I,]NTVERSIDADE DE EVORA
MESTRADO
EM
INTERVENÇÃO SÓCIO-ORGANTZACIoNAL
Na
sAÚpn
Curso ministrado em parceiacom a Escola Superior de Tecnologia rla Saúile de Lisboa
(DR-II
Série, n".250 de29 de Outubro de2002)Área de especialização em
Diagnóstico e Intervenção Oryanizacíonal e Comunitríria
AUTO.GESTÃO
DA
SAI'DE
NUMA
COMT'NIDADE RURAL
DO CONCELIIO
DE
TORRES
YEDRAS:
TJM
OLIIAR DA
ENFERMAGEM
Dissertação de Mestrado apresentada por:
Liliana
Pereira
Fmeira
Orientador:
Prof.
Doutor
CarlosAlberto
da Silva[Esta dissertação não inclui as criticas e sugestões feitas pelo júri]
Évora
ITNTvERSTDADE
DE
Évona
MESTRADo
EM
TNTERvENçÃo
sóclo-oncANrzAcroNAl
Na
seúpr
Curso ministrado em parceria com a Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa (DR
-
II
Série, no. 250 de 29 de Ourubro de2002)Area de especializaçâo em
Diagnóstico e
Intenenção
Organizacional eComunitiíria
AUTO.GESTÃO
DA
SATJDE
iYt]lVIA
COMT'i\IDADE
RURAL
DO
CONCELHO DE
TORRES
YEDRAS:
T]M
OLIIAR DA
ENFERIVIAGEM
Dissertação de Mestrado apresentada por:
Liliana
PqefuaFrreira
Orientador:
Prof.
Doutor
CarlosAlberto
da Silva #ÊR%-.q./ \'. Il r,, \ll,'-)l \ !/uí.// lft
t1 r-,/ : r \l! ,i.
L\
.) sn"{SEü6íL
|
(r'L
gQ
o
[Esta dissertação não inclui as críticas e sugestÕes feitas pelo
júri] 4
Évora
Auto-gestão da
saúde
numa
comunidade
rural
do concelho
de
Torres
Vedras: um
olhar
da
Enfermagem
RESUMO
A
auto-gestão da saúde é uma aprendizagem que se t'az ao longo do tempo e queenvolve a adaptação e organização do quotidiano em todas as esferas da vida social. Na
saúde e na
doenç4
particularmente face à existência de doenças, os indivíduos devem assumir-se como actores co-responsáveis pelos cuidados.Na
verdade, a experiência de doença evoca a toda umacultura colectiva
e quefaz
parte de cadaum,
com crenças enoÍrnas
que
conduzem
a
comportamentos
e
atitudes.
Os
indivíduos,
famílias
ecomunidade,
bem
como
os
enfermeiros partem
de uma
cultura
Gom
diferentes representações sociaisde
saúdee
doençapara uma lógica
de
procura
e
gestão dos cuidados de saúde. Considerando a doença como uma estratégla em que os indivíduospodem
negociar
os
sistemasde
assistência, perspectivamosque as
estratégias de manutenção da saúde estão ao alcance de todos.Tendo
em
conta
a
diversidade
de
sistemas
de
assistência,
na
presenteinvestigação pretendanos estudar essencialmente três aspectos na gestão dos cuidados
de saúde numa comunidade
rural. O primeiro
prende-se como
recurso simultâneo e/oualternativo àrs medicinas paralelas,
o
segundo visa englobar as estratégias de autogestãoda
saúde na procura de cuidadose por
último,
colocaro
enfoqueda
Enfermagem naprestação
de
cuidados.O
campo
de
análiseincidiu
na
comunidadeda
freguesia de"Clamores"
-
Torres
Vedras,
tomando como pano
de
fundo as
orientações dosindivíduos
dessa comunidaderural
e
enfermeiros que prestam cuidados nessa mesmacomunidade. Foram
utilizadas
II
entrevistas semi-estruturadasno
grupo
dos que sãocuidados e dos que cuidam, de
forma
a obter uma visãoglobal
dos comportamentos eatitudes
face
à
doença.Os
resultadosdo
estudopermitiu-nos colocar
em
evidência diferentes modos de pensar e formas de gestão da saúde e da doenç4 sendo esta a pontade
um
mega icebergsócio-cultural,
moldadapor
uma certa homogeneidade funcionaldas representações sociais, entre os utentes e os enfermeiros.
Palavras-chave:
saúde, doença, representações sociais, autogestão,culfura,
família, rural, medicinas paralelas enfermagern.Self-management
of health in
a
rural
communify
in
Torres Vedras:
a
Nursing
loolc..
ABSTRACT
The self-management
of
healthis a
leamingthat's
made throughttime
and thatenvolves
the
adaptation and organizationof
eachday
in
all
aspectsof
social
life.
In
health and illness,particulary
in
existenceof
illness, one should assumeitself
as co-responsiblefor
their
care.Troly
the
experienceof
illness evokesa whole
collective culturethat's
a
partof
each other,with
beliefs
and norms that leadto
behaviours and attitudes. The individuals,family
and community, aswell
as nurses comefrom
a culturewith
different social
representationsof
health
and
illness
for
a
logic
of
each
and managementof
healthcare. Considering illnesse as a strategyin
which individuals
can negociate assistance systems, we perspectivatetht
the strategiesof
health keeping aÍe atall people's range.
Having
in
account the diversityof
assistance systems,in
this research we intend to study essencially three aspectsof
healthcare managementin
a rural community. Thefirst
is
about
the
simultaneousand
or
alternative
resourceto
parallel medicine,
the second aims to englobe strategiesof
selÊmanagementof
healthin
searchof
care and at last, to put the importanceof
nursingin
caregiving.
Thefield of
analysis happens in thelocal community
of
"Clamores"-
Torres Vedras, putting as background the orientationsof
theindividuals
of
that rural community and nurses that do care servicesin
that samecommunity. There were used eleven interviews halÊstructuralized in the group
of
thosewho
are taken care and
thosewho
take care,
in
order
to
obtain
a global vision
of
behaviours
and
attitudes towards
illness. The
resultsof
the
study made
us put in
evidencedifferent
waysof think
and manage health and illness, beingthis
thetip of
amega
sociocultural
iceberg,molded
by a
certain functional
homogeneityof
a
social representation between usuaries and nurses.Keywords: health, illness, social representations, self-management, culture,
family,
rural community, parallel medicines, nursing.AGRADECIMENTOS
Um sincero
OBRIGADO...
...
a todas as pessoas que contribuíram para a realização deste trabalho:E primeiro
lugar gostaria de agradecer aoprof.
Doutor CarlosAlberto
da Silva peladisponibilidade
e
interessena
orientaçãocientífica
do
trabalho,bem como
peloincentivo e confiança nos meus interreses e realizações pessoais.
Um
reconhecido agradecimentopela
disponibilidade
e
simpatia
de
todas
as pessoas que colaboraram narealização das entrevistas.A
todosos
meus colegasdo
Centrode
Saúde de Torres Vedras,com
especialdestaque
à
Equipa
de
Enfermagem
de
São
Domingos
de
Carmões,um
profundoagradecimento.
