Atividade física e qualidade de vida na profissão docente: que relação?: estudo de caso

Texto

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Departamento de Educação e Psicologia

Atividade Física e Qualidade de Vida

na Profissão Docente: que relação?

(Estudo de caso)

CARLA MARGARIDA MARTINS DIAS

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM

“ENSINO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO”

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UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO Departamento de Educação e Psicologia

Atividade Física e Qualidade de Vida

na Profissão Docente: que relação?

(Estudo de caso)

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM

“ENSINO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO”

CARLA MARGARIDA MARTINS DIAS

Orientador: Prof. Doutor Joaquim José Jacinto Escola

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A atividade física regular contribui na prevenção e controle

das doenças crônicas não transmissíveis especialmente aquelas que

se constituem na principal causa de mortalidade: (…)Neste novo

conceito de vida ativa as atividades físicas realizadas no lar, no

trabalho e no tempo livre são as que garantem uma vida ativa e

saudável quando o objetivo é a promoção de saúde com a prática

regular da atividade física. (Matsudo, 2006, p. 137)

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AGRADECIMENTOS

Depois de concluído este estudo, quero expressar o meu agradecimento a todos aqueles que pela orientação, interesse e conhecimento contribuíram para a sua concretização:

Ao Professor Doutor Joaquim Escola, pela orientação prestada, pelas sugestões e conhecimentos revelados e sempre com a habitual boa disposição;

Aos membros do Conselho Pedagógico do Agrupamento e, em especial à Diretora, por entender que os projetos de investigação científica na instituição escolar podem contribuir para os trilhos a traçar na procura da melhoria contínua;

Aos docentes do Agrupamento pela colaboração na recolha de dados, fundamentais para a concretização desta dissertação;

A todos os meus amigos que de alguma forma colaboraram e me apoiaram neste trabalho;

Aos meus Pais, Fernando e Mina que com carinho e apoio sempre me incentivaram; Ao João, Sara e Tiago, pelos momentos em que não tiveram a minha atenção.

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RESUMO

Atualmente, busca-se contrariar a tendência para o sedentarismo e promover a alteração de hábitos sob pena de se inverter a conquista das últimas décadas de longevidade com Qualidade de Vida. No caso dos docentes, esta tomada de posição torna-se mais premente, considerando que é uma profissão de risco, entre outras razões, pelas agravantes de stress do contexto laboral. A presente investigação objetiva refletir sobre estas questões, recorrendo ao estudo de caso focalizado nos docentes de um agrupamento de escolas do interior norte de Portugal para conhecer as suas conceções, hábitos, constrangimentos e nível de Atividade Física (AF), bem como as suas opiniões acerca da possível influência mútua entre AF e Qualidade de Vida (QDV). Nesse intuito, recorreu-se a um inquérito por questionário, online, (versão de Checa (2010) do Questionário de Atividades Físicas Habituais de Baecke et al. (1982), complementado por uma entrevista à diretora do agrupamento, buscando a perspetiva da direção. Os resultados indicam diversidade de comportamentos quanto à AF e grande variabilidade de respostas (embora predominantemente positivas), quanto à QDV, independentemente dos departamentos a que os docentes pertencem. As opiniões acerca da possível influência entre a AF e a QDV são díspares e inconclusivas. O que, sim, poderá inferir-se das suas respostas é a interdependência entre AF Ocupacional e QDV, pela indissociação que os docentes fazem entre profissão e vida pessoal e entre fatores de ordem física, emocional e psicológica pois, em vários itens, consideram a profissão como cansativa, classificando-a com um nível atribuível a profissões fisicamente desgastantes. Como afirma a diretora, as problemáticas vividas na escola condicionam os docentes e interferem no seu bem-estar. Aliás, parece notar-se que este fator será mais relevante do que a saúde, porque uma boa percentagem de respondentes refere necessitar de tratamentos diários, ou frequentes, não deixando de considerar terem uma boa saúde, mas já não é tanto assim, relativamente à sua perceção da QDV. Constata-se que, relativamente à AF Desportiva, apesar da diversidade de práticas, só uma parte dos inquiridos pratica desporto, sendo bem maior o número dos que realizam AF de Lazer e locomoção. Mesmo entre os docentes respondentes considerados inativos, onde os índices são razoavelmente baixos, grande parte demonstrou caminhar. Percebeu-se que as condicionantes presentes na prática/ausência de AF são díspares e inconclusivas, embora haja casos de relevância de alguns itens. Por exemplo, a relação entre género e índice de AF varia: há situações em que é mais clara a relevância do género, sendo, neste caso, as mulheres as mais ativas, mas outros há em que não há relevância visível. Outra variável que os estudos analisados indiciavam ser relevante era a existência de dependentes a cargo como fator inibidor das práticas de AF – desportivas, ou de lazer e locomoção. Ora os resultados obtidos evidenciam, novamente, dispersão de resultados, tornando-os inconclusivos. Em alguns casos, parece evidenciar-se que os docentes com dependentes a cargo são, até, mais ativos. Quanto ao questionário, mostrou-se válido, de fácil acesso e preenchimento. Pondera-se, não obstante, o interesse da construção e validação de uma versão online adequada à realidade portuguesa e, inclusivamente, a pertinência de uma adaptação com questões específicas para docentes.

Palavras-chave: Atividade Física, Sedentarismo, Qualidade de Vida, Atividade docente, Stress.

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ABSTRACT

Nowadays it is the utmost convenience to defeat the tendency to a sedentary lifestyle by promoting the change of habits, or the conquest of the last decades, concerning the longevity with Quality of Life, will be lost. As far as the teachers are concerned this issue is rather accurate since the job itself can be considered as a risk due, among many reasons, to stress in working context. This research reflects upon such issues, focused in the teachers of a interior north of Portugal school aiming to know about their concepts, habits and restraints concerning Physical Activity (PA). Also about the eventual mutual influence between PA and Quality of Life (QLL).With such purpose, an online questionnaire (the Checa (2010) version from the Baecke's et al. Habitual Physical Activity Questionnaire (1982), completed by an interview to the school rector was conducted. The results show diversity of behaviours concerning PA and a large variability of answers (although predominantly positive) involving QLL, no matter which departments the teachers belong to. The opinions related to the influence between PA and QLL are diversify and inconclusive. The only point that can be concluded from their answers is the interdependency between occupational PA and QLL based on the disconnection teachers do between their job and their personal life along with physical, emotional or psychological factors. Reasoning their job is tiring, they classify it as exhausting. As the rector stated, nowadays the problems felt in school interfere somehow in the teachers well-being. Moreover such factor is more relevant than health, inasmuch as good percentage of respondents refer the need of daily treatments, or even recurrent ones, however they keep on considering they have a good health. Yet when speaking about QLL they aren’t so conclusive. It was verified that in spite of a great deal of different practices of Sportive PA, only a part of the questioned teachers practices it, yet it considering PA as a leisure or locomotion activity the results are higher. Even among the respondent teachers considered as inactive, where the index is reasonably low, a great percentage declared to walk. The results also show that the constraints in the practice/ absence of PA are unlike and inconclusive, although some items show some significance, for example, the relation between the gender and the index of PA varies. There are some situations in which the relevancy of gender is more clear – being, in this case, women the most active, however this variant cannot be considered in many other cases. Another variant according to the attained study is that the dependents in charge as an inhibiting factor of PA practices be it either in sportive or leisure and locomotion. Once again, the attained outcomes show clearly, an enormous breakup of results leading to inconclusive results. In some case, it seems clear the teachers with dependents in charge are even more active. As far as the questionnaire is concerned it has shown to be valid, easy in fulfilling and access. Still it would be rather adequate to build and validate an online version adapted to the Portuguese reality where specific questions concerning the teachers way of life would be made and evaluated.

