TERCEIRIZAÇÃO E TRABALHO PRECÁRIO NO SETOR DE SERVIÇOS: ANÁLISE RECENTE PARA AS REGIÕES NORDESTE E SUDESTE
Priscila de Souza Silva1 Francisco Demetrius Monteiro Rodrigues2 Walas Wedel Martins de Santana3 Silvana Nunes de Queiroz4
RESUMO
A terceirização do trabalho no Brasil, aprovada em março de 2017, constitui assunto de grande polêmica. Por se tratar de uma temática no âmbito das relações humanas, econômica, demográfica e social, com efeitos sobre a população, isto estimulou a elaboração deste estudo. Deste modo, o principal objetivo desse artigo é traçar o perfil sociodemográfico e socieconômico dos trabalhadores terceirizados formais do setor de serviços, na região Nordeste e região Sudeste, durante os anos de 2006 a 2015. Para tanto, a principal fonte de dados é a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os principais resultados mostram que entre 2006 a 2015, o número de postos de trabalho formal terceirizados reduziu significativamente no Brasil e na região Sudeste, entretanto, no Nordeste, houve um ganho na ordem de 29.331 mil vagas. Em ambas as regiões analisadas, os cargos são majoritariamente ocupados por homens, mas a participação das mulheres, em termos relativos, está se equiparando a masculina. Com relação as demais características, constata-se que os trabalhadores terceirizados no Nordeste e Sudeste, têm entre 30 a 39 anos de
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Mestranda em Demografia pelo Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Pesquisadora do Observatório das Migrações no Estado do Ceará. E-mail: [email protected].
2 Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Regional do Cariri – URCA. Pesquisador do
Observatório das Migrações no Estado do Ceará. E-mail: [email protected].
3 Professor do Instituto Diocesano de Filosofia e Teologia do Crato – IDFT. Pesquisador do Grupo de
Pesquisa em Territorialidades Econômicas e Desenvolvimento Regional e Urbano, da Universidade Regional do Cariri. E-mail: [email protected]
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Professora Adjunta do Departamento de Economia da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Coordenadora do Observatório das Migrações no Estado do Ceará (OMEC-CNPq). E-mail: [email protected]
idade, possuem o ensino médio completo até o superior incompleto e auferem de 1 a 2 salários mínimos. No Nordeste, a jornada de trabalho é de 31 a 44 horas e o tempo de emprego de 1 a menos de 3 anos. No Sudeste, os terceirizados trabalham até 20 horas na semana e possuem menos de um ano no mesmo emprego. Ademais, foi possível constatar que não houve melhora no emprego terceirizado em nenhuma região analisada, pelo contrário, ao longo do intervalo estudado, o emprego está mais precário, dado que a terceirização do trabalho não constitui ferramenta de progresso econômico quando aliado a uma “modernidade” que retrocede e denigre os direitos e as condições de trabalho.
1. INTRODUÇÃO
Na sociedade brasileira propagam-se inúmeros debates, estudos e questionamentos acerca da prática da terceirização do trabalho, devido interferir no âmbito das relações humanas, econômicas, demográficas e sociais, e dividir opiniões (IMHOFF; MORTARI, 2005; SILVA, 2015).
Neste contexto, a estratégia administrativa da terceirização do trabalho consiste na transmissão de determinada quantidade de atividades que não são ligadas ao objeto social da instituição e que poderiam ser executados diretamente pelos trabalhadores contratados, mas são direcionados para outra empresa que irá prestar serviços especializados. Merece destaque que não existe nenhum vínculo trabalhista entre a empresa locatória e os trabalhadores terceirizados (DIEESE, 2003; GIOSA, 1997).
Embora as justificativas para empreender tal processo sejam várias (ganhos de eficiência, flexibilidade e maior competitividade), observa-se que o único parâmetro utilizado é a redução de custos. Por outro lado, as consequências para o trabalhador são diversas: arrefecimento dos encargos trabalhistas e previdenciários, redução de direitos, invisibilidade social e condições precárias de emprego (DRUCK; BORGES, 2002; LEIRA; SARATT, 1995; SILVA; PREVITALI, 2013).
Tão logo iniciou o movimento do Governo em regulamentar a terceirização do trabalho no Brasil, inúmeros estudos mostram que os projetos criados estão longe de atender os debates sociais e principalmente os interesses dos
trabalhadores, que são os mais prejudicados com a precarização da labuta terceirizada (SEKIDO, 2010).
Diante do discorrido, esse trabalho justifica-se por ampliar e atualizar o debate acerca da terceirização do trabalho, ainda mais entre duas regiões, distintas em termos espaciais, econômico, demográfico e social. Ademais, observa-se que o momento é extremamente oportuno para tal estudo, visto que constitui assunto polêmico no cenário recente do Brasil.
Portanto, o principal objetivo deste estudo é traçar o perfil sociodemográfico e socioeconômico dos trabalhadores terceirizados formais, do setor de serviços, na região Nordeste e região Sudeste, durante os anos de 2006 a 2015. Para o alcance dos objetivos propostos, a principal fonte de dados é a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
No que diz respeito a estrutura do trabalho, além dessa introdução, a segunda parte relata, brevemente, a regulamentação do trabalho terceirizado no Brasil. A terceira traz a metodologia. A quarta analisa e traça o perfil sociodemográfico e socioeconômico dos empregados terceirizados formais, do setor de serviços, na região Nordeste e região Sudeste. Por último, apresentam-se as conclusões do estudo.
2. “REGULAMENTAÇÃO” DO TRABALHO TERCEIRIZADO NO BRASIL: „A VELHA MAQUIAGEM DO MAL MENOR‟
2.1 – Trabalho terceirizado no Brasil – antes de sua aprovação
No Brasil, a prática da terceirização de atividades e serviços desembarcou no país desde os primórdios da década de 1950, junto com as montadoras automotivas, e teve impulso entre o final de 1980 e início de 1990, através da expansão das
medidas neoliberais. Portanto, há pelo menos quarenta anos, essa “estratégia
administrativa” invadia demasiados setores econômicos e sociais sem amparo legal
Neste contexto, merece destaque que no Brasil, até março de 2017, não
existia nenhuma lei ordinária específica que regulamentasse o trabalho terceirizado2,
apenas substanciais contribuições doutrinárias e jurisprudenciais que estão longe de atender todos os debates sociais e questionamentos democráticos, sobretudo, os direitos dos trabalhadores em questão, que constituem o cerne de todo o processo (SILVA, 2015; WOLFE, 2009).
Nesse ensejo, a Súmula nº 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST) impõe limitações e corriqueiras exigências legais a prática da terceirização no setor privado. Prevê que a natureza jurídica que une os envolvidos (contratante e prestadora de serviços) é a contratual, logo não existe qualquer vínculo e/ou obrigação trabalhista entre a tomadora e o empregado terceirizado. Ademais, somente as atividades-meio que não constituem o objeto social da empresa podem ser passíveis de terceirização, todavia, não define quais são as atividades nem as distinguem das finalísticas que constituem o foco econômico das instituições (atividade-fim). Assim, abrem-se brechas para irregularidades, devido o único parâmetro considerado ser o da redução de custos. Promove-se descaso com o trabalhador, que muitas vezes não recebe treinamento adequado, atua em condições insalubres, sem preservação de acidentes, cobertura legal de direitos, respeito, remuneração e humanidade (SILVA, 2015).
Em contrapartida, no setor público, a prática da terceirização é disciplinada pela Lei nº 8.666/93 e pelo Decreto nº 2.271/97, que estabelece as exigências legais para a contratação de terceiros para a prestação de serviços especializados no segmento, que se efetiva por meio da licitação pública. É pertinente salientar que no processo de contratação de serviços, parte-se do pressuposto que toda empresa terceirizada que concorre ao ato próprio (edital e/ou convite) da administração pública é idônea e possui plena capacidade de honrar os encargos trabalhistas e a prestação dos serviços solicitados. Novamente, a única premissa utilizada de fato é a do menor custo. Assim, o foco na redução da máquina pública deflagra, sobretudo, diversos calotes institucionalizados devido à falta de leis mais rígidas. O resultado é
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Vale salientar que no dia 31 março de 2017, a regulamentação do trabalho terceirizado no Brasil foi sancionada pelo então Presidente Michel Temer, na forma da Lei Nº 13.429/2017. Deste modo, posteriormente o debate sobre a referida lei ordinária será aprofundado.
o enfraquecimento do vínculo trabalhista, no qual direitos são cedidos em prol de uma vida “menos miserável” (MONTEIRO, 2010).
Neste contexto, a falta de regulamentação específica sobre o trabalho terceirizado, através de leis ordinárias que estabeleça deveres e direitos dos locatórios, empregadores e trabalhadores, tomou proporções desenfreadas, com por exemplo, motoristas terceirizados em empresas de transporte, professores em escolas, servidores em Universidades públicas. Não havia limites e/ou restrições para a difusão da terceirização no setor privado ou público (SEVERO, 2016).
Tão logo, como um fato social polêmico, a terceirização entrou em pauta no Governo Federal. Ora freando, ora fomentando, através do Projeto de Lei (PL) nº 4.330 – I de 2004, que dispõe sobre os contratos de trabalho terceirizado. Em suma, aplica-se exclusivamente as empresas privadas, define o tipo de trabalhador terceirizado que são os assalariados, estabelece que não existe qualquer vínculo trabalhista entre o empregado e a instituição locatória. Além disso, permite a terceirização em qualquer tipo de serviços da empresa (meio e atividade-fim) (CAMPOS, 2015).
2.2 – Trabalho terceirizado no Brasil – o que muda após a sua regulamentação
Aprovado com uma emenda na Câmara de Deputados no dia 22 de abril de
2015, com 230 votos a favor, a PL 4330 – I foi encaminhada ao Senado com a
denominação de Projeto da Câmara (PLC) nº 30/2015. Merece destaque que o projeto de lei incita a terceirização indiscriminada e sem responsabilidade social, autoriza atravessadores na contratação de trabalhadores com a possibilidade de se terceirizar, quarterizar, quinterizar serviços e empregados, inúmeras vezes sem qualquer vínculo trabalhista.
Notoriamente o desarquivamento desse projeto potencializa a redução da eficácia dos sindicatos, a piora nas condições de trabalho e reduz os direitos dos empregados, que gradativamente vão estar mais propensos as vontades do empregador que, por vezes, se deleita na depredação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e na ampliação do seu lucro (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS
PROCURADORES DO TRABALHO – ANPT, 2016; SEVERO, 2016; WAITMAN,
2015).
Em meio aos questionamentos e pressão social, o projeto supracitado não foi
(PLS) nº 300 de 2015, que roga por limites ao mecanismo da terceirização e das relações decorrentes, maior segurança jurídica ao trabalhador, redução da precarização da categoria através da responsabilidade solidária da contratante, sob os direitos trabalhistas e previdenciários, condições de segurança, salubridade e
continuidade da fruição de férias, quando ocorre a terceirização sucessiva: “[...]
porque quando muda a empresa prestadora, “zera” o contrato. A remuneração volta a ser a inicial e o tempo de serviço volta a ser contado do início” (SEVERO, 2016, p. 4). Ademais, aplica-se tanto ao ente privado como ao público e se restringe as atividades-meio que constituem serviços de suporte à consecução do objeto social do contratante (SENADO FEDERAL - PLS Nº 300, 2015).
Singularmente tal projeto foi esquecido nas gavetas do legislativo e o Presidente Michel Temer (2016-) e sua base aliada ressuscitaram o Projeto de Lei Nº 4.302-E de 1988, proposto pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, durante seu o mandato. Tal projeto permite a terceirização irrestrita no país, inclusive no setor público. Merece destaque que o respectivo projeto já fora aprovado pelo Senado em 2002 e posteriormente pela Câmara em 2016 e rapidamente entrou em pauta no Congresso Federal, em 21 de março de 2017, sendo aprovado no dia seguinte (MENDONÇA; ALESSI, 2017).
Tal „artimanha‟, aprovada às escuras e sancionada parcialmente no dia 31 de março de 2017, sob a forma da Lei Nº 13.429/2017 - mencionada anteriormente em nota de rodapé -, relata sob o trabalho temporário e a prestação de serviços terceirizados, chancela a terceirização em quaisquer atividades, não prevê a responsabilidade solidária nem tão pouco a garantia dos direitos previdenciários. E por fim, decreta um dos maiores retrocessos das Leis Trabalhistas, a possibilidade de exploração do trabalhador sem limites e lícita (PORTAL PLANALTO, 2017).
Diversos argumentos a favor e contrários a esta regulamentação emanam na sociedade, seja pelo temor de demissão em massa, da contratação desenfreada de terceiros, precarização das relações trabalhistas e/ou aumento da especialização, ganho de eficiência, expansão do emprego e da concorrência. Mas o que se sabe ao certo é que todo o debate democrático foi ignorado e medidas paliativas são tomadas as escuras e por meio de articulações de partidos que não se preocupam com as demandas sociais. Nesse sentido, este artigo se insere em um debate atual para questionar se é este o país que queremos.
Diante do exposto, é oportuno debater sobre um tema atual e principalmente conhecer quem são os trabalhadores terceirizados no Nordeste e no Sudeste brasileiro, sobretudo por serem regiões distintas em termos de indicadores sociais, demográficos e econômicos, e extremamente relevantes no cenário geopolítico nacional.
3. METODOLOGIA
3.1 Fontes de Dados, Recorte Temporal e Geográfico
A principal fonte de informações são os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que constitui uma das principais fontes acerca do mercado de trabalho formal brasileiro.
Quanto ao recorte temporal, os anos são 2006, primeiro ano de divulgação dos dados relativos a mão de obra terceirizada e 2015, ano de publicação mais recente da RAIS. Com relação ao recorte geográfico, a região Nordeste (NE) e Sudeste (SE) foram selecionadas devido a pouca existência de pesquisas sobre a temática e que verse sobre a comparação entre essas regiões, distintas em termos espaciais, econômico, social e demográfico.
3.2 Conceitos
Os conceitos adotados neste estudo seguem as definições que constam na documentação da RAIS (2016, p. 29-41) e na Classificação Nacional de Atividades Econômicas - CNAE (IBGE/CONCLA, 2007).
Trabalhadores formais: qualquer ocupação trabalhista, manual ou intelectual, com benefícios e carteira profissional assinada. Trata-se de trabalho fornecido por uma empresa, com todos os direitos legais garantidos. O papel ocupado ou a função que a pessoa desempenha em alguma atividade econômica lhe confere uma remuneração.
Trabalhadores terceirizados: trata-se de caso em que a unidade contratante realiza ela própria o processo de produção (de bens ou serviços), mas usa a mão de obra contratada por terceiros que é colocada à sua disposição e sob seu comando, através de contrato temporário. O produto objeto da transação entre a contratante e
a contratada é tratado na Classificação Nacional de Atividades Econômicas – versão 2.0 (CNAE 2.0), como um tipo especial de serviço: serviços de fornecimento de mão de obra. Para fins metodológicos, as classes da verificadas nos bancos de dados da CNAE 2.0, extraídos através da RAIS/MTE, classificam-se nos seguintes códigos: 78.20-5 - Locação de mão de obra temporária, 78.30-2 - Fornecimento e gestão de recursos humanos para terceiros e 78.10-8 - seleção e agenciamento de mão de obra (IBGE/CONCLA, 2007, p. 27-28).
Remuneração (ou rendimento): paga ou não, importa a competência mensal, que dá ao empregado o direito de recebê-la, independentemente do momento em que se tenham repassado ao empregado tais valores.
3.3 Variáveis
Terceirização de mão de obra: locação de mão de obra temporária, fornecimento e gestão de recursos humanos para terceiros e seleção e agenciamento de mão de obra.
Região Natural: Brasil, Nordeste e Sudeste Setor de atividade: Serviços
Sexo: Masculino e Feminino
Faixa etária: Até 17 anos, de 18 a 24 anos, de 25 a 29 anos, de 30 a 39 anos, de 40 a 49 anos, de 50 a 64 anos, 65 anos ou mais
Nível de instrução: Sem Instrução até Fundamental Incompleto, Fundamental Completo até Médio Incompleto, Médio Completo até Superior Incompleto, Superior Completo, Mestrado e Doutorado
Tempo de emprego: Menos de 1 ano, 1 a menos de 3 anos, 3 a menos de 5 anos e 5 ou mais anos
Horas na semana trabalhada: Até 20 horas, 21 à 30 horas e 31 à 44 horas Rendimento médio em salário mínimo: Até 1 salário, 1 a 2 salários mínimos, 2 a 3 salários mínimos, 3 a 5 salários mínimos, 5 a 10 salários mínimos, 10 a 20 salários mínimos e mais de 20 salários mínimos.
Após a extração das variáveis, os resultados estão apresentados através de tabelas analisadas na próxima seção.
O principal objetivo desta seção é traçar o perfil sociodemográfico e socioeconômico dos trabalhadores terceirizados formais ocupados no setor de serviços, na região Nordeste e região Sudeste, durante os anos de 2006 a 2015. Portanto, pretende-se conhecer quem são esses trabalhadores e verificar se houve aumento ou diminuição de postos de trabalho terceirizados no período analisado.
4.1 Características do Mercado de Trabalho Formal
No que diz respeito a quantidade de trabalhadores formais terceirizados ocupados no setor de serviços, foco de análise desse estudo, constata-se que em 2006 havia 510.394 mil empregados no Brasil, sendo que na região Nordeste eram 101.915 ou 19,97% e na região Sudeste conta com um volume de 315.509 trabalhadores ou 61,82%, em relação total de terceirizados do país. Já em 2015, último ano de análise, no Brasil a categoria de terceirizados arrefece para 480.743, no Sudeste diminui para 257.721 e na região Nordeste aumenta para 130.214. Mas a região Sudeste permanece predominando, em termos absolutos e relativos em relação ao Nordeste (Tabela 1).
Tabela 1 - Trabalhadores terceirizados formais ocupados no setor de serviços - Nordeste, Sudeste e Brasil -2006-2015
Período
Região Nordeste Região Sudeste Brasil
Abs. (%) em relação ao Brasil Abs. (%) em relação ao Brasil Abs. 2006 101.915 19,97 315.509 61,82 510.394 2007 96.765 17,66 352.038 64,24 548.005 2008 104.241 20,44 318.658 62,49 509.934 2009 111.844 21,38 333.929 63,85 523.017 2010 112.061 20,18 351.553 63,31 555.271 2011 124.950 23,16 316.085 58,59 539.498 2012 131.226 21,71 364.219 60,26 604.448 2013 124.630 22,30 333.566 59,68 558.934 2014 145.827 26,41 308.517 55,87 552.193 2015 130.214 27,09 257.721 53,61 480.743
Fonte: Elaborado pelo Observatório das Migrações no Estado no Ceará (0MEC-CNPq-URCA), a partir da RAIS/MTE.
A relevante redução no número de trabalhadores terceirizados no Brasil é fruto da recente crise econômica e política, que arrefeceu os postos formais de trabalho. Notadamente nas regiões mais desenvolvidas como o Sudeste, os empregos sofrem mais influência direta das oscilações do mercado internacional (APARÍCIO; QUEIROZ, 2012).
Ademais, corriqueiramente registram-se quebras de contrato entre as empresas locatórias e as prestadoras de serviço terceirizados, diversos golpes com ausência de pagamentos, desaparecimento de inúmeras empresas terceiras e o dano desmedido para o trabalhador, que está a margem de uma ocupação com a menor proteção jurídica (Central Única dos Trabalhadores – CUT, 2014).
Chama atenção que a região Sudeste segue o mesmo padrão brasileiro de oscilações (aumento e declínio) no número de contratações formais de trabalhadores terceirizados. Durante os períodos de 2006-2007 e 2009-2010, momentos mais favoráveis ao crescimento econômico nacional, observa-se que o mercado está mais tendencioso ao emprego terceirizado. Já nos anos de 2008 e 2011, tende para o desemprego da categoria, portanto, em parte, o cenário macroeconômico explica as respectivas oscilações.
Vale lembrar que a crise financeira de 2008 afetou o lado real da economia com ampliação do desemprego aberto, e as políticas governamentais adotas durante o ano de 2011 para recuperação econômica do país afetaram com maior intensidade os trabalhadores terceirizados, que são mais prejudicados pela maior descontinuidade contratual, precária atuação dos sindicatos e maior rotatividade a qual estão expostos (CARLEIAL, 2010; DRUCK; GODINHO, 2003).
No ano de 2012 temos o ápice das contratações de trabalhadores terceirizados (Tabela 1), 604.448 no Brasil e 364.219 (60,26%) no Sudeste, fruto do bom desempenho da economia no país. Em termos reais, no ano de 2012, a taxa de inflação e o desemprego reduziram, houve aumento do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,9% em relação ao exercício anterior (2011), e consequentemente maior demanda no setor de serviços por trabalhadores terceirizados (TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO – TCU, 2012).
Nos anos seguintes (2013, 2014 e 2015), o número de trabalhadores reduz, até atingir, em 2015, 480.743 e 257.721 - Brasil e Sudeste, respectivamente -, valores inferiores ao primeiro ano em análise (Tabela 1). Notadamente, a crise econômica e política atual que desacelerou o PIB, os investimentos produtivos e ampliou o desemprego, arrefeceu as contratações de terceirizados formais.
Em contrapartida, na região Nordeste prevalece o inverso. Entre 2006 a 2012, houve aumento no número de postos de trabalho terceirizado no setor de serviços, da ordem de 29.331 mil vagas (Tabela 1). Vale mencionar o crescimento econômico nordestino nos últimos anos que gerou um PIB de 507,5 bilhões, em 2010. A
saturação dos grandes centros econômicos, os incentivos governamentais, o aumento da demanda por serviços, da indústria de transformação, comércio e a implementação de grandes investimentos pelo setor público, são fatores centrais para a expansão do trabalho terceirizado na região (IPECE, 2012).
No ano de 2012 o Nordeste contava com 131.226 terceirizados, em 2013 reduz para 124.630 (Tabela 1). Devido ao desaquecimento econômico dos setores da indústria de transformação e construção civil, grandes locatórios de mão de obra terceirizada. Já o ano de 2014, apresentou relativa estabilidade econômica em meio a crise nacional e o número de contratações saltou para 145.827 mil, enquanto a participação do Sudeste diminuiu em termos absolutos. Posteriormente, esse valor diminui para 130.214 em 2015, dado a desaceleração das taxas de crescimento do PIB e a persistência da crise econômica e política atual que inibe os investimentos produtivos.
4.2 Perfil dos trabalhadores terceirizados
Quanto as características sociodemográficas dos trabalhadores terceirizados ocupados no setor de serviços, a Tabela 2 mostra que em 2006, na região Nordeste, havia 101.915 empregados, dos quais 61.646 (60,49%) eram do sexo masculino e 40.269 (39,51%) do feminino. Em 2015, em termos absolutos eles aumentam para 69.220 e reduzem a participação relativa para 53,16%, mas permanecem predominando. Já as mulheres saltam para 60.994, que representa 46,84%, com uma variação da ordem de 51,47%, contra 12,29% deles.
Tabela 2 - Trabalhadores terceirizados formais ocupados no setor de serviços, segundo o sexo - Nordeste e Sudeste -2006/2015
Região Nordeste Sexo 2006 2015 Variação (%) Abs. (%) Abs. (%) 2006/2015 Masculino 61.646 60,49 69.220 53,16 12,29 Feminino 40.269 39,51 60.994 46,84 51,47 Total 101.915 100,00 130.214 100,00 27,77 Região Sudeste Sexo 2006 2015 Variação (%)
Abs. (%) Abs. (%) 2006/2015
Masculino 192.585 61,04 140.146 54,38 -27,23
Feminino 122.924 38,96 117.575 45,62 -4,35
Total 315.509 100,00 257.721 100,00 -18,32
Fonte: Elaborado pelo Observatório das Migrações no Estado no Ceará (0MEC-CNPq-URCA), a partir da RAIS/MTE.
Com relação a região Sudeste, no ano de 2006, os trabalhadores terceirizados correspondiam a 315.509 mil ocupados, desse total 192.585 ou 61,04% eram homens e 122.924 ou 38,96% eram mulheres. Em 2015, o número de postos de trabalho da categoria reduz significativamente para 257.721, sendo 140.146 do sexo masculino e 117.575 do feminino, embora a participação relativa das mulheres tenha aumentado para 45,62%, eles permanecem se sobressaindo.
Tal receptividade para o público feminino, em comparação com a diminuição na participação masculina, em ambas as regiões, decorre da maior demanda no segmento por atividades de limpeza e conservação, que ainda são associadas as mulheres, e historicamente estão mais sujeitas ao trabalho precário. Nesse sentido, prevalece a cultura sexista, que incumbe a mulher posição subalterna e ocupações relacionadas as atividades domésticas, ao passo em que aos homens cabem as vagas que exigem força, comando e decisão. Sendo assim, como o carro chefe do segmento são as atividades-meio de limpeza, a mão de obra feminina mais barata e “adequada‟ a estas funções representa o contingente de grande interesse, por isso que para elas as vagas são crescentes (SOUZA, 2012).
Ademais, merece destaque que as desigualdades de gênero, que ainda determinam as divisões ocupacionais no mercado de trabalho, incumbem as mulheres empregos mais precários. Portanto, não é por acaso a recente aproximação dos indicadores femininos aos masculinos, dado que elas representam uma massa trabalhadora mais barata e sedenta por oportunidades de conquistas, através de e autonomia financeira, pessoal e social (BAYLÃO; SCHETTINO, 2014).
Peculiarmente na região “problema” do país, as oportunidades para elas, no setor de serviços terceirizado, em termos absolutos, são maiores do que na mais desenvolvida, como observado na Tabela 2. Mas, em termos relativos, em ambas regiões, elas aumentaram sua participação. Esse resultado não é fruto de lutas sociais, maior empoderamento feminino e/ou igualdade de gênero. Notadamente, o segmento de prestação de serviços terceirizados, opta por mão de obra mais barata, que possua qualidades natas, tais como: maior destreza, agilidade, paciência, trato
com as pessoas, e que seja substancialmente qualificada. Nesse sentido, a mão de obra feminina encontra-se apta para os principais serviços terceirizados de limpeza, conservação, alimentação, tele atendimento, compensação bancária, recepção, copeiragem e assistência, que são mais demandadas pelo mercado e associadas a mulher.
Ademais, embora elas tenham aumentado a sua participação, isso ocorre em categorias mais precárias, onde predominam alta rotatividade de trabalho, discriminação de gênero, baixos salários, preconceito e, sobretudo, invisibilidade social. Logo, a garantia de carteira assinada não é o único parâmetro para um “bom emprego”, e tendo em vista a heterogeneidade do mercado de trabalho, que abre portas para as mulheres em maior proporção em empregos precários, constata-se que elas estão em pior situação, principalmente no trabalho terceirizado, que reproduz status diferentes de emprego (HIRATA; KERGOAT, 2007).
Quanto a idade dos trabalhadores terceirizados, os dados da Tabela 3 revelam que na região Nordeste, em 2006, a maioria tinha entre 30 a 39 anos (29,58%), e em 2015 aumenta para 31,73%. Já na região Sudeste, no ano de 2006, os terceirizados concentravam-se na faixa de 18 a 24 anos (33,10%), e em 2015, passam a ser concentrar entre 30 a 39 anos (29,55%). Isso indica a preferência do segmento por pessoal com experiência/idade, mas que ainda tenham vigor físico,
capacidade de adaptação e estejam apto a exercerem qualquer atividade “leve” ou
pesada.
Tabela 3 - Trabalhadores terceirizados formais ocupados no setor de serviços, segundo a faixa etária - Nordeste e Sudeste -2006/2015 (%)
Faixa etária Nordeste Sudeste
2006 2015 2006 2015 Até 17 anos 0,13 0,05 0,47 0,64 18 A 24 22,34 11,46 33,10 19,61 25 A 29 21,47 14,34 21,56 18,18 30 A 39 29,58 31,73 24,95 29,55 40 A 49 17,86 24,92 13,60 18,05 50 A 64 8,26 16,55 6,03 13,29 65 OU MAIS 0,36 0,95 0,30 1,01
Fonte: Elaborado pelo Observatório das Migrações no Estado no Ceará (0MEC-CNPq-URCA), a partir da RAIS/MTE.
A faixa etária de 40 a 49 anos, corrobora com a hipótese de que as empresas prestadoras de serviço terceirizado optam por mão de obra mais experiente e
acomodada com a condição de terceirizado. Constata-se que em 2006, na região Nordeste, 17,86% dos empregados terceirizados tinham a respectiva idade, e em 2015 aumenta para 24,92%. Seguindo a mesma tendência, o Sudeste, em 2006, detinha 13,60% dos ocupados nessa faixa etária, em 2015 cresce para 18,05%. Ademais, mesmo sendo alta a rotatividade, os empregados com o passar dos anos permanecem na atividade, seja pela experiência adquirida que retém a mão de obra no segmento e/ou falta de perspectivas de um trabalho melhor. Em momentos de crise econômica, os trabalhadores tendem a permanecer em empregos precários por receio de se arriscar no mercado de trabalho e não ter como sustentar a família, devido a baixa qualificação profissional e idade relativamente avançada (SOUZA, 2012).
No tocante a faixa de 50 a 64 anos, merece destaque o aumento significativo dessa categoria. No Nordeste, em 2006, eles representavam cerca de 8,26%, e em 2015 esse percentual dobra para 18,55%. Na região Sudeste, ocorre dinâmica semelhante, em 2006, os trabalhadores terceirizados com respectiva idade eram
6,03%, e „saltam‟ para 13,29% em 2015. Seguindo a mesma dinâmica das faixas
etárias anteriores (30 a 49 anos), constata-se preferência do segmento por
trabalhadores que detenham experiência/idade e ainda possam „gerar bons
resultados‟ para as empresas.
Causa preponderante é a falta de oportunidade nos bons empregos para as camadas com idade mais elevada, logo, restam os empregos mal remunerados, com baixa proteção social, que garante a sobrevivência. Ademais, a concentração desse público alvo no mercado de trabalho, dar-se devido a redução dos índices de mortalidade e aumento da expectativa de vida (DEDECCA; CUNHA, 2004).
Por sua vez, em contrapartida, a população mais jovem (18 a 29 anos), nas duas regiões analisadas, arrefecem a sua participação vertiginosamente. No Nordeste, entre 2006 a 2015, há um decréscimo de aproximadamente 18 pontos percentuais e, no Sudeste, cerca de 17%. Possivelmente, em parte, isso é fruto da exigência do segmento por mão de obra mais experiente, como já mencionado, assim, as oportunidades para os mais jovens são escassas.
No que concerne ao nível de instrução dos trabalhadores em questão, a maioria possui o ensino médio completo até o superior incompleto. Na região Nordeste, em 2006, esses eram 55,09% dos ocupados e aumenta para 65,37% em
2015. Já a região Sudeste, em 2006, detinha 56,26% e, em 2015, a fatia passa a representar 61,71%.
O fato da maioria dos trabalhadores terceirizados possuírem respectivo grau de instrução remete a demanda do mercado de trabalho por mão de obra funcional, que sabe ler, escrever e possui capacidade de assimilar as inovações tecnológicas com certa rapidez. Além disso, a melhora no nível de instrução dos trabalhadores deve-se as políticas educacionais do governo federal, que estimularam a educação de jovens e adultos e a redução da evasão escolar (TREVISAN, 2001).
Tabela 4 - Trabalhadores terceirizados formais ocupados no setor de serviços, segundo o nível de instrução - Nordeste e Sudeste -2006/2015 (%)
Nível de Instrução Nordeste Sudeste
2006 2015 2006 2015
Sem Inst. até Fund. Inc 17,36 10,59 15,50 11,30
Fund. Comp. até Méd. Inc. 22,56 18,09 23,48 16,89
Méd. Comp. até Sup. Inc 55,09 65,37 56,26 61,71
Superior Completo 4,95 5,82 4,73 9,93
Mestrado 0,03 0,12 0,03 0,12
Doutorado 0,01 0,01 0,00 0,05
Fonte: Elaborado pelo Observatório das Migrações no Estado no Ceará (0MEC-CNPq-URCA), a partir da RAIS/MTE.
Os terceirizados sem nenhuma instrução até o ensino médio incompleto se destacaram em segunda posição, mas com tendência de queda. No Nordeste, em 2006, correspondiam a 39,92% do total de empregados, e em 2015 esse número cai para 28,68%. No Sudeste, os mesmos representavam 38,98% em 2006, e 28,19% em 2015. Tal queda é fruto da exigência do mercado por trabalhadores com no mínimo o ensino médio completo, mesmo em empregos mais precários como o terceirizado é fundamental saber ler e escrever, para acompanhar a capacitação para a prestação de serviços específicos. Todavia, esses ainda ocupam a segunda posição, pois constituem mão de obra mais barata e aceitam empregos em setores perigosos e insalubres, e não representaram problemas legais para o setor, devido o baixo nível de conhecimento e a menor participação sindical (RIBEIRO et al, 2003).
Outra categoria educacional que chama atenção são os trabalhadores com ensino superior completo. Em 2006, na região Nordeste, esses configuravam 4,95% do total de indivíduos terceirizados, aumentam discretamente para 5,82% em 2015. Já no Sudeste, em 2006, representavam 4,73%, e em 2015 aumentam consideravelmente para 9,93%. Vale ressaltar que na região mais desenvolvida do
país, os trabalhadores mais qualificados em termos educacionais possuem melhor inserção quando comparado a região Nordeste. O significativo crescimento em ambas regiões, é fruto da ascensão das atividades de apoio técnico, contabilidade, informática e serviços jurídicos no segmento terceirizado, que exige ensino superior e profissionais mais qualificados (IMHOFF; MORTARI, 2005).
É pertinente salientar que os trabalhadores terceirizados ocupados no setor de serviços predominam com pouca qualificação (ensino médio completo até superior incompleto). Apesar da significante redução da contratação de trabalhadores com baixo nível de instrução (analfabetos até ensino médio incompleto), esses ainda superam o percentual de admitidos com escolaridade mais alta (superior completo), em ambas as regiões analisadas. Como corolário, a labuta terceirizada é um trabalho precário que contradiz sua premissa básica: especialização de atividades. Se os trabalhadores não são qualificados o que dirá os serviços prestados.
Quanto as características ocupacionais, a Tabela 5 ilustra o tempo de emprego dos terceirizados no setor de serviços. Constata-se que na região Nordeste, em 2006, 54,46% tinham menos de um ano de emprego, em 2015, 42,39% destes tinham de 1 a menos de 3 anos. Já na região Sudeste, os empregados estão em pior situação, apesar do arrefecimento, entre 2006 a 2015, a grande maioria possui menos de um ano de emprego. Notadamente, na região mais rica do país, os contratos flexíveis são maiores. Os trabalhadores transitam por várias empresas por tarefa (empreitada) arranjada, sem tirar férias e em constante rotatividade, trocam de firma e de crachá, sem a mínima proteção legal (DRUCK; BORGES, 2002; DRUCK; GODINHO, 2003).
Tabela 5 - Trabalhadores terceirizados formais ocupados no setor de serviços, segundo o tempo de emprego - Nordeste e Sudeste - 2006/2015 (%)
Tempo de emprego Nordeste Sudeste
2006 2015 2006 2015
Menos de 1 ano 54,46 33,61 73,18 54,46
1 a menos de 3 anos 30,20 42,39 17,33 27,83
3 a menos de 5 anos 8,11 12,62 5,69 9,26
5 ou mais anos 7,23 11,38 3,80 8,45
Fonte: Elaborado pelo Observatório das Migrações no Estado no Ceará (0MEC-CNPq-URCA), a partir da RAIS/MTE.
Merece evidência a categoria de um a menos de três anos, que apresentou significativo aumento em ambas as regiões averiguadas. Entre 2006 a 2015, a região Nordeste aumentou em aproximadamente 12% o número de trabalhadores terceirizados com tal tempo de emprego, e a região Sudeste 10,5%. Outrossim, a participação dos terceirizados ocupados no Nordeste é mais relevante (42,39%) do que a do Sudeste (27,83%).
O relevante crescimento do tempo de emprego dos trabalhadores terceirizados decorre de uma peculiar estratégia do segmento, a multiplicação dos contratos de curta duração. O mesmo prestador do serviço terceirizado muda constantemente de Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) para concorrer em editais públicos e prestar o mesmo serviço com um novo contrato. Nesse sentido, quando muda o CNPJ “muda” a empresa prestadora e para os mesmos trabalhadores de três anos atrás “[...] “zera” o contrato. A remuneração volta a ser a
inicial e o tempo de serviço volta a ser contado do início” (SEVERO, 2016, p. 4).
Logo, corrobora-se o debate que afirma que o trabalho terceirizado constitui emprego precário e desumano.
Com relação as características socioeconômicas dos trabalhadores terceirizados, constata-se que a maioria aufere de 1 a 2 salários mínimos. No Nordeste, em 2006, esses eram 78,13% e aumenta para 83,71% em 2015; e na região Sudeste, no ano de 2006, representavam 61,06% dos ocupados e passa para 70,93% em 2015. Como corolário, o trabalho terceirizado é precário e mal remunerado.
Portanto, a premissa básica de redução de custos com mão de obra favorece tanto as instituições locatórias, com a redução da folha de pagamentos e encargos trabalhistas, como as empregadoras. Além disso, os critérios adotados para o pagamento da remuneração não são explícitos em contratos, corriqueiramente os trabalhadores não sabem quanto ganharão ao final do mês.
Na verdade, a terceirização destrói os vínculos empregatícios e cria uma classe de trabalhadores invisíveis. Os terceirizados possuem uniformes diversificados, comem em lugar diferente, são tratados de forma inóspita, são excluídos da identidade coletiva e dos direitos trabalhistas. Fornecem seus serviços sem que ao menos os locatórios saibam seus nomes. O resultado é o adoecimento físico e psíquico, acidentes corriqueiros, a fuga do emprego e, por fim, a ruína da classe trabalhadora (SEVERO, 2015).
Tabela 6 - Trabalhadores terceirizados formais ocupados no setor de serviços, segundo o rendimento em salário mínimo Nordeste e Sudeste -2006/2015 (%) Rendimento em salário mínimo Nordeste Sudeste 2006 2015 2006 2015 Até 1 SM 4,39 4,56 3,79 3,08 1 a 2 SM 78,13 83,71 61,06 70,93 2 a 3 SM 8,70 7,73 21,30 13,93 3 a 5 SM 3,88 2,57 8,83 7,24 5 a 10 SM 3,60 1,23 3,81 3,70 10 a 20 SM 0,91 0,18 1,04 0,98 Mais de 20 SM 0,39 0,02 0,17 0,15
Fonte: Elaborado pelo Observatório das Migrações no Estado no Ceará (0MEC-CNPq-URCA), a partir da RAIS/MTE.
Outrossim, houve queda na participação dos trabalhadores auferindo “bons rendimentos” e aumento nos salários de subsistência (até 2 SM). Além disso, é importante destacar que na região Nordeste, em termos salariais, os terceirizados estão em pior situação, enquanto em 2015, apenas 3,80% auferiam de 3 a 10 salários mínimos, no Sudeste, cerca de 10,94% recebiam o mesmo rendimento, uma discrepância da ordem de 7,14%.
Observa-se que a estratégia da terceirização não é aplicada para a agilidade gerencial, constitui uma artificio para precarização do trabalho. Que se manifesta através da alta rotatividade, invisibilidade de classe, discriminação profissional e social, redução dos direitos trabalhistas, baixos rendimentos. Logo, apenas o fato de se ter um emprego formal não representa condições de trabalho digno, se os direitos e a proteção jurídica não são estabelecidas em lei.
Em suma, constata-se que os trabalhadores terceirizados ocupados no setor de serviços possuem baixo nível de instrução e alta rotatividade no emprego, auferem baixos rendimentos. Ademais, na região Nordeste, em termos salariais e de jornada de trabalho, os mesmos estão em pior situação quando comparado aos ocupados no Sudeste. Tanto no Brasil como no Sudeste, o número de terceirizados vem se arrefecendo ao longo dos anos, em contrapartida, no Nordeste aumentou em 2015 em relação ao ano de 2006. Todavia, carteira assinada não é sinônimo de um bom emprego. Com isso, não houve melhora no trabalho terceirizado em nenhuma das regiões analisadas, os trabalhadores permanecem sem respeito e proteção social, abandonados à margem da lei e do capital.
5. CONCLUSÕES
O presente estudo teve como objetivo principal traçar o perfil sociodemográfico e socioeconômico dos trabalhadores terceirizados formais do setor de serviços na região Nordeste e região Sudeste, durante os anos de 2006 a 2015. A princípio realizou-se a contextualização acerca da regulamentação do trabalho terceirizado no Brasil e constatou-se que a sua aprovação/regulamentação constitui manobra política, não atendendo aos anseios sociais, e sim do capital/empresário.
Com relação a quantidade de trabalhadores terceirizados ocupados no setor formal de serviços, os dados mostram diversos momentos, com declínios e aumento das vagas ocupadas, entre 2006 a 2015, no Brasil e na região Sudeste. Tal resultado é influência direta de crises econômicas, ajustes fiscais, reformas política e econômica, que refletem diretamente no mercado de trabalho, através de quebras de contrato e maior número de demissões. Já na região Nordeste, os postos de trabalho terceirizado aumentaram, entre 2006 a 2015, mas a região Sudeste permanece com o maior número absoluto de ocupados.
No que concerne ao perfil dos trabalhadores terceirizados, os homens são maioria em ambas regiões averiguadas (Nordeste e Sudeste), mas a participação feminina, ao logo do tempo, está se equiparando a masculina. Ademais, em ambas as regiões, os trabalhadores terceirizados têm entre 30 a 39 anos de idade, possuem o ensino médio completo a superior incompleto e auferem de 1 a 2 salários mínimos.
Com relação as demais características dos ocupados, no Nordeste, eles possuem de 1 a menos de 3 anos de tempo de serviço. Já no Sudeste, estes se concentram na faixa de menos de um ano de emprego. É preciso mencionar que as práticas flexíveis de contrato reduz o número de ocupados e amplia as responsabilidades e as funções dos terceirizados polivalentes, impedido maior qualificação profissional/educacional e melhores condições de vida.
Como corolário, a labuta terceirizada é um trabalho precário e mal remunerado. Que prega a “especialização de serviços”, a redução dos custos e dos encargos trabalhistas, e impõe alta rotatividade, reduz a folha de pagamento, os
direitos trabalhistas, destrói o vínculo empregatício, a identidade coletiva e a dignidade dos trabalhadores.
Em síntese, constatamos que não houve melhora no emprego terceirizado na região Nordeste nem tão pouco na região Sudeste. O emprego é ainda mais precário, os trabalhadores são rebaixados ao papel de “coisa invisível”, sem respeito e proteção jurídica. Assim, a terceirização do trabalho não constitui ferramenta de progresso econômico quando aliado a uma “modernidade” que retrocede e denigre os direitos e as condições de trabalho.
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