Levantamento de Formigas (Hymenoptera: Formicidae) em residências de Manaus, estado do Amazonas, Brasil.

Texto

(1)

LEVANTAMENTO DE F O R M I G A S ( H Y M E N O P T E R A : FORMICIDAE) EM RESIDÊNCIAS DE MANAUS, ESTADO DO AMAZONAS, BRASIL.

A n a Paula C o e l h o M A R Q U E S1 , 2

, Rosaly A L E - R O C H A1

, J o s é Albertino R A F A E L1

RESUMO - Apresenta-se os resultados do levantamento de formigas que infestam residências na cidade de Manaus, Amazonas. Comparou-se duas estações do ano (seca e chuvosa), dois períodos de atividade (diurno e noturno) e quatro diferentes cômodos da casa (sala, quarto, cozinha e banheiro). Todas residências estavam infestadas por pelo menos uma espécie de formiga; 21 espécies foram coletadas, sete delas consideradas características de habitats humanos e dessas, três são exóticas. Observou-se maior diversidade durante a época chuvosa e no período noturno. A cozinha foi o cômodo com maior ocorrência e a diversidade foi semelhante entre os cômodos; nenhuma espécie dominante foi observada; Tapinoma melanocephalum foi a espécie mais comum e quase sempre encontrada com outras espécies.

Palavras-chave: Formigas urbanas, Manaus, Brasil.

House Infesting Ants (Hymenoptera: Formicidae) in the City of Manaus, Amazonas, Brazil.

ABSTRACT - This research shows the results of a study of house infesting ants in the city of Manaus, Amazonas. It was compared two seasons (dry and rainy), two activity periods (day and night) and four different rooms of the house (living-room, bedroom, kitchen and bathroom). All the residences were infested with at least one type of ant. Twenty one species were collected, seven of them are considered as characteristic of human habitats, and of these three are exotic ants. The larger diversity was observed during the rainy season and during the night. The kitchen was the room with larger occurrence of ants, whereas the diversity was similar among the rooms.

Tapinoma melanocephalum was the most common species, being found frequently with other

ant species.

Key-words: Urban ants, Manaus, Brazil.

INTRODUÇÃO

As formigas são insetos sociais e ocorrem, praticamente, em todos os ambientes terrestres, exceto nos pólos. Como qualquer ambiente natural, os a m b i e n t e s artificiais podem ser colonizados e explorados por várias espécies de formigas. Assim, algumas espécies encontram-se associadas ao h o m e m e c o n v i v e m em suas r e s i d ê n c i a s (Bueno & C a m p o s -Farinha, 1999).

F o r m i g a s que ocorrem no ambiente urbano são consideradas destrutivas ou prejudiciais à saúde humana à conservação e qualidade de a l i m e n t o s , instalações elétricas e equipamentos eletrônicos (Delabie et al. 1995). As formigas que infestam residências tem recebido atenção c r e s c e n t e em todo o m u n d o mas a p e n a s r e c e n t e m e n t e no Brasil (Brown, 1964; Fowler et «/.1992,

1993; Ketelhut et al. 1993; Delabie et al. 1995).

1

IΝΡΑ , Coordenação de Pesquisas em Entomologia, CPEN - Caixa Postal 478 CEP 69011-970 Manaus - AM. 2

Bolsista CNPq/PIBIC

(2)

Segundo Delabie et al. (1995), as condições climáticas favoráveis e as características das habitações humanas nos trópicos favorecem u m a alta freq٧ência de ocorrência de formigas em residências nas regiões tropicais da América do Sul se comparado com residências das regiões temperadas. Este trabalho teve c o m o objetivo identificar as principais espécies de formigas presentes em residências na cidade de Manaus (AM) comparando-se quatro coletas, duas na estação comparando-seca e duas na chuvosa, horário diurno e noturno e diferentes cômodos das residências.

MATERIAL Ε MÉTODOS

Foram feitas quatro c o l e t a s : outubro (estação seca) e dezembro (início da estação chuvosa) de 1999, março (estação c h u v o s a ) e m a i o (início da estação seca) de 2000. Fo­ ram amostradas 28 residências de Manaus (02°53'S; 9"53'W), escolhidas aleatoriamente. As formigas foram coletadas utilizando-se tubos de vidro (50x7 mm) contendo melaço de cana a 10% c o m o isca. Os c ô m o d o s amostrados (sala, quarto, cozinha e banheiro) receberam três tubos cada, colocados durante o turno matutino (intervalo entre 6:00 e 12:00h), e noturno (entre 18:00 e 24:00h), sendo retirados após 1-2 horas de exposição, quando uma quantidade suficiente de formigas havia sido atraída pela isca. Os tubos foram transportados para a C o o r d e n a ç ã o de P e s q u i s a s em Entomologia do INPA para triagem de morfoespécies e p o s t e r i o r m e n t e

e n v i a d o s ao L a b o r a t ó r i o de Mirmecologia da CEPLAC, Itabuna, Bahia para identificação. O material testemunho foi depositado na Coleção de Invertebrados do INPA e parte na c o l e ç ã o do Dr. J a c q u e s D e l a b i e (CEPLAC, BA).