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ÍNDICE

AGRADECIMENTOS ... i RESUMO ... iii ABSTRACT ...v ÍNDICE ... vi

Índice de Figuras ... viii

Índice de Tabelas... viii

Índice de Gráficos ... x

SIGLAS E ABREVIATURAS ... xii

INTRODUÇÃO ...1

I PARTE~I CAPÍTULO - ATIVIDADE FÍSICA, SEDENTARISMO E QUALIDADE DE VIDA ... - 11 -

1.1- Atividade Física versus Sedentarismo ... - 11 -

1.2- Qualidade de Vida e Atividade Física ... - 18 -

II CAPÍTULO -PROFISSÃO DOCENTE, QUALIDADE DE VIDA E FATORES DE RISCO... - 26 -

2.1- Profissão docente: alguns fatores de risco associados ... - 26 -

III CAPÍTULO- O CONTRIBUTO DA ATIVIDADE FÍSICA NA QUALIDADE DE VIDA DA PROFISSÃO DOCENTE: BREVE REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ... - 34 -

3.1- Atividade Física, sedentarismo e Qualidade de vida: apontamentos de alguns estudos- 34 -3.2- Atividade Física e Qualidade de Vida em elementos da comunidade docente: resenha de alguns estudos ... - 39 -

II PARTE- IV CAPÍTULO - METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO ... - 49 -

4.1- Introdução ... - 49 -

4.2- Objetivos e Questões da Investigação ... - 50 -

4.3- Opções Metodológicas ... - 51 -

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4.5- Análise e Tratamento de Dados ... - 58 -

4.6- Participantes ... - 61 -

4.6.1- Constituição da Amostra ... - 61 -

4.6.2- Caracterização dos Participantes ... - 62 -

V CAPÍTULO- O PAPEL DA ATIVIDADE FÍSICA NA QUALIDADE DE VIDA DOS DOCENTES: APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS ... - 71 -

5.1- Introdução ... - 71 -

5.2- Apresentação dos Resultados... - 72 -

5.2.1- Atividade Física Ocupacional ... - 72 -

5.2.2- Atividade Física e Desportiva ... - 83 -

5.2.3- Atividade Física de Locomoção ... - 92 -

5.2.4- Atividade Física Habitual ... - 100 -

5.3. Análise Comparativa de Resultados ... - 103 -

CONCLUSÕES DO ESTUDO E CONSIDERAÇÕES FINAIS... - 121 -

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... - 132 - ANEXOS ... I ANEXO 1 - AUTORIZAÇÃO PARA A REALIZAÇÃO DO ESTUDO ... II ANEXO 2 - QUADROS RELATIVOS À CLASSIFICAÇÃO DA ATIVIDADE FÍSICA, DE ACORDO COM AINSWORTH ET AL.(2000) – VERSÃO PORTUGUESA (FARINATTI, 2003) ... III ANEXO 3 - ESTUDOS DIRECIONADOS PARA AVALIAÇÃO DA AF EM ALUNOSXIV ANEXO 4 - BQAFH (VERSÃO ORIGINAL COM PONTUAÇÃO) ... XV ANEXO 5 - QUESTIONÁRIO ONLINE ... XVI ANEXO 6 - GUIÃO DA ENTREVISTA À DIRETORA DO AGRUPAMENTO ... XXII ANEXO 7 - TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA À DIRETORA DO AGRUPAMENTO ... XXII ANEXO 8 - CONSTITUIÇÃO DOS DEPARTAMENTOS CURRICULARES DO AGRUPAMENTO ...XXVII ANEXO 9 - ESTUDO WEBOMÉTRICO ... XXVIII

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ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1 Exemplos de práticas de AF 13

Figura 2 Domínios do WHOQOLBref 20

Figura 3 O contributo do equilíbrio da Atividade Física na Saúde 21

Figura 4 Principais problemas de saúde que beneficiam com a prática de AF 35

Figura 5 Fórmula de cálculo do Índice de AFH 55

-ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 Estudos sobre Atividade Física focalizados na classe docente 42

Tabela 2 Constituição da amostra em função do universo, por setor 62

-Tabela 3- Caracterização dos respondentes em função do género e idade, por departamento curricular 63

Tabela 4 Distribuição percentual dos respondentes em função de dependentes a cargo 66

-Tabela 5- Caracterização dos respondentes quanto à apreciação da sua QDV, por departamento 66

-Tabela 6- Caracterização dos respondentes quanto à satisfação com a sua saúde, por departamento 67

-Tabela 7- Caracterização quanto à necessidade de tratamento médico quotidiano, por departamento 67

Tabela 8 Grau de Intensidade da atividade profissional (pensada pelos docentes) 72

Tabela 9 Comportamentos habituais nas Atividades no Trabalho (sentarse) 74

Tabela 10 Comportamentos habituais nas Atividades no Trabalho (ficar de pé/andar) 75

Tabela 11 No trabalho eu carrego/levanto cargas pesadas 77

Tabela 12 Após o trabalho eu sintome cansado/a 78

Tabela 13 No trabalho eu transpiro 79 Tabela 14 Em comparação com outros da minha idade, eu penso que o meu trabalho físico

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Tabela 15 Índice da Atividade Física Ocupacional 80

Tabela 16 Classificação do Nível de Atividade Física Ocupacional (Work Index) 82

Tabela 17 Pratica desporto? 84

Tabela 18 Duração das atividades desportivas, por departamento 85

Tabela 19 Prática de uma segunda modalidade desportiva, por departamento 86

Tabela 20 Duração das atividades desportivas, por departamento 87

Tabela 21 Intensidade da AFD 88

Tabela 22– Índice da Atividade Física e Desportiva 90

Tabela 23 Classificação do Nível de Atividade Física e Desportiva (Sport Index) 91

Tabela 24 Comportamentos habituais nas Atividades de Lazer e Locomoção 94

Tabela 25 Comportamentos de locomoção no quotidiano 96

Tabela 26 Índice da Atividade Física de Locomoção 98

Tabela 27 Classificação do Nível de Atividade Física e Locomoção (Leisuretime Index) 99 Tabela 28 Índice da Atividade Física Habitual 101

-Tabela 29- Classificação do Nível de Atividade Física Habitual (Scores on Habitual Physical Activity) 102

-Tabela 30 – Síntese de resultados: contribuição mais elevada nos diversos índices de Atividade Física 105

Tabela 31 Correlação Género Índices de AF 108

Tabela 32 Correlação Idade Índices de AF 109

Tabela 33 Correlação Familiares Dependentes Índice de Atividade Física 111

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ÍNDICE DE GRÁFICOS

Gráfico 1 Constituição percentual da amostra, por departamento curricular 63 Gráfico 2 Distribuição percentual dos respondentes do género feminino por departamento 64 -Gráfico 3 - Distribuição percentual dos respondentes da faixa etária 40/ 54 anos, por departamento 65 -Gráfico 4 - Dados que se destacam quanto ao grau de intensidade da atividade profissional (pensada pelos docentes), por departamento 73 -Gráfico 5 - Comparação de resultados sobre comportamentos habituais nas Atividades no Trabalho que mais se destacam 76 Gráfico 6 No trabalho eu carrego/levanto cargas pesadas 77 Gráfico 7 Síntese de resultados da Tabela 2, quanto aos índices de AFO, por categorias 83 Gráfico 8 Qual é o desporto que pratica mais frequentemente? 85 Gráfico 9 Prática de segunda modalidade, por departamento 86 -Gráfico 10- Síntese de resultados da Tabela 20 quanto aos índices de AFD, por categorias 92 Gráfico 11 Síntese de informações da Tabela 23 94 -Gráfico 12- Síntese de resultados da Tabela 26, quanto aos índices de AFl, por categorias 100 -Gráfico 13- Síntese de resultados da Tabela 29, quanto aos índices de AFH, por categorias 103

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SIGLAS

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ABREVIATURAS

AVC- Acidente vascular cerebral AF- Atividade Física

AFD- Atividade Física e Desportiva AFH- Atividade Física Habitual AFL- Atividade Física de Locomoção AFO- Atividade Física Ocupacional

Amp-Amplitude

BQHPA/HPAQ- Baecke Questionnaire of Habitual Physical Activity ou Habitual Physical

Activity Questionnaire- Questionário de Atividades Físicas Habituais de Baecke DP - Desvio Padrão

IPAQ- Questionário Internacional de Atividade Física n – Amostra

µ - População

OCDE- Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico OIT- Organização Internacional do Trabalho

OMS/WHO- Organização Mundial de Saúde/ Word Health Organization p- Nível de significância

WHOQOL- Word Health Organization Quality of Live PNS- Plano Nacional de Saúde

QDV- Qualidade de Vida

SPSS- Statistical Package for Social Science Ẍ-Média

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INTRODUÇÃO

Os progressos da civilização têm sido múltiplos, destacando-se, entre eles, a Qualidade de Vida e de Saúde e a longevidade dos indivíduos. Contudo, também arrastam consigo alguns malefícios – os quais podem contribuir para inverter esta tendência. De facto, aumenta a esperança média de vida com os progressos da ciência e da medicina, mas, paradoxalmente, também aumenta o número de mortes e incapacidade devido a doenças cardiovasculares associadas (entre outros fatores, como a nutrição, ou o tabaco), também ao Sedentarismo e ao stress.

