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Autonarrativas como Recurso Pedagógico no Desenvolvimento de um Olhar
Qualitativo
Silvia Marcia Russi De Domenico
Programa de Pós-Graduaçao em Administração de Empresas Universidade Presbiteriana Mackenzie - [email protected]
Resumo. Este artigo trata da utilização de autonarrativa elaborada a partir de auto-observação como
recurso para a apreensão dos pressupostos da pesquisa qualitativa no processo de ensino-aprendizagem de métodos qualitativos em cursos de mestrado e doutorado em Administração de Empresas. A elaboração da narrativa pelos participantes no trabalho final, fruto da união de breves relatos semanais realizados a partir de reflexões sobre os conteúdos e discussões das leituras e outras atividades solicitadas, perpassando o período de doze encontros, permitiu aos pós-graduandos revisitarem suas próprias visões de mundo sobre o fazer ciência e refletirem sobre a apreensão dos temas relativos à investigação qualitativa.
Palavras-chave: abordagem qualitativa; autonarrativa; semanário; ensino-aprendizagem
Self-narratives as a pedagogical resource in the development of a qualitative understanding
Abstract. This article deals with the use of self-narrative construction based on self-observation as a
resource to apprehend the assumptions of qualitative research in the teaching-learning process of qualitative methods in master's and doctorate courses in Business Administration. The elaboration of the narrative by the participants in the final work, resulting from the union of brief weekly reports made from reflections on the contents and discussions of the readings and other requested activities, spanning the period of twelve meetings, allowed the graduate students to revisit their own worldviews on doing science and to reflect on the apprehension of qualitative research themes.
Keywords: qualitative approach; self-narrative; weekly report; teaching-learning process
1 Introdução
A discussão sobre o que é ciência é algo que diversos autores abordaram, entre eles Kuhn (1985) e Stengers (2002). Apesar de vários debates já realizados sobre paradigmas e por ser relativamente recente a problematização da modernidade nos estudos acadêmicos, é comum a presença de um viés positivista nos processos de formação, principalmente em sociedades ocidentais, que acaba sendo reproduzidos por pós-graduandos de cursos de mestrado e doutorado, mesmo aqueles concentrados nas ciências sociais aplicadas, trazendo a necessidade de se discutir o que vem a ser fazer ciência(s), principalmente quando se apresenta o guarda-chuva da pesquisa qualitativa.
Com essas premissas, este artigo objetiva discutir o emprego da autonarrativa como um recurso pedagógico para o desenvolvimento de um olhar qualitativo para compreensão da realidade, em participantes de disciplina sobre métodos qualitativos de pesquisa, ministrada em 60 horas/aula no programa de mestrado (acadêmico) e doutorado em Administração de Empresas de uma universidade brasileira privada localizada na região sudeste.
Inicialmente, é feita breve discussão sobre o que vem a ser pesquisa qualitativa, seguindo-se a apresentação da disciplina de métodos qualitativos enquanto objetivos e formas de avaliação, contemplando as razões da adoção da autonarrativa referente ao processo de aprendizagem durante
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as doze semanas de curso, como constitutiva do trabalho individual. Na sequência comparece a seção e apresentação de resultados por meio da exposição de excertos produzidos por participantes, finalizando-se com as contribuições de tal abordagem para a compreensão dos pressupostos básicos da pesquisa qualitativa.
