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A influência da espiritualidade no cuidado oncológico
Scarlet Monteiro Gonçalves da Silva¹, Elza de Fátima Ribeiro Higa², Márcia Aparecida Padovan Otani³, Márcia Renata Rodrigues4 e Monike Alves Lemes5
1 Faculdade de Medicina de Marília, Brasil. [email protected];
2 Faculdade de Medicina de Marília, Brasil. [email protected]; 3 Faculdade de Medicina de Marília, Brasil. [email protected]; 4 Faculdade de Medicina de Marília, Brasil. [email protected];
5 Faculdade de Medicina de Marília, Brasil. [email protected].
Resumo. Objetivos: descrever o que a espiritualidade representa para o profissional de saúde que atua na
oncologia e identificar como ela influencia nos cuidados prestados. Método: pesquisa de campo, do tipo Estudo de Caso, com abordagem qualitativa, realizada com 31 profissionais por meio de entrevistas com duas perguntas abertas sobre espiritualidade. Os dados foram interpretados pela Técnica de Análise de Conteúdo na Modalidade Temática. Resultados: da análise emergiram quatro categorias temáticas: a espiritualidade é fundamental para o ser humano e para a assistência em saúde; representa os valores humanos e espirituais; as diversas maneiras da influência da espiritualidade dos profissionais e pacientes no cuidado oncológico e a não influência e a influência negativa da espiritualidade dos profissionais no cuidado aos pacientes. Considerações finais: é necessário que o assunto seja discutido desde a graduação e que a equipe de saúde em exercício seja atualizada por intermédio da educação permanente e continuada.
Palavras-chave: Espiritualidade; Oncologia; Religião; Equipe de assistência ao paciente; Pacientes.
The influence of spirituality on cancer care
Abstract. Objectives: to describe what spirituality represents for the health professional who works in the
oncology and identify how it influences the care provided. Method: field research, of the Case Study type, with a qualitative approach, carried out with 31 professionals through interviews with two open questions about spirituality. The data were interpreted by the Content Analysis Technique in Thematic Modality.
Results: four thematic categories emerged from the analysis: spirituality is fundamental for human beings
and health care; represents human and spiritual values; the different ways of influencing the spirituality of professionals and patients in cancer care, and the negative influence and influence of the professionals' spirituality on patient care. Final considerations: it is necessary that the subject be discussed from the graduation and that the health team in exercise be updated through the permanent and continuous education.
Keywords: Spirituality; Health team; Oncology; Religion.
1 Introdução
A dimensão espiritual vem sendo estudada na área da saúde na última década, com predomínio nas áreas de psiquiatria, saúde pública e enfermagem (Damiano, Costa, Viana, Moreira-Almeida, Lucchetti, & Lucchetti, 2016). Ela é algo que permeia em todas as culturas e reconhecidamente pode contribuir para a melhoria da saúde e qualidade de vida, influenciando o modo como pacientes e profissionais compreendem o processo saúde-doença.
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A espiritualidade é uma manifestação natural de um indivíduo, havendo uma força que transcende o biológico. O contentamento espiritual se relaciona a caridade, ao amor, ética, compaixão e fé (Lama, 2015). A fé proporciona ao indivíduo com câncer, no caso desse estudo, a coragem, o estímulo para prosseguir em sua vida e a esperança frente aos obstáculos (Espindula et al., 2012).
O Câncer é o termo utilizado na abordagem de neoplasias malignas e há mais de 200 tipos existentes. A doença ocorre devido a inúmeras mutações na mesma célula, as quais se dividem de forma rápida, e são propensas a serem agressivas e incontroláveis (Espindula, Valle, &Bello, 2012).
“Estima-se, para o Brasil, biênio 2018-2019, a ocorrência de 600 mil casos novos de câncer, para cada ano.” (Ministério da Saúde, 2018).