Diversos estudos publicados por investigadores e por organizações internacionais e nacionais, enfatizam que, quanto mais ativos são os indivíduos, melhor é a Qualidade de Vida (QDV) que apresentam. Enfatizam, além disso, que as diferenças na QDV das pessoas que praticam Atividade Física (AF) comparadas com as que não praticam, não estão apenas na saúde física, mas também no bem-estar psicológico.

Na atualidade, à profissão docente estão associados diversos fatores de risco entre os quais, além das questões de violência, ou agressão, se situam fatores de ordem psicológica, de desgaste mental e emocional, mas, também, de ordem física incidindo em doenças da coluna e cardiovasculares, devido aos longos períodos de tempo dedicados a trabalho de secretária.

De facto, enquanto profissional da educação a exercer funções há quase duas décadas e meia, contactando com a comunidade docente de um agrupamento de escolas que congrega os diversos graus e níveis de ensino não-superior (desde a educação pré-escolar ao ensino secundário), foi possível perceber que, na generalidade, esta é uma atividade profissional predominantemente sedentária, cuja carga horária, letiva e não letiva, deixa muito pouco tempo livre para a prática de atividades físicas.

Assim, considera-se importante expor este caso com o intuito de focalizar a atenção dos docentes (nomeadamente, dos visados pelo estudo) na importância da Atividade Física, sobretudo tendo em consideração os fatores de risco associados à sua profissão. Também, para explicitar o contributo da AF na Saúde e na prevenção da doença dos profissionais da educação e, bem assim, contribuir para equacionar esta questão.

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________________________________________________________________________- 4 - Deste modo, a dissertação incide num estudo de caso visando perceber em que medida os docentes de um dado agrupamento de escolas praticam Atividade Física e a consideram como importante e influente no seu bem-estar, ou seja, na sua Qualidade de Vida.

Para o efeito, foi realizado um inquérito por questionário, com recurso a uma versão em língua portuguesa, do Brasil (Checa, 2010), do Questionário de Atividades Físicas Habituais de Baecke et al., a ser preenchido online pelos docentes do agrupamento de escolas, procurando responder às seguintes questões: i) Qual a posição do corpo docente dos diversos departamentos do agrupamento para com a prática de Atividade Física? ii) Haverá uma relação direta entre o nível de Atividade Física e o nível de Qualidade de Vida dos docentes? iii) Que fatores, pessoais e profissionais, poderão exercer alguma influência no nível de AF dos docentes?

Paralelamente – tendo em consideração que, à data do início da realização do presente estudo, não se encontrou, em Portugal, nenhum estudo/artigo publicado em revista científica com a aplicação de uma versão portuguesa do referido questionário online, direcionado para a especificidade da profissão docente nacional – aos objetivos e justificações supramencionados acresce esta outra razão justificativa da realização do estudo.

Pretende-se, desta maneira, contribuir para facilitar e uniformizar a utilização deste instrumento a nível nacional, em prol do progresso de posteriores investigações, bem como da divulgação da relevância da Atividade Física como fator promotor da Saúde.

O inquérito foi, ainda, complementado por uma entrevista à diretora do referido agrupamento com o objetivo de conhecer a sua perspetiva e as suas opiniões, quanto às hipotéticas relações entre a prática de Atividade Física e a Qualidade de Vida dos profissionais de educação que dirige. Bem assim, numa fase mais adiantada da mesma entrevista, objetivava-se apresentar os resultados obtidos e auscultar a sua reação e as suas justificações quanto aos mesmos.

Neste sentido, a dissertação estrutura-se numa primeira parte, de enquadramento teórico, abordando os conceitos-chave do estudo: Atividade Física, Sedentarismo, Saúde e Qualidade de Vida, Atividade docente e Stress.

Nos dois primeiros capítulos, problematiza-se e clarifica-se a relação de interdependência entre a Atividade Física, o sedentarismo e a Qualidade de Vida dos indivíduos em geral e dos docentes em particular.

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________________________________________________________________________- 5 - No terceiro capítulo, procede-se a uma breve revisão de literatura procurando evidenciar a existência de estudos demonstrativos da influência entre a Atividade Física e a Qualidade de Vida em elementos da comunidade escolar, bem assim, a escassez de investigações particularmente focalizadas nos docentes do ensino não-superior dos diversos níveis de ensino básico e secundário, atualmente, conglomerados nos agrupamentos de escolas.

Numa segunda parte, no quarto capítulo, faz-se a apresentação do estudo de caso, começando por caraterizar o contexto da investigação e a população-alvo. Justifica-se, também, a opção pela metodologia adotada; explicita-se o problema e o objetivo da investigação; bem como se procede ao levantamento de questões. Do mesmo modo, são identificados os procedimentos, os instrumentos e técnicas para a recolha e o tratamento de dados. Estes assentam no inquérito por questionário recorrendo a um instrumento já validado: o Questionário de Atividades Físicas Habituais de Baecke et al.(apresentado em Anexo 4, na sua versão original inglesa e, no Anexo 5, na respetiva versão online, de Checa (2010) que foi usada). Quanto à entrevista ao órgão de gestão, construiu-se um guião que se apresenta em Anexo 6. A respetiva transcrição encontra-se no Anexo 7.

No quinto capítulo, dá-se conta dos resultados do tratamento de dados do estudo de caso e procede-se à análise comparativa dos resultados.

Na terceira parte, no sexto capítulo, reflete-se sobre as conclusões que se evidenciam e tecem-se as considerações finais.

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I PARTE

ENQUADRAMENTO TEÓRICO

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I CAPÍTULO

Atividade Física,

Sedentarismo e

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I

CAPÍTULO

ATIVIDADE

FÍSICA,

SEDENTARISMO

E

QUALIDADE

DE

VIDA

1.1- ATIVIDADE FÍSICA VERSUS SEDENTARISMO

Os conceitos de Atividade Física e de Sedentarismo opõem-se entre si, uma vez que este último pode ser associado a baixa atividade física. Ou seja, Sedentarismo refere-se a um comportamento em que as pessoas têm um baixo teor de gastos calóricos nas suas atividades de trabalho, ou lazer (Nascimento, 2013).

A Atividade Física é, frequentemente, considerada sinónimo de exercício físico. Contudo, estas duas expressões são distintas entre si.

Com efeito, a Atividade Física corresponde a qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética que resulte em um gasto energético maior do que os níveis de repouso (Bouchard e Shephard, 1994). Trata-se de um conceito abrangente que inclui diversas subcategorias, entre as quais o exercício físico e as práticas desportivas.

Por sua vez, o exercício físico é entendido como toda atividade física planeada, estruturada e repetitiva que tem por objetivo a melhoria e a manutenção da aptidão física (Domingues, Araújo e Gigante, 2004).

Atividade Física implica aumento de dispêndio energético. Contudo, a quantidade de energia que cada indivíduo despende é variável em função da AF realizada. De acordo com Ainsworth et al. (2000), a uma determinada Atividade Física corresponde uma intensidade específica, calculada em função do tipo de movimentação implicado e do seu correspondente gasto calórico. Estes investigadores compilaram um vasto conjunto de atividades e respetivas estimativas de gasto calórico possibilitando o seu uso em múltiplas situações. Posteriormente, foi feita uma tradução e adaptação para língua portuguesa (Farinatti, 2003), que pode ser consultada no Anexo 2. Por exemplo, dormir, tem uma classificação de 0,9 met’s; ficar a ver televisão corresponde a 1 met’s; caminhar corresponde a 2 met’s, mas transportar cargas pesadas já equivale a 8 met’s.

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______________________________________________________________________- 12 - Relativamente à atividade docente, Baecke et al. (1982), que, na Holanda, desenvolveram o Questionário de Atividades Físicas Habituais (Baecke Questionnaire of Habitual Physical Activity-BQHPA), referem o Conselho Nutricional holandês (The Netherlands Nutrition Council, 1979). Este conselho nutricional carateriza a docência como sendo de baixo gasto calórico, ou seja, fisicamente, uma atividade leve, em contraponto com atividades profissionais de médio dispêndio calórico (ou AF moderadas) tais como o trabalho fabril, ou de alto dispêndio calórico, como os desportos:

(...) the low level for occupations such as, clerical work, driving, shopkeeping, teaching, studying, housework, medical practice, and all other occupations with a university education; the middle level for occupations such as, factory work, plumbing, carpentry, and farming: and the high level for occupations such as, dock work, construction work, and sport (cit. in Baecke et al., 1982, p. 937).1

Em contraponto, face ao contexto atual das nossas escolas e ao tipo de funções cometidas aos docentes, poderá questionar-se se não haveria lugar a uma atualização desta classificação. A este propósito, o estudo de Bravo (2010) alude à diferença do trabalho desenvolvido por educadoras/educadores de infância, na educação pré-escolar, comparativamente com docentes do 1.º ciclo do ensino básico. A investigadora descreve que, na educação pré-escolar, as crianças movimentam-se mais livremente no espaço, ao contrário do que acontece no 1.º ciclo, onde existe uma estrutura mais rígida e controlada do espaço e do tempo.