Não
poderiadeixar de
agradecer aos queme
estãopróximos:
aos meus pais eirmãs
pelo
estímulo
e
compreensãodas
ausênciase
falhas
de
quem
se divide
porAuto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras: urn olhar da Enfbrmagem
Indice Geral
Resumo
Abstract
Agradecimentos Índice geral ...
Índice de esquemas e quadros
Abreviaturas e Siglas ...
INTRODUÇÃO
l.
Razões da escolha do tema e fundamentos da problernática...2.
Breves considerações sobre a estratégia da pesquisa realizada....3.
Organrzação da estrutura do relatório1.3.
Enfermagem
nacomunidade: Prática orientada para
aintervenção
1.3.1.
Ser Enfermeiro na era conternporânea...1.3.2.
Perfil e papéis da enfermagem na comunidade 1.4.Multiculturalismo
e aEnfermagem
2 3 4 5 8ll
l3
15t7
l9
1.-
ENQUADRAMENTO
DAS
PERSPECTMS
ANALÍTICAS...
2t
l.l.
Experiências de Saúde e Doença1.1.1.
Notas breves sobre obinómio
Saúde e DoençaI
.l.l.l.
Representações sociais da Saúde e Doença1.1.2.
SisteÍnas de assistência e arealidade portuguesa1.1.2.1. Entre a medicina convencional e o lugar da medicina paralela..
1.1.3. A
Família como cuidadorainformal
l.l.3.l
Horizontes da auto-gestão da Saúde1.2. Perspectivas sobre a
Intervenção Comunitária...
1.2.1.
Trabalho comunitário como processoorganizatlo
dodesenvolvi-mento social e da saúde
1.2.2.
Acções estratégicas e culturalistas da interuenção: do diagnóstico,ao projecto e à acção colectiva
23 25 34 49 54 63 73 79 82 85 88 90 95 101
Âutt>gcstào da saúde numa comunidadc rural tlo concclho de Torres Vctlras:
um rllhar da Enf'crmagcm
l19
2.-CARACTERTZAÇÃO
OOCONTEXTO
DE ESTUDO
2.1.
Caracterização
do Concelho deTorres Vedras
..2.1.1.
Caracterização sócio-demográfica .2.1
.2.
Caractenzação sócio-económica . ..2.1.3.
Caracterização das intta-estruturas sociais e de saúde2.1.4.
Indicadores de saúde.2.2. Freguesia de
Clamores.
2.2.1.
Organizaçáo social2.2.2.
Recursos, hábitos, costumes e estilosvida
...3.-
OPÇÕES
METODOLÓGTCAS
...3.1. Perspectivas da
abordagem
qualitativa
etipo
de estudo... 3.2.Histórias
devida: critérios
e procedimentos3.3. Recolha da
informação
3.3.1.
Entrevista no contexto do método biográfico3.3.2.
Selecção dos entrevistados: critérios e procedimentos3.3.3.
Caracteização dos entrevistados .. 3.4.Tratamento
e análise dainformação
...4.-
SIGNIFICADOS DA AUTO.GESTAO DA
S4UD8...
4.1. Os contextos daAuto-gestão
da Saúde..4.1.1. Ter saúde e estar doente: Entre o passado e o presente ... 4.1.2. As relações familiares e de
viziúança
na gestão da saúde... 4.1.3.A
procura social dos cuidados de saúde na auto-gestão da saúde.4.1.4. O recurso às medicinas paralelas
4.2.Ser
Enfermeiro
numa
comunidaderural
4.2.1.
Complernentariedade das práticas? Entre o convencional, a paralelae os saberes populares
4.2.2.
Cenários do quotidiano de trabalho numa comunidade... 4.2.2.1. Notas de Campo4.2.2.2. O olhar da enfermagem sobre a intervenção comunitária
t2l
t2t
123 127 127t29
130t30
133t36
r39
144t45
149 152 153 159t6t
r61 166 170t8l
192 193 2062tt
277Auto-gestào da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras:
um olhar da Ent'ermagern
4.2.3.
Impactos multiculturais na organízação da prática4.3.
viagem
ao núcleocentral
das representações sociais de auto-gestão da saúde e da doença nacomunidade
deClamores..
4.3.1. O
peúil
dos principais elernentos do núcleo centralcoNCLUSÕsS
ERECOMENDAÇÕES
l.
Os Resultados do Estudo2.
Recomendações: Plano de intervenção Sócio- Organizacional....BIBLIOGRAFIA
l.
Bibliografia
citada e consultada ...2.
Outros documentos...-.-ANEXOS
I.
Guiões de Entrevista: Comunidade e Enfermeiros ...,...II.
Grelha Síntese das Entrevistas: ComunidadeIII.
Grelha Síntese das Entrevistas: Enfermeiros...IV.
Grelha Síntese das Categorias: Comunidade e Enfermeiros ...220 224 225 269 284 235 237 249 267 287 289 295 312 325
Aukr-gc'stio da saúdc numa comunitlade rural do concclho de Torrcs Vctlras:
um olhur da Ent'ermagcm
Índice
deFiguras
e QuadrosFieuras
Figura
l:
Modelo Sunrise...Figura 2:
Mapa do Concelho de Torres VedrasFigura
3:
Mapa do núcleo central das representações sociais ...Ouadros
Quadro
l:
Concelho de Torres Vedras-
População ResidenteQuadro 2:
População Residente na Freguesiade
SantaMaria do
Castelo eSão Pedro e Santiago ...
Quadro 3:
População Residente nas Freguesias deTurcifal,
Dois Portos, SãoDomingos de Carmões, Carvoeira e Runa
Quadro
4:
População Residente nas Freguesiasde
São Pedro da Cadeira, São Mamede daVentos4
Ponte do Rol eFreiria...
Quadro
5:
População Residente
nas
Freguesiasde
Matacães,
MonteRedondo,
Maxial,
Outeiro da Cabeç4 Ramalhal e Campelos ...Quadro
6z
População Residente
nas
Freguesias
de
A-dos-Cuúados,
Maceira eSilveira
Quadro
7: Utentes EntrevistadosQuadro 8:
Enfermeiros Entrevistados ...Quadro
9 : Dimensões de analise (Comunidade)...Quadro
10: Dimensões de análise (Enfermeiros)...Quadro
11: Categorias das Unidades de registo (Comunidade)....Quadro l2z
Categorias das Unidades de registo (Enfermeiros)...Quadro
13: Sub-categorias das Unidades de registo (Comunidade)...n2
t2l
228 122t28
128 128 129 129 153 153 156t56
156 156 t57Auto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Tones Vedras: um olhar da Entbrmagem
Quadro
14: Sub-categorias das Unidades de registo (Enfermeiros)...Quadro
15: unidades de
registoda
categoria "Representaçõessociais
de Saúde e Doença" (Comunidade)...Quadro
16: unidades de
registoda
categoria "Redesde
Apoio lnfomal"
(Comunidade)Quadro
l7z
Unidades
de
registo
da
categoria "Autogestão
da
Saúde',Quadro
l8:
categorias
e
sub-categoriasdas
unidades
de
contexto
da dimensão "Contexto das Medicinas Paralelas" (Comunidade)...Quadro
19: unidades
de registo da categoria "Representaçõessociais
dasMedicina Paralelas" (Comunidade)..
