A gen -te sem pre -tem u m a program ação e qu an do você vai sair p ara trabalh ar você fica assim p en san -d o n aqu ilo qu e você vai faz er p rim eiro, se está tu d o em ord em , com o você vai fazer p ara colo-car aqu ilo em p rática, p ara ad ian tar o serviço (...) eu , em casa, até son h ar com o trabalh o eu son h o...”.

Os efeitos m ais p erversos d a ad oção d e n o-va s fo rm a s d e o rga n iza çã o d o tra b a lh o e d e gestão vão recair n ão sob re os trab alh ad ores d a em p resa em estu d o, m a s so b re o s q u e fo ra m exclu íd os d o m ercad o d e trab alh o q u an d o d as m od ificações ocorrid as, o q u e é p erceb id o p e-los q u e p erm an eceram trab alh an d o: ... Olh a, a gen te sem pre tin h a esperan ça de qu e n o an o qu e vem m elh ora, o an o qu e vem m elh ora; qu an d o in iciou todo esse p rocesso com disp en sa, vam os trabalh ar com terceiro, aí, ah , isso é coisa de u m an o, m elh ora; só qu e agora a gen te n ão tem m ais essa esp eran ça, essa ex p ectativa qu e n o an o qu e vem m elh ora. Nesse sen tid o eu n ão te-n h o m ais esperate-n ça eu te-n ão sei com o pete-n sar co-m o co-m eu s filh os vão, eu ten h o u co-m filh o d e X an os, qu e está estu d an d o, graças a Deu s ele é m u ito esforçad o, o qu e ele vai en fren tar p ela fren te eu n ão sei...”.

Nesta p ersp ectiva , Ma tto so (1994) a n a lisa a s m o d ifica çõ es n o m u n d o d o tra b a lh o n o s p aíses avan çad os e relata a ocorrên cia d e d ois desdobram en tos; o p rim eiro ap on ta p ara o su

r-gim en to d a “figu ra d e u m n ovo trabalh ad or, m ais escolariz ad o, p articip ativo e p olivalen te (em con trap osição aos trabalh ad ores esp ecializad os, p arceliecializad os, d esqu alificad os d a p rod u -ção fordista) e até m esm o portadores de u m a re-valoriz ação d a ética e d a u top ia d o trabalh o”; isto se d á co m o s tra b a lh a d o res d a s em p resa s líd eres. O segu n d o d esd ob ram en to con siste n a co n tra p a rtid a d o p rim eiro “à crescen te m assa de trabalh adores qu e perdem seu s an tigos direi-tos e, n ão se in serin d o d e form a com p etitiva n o n ovo paradigm a tecn ológico, torn am se desem -p regad os, m argin aliz ad os, ou trabalh am sob n ovas form as d e trabalh o e d e qu alificação, em relações m u itas vezes precárias...”.

O m esm o au tor d estaca o con texto em q u e em ergem estas m u d an ças n o m u n d o d o trab a-lh o n os p aíses avan çad os, “em con dições de de-bilid ad e d efen siva d o trabalh o organ izad o e d e fortalecim en to ofen sivo d o cap ital estru tu rad o. Em n om e d a com p etitivid ad e in tern acion al, o cap ital bu sca reestru tu rarse m oven d ose con -tra o -trabalh o organ izado”.

Conclusão

No q u e d iz resp eito às características d a p articip ação p raticad a n a em p resa em estu d o, con -clu iu -se q u e ela é a b ra n gen te, p erm ea n d o a s ativid ad es lá d esen volvid as, e p ara a m aior p ar-te d os en trevista d os ar-tem u m sign ifica d o d e li-b erd a d e, resp eito e sa tisfa çã o em rela çã o a o trab alh o; em vários m om en tos h ou ve com p a-ração com em p regos an teriores, d e on d e vem a exp eriên cia d e ter sofrid o vigilân cia estrita d as ativid ad es n o trab alh o.

A reestru tu ra çã o p ro d u tiva em p reen d id a n a em p resa b aseou -se n a flexib ilização d a p ro-d u ção, m ero-d ian te a terceirização ro-d e ativiro-d aro-d es e o u so d a p olivalên cia n a organ ização d o tra-b a lh o, p a ra lela m en te a o d esen vo lvim en to d e u m p rocesso p articip ativo.

As características d essa form a d e ad m in istra çã o co rre sp o n d e m a o n ovo p a ra d igm a in d u strial e d e seu exp oen te m aior, o Jap ão, lem -b ra n d o q u e sã o a s fo rm a s d e o rga n iza çã o d o trab alh o q u e segu em as id éias oriu n d as d esse p aís, e n ão as relações d e trab alh o.

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A p o liva lên cia é u m a q u estã o co m p lexa , q u e fo i cita d a p elo s en trevista d o s à s vezes d e form a m u ito p ositiva e/ ou m u ito n egativa. En -tre os a sp ectos p ositivos cita ra m -se a a m p lia-ção d o ap ren d izad o, a p ossib ilid ad e d e os cole-gas fazerem o trab alh o n o caso d o trab alh ad or ter u m p rob lem a; en tre os asp ectos n egativos, foram lem b rad as a in ten sificação d o trab alh o, a sob recarga d e trab alh o e d e resp on sab ilid ad e d os q u e d esem p en h am sozin h os u m a fu n ção, em razão d a qu alificação esp ecífica.

Algu n s se sen tem in ju stiça d o s em rela çã o ao salário e ao recon h ecim en to d o trab alh o p e-la em p resa, u m a vez qu e d esem p en h am várias tarefas.

Co m re la çã o à p e rce p çã o e a o sign ifica d o atrib u íd o ao trab alh o, algu m as p essoas d esta-cam m u ito p ositivam en te a vivên cia n este, res-sa lta n d o a lib erd a d e e o resp eito q u e sen tem , atrib u in d o a estes u m a m elh ora n a vid a fora d o trab alh o. Em vários m om en tos d as en trevistas os trab alh ad ores citam o b om relacion am en to com os colegas, com as ch efias, a solid aried ad e

e a co n fia n ça q u e viven cia m n a em p resa . Em a lgu n s m o m en to s, p o d e ser p erceb id a n a fa la d o s e n tre vista d o s a in tro je çã o d o s va lo re s d a em p resa e a exacerb ação d o au tocon trole, d eco rre n t e s d a fo rm a d e o rga n iza çã o d o t ra b a -lh o.

Para u m a p arte d os en trevistad os n ão h ou -ve referên cia s esp ecia is a o tra b a lh o rea liza d o n a em p resa.

Para ou tros, as características d a organ iza-çã o d o tra b a lh o p ra tica d a n a em p resa gera m efeitos d eletérios sob re as p essoas p or cau sa d a in ten sificação d o ritm o d e trab alh o, afetan d o a vid a fam iliar e in terferin d o n a saú d e, geran d o q u eixa s d e d ificu ld a d e p a ra d o rm ir, n ervo sis-m o, so n h o s co sis-m o tra b a lh o, d o re s d e ca b e ça etc.

Ap esar d a classificação acim a ad otad a, vale ressaltar qu e, p ara m u itos, a vivên cia é con tra-d itó ria ; em a lgu n s m o m en to s tra-d a en trevista a fo rm a d e a d m in istra çã o a p a re ce m u ito p o si-t iva m en si-te e em o u si-tro s m o m en si-to s, d e fo rm a op osta.

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Referências

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