2 Pesquisa qualitativa é sinônimo de pesquisa com dados qualitativos? Pressupostos da
pesquisa qualitativa
O que vem a ser “pesquisa qualitativa” não é consenso entre pesquisadores. Alguns, ou talvez a maior parte, consideram para essa classificação a natureza dos dados que farão parte da pesquisa, independentemente dos pressupostos onto-epistemológicos concernentes a ela. Nessa direção encontram-se autores como Guest, MacQueen, & Namey (2012), que adotam o conceito de pesquisa qualitativa de Nkwi, Nyamongo, & Ryan (2001), como aquela que emprega dados não numéricos. Segundo esses autores, o que faz a pesquisa revelar uma vertente positivista, não-positivista ou híbrida, seria a forma com que os dados são tratados e analisados. Apoiados em Bernard (1996), Guest, MacQueen, & Namey (2012) distinguem entre o tipo de dado levantado na pesquisa e o tipo de análise que será empregada. Eles corroboram o ponto de vista aqui defendido de que é possível realizar estudos com dados qualitativos sob olhar funcionalista. O que podemos questionar é se é possível nominar esse tipo de estudo de “pesquisa qualitativa”, uma vez que essa expressão encerra, a nosso ver, em sua origem, a contraposição a uma ciência objetivista dentro do campo das Ciências Sociais e, por consequência, das Sociais Aplicadas, como é o caso da Administração de Empresas. Muito citada pelos metodólogos, a Escola de Sociologia de Chicago é um marco no início do século XX no sentido de realizar pesquisas dentro de contextos específicos, como no caso dos imigrantes polacos na Europa e na América por Thomas e Znaniecki (2006), que lançaram mão do uso de cartas e história de vida para discutir a busca de uma vida melhor na América, no início do século XX e suas consequências em termos de alteração nos valores sociais. El campesino polaco en Europa y en
América (Thomas & Znaniecki, 2006) é citada como exemplo de pesquisa qualitativa ao contrapor a
ideia de leis sociais regendo a sociedade, por ideias provenientes do que depois se consagrou chamar como tradição interacionista simbólica, segundo a qual a realidade não está posta, nem precisa ser descoberta por meio da coleta de dados, mas é fruto das interações entre as pessoas, em contextos de tempo e espaço específicos, onde os “dados”, como afirma Flores (1994), não estão dados, mas são construídos na interação do pesquisador com o campo.
Dessa forma, assumimos aqui que a expressão pesquisa qualitativa diz respeito a estudos com dados qualitativos em paradigmas não positivistas. Isso não exclui a possibilidade de fazer pesquisas também científicas com dados qualitativos em paradigmas funcionalistas. Aliás, esse tipo de pesquisa é bastante comum, principalmente no desenvolvimento de escalas a partir do empírico, quando estudos “qualitativos” são planejados como uma fase inicial e exploratória, por sinal, raramente apresentada e discutida.
Portanto, entendemos que a metáfora da pesquisa qualitativa como um guarda-chuva (Merriam, 2002) é mais bem-vinda por ser esclarecedora, à medida que reúne diferentes tipos de pesquisa qualitativa (etnografia, fenomenografia, estudo de caso, história de vida e narrativas, teoria fundamentada nos dados, pesquisa-ação, entre outras), considerando diversos paradigmas da modernidade não positivistas (interpretativismo, humanismo radical, estruturalismo radical, olhando
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por Morgan, 2005), quanto saberes de pesquisadores comumente situados (nem sempre por si mesmos) na pós modernidade (como Foucault, Derrida, Deleuze, Latour, para citar alguns).
Portanto, os pressupostos do que consideramos aqui como pesquisa qualitativa, corroborados por autores como Merriam (2002), passam por assumir a realidade não como algo objetivo, mas construído por diferentes atores que, interagindo, a interpretam e significam. O objetivo de pesquisas qualitativas está relacionado à compreensão, em profundidade, de situações contextualizadas, a partir das experiências vivenciadas pelas pessoas dentro de determinada época e lugar. Nas pesquisas qualitativas, o pesquisador é um elemento importante, estando o tempo todo imbricado com seu objeto. Ele não é um “ser” privilegiado e destacado, mas é mais um participante nessa história que se passa, afinal, dentro de uma sociedade da qual faz parte, utilizando variadas fontes de materiais (multimétodo) para tentar entender o que está acontecendo a partir daqueles que vivenciam o fenômeno ou situação em foco (naturalística). Os dados não são descobertos, mas construídos, seja em entrevistas (encontros dialógicos e negociados), seja em observações, documentos e materiais audiovisuais, uma vez que a decisão sobre o que será selecionado para o estudo (o que deve estar no foco de uma fotografia, por exemplo) é decisão desse/a pesquisador/a. Os termos validade e confiabilidade da pesquisa, tão caros aos estudos sob paradigmas positivistas, inclusive com aportes qualitativos, para evidenciar o rigor científico, deixam de fazer sentido nas pesquisas qualitativas, que não perdem, por causa disso, a qualidade de serem científicas, uma vez que é imprescindível lançar mão de rigoroso planejamento, realização e avaliação de todo o percurso do estudo (Gephart, 2004). Da mesma forma como é incongruente colocar os participantes em uma pesquisa qualitativa como elementos de uma amostra, já que nada será generalizado para uma suposta população, não se pode avaliar pesquisas qualitativas a partir do mesmo vocabulário originário das ciências naturais, mas incorporando outros termos, compatíveis com seus objetivos, tais como transferabilidade de resultados (Lincoln & Guba, 2000).