Quadro 20:
Unidades de registoda
categoria"Medicinas
Paralelas versusMedicina Ofi
cial"
(Comunidade)...Quadro
21:
Unidades de registo dacategoria"Orgarização
das Práticas em Medicinas Paralelas" (Comunidade)...Quadro
222
categorias
e
sub-categoriasdas
unidades
de
contexto
da dimensão o'Complernentaridade das Práticas de Saúde" (Enfermeiros)...Quadro
23:
Unidades
de registo
da
categoria
"Percqtção
de
Saúde eQuadro
242 Unidades
de
registo
da
categoria
"Enquadramento
dasMedicinas Paralelas" (Enfermeiros)....
Quadro
25:
unidades de
registo
da
categoria
"Prestaçãode
cuidados"
Quadro
26:
categorias
e
sub-categoriasdas
unidades
de
contexto
da dimensão "Enfermagern na Comunidade" (Enfermeiros)...Quadro 27:
Unrdadesde
registo
da
categoria "Organizaçãodo
TrabalhoComunitrário" (Enfermeiros)...
Quadro
28:
unidades de registo da categoria "Intetrvenção na comunidade"(Enfermeiros)....
ts7
162 t67t7I
181 182 186 189 194 196 200 204 207 209 218Quadro
29:
Unidadesde registo da
categoria"lnteryenção
Multicultural"
Quadro
30:
Quantiticação dos conteúdos das entrevistas..Quadro
3l:
Hierarquia dos conteúdos.Quadro
32:
Elementos do núcleo central das representações sociais...Quadro
33:
Matriz de
EnquadramentoLógico da
Propostado
Plano
deintervenção
Sócio-Organizacional
e Comunitária para
a
promoção
daresponsabilização
da
comunidade
pela
sua
saúde
e
valorização
daparticipação
da comunidade...Auto-gcstào tla suúde numa comunidade rural tlo concelho de Torrcx Vcdras: um olhar da Ent'ermagem 221 225 226 227 264
Auto-gestâo da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres vedras:
um olhar da Enfermagern
SIGLAS
E
ABREVIATURAS
CDI:
Classificação Internacional de DoençasIPO:
Instituto Português de Oncologia PBE: Prática Baseada eÍn EüdênciasRS: Representações Sociais
Auto-g€súão da saírde numa comunidade Íural do concslho de Torr€s Vedras: um olhardaEnfermagem
Auto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras:
um olhar da Ent'ermagem
INTRODUÇÃO
A
presente investigação encontra-se inserida no âmbito doII
Curso de Mestradoem
Intervenção Sócio-Organizacionalda
Saúde,cujo
título é
"Auto-gestãoda
Saúde numa Comunidade Rural do Concelho de Torres Vedras: Um Olhar da Enfermagsm".1. Razões de escolha do tema e
fundamentos
daproblemática
O
terna
e
ou
problerna
é
consideradoo
primeiro
passo
num
estudo
de investigação. O trabalho é estruturado tendo em mente pessoas concretas, com ointuito
de
ir
intencionalmente aoslocais
onde estão essas pessoas,de modo
a
compreendercomo é que as pessoas
viveÍn
e quais são as suas experiências nas sifuações concretas.Como afirma Magão
(1992:39),
"...as pessoas estão ligadas aos seus mundos e só sãocompreensíveis nos seus contextos.
Não
pensam,e
agern ern vazios,é
sempre uma questão de relações com coisas, pessocts, acontecimentos e situações".Qualquer estudo de investigação inicia-se com a indagação sobre um
problona
proveniente das nossas experiências, eue nos preocupae
que pretendernos conhecermelhor. O tema deve ser relevante, restrito e suscitar um envolvimento pessoal por parte
do investigador.
Tal
como refereMoreira
(1994), a selecção do tema de investigação é geralmente orientada por razões de ordem pessoal, biográfica, intelectual, política ou de carreira profissional. Segundo Lakatos e Marconi (1992), a justificação do teÍna consistenuma exposição sucinta, mas completa
daquilo
que sepretorde com
o
estudo, desde razões de ordem teórica a motivos de ordem prática.O
terna escolhido
püa
a
realização
da
tese está relacionado
com
asrepresentações de saúde e doença dos indivíduos que na procura de cuidados de saúde
recorrem em simultâneo à Medicina Convencional e as Medicinas
Não
Convencionaisnuma
sociedaderural
situada
na
região
da
Esfiemadur4
mais
concretamente no concelho de Torres Vedras. Assim teÍnos sumariamente como problema:fr
Porque
é que osindivíduos no
contextoda
sua gestão de saúderecorrem
em simultâneo à Medicina
Convencional
e
às Medicinas
Não
Convencionais
naprocura
de explicaçãopara
a doença?Au«l-geritio da saútle numa comunidade rural do concclho de Torres Vedras: um olhar da Entêrmagem
Como
ent'ermeira,a
exercer
funções
no
Serviço
de
Urgência
do
CentroHospitalar de Torres Vedras, no contacto
diário
com a população deste concelho que esobretudo
rural,
constato que os protissionais de saúde apercebem-se muitas vezes, que antes de procurar assistência nos protissionais de saúde (sistemaoticial),
os indivíduosprocuram
explicação paraa
doençaem outros
tipos
de assistênciae
tratamento taiscomo:
endireitas,feiticeiros,
curandeiros, chás, plantasmedicinais e
outrasmeziúas
aconselhados por familiares, vizinhos e amigos. Na verdade, acreditam num conjunto de crenças, saberes, práticas e tradições transmitidos de geração em geração.Qualquer
questãoé uma
interrogaçãoe
se
essa interrogação refere-sea
um determinado problema a analisar com a finalidade de obter novas informações, podemosentão
dizer que se trata de uma
questãode
investigação.Para
melhor
orientar
olevantamento
dos
dadose
obter
um maior
esclarecimentodo
problernaem
esfudo eainda"
com
o
objectivo
de
contextualizar
o
trabalho, surgem
questões,
ditas"operacionais" do
processo depesquis4
à
volta
da
área ternática. Tendo ern conta oproblema enunciado para
a
investigaçãoe na
tentativade
serem claras, exequiveis epertinentes, consideramos as seguintes questões de investigação:
#
O que é que motiva os indivíduos a recorrer às Medicinas Não Convencionais?IÍ
Quais as estratégias de auto-gestão da saúde utilizadas na procura de saúde e bem-estar?fr
Quais
as perspectivasda Enfermagan
sobrea
auto-gestãoda
saúdee
as práticas alternativas da comunidade?O
estudo
do
processo
saúde-doençanum
paradigma
diferente
do
modelobiomédico
vigente
é
cadavez mais
presente,pelo
que
nos
paÍece
que
o
terna
épertinente
e
relevante paraa
Sociologia
e a
Antropossociologi4
em
geral,e
para aEnfermagan
em particular, umavez
qlJe existem diversas formas de interpretação daslógicas de promoção e manutenção da saúde, bem como de prevenção da doença.