Não obstante, no seu compêndio de atividades físicas, Ainsworth et al. (2000) referenciam as atividades específicas sobre a docência aos professores de educação física, pelos seguintes códigos de Met intensity2: “11875 – Met 4,0 - teach physical education, exercice, sports classe (non-sport play); 11876 – Met 6,5 - teach physical education, exercice, sports classe (participate in class (p. 511). Pate e al. (1995) explicitam que, na classificação da intensidade das atividades físicas, deve-se ter em conta a seguinte escala: leve < 3 METs;

1 Trad.: o nível baixo para ocupações como o trabalho clerical, a condução automóvel, os lojistas, o

ensino, o estudo, o trabalho doméstico, o exercício da medicina e outras ocupações profissionais com educação universitária; o nível médio para ocupações como o trabalho fabril, os bombeiros, a carpintaria e a agricultura; e o nível alto para ocupações como o trabalho nas docas, a construção civil e o desporto.

2 Todas as atividades são classificadas de acordo com sua intensidade. O dispêndio energético é expresso

como um múltiplo do MET (sigla que designa a equivalência metabólica, ou Metabolic equivalent), ou seja, o quociente entre a taxa metabólica associada à atividade e a taxa metabólica de repouso (TMR).

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______________________________________________________________________- 13 - moderada de 3 a 6 METs; vigorosa > 6 METs). Ainsworth et al.(2000) e Farinatti (2003) fazem referência à escala de Pate et al. (1995).

Carvalho (1999), por sua vez, coloca o enfoque, não na intensidade da AF, mas no gasto calórico e apresenta um conjunto de exemplos evidenciando as múltiplas possibilidades entre as quais os indivíduos podem optar nas suas práticas de AF.

A figura 1 evidencia que não há necessidade de encontrar desculpas para não praticar AF, uma vez que são múltiplas as opções – muitas delas, mais leves e rotineiras, ou que não implicam qualquer tipo de equipamento, ou dispêndio monetário.

Figura 1 - Exemplos de práticas de AF

Fonte: Carvalho (1999, p. 12)

Deste modo, todos os indivíduos têm a possibilidade de realizar Atividade Física sem que tal implique esforço acrescido, treino, acompanhamento e supervisão, ou a prática de qualquer desporto: realizamos AF quando nos movimentamos, seja para passear, ir às compras a pé, arrumar a casa, trabalhar, ou sair à noite para dançar.

Abordando a questão do Sedentarismo, constata-se que a sociedade atual, mercê da evolução tecnológica, conduz a hábitos de vida sedentários, começando pelo desempenho das tarefas profissionais. De facto, são cada vez mais escassos os trabalhos que implicam esforço físico e maior mobilidade por parte dos indivíduos, substituídos por todo o tipo de máquinas e

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______________________________________________________________________- 14 - de equipamentos. Se estes visam agilizar a economia, promovendo a rentabilidade e se nos trazem maior conforto, também é verdade que propiciam todo um conjunto de atividades profissionais sedentárias, ao invés das antepassadas em que o Homem tinha de prover à sua sobrevivência de uma forma ativa, com grande desgaste energético.

Por outro lado, vivemos, nos dias de hoje, sob uma pressão constante. Diz-se que tempo é dinheiro e temos os dias e as horas ocupados com múltiplas tarefas sedentárias. O frenesi destas novas formas de sobrevivência diminui o tempo de lazer, que poderia ser destinado à prática de atividades físicas.

Como refere Costa (1997), as alterações económicas têm provocado alterações sociais, incluindo nos modelos de vida, o que tem resultado num decréscimo nas práticas de atividades físicas e, simultaneamente, nos hábitos alimentares.

Também Olin (1999) partilha desta opinião ao defender que “(…) a tecnologia torna-se num oponente do torna-ser humano (…) a sociedade tem estado a mudar do trabalho físico ativo para um tipo de trabalho passivo «sentado»”(p. 37).

Privilegia-se todo um conjunto de meios e de atividades que se centram em atitudes passivas e sedentárias, quer ao nível profissional, quer de deslocação, quer, ainda, de lazer. Isto sucede de tal maneira que, mesmo para as deslocações a recintos e atividades desportivas, recorremos a meios de transporte passivos que não requerem dispêndio de energia.

A significativa redução da Atividade Física nas sociedades desenvolvidas tem repercussões prejudiciais na Saúde – definida pela Organização Mundial de Saúde/World Health Organization (OMS/WHO, 1946) na sua Carta Magna, como “um estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade” (González, 1998, p. 6).

Esta definição abrange dimensões não apenas físicas, como psicológicas e sociais; pelo que uma ação prejudicial à Saúde, como é o caso do Sedentarismo, na sociedade atual, acarreta consequências e traduz-se por custos individuais e sociais.

Deste modo, constitui uma preocupação crescente de técnicos e governantes, já que, segundo a OMS (WHO, 2010), estima-se que a inatividade física seja o quarto maior fator de mortalidade, entre as doenças não-transmissíveis e que este nível de inatividade continuará a aumentar.

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______________________________________________________________________- 15 - São, atualmente, atribuídas ao Sedentarismo mais de dois milhões de mortes anuais no mundo (Mendonça e Anjos, 2004), confirmando-se como um dos fatores basilares, modificáveis, de risco para o crescimento de doenças crónico-degenerativas não-transmissíveis nas sociedades ocidentais (Bauman et al., 2005).

Carvalho (1999) assinala o Sedentarismo como o mais relevante fator de risco para a Saúde, a par do tabagismo, duplicando as possibilidades de contrair um vasto conjunto de doenças e de afeções de elevada mortalidade: “ser pouco ativo significa dar muita chance para uma morte precoce” (p. 1). Assinala, ainda, acreditar-se serem estas doenças, atualmente, evitáveis e, até, tratáveis se houver mudança nos hábitos de vida, ou seja, se os indivíduos adotarem um estilo de vida saudável – o qual inclui o incremento da Atividade Física, como medida essencial. Acredita-se, ainda, que esta pode repercutir-se numa melhoria da Qualidade de Vida.

Aludindo a Nahas (2001) enfatiza-se que a prática regular da Atividade Física constitui um excelente auxílio na melhoria do estado psicológico – por exemplo, no controle da ansiedade, ou outras alterações orgânicas envolvidas no processo de cessação do tabaco. Contudo, segundo Matsudo (2000), existe uma percentagem muito elevada da população que continua a não demonstrar padrões mínimos de atividades físicas aconselhadas para a conservação do estado de Saúde.

Também a OMS refere que as últimas projeções indicam um elevado índice de obesidade: pelo menos um adulto em três tem peso a mais; perto de um em cada 10 é obeso; mais de 40 milhões de crianças com menos de cinco anos têm excesso de peso.

No nosso país, concretamente, os dados apontam para valores mais elevados do que os de outros países europeus: “Relativamente ao excesso de peso e à obesidade (IMC≥25), Portugal apresenta taxas superiores em 20% às encontradas nos países da UE com os melhores valores (Eurostat, 2010, citado por Ministério da Saúde, 2011, p. 37).

Comparando estes dados com as opiniões dos indivíduos acerca da sua saúde, é visível que esta também é mais baixa, comparativamente com outros países da europa: 28,2% de Portugal para o melhor valor (87,1% na Irlanda) (Eurostat, 2010, citado por Ministério da Saúde, 2011, p. 37).

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______________________________________________________________________- 16 - As chamadas doenças civilizacionais, ou seja, cuja causalidade se prende muito diretamente com as alterações do mundo moderno e, assim, com o Sedentarismo, têm vindo a aumentar.

Entre diversas outras doenças e afeções, destaca-se que a hipertensão ataca 20% dos indivíduos adultos; a doença coronária é a principal causa de mortalidade com mais de 2 milhões de enfartes e 214 mil mortes por ano; e os acidentes vasculares cerebrais são a terceira causa de mortalidade.

Torna-se relevante referir que estas doenças não são inevitáveis, nem incontroláveis. Aliás, no que diz respeito às questões da Saúde e da doença, assinala-se que os modernos tratamentos centram a sua atenção não só no aumento da esperança de vida, sintomas e estado funcional, mas também na QDV (Addinton-Hall e Kalra, 2001).

A OMS (WHO, 2012) enfatiza que o estado de Saúde das populações é essencial para o desenvolvimento económico e social de um país.