Em suma, fazer pesquisa qualitativa para muitos pode ser algo bastante estranho, uma vez que não perfaz os cânones conhecidos dos estudos quantitativos, o que pode causar para aqueles que se preparam em programas de mestrado e doutorado algumas angústias, principalmente se tiverem formação em áreas pertencentes às ciências exatas.
3 O desafio da disciplina de métodos qualitativos
Como promover uma reflexão mais aprofundada sobre as questões colocadas acima, durante um curso sobre métodos qualitativos ministrada para mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Administração de Empresas de uma universidade privada brasileira, localizada na cidade de São Paulo, será o foco da discussão desta seção, mais especificamente, mediante a utilização de autonarrativa sobre o processo de ensino-aprendizagem desenvolvido.
A disciplina de Métodos Qualitativos de Pesquisa em Administração (MQPA) é composta de 12 encontros semanais e tem como objetivos desenvolver nos participantes senso crítico para que possam decidir a respeito do uso ou não da pesquisa qualitativa em sua dissertação ou tese, dependendo da natureza do problema a ser investigado, além de promover o desenvolvimento das habilidades básicas necessárias à realização dos trabalhos de campo. Aborda como conteúdos desde a discussão epistemológica, até os diferentes tipos de pesquisa, passando pelas práticas de levantamento de materiais, incluindo observação e entrevistas, bem como de análise de dados,
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como análise categorial/temática e de narrativas. É uma disciplina obrigatória para mestrandos e eletiva para doutorandos. Em função disso, recebe, semestralmente, entre dez a quinze discentes com diferentes interesses em termos de linha de pesquisa, entre elas finanças, estratégia e comportamento organizacional e, por consequência, com diferentes visões de mundo sobre o que vem a ser a realidade e o ser humano.
Os participantes, além de leituras semanais, elaboram trabalho em dupla a partir de um tema, em geral, relacionado ao ensino em Administração, já que essa temática é comum aos variados perfis. Observamos que essa atividade é propositalmente realizada de forma não individual, por entendemos que uma das características dos estudos qualitativos é a necessidade de discussão, principalmente, no momento da análise dos dados e interpretação dos resultados.
Visando a uma avaliação individual, nas duas últimas edições da disciplina, os discentes foram convidados a realizar uma autonarrativa sobre o desenvolvimento de um olhar qualitativo, olhar esse que devem conceituar a partir dos pressupostos da pesquisa qualitativa discutidos não só nas sessões iniciais, mas ao longo de toda a disciplina cada vez que se debruçam sobre um tipo de pesquisa qualitativa e suas respectivas práticas.
Para compor a autonarrativa final, lhes foi solicitada a realização de anotações durante cada semana de curso, mediante diversos meios, digitais ou não, que estivessem à mão para registrar o máximo possível de ideias, impressões, emoções, raciocínios, dúvidas, relativos aos conteúdos apresentados e como eles se refletiam no espelho de suas vivências pessoais, inclusive nas atividades da própria disciplina (por exemplo, ao elaborarem e testarem o roteiro de entrevista, nas apresentações intermediárias do trabalho em dupla para toda a turma, no esclarecimento de dúvidas pela facilitadora, etc.). Essas anotações esparsas e rápidas deveriam ser registradas em breve narrativa semanal, denominada de semanário, de forma semelhante aos diários, que são uma forma de documento autoproduzido para relatar experiências sobre algum evento específico (Zaccarelli & Godoy, 2013).
Na sessão que tratou de apresentar o que vem a ser história de vida e narrativas pessoais e organizacionais, os discentes tiveram oportunidade de trazer os relatos semanais que elaboraram até aquele momento para compartilhar, incentivar uns aos outros na atividade e rever rumos com orientação da docente. A partir da sessão de análise de narrativas, baseada principalmente em Riessman (2005), os pós-graduandos foram solicitados a incluírem no trabalho individual, uma análise de tipo temática, ou mesmo estrutural baseada em Labov e sintetizada em Gibbs (2005), distinguindo a orientação (momento, lugar da história), ações complicadoras (sequência de eventos), a avaliação (o significado que foi dado às ações do narrador enquanto participante da disciplina) e a coda (moral da história, ou o que foi, por fim, apreendido sobre a abordagem qualitativa).
