ESTRA N G EIRISM O S SEM FRO N TEIRA S
C lau d ia M a n a X A T A R A1
• RESUMO: Particip and o do d ebate p ro p o sto p ara este número , d isc u tim o s q uestõ es relativ as ao emp reg o de estrang eirismo s e emp réstimo s, seja no âmbito d o uso co tid iano seja no caso de subm issão das no rmas d esse uso ao texto d a lei.
• PA LA V RA S- C H A V E: Estrang eirismo s; emp réstimo s.
Em qualquer situação de co municação , um indivíduo faz a sua es-colha de palavras. Essa eses-colha, ap arentemente livre, está co nd icio na-da, mesmo que não se tenha co nsciência disso, a uma série de fatores, d entre os quais destaca-se o o bjetivo de ser eficaz, de "ating ir" o inter-lo cuto r ad equad amente, em co nfo rmid ad e co m a mo d alid ad e (oral ou escrita), co m o registro (formal o u info rmal) e co m o nível de ling uag em em questão (padrão ou co lo quial, para simp lificar).
Se esse indivíduo seleciona, po is, palavras estrangeiras, o u seja, unid ad es lexicais p ertencentes a uma d eterminad a língua, em vez de palavras vernáculas dispo níveis em sua língua materna, é po ssível que
esteja havend o um pro blema. A rriscaríamo s d iagno sticar o fator
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prestí-gio/desprestígio como mo tiv ad o r da escolha do estrangeirismo . Trata-se, então , do valor que é dado à língua materna, do alcance que ela tem para que seu lo cuto r dela saiba se servir e sentir-se satisfeito .
1 D e p a i ta m e n to d e Letras M o d e rn as - In sti tu to d e Bi o c i ê n c i as , Letras o C i ê n c i as Exatas - UN ESP
- 15054-000 - São Jo s é d o Rio Preto - SP. x ataraai e m . i b l l c e . u n e s p br.
Em certas línguas, pode-se detectar uma maior penetração dos es-trangeirismo s, fenômeno inversamente pro po rcio nal à penetração dessas mesmas línguas no cenário internacio nal. É o caso do nosso po rtuguês e do francês; o inglês e o espanhol estão mais confortáveis quanto a isso.
Em Portugal, o sentimento de "preservação " da língua nacio nal é bem mais acentuado do que no Brasil. Há o que chamamos de "planejamento lingüístico", não só amparado por uma legislação que tem o reco nheci-mento popular, mas por uma política educacio nal que pro cura cultivar a valorização e a soberania da língua po rtuguesa em território nacio nal.
A Co munid ad e dos Países de Língua Po rtuguesa (CPLP) po d e v ir a ter uma função aglutinad o ra, em que quem fale po rtuguês como língua-mãe seja bem-v ind o , mas sem privilégios, não imp o rtand o de o nd e. A s-sim, parece mais exeqüível a terrível missão de preservar o lugar da lín-gua p o rtuguesa em um mund o no qual estamo s todos à marg em do jogo co nd uzid o pelas mão s apenas de algumas po ucas p o tências. Entretan-to, essa v antag em esbarra na falta de vo ntad e política dos p aíses dessa pretensa "co munid ad e", que é na verdad e u m reflexo da d esco nsid era-ção do po vo em relaera-ção à sua língua, ato rmentad o co m muitas outras p reo cup açõ es básicas, tid as como prioritárias. Em tese, po is, a unifica-ção do po rtuguês é viável; na prática, extremamente trabalho sa, além de onerosa e de d emand ar um lo ngo temp o . O maio r pro blema, co ntud o , permanece, na maio ria dos p aíses que fo rmariam a CLPP, a falta de aten-ção , de cuid ad o para co m a língua po rtuguesa, o seu desvalor, o seu d esprestígio , fro nteiras de livre acesso aos estrangeirismo s.