Deste modo, o documento Health 2020 (que assinala a mais recente resolução da política europeia para a Saúde e bem-estar), definiu quatro áreas de ação prioritária3 entre as quais: “1)investir na Saúde através de uma abordagem ao longo de todo o ciclo de vida, capacitando os cidadãos;[…] 4) criar comunidades resilientes e ambientes promotores de saúde” (p. 4). Para tal, estabeleceu um plano de ação (WHO, 2013) contra as doenças não transmissíveis (cardiovasculares, cancro, respiratórias crónicas e diabetes), através do combate a uma série de fatores de risco, entre os quais a obesidade.

Nesse plano de ação refere-se que o excesso de peso e a obesidade constituem o quinto fator de risco de morte a nível mundial, sendo responsáveis pela morte de 2,8 milhões de adultos anualmente. Refere-se, também, que os custos derivados da inatividade dos indivíduos excedem de longe o custo das medidas a tomar para contrariar estes fatores de risco, mas, pelo contrário, têm ganhos na vida saudável que se refletem em retornos desse investimento cujos montantes financeiros, aliás, se situam abaixo do rendimento interno

3No original: Health 2020 policy is based on four priority areas for policy action:

• investing in health through a life-course approach and empowering people;

•tackling the Region’s major health challenges of noncommunicable and communicable diseases;

•strengthening people-centred health systems, public health capacity and emergency preparedness, surveillance

and response; and

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______________________________________________________________________- 17 - bruto, per capita: “the cost of inaction far outweighs the cost of taking action on non-communicable diseases […] and give a good return on investment, generating one year of healthy life for a cost that falls below the gross domestic product (GDP) per 1 person” (p. 10).

Paralelamente, este plano de ação também responsabiliza os governos sugerindo a tomada de atitudes como: a eliminação dos ácidos gordos industriais presentes nos alimentos, a promoção da rotulagem nutricional; a diminuição da quantidade de sal e de açúcar nos alimentos e bebidas não alcoólicas, entre outras, como o consumo de legumes e de fruta, a taxagem de alimentos prejudiciais à Saúde, ou a proibição da sua publicidade junto às escolas: Em síntese: a aposta das políticas de Saúde incide numa ação mais preventiva e menos remediativa a qual terá, também, resultados aos níveis económico e social, nomeadamente, entre outros, na diminuição de despesas médicas com os tratamentos e internamentos hospitalares; na diminuição do absentismo; e no aumento da produtividade.

Uma das publicações mais recentes sobre o tema da AF e da QDV, da responsabilidade de Scheffer et al. (2015), apresenta os resultados da pesquisa exploratória qualitativa que empreenderam através de um levantamento bibliográfico nas bases de pesquisa Pubmed, Lilacs e Scielo, utilizando palavras-chave para encontrar textos relacionando a fim de verificar a relação existente entre Qualidade de Vida e Atividade Física na literatura, com textos publicados entre os anos de 2010 e 2014.

Os autores concluíram que a prática de exercício físico regular, se bem que adequado ao perfil de cada pessoa, é fundamental em todas as fases da vida.

Acrescentam que os benefícios desta prática de AF incidem fundamentalmente nas dimensões física e mental, os quais se refletem, também no aumento da QDV dos indivíduos, na sua autonomia e longevidade, atenuando os sintomas de doenças como a depressão e o stress.

Também Monteiro (2004) é dessa opinião, referindo-se ao papel da AF na manutenção da qualidade psicomotora ao longo da vida dos indivíduos. Referindo-se, mais concretamente ao envelhecimento, a investigadora assevera haver estudos que apontam o papel determinante do exercício físico (realizado com monitorização, supervisão e adequação) num envelhecimento ativo e de qualidade.

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______________________________________________________________________- 18 -

1.2- QUALIDADE DE VIDA E ATIVIDADE FÍSICA

O conceito de Qualidade de Vida (QDV) pode ser referido como o grau de coincidência entre o real e as expectativas do indivíduo, onde se destaca a experiência vivida, traduzindo a satisfação dos objetivos e sonhos (Matos e Sardinha, 1999).

O conceito de Saúde, definido de uma forma global e holistica, pela Organização Mundial de Saúde/World Health Organization (OMS/WHO) está na base das preocupações crescentes com a QDV, a qual, por sua vez é entendida como “individuals perceptions of their position in life in the context of the culture and value systems in which they live and in relation to their goals, expectations, standards and concerns4. (WHO, 1996, p. 5; WHOQOL,

1997, p. 1).

O enfoque desta perspetiva de entendimento do conceito de Saúde em questões como a promoção da Saúde e o impacto das doenças e suas sequelas na vida dos indivíduos conduziu a preocupações com a QDV.

Guimarães (2011) refere que a QDV percebida pelos indivíduos estará associada a um conjunto de fatores entre os quais a sua situação na vida, no contexto sociocultural e perante os valores em que se integra.

Pascoal e Donato (2005), por sua vez, afirmam que a QDV está associada ao bem-estar do corpo.

Cruzando estas perspetivas, pode perceber-se que a QDV advém da inter-relação dos diversos fatores associados ao indivíduo e que lhe podem proporcionar uma vida sem restrições, impedimentos, ou limitações no seu bem-estar e na sua Saúde – conceito entendido como indo para além da ausência de doença e enfermidade para envolver toda a complexidade dos indivíduos, ao nível físico, mental e social, abrangendo um conjunto de padrões, expetativas e preocupações.

4 Trad.: a perceção dos indivíduos sobre a sua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de

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______________________________________________________________________- 19 - De forma sintética, Rolim (2005) enunciou que a definição de Qualidade de Vida patenteia dois grandes domínios: o funcional e o do bem-estar, explicitando as suas especificidades.

Assim, quanto ao domínio funcional, a atenção incide em diversas variáveis:

(…) capacidades físicas (desempenho aeróbio, resistência, força, equilíbrio, flexibilidade e tarefas básicas – andar, sentar correr, carregar objetos etc.), das capacidades cognitivas (memória, atenção, concentração, compreensão e resolução de problemas), das atividades de vida diária (independência, obrigações, relacionamentos, ações na comunidade, recreação, hobbies) e da autoavaliação do estado de saúde (perceção de sintomas) (p. 26).

Rolim (2005) assinala, igualmente, as variáveis do domínio do bem-estar:

(…) de bem-estar corporal (sentimentos de sintomas e estado corporal, presença de dor, doença, energia/fadiga e distúrbios do sono), de bem-estar emocional (estados positivos ou negativos de depressão, ansiedade, raiva/irritabilidade e afeição), de autoconceito (perceção sob si mesmo, de autoestima e autocontrole) e de perceção global de bem-estar (capacidade de análise, de relato e evolução da saúde e satisfação com a vida) (p. 27).

Diniz e Schor (2006) mencionam a atualidade do conceito de QDV ao qual, gradualmente, tem vindo a ser reconhecida importância na área da Saúde dos indivíduos, revelando-se, mesmo, como a meta última das intervenções da medicina. Por esta razão, tem vindo a estabelecer-se como uma nova e importante variável, na aferição do nível de Saúde das populações, tradicionalmente medido através das taxas de morbilidade/mortalidade.

Apesar de amplamente reconhecida a sua importância, algum ceticismo e confusão se mantem relativamente ao modo como deve ser medida a QDV e, também, quanto à sua utilidade na investigação clínica (Muldoon et al., 1998; Meneses et al., 2002). Urgia, então, abordar o conceito e a sua articulação com a Saúde, nos diversos países e culturas, pelo que a OMS/WHO criou uma equipa de trabalho: o Grupo de Qualidade de Vida (WHOQOL).

No sentido de contribuir para a divulgação destas questões e para o conhecimento do nível de QDV dos indivíduos, este grupo, por sua vez, desenvolveu um instrumento de avaliação composto por cem questões (o WHOQOL-100), envolvendo a participação de vários países e diferentes culturas.

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______________________________________________________________________- 20 - Mais tarde este instrumento foi reduzido e simplificado (WHOQOL-Bref), como se percebe pela Figura 2 .

Figura 2 - Domínios do WHOQOL-Bref

Fonte: WHO (1996, p. 7)

O WHOQOL-Bref é composto por 26 questões, organizadas em quatro domínios considerados essenciais para avaliar a QDV: físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente.

Como se constata, o primeiro domínio refere-se à saúde física e é composto por sete itens, ou facetas: i) atividades da vida diária; ii) dependência de medicamentos e ajuda médica; iii) energia e fadiga; iv) mobilidade; v) dor e desconforto; vi) sono e repouso; vii) capacidade de trabalho.