Estudar as representações dos indivíduos que procuram cuidados de saúde numa
perspectiva
de
auto-gestão
da
saúde,
implica
compreender
as
suas práticas
erepresentações de saúde
e
doença. Nesta realidade, inclui-seo
objecto social que nos interessa investigar: as representações de saúde e doença numa comunidade rural.Tendo ern conta que Íul representações sociais de saúde e doença resultam dos
valores
modeladospela
experiência pessoale
pela
informação,
da
imagem
que
seAuto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras:
um olhar da Entbrmagern
estrutura, das normas sociais e dos modelos culturais,
o
seu estudo permiteclarificar
como se estrutura logicamente, ou seja, como se ordena e expressa.O
estudo das representações sociais da saúdee
da doença atravésdo
discursodos indivíduos permite por
um
lado, "observar" e compreender como esse conjunto devalores, noÍrnas sociais e modelos culturais são pensados e
vividos
pela comunidade epor outro lado, estudar a construção da imagern desses objectos sociais: saúde e doença.
As
investigaçõescolocam
cadavez
maisa tónica
nos saberes das populações sobre as questões da saúde e da doença, na forma como a sentern, que decisões tomam eem que
se
baseiam essas mesmas decisões.Na
verdadeno
recurso as
MedicinasParalelas
e à
Medicina
Convencional
em
simultâneo
é
uma
realidade
da
nossapopulação
mas pouco
explorada pelos profissionais
de
saúde,ern
especial, pelos enfermeiros que apesar de conscientes queo
conhecimento dos hábitos sócio-culturais e de saúde da população são um factor preponderante na prestação de cuidados de saúde.2. Breves considerações sobre a estratégia de pesquisa
uülizada
Para se realizar uma pesquisa, é necessário que esta seja devidamente planeada,
pois
casocontrário, em
determinado momento,o
investigador encontrar-se-á perdidoseÍn
sabercomo orientar
o
seutrabalho
e
como
úllizar
os
dados recolhidos. Destaforma,
os objectivos têrn uma importânciafulcral no início
de qualquer investigação edevem
ser bem
definidos
e
delineados,de forma
a
sabermos exactamenteo
que queremos, para quê e até onde pudemosir.
A
definição
de
objectivos
numa pesquisaé
de importância
decisiva "porque permite orientar todo o processo de pesquisa. Praticamente toda a investigação procr:ra encontrar resposta ou solução para um determinadoproblerra".
(Moreir4
1994:20)
Na
prática, os profissionais de
saúde constatam que grande parte dos utentes perante um problerna de saúde tanto recorreÍn ao médico defamília
ou a outro técnicode
saúde, como tambémrecolrem à
automedicação, a práticas naturais (chrás, eryas emezinhas)
ou
ainda a outros cuidadores na procura de soluções paÍa resolveros
seusproblemas. Na realidade, são verdadeiros estrategos da própria saúde.
Em Portugal, descoúece-se a existàrcia de estudos sobre as estratégias de auto-gestão da saúde dos indivíduos que recoÍrem a práticas paralelas em simultâneo com o
Âuto-gestão da suúde numa comunitlade rural do concelho de Torres Vctlras:
um olhar tla Enti:rmagcm
recurso à medicina convencional, pelo que a abordagem desta problemática é pertinente para as ciências sociais e para as ciências da saúde.
De acordo com
o
tema e a pesquisa documental realizadq bem como as crenças de cuidados e práticas de auto-gestão da saúde foram detinidos os seguintes objectivos:Objectivos
gerais:IÍ
Caracterizar as estratégias da procura de cuidados de saúde numa comunidade ruraldo concelho de Torres Vedras;
+
Reflectir
e
contribuir para
um
modelo
de
investigação-formação-acção coÍnparticipação
activa dos
profissionaisde
saúdee
comunidade,de modo a
estabelecer estratégias dirigidas à promoção da saúde com colaboração interinstitucional.Ohjectivos
EspecíÍicos:#
Identiticar os
tàctores que
motivam
a
procura
de
explicaçãopara
a
doença em práticas paralelas;*
Analisar
as
representaçõessobre
saúde,doença
e
sistemasde
assistência dosindivíduos que recoÍrem as medicinas paralelas;
iI
Sabera
que
tipo de
terapêuticas(medicina
tradicionaUconvencionaV alternativa) recorrem paÍa a resolução dos seus problemas de saúde;#
Identificar e descrever as estratégias de autogestão da saúde;*
Identificar as intervenções dos enfermeiros e a sua orientação prática;Estes objectivos constituem
o fio
condutoÍ
para orientar a pesquisa demodo
aencontrar resposta para as questões de investigação traçadas. Deste modo, os objectivos
da
pesquisa conduzem
a
opções metodológicas
que privileglam uma
estratégiagarantindo formas
de
complernentaridadeentre as
componentesreferidas
e
visando simultaneamente a verificação, exploração e aprofundamento da informação.Neste estudo de pesquisa social em que se pretende conhecer e compreender as
ernoções e os sentimentos dos seres humanos quanto às experiências de saúde/doença e
a
procura
de
cuidados
de
saúde,a
metodologia
de
naturezaqualitativa
é
a
mais adequada" Esta estratégia de pesquisa multidimensional permite obter informações sobre os saberes e práticas dos indivíduos face à doença.Auto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras: um olhar da Enfermagem
*
Rlguns indivíduos procuram cuidados de saúde poriniciativa individual
com caÍácter pontual e a percepção que tern da sua doença é influenciada pelo que dizem aqueles a quem recorTe;#
Nas representações sociaisde
saúdee
doençaexiste
uma articulação complexa econtraditória enhe os diferentes modos de produção de saberes e os cuidados de saúde e
da doença, englobando, tanto o modo de produção
oficial
de cuidados de saúde como a denominada medicina popular.3.
Organização
daestrutura
dorelatório
O
estudo
das
esfratégias
de
auto-gestão
da
saúde
é
uma
preocupação fundamental desta investigação.No
primeiro
capítulo apresentamos uma reflexão sobre as experiências de saúde e doenç4 as acções estratégicas da intervorção comunitrária e o papel do enfermeiro naprestação
de
cuidados
multiculturais.
Neste
capítulo,
abordamosas
representações sociais, salientando as estratégias de autogestiÍo da saúde, com destaque para o papel dafamília,
enquanto cuidadorainformal.
Posteriormente, abordaremosas
esfatégias dotrabalho comunitrírio e a Enfermagem orientada pafiL amulticulturalidade.