Na França e no Canad á o co rrem também med id as p ro tecio nistas, de mo do aind a mais v isiv elmente sig nificativ o . Os grandes d icio nário s, por exemplo , sempre que registram estrangeirismo s, incluem no verbe-te o vo cábulo francês "reco mend ad o " o ficialmenverbe-te por decreto minisverbe-te-
ministe-rial, apó s análise de especialistas (por exemplo :
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palmarés é reco menda-do a hit paiade). Os especialistas franceses são p raticamente "heró is da resistência" ao avanço implacável da língua inglesa que, por sua vez, só tem esse alcance po rque o fator d o minante é mais do que lingüístico , é só cio eco nô mico cultural, sem dúvida, embo ra muito s v ejam aí u m i n -vasio nismo imp erialista.
pa-trimônio e id entid ad e cultural e de se saber usá-la co rretamente (e aí se co m eça o utra d iscussão : o que seria correto?...).
No Brasil, na falta de tais iniciativ as, fo i pro po sto o pro jeto de lei 1.676/ 99 do d ep utad o federal A ld o Rebelo já apro vado pela Câmara dos Deputad o s e cujo substitutiv o , apro vado por sua vez pelo Senado Fede-ral, está em trâmite. Co mpartilhamo s suas p reo cup açõ es; cremos que alguma reação p o sitiv a deva surgir - ao meno s fo mentaram muitas d is-cussõ es - , entretanto não deixaremo s de estar d iante, mais uma vez, de uma med id a "de cima para baixo ", que não pro vo ca de fato uma m ud an-ça de mentalid ad e, apesar de, infelizmente, representar bem o estilo de tud o o que p arcamente funcio na neste país: salvo exceçõ es sempre pre-sentes, mas nada abund antes, respeita-se a velo cid ad e p erm itid a em ruas e estradas so bretud o para se ev itarem multas, reduz-se o co nsumo de energia elétrica para não haver so bretaxas ou cortes, estuda-se se-riamente para se recuperar no tas etc. A grand e esp erança é que talvez seja esse mesmo o "jeitinho " de aprend ermo s, a co nscientiz ação e ma-turid ad e firmand o -se apenas depo is de d uras penas.
De o utro p o nto de v ista, uma lei que proíba os estrangeirismo s sem uma rigo ro sa e criterio sa análise de cada caso será uma lei no rmativ a, que irá co ntra o efetivo uso da língua, po is há vários estágio s de empre-go dos estrangeirismo s em uma língua. Eles p o d em, por um lado, aco m-panhar a entrad a de u m p ro d uto o u co nceito no vo , por exemplo , imp o r-tad o de o utra cultura. E isso é inevitável, em u m p rimeiro mo mento . Co missõ es de no rmalização , co mpo stas por especialistas (lexicó lo go s e terminó lo go s), p o d eriam propor, no entanto , um vernáculo co rrespo n-d ente, ainn-d a que se reco rra à criação neo ló gica. Co nsin-d eremo s, entre-tanto , que essa "iniciativ a" causa até repulsa em muito s co legas lin-güistas, ro tulad a de "retró grada". Por o utro lado, os estrangeirismo s p o d em entrar d esnecessariamente (à p rimeira vista) co -o co rrendo , co
n-co rrendo ou sup lantand o o termo vernáculo . Aí vo ltamo s à questão do
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prestígio/desprestígio e esses estrangeirismo s p o d eriam ser co nsid era-dos, po is, no civo s. Há, to d av ia, de se relativizar essa afirmação , uma vez que o léxico de qualquer língua natural é flexível, co nstantemente aberto à inco rpo ração , criação , co nsag ração , arcaização etc. de uma pa-lavra. Os estrangeirismo s, claro, fazem parte desse mo v imento , desse processo de enriquecimento lingüístico .
Em o utras palavras, devemos co nsiderar três grandes casos:
1) o dos estrangeirismo s que im p eram sem co nco rrência, co nsid e-rados inco rp o rad o s ao léxico da língua p o rtuguesa, co ntra os quais
nada p retend e o pro jeto de lei a que nos referimo s (exemplo :
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flash back, réveillon);2) o dos estrangeirismo s que co nv iv em co m termo s vernáculo s; na maio r parte das vezes, são d esnecessário s, mas de fo rte imp acto so cial, amp lamente d ifund id o s pela mídia e já assimilad o s pela so cied ad e,
tra-tand o -se, p o rtanto , de uma questão d elicad a (exemplo : deliveiy, hot
dog, self service);
3) o dos estrangeirismo s neo ló gico s, que às vezes tard am a receber seu co rrespo nd ente vernáculo , trabalho a ser agilizad o por co missõ es
no rmalizad o ras (exemplo : software, mouse).
