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Freud, a realidade psíquica e a tentação do transcendental.

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Academic year: 2017

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RES UMOA noção freudiana de “ realidade psíquica” m erece ser in-terrogada a partir do conceito kantiano de transcendental, um a vez que ela levanta a questão das condições de possibilidade da expe-riência; e isso a partir de um ponto de vista tríplice: o do aparelho psíquico, de sua estrutura e da atividade inconsciente; o ponto de vista da obrigação m oral; e o da experiência estética. Em cada caso, os em baraços de Freud para determ inar um fundam ento em pírico dei-xam perceber ao m esm o tem po a tentação e a resistência para com a explicação transcendental. Mas isso pode tam bém conduzir a um a revisão do conceito filosófico de “realidade”.

Palavras - c have : Freud, Kant, realidade transcendental, experiência.

ABSTRACTFreud, the psychic reality and the tem ptation of the

tran-scendental. The Freudian notion of psychic reality deserves to be ques-tioned from the point of view of the Kantian concept of the transcen-dental, since it raises the point about the conditions of experience possibility. This is done in the basis of three view points: first from the one regarding the psychic apparatus, its structure and its uncon-scious activity; then from the point of view of m oral obligation, and finally from that of aesthetic experience. In each case, Freud’s em bar-rassm ent to determ ine an em pirical basis for reality leave w ay to both tem ptation and resistance to transcendental explanations. On the other hand, his very position can be seen as an open path for revisit-ing the philosophic concept of reality.

Ke y w o rds : Freud, Kant, transcendental reality, experience.

D

izer que a inovação freudiana reside essencialm ente na

no-ção de realidade psíquica não é forçar a concisão, pois — com o se sabe — o term o inconsciente não era ignorado pelos antecessores de Freud, ainda que estes tivessem daquele um conceito, é cla-ro, radicalm ente distinto. Em com pensação, a “realidade psí-quica”, por sua própria form ulação, é o que rom pe com toda a tradição filosófica e psicológica que precede a invenção da psi-canálise.

Professor de Filosofia em Strasbourg, França

Tradução de Gérard Grim berg e Angélica Bastos

FREUD, A REALIDADE PSÍQUICA E

A TENTAÇÃO DO TRANS CENDENTAL

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No entanto, é do ponto de vista filosófico que eu gostaria de, aqui, tentar in-terrogar o conceito de realidade psíquica, e interrogá-lo, justam ente, enquanto conceito filosófico. Explico-m e. Não se trata de ignorar que, por essa expressão de realidade psíquica, expressão recorrente em toda a sua obra, Freud não designou sim plesm ente o dom ínio próprio à investigação psicanalítica; m as visou aquilo m esm o que a psicanálise havia trazido à luz e que havia sido até aí ignorado pela filosofia e m esm o pela ciência psicológica, enquanto esta psicologia perm anecia tributária, até então, da filosofia. A realidade psíquica designa, assim , do ponto de vista tópico, o desejo enquanto prim ordialm ente desejo inconsciente; do ponto de vista dinâm ico, a fantasia na qual se articula o desejo; m as tam bém , do ponto de vista econôm ico, a pulsão, à m edida que sua energia investe as representações que com põem a fantasia e o desejo. Em cada um a dessas perspectivas, a noção de realidade psíquica significa um real que tem a sua consistência, sua coesão pró-pria, e que não se poderia confundir com aquilo que Freud1 cham a ora “realidade

exterior” ( FREUD, 1911, p. 279) ,ora “realidade m aterial” ( FREUD, 1917, p. 43;

Idem , 1900, p. 658-9) .

Todavia, nessa distinção entre realidade psíquica e realidade m aterial, o que — filosoficam ente falando — coloca m ais problem a, não é tanto a oposição entre o

psíquico e o material ( ou entre o psíquico e o exterior) , quanto o conceito m esm o de realidade. Qual é o estatuto deste real que não é sim plesm ente um a realidade acres-centada à realidade m aterial ( ainda m enos um a realidade à m argem da realidade exterio r) , m as o q u e d eterm in a a relação d o su jeito a esta realid ad e exterio r? A questão do estatuto desse real deve, com efeito, ser colocada, à m edida que a expressão realidade psíquica designa nada m enos que aquilo que, no psiquism o, determ ina a relação do sujeito ao m undo, isto é, o que constitui a condição de possibilidade da experiência.

Ora, exam inar o que, no psiquism o, constitui a condição de possibilidade da experiência, é, filosoficam ente falando, colocar um a questão transcendental, no sentido m ais rigorosam ente kantiano desta palavra. Eis assim a questão que gosta-ria de colocar aqui: quando Freud produz a noção de realidade psíquica e quando ele com eça a evidenciar nela a consistência autônom a e a exam inar a determ inação específica na organização de toda a vida psíquica do sujeito, será que sua pesquisa decorre de um inquérito estritam ente em pírico ou será que dá lugar — ainda que de m odo im plícito ou secreto — à dim ensão do questionam ento transcendental? Dito de outro m odo: que relação a noção de realidade psíquica m antém com o transcendental?

