Análise de conteúdo em pesquisas que utilizam metodologia clínico-qualitativa: aplicação e perspectivas.

Texto

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ANÁLI SE DE CONTEÚDO EM PESQUI SAS QUE UTI LI ZAM METODOLOGI A CLÍ NI

CO-QUALI TATI VA: APLI CAÇÃO E PERSPECTI VAS

Claudinei José Gom es Cam pos1

Egber t o Ribeir o Tur at o2

An álise de con t eú do abr an ge u m con j u n t o de t écn icas de or gan ização de com u n icações/ in f or m ações - u m p r oced im en t o f r en t e a d ad os q u alit at iv os p ar a f azer em er g ir t em as/ t óp icos e con ceit os/ con h ecim en t os. O cont eúdo de um a com unicação, consider ando o discur so hum ano falado ou escr it o, é com plex o e apr esent a v aliosa car act er íst ica p olissêm ica. Com a d if u são d o m ét od o d e p esq u isa clín ico- q u alit at iv o d en t r e n ós, a u t ilização da an álise de con t eú do, im por t an t e f er r am en t a m et odológica, t r az qu est ões t eór ico- pr át icas qu e n ecessit am ser bem apr eciadas par a a ut ilização academ icam en t e pr ecisa. Dessa for m a, obj et iv ou- se nest e ar t ig o en u m er ar elem en t os p ar t icu lar es d a t écn ica d e an álise d e con t eú d o, d iscu t in d o su a ad eq u ação à m et odologia clínico- qualit at iva, que casa os genéricos m ét odos qualit at ivos, const ruídos nas Ciências do Hom em e da Cu lt u r a, com o cam po das Ciên cias da Saú de. For am selecion ados con ceit os v isan do su a per t in ên cia, em pr ego e ev ent uais adapt ações par a o cit ado m ét odo.

DESCRI TORES: m ét odos; pesquisa qualit at iv a; pesquisa m et odológica em enfer m agem

CONTENT ANALYSI S I N STUDI ES USI NG THE CLI NI CAL–QUALI TATI VE METHOD:

APPLI CATI ON AND PERSPECTI VES

Cont ent analy sis com pr ises a set of t echniques for or ganizing com m unicat ion/ infor m at ion – a pr ocedur e used w i t h q u al i t at i v e d at a t o m ak e t h em es/ t o p i cs an d co n cep t s/ k n o w l ed g e em er g e. Co m m u n i cat i o n co n t en t , consider ing hum an w r it t en or spok en discour se, is com plex and pr esent s v aluable poly sem ous char act er ist ic. Wit h t he dissem inat ion of t he clinical- qualit at ive m et hod, t he use of cont ent analysis, considered an im port ant m et hodological t ool, raises t heoret ical- pract ical issues t hat need t o be t aken int o considerat ion for it s academ ically pr ecise u se. Th u s, t h is ar t icle aim ed t o en u m er at e specific elem en t s of t h e con t en t an aly sis t ech n iqu e an d discuss it s suit abilit y for t he clinical- qualit at ive m et hod t hat com bines generic qualit at ive m et hods from Hum an and Cult ur al Sciences w it h t he ar ea of Healt h Sciences. Concept s w er e select ed due t o t heir per t inence, use and ev ent ual adapt at ion t o t he m et hod focused on.

DESCRI PTORS: m et hods; qualit at iv e r esear ch; nur sing m et hodology r esear ch

ANÁLI SI S DE CONTENI DO EN I NVESTI GACI ONES QUE UTI LI ZAN LA METODOLOGÍ A

CLÍ NI CO-CUALI TATI VA: APLI CACI ÓN Y PERSPECTI VAS

El análisis de cont enido incluy e un conj unt o de t écnicas de or ganización de com unicaciones/ infor m aciones – u n pr ocedim ien t o fr en t e a dat os cu alit at iv os par a h acer su r gir t em as/ t ópicos y con cept os/ con ocim ien t os. El cont enido de una com unicación, consider ando el discur so hum ano hablado y escr it o, es com plej o y pr esent a una valiosa car act er íst ica polisém ica. Con la difusión del m ét odo de invest igación clínico- cualit at ivo en nuest r o m ed io, la u t ilización d el an álisis d e con t en id o, u n a im p or t an t e h er r am ien t a m et od ológica, t r ae cu est ion es t eór icas y pr áct icas que necesit an ser bien obser v adas par a obt ener una ut ilización académ icam ent e pr ecisa. Así, nos proponem os, en est e art ículo, enum erar elem ent os part iculares de la t écnica de análisis de cont enido, discu t ien do su adecu ación a la m et odología Clín ica- Cu alit at iv a qu e u n e los m ét odos cu alit at iv os gen ér icos, con st r u idos en las Cien cias del Hom br e y de la Cu lt u r a, con el cam po de las Cien cias de la Salu d. Fu er on seleccionados concept os t om ando en cuent a su pert inencia, em pleo y event uales adapt aciones para el m ét odo cit ado.

DESCRI PTORES: m ét odos; inv est igación cualit at iv a; inv est igación m et odológica en enfer m er ía

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I NTRODUÇÃO

A

construção e o desenvolvim ento do recurso

de inv est igação cient ífica, que se em basa em dois m odelos m etodológicos j á consagrados –a abordagem co m p r e e n si v o - i n t e r p r e t a t i v a d o s sím b o l o s n a s Ciências Hum anas- e, de out ro lado, as abordagens cl ín i ca s n a sa ú d e , e st ã o , j u n t a m e n t e co m a p si co d i n â m i ca , n o e n t e n d i m e n t o d a s r e l a çõ e s i n t e r p e sso a i s, q u e se co n v e n ci o u d e n o m i n a r

m et odologia clínico- qualit at iv a( 1). Ela se funda sobre

três pilares: na m ilenar atitude clínica de voltar o olhar a quem port a dor, na secular at it ude psicanalít ica de inclinar a escuta a quem vivencia conflitos em ocionais e na clássica at it ude exist encialist a de reflexão sobre as angúst ias hum anas.

O m ét od o cien t íf ico clín ico- q u alit at iv o d e pesquisa pode ser ent endido com o: “ ... o est udo e a co n st r u ção d o s l i m i t es ep i st em o l ó g i co s d e cer t o m ét odo qualit at iv o, par t icular izado em set t in g s de

saú d e, b em co m o ab ar ca a d i scu ssão so b r e u m conj unto de técnicas e procedim entos adequados para descrever e com preender as relações de sent idos e significados dos fenôm enos hum anos referidos nesse cam po”( 1).

D e p a r a r co m a s i m b r i ca çõ e s d o m é t o d o r em et e à r ef lex ão sobr e com o aplicar as div er sas t écnicas de pesquisa nele em but idas e com o fazer int erlocução, por exem plo, com as caract eríst icas de

set t ings onde t ranscorrem os fenôm enos do processo

saúde- doença, com concepções psicodinâm icas das relações ali est abelecidas, em um quadro am plo de r e f e r e n ci a i s t e ó r i co s p a r a a n co r a g e m e p a r a cot ej am ent o, dent re out ras part icularidades.

O u so d e t écn icas d e an álise d os d ad os, not adam ent e, r ev est e- se de im por t ância à m edida qu e, após a colet a das in f or m ações, n ecessit a de l e i t u r a s a cu r a d a s e d i scu ssõ e s i n t e r p r e t a t i v a s cr iat iv as. Sabe- se que, no univ er so das pesquisas qualitativas, a escolha de um m étodo e suas técnicas de colet a, bem com o o t r at am ent o de dados, dev e obr igat or iam ent e ser feit o sob olhar m ult ifacet ado sobr e a t ot alidade dos r esult ados, consider adas as observações e as entrevistas - o corpus. Tal exigência

se deve à m ult iplicidade de sent idos at ribuídos pelos suj eitos que vivenciam os fenôm enos sob estudo – o cham ado carát er polissêm ico da pesquisa( 2).

Estratégia largam ente utilizada no tratam ento d o s d i scu r so s e m i n v e st i g a çã o q u a l i t a t i v a é propriam ent e a análise de cont eúdo, abrangendo um

conj unt o de est rat égias, cuj o obj et ivo é a busca dos sent idos cont idos sob docum ent os, m at erial colet ado at r av és de en t r ev ist as( 2 ), ou n ot as de obser v ação t om adas em diários de cam po( 3).

Alm ej ou - se, com est a r ev isão, en u m er ar el em en t o s p ar t i cu l ar es d a t écn i ca d e an ál i se d e cont eúdo, discut indo sua adequação à m et odologia clínico- qualit at iva, a qual t raz os genéricos m ét odos qualit at iv os, const r uídos nas Ciências do Hom em e da Cult ura, para o cam po das Ciências da Saúde.

Um pouco da hist ór ia da const r ução do m ét odo de análise de cont eúdo

Um a rem ot a t ent at iva de buscar ent ender o

significado de det erm inada m ensagem acont eceu por

m eio da cham ada ex egese, m inuciosa int erpret ação,

sob r et u d o em p r eg ad a em t ex t os b íb licos, p ar a o possív el ent endim ent o daquilo que é subj acent e a m et áforas e parábolas desses docum ent os( 4).

Por out r o lado, par ece t er sido apenas em m eados do sécu lo XX qu e a est r at égia da an álise apresentou- se de m odo m ais sistem atizada, com real r igor de pesqu isa par a o con h ecim en t o cien t íf ico. Au t or es com o Ber elson , Lazar sf eld e Lassw ell são consider ados m ar cos cr iador es de inst r um ent os de a n á l i se d e co n t eú d o en q u a n t o t a l( 5 ), v i n d o s, n o

en t a n t o , f o r t em en t e i n f l u en ci a d o s p el a co r r en t e posit iv ist a.

Po d e - se o b se r v a r e sse v i é s f i l o só f i co r educionist a pelo conceit o t r azido por um de seus au t or es: “ an álise d e con t eú d o é u m a t écn ica d e p e sq u i sa q u e v i sa u m a d e scr i çã o d o co n t e ú d o m an i f est o d e co m u n i cação d e m an ei r a o b j et i v a, sist em át ica e quant it at iv a”( 6). Na época, v isav a- se

an alisar m at er iais j or n alíst icos p ar a in v est ig ação polít ica – as dit as propagandas subversivas– em que se buscava sent idos escondidos, os quais, ao st at us quo, convinha desvendar.

Apr im or am ent o da t écnica de análise de cont eúdo para pesquisas clínico- qualit at ivas

Et apa das leit ur as flut uant es par a im pr egnar - se do cont eúdo

Le i t u r a s f l u t u a n t e s, t e r m o u t i l i za d o e m a n a l o g i a a o co n ce i t o p si ca n a l ít i co d e a t e n ç ã o

( unifor m em ent e) flut uant e( 1), é ent endida aqui com o

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I m plica num m eio de funcionam ento, no qual se deixa o m ais liv r em ent e possív el a sua pr ópr ia at iv idade in con scien t e e su sp en d a m ot iv ações q u e d ir ig em habit ualm ent e a at enção( 7).

O co n j u n t o d a s e n t r e v i st a s g r a v a d a s represent ará várias horas em fit a e sua t ranscrição alcançará dezenas e dezenas de páginas. Para lidar com tal abundância de m aterial, deve- se seguir alguns ex pedient es pr ópr ios, em bor a a pr incípio bast ant e sim ples, pois prescinde do em prego de qualquer m eio, diga- se, ex t r aor dinár io. Consist e sim plesm ent e em não dir igir a obser v ação par a algo específico, m as apenas t angenciando, com unifor m e at enção, t udo o

que se escut a e/ ou o que se lê. Assim , poupa- se de esforço m ent al para perm anecer com t enacidade em ag u d a at en ção, o q u e ser ia m u it o d esg ast an t e e im produtivo para a finalidade de se chegar ao latente da fala dos suj eit os.

Dos cont eúdos “ m udos” às int erpret ações “ loquazes”

Tr a t a - se a q u i d o s l i m i t es d o s co n t eú d o s m a n i f e st o s e d o s co n t e ú d o s l a t e n t e s d e u m a m en sagem . Em r elação aos con t eú d os m an if est os

( ex plícit os) , é dele que se dev e par t ir e não falar a t r a v é s d e l e , n u m e x e r cíci o d e m e r a p r o j e çã o su b j e t i v a( 8 ). Fr e q u e n t e m e n t e , a q u i l o q u e v e m

r e g i st r a d o n a co l e t a n ã o é o q u e , a f u n d o , o ent revist ado quis dizer. Adent ra- se pelo inicialm ent e en i g m át i co n ív el d o si m b o l i sm o , p er t en cen t e ao universo dos cont eúdos lat ent es ( im plícit os) .

Est á aí um pont o crucial para o pesquisador clínico- qualit at ivist a: at it udes para se evit ar post uras t alvez m aniqueíst as ou ext rem adas, de desconsiderar um cont eúdo em det r im ent o do out r o. Os cuidados são não negar a subj etividade hum ana ou não im por seu s pr ópr ios v alor es em det r im en t o do pr in cípio b ási co d a p esq u i sa q u al i t at i v a d e q u e o s d ad o s analisados lev am em consider ação os significados, que são at ribuídos sem pre pelo suj eit o de pesquisa.

Dessa m aneira, a análise de cont eúdo não deve ser perigosam ent e vinculada ao t ext o ou, rigidam ent e, à t écn i ca, a p on t o d e p r ej u d i car a cr i at i v i d ad e d o ci e n t i st a , n u m a co n si d e r a çã o l e m b r a d a p e l a fenom enologia. Nem pert urbar a capacidade int uit iv a

p e cu l i a r d e p e sq u i sa d o r, p o r co n se g u i n t e , n ã o genuinam ent e subj et iv a.

É lícita a ideia de que a análise de conteúdo, com o fer r am ent a do em pr eendim ent o invest igat ivo, dev a colocar o pesquisador clínico- qualit at iv o par a

além da descrição dos resultados, ou sej a, se por um lado os dados são m udos e inertes por outro lado é o cient ist a que lhes dará voz. E é at ravés da at ividade

int erpret at iva, criando um m odelo teórico e revelando

u m a o r d em i n v i si v el m en t e ex i st en t e, a i n d a q u e repousando sobre um corpo t eórico de referências j á sedim ent adas na lit erat ura( 1).

I nferência na análise de cont eúdo

A análise de cont eúdo é com um ent e feit a a p a r t i r d e r e g i s t r o s e a ssi m p e r m i t e a q u i l o q u e m e t o d o l o g i ca m e n t e ch a m a m o s d e i n f e r ê n c i a,

g en er icam en t e u m a p assag em d as p r em issas em revisão através do texto até a conclusão do trabalho. Pont ua- se que “ o at o de inferir significa a realização de um a oper ação lógica, pela qual se adm it e um a pr oposição em v ir t u de de su a ligação com ou t r as proposições j á aceit as com o verdadeiras”( 4).

Produzir inferências sobre um texto, tal com o u m co n j u n t o d e en t r ev i st as, co n f er e ao m ét o d o r e l e v â n ci a t e ó r i ca , v i n cu l a n d o , p o r e x e m p l o , o conj unt o das falas a algum a for m a de t eor ia a ser est abelecida( 9). E, em cer t a peculiar idade, par t indo do discur so dos suj eit os, est ar - se- á r espeit ando o princípio êm ico da pesquisa, ou sej a, a int erpret ação

é feita sob a perspectiva dos indivíduos sob estudo e não na cosm ovisão do cient ist a.

Se g u n d o e ssa co n ce p çã o , p r o d u zi r i n f e r ê n ci a s e m a n á l i se d e co n t e ú d o si g n i f i ca , principalm ent e, produzir conhecim ent os subj acent es a det er m inada m ensagem , e t am bém ancor á- las a um quadro de referenciais t eóricos, sit uando- se num p a r a d i g m a a ca d ê m i co , si t u a çã o co n cr e t a q u e é visualizada segundo o cont ext o hist órico e social de sua pr odução.

A an álise de con t eú do dev e ser adapt ada p ar a o com eço d o u so in t en cion al d e sím b olos e l i n g u a g e m , f o r n e ce n d o si g n i f i ca d o s o b j e t i v o s e sist em át icos, lev ando a infer ências v álidas a par t ir dos diversos tipos de dados obtidos, com a finalidade de dem on st r ar fen ôm en os específicos( 1 0 ). Ain da, a

m e sm a a u t o r a r e f o r ça a i m p o r t â n ci a d a co n t e x t u a l i za çã o e d o m e i o a m b i e n t e o n d e se p r o d u zi r a m o s d a d o s, a u m e n t a n d o a g a m a d e in f or m ações e p r op ician d o an álise in f er en cial d os result ados no seu cont ext o de produção.

Para a pesquisa clínico- qualit at iva, o set t ing,

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m u i t o m ai s q u e o esp aço f ísi co u t i l i zad o , o q u e ch am am os am b ien t es n at u r alíst icos n as pesqu isas

qualit at iv as aplicadas ao enquadr e de assist ência à saú de.

Nessa con t ex t u alização, são colet ad os os dados desse t ipo de pesquisa, assim sendo, no boj o d a s r e l a çõ e s i n t e r p e sso a i s, p r o p i ci a d a s p e l a s ent revist as face a face, produz- se m uit o m ais que a so m a t ó r i a d e i n f o r m a çõ e s e scr i t a s. Ne ssa co m p o si çã o , o p e sq u i sa d o r e st á i n t e r e ssa d o existencialm ente nas angústias e ansiedades geradas, não só por essa relação hum ana, m as pelas diversos r elat os sob r e su as v iv ên cias n o p r ocesso saú d e-doença, o tratam ento clínico, os desfechos, e relação com os profissionais da saúde em geral( 11).

Co m o se p o d e d e p r e e n d e r, o e n f o q u e infer encial pode e deve com eçar a acont ecer m uit o ant es, m uit as vezes na própria m aneira de conduzir u m a e n t r e v i st a e n a s o b se r v a çõ e s, q u a n d o o pesquisador, at ravés de conhecim ent o t eórico prévio e int uição, per cebe em det er m inado m om ent o que pode enfocar sit uações que não est ão obj et ivam ent e ex post as, m as que cer t am ent e podem pr oduzir um filão de discussão.

Se se l e v a r e m co n si d e r a çã o q u e o a t o infer encial/ int er pr et at ivo leva à leit ur a subj et iva de conteúdos não m anifestos, esse trabalho de discussão pode ser iniciado ant es de o m at erial ser colet ado e p o st e r i o r m e n t e t r a n scr i t o . O p r ó p r i o co n t a t o t ranscorrido no at o da ent revist a j á fornece m at erial p ar a an álise cr escen t e. O q u e p od e ser an ot ad o, preferencialm ent e, logo após o t érm ino da ent revist a em um diár io de cam po, t ornando- se, assim , út il.

Na l i t e r a t u r a , e n co n t r a - se a ssi n a l a d o o car át er concom it ant e ent r e a colet a dos dados e o p r óp r i o i n íci o d a an álise d os d ad os q u ali t at iv os, f o r n e ce n d o a o p e sq u i sa d o r o p o r t u n i d a d e d e desenvolver conclusões incipient es, com refinam ent o de quest ões e busca de nov as v ias de indagação, agora com m aior profundidade( 12).

O p r o ce sso d e ca t e g o r i za çã o p e l o cr i t é r i o d e r elev ân cia

O p r o ce sso d e c a t e g o r i z a ç ã o p o d e se r

com p r een d id o com u m p r ocesso d e ap r esen t ação d i d á t i co - ci e n t íf i ca d o s r e su l t a d o s e d i scu ssõ e s, referentes à realização da análise dos dados. Didático, na m edida em que procura dar certo ordenam ento, a

princípio, a um a aparent em ent e “ m assa caót ica” de sent idos, de m odo a t or nar sua apr esent ação m ais palatável e plausível para os padrões de com preensão do fenôm eno pret endido pelo pesquisador. Cient ífico, n a m e d i d a e m q u e , p o r se r e m b a sa d o p o r conhecim entos teóricos e filosóficos, segue regras que j á são universalm ent e consagradas pela com unidade cient ífica.

Pode- se ent ender cat egor ia com o “ gr andes en u n ciad os q u e ab ar cam u m n ú m er o v ar iáv el d e t e m a s, se g u n d o se u g r a u d e i n t i m i d a d e o u proxim idade, e que possam , at ravés de sua análise, ex pr im ir significados im por t ant es que at endam aos obj et iv os de est udo e cr iem nov os conhecim ent os, p r op or cion an d o u m a v isão d if er en ciad a sob r e os t em as propost os”( 2).

Em r e l a çã o à f o r m a çã o d a s ca t e g o r i a s, r e a l i za d a a p a r t i r d o s t ó p i co s e m e r g e n t e s n a s releit uras( 1), ou unidades de análise ou t em át icas( 4),

b a si ca m e n t e e l a p o d e se r co n f i g u r a d a se g u n d o cr it ér ios d e r elev ân cia. O t er m o r elev ân cia denot a u m t em a im p or t an t e q u e, em b or a n ão ap r esen t e repetição num érica dentre os relatos, sua im portância para responder às hipót eses inicialm ent e form uladas m ost r a- se d e g r an d e p ot en cial e r iq u eza p ar a o d e se n v o l v i m e n t o d e co n h e ci m e n t o s n o v o s, garantindo, por si só, m aterial consistente para m aior apr ofundam ent o do fenôm eno.

Ut i l i za n d o r a ci o cín i o s i n d u t i v o s e d e d u t i v o s, sequencialm ent e, na análise

O raciocínio indut ivo nas análises de dados, q u e se g u e m u m a m e t o d o l o g i a q u a l i t a t i v a , é v ast am ent e conhecido e av alizado( 1, 3, 13). A indução

se configura em atitude m ental por interm édio da qual, p ar t in d o- se d e d ad os p ar t icu lar es, se in f er e u m a verdade geral ou universal, não cont ida apenas nas p ar t es ex am in ad as, e cu j o ob j et iv o é ap r esen t ar conclusões gener alizáv eis. I ndução é o salt o audaz ( e tem erário) de onde estou para onde não estou, do m om ento em que vivo para m om entos em que ainda n ã o v i v o , d o en q u a d r e d e m i n h a p esq u i sa p a r a sit uações nov as.

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Por out r o lado, num pr ocesso dedut iv o de pesquisa, ocorreria o cam inho inverso, sendo que as v ar iáv eis, con ceit os, con st r u ct os e h ip ót eses são derivadas ou advêm das relações t ot ais observadas no cam inhar do processo de codificação dos dados( 3).

O pesquisador, nesse caso, parte de um universo geral j á const it uído para um a part icularidade( 1).

Especula-se Especula-se o p en sa m en t o d ed u t i v o Especula-sej a r ea l m en t e o cam inho epistem ológico do saber científico, na m edida em que as t eor ias são concebidas pela genialidade de alguns cientistas, os quais, por sua vez, necessitam com pr ov ar em sit uações pr át icas a concepção que t iveram para ent ão sat isfazer os cânones acadêm icos e ganhar aceit ação por seus pares.

For m a in t er essan t e p ar a a con st r u ção d e conhecim ent os na pesquisa clínico- qualit at iv a ser ia adm itir e buscar a utilização de um processo dialético indut ivo- dedut ivo, com preendido em sua t ot alidade, a b a r ca n d o t a m b é m o se u ca r á t e r i n t u i t i v o relacionado( 1,15).

Pod e- se, n o en t an t o, b em con sid er ar, n a per spect iv a global das inv est igações em ciência, e e x a m i n a n d o e p i st e m o l o g i ca m e n t e o r i g o r d o s percursos dos pesquisadores nas Ciências Nat urais e nas Ciências Hum anas, que o r aciocín io dedu t iv o e

raciocínio indut ivo têm lugares que lhes são próprios.

No q u a d r o a se g u i r, o s a u t o r e s t r a ze m u m a abordagem panorâm ica dos percursos m et odológicos, nos quais a técnica do tratam ento de dados, discutida no present e art igo, t em sua fase peculiar( 16).

Figura 1 – Percurso m et odológico de pesquisadores com passagem pela et apa da Análise de Cont eúdo, considerando as invest igações qualit at ivas

Va l i d a çã o d o s r esu l t a d o s d e a n á l i se co m o f o r t e at ribut o do m ét odo

Pode- se dizer que os est udos qualit at iv os, con sider an do a pesqu isa n as Ciên cias do Hom em , t êm sua m aior força no rigor da v alidade, ist o é, o qu e é est u dado e apr een dido pela con sciên cia do pesquisador, espelhado e elaborado em seu m undo i n t e r n o , e st a r i a m u i t o p r ó x i m o d o f e n ô m e n o diretam ente sob exam e no m undo externo( 1). I sso se

d ev e à p ecu liar id ad e d e u m a colet a d e d ad os d e gr an de r espeit o ao f lu ir n at u r al do discu r so e do co m p o r t a m e n t o d o s su j e i t o s e m i n v e st i g a çã o cient ífica.

Ta l co m o n a e l a b o r a çã o d o p r o j e t o d e pesquisa, no processo de colet a de dados em cam po t am bém é necessáriaa v alidação do t rat am ent o dos

dados pelo pesquisador. Exist em diversas form as de se r ealizar essa v alidação com o, por ex em plo, n a t r ian gu lação de m ét odos e de t eor ias, n a qu al se u t i l i za m r e cu r so s m e t o d o l ó g i co s d i v e r so s e se analisam os dados t om ando por base várias t eorias. Recor r e- se t am b ém à ch am ad a v a l i d a çã o

ext erna, feita pela interação com j uízes e pelos pares,

i st o é , p e l a su p e r v i sã o f e i t a p e l o o r i e n t a d o r e pesquisadores seniores, reconhecidos pela experiência com o u so do m ét odo e dos r ef er en ciais t eór icos u t i l i za d o s. D ev e- se a i n d a a u m en t a r a v a l i d a çã o apresent ando os result ados aos grupos de pesquisa, m ost r ando e debat endo os r esult ados pr elim inar es em event os e assim por diant e( 2).

Por fim , é per t inent e fr isar que há m uit as possibilidades de construções teóricas por um m esm o pesquisador, e que tam bém é real que achados podem ser in t er pr et ados de f or m as dif er en t es por ou t r os pesquisadores, haj a vista o citado caráter polissêm ico em ciências hum anas. O que se deve fazer na análise de cont eúdo não é r est r ingir ideias int er pr et at iv as, m as o cuidado deve ser apenas ident ificar os vieses presentes para rem ovê- los, se possível, ou considerá-los no j ogo da apr eciação do m at er ial sob leit ur a, quando se t rat a de obliquidades irrem ovíveis.

CONCLUSÕES

Ne st a b r e v e d i scu ssã o , f i ca - se co m a in st igan t e per cepção de qu e ou t r os elem en t os do m é t o d o d e a n á l i se d e co n t e ú d o p o d e r i a m se r abor dados e discu t idos à lu z das n ecessidades do Suscitadores de

perguntas: realidade empírica + literatura

científica

Hipóteses são formuladas

Teoria incipiente

Campo é observado

Raciocínio dedutivo Dados são coletados

Hipóteses sãotestadas

Há generalização dos resultados (que foram matematizados). Para

pesquisas experimentais e pesquisasquantitativas

Raciocínio indutivo

Análise de conteúdo

Uma teoria elaborada Pressupostos são revistos Para novos enquadres,

em novas situações Há generalização de

conceitos. Para pesquisas humanistas e pesquisas

(6)

m ét odo clínico- qualit at iv o. No ent ant o, m ost r a–se, aqui, pont os de vist a para ut ilização de um m ét odo em reconhecim ent o. Um a abordagem do m ét odo de a n á l i se d e co n t e ú d o si g n i f i ca d e m o n st r a r su a v e r sa t i l i d a d e co m o t a m b é m se u s l i m i t e s d e

oper acionalização. O d esen v olv im en t o d o m ét od o p a ssa i n v a r i a v e l m e n t e p e l a cr i a t i v i d a d e e p e l a capacidade do pesqu isador qu alit at iv ist a em lidar com sit u ações in u sit adas n o est u do do f en ôm en o h u m a n o .

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Recebido em : 12.11.2007 Aprovado em : 10.2.2009

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Referências