O
segundocapítulo
é
dedicadoà
caracterizaçãodo
universo da
pesquisa, o concelho de Torres Vedras e a freguesia de "Clamores" através da caracterizaçáosócio-dernográfic4
sócio-económicae
algrrns aspectosrelativos
aos
costumes, tadições,estilos de vida e hrâbitos de saúde.
No
terceiro capífuIo,
apresentarnosos
aspectos metodológicosdo
estudo comreferência
paÍa
a
abordagernqualitativa,
ashistórias
de vida e
tésnicasde
recolha, tratamento e análise dos dados.O quarto capítulo é resenrado püÍa a, apresentação das estratégias de auto-gestão
da
saúdee
o
trúalho
comunitiârioda
Enfermagemna
prestaçãode
cüdados
numa perspectivainter
emulticultural
a indivíduos de uma comunidadenral
que recorrerr asmedicinas paralelas e à medicina conveÍlcional em simultÍineo.
Perspectivamos
que
os
resultadosdo
presente estudoconüibuem para
novaslliúas
de anrílise que articulados com ouüas fontes de informação, pemniterr melhorar ocoúecimento
dos factores que determinam a procuÍa dos cuidados de saúde.Auto-gest2io da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras: um olhar da Enfermagem 1.-
ENQUADRAMENTO DAS
PERSPECTTVASANALÍTICAS
â.
|,r
r
!,
;,* a i.' ffi'.tv h, ':"'?*,
-,§{ir. ..,L{
Ê
.---t -:&.r..'..r
ili§ riíiAuto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras:
um olhar da Enfermagern
1.-
ENQUADRAMENTO
DAS PERSPECTTVASANALÍTTCAS
1.1. Experiências de Saúde e Doença
Desde
os
temposmais
longínquos,a
experiàrcia
de saúdee
doença constituiuma história de construções e significações sobre as relações entre
o
corpo e o espírito,entre
o
indivíduo e
o
ambiente. Estas significaçõestêÍn
sido diferentes aolongo
dos ternpos, constituindo difersntesnarativas
sobre o processo de saúde e doença.A
saúde éum
aspecto quediz
respeito a todos nós e que está presente tanto nosdiscursos
e
práticasdos
prestadoresde
cuidadosde
saúde,como
dos
que recebem cuidados, detentores de saberes e saberes-fazeres distintos.As
experiênciasde
saúdee
doençatêm variado ao
longo
dos
tempose
sãodiferentes conforme a
culturq
religião e grupo sócio-económico do indivíduo.A
saúde ea
doençanão
são estadosou
condições estáveis massim,
conceitosvitais
sujeitos a constante avaliação e mudança Diversos autores ahibuem o estado de saúde ou doençaa
factores explicativos eindiüduais,
ern que a responsabilidadepelo
estado de saúde épor
um
lado,
do próprio indivíduo e por outro
lado,
de
factores externos (sociais, económicos e ambientais).Pensar em saúde é, segundo Honoré
(2002:2}),"escutar
e compreendero
quecada um quer dizer quando
sefala
da saúde, no sítio ondesefala
e no rnornento ern quese
fala
dela, permanecendo sensívele
disponívela
todas
as
variações de
sentido,segundo as pessoas, segundo os grupos, segundo os locais, segundo os tnomentos. É, nas n esmas condições,
prestar
atenção a tudo o que éagtr
ern norne da saúde".Na
nossasociedadg mantán-se
uma
sffe
de
pnáticascuja
convicgão
deutilidade é
cada vezmais
disserninadaenfie
a populagão, fazendo parte integrante daideologia
do
saudável como responsabilidade que compete àrs pessoas individualmente.A
saúde é considerada um recurso paÍa o dia-a-dia e não como a finalidade daüda,
umavez que não temos dela uma consci&rcia permanente.
A
saúde
e
as
doençasique
os
indivíduos
desenvolvemao
longo
da vidq
influenciam
e
são influenciadas pelos comportamentos que estes assumem,tal
comorefere Fernandes
(2002:6),*a
saúde é um estado naturalpara
o indivíduo, a doença aocontrárto
não énatural
não provém do indivíduo, deriva da introduçã.o (no corpo)real
Au«r-gestào da suúde numa comunida«le rural do concclho de Torres Vedras: um olhar da Enf'ermagem
ou simbólica cle elementos nocivos
(...)
é um estado que aíectao
corpo do indivíduo econstituí umJànómeno da actividade médtca e do sujeito/doente".
Saúde
e
doença são duas realidades totalmente heterogéneas que exprimem-seuma pela
outra ou
seja,o contlito
entrea
saúde e a doençaé
reproduzido apartir
da relação entreo
indivíduo
eo
ambiente. Se porum
lado, a integração dos indivíduos na sociedade pela actividade representa a saúde através do poder de participação, decisão eprocura
de
satisfação
das
suas
necessidades.Por outro lado,
a
doençatem
uma representação oposta, a de exclusão, inactividade e dependência dos outros.Num passado recente, a doença era frequentemente definida como "ausência de
saúde"
e a
saúdeera
considerada"a
ausênciade
doença".
Paraalguns,
a
saúde éconsiderada
o
estado em que as funções orgânicas, fisicas e mentais doindivíduo
estãonormais
maspor outro lado, no
desviodo
normal,
surgea
doençacomo
estado de desconfortofisico ou
de bem-estar. Para a maioria dos indivíduos, as noções de saúde edoença
são
estados absolutos,ou
estão saudáveisou
estão doentes,não
existindoestados intermedios.
Por
estemotivo,
quandose fala de
saúde, pode-sedefinir
dois grupos: aqueles quetân
saúde e aqueles que não têm ou que a perderam. Mas ter saúdenão
é
sinónimo
de não
estar
doente.Na
realidade,a
saúdedefinida
some,nte pela maneira negativa não tem significado próprio, porque não existe a experiência de saúde,mas apenas de doença.
Para
Herzlich
(1996), as questões emtorno
da saúdg permite apercebermo-nosde que a
mesma tern-setornado uma
noçãodo
sensocomum
quetetn triunfado
napolíticq
na economia, na administração, naciência
na tecnologia, nos comportamentose nÍrs reÍpresentações sociais.
O
indivíduo
é dotado de um saber e de uma cultura através dos quais cria as suaspróprias representações de saúde e doença revelando o imaginrário numa interrelação e
interdependência entre os aspectos fisicos, psicológicos, espirituais, sociais, económicos
e ambientais no processo saúde-doença.
Neste
capítulo, para além
de
abordarmosos
conceitos
de
saúdee
doença construídos nas condutas sociais dos indivíduos, abordaremos as representações sociaisacsÍ ca destes conceitos.
Apesar dos
êxitos da
evoluçãocientífica e
tecnológica,a
atribuição conferida pelo doente ao seu mal-estar continua imbuída em velhos sistemas de crenças acerca daAuto'gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras: um olhar da Ent'ermagern
saúde e da doença.