O segundo domínio refere-se aos aspetos psicológicos: i) imagem corporal e aparência; ii) sentimentos negativos; iii) sentimentos positivos; iv) autoestima; v) espiritualidade, religião e crenças pessoais; vi) pensamento, aprendizagem, memória e concentração.

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______________________________________________________________________- 21 - As relações sociais são incluídas No terceiro domínio: i) relacionamentos pessoais; ii) apoio social; iii) atividade sexual.

Por último, o questionário menciona aspetos ambientais, do entorno dos indivíduos: i) recursos financeiros; ii) liberdade, segurança física e proteção; iii) Saúde e cuidados sociais: acessibilidade e qualidade; iv) ambiente familiar; v) oportunidade de aquisição de informação e capacidades; vi) participação e atividades recreativas/atividades de lazer; vii) ambiente físico (poluição, ruído, trânsito, clima); viii) transportes.

Percebe-se, desta maneira, que promoção da Qualidade de Vida e promoção da Saúde são conceitos interdependentes que podem variar em função de doenças existentes, ou que possam surgir, mas, igualmente, do bem-estar proporcionado pela sua ausência. Deste modo, podemos melhorar a nossa QDV se nos esforçarmos por melhorar a nossa Saúde.

Como refere Matos (2004), a promoção da Saúde passa, também, pela alteração de comportamentos e atitudes suscetíveis de a por em causa – uma tarefa que cabe à sociedade, mas, igualmente, aos próprios indivíduos. Nesta perspetiva, a prática de AF desempenha um papel primordial, pois desenvolve e melhora a condição física geral, nomeadamente as capacidades motoras promovendo e favorecendo uma melhoria na Saúde (Carrageta, 2010), conforme ilustra a Figura 3.

Figura 3- O contributo do equilíbrio da Atividade Física na Saúde

(41)

______________________________________________________________________- 22 - Esta Figura ajuda a perceber até que ponto a aquisição de uma conduta comportamental que adote, no seu estilo de vida, uma prática regular AF é uma condição essencial, entre outras, para a manutenção do estado de Saúde e da Qualidade de Vida das populações (Monteiro et al., 2003; Warburton, 2006; LaMonte e Blair, 2006). Ajuda, ainda, a constatar o contributo da AF para o decréscimo do risco de morbidades (Warburton, 2006) e mortalidade por doenças cardiovasculares e/ou por outras causas (Blair et al., 1989; Blair et al., 1995; Bauman et al., 2005).

Rolim (2005), no seu estudo,5 concluiu que existe uma grande relação entre a prática de Atividade Física, a Qualidade de Vida e o autoconceito dos indivíduos, Nomeadamente, os resultados obtidos colocam a ênfase nos domínios da QDV relacionados com a capacidade funcional, com o estado geral de saúde e com os aspetos físicos.Constata-se, no entanto, a persistência das baixas taxas de Atividade Física, razão pela qual continua a ser objeto de elevada preocupação de Saúde pública em inúmeros países desenvolvidos (Bauman et al., 2005) e países em desenvolvimento (Monteiro et al., 2003; Hallal et al., 2005).

Os comportamentos saudáveis carecem, contudo, de ser enraizados desde cedo – desde a infância e com o apoio das instituições escolares, como refere Fonseca (1999). De facto, a promoção da educação para a Saúde nas escolas é uma realidade já com alguns anos e assenta na aquisição de conhecimentos de maneira a que as atitudes e valores radiquem em bases sólidas. Por outras palavras, interessa que os indivíduos estejam esclarecidos quanto à importância para a sua Saúde e Qualidade e Vida da assunção de comportamentos saudáveis e possam, deste modo, ser proativos. Em síntese, como refere Fonseca (1999, p. 169), “a dimensão participativa das pessoas envolvidas é fundamental”.

De uma forma resumida, pode dizer-se que, intimamente ligado à QDV está o conceito de Saúde e que ambos estão associados à prática regular e equilibrada de AF: uma Atividade Física equilibrada, em que o exercício físico é uma prática regular na vida do indivíduo, proporciona um bem-estar ao nível do aspeto físico, ao nível mental e ao nível do aspeto social, uma melhor capacidade de resposta nas adversidades do dia-a-dia e por consequência uma melhor Saúde – desencadeando uma melhor Qualidade de Vida. Contudo, há a

5 Estudo dirigido a uma população em idade compreendida entre os 50 e os 80 anos, praticantes de

atividade física de modo regular e prolongada com o objetivo de determinar a forma como as pessoas percebem a relação entre a prática da AF, a QDV e o autoconceito.

(42)

______________________________________________________________________- 23 - considerar, também, outras variáveis, como, por exemplo as associadas à atividade profissional.

Estas questões serão abordadas no capítulo seguinte, relativamente ao enfoque na profissão docente.

(43)

II CAPÍTULO

Profissão docente,

Qualidade de Vida e

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(45)

______________________________________________________________________- 26 -

I

CAPÍTULO

PROFISSÃO

DOCENTE,

QUALIDADE

DE

VIDA

E

FATORES

DE

RISCO

2.1-PROFISSÃO DOCENTE: ALGUNS FATORES DE RISCO ASSOCIADOS

A profissão docente, nomeadamente nos níveis não-universitários, tem agregadas a si situações que envolvem risco para a Saúde e para o bem-estar. Algumas delas estão associadas a questões de ordem física e de ordem mental, como afeções ósseas e musculares, associadas ao sedentarismo e aos esforços repetitivos, ou ao stress, entre muitos outros.

O stress, é, atualmente, considerado pela Organização Mundial de Saúde como uma pandemia (WHO, 2001; WHO, 2002a; WHO, 2002b; WHO, 2003; WHO/FAO, 2003) por estar generalizado à população mundial, levando as Nações Unidas (UN, 1995) a considerá-lo a doença do século XXI.

Para Rita, Patrão, e Sampaio (2010), a definição refere-se à incapacidade de resposta adequada a situações de exigência superior, ou não adequada às possibilidades do indivíduo. Apesar de os autores considerarem que as situações de stress fazem parte da vida e são essenciais para a própria superação do individuo, motivando-o e incentivando-o a um nível de desempenho mais elevado, o stress também pode acarretar consequências prejudiciais. Estas consequências refletem-se no bem-estar físico, emocional e psicológico dos indivíduos das quais podem resultar comportamentos, atitudes e sentimentos negativos e, mesmo, extremos.

Para Marques-Teixeira (2002), o stress está intimamente associado, à atividade profissional dos indivíduos.

Segundo Hackman e Oldman (1980, cit. in Vaz Serra, 2002), para as pessoas se sentirem satisfeitas e motivadas com o trabalho, devem ser criadas várias condições psicológicas, a saber: (1) o sentido de responsabilidade que permite alguma autonomia face ao exercício da atividade; (2) sentir que o trabalho é significativo e que possibilita ao indivíduo

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______________________________________________________________________- 27 - identificar-se com as tarefas e acreditar que o seu trabalho marca a diferença; (3) e por último, ter feedback do seu desempenho, dos colegas, supervisor e instituição.

Analisada a problemática do ponto de vista profissional, verifica-se que todos as atividades exibem caraterísticas inerentes à estrutura organizacional e ao seu conteúdo em particular. Algumas dessas características são comuns a múltiplas profissões e fortemente estudadas como potencialmente geradores de stress, outras são inerentes e específicas a algumas atividades, como é o exemplo da profissão docente.

A docência tem sido referida como uma das atividades profissionais associadas a elevados níveis de stress (Jesus, 2000; OCDE, 1990) a tal ponto que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) considerou, em 1981, o ofício de professor como uma profissão de riscos físicos e mentais significativos.

Quais são, por conseguinte, os fatores de risco envolvidos é o que importa esclarecer. No que concerne às questões de ordem física, dados da Unidade do Desporto da Direcção-Geral para a Educação e para a Cultura da Comissão Europeia (2009), referem não se tratar de um esforço físico vultuoso, mas, antes pelo contrário, da sua ausência. De facto, com a mecanização, o trabalho árduo foi muito diminuído nas sociedades atuais e na profissão docente não é, sequer, preponderante. Assim, o dispêndio de energia é muito reduzido e, mesmo, abaixo das recomendações atuais para a manutenção de um estilo de vida saudável. Simultaneamente, tais tarefas sedentárias podem criar um risco acrescido de desenvolvimento de doenças musculares e da estrutura óssea.