Quando se recebe o diagnóstico de câncer é esperado que o paciente e sua família vivenciem períodos de preocupação, angústia, medo e revolta. A espiritualidade neste momento vem como um apoio, onde se adquire a força e conforto durante o período e estágios da doença para suportar os sofrimentos ocasionados pela doença sejam eles físicos ou psicológicos (Geronasso & Coelho, 2012). É notado que pacientes que tem uma crença sente-se mais forte para lidar com o momento (Espindula et al., 2012).
Quando a doença progride sem bom prognóstico, o indivíduo adoentado tem o sentimento de morte eminente e percebe o fim dos seus projetos, o que gera desespero e a ausência de conformação. A espiritualidade proporciona conforto, paz, ressignificação do momento e fé. A fé propicia ao adoentado, coragem, estímulo e esperança frente ao momento que está vivenciando (Espindula et al., 2012). Os profissionais de saúde devem estar preparados para identificar sentimento que permitam encorajar e transformar a vivência do paciente a afim de que sua presença seja válida na ajuda ao paciente, principalmente em cuidados paliativos (Benites, 2014).
2 Justificativa
A motivação para o desenvolvimento dessa pesquisa surgiu da observação de indivíduos em tratamento e de sua equipe, em um ambulatório de oncologia. Notava-se que embora em discurso houvesse o desejo do cuidado sob a perspectiva da integralidade, com uma abordagem biopsicossocial espiritual, havia a fragmentação do cuidado, priorizando o olhar biológico. Essa visão impulsionou o desejo de se aprofundar na compreensão sobre a importância da espiritualidade para o profissional de saúde e como a espiritualidade do paciente em tratamento e do próprio profissional influenciava nos cuidados.
3 Objetivos
Analisar a representação da espiritualidade e sua influência no cuidado oncológico sob a ótica dos profissionais de saúde.
4 Metodologia
Trata-se de um Estudo de Caso, com abordagem qualitativa. Esta metodologia é primordial para compreender, descrever e explicar a espiritualidade no cuidado a pacientes oncológicos pois ela permite uma análise detalhada e profunda, o que é essencial na discussão de um tema tão amplo e subjetivo. Essa modalidade de pesquisa é adotada quando os pesquisadores têm a necessidade de responder perguntas que contenham "como" e "por que". (Minayo, 2014; Yin, 2011).
A pesquisa foi realizada no Ambulatório de Quimioterapia e Radioterapia de Marília, localizado no Hospital das Clínicas Unidade I (HC I). O ambulatório de Quimioterapia e Radioterapia está inserido numa instituição pública, que recebe pacientes referenciados tanto de Marília quanto de cidades da
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região, sendo referência para 62 municípios. A unidade de quimioterapia atende em média cerca de 500 a 700 pacientes no total. A equipe é composta por uma enfermeira, seis auxiliares, um técnico de enfermagem, seis médicos, uma psicóloga, uma farmacêutica e três técnicos de farmácia. A radioterapia atende cerca de 40 a 50 pacientes por mês. A equipe é composta por dois médicos, um médico residente, dois enfermeiros, um físico médico, quatro auxiliares de enfermagem, um dosimetrista, oito técnicos em radioterapia, um assistente social e três recepcionistas.
A população total da pesquisa é de quarenta e dois (42) profissionais de saúde, constituindo-se de nove médicos, três enfermeiros, dez auxiliares de enfermagem, um técnico em enfermagem, um psicólogo, um assistente social, um farmacêutico, três técnicos em farmácia, um físico-médico, oito técnicos em radioterapia, um dosimetrista (realiza o plano terapêutico e o cálculo da dose de radiação que o paciente recebe durante o tratamento.) e três recepcionistas, os quais atenderam ao critério de inclusão na pesquisa: possuir tempo de atuação na área de oncologia há mais de seis meses. Das 42 pessoas que constituíam a população de pesquisa quatro se recusaram a participar, dois profissionais não trabalhavam mais no local, dois estavam de férias, um não atendia ao critério de inclusão, pois trabalhava no setor a menos de seis meses e dois não foram encontrados nos dias agendados de entrevista, assim participaram 31 participantes, os quais com exceção do dosimetrista e físico-médico, todos tinham contato direto no cuidado às pessoas com câncer atendidas na instituição.