A
concepção de estar doente ou saudável éindividual,
baseada nasexperiências
e
nos
valores sócio-culfurais
de
cadaum,
adquiridos
atravésde
umprocesso
de
aprendiza5eÍndos
valorese
representações, própriosda
comunidade na qual o indivíduo se encontra inserido.Neste sentido,
coúecer
os diferentes sistemas de assistência a que os indivíduosrecor.rem
é
fundamental para compreender as experiências de saúdee
doença. Para acompreensão,
reconhecimento
e
tratamento
dos
indivíduos, assim
como
para
apromoção da saúde é necessiário
coúecer
as crenças, preconceitose
saberes que cadacultura aceita e transmite, porque
intervir
no processo de saúde-doença significaintervir
na cultura dos indivíduos, nos seuscoúecimentos,
valores, crençÍui e sentimentos.Hoje
em dia"o
dever deter
saúde tomou-se uma novamoral,
generalizando-secomo um
produto
social eindiüdual
importante para as experiências e representaçõestanto
pessoais,como
colectivas,
em
que
a
comunidadee
a
família
assumem aresponsabilidade pela manutenção da saúde dos indivíduos. Deste modo, abordaremos o
papel
da família
como cúdadora
informal
e
com forte influência
na
gestão da manutenção da saúde.1.1.1.
Notas hreves sobre obinómio
Saúde e DoençaAntes de Hipócrates, as doenças eram relacionadas com
o
sobrenatural, a cura era atribuída a Deus Aesculapis e àrs suas filhas, Hygeia que se preocupava com o bem-estar e a manutenção da saúde e Panaceia que estava relacionada com a medicação da doença.No
grego antigo existem duas palawas que significam saúde:"Hygeia",
dondederiva
a
palavra
higiene
e
é
sinónimo
de
o'boamaneira
de
vivef',
enquanto que"Euerta"
significa oobons hábitos docorpo". (Ribeiro, 1996:178\
Do
latim, a
palawa
«saúde»»deriva de "sanus"
quesignifica
sãoe a
palawa<<doenço»
deriva
de
"morbus". Ambos
conceitos
são
abstractose
não se
podern expressar em uma simples definição, enquanto saúde ou estadohigido
indica um estadorelativo
aonormal,
a doençaou
estadomórbido
indica uma alteraçãoda
normalidade que pode apresentar-se em qualquer fase da vida, desde o momento do nascimento até àAuto-gextio tla saúde numa comunitlade rurol do concclho tle Torres Vctlras:
urn olhar da Entbrmagem
Honoré
(2002: 55)
considera que"as
condições sociais aproximam a saúde danormalidade
social.
A
doençaé um
«at'astamento da saúde>>,um
desvio em relação àcomunidade".
A
língua
inglesautiliza
três termos paradetinir
doença-
oodtsease","illness",
"stchtess"
que
significam
respectivamente,ter
uma
doença
(conceito medico
depatologia),
sentir-se doente(significado que
o
indivíduo
lhe
confere)e
comportar-se como doente (papel social que o doente adopta).O
aparecimentoda doenç4
do
disúrbio
e
da deficiência fazem
esquecer osentido da palavra «saúde>> mas por outro lado, a doença obriga a pensar em saúde. De
facto,
as concepções sobrea
saúde sãomuito
diversas, variandode
acordo com
asrelações, os grupos e os indivíduos em si mesmos, ao longo da existência. Deste modo,
a
noçãode
saúde toma-se complexa,difícil
de
analisare
explicar dando
origan
acomportamentos e atitudes que fundamentam a noção de saúde e doença.
De acordo com a definição do
Dicionrírio
Houaiss da Língua Portuguesa(2003:
3269), a saúde é consideradao
"estado deequilíbrio
dinâmico entreo
organismo e o seu ambiente,o qual
mantém as características estruturais efuncionais do
organismodentro dos
limites
normaispara
afor-a
particular
devida
(raça,género,
espécíe) epara
a faseparticular
do seuciclo
vitaf'.
Poroutro
lado, a doença édefinida
como a"alteração
biológica do
estado de saúde deum
ser (homern, animal, etc.), manifestadapor um conjunto de sintomas perceptíveis ou não". (Houaiss, 2003: 1382)
Actualmente,
com
os
contributos
da
antropologia,
da
epidemiologi4
dasociologia, da saúde e
tambán
das reflexões daOMS
sobre este conceito, existern uma variedade de concepções. Contudo, não existem definições universais paracaÍacteizar
estes conceitos etal
como afirma Berger(1995:
107),"definir
a saúde não é uma tarefafácil,
porque
esteconceito provém dos
antecedentesdo meio
sócio-cultural
ou
dos percursos de cadaindivíduo".
Para alguns autores, a saúde é entendida como o resultado do
equilíbrio
entre oindivíduo e o seu meio,
equilíbrio
este que refere-se ao desenvolvimento de capacidades de natureza biológica, psicológica e social de modoa
atingSr a sua miáxima competênciaflace ao contexto e ao projecto de vida. Neste sentido, Duarte
(2002:39)
refere
que"a
saúde é determinadapor
um conjunto defactores
que, eÍn simultâneo, actuam sobre oAuto-geritõo da saúrle numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras: um olhar da Enfermagem
indivíduo,
factores
esses que vão desde os aspectos biológicos, meio-ambiente, estilos de vida e recursos ern serviços de saúde".Para determinados indivíduos ter saúde
signilica
sentir-se bem, estar em forma eestar
tbliz.
Portanto, a saúde é um estado dinâmico eum
processo que se desenrola aolongo da
vid4
durante a qual cadaum
interpreta efeitos diferentes, tornandoo
conceito de saúde mais enraizado.M.
Francisca Soutelo refere que"d
saúde temmúltiplas
dimensões.Ela
não épropriedade do indivíduo, mcts o reflexo da interacção do homem coÍn o seu ambiente, e
constitui
parte
do processo da sua vida dodia-a-dia".
(Duarte,2002:44)
Na perspectiva de Leandro (2001), actualmente a noção de saúde não se confina
ao
normal, neÍn
ao
bem-estarou
na
oposição
à
doença.Ela
consiste antes numsentimento
de
plena
capacidadepara se
adaptaràs
novas necessidades fisiológicas,psíquicas, simbólicas e sociais.
Ao
falar de saúdetambán
se fala de doença, mas fala-se ainda de oufra coisa, da nossa existência e sua significação. Deste modo, ao dizer que não estar doentesignifica
estar de boa saúdesignifica
que a não-doe,nçaé
sinal de boa saúde. Contudo,a
saúdecomo
bem-estarnão
se opõeà
doençq mas
apelaao
sentidode "sofred',
"superat'','tltrapassat''.