Ferrão (2012) refere-se à extensa carga horária dos docentes como causadora de problemas de Saúde de vária ordem. Ao nível físico, como os professores passam muitas horas numa atitude sedentária, sobrecarregando continuamente algumas partes do corpo (geralmente, um conjunto estrito) e deixando outras na inatividade, danos na coluna e enfraquecimento dos músculos e das articulações podem ocorrer. A este propósito, o estudo de Araújo et al. (2005) parece deixar algumas ideias concretas:

(…) 72,6% dos entrevistados referiram, pelo menos, uma queixa de doença. As queixas de doenças mais frequentes entre os docentes estudados estavam relacionadas ao uso intensivo da voz, à postura corporal adotada no exercício da atividade profissional, saúde mental e exposição à poeira e pó de giz. As queixas mais expressivas relacionadas ao uso intensivo da voz foram: dor na garganta (20,2%), rouquidão (18,5%) e perda temporária da voz (5,3%). Quanto às variáveis classificadas como decorrentes da exposição à poeira e ao pó de giz destacaram-se: rinite (26,6%), alergia respiratória (21,1%) e irritação dos olhos

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______________________________________________________________________- 28 -

(13,5%). Os problemas associados à postura corporal mais referidos pelos docentes foram: dor nas costas (30,8%), dor nas pernas (28,3%) e dor nos braços (16,7%). As queixas relacionadas à saúde mental de maior prevalência foram cansaço mental (44,0%), esquecimento (20,3%), nervosismo (18,5%) e insônia (14,1%) (p. 12).

Ao nível emocional e psicológico, por falta de tempo de lazer e pela sobrecarga de trabalho, foca-se o stress, o cansaço e o desgaste mental, mas, também, problemas emocionais.

Estas questões de ordem psicológica e emocional, como o stress, foram abordadas por diversos investigadores, entre os quais Cardoso e Araújo (2000), os quais comparam resultados nacionais com resultados externos. Assim, referem que os docentes portugueses, ou de outros países, sentem stress na sua atividade profissional. Não obstante, na perspetiva dos próprios docentes portugueses, esta situação reveste etiologias distintas das de outros países e é, também, mais preocupante por ser mais elevada, já que um terço considera a profissão como causadora de stress e um sexto considera, mesmo, encontrar-se em estado de esgotamento emocional, ou cognitivo. Nas suas justificações para o stress, os docentes mencionam questões relacionadas com estatuto, currículo e programas; questões relacionadas com a pressão dos horários; e questões de ordem psicológica e emocional.

Como consequências, são apontados esgotamento, ansiedade e depressão na classe docente, mas, também, uma prestação docente desajustada e a ocorrência de situações de risco para a Saúde derivadas do consumo excessivo de álcool; ocorrência de úlcera gástrica, hipertensão, entre outras.

Anos antes, já o estudo de Jesus et al. (1992), sobre fatores de mal-estar na profissão docente apontava para a predominância das questões relacionadas com o processo de ensino e de aprendizagem, de “sobrecarga de trabalho e incontrolabilidade das tarefas”, mas, também, embora em menor grau, para as questões de sociabilidade, como as “relações com os colegas” (p. 57). Para estes autores, o risco para a Saúde emocional e o desgaste psicológico dos docentes estará, precisamente, na ocorrência sucessiva, ou seja, persistente e continuada de situações de mal-estar – como é o caso da crescente exigência profissional docente, com novas e acrescidas tarefas e responsabilidades.

O estudo de Rita, Patrão e Sampaio (2010) aponta precisamente para esta linha de pensamento ao referir-se a novas variáveis introduzidas, que acarretam mudanças nas mais diversas áreas da sua profissionalidade: progressão na carreira e avaliação do desempenho

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______________________________________________________________________- 29 - profissional; salários e instabilidade profissional; aumento e rigor nas tarefas burocráticas; exigência dos novos programas; aumento do número de turmas/alunos, entre outros. O mesmo refere Jesus (2000) mencionando o panorama educativo que provoca a indefinição de funções e a dificuldade em realizá-las adequadamente.

As questões associadas à avaliação – entre as quais a avaliação das escolas (quer a avaliação externa, quer a autoavaliação) serão ainda outro foco de desgaste emocional, como refere Dias (2010), que alude à pressão e competição no seio dos agrupamentos.

Também outros investigadores, entre os quais António Nóvoa, António Teodoro, ou Manuela Teixeira, têm problematizado a profissão docente, desvendando as amarguras, incertezas e constrangimentos dos professores, colocados entre duas realidades distintas, cada uma das quais com suas exigências: entre a necessidade de ser um modelo e um mestre para os alunos e a sua condição de operários e assalariados, para a tutela: “é uma profissão em que a frustração quando acontece, pode ter um dos efeitos mais destruidores, uma vez que, quando não me realizo profissionalmente, não me construo como pessoa” (Teixeira, 1995, p. 161). Teodoro (2006, p. 93) acrescenta que “os professores nunca trabalharam tanto para ver tão pouco resultados…”.

A este propósito, atente-se, a título de exemplo, na legislação sobre horário de trabalho da profissão, como é o caso do Despacho n.º 6, de 26 de maio de 2014, dedicado à organização do ano letivo. Segundo se lê no seu preâmbulo, à semelhança de anos anteriores, pretende-se “conferir maior flexibilidade na organização das atividades letivas, aumentar a eficiência na distribuição do serviço”(p. 13449). Para o efeito, “adaptam-se algumas normas para conferir maior consistência à integração das várias componentes do serviço docente, procedendo-se à harmonização e flexibilização das horas da componente letiva. (idem).

Os reflexos, na prática, desta flexibilização, traduzem-se por uma substancial diminuição do tempo de que os docentes dispunham para preparar/avaliar as aulas e os alunos e uma sobrecarga letiva, ao incluir na componente não letiva situações de coadjuvação, de apoio individual a alunos com dificuldades de aprendizagem, substituições de docentes, ou vigilância de recreios. Acresce, ainda, a possibilidade de os docentes exerceram funções em outras valências, como o apoio ao estudo, ou as atividades de enriquecimento curricular.

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______________________________________________________________________- 30 - Como se percebe pelo que fica dito, tempos que eram, anteriormente, dedicados à planificação, organização e avaliação das atividades letivas podem ser, agora, usados para lecionar implicando que os docentes retirem ao seu tempo não docente, ou de lazer para prosseguir o desempenho das suas tarefas profissionais.

Both et al. (2010) na sua investigação confirmam que o dispêndio de tempo para o exercício da atividade docente é enorme, tanto no ambiente escolar como nos momentos de preparação e organização das atividades pedagógicas em casa. Acrescentam ainda que a conduta comportamental dos docentes quer no interior quer no exterior do meio onde desenvolvem a sua atividade profissional podem interferir diretamente no estilo de vida individual e na qualidade de vida no trabalho e consequentemente, nas condições de vida do trabalhador docente.

Como consequência das mudanças introduzidas na profissão docente são avançados o desânimo e a desmotivação, influenciando, por sua vez, a qualidade profissional, mas, também, a Saúde e o bem-estar dos docentes.

Paralelamente, um estudo luso-brasileiro (Jesus, et al., 2011) coloca o enfoque não na avaliação do mal-estar, mas sim do bem-estar e equaciona a sua etiologia e consequências. Referem como indicadores do bem-estar, a motivação, as expetativas de eficácia e o projeto profissional.

Importa, agora, descortinar de que forma se pode contribuir para que estes indicadores estejam presentes no maior número possível de docentes.

Em síntese: no contexto deste estudo, interessa focar a interdependência entre o bem-estar na atividade profissional e as questões de saúde problematizando o conceito de Qualidade de Vida (QDV). Contudo, este conceito também está intimamente associado à proatividade, ou seja, à promoção da Saúde sendo que a prática da Atividade Física pelos docentes poderá ter alguma coisa a dizer.

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(51)

III CAPÍTULO

O contributo da Atividade Física na

Qualidade de Vida da Profissão

docente: breve revisão bibliográfica

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(53)

__________________________________________________________________- 34 -

III

CAPÍTULO

O

CONTRIBUTO

DA

ATIVIDADE

FÍSICA

NA

QUALIDADE

DE

VIDA

DA

PROFISSÃO

DOCENTE:

BREVE

REVISÃO

BIBLIOGRÁFICA

3.1-ATIVIDADE FÍSICA, SEDENTARISMO E QUALIDADE DE VIDA: APONTAMENTOS DE

ALGUNS ESTUDOS

Diversos investigadores têm vindo a salientar a importância da prática de Atividade Física na Saúde, face ao crescendo das doenças modernas, associadas aos modos de vida das sociedades industrializadas – como é o caso de Mota (1992) e de Ladeira (2004). Este último afirma, ainda, o contributo da AF para a manutenção da Saúde e para a redução do declínio funcional associado ao processo de envelhecimento – ou seja, o contributo para a longevidade saudável.

Por sua vez, Lança (2003), assinala que, vivendo nós numa sociedade que gera cada vez mais pressões e stress, os benefícios da prática de AF são cada vez mais importantes e reconhecidos como forma de combater as dificuldades criadas e existentes. A AF transmite uma sensação de bem-estar e aumenta a capacidade do indivíduo, atuando nos planos físico, mental e social.

Esta perspetiva também é mencionada pela OMS, para quem a prática regular de AF reduz o risco de mortes prematuras, doenças do coração, acidente vascular cerebral (AVC), cancro do cólon e mama e diabetes tipo II. Atua, ainda, na prevenção ou redução da hipertensão arterial, previne o ganho de peso (diminuindo o risco de obesidade), auxilia na prevenção ou redução da osteoporose, promove o bem-estar, reduz o stress, a ansiedade e a depressão (Costa, 1997).

Carvalho (1999) chama a atenção, não apenas para o fator de prevenção atribuível à prática de AF, mas, igualmente, para o fator terapêutico. O autor refere, ainda, o contributo nas questões de saúde mental e emocional, para além da saúde física. Assim, a Figura 4 evidencia os principais problemas de Saúde para os quais o contributo da AF regular é benéfico.

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__________________________________________________________________- 35 -

Figura 4 - Principais problemas de saúde que beneficiam com a prática de AF

Fonte: Carvalho (1999, p. 11)

Além dos benefícios na saúde dos indivíduos, ao nível físico e fisiológico, a Atividade Física também contribui para o bem-estar emocional. Assim, indiretamente, a AF pode ser promotora de maior e melhor desempenho profissional dos indivíduos. Deste modo, à sua ação preventiva pode juntar-se a ação terapêutica, na medida em que a AF pode ser um fator adjuvante dos tratamentos em diversas doenças e situações debilitantes da Saúde, como refere Carvalho (1999), concretamente nos seguintes casos: “tratamento da doença coronária, hipertensão arterial, diabetes, insuficiência cardíaca, obesidade, etc. Foi demonstrado, inclusive, um efeito do exercício físico na regressão da aterosclerose, independentemente dos outros fatores de risco” (p. 1).

Perante a unanimidade de opiniões em prol das virtudes múltiplas da Atividade Física, colocam-se em questão as atitudes sedentárias e multiplicam-se os apelos, incentivos e, até, iniciativas com vista a sensibilizar os indivíduos para estas questões.

A título de exemplo, refira-se a sugestão de Sardinha (2009). Este investigador da Universidade Técnica de Lisboa, que integra a equipa de especialistas do grupo europeu de trabalho designado como Unidade do Desporto da Direcção-Geral para a Educação e para a Cultura da Comissão Europeia, apela a que se use a moda social de cultura do corpo como uma forma de promover a Atividade Física: “Para se combater a distração silenciosa a que muitos remetem a corporalidade, apela-se para o que deveria ser a sua trivial importância,

Imagem

Figura 2  - Domínios do WHOQOL-Bref

Figura 2 -

Domínios do WHOQOL-Bref p.39
Figura 3 - O contributo do equilíbrio da Atividade Física na Saúde

Figura 3 -

O contributo do equilíbrio da Atividade Física na Saúde p.40
Figura 4 - Principais problemas de saúde que beneficiam com a prática de AF

Figura 4 -

Principais problemas de saúde que beneficiam com a prática de AF p.54
Tabela 2- Constituição da amostra em função do universo, por setor

Tabela 2-

Constituição da amostra em função do universo, por setor p.81
Tabela 3- Caracterização dos respondentes em função do género e idade, por departamento curricular

Tabela 3-

Caracterização dos respondentes em função do género e idade, por departamento curricular p.82
Gráfico 1 - Constituição percentual da amostra, por departamento curricular

Gráfico 1 -

Constituição percentual da amostra, por departamento curricular p.82
Gráfico 2 - Distribuição percentual dos respondentes do género feminino por departamento

Gráfico 2 -

Distribuição percentual dos respondentes do género feminino por departamento p.83
Gráfico 3 - Distribuição percentual dos respondentes da faixa etária 40/ 54 anos, por departamento

Gráfico 3 -

Distribuição percentual dos respondentes da faixa etária 40/ 54 anos, por departamento p.84
Tabela 5- Caracterização dos respondentes quanto à apreciação da sua QDV, por departamento

Tabela 5-

Caracterização dos respondentes quanto à apreciação da sua QDV, por departamento p.85
Tabela 4- Distribuição percentual dos respondentes em função de dependentes a cargo

Tabela 4-

Distribuição percentual dos respondentes em função de dependentes a cargo p.85
Tabela 7- Caracterização quanto à necessidade de tratamento médico quotidiano, por departamento

Tabela 7-

Caracterização quanto à necessidade de tratamento médico quotidiano, por departamento p.86
Tabela 6- Caracterização dos respondentes quanto à satisfação com a sua saúde, por departamento

Tabela 6-

Caracterização dos respondentes quanto à satisfação com a sua saúde, por departamento p.86
Tabela 8-  Grau de Intensidade da atividade profissional (pensada pelos docentes) Departamento curricular  Baixa  Moderada  Alta

Tabela 8-

Grau de Intensidade da atividade profissional (pensada pelos docentes) Departamento curricular Baixa Moderada Alta p.91
Gráfico 4 - Dados que se destacam quanto ao grau de intensidade da atividade profissional (pensada  pelos docentes), por departamento

Gráfico 4 -

Dados que se destacam quanto ao grau de intensidade da atividade profissional (pensada pelos docentes), por departamento p.92
Tabela 9- Comportamentos habituais nas Atividades no Trabalho (sentar-se)

Tabela 9-

Comportamentos habituais nas Atividades no Trabalho (sentar-se) p.93
Gráfico 5 - Comparação de resultados sobre comportamentos habituais nas Atividades no Trabalho que  mais se destacam

Gráfico 5 -

Comparação de resultados sobre comportamentos habituais nas Atividades no Trabalho que mais se destacam p.95
Gráfico 6 - No trabalho eu carrego/levanto cargas pesadas

Gráfico 6 -

No trabalho eu carrego/levanto cargas pesadas p.96
Tabela 14-  Em comparação com outros da minha idade, eu penso que o meu trabalho físico é:

Tabela 14-

Em comparação com outros da minha idade, eu penso que o meu trabalho físico é: p.99
Gráfico 7- Síntese de resultados da Tabela 2, quanto aos índices de AFO, por categorias

Gráfico 7-

Síntese de resultados da Tabela 2, quanto aos índices de AFO, por categorias p.102
Tabela 17- Pratica desporto?

Tabela 17-

Pratica desporto? p.103
Gráfico 8  - Qual é o desporto que pratica mais frequentemente?

Gráfico 8 -

Qual é o desporto que pratica mais frequentemente? p.104
Tabela 19- Prática de uma segunda modalidade desportiva, por departamento

Tabela 19-

Prática de uma segunda modalidade desportiva, por departamento p.105
Gráfico 9 - Prática de segunda modalidade, por departamento

Gráfico 9 -

Prática de segunda modalidade, por departamento p.105
Tabela 23  - Classificação do Nível de Atividade Física e Desportiva (Sport Index)

Tabela 23 -

Classificação do Nível de Atividade Física e Desportiva (Sport Index) p.110
Gráfico 10- Síntese de resultados da Tabela 20 quanto aos índices de AFD, por categorias

Gráfico 10-

Síntese de resultados da Tabela 20 quanto aos índices de AFD, por categorias p.111
Tabela 27-  Classificação do Nível de Atividade Física e Locomoção (Leisure-time Index)

Tabela 27-

Classificação do Nível de Atividade Física e Locomoção (Leisure-time Index) p.118
Gráfico 12- Síntese de resultados da Tabela 26, quanto aos índices de AFl, por categorias

Gráfico 12-

Síntese de resultados da Tabela 26, quanto aos índices de AFl, por categorias p.119
Tabela 29- Classificação do Nível de Atividade Física Habitual (Scores on Habitual Physical Activity)

Tabela 29-

Classificação do Nível de Atividade Física Habitual (Scores on Habitual Physical Activity) p.121
Gráfico 13- Síntese de resultados da Tabela 29, quanto aos índices de AFH, por categorias

Gráfico 13-

Síntese de resultados da Tabela 29, quanto aos índices de AFH, por categorias p.122
Tabela 30 – Síntese de resultados: contribuição mais elevada nos diversos índices de Atividade Física

Tabela 30

– Síntese de resultados: contribuição mais elevada nos diversos índices de Atividade Física p.124

Referências