1 Com o intuito de m anter a hom ogeneidade term inológica entre as citações extraídas da obra

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Sem dúvida, objetar-se-á que esta questão é um a questão de filósofo, isto é, um a questão apenas filosófica, no sentido em que Freud considerava a filosofia tão som ente um m odo de elaboração obsessiva ou de delírio esquizofrênico ( com o diz na Metapsicologia) ; em sum a, um a questão inutilm ente abstrata e adem ais priva-da de pertinência, pois, — dir-se-á — Kant não tem napriva-da ver com Freud.

Cum pre-m e de saída responder a esta dupla objeção, tanto m ais com preensí-vel que a questão que coloco no princípio de m inha exposição poderia aparecer com o um sim ples exercício abstrato e artificial, que consistiria em opor arbitraria-m ente a Freud uarbitraria-m a filosofia que lhe seria estranha, e que, face à descoberta psica-nalítica, estaria m esm o ultrapassada.

Digam os em prim eiro lugar que colocar a questão transcendental a propósito da noção de realidade psíquica não é im portar para a reflexão de Freud um a ques-tão artificial e inoportuna. Com efeito, ao longo de toda a sua pesquisa, Freud não cessou de confrontar-se com o problem a da origem do que, no psiquism o, deter-m ina a vida desejante do sujeito. Codeter-m o já testedeter-m unha a fadeter-m osa carta a Fliess de 21 de setem bro de 1897, na qual Freud declara abandonar a sua neurótica, ele se deu conta de que os acontecim entos, m esm o os m ais antigos, da vida do sujeito não bastavam para explicar a form ação das neuroses e que precisava recorrer à idéia de um a “predisposição”psíquica ( FREUD, 1897, p. 266) , isto é, à idéia de um a cons-tituição psíquica pensada com o condição de possibilidade das form ações neuró-ticas. Enquanto tal, esta idéia provém do questionam ento transcendental, m esm o se ( e ainda neste ponto, a carta a Fliess é um bom exem plo) Freud prefere final-m ente recorrer à explicação pela hereditariedade, ou de ufinal-m a final-m aneira final-m ais geral, à explicação paleopsicológica. De todo m odo, em seu princípio, a própria idéia de um a estrutura do aparelho psíquico procede do registro transcendental.

Porém , responder-se-á que falar aqui de “transcendental” não basta para justi-ficar a convocação da filosofia de Kant, que Freud não precisava conhecer. A esta objeção, devem ser opostas as referências explícitas e relativam ente insistentes de Freud a Kant, posto que essas referências aparecem sem pre em um contexto teóri-co decisivo. Pretendo justam ente m ostrar que, tratando-se do desejo, da fantasia e m esm o da pulsão, a construção freudiana da noção de realidade psíquica envolve, a cada vez, um a relação problem ática com Kant, m ais precisam ente com o que, em Kant, é da alçada da determ inação transcendental. Decerto isso concerne ao pro-blem a do estatuto do aparelho psíquico e de sua estrutura; m as concerne tam bém à questão da origem da obrigação m oral e m esm o ( tentarei dem onstrá-lo) à ques-tão do estatuto da experiência estética.

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Freud, ao ponto de levá-lo a situar-se em relação ao pensam ento kantiano, são tam bém os m otivos que cham am a filosofia a revisar, a partir da descoberta psica-nalítica, os seus próprios dispositivos conceituais.

É claro que, em se tratando do estatuto do psiquism o, a referência de Freud a Kant aparece de início com o um a referência radicalm ente antifilosófica, já que ele ten-de a opor às teses fundam entais da filosofia transcenten-dental os dados da experiên-cia psicanalítica. Isso é particularm ente m anifesto no texto de 1920, Além do princí-pio do prazer, quando Freud ataca as propostas elem entares da Estética transcendental. Nes-te Nes-texto ( precisam enNes-te no capítulo 4) , Freud explica a função do que ele cham a o “sistem a percepção-consciência” ( FREUD, 1920, p. 39 ss) . Esta denom inação ( e ainda m ais a notação abreviada “sistem a PC”) já significa que Freud pretende dis-tanciar-se de toda com preensão m etafísica da consciência ou do psiquism o, para substituí-la por um a concepção de certo m odo orgânica ou neurológica. O siste-m a percepção-consciência deve ser, cosiste-m efeito, concebido cosiste-m o usiste-m a realidade esp acial situ ad a “ n o lim ite q u e sep ara o exter io r d o in ter io r” ( FREUD, 1 9 2 0 , p. 39) e cuja função é proteger a interioridade orgânica das excitações externas, selecionando estas excitações; assim se explicaria, “nos organism os evoluídos”, a aparição dos órgãos sensoriais, com paráveis a “antenas” encarregadas de recolher “am ostras das energias exteriores” ( Idem , p. 43) . Evidentem ente, essas explicações fazem eco, com 25 anos de distância, às hipóteses que Freud já tinha antecipado, em 1895, em seu Projeto para uma psicologia científica. Mas desta vez Freud sente a neces-sidade de ressaltar que a sua concepção do psiquism o e da sensorialidade perm ite recusar a tese fundam ental da Estética transcendental sobre o tem po e o espaço enquan-to form as a priori da sensibilidade. Com efeito, declara:

Na presença de certos dados psicanalíticos que possuím os hoje, encontram o-nos em posição de colocar em dúvida a proposição de Kant segundo a qual o tem po e o espaço são ‘form as necessárias do pensam ento’. Sabem os, por exem plo, que os pro-cessos psíquicos inconscientes são, em si m esm os, ‘intem porais’. Isso quer dizer que não são ordenados tem poralm ente, que o tem po não lhes faz sofrer nenhum a m odi-ficação e que a categoria de tem po não lhes pode ser aplicada. ( FREUD, 1920, 43-44)

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confusão entre sensibilidade e pensam ento. Mas não se trata de condenar os con-tra-sensos de Freud. É preciso antes avaliar a intenção que anim a essa observação. Freud tenciona m ostrar que a tem poralidade é sim plesm ente ligada — com o ele precisa um pouco m ais adiante — ao m odo de trabalho do sistem a “percepção-consciência” e que não é, portanto, constitutiva do conjunto das representações psíquicas, um a vez que as representações inconscientes tam bém escapam a esta tem poralidade. Isso significa que, se algum as de nossas representações ( as repre-sentações conscientes) são tem porais, não é em virtude de um a necessidade in-trínseca à estrutura psíquica; dito de outro m odo, não é em virtude de um a estru-tura a priori da psyché. É portanto claro que o que Freud coloca assim im plicitam ente em questão, não é nada m enos que a tese fundam ental da Estética transcendental que estabelece a idealidade transcendental do tem po ( e tam bém do espaço) e que, correlativam ente, afirm a a realidade em pírica do tem po e do espaço. Ora, desde que se encontra apagada esta ligação entre idealidade transcendental e realidade em pírica, som os levados necessariam ente a colocar dois regim es ou dois tipos de realidade: de um lado, a “realidade exterior” tal com o é apreendida pelo sistem a “percepçãconsciência”; de outro lado, a “realidade psíquica” que escapa às m o-dalidades deste “sistem a-percepção consciência”. Dito de outra m aneira: recusan-do a noção de idealidade transcendental, Freud parece instalar-se no realism o e rejeitar ao m esm o tem po a distinção, essencial em Kant, entre fenôm eno e coisa-em -si. Isso equivale a dizer que na noção de “realidade psíquica” estaria envolvida um a crítica radical e definitiva da filosofia de Kant.

No entanto, Freud não descartou tão rapidam ente as distinções fundam entais do criticism o kantiano. Muito pelo contrário, em várias ocasiões, ele recorre aos conceitos da filosofia transcendental a fim de apresentar o sentido da sua própria descoberta. Este é particularmente o caso no artigo “O inconsciente”, da Metapsicologia, no qual ele m ostra, aí tam bém , que a intem porabilidade dos processos do sistem a “inconsciente” está ligada à substituição da realidade exterior pela realidade psí-quica ( FREUD, 1915, p. 214) . Neste texto, Freud indica muito explicitam ente que “a hipótese psicanalítica da atividade psíquica inconsciente” é um a “conseqüên-cia das correções trazidas por Kant à nossa concepção sobre percepção externa” ( FREUD, 1915, p. 197) . E ele retom a por sua própria conta a idéia de constituição subjetiva da experiência, para m ostrar que, no caso da realidade psíquica com o no caso da realidade exterior, nossas percepções conscientes nos fazem conhecer as coisas apenas enquanto elas nos aparecem , de m aneira que, para além do que a percepção desvela, perm anece algo incognoscível.