Os dados foram analisados considerando-se uma residência ou cômodo como a unidade amostrai. Os gráficos e tabelas foram construídos utilizando-se planilha do Microsoft Excel.

RESULTADOS Ε DISCUSSÃO

(3)

(Robinson, 1996).

Alguns pontos são especialmente relevantes para o entendimento da facilidade de dispersão e infestação das formigas domiciliares. Dentre eles estão a p o l i g i n i a , p o p u l a ç õ e s unicoloniais. mudança freq٧ente do lo­ cal do ninho, alta taxa de reprodução, r e p r o d u ç ã o por fragmentação de colônias inclusive sem a necessidade da presença de rainha, p e q u e n a estruturação dos ninhos e operárias com tamanho muito pequenos. Esses aspectos associados à variabil idade de e s p é c i e s implicam grandes dificuldades no controle das formigas d o m é s t i c a s ( B u e n o & C a m p o s -Farinha, 1999).

Em geral, há apenas uma ou p o u c a s e s p é c i e s d o m i n a n t e s na mirmecofauna urbana em regiões t e m p e r a d a s , c o m o o b s e r v a d o por Martinez et al. (1997) em pesquisa r e a l i z a d a na c i d a d e de Madrid, Espanha. No Brasil, a mirmecofauna em r e s i d ê n c i a s , d e t e r m i n a d a por centenas de coletas em várias cidades, apresentou mais de duas dezenas de espécies diferentes, sendo marcante a predominβncia de espécies exóticas (Bueno & Campos-Farinha, 1999). Estas caracterizam-se por uma alta agressividade interespecífica, com o deslocamento das espécies nativas, sendo que as formigas domésticas podem conviver entre elas, uma ser dominante e a outra subdominante, ou haver forte competição (Bueno & Campos-Farinha, 1999).

Um total de 21 e s p é c i e s p e r t e n c e n t e s a 11 gêneros e 4 subfamílias foram coletadas (Tab. 1).

D e n t r e as seis espécies de maior freq٧ência, quatro foram igualmente encontradas por Delabie et al. (1995) entre as mais comuns, em residências no Sul da Bahia, utilizando o mesmo tipo de armadilha/isca, onde obteve 31 espécies numa amostragem de 100 residências.

Das 21 espécies coletadas sete p o d e m ser c o n s i d e r a d a s verdadeiramente de habitats humanos por terem sido e n c o n t r a d a s em diferentes locais e em todas as partes das r e s i d ê n c i a s (Tab. 1). Essas espécies foram responsáveis por 91,2 % do número total de ocorrências. A espécie mais comum foi Tapinoma melanocephalum ( 6 4 , 3 % de residências infestadas e 3 2 , 5 % de ocorrências) (Tab. 1). Três espécies exóticas, Monomorium pharaonis, Paratrechina longicornis e Tapinoma melanocephalum, foram responsáveis por 4 9 , 8 % do n ú m e r o total de ocorrências. A maioria dessas espécies tem características em comum tais como poliginia, baixa agressividade intraespecífica e a habilidade de mudar seus n i n h o s de lugar facilmente (Passera, 1993).

Foram encontradas de uma a seis espécies por residência (Fig. 1). As seis p r i n c i p a i s e s p é c i e s tiveram variação na freq٧ência, comparando-se as quatro coletas, a qual foi maior para Camponotus (Tanaemyrmex) sp., Monomorium pharaonis e Solenopsis saevissima (Fig. 3).

O m a i o r n ú m e r o de o c o r r ê n c i a s de f o r m i g a s foi na cozinha, seguida pela sala, banheiro e quarto (Fig. 2a). A diversidade de

(4)

Tabela 1. Freq٧ência relativa das espécies de formigas encontradas infestando

residências em Manaus.

E s p é c i e s de formigas % d e R e s i d ê n c i a s % d e O c o r r ê n c i a s

Tapinoma melanocephalum 64.3 32.5

Pheidole sp. D 42.9 28.8

Paratrechina iongicornis 23.2 9.3

Monomorium pharaonis 2 2 . 3 8.0

Camponotus (Tanaemyrmex) sp. 2 1 . 4 3.8

Solenopsis saevissima 19.6 5.7

Wasmannia auropunctata 12.5 3.1

Pheidole fallax 8.9 1.8

Paratrechina fulva 8.9 3.1

Camponotus (Myrmothrix) atriceps 4.5 0.8

Odontomachus bauri 3.6 0.9

Camponotus (Myrmaphaenus) leydigi 1.8 0.5

Pheidole s p . Β 1.8 0.2

Pheidole s p . C 1.8 0.2

Pheidole suzannae 0.9 0.2

Camponotus (Myrmothrix) renggeri 0.9 0.1

Brachymyrmex sp. 0.9 0.1

Gnamptogenys striatula 0.9 0.1

Dorymyrmex pyramicus guyanensis 0.9 0.5

Pheidole sp. 0.9 0.1

Monomorium s p . 0.9 0.1

• Ou l u b r o

N ú m e r o de e s p é c i e s por r e s i d ê n c i a

Figura 1. Número de residências infestadas por formigas em função do número de espécies

(5)

e s p é c i e s foi s e m e l h a n t e entre os c ô m o d o s : a sala apresentou doze e s p é c i e s , s e g u i d a pela c o z i n h a e banheiro, ambos com onze espécies, e por último o quarto com apenas nove espécies (Fig. 2b). Tanto a sala c o m o a c o z i n h a p r o v a v e l m e n t e oferecem mais possibilidades para a c o n s t r u ç ã o de n i n h o s e t a m b é m maior oferta de alimentos. Segundo Bueno & Campos-Farinha (1999), as f o r m i g a s d e n o m i n a d a s tramp species, formigas andarilhas, vivem em íntima associação com o homem e d e n t r o d a s r e s i d ê n c i a s , s u a p r e s e n ç a na c o z i n h a , d e s p e n s a e banheiro causa incômodo, além de invadirem e provocarem danos em eletrodomésticos. Em regiões onde é c o m u m a p r e s e n ç a de p l a n t a s o r n a m e n t a i s nas s a l a s , e s t a s freq٧entemente se tornam o princi­ pal local infestado da casa, como mostrado por Delabie et al (1995).

Considerando dois turnos (dia e n o i t e ) , o b s e r v o u - s e m a i o r diversidade de espécies durante a noite, principalmente na época mais chuvosa; menor diversidade ocorreu no início da época c h u v o s a com p o u c a ou n e n h u m a d i f e r e n ç a no número de espécies entre os dois t u r n o s . As e s p é c i e s d o g ê n e r o Camponotus m o s t r a r a m m a i o r a t i v i d a d e à noite sendo coletadas apenas uma vez durante o dia. O estabelecimento dessas espécies de formigas em ambientes residenciais p o d e d e v e r - s e ao seu h á b i t o noturno, o qual não interfere com a a t i v i d a d e h u m a n a e e v i t a a c o m p e t i ç ã o com o u t r a s espécies

(Delabie et ai, 1995).

As espécies Camponotus (Tanaemyrmex) sp. e Solenopsis saevissima, Monomorium pharaonis e

Wasmannia auropunctata não foram encontradas infestando uma mesma residência em nenhuma das coletas. Exceto estas espécies, não foi observado efeito antagônico entre a maioria das formigas domiciliares, ocorrendo até quatro espécies em um mesmo cômodo de uma residência, mas não havendo mais de uma espécie por isca.

Linepithema humile, espécie nativa da América do Sul (Argentina e Brasil) e amplamente distribuída em a m b i e n t e s urbanos das zonas t e m p e r a d a s e s u b t r o p i c a l da Austrália, África do Sul, Amιrica  do Norte e Europa (Robinson, 1996)  foi  c o m p l e t a m e n t e  a u s e n t e nas  c o l e t a s .  R e s u l t a d o  s e m e l h a n t e  obtido por Delabie et al. (1995),  indica que assim como na Bahia, a  p r i n c i p a l  d i f e r e n η a  e n t r e as  c o m u n i d a d e s  d a s  p r i n c i p a i s  e s p ι c i e s de formigas  d o m ι s t i c a s  infestando residκncias em Manaus e  outras partes do Brasil, ι a ausκncia  de L. humile,  f r e q ٧ e n t e m e n t e  encontrada em ambientes urbanos  em outras partes do Brasil (Brown, 

1964; Fowler et al. 1993). 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ΰs pessoas que nos  permitiram a realizaηγo das coletas em  suas  r e s i d κ n c i a s , a Jacques H.C.  Delabie (CEPLAC, Itabuna, Bahia)  pela identificaηγo do material e a  Beatriz Ronchi Teles (CPEN/INPA)  pelas sugestυes. 

(6)

• Cozinha Ξ  Sala • Banheiro DQuai  ^Cozinha Ξ  Sala • Banheiro • Quarto 

Figura 2. Percentagem da ocorrκncia de formigas (a) e n٥mero de espιcies (b) nos cτmodos  amostrados. 

O u t u b r o Dezembro  M a r η o Maio 

Coletas

• Tapinoma melanocephalum Μ Pheidole sp. D

• Camponotus (Tanaemyrmex) sp. [3 Paratrechina longicornis

• Monomorium pharaonis Μ Solenopsi.s saevissima

Figura 3. Espιcies de formigas mais abundantes em quatro coletas (outubro e dezembro  de 1999; marηo e maio de 2000) nas residκncias de Manaus, AM. 

Bibliografia citada

Brown, W. L., Jr. 1964. Some tramp ants of  Old World origin collected in Tropical  Brazil. Entomol. News 75: 14­15.  Bueno, O.  C ; Campos­Farinha. A. E. 1999. As 

formigas domιsticas. In: Insetos e outros

invasores de residências.  F E A L Q . 

Piracicaba, SP, 460 pp. 

D e l a b i e , H.  C ; Do  N a s c i m e n t o , I.  C ; P.  Pacheco & A. B. Casimiro. 1995. Com­ munity structure of house­infesting ants  (Hymenoptera: Formicidae) in southern  Bahia, Brazil. Florida Entomologist 78(2): 

264­270. 

Fowler, H.G.; A nam ma Filho & O. C. Bueno.  1992. Vertical and horizontal foraging: in­ tra and  i m e r e s p e c i f i c spatial  autocorrelation , .litems in Tapinoma

melanocephalum and Monomorium pharaonis (Hymenoptera: Formicidae). 

Ciência e Cultura 44: 395­397. 

Fowler, H.G.; Bueno, O. C. ; T. Sadatsune &  A. C. Montclli. 1993. Ants as potential  vectors of pathogens in hospitals in the  State of Sγo Paulo. Brazil. Insect Set.

Applic. 14: 367­370. 

(7)

Indjai, Β. ; Μ . Castellani & Ο . C. Bueno.  1993. Formigas caseiras de Rio Claro­SP  (Hymenoptera: Formicidae). Resumos, IV

International Symposium on Pest Ants,

Belo Horizonte, Brasil. 

Martinez, Μ . D. 1997. Urban fauna ­ Hy­ menoptera in Madrid households, with  special reference to ants (Hymenoptera.  Formicidae). Entomofauna 26: 417­428.  Passera, L. 1993. Quels sont les caracteres 

ι t h o ­ p h y s i o l o g i q u e s  d e s  " f o u r m i s  v a g a b o n d e d " ? Actes Coll. Insectes

Sociaux, 8: 39­45. 

Robinson, W. H. 1996. Urban Entomology ­ In­

sect and mites pests in the human environ­ ment. Chapman & Hall, London, 430 pp. 

Vepsalainen, K. & Pisarski, B. 1982. The struc­ ture of urban ant communities along a  geographical gradient from north Finland  to Poland. In: Animals in urban environ­

ment. Polish Academy of Sciences. Insti­

tute of Zoology: 156­168. 

Aceito para publicação em 25/02/2002

Imagem

Tabela 1. Freq٧ência relativa das espécies de formigas encontradas infestando  residências em Manaus

Tabela 1.

Freq٧ência relativa das espécies de formigas encontradas infestando residências em Manaus p.4
Figura 2. Percentagem da ocorrκncia de formigas (a) e n٥mero de espιcies (b) nos cτmodos  amostrados. 

Figura 2.

Percentagem da ocorrκncia de formigas (a) e n٥mero de espιcies (b) nos cτmodos amostrados. p.6
Figura 3. Espιcies de formigas mais abundantes em quatro coletas (outubro e dezembro  de 1999; marηo e maio de 2000) nas residκncias de Manaus, AM. 

Figura 3.

Espιcies de formigas mais abundantes em quatro coletas (outubro e dezembro de 1999; marηo e maio de 2000) nas residκncias de Manaus, AM. p.6

Referências