Com isso, o trabalho individual procurou desenvolver (1) a observação de si, à medida que buscou identificar pensamentos, emoções e ações relacionadas à aprendizagem da abordagem qualitativa, (2) a experiência de auto elaboração de uma fonte de informação primária, no caso um semanário, sob a forma de uma pequena narrativa reunindo as anotações da semana e, finalmente, (3) sintetizar essas anotações em uma narrativa final.
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3.1 Por que a opção por narrativa?
Czarniawska (1998) relembra que narrativas são consideradas como o principal meio de obtenção de conhecimento segundo Bruner (1986, 1990) e como o principal meio de comunicação entre seres humanos, conforme Fisher (1984, 1987). No campo da literatura, a tradição narrativa deve seu desenvolvimento a quatro outras correntes: o formalismo russo, o novo criticismo americano, o estruturalismo francês e a hermenêutica germânica (Polkinghorne, 1987 apud Czarniawska, 2004), procurando focalizar o que é dito em si pelas pessoas, não as intenções ou a estratégia de construção do texto (como em vários tipos de análise de discurso).
As narrativas, todavia, não se limitaram ao contexto literário. Seu uso espalhou-se ao longo do
tempo, pelas ciências humanas e sociais e, mais recentemente, no campo da Administração, onde além das
narrativas pessoais, são investigadas narrativas coletivas (Soneshein, 2010), mais especificamente, organizacionais como mostram Rhodes e Brown (2005) e, de forma compreensiva, Vaara, Soneshein, & Boje (2016), que apontam para a versatilidade que lhes é inerente.
Neste estudo, nos interessam o que Riessman (2005) chama de narrativas pessoais, provenientes da experiência individual, que apresentam como todas as narrativas, sequência e consequência – características que as diferenciam de outros textos. Nelas, eventos são selecionados, organizados, conectados e avaliados como possuidores de significado por uma certa audiência.
Portanto, o principal ponto para a escolha de narrativas pessoais para refletir sobre o processo de aprendizagem da abordagem qualitativa é que são um meio para dar sentido ao que está acontecendo, neste estudo, o contato com os pressupostos do guarda-chuva qualitativo e os diferentes tipos de pesquisa sob ele, tanto para participantes com formação nas ciências exatas, quanto para aqueles que acreditam já os conhecerem, uma vez que neste tipo de curso, concepções e conhecimentos prévios costumam ser colocados em xeque, considerando-se que a abordagem qualitativa é multifacetada. A autonarrativa objetivou servir como um instrumento de auto-organização dos eventos (Pellanda & Pinto, 2015) que ocorreram ao redor das participantes (inclusive em outros contextos) durante as doze semanas em que frequentaram a disciplina.
4 O desenvolvimento de um olhar qualitativo segundo as autonarrativas dos participantes
Na elaboração do trabalho individual, o participante da disciplina vestiu dois chapéus: de pesquisador e de objeto de pesquisa: o que estava sendo observado era ele/a mesmo/a durante o processo de aprendizagem da abordagem qualitativa na disciplina de MQPA, o que seria expresso por meio de uma narrativa auto construída na qual, além do relato em si, era preciso apresentar trechos das breves narrativas semanais para ilustra-los.
Uma das características que tornam as narrativas diferentes de uma mera sequência de eventos é a costura que deve ser feita entre eles por meio de um enredo que lhes dê sentido. Uma das formas de realizar esse alinhavo é por meio da cronologia (Czarniawska,1998) - recurso mais utilizado pelos pós-graduandos na elaboração dos trabalhos.
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Nesse sentido, houve pós-graduandos que chegaram a contextualizar eventos anteriores ao início da disciplina, como mostra um trecho do semanário de um deles1, utilizado para ilustrar sua
autonarrativa:
Meu treinamento em biologia, física e química, por exemplo, sempre deixaram claro para mim que as ciências naturais eram inerentemente diferentes das ciências sociais. E sempre entendi que as primeiras eram “ciência”, as demais (economia, sociologia, administração, direito, jornalismo, publicidade, etc) não. (D, trecho ilustrativo - Semanário)
Essas experiências anteriores acabaram agindo como pré-conceitos no processo de ensino-aprendizagem:
A primeira aula da disciplina foi um momento muito interessante. Na minha cabeça, métodos qualitativos eram técnicas de pesquisa a serem utilizadas em um paradigma positivista. Intencionava aprender as técnicas relativas a coleta e análise de dados qualitativos e, a princípio, era só isso. Para minha surpresa inicial, a questão era muito mais profunda. A visão de uma abordagem qualitativa, baseada em uma visão não positivista, e esse ser o “mote” da disciplina, me deixaram ao mesmo tempo surpreso e interessado. (D, trecho ilustrativo - Semanário)
As narrativas dos participantes mostraram também as reflexões provenientes das interações com outros colegas da disciplina e as respostas internas a elas, como mostra o exemplo a seguir:
[...] ouvir colegas enaltecendo a abordagem qualitativa por possibilitar maior apreensão de toda a complexidade da realidade simplesmente não fazia qualquer sentido para mim, talvez ainda não faça. [...] Para mim o papel da teoria, ou do modelo teórico, é simplificar a realidade. Reduzir para entender. Ou seja, teorizar procurando captar toda a complexidade da realidade para mim é algo sem sentido. Ouvir isso me incomodou e reacendeu um pouco o meu preconceito às abordagens não positivistas da ciência. (D, trecho ilustrativo – Semanário)
Um dos pontos mais recorrentes nas narrativas dos discentes foi a dificuldade de aceitação dos resultados da pesquisa qualitativa como conhecimento científico:
[...] meu incômodo com a questão da subjetividade da abordagem qualitativa. Essa subjetividade parece permear toda a lógica da abordagem qualitativa, desde a escolha do autor e o próprio método por este proposto, como, de uma maneira mais profunda, a ideia de que a própria realidade é uma construção inerentemente subjetiva. (D, trecho da autonarrativa)
Tenho a impressão que esse método é um enorme castelo de cartas construído no ar. Prestes a desmoronar a qualquer momento. A subjetividade permeia todo o processo e a obtenção de aspectos amplos e "profundos" que são vistos como a grande riqueza do método, me parecem sua maior "fraqueza". (D, trecho ilustrativo - Semanário)
Na tentativa de dar sentido ao que chamamos aqui de pesquisas qualitativas, isto é, que empregavam perspectivas não positivistas, os discentes faziam um raciocínio que contrapunha o que era mais conhecido ao que lhes era novo: “Para determinados assuntos, o olhar quantitativo pode ajudar muito a entender melhor as nuances das relações entre variáveis. [A pesquisa qualitativa] [p]arece um método interessante quando o objeto de estudo exige um entendimento profundo de como as pessoas se enxergam e enxergam umas às outras” (D, trecho ilustrativo - Semanário). Ou então, selecionavam alguns tipos de pesquisa qualitativa que ecoavam com mais sentido dentro de seus quadros de referência: “Achei interessante a técnica de pesquisa narrativa. Para trabalhar com
1 Tendo em vista a restrição de espaço, foram selecionados para este artigo, trechos da narrativa de um dos participantes da disciplina na edição do segundo semestre de 2017, aqui identificado como (D).
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as abordagens de processo deve ser interessante. Em modelos de negócios, como existe a necessidade de captar o processo, a narrativa em entrevistas exploratórias pode ser uma técnica interessante” (D, trecho ilustrativo - Semanário).
Por outro lado, a baixa estruturação inerente às pesquisas qualitativas, percebida, por exemplo, em entrevistas temáticas semi-estruturadas (Godoi & Mattos, 2006), foi um dos aspectos presente nos relatos dos participantes, além das dificuldades práticas observadas no campo quando se puseram a realiza-las. Isso pode ser exemplificado ao mencionarem as dificuldades inerentes à elaboração do trabalho em dupla, quando realizaram entrevistas com professores de cursos de ciências sociais aplicadas em diferentes instituições de ensino:
Entre os dias 30/08 e 03/9 eu realizei a entrevista e a transcrição da entrevista de pré-teste para o trabalho final [em dupla] da disciplina. Essa primeira entrevista foi com um coordenador de curso. Essa foi uma experiência interessante. Senti as dificuldades inerentes da entrevista como método de pesquisa. A entrevista transcorreu de forma muito interessante gerando um rico material de coleta. No entanto, o gravador não funcionou e eu perdi a entrevista inteira. Isso foi uma grande frustração. O aprendizado aqui é sempre usar mais de um gravador nas entrevistas. Depender de gravadores em celulares talvez não seja uma boa ideia. (D, trecho da autonarrativa) Estou acostumado a trabalhar com dados secundários. Em nenhuma pesquisa minha precisei “incomodar” as pessoas solicitando entrevistas ou preenchimento de questionários. A minha característica pessoal de não gostar de depender de outras pessoas ou de pedir favores me deixou bastante desconfortável com essas técnicas de coleta de dados primários. (D, trecho da autonarrativa)
Ao passar das semanas, em várias narrativas foi possível notar um verdadeiro “cabo de guerra” interno, aqui exemplificado pelos excertos a seguir:
Não estou convencido da questão da importância da "transferabilidade" de conhecimento. Isso parece uma maneira pouco formal de generalização, nada mais. E ao mesmo tempo, não vejo utilidade nenhuma em esmiuçar um fenômeno que não poderá gerar conhecimento replicável. (D, trecho ilustrativo – Semanário)
Ao mesmo tempo percebo na minha própria fala a tentativa de me livrar de ideias pré-concebidas e encontrar virtude em formas alternativas de pensamento. [...] Ainda sinto um grande "preconceito" com esse tipo de análise que não gostaria mais de sentir. (D, trecho da autonarrativa)
À medida que a disciplina proporciona o detalhamento do guarda-chuva da pesquisa qualitativa, por meio da apresentação de alguns tipos de pesquisa, os participantes reconhecem a possibilidade de outro caminho para fazer ciência:
Olhando esse trecho [de meu semanário] a posteriori percebo ali uma mudança, ou como dito na introdução, um momento de turning point. Começo a internalizar, e não apenas contestar, uma visão mais qualitativa. Categorias epistêmicas da abordagem qualitativa começam a ficar mais familiares para mim e as uso de forma mais inconsciente [...] Achei interessante a discussão sobre estudos de caso e nitidamente naquele momento do curso minhas restrições quanto a abordagem qualitativa estavam em segundo plano. Alguns conceitos e ideias já estavam bem compreendidos e internalizados.
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Porém, isso não quer dizer que houve uma alteração radical na visão de mundo de alguns participantes, todavia o florescimento de uma possível aceitação de outras visões de mundo:
Nesse momento do curso já tínhamos uma boa visão sobre a abordagem qualitativa e sobre diversas estratégias de pesquisa qualitativa. Começamos a dar mais atenção ao trabalho final em dupla. Nesse momento entendia que a minha visão, ou olhar qualitativo havia se desenvolvido bastante. A despeito dessa evolução, continuo percebendo nos trechos escritos um incômodo com algumas questões de cunho epistemológico presentes na abordagem qualitativa.(D, trecho da autonarrativa)
Mais para o final da disciplina, as autonarrativas expressaram a apreensão dos pressupostos da pesquisa qualitativa, como sugere o seguinte relato: “Construção do trabalho em dupla. Percebo uma evolução clara na minha forma de pensar os métodos qualitativos. O trabalho não ficou bom, mas sei apontar seus principais defeitos e virtudes, isso é um grande progresso em termo de aprendizagem e é exatamente o que eu buscava com o curso” (D, trecho ilustrativo – Semanário). O último item do trabalho individual correspondia à análise das autonarrativas a partir de algum dos caminhos apontados por Riessman (2005). Os temas apontados pelos participantes contemplaram de forma mais recorrente: medo de sair da zona de conforto, tensão entre visões de realidade, efeito surpresa da disciplina (permitir-se entrar em contato com os diferentes aspectos das pesquisas qualitativas sem concepções prévias; descoberta de possibilidade de criação de teoria mediante certos tipos de pesquisa qualitativa; descoberta de uso indevido de alguns tipos de pesquisa qualitativa, como estudo de caso), amplitude epistemológica e metodológica (enriquecimento enquanto pesquisador com as possibilidades de pesquisa dentro da abordagem qualitativa). Complementarmente, foram citados como temas relevantes: desconforto em fazer pesquisa que dependa da relação com outras pessoas, importância da observação de gestos (linguagem não verbal), pesquisa qualitativa como caminho para dar voz a sujeitos marginalizados pela sociedade. Alguns participantes, que eram docentes de cursos de graduação, descreveram em seus relatos, reflexões sobre sua ação enquanto professores orientadores de trabalhos de conclusão de curso e como a disciplina de MPQA levou-os a rever essa atuação. Um outro conjunto de pós graduandos, por sua vez, ao invés de refletirem diretamente sobre os conteúdos do curso, tentaram interpretar situações outras, que aconteciam, por exemplo, no caminho até a universidade, no metrô, etc. sob um olhar qualitativo, percebendo, por exemplo, que em uma briga, o que estão presentes ali, são diferentes interpretações sobre a situação, o que levou ao aparecimento do tema de enxergar a realidade como socialmente construída.
Finalmente, a utilização da autonarrativa visando ao desenvolvimento de um olhar qualitativo, sumarizado nas considerações finais do trabalho individual dos participantes mostrou, de forma geral, que serviu a seu objetivo, principalmente de sensibilização aos pressupostos da pesquisa qualitativa, como ilustram alguns trechos retirados dessa seção:
A sensação que permeou todo este trabalho escrito é de que conversava o tempo todo comigo mesma. E se posso estabelecer essa conexão assim, acredito que seja possível estabelecê-la com outros sujeitos quando da realização de análises provenientes de entrevistas seja para uma estratégia de narrativa, estudo de caso ou etnografia. Creio que conhecer a mim mesma enquanto um sujeito em análise é condição necessária para praticar [e] estabelecer o rapport com os futuros sujeitos de minhas pesquisas e tecer análises cada vez mais elaboradas. (Doutoranda A)
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[a] grande surpresa [de escrever a autonarrativa] foi o fato de descobrir ao longo do percurso desta auto-observação que o narrador ao organizar e interpretar as experiências vivenciadas neste percurso [relatadas no semanário] vai captando nuances que durante a própria vivência não está clara. Nesse sentido, ao término da narração, o narrador descobre-se a si mesmo. Creio que esta deva ser uma das descobertas do “olhar qualitativo” desta autora (Doutoranda B). A questão do ensino “sensibilizante” [pelo emprego da autonarrativa] atuando para “quebrar” barreiras e possibilitar entendimento de assuntos que originalmente causem estranheza ou mesmo repulsa e preconceito[...]. (D)
5 Considerações finais
O processo de ensino-aprendizagem de abordagens metodológicas para realização de pesquisas científicas mostra-se como um desafio, à medida que implica, muitas vezes, no questionamento pelos pós-graduandos stricto sensu, que pretendem se tornar pesquisadores e gerar conhecimento em seus campos de interesse, de suas próprias visões de mundo.
Defendeu-se aqui a importância da discussão dos pressupostos meta-teóricos que regem as diferentes abordagens metodológicas e a necessidade de se encontrar opções didático-pedagógicas que abram espaço para a reflexão dos discentes ao cursarem disciplinas de métodos qualitativos. A elaboração de autonarrativa a partir de pequenos relatos realizados durante o desenrolar das sessões constituintes de disciplinas dedicadas à abordagem qualitativa, apresenta-se como um recurso fomentador de consciência sobre as crenças do pós-graduando no que concerne ao fazer ciência, à medida que promove a compreensão dos pressupostos que embasam os variados tipos de pesquisa qualitativa disponíveis aos pesquisadores para resolução, como coloca Morgan (2005), de diferentes quebra-cabeças científicos.
Por fim, o processo de elaboração de uma autonarrativa possibilitou, particularmente, a aplicação concreta dos saberes discutidos em sala de aula sobre uma das mais conhecidas estratégias da investigação qualitativa (narrativas) e, de forma ampla, propiciou ao discente “refletir sobre sua própria experiência de aprender” (Masetto, 2004, p.5), que faz parte do papel mais importante das instituições de ensino superior, que é fermentar o “aprender a aprender” (Masetto, 2004, p.5), podendo ser estendida como ferramenta de aprendizagem (e/ou avaliação) a outras disciplinas do currículo de cursos de mestrado e doutorado.
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