Como tal, a saúde é traduzida a partir da existência do corpo ern constante transformação e como refere Honoré(2002:32),''asaúde
revela a existência".Parafraseando
Mamrcho (1998: 27),
"adoecer
constitui un
fenórneno
muito complexo noqual
intertém,por
uÍn lado,factores
externos ao índtvíduo, relacionados como
arnbientefisico
esocial
e,por
outro,factores
ínternosao indivíduo
que fazemvariar
afonna
corno o utente percebe, avalia e actua sobre a doença".A
vida em
sociedadee
as condições geradaspelo
progressopoderr
constituir
condiçãosine quan
non
nãosó
paraa
instalaçãode
doença mas igualmente, para acriação de uma dada representação social da doença, do corpo e do médico, assim como a medicalizaçáo de todas as situações de
vida do indivíduo
no seu processo normal dedesenvolümento que condicionam o papel de doente, até porque, muitas das esbrrturas de apoio de outros ternpos foram perdidas ou estigmatizadas. (Duarte, 2002)
Médicos, enfermeiros,
sociólogos,psicólogos
e
todos
os que
trabalham
nodomínio da
saúde,têm
a
suaprópria definição, que
correspondea uma
orientação pessoal. Paraos
sociólogos, representaa
capacidadetotal
que cadaindivíduo tem
deÀuto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vcdras:
um olhar da Entbrmagem
desempenhar
o
seu papel social.
Para
o
psicólogo,
a
saúde
corresponde
aodesenvolvimento pessoal e situa-se num contexto de adaptação ao stress, que permite a
todo o ser humano reagir às mudanças a que está sujeito. (Berger, 1995)
Weis e Lonquist (1997), de acordo com Pamplona (1997) resumem a concepção de saúde sob três modelos:
*
O modelo biomedico, que defende a ideia de que a saúde está apenas dependente do estadofisiológico
doindivíduo
sendo considerada como a ausência de doença;IÍ
O
modelo psicológico, que relaciona a saúde como o bem-estar geral, as realizações pessoais, satisfação no trabalho, vidafamiliar
e pessoal;#
O modelo sociológico, que realça as capacidades doindivíduo
para a realização dastaretas e papeis sociais.
Na cultura ocidental, o modelo biomédico encontra-se interiorizado de
tal
formaque não
é
apreendidocomo
sistemade
representação possívelmas como
realidade,sendo
inimaginável
que possaexistir um
outro.
No
entanto,ptrâ
Duarte (2002), estemodelo biomédico
tem
o
seu fundamentono
positivismo do método
experimental ecomanda uma medicina que pode ser qualificada de medicina das especialidades.
A
cultura ocidental continuamuito
actual, tanto sob o ponto de vistapúblico
esocial, como privado e
individual. Tal
como refere Leandro(2001l.73),"nas
sociedadesmodernas,
a
saúde enquanto noção (conceito médico, biológico,filosófico,
espiritual, social,psicológico
e econórníco) e enquanto objecto de qualidade e prolongamento davida sã dos índivíduos e das populações e de
luta
contraa
doença ea
morte, mobilizatodos os sectores da actividade humana, socíal e
culturaf'.
Nos
finais
do séculoXVIII
e duranteo
séculoXIX,
a higiene e a saúde pública foram uma das principais preocupações, tendo sido realizados estudos sobre o estado de saúde da populaçãoe
aplicadas medidas dehigiene
eprofiláticas com
o
objectivo
de pressrvar a saúde e prevenir a doença.Até
aos anos60,
a
saúde era considerada numa perspectiva mecanicista comosendo
o
silêncio dos
órgãosou a
ausênciade
sintomas, masa
saúde nãopode
serapreendida
senão
como
um
retorno
da
cura
(o
bem
saúde
vma
yez
perdido
éreencontrado através da cura). Segundo
Pinto
(2004), nesta perspectiva do pensamentoAuto-gestiÍo da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras: um olhar da Ent'ermagern
seja,
não
tem
estatuto
e
não tern valor em
si
mesma.
Esta
concepçãotraduz
aimportância da cura completa e do retorno ao estado de saúde próximo da natureza.
Para Stroebe (1995), é
dificil
aceitar dentro do modelo biomédico que tem sido o dominante da doença durante séculos, que os factores relativos aos estilos deüda
e ao stress psicossocial são determinantessignificativos
da doençae da
saúde. Segundo oautor, este modelo defende a ideia de que para cada doença existe uma causa biológica
primária
queé
objectivamenteidentificável
e
que
ao
focalizar-se unicamente nestascausͧ
ignora
o
facto de
que muitas
doenças são resultantesde
uma
interacção de acontecimentos sociais, psicológicos e biológicos.Em
1948, aOMS definiu
a saúde não só como a ausência de doença, mas comoum
estado completo de bem-estarfisico, espiritual e
social.A
partir
deste conceito, asaúde
e
a
doença
são
considerados fenómenosbiofisiológicos
e
também
factores socioculturais que influenciam arelação do homern com o meio.O
modelo
biomédico
mecanicista
e
reducionista centrado
numa
visãoindividualista da
saúdee
dadoençq por
vezes ignoraos
aspectos sociaise
culfurais.Neste sentido,
Engel
(1977), propôsum
alargamentodo
modelo biomedico,a
fim
deincorporar
os
factores
sociais
no
seu
enquadramento
científico.
O
modelobiopsicossocial defende a
ideia de
que factoresbiológicos,
psicológicose
sociais sãodeterminantes importantes
da
saúdee
da doença.De
acordocom
esta abordagem, o diagnóstico médico deve consideraÍ esta interacção, quer na avaliação da saúdg quer no tratamento da doença. (Stroebe, 1995)Segundo
Kleinmam (1992:
252), "noparadigma
biomédico,patologia
significamau funcionarnento
ou
má
adaptação
de
processos
biológicos e
psicológicos
noindivíduo; enquanto enfermidade
(estar
doente), representa reacções
pessoais,interpessoais
e
culturais perante
a
doençae
o
desconforto, imbuídos em complexos nexosfamiliares,
sociais e
culturais,
dado
quea
doençae
a
expertênciade
doençafor"*
parte
do sistema social de significações e regras de conduta, elas são fortementeínfluenciadas
pela cultura
epor
isso socialmente construídas". (Gonçalves,sd:
163-164)
No estudo de Reis e Fradique
(2004:483)
sobre as "significações leigas de saúdee
doença ernadultos"
constaram q,ue"a
maíorparte
das pessoasincluíram
aspectosAukrgcstio tla saúde numa comunitlade rural do concclho de Torres Vedras:
urn olhar da Entbrmagem
reJiram espontaneamente, reconhecem
a
importância
destes aspectos, adoptando-os,discutindo-os ott recusando-os". Deste modo, torna-se fundamental uma abordagem da
saúde e «loença, mais holística, ou seja, na perspectiva do modelo biopsicossocial.
Na década de 80,
com o
aumento da esperança devida
e concomitantemente o Íracasso do modelobiomédico,
emergiuum
novo conceito de saúde.A
saúde deixa de ser entendida como ausência total de doenç4 traduzida por um estado completo de bem-estarÍisico,
psicológico e social, mas passa a ser definida de uma forÍnaindividual
e não universaljá
que cadaindivíduo
tem o seu padrão de saúde que corresponde a um estadode
"equilíbrio
dinâmico que
o
homem mantêmcom
o
seumeio,
o
que
lhe
permitedesenvolver as suas actividades de vida e autocuidar-se".