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percepção adquirida por m eio da consciência no lugar do processo psíquico incons-ciente que constitui seu objeto. Assim com o o físico, o psíquico, na realidade, não é necessariam ente o que nos parece ser. ( Idem , ibidem , tradução pontualm ente m odi-ficada)

Certam ente, Freud apressa-se a acrescentar que, no caso da realidade psíquica, a psicanálise é suscetível de corrigir, pelo m enos de m odo parcial, a percepção interna, para descobrir algum a coisa deste incognoscível que é o inconsciente. Mas esta precisão nada retira do sentido da referência kantiana. O essencial da referência não é tanto a idéia im plícita de que o inconsciente poderia ser pensado, por analogia, com o o equivalente da coisa-em -si. Mais im portante ainda m e pare-ce ser a retom ada explícita da noção de “condição subjetiva” da experiência. Com efeito, m esm o se Freud não desenvolve m ais a alusão aos procedim entos do ques-tionam ento transcendental, sua colocação significa claram ente que as representa-ções conscientes não são apenas o dado da percepção sensorial, m as são tam bém o produto de um a atividade psíquica não m anifesta, na qual reside a condição de possibilidade daquelas. Neste sentido, a noção de realidade psíquica, longe de sig-nificar a perem pção das coordenadas fundam entais da filosofia crítica, supõe ao contrário, a título de condição teórica, a retom ada do dispositivo transcendental. É o que confirm a especialm ente a prim eira das duas observações com as quais se term ina o relatório da psicanálise de O homem dos lobos. Neste texto, a questão não é m ais apenas explicar as representações conscientes a partir das condições psíqui-cas inconscientes, m as ela concerne desta vez à form ação inconsciente do fantas-m a. Freud explica que esta forfantas-m ação não se deixaria explicar apenas pelos aconte-cim entos em píricos vividos pelo sujeito, m as que é preciso, ao contrário, procu-rar sua causa profunda na constituição subjetiva que este sujeito leva consigo, in-dependentem ente dos acontecim entos vividos. Então, Freud recorre, de m aneira absolutam ente m anifesta, a toda a conceitualidade do dispositivo transcendental da Crítica da razão pura: as im pressões sensíveis, as categorias, a im aginação e, sobre-tudo, o esquem a:

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precisam ente tais casos que se destinam a m ostrar-nos da existência independente do esquem a. Freqüentem ente, tem os a ocasião de observar o esquem a triunfar sobre a experiência individual [ ...] . As contradições entre a experiência e os esquem as pare-cem suprir os conflitos da infância com m aterial abundante. ( FREUD, 1918, p. 148)

Com o se vê, Freud retom a aqui a conceitualidade do idealism o transcendental e m esm o a sua lógica, já que afirm ando que “o esquem a triunfa sobre a experiên-cia individual”, ele quer dizer que o que faz a singularidade do conteúdo em pírico

deve se adaptar ao “esquem a”. Dito de outro m odo — para retom ar a term inologia kantiana: a “m atéria” da experiência própria a um sujeito deve ser “ form ada”, ela deve, para ser um a experiência, receber um a “form a”; e recebe esta form a de um “esquem a” que precede lógica e cronologicam ente esta experiência. A isso se acres-centará que é, aí tam bém ( com o em Kant) , a im aginação que preside esta opera-ção esquem atizante. Tudo é então aqui pensado segundo o m odelo do dispositivo transcendental.

No entanto, a resistência de Freud a toda sujeição filosófica o im pede de avan-çar este recurso ao transcendental até a afirm ação de um a constituição a priori do psiquism o. Eis por que ele apresenta esta noção de esquem a constitutivo da expe-riência individual com o um a noção filogenética. O esquem a não seria um ele-m ento de uele-m a estrutura a priori do psiquism o; m as, enquanto hereditário, ele seria propriam ente ligado a um a experiência anterior à existência do sujeito. Dito em outros term os, o esquem a seria um a espécie de traço m nésico herdado da pré-história do sujeito, e m esm o, com o Freud aliás afirm ou, da pré-pré-história da espécie hum ana. Sabe-se que Freud pensa então ( com o sugere, neste texto, a alusão ao com plexo de Édipo) no seu próprio m ito sobre o assassinato do pai na horda prim itiva — voltarei a este ponto em breve. Mas queria logo fazer notar que esta referência a um passado paleopsicológico supõe, apesar das declarações contidas na carta a Fliess, conservar a idéia de um prim ado do acontecim ento sobre a estru-tura, ou ainda, de um a prim azia da experiência sobre a própria constituição do psiquism o. Freud teria, assim , passado pelo ponto m ais próxim o do transcenden-tal, logo, do filosófico; e só terá podido escapar a esta tentação do filosófico recor-rendo à ficção do acontecim ento pré-histórico.

Ora, este acontecim ento originário, esta experiência fundadora da hum anida-de que constitui o prim eiro assassinato edipiano, é tam bém o m otivo em nom e do qual Freud pretendeu ultrapassar a explicação filosófica da obrigação m oral. E aí ainda é a Kant que Freud fez referência m ais freqüentem ente. Queria seguir agora, sobre este terreno ético, a relação problem ática de Freud para com a filoso-fia transcendental.

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deve-se explicar esta consciência m oral pela ação que exerce o Supereu sobre o Eu, ação que se m anifesta sob a form a de Schuldgefühl, do sentim ento de culpabilidade. Mas aqui deve-se precisar que este sentim ento de culpabilidade não é um afeto que ocorre secundariam ente a um sujeito constituído. Ao contrário, o sentim ento de culpabilidade é constitutivo da relação entre o Supereu e o Eu, de tal m aneira que só há subjetividade por este afeto. Ora, enquanto sentim ento, o Schuldgefühl é sem -pre relacionado ao afeto de angústia; ainda, diz Freud, “é absolutam ente idêntico à angústia diante do Supereu” ( FREUD, 1930, p. 159) , o qual nasceu graças a um a identificação com o protótipo paterno. Esta inscrição do sentim ento de culpabili-dade na lógica “superegóico-edipiana” significa que todas as m anifestações da consciência m oral devem ser derivadas do com plexo de Édipo.

É por isso que Freud pode afirm ar: “O Supereu — a consciência em ação nele — pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o Eu que está a seu cargo. O im perativo categórico de Kant é, assim , o herdeiro direto do com plexo de Édipo ( FREUD, 1924, p. 208-9) .

Entende-se, portanto, por que Freud não se contenta com um a espécie de fenom enologia ingênua da culpabilidade, cujas diversas m anifestações seriam des-critas na experiência consciente; ele precisa, pelo contrário, colocar estruturalm ente o Schuldgefühl com o relação entre o Eu e o Supereu, isto é, com o condição de possi-bilidade tanto do Eu quanto do Supereu. Eis por que, apesar das reservas que o caráter paradoxal desta expressão às vezes lhe inspirou, Freud é sem pre levado a falar de “culpabilidade inconsciente”. Enquanto radicalm ente inconsciente, esta culpabilidade é portanto a parte de afeto inerente à realidade psíquica. Assim se explica, com o Freud várias vezes indicou ( sobretudo ao se referir aos dados da crim inologia) , que o sentim ento de culpabilidade não seja o produto de um cri-m e ou de ucri-m a experiência culposa; cri-m as, pelo contrário, ele é quase secri-m pre a causa do crim e ou da culpa.

Essa idéia é retom ada por Freud em um a das suas últim as obras, Omal- estar na civilização, quando ele procura determ inar a origem da consciência m oral. Ele colo-ca, então, a distinção entre sentim ento de culpabilidade e o rem orso:

Quando se experim enta um sentim ento de culpabilidade depois de se ter praticado o m al, e porque se o praticou, seria m ais conveniente falar de remorso. Este se refere apenas a um ato culpável que foi com etido e, naturalm ente, pressupõe que um a cons-ciência, uma disposição a se sentir culpado, preexistente à realização do ato. Um rem orso desse tipo, portanto, jam ais pode nos auxiliar a descobrir a origem da consciência e do sentim ento de culpabilidade em geral. ( FREUD, 1930, p. 155, grifos nossos)

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torna alguém culpado m as a culpabilidade que o torna crim inoso, não se está lon-ge de colocar um a culpabilidade a priori com o condição de possibilidade de toda experiência culpada. O filosófico — filosófico kantiano — então, não está longe de levar Freud a dizer que se o hom em é por essência sujeito m oral e social, é porque ele é sem pre já culpado. Dito em outros term os: nenhum a experiência pode explicar a essência m oral do hom em ; pelo contrário, toda experiência pressupõe esta disposição m oral que é a culpabilidade transcendental. Isto, Freud — é claro — não pode dizer, pois seria reintroduzir o filosófico justo onde pretendia ultrapassá-lo. Assim , se nada na experiência m oral pode explicar o sentim ento de culpabilidade, pois este já determ ina sem pre esta experiência, não resta, ainda aí, outra possibilidade senão procurar essa explicação na história ou, antes, na pré-história da hum anidade. Tentar-se-á escapar ao transcendental ou ao filosófico, recorrendo à ficção filogenética, para assim rem ediar a im possibilidade da expli-cação pela ontogênese.

É deste m odo que Freud chega a repetir, outra vez, o m ito do assassinato origi-nário do pai prim itivo da horda. Mas, por m ais prim itivo que seja esse pai e tão originário que seja esse assassinato — em outras palavras: por m ais arcaico que seja esse pretenso acontecim ento em pírico — coloca-se ainda a questão de saber o que, aquém dele, o tornou possível.

Mas, se o sentim ento hum ano de culpabilidade rem onta à m orte do pai prim evo, trata-se, afinal de contas, de um caso de ‘remorso’; e, portanto, a anterioridade da cons-ciência e do tal sentim ento em relação ao ato em questão, não poderia ter existido. Qual teria sido então a origem do rem orso? Não há dúvida de que esse caso nos revelaria o segredo do sentim ento de culpabilidade e poria fim a nosso em baraço. ( FREUD, 1930, p. 156)

Com o se este “caso de rem orso” fosse um caso em pírico — quase um caso

clínico, que não se distinguiria dos outros senão por um caráter prim itivo, de tal m odo que se poderia deduzir, a partir dele, todos os outros casos — , Freud acres-centa: “E é, aliás, exatam ente isso o que acredito que ocorra” ( Idem , ibidem ) .

Mas talvez a segurança assim apregoada por Freud fosse só um a m anobra retó-rica, visando fazer passar por evidente um a resposta, afinal de contas, insustentá-vel. Que se julgue:

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enfim , criou as restrições destinadas a im pedir um a repetição do ato. E com o a agressividade contra o pai se reacendia nas gerações seguintes, o sentim ento de cul-pabilidade tam bém persistiu e se fortaleceu pela transferência ao supereu da energia própria a cada agressão que era recalcada. ( Idem , ibidem , grifo nosso)

A lógica desta explicação é realm ente bem estranha, pois ela afirm a que haveria um prim eiro rem orso, antes m esm o da identificação com o pai, antes m esm o, portanto, da form ação do supereu, isto é, tam bém antes da form ação do eu. Não se pode dizer que um sujeito tenha sentido esse rem orso; m as sim que esse rem or-so engendrou o sujeito. Mas isor-so quase não faz sentido, pois se vê m al com o o não-ainda-sujeito poderia se reconhecer o autor do ato que vai, um a vez reconhecido, constituí-lo enquanto sujeito. Ainda aqui, o rem orso sem pre já supõe o sujeito, logo, o sentim ento de culpabilidade. A tese arqueopsicológica, portanto, apesar de si m esm a, só faz repetir — sobre o m odo da ficção ou do m ito — a lógica trans-cendental da culpabilidade.

Assim , no terreno da ética, Freud terá tam bém encontrado a tentação do trans-cendental. Ainda aí, terá acreditado poder escapar a ela pelo recurso à ficção m ítica. Mas o m ito vem justam ente evidenciar que a realidade psíquica do inconsciente não pode ser destacada da idéia de um a constituição subjetiva que determ ina a experiência, sem poder ser derivada da experiência.

Ficaria então por exam inar o que diz respeito à relação da teoria psicanalítica com o questionam ento transcendental sobre o terceiro terreno com um a Freud e a Kant: o terreno da estética. Não é possível desenvolver aqui todas as dem onstrações e todos os argum entos necessários a tal estudo. Quero pelo m enos m ostrar que as am bigüidades da teoria freudiana da sublim ação procedem de um a lógica estra-nham ente próxim a das teses kantianas sobre o juízo estético.

Sabe-se com o, desde Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud pensa a sublim a-ção com o processo distinto do recalque. O que constitui a realidade psíquica, no caso da sublim ação, não são tanto as representações recalcadas, nem m esm o as fantasias que articulam estas representações, m as antes a energia pulsional, isto é, a libido, que conhece assim um destino diferente segundo ela seja recalcada ou subli-m ada. Todavia, isto não significa que a sublisubli-m ação e o recalque sejasubli-m excludentes. Pelo contrário, o recalque atua ao lado da sublim ação para depurar, por assim dizer, as representações psíquicas de seu caráter sexual.

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pulsão sexual despojada de toda sexualidade? Aí reside, certam ente, todo o m isté-rio da sublim ação. Mas um a coisa é claram ente estabelecida: a sublim ação coloca em jogo um a força que, enquanto tal, escapa ao recalque.

É por isso que, no contexto dos avanços m etapsicológicos da segunda tópica, Freud se em penha em m ostrar que a sublim ação concerne a essa parte da pulsão que não tom a, para se satisfazer, as vias trilhadas a partir do recalque, ou seja, essa libido desexualizada que não passa pelos canais sim bólicos das form ações sexuais substitutivas ligadas ao com plexo de Édipo e subm etidas ao Supereu.

Cum pre então precisar a pertinência do conceito freudiano de sublim ação para a estética. Decerto, Freud não duvidava de que o processo sublim atório constitui

“um a das fontes da produção artística” ( FREUD, 1905, p. 245-6) .Mas, com o

ti-nha várias vezes declarado, isso não lhe parecia suficiente para dar conta do gênio artístico. Contentou-se prudentem ente em constatar, nos grandes artistas, a cor-relação entre um a forte disposição sublim atória e um a fraca capacidade de recal-que. Em nom e desta constatação, Freud às vezes deleitou-se em explicar com o o artista podia ganhar o favor dos seus adm iradores, e logo, tam bém , o êxito com er-cial e soer-cial, oferecendo a seu público o espetáculo “em belezado” do que é com um a todos, m as que, neste público, fica prisioneiro do recalque. É claro que há algo um pouco ingênuo nestas explicações. Todavia, elas im plicam um a idéia essencial no que poderia ser cham ado de estética freudiana, idéia segundo a qual as obras dos artistas “podem contar com a sim patia de outros hom ens, porque são capazes de evocar e satisfazer tam bém neles os m esm os im pulsos inconscientes de dese-jos” ( FREUD, 1925, p. 81) .

Sem dúvida, o que atrai o público em direção à obra de arte, ou seja, o que reúne num a m esm a com unidade estética os adm iradores de um a obra de arte e estes com o artista é o que se cham a a beleza. Porém , Freud ressalta que essa atração do belo depende originariam ente da excitação sexual, m as, pelo fato do recalque, o aspecto propriam ente sexual ( em especial o genital) se retirou. Aqui se reencon-tra, então, na vertente especificam ente estética, a própria lógica da sublim ação: a atração do belo é a excitação sexual despojada da sexualidade.

Som os assim trazidos ao enigm a da sublim ação: o que pode significar a idéia de pulsão sexual desexualizada? Mais precisam ente: o que sobra da pulsão sexual a partir do m om ento em que dela sejam subtraídos o alvo sexual e o objeto sexual? Resposta: resta apenas a energia pulsional, m as sem especificação, nem teleológi-ca, nem objetal. Dito de outro m odo: fica apenas a pulsão pura, quer dizer, pura de todo fim particular e de todo conteúdo definido. E com o a essência da pulsão é visar a satisfação com o sua finalidade, pode-se — com todo rigor — dizer da pulsão sublim ada, isto é, isenta de qualquer fim específico, que ela é um a finalidade sem fim.

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Sabe-se que, para Kant, nos juízos estéticos puros — quer dizer, no belo e no sublim e — está em jogo a operação da im aginação independentem ente de todo conceito de-term inado. Na Critica da razão pura, Kant descrevia a operação esquem atizante da im a-ginação que produz a síntese entre um dado sensível e um conceito, trazendo assim a diversidade do sensível à unidade do conceito. Na Crítica da faculdade do juízo, trata-se de pensar com o a im aginação, por ocasião de um dado sensível, pode exercer sua potência esquem atizante, por conseguinte igualm ente unificante, m as na ausência do conceito. Em outras palavras, no juízo estético, a im aginação não é subm etida à tutela de conceito algum ; eis por que ela se exerce, com o diz Kant, num “ jogo livre” ( KANT, 1790/ 1995, parágrafo 9, p. 62) , que lhe proporciona ( no belo e no sublim e, em bora de m aneiras diferentes) um a satisfação.

Sem dúvida, a im aginação kantiana não é a pulsão freudiana, apesar de serem designadas, um a e outra, com o a potência secreta da psychè — força enigm ática da pulsão no psiquism o ou “arte oculta” ( KANT, 1781/ 1985, p. 184) nas profunde-zas da alm a hum ana –, se bem que Freud para um a e Kant para a outra tiveram que reconhecer a im possibilidade de dar totalm ente conta delas. Mas é inevitável cons-tatar a analogia que nos m ostra, na sublim ação, a pulsão visando a satisfazer-se independentem ente da determ inação sim bólica que a instância recalcante lhe po-deria im por. Ou, para m elhor precisar a analogia: no juízo estético puro, a im agi-nação se libera da determ iagi-nação do conceito; na sublim ação, a pulsão se libera da lei superegóica. Acrescentem os que — m esm o que isso seja evidente — nos dois casos, não se trata de um a operação que a vontade do sujeito conduziria; não se com anda a sublim ação, assim com o não se com anda o belo e o sublim e. Mas a sublim ação, tal com o o belo e o sublim e, é algo que ocorre, algo que acontece ao sujeito. Com o isso lhe acontece independente dele m esm o, é fundado pensar que tam bém deve acontecer aos outros. Por isso, Kant podia afirm ar que o próprio dos juízos estéticos puros é de serem “universalm ente com unicáveis”( KANT, 1790/ 1995, parágrafo 29) .

Não se trata, é claro, de um a universalidade em pírica ( o que é de todo m odo im pensável) ; trata-se, ao contrário, da universalidade a priori, ou seja, da parte

so-m ente formal do entendim ento que, pela m ediação da operação da im aginação,

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subjetividade. De m aneira estritam ente análoga, o desejo sublim ado, ao se distin-guir do desejo de objeto, isto é, do desejo articulado a um objeto visado através das vias sim bólico-associativas que o recalque im põe — esse desejo sublim ado

pressupõe ou, m ais exatam ente, m anifesta com o sua condição de possibilidade a

priori a pura potência ou a pura tendência da pulsão. Isso tam bém quer dizer que, na sublim ação — sob seu m odo criativo e sob seu m odo estético –, a pulsão apre-senta-se a si m esm a e para si, enquanto constitui a pura potência ou a pura tendên-cia de toda subjetividade desejante.

Enquanto pura potência da subjetividade, a pulsão é assim a condição de pos-sibilidade a priori da atividade desejante do sujeito; ela pode, portanto, ser pensada com o potência transcendental. Com certeza, dizer isto nada acrescenta à tese freu-diana sobre a sublim ação. Mas isso m ostra que, até em sua concepção da estética, Freud terá ficado, m esm o sem sabê-lo, o m ais próxim o possível dos procedim en-tos do questionam ento transcendental.

Assim , trate-se de sua teoria da constituição psíquica, de sua explicação do sentido m oral ou de suas reflexões sobre a estética, a pesquisa de Freud não terá cessado de estar assom brada pelo que cham ei a “tentação do transcendental”. Cer-tam ente, essa expressão significa Cer-tam bém : a tentação do filosófico. Mas, com o in-diquei no início, não viso com isso, de m odo algum , qualquer m anobra de recu-peração filosófica da noção psicanalítica de “realidade psíquica”. Trata-se, pelo contrário, para a filosofia, de considerar a que revisão de seus próprios conceitos a descoberta freudiana a convida.

Por certo, com o tentei m ostrar, Freud soube conduzir corajosam ente sua pes-quisa até encontrar este lim ite onde ele corria o risco de se com prom eter com os procedim entos do questionam ento transcendental. Acreditou poder escapar deste risco recorrendo à ficção filogenética de um a origem em pírica ( pré-histórica) do que constitui a estrutura do psiquism o. É claro que a filosofia não poderia subs-crever este m ito, ainda m ais porque ele é ineficaz, pois — com o vim os — não basta dispensar a idéia de constituição a priori. Mas isso não significa que se pode-ria opor ingenuam ente à noção freudiana de realidade psíquica a tese kantiana da idealidade transcendental. Pois as coordenadas da filosofia transcendental são im -potentes para dar conta do que anim ava radicalm ente a pesquisa de Freud, a saber: descobrir a verdade do psiquism o hum ano na efetividade corporal e na em ergên-cia soergên-cial de toda existênergên-cia hum ana.

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Para escapar deste realism o às vezes ingênuo sem cair no idealism o, seria preciso revisar os próprios conceitos filosóficos. Essa não podia ser a tarefa de Freud. Mas é nesta tarefa que a filosofia pode se sentir engajada pela psicanálise.

Responder a este engajam ento im plica, portanto, revisar os conceitos clássicos que fizeram a arcabouço teórico da filosofia. Isso quer dizer: ultrapassar a distin-ção entre o em pírico e o transcendental, para pensar um estatuto do real que não pressuponha a dicotom ia do sujeito e do objeto ou aquela da alm a e do m undo. Foi precisam ente o que Maurice Merleau-Ponty tentou pensar com seu conceito de “carne” [chair] , do qual dizia que ele designa “o que não tem nom e em nenhu-m a filosofia” ( MERLEAU-PONTY, 1964/ 2000, p. 142) e do qual fazia, enenhu-m suas últim as reflexões sobre a descoberta freudiana, o term o essencial para fundar o que ele cham ava tanto de “um a psicanálise ontológica” ( Idem , p. 241) com o de um a “ filosofia não do corpo m as da carne” [philosophie de la chair] ( Idem , p. 242) . E na am izade e no trabalho comum que o ligava a Merleau-Ponty, é tam bém o que Jacques Lacan buscou com sua revisão teórica do conceito de real e do conceito de objeto.2 Foram assim abertas as vias que perm item assegurar o estatuto ontológico

e epistem ológico do que Freud tinha inicialm ente prom ovido com o conceito de realidade psíquica.

Recebido em 14/ 5/ 2001. Aprovado em 29/ 10/ 2001.

2 Cf. nosso estudo: O desejo puro ( Percurso filosófico nas paragens de J. Lacan) , 2001 ( o presente artigo

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BIBLIOGRAFIA

BAAS, B. O desejo puro: Percurso filosófico nas paragens de J. Lacan, Rio de Janeiro Revinter, 2001.

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KANT. E. ( 1781) Crítica da razão pura, Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1985. . ( 1790) Crítica da faculdade do juízo, Rio de Janeiro, Forense-Uni-versitária, 1995.

MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível, São Paulo, Perspectiva, 2000.

Bernard Baas

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