Os casos 2 e 3 po d em merecer nossa atenção e serem reavaliado s, repensados, e quem sabe possa haver alguma mud ança de atitud e pe-rante eles, apesar de se referirem a um número realmente red uzid o de palavras se to mad o , nem diríamos o léxico to tal da língua p o rtuguesa (as suas quinhentas m il unid ad es), mas apenas um repertório de apro -ximad amente três m il palavras, que reuniria o vo cabulário ativ o e pas-sivo de u m usuário méd io .
Vemos que no próprio Aurélio os estrangeirismo s não são tratad o s
de maneira unifo rme. Podemos localizar palavras estrangeiras sem ne-nhuma ad ap tação quanto à fo rma o u à significação ; são os
estrangeiris-mo s puro s, coestrangeiris-mo savoir-vivre, vernissage... Mas há também palavras
es-trangeiras adaptadas e já inco rpo rad as à língua po rtuguesa, os emp
rés-timo s (boate, sutiã...), além de outras que são registrad as na no
mencla-tura do dicio nário co m ou sem ad ap tação fo rmal, por exemplo , atelier o u
"ateliê", complot o u "co mplô ". Verificam-se até casos de "sug estõ es" em po rtuguês - rap id amente abso rvidas pela mídia - para d esbancar al-guns estrangeirismo s por d écad as incrustad o s no uso popular, a que serviria de exemplo o tão atualmente d iv ulgad o "ap agão ", no lugar de black-out o u "blecaute".
rea-lid ad e, povos d iferentes, co m usos e co stumes d iferentes, falando uma língua co m u m sem-número de d iferenças, atrelados por uma história de "desco berta", de "civilização ", mas que, sincro nicamente co nsid erand o , d isp utam o to po da hierarquia o u, ao meno s, uma efetiva ind ep end ência lingüística. Tal d ificuld ad e vale no que co ncerne aos estrangeirismo s: d eterminar co m o bjetiv id ad e até que p o nto o uso abusivo destes possa descaracterizar o co njunto lexical ou estrutural de uma língua dada. A té o mo mento , essa p reo cup ação parece-no s to talmente d escabid a.
Enfim, to do s os estrangeirismo s, necessário s ou não , e amp lamente utilizad o s - até d efend id o s - por acad êmico s, pro fissio nais liberais, agentes da imp rensa e po vo em geral não parecem representar de fato nenhuma am eaça à integ rid ad e do po rtuguês brasileiro , embo ra inega-v elmente causem em alguns u m certo desco nfo rto , d igamo s, lingüísti-co. A cred itamo s, to d av ia, que possa "virar mo d a", até to rnar-se u m "há-bito cultural", a vo lta a esse po rtuguês o u a p ro cura por ele para nos expressarmos co m os nossos próprios recursos lexicais, se tiv ermo s uma po lítica ed ucacio nal que apo nte para essa d ireção , levand o deba-tes e pro po stas ao seio da so ciedade em to das as suas camad as.
Por que aind a comer um
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hot dog v end id o pelo Pedro, se há tantotemp o , a duas quadras d ali, o Juca nos prepara u m "cacho rra-quente"
maravilho so ? Ou será que artigo s on sale terão mais d esco nto que os
"em liquid ação "? Ora, po d emo s imp o rtar e absorver o que for b o m e útil, o u que simp lesmente estiver em vo ga aí pelo mund o , mas nad a deve necessariamente nos imp ed ir de o v estirmo s co m os tecid o s pro -d uzi-d o s aqui.
X A TA R A , C. M . Fo reig n w o rd s w i th no bo und aries. Alfa (São Paulo), v.45, p.149-154, 2001.
• ABSTRACT: Engaging the debate which was proposed to this issue, we
in-tend to discuss aspects related to the use of foreign words and borrowings,
both at the level of daily use and in the case of subjection to the norms.
• KEYW ORDS: Foreign words; borrowings.
Referências bibliográficas
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FARACO, C. A. (org.)
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Estrangeirismos: guerras em torno da língua. São Paulo: Parábola, 2001. 190 p.REBELO, A . Projeto de lei 1676/1999. Diário Popular, 7/ 11/ 1999.
X ATAR A, C. M. O empréstimo e suas medidas. Alfa (São Paulo), 36: 99-109,