A coleta de dados foi realizada por meio de uma entrevista, contendo dados sociodemográficos e duas perguntas abertas sobre a espiritualidade: 1) O que a espiritualidade representa para você? 2) Você acha que a espiritualidade, sua e dos pacientes em tratamento, influencia nos cuidados prestados ao paciente com câncer? As perguntas serão descritas no texto como P01 (pergunta 1) e P02 (pergunta 2).
A coleta de dados foi realizada durante o mês de dezembro pela própria pesquisadora. As entrevistas foram agendadas previamente via telefônica, tiveram duração média de 10 minutos, tempo suficiente para que as respostas das perguntas realizadas fossem aprofundadas e reflexivas. As entrevistas foram realizadas dentro do horário de trabalho, respeitando a disponibilidade dos participantes sem prejuízo da assistência, sendo transcritas posteriormente. Para resguardar o anonimato de cada participante, os depoimentos foram identificados pela letra “e”, que se refere à palavra entrevistado, seguidos da sequência numérica crescente: E01 a E31.
Os dados foram analisados de acordo com a análise de conteúdo, na modalidade temática, sendo percorridas as seguintes etapas descritas por Bardin (2012).
Na primeira etapa, chamada de pré-análise, foi realizada uma leitura compreensiva do material coletado de forma exaustiva. Trata-se de uma leitura de primeiro plano para atingirmos níveis mais profundos de compreensão.
Na segunda etapa, denominado de exploração do material, foi realizado a análise propriamente dita. Nesse momento, as ações foram: (a) distribuição dos trechos, frases ou fragmentos de cada texto de análise pelo esquema de classificação inicial e; (b) leitura dialogando com as partes dos textos da análise, em cada classe. É nessa etapa que foi realizada a codificação dos dados, onde esses são agrupados de forma organizada, sendo identificadas as unidades de registro e as categorias temáticas (Bardin, 2012).
Na terceira etapa, referentes ao tratamento dos resultados foram feitas as inferências no sentido de buscar o que se esconde sob a aparente realidade, o que significa verdadeiramente o discurso enunciado.Nessa fase foram identificados os núcleos de sentido apontados pelas partes dos textos E realizado o diálogo destes com os pressupostos iniciais. A relação entre os dados obtidos e a fundamentação teórica é que dará sentido à interpretação (Bardin, 2012).
O projeto de pesquisa foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) que envolve seres humanos da Faculdade de Medicina de Marília (Famema), com o número de Certificado de
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Apresentação 50936915.1.0000.5413 para Apreciação Ética. A pesquisa foi realizada respeitando a Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012 e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e foi assinado pelos participantes antes da coleta de dados (Resolução nº 466, 2013).
5 Resultados
5.1 Dados sociodemográficos
Entre os 31 participantes a idade variou de 24 a 57 anos, média foi de 40,5 e o tempo de trabalho de 1 a 39 anos, com predomínio abaixo de 11 anos. Desses 21 são do sexo feminino e 10 do masculino. Em relação à religião: católicos, evangélicos, espíritas, ateu, um que tem uma religião própria e uma participante que não tem religião, mas acredita em Deus. A maioria denominou-se católicos. Os dados sociodemográficos contribuíram para à análise dos dados de entrevista, permitindo a avaliação do perfil dos participantes e suas respostas. Foi possível identificar que a participante que relatou não ter religião apresentou dificuldade em responder as perguntas realizadas por falta de apropriação no tema abordado.
5.2 Análise dos dados obtidos
A análise dos dados obtidos está estruturada de acordo com as perguntas direcionadoras, a qual apontou para 04 categorias temáticas:
Ao se manifestarem, em resposta à pergunta: “o que a espiritualidade representa para você”, os participantes indicaram as seguintes categorias temáticas:
5.2.1 Fundamental para o ser humano e para a assistência em saúde
“Para mim, a espiritualidade é a parte fundamental do ser humano” (P.01– E.15).
“Bom, a espiritualidade pra mim representa um benefício no tratamento do paciente oncológico [...]. A gente percebe que pacientes que tem fé, [...] eles têm um... Aparentemente, assim, um ganho maior em qualidade de vida, encaram melhor o tratamento, principalmente o tratamento”. (P.01 – E.19)
“Representa a ligação do corpo e espírito, mas com relação, assim, meu contato com a espiritualidade, que é ser um ser maior, de mais luz [...]” (P.01 – E. 32)
“A espiritualidade representa como um suporte e um auxílio para aqueles pacientes que já estão em tratamento” (P.01; E.19)
“Uma pessoa que tem a espiritualidade provavelmente ela se torna uma pessoa melhor, ela consegue, eh... Vamos imaginar assim, ahnn... encarar as coisas de uma forma diferente que o mundo em geral tá acostumado a encontrar. Tem uma certa sensibilidade as coisas, eh... Acredito eu também que, eh... Consegue... Vamos imaginar, ahnn... Ah! Ser uma pessoa do bem, né” (P.01 – E.26)
A espiritualidade para alguns entrevistados representa ser parte fundamental do ser humano. Ela é uma dimensão que transcende a razão, impulsiona um indivíduo a fazer o bem e tem como papel conceder uma filosofia de vida que guiará as escolhas do Homem. (Cervelin, &Kruse, 2014; Souza, 2013; Souza, Pessini, &Hossne, 2012).
Entre todas as respostas sobre a representatividade da espiritualidade, houveram entrevistados que relacionaram este assunto com o tratamento, referindo a ela como sendo essencial, base e benefício durante este ciclo.
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O cuidado espiritual pode ser considerado como a base da humanização da assistência, e é o que guia os princípios morais na hora do cuidar (Soratto, Silva, Zugno, &Daniel, 2016). Ele é suporte emocional, e contribui para o bem-estar físico (Cervelin, & Kruse, 2014).
Torna-se evidente também que a compreensão, aprimoramento e conceitos básicos sobre o tema por parte dos profissionais contribuem de forma significativa para promover um cuidado de qualidade, sobretudo por parte dos enfermeiros que tem um contato mais próximo com os pacientes. Isso ocorre por meio de estudos sobre o assunto, aprofundamento, o que permite fundamentar a assistência e adquirir habilidades para a abordagem do paciente. Isso não ocorre na rotina diária dos profissionais, e as habilidades para identificar e avaliar a assistência são falhas (Nascimento, Santos, Oliveira, Pan, Flória-Santos, & Rocha, 2013).
5.2.2 Valores humanos e espirituais
“[...] representa muito, porque isso é um bem-estar seu e o seu relacionamento que você tem com o ser supremo, com Deus”. (P.01 – E.17)
“Espiritualidade é você acreditar em um Deus, é você ter um Deus como base, como um... norteador para sua vida, para você realmente ter um apoio espiritual. Independente da religião sempre existe um Deus” (P.01 – E.24)
“ou na natureza, ou mesmo nela própria, né. O que faz ela ter a capacidade de ter fé, e é o que faz a diferença, e é o que faz a diferença, você acreditar em algo maior” (P.01 – E.09)
“A espiritualidade pra mim é... É a minha fé, aquilo que eu acredito, é... aquilo que me move. [...] E isso é o que sustenta toda minha vida [...]. É o que eu acredito nisso, e isso me dá esperança pra eu viver, pra eu superar os problemas, pra agradecer as felicidades. [...], mas o que move toda minha existência mesmo é essa minha fé, essa minha espiritualidade, que é isso que eu acredito” (P.01 – E.16).
A fé aparece sendo como uma das principais representações ao longo das entrevistas. Ela tem como significado o sentimento de acreditar em que o resultado que se espera será positivo no final e a confiança de que algo seja verídico sem poder constatar aquilo (Silva, Aquino, &Silva, 2016).
Embora alguns participantes acreditem que a espiritualidade significa ter fé e esta independe de uma religião ou crença específica em Deus, há quem acredite que a espiritualidade representa acreditar e se relacionar com o Ser Supremo.
A palavra espiritualidade se diferencia de religião. A religião facilita o acesso do homem ao seu lado espiritual por intermédio de sua doutrina, possibilitando uma relação íntima do ser humano com Deus, o qual oferece um código moral e ético de conduta sendo possível desenvolver valores espirituais e humanos. A ausência da espiritualidade pode levar a pessoa à perda do discernimento do que é certo e/ou errado, e valores que tornam a nossa conduta sábia (Souza et al., 2012).
Ao se manifestarem, em resposta a pergunta dois, “você acha que a espiritualidade, sua e dos
pacientes em tratamento, influencia nos cuidados prestados ao paciente com câncer”, os
participantes indicaram:
5.2.3 As diversas maneiras da influência da espiritualidade dos profissionais e pacientes no cuidado oncológico
“Influencia [...] Elas são mais positivas, e o próprio tratamento corre, assim, com mais tranquilidade. Elas são pessoas que reagem melhor ao tratamento, né, que não se deixam abater como tanta
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facilidade e a própria imunidade é beneficiada quando existe uma espiritualidade forte, eu acho” (P.02 – E.15).
“[...] os profissionais que aparentemente tem algum tipo de crença. Eles acabam, proporcionando um tratamento mais digno, mais humano, mais carinhoso, principalmente, e aí você vê que o paciente acolhe bem, se sente também bem acolhido” (P.02 – E.19).
“[...] no cuidado com o paciente, uma técnica de intervenção, também, é identificar a espiritualidade dele, de cada um, o que faz sentido, e tentar resgatar essa espiritualidade, né, para vir ajudar no enfrentamento da doença, na aderência ao tratamento e numa ressignificação de vida” (P02 – E.29) “Os pacientes que vem, que acreditam, que tem uma fé, uma religião, eles vem com mais força de vontade pro tratamento, tem mais, tipo, aquela coisa de Deus vai me ajudar, e eu vou ficar bom.” (P.02 – E.25)
A partir da análise das entrevistas foi possível perceber que a espiritualidade tem uma influência clara no cuidado biopsicossocial durante o tratamento. Além disso, ela humaniza a assistência prestada ao paciente, o vendo em sua individualidade e busca atender suas necessidades.
De acordo com Benites (2014); Pinto (2014), para que essas necessidades sejam atendidas integralmente é necessário que ele seja incluso de maneira ativa em seu tratamento e nas decisões que o envolva, e que lhe seja proporcionado acesso a diferentes terapêuticas.
O diagnóstico do câncer gera um impacto muito grande em sua vida, pois é algo que traz sofrimento intenso desde o recebimento da notícia (Soratto et al, 2016). A doença encaminha o paciente a uma condição de vulnerabilidade frente a vida. A possibilidade de finitude causa angústia, o que contribui para que o paciente procure sentido de vida e o porquê da morte, adotando crenças que se transformam em apoio em sua trajetória de vida e componha o seu espiritual. Para melhora do estado psicológico, é utilizada a estratégia de enfrentamento religioso/espiritual em muitos casos para superar o estresse ocasionado pela doença (Pinto, 2014).
A força e a fé nessa situação são vistas como parte da estratégia de enfrentamento; compreende-se como a capacidade que o Homem tem de lidar e adaptar-se ao passar por um quadro de estresse usando meios emocionais, cognitivos e comportamentais para a melhora. As estratégias mais utilizadas são a focalização no problema e a focalização na emoção. No enfrentamento focado no problema, o paciente tenta atuar no contexto que deu origem ao estresse, e através disso desenvolva o autocuidado que é indispensável para o prosseguimento correto da terapêutica. Outra estratégia utilizada é a focada na emoção que são sentimentos relacionados, por exemplo, a Deus e a fé (Rodrigues, & Polidori, 2012; Rugno, 2013).
A fé é uma estratégia de enfrentamento que contribui para resiliência do paciente, isto é, a capacidade de superar o problema e dar um novo significado positivo as situações adversas. Além disso, é essencial nos momentos que não se vê mais a possibilidade de prosseguir, é o que propicia força ao indivíduo nos momentos de angústia e medo, nos desafios do tratamento e o faz ultrapassar seus limites (Rodrigues, & Polidori, 2012; Soratto et al, 2016).
O profissional é capaz de avaliar os tipos de estratégias utilizados por seus pacientes na oncologia a fim de tentar compreender os recursos utilizados por eles nessa etapa. A compreensão e este olhar humanizado dos profissionais podem contribuir para que os pacientes consigam desenvolver uma estratégia de enfrentamento mais adequada (Koenig, 2012).
Há a possibilidade também de que a espiritualidade trabalhe por meio dos neurotransmissores no sistema imunológico, cardiovascular e endócrino. Ela atuaria reduzindo a Pressão Arterial (PA), Frequência Cardíaca (FC) e a produção de cortisol por intermédio do sistema nervoso simpático e parassimpático e melhorando a função das células de defesa do organismo (Santos, 2009).
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5.2.4 A não influência e a influência negativa da espiritualidade no cuidado aos pacientes
“A espiritualidade ou a fé do profissional não pode interferir no paciente, porque a partir do momento que isso começa a interferir você atrapalha o paciente, porque você não pode tirar o direito do paciente dele se sentir confortável” (P.02 – E.11).
“Nem todo mundo tem esse discernimento, então eu acredito que não, que não influencia” (P.02 – E.13).
Foi verbalizado pelos profissionais entrevistados que a espiritualidade pode ter uma influência negativa nos cuidados e que a sua fé pode interferir negativamente no tratamento.
O modo que um indivíduo vivencia certa experiência se diverge um do outro. O fato de não influenciar para certos pacientes é devido ao significado que ele dá àquele momento e à experiência de vida, cultural, espiritual e valores serem diferentes (Pinto, Marchesini, Zugno, Zimmermann, Dagostin, &Soratto, 2015).
A espiritualidade pode interferir de uma maneira negativa no cuidado devido ao paciente que tem o lado espiritual mais evidente se questionar o porquê daquilo com ele. A espiritualidade pode contribuir para o senso de culpa, a punição por algo que ele possa ter feito, sentimento de revolta e abandono por Deus (Geronasso, & Coelho, 2012; Rugno, 2013).
Na literatura nacional há dificuldade em encontrar o motivo pelo qual a espiritualidade do profissional pode interferir negativamente no cuidado. Há estudos que abordam sobre a necessidade de reconhecer a importância dessa dimensão durante o processo de cuidado juntamente com a fé, e é de responsabilidade do profissional saber o momento correto de abordar o assunto, se é de interesse do paciente e como desenvolver este momento (Carvalho, Acioly, Lima, & Melo, 2012).
6 Conclusão
Com esta pesquisa foi possível compreender a espiritualidade na visão do profissional de saúde que atua na área de oncologia, e identificar como a espiritualidade tanto dos profissionais quanto dos pacientes agem nos cuidados prestados às pessoas portadoras de neoplasias.
No desenvolvimento desta pesquisa foi possível perceber que a espiritualidade seria melhor abordada durante o tratamento se os profissionais tivessem mais conhecimento a respeito do assunto. Para que isso ocorra é necessário que na graduação este tema seja discutido com mais frequência e responsabilidade. Esta temática deve ser abordada também com os profissionais de saúde em exercício afim de que sejam atualizados. Isto deve ocorrer por intermédio da educação permanente e continuada guiada por pessoas qualificadas no assunto que saibam da importância desse processo e a transformação que essa dimensão causa no cuidar, e que essa dimensão seja valorizada na elaboração de planos de cuidado, entre as necessidades de saúde do paciente ao acompanha-lo com o objetivo de atingir o cuidado integral.
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