(Abreu,200l:
133-134)A
medicina psicossomáúiçasurgiu com algum
entusiasmo durante os anos 70, mas perdeu a sua importância durante os anos 80. Hoje em diavoltou
a ter algumvigor,
porque a contribuição psicossocial de cunho cognitivista tem sido valorizada sobretudo nos aspectos relacionados com as estratégias de gestão da saúde.(Spiú,
1995)No século
XX,
sobretudo a partir da segunda guerra mundial, com o crescimentoeconómico
e melhoria
dos níveis devida
devido
ao avançoda
ciênciae
dabiologia,
surgiram novos discursos sobre saúde e doença. Segundo Mamrcho (1998: 30), a saúde passoua
ser
entendida"à
luz do
modelo
plurietiológico",
que incorporaos
factores sociais, económicos, educacionais, religiosos e individuais, como a idade e o sexo.Diversos
autores,entre os quais,
SusanaDuarte (2002), Berta
Nunes (1987), Marc Augé (1984), ClaudineHerzlich
(1994), Engrácia Leandro (2001), têm acentuadoque para
alán
dos
aspectosbiológicos,
os
aspectos económicose
sócio-culturaistambán
assumem grande importância na compreensão da saúde e da doença.Em
1986, aOMS
tornouo
conceito de saúde mais objectivo, definindo-a como"a
extensão em que umindivíduo
ougrupo,
épor
umlado,
capaz derealizar
as suasaspirações
e
sattsfazeras
suas necessídades epor
outro
lado,
demodificar ou
lidar
como
meio queo
envolve.A
saúde é, dizem, vísta como uÍn recursopara a
vida
detodos os
dias,
uma dtmensãoda
nossa qualidade devida
e nãoo
objectivo devida".
(Ribeiro,
1998: 86)Apesar de todas as criticas de que é alvo, a definição da OMS é a definição mais
conhecida e com
maior influência
nas ciências da saúde.O
paradigma emergente é deAuto-gestão da saúde numa comunidade rural do concelho de Torres Vedras: um olhar da Enfermagem
modo
a
consideraÍo
doentena
$ut
totalidade,
do
somáticoao
espiritual
desde o nascimento até à morte. Deste modo, a saúde não é mais um estado sem alterações, masum
bem,um
beÍn-estarfisico,
mentale social
que nos permite trabalhar aolongo
daüda
e ter períodos de lazer, para gerir um capital de saúde como recurso esgotável.Actualmente, a saúde não é apenas sentir-nos bern, mas tambérn, estar no mundo
com os outros e estarmos satisfeitos de modo a manter
o
rihno
devida
num processocontínuo
de
equilíbrio. Citando Honoré (2002: 27),
*a
palavra
««saúde» diz-nosqualquer coisa de nós
mestnos epara
nós
rnesmos,individual
e
colectivamente, na nossalíngua,
em qualquerparte
ondenós
vívamose
nurn motnentoparticular.
Ela
situa-nos no mundo e na história. Deste modo, ela projecta-nos."Na
perspectivade
Leandro
(2001:
75),
a
saúdeé hoje concebida
como "utnelernento indispensável de
felicidade e
de
sentidopara
a
existêncíae
não deixa
dealimentar sonhos de imortaltdade,
cujo colorário seria
umaperfeita
saúde numa vidaque não tivesse ocaso". Actualme,nte a noção de saúde não se confina, nem ao normal,
nem ao
bem-estarou
na
oposição
à
doença,mas sim, num
sentimento
de
plena capacidade para se adaptar àrs novas necessidades fisiológicas, psíquicas, simbólicas esociais.
Neste sentido, a saúde e doença não são processos absolutos mas sim, processos contínuos de üansformação com uma orientação para a
vida.
Para Honoré(2002:37),
"a
saúde parecesignificar
uma qualidade de «estarno
mundo»,de
«estarjunto
dascoisas»,
e
ern comunicação corn osoutros
que estão, tambétn eles, preocupados comela".
O
binómio
saúdee
doença nãoexprime
apenasa
relaçãodo
indiüduo
com
a sociedade, pois insere-se numa relação funcional conduzida em estaÍ doe,nte e o estar deboa
saúde.A
doençadeixa de
serobjecto da
sociedade, passaa
ser
do
indivíduo
eexpressa-se
no
seu papel de doente.A
saúde, objecto interior e propriedade privada doindivíduo, liga-se à sociedade na relação deste com o mundo. (Bule, 2002)
A
doenç4
por
definição, constitui uma
ameaçaao
quotidiano dos indivíduos, que quando provoca uma ruptura, comprometeo
equilíbrio
conseguidopelo
seu modode vida.
Neste sentido, Duarte
(2002)
consideraque
a
saúdede uma
comunidade depende ern grande parte do seu modo de vida.Auto-gestio tla saúde numa comunidade rural do concclho tle Torrss Vedras:
um olhar da Ent'ermagcm
Na verdade, a doença constitui uma ameaça à integridade pessoal que pertence à
esfbra
individual
e social do indivíduo e só pode ser compreendida com a intervenção de variáveis psicossociais que inÍIuenciam o significado pessoal e social da doença.Para
o
antropólogo francês
Marc Auge
(1984), 'oo grande
paradoxo
daexperiência
da
doençae
que ela
é
tanto
a
mais individual quanto
a
mais social
dascoisas", pelo que é
dificil
discernir se saúde e doença pertencem aodomínio
privado ouao público.
(Herzlich, 2004:384)
No
entanto,o
corpo pertenceao
domínio
privado
mas não podemosfalar
de corpo, saúde e doença sem relacioná-los com o domíniopúblico. Assim
sendo, a saúdee
doençasão
experiências pessoaise
privadas
socializadas,uma
vez
que revelam aspectos doindivíduo
em contextos biográficos marcados pela doença.Para
Frank
(1997),
a
doençaé uma
"ocasião
moral"
que
segundo Charmaz(1991)
cristaliza
"lições vitais
sobreo vivet''.
A
experiência pessoalnão
é mais uma"intemrpção
biográfica"
que leva a uma "perda do eu(self)"
e como tal,"ninguán
podenegaÍ que
a
doença,tal
como qualqueroutro
evento maÍcante emuma vida, é
«uma experiênciamoral»". (Herzlich,
2004: 389)Segundo Honoré
(2002:53)
existern ideias veiculadas na era contemporânea queilustram
o
enraizamento das concepçõesde
saúdena vida
pessoal,pelo
que "algunsdizem que
a
saúde decorre de umaarte
deviver.
A
ideia que temos de saúde depende dos acontecimentos vivídos e do que nos diza
evolução do corpo.Há
em cada um umacontinuidade entre a saúde e a não-saúde."
Acerca da causalidade da doença, Abdelmalek e Gerard (1995) apresentam dois modelos para explicar a doençq o modelo exógeno em que a causa vem do exterior e o modelo endógeno em que a causa vem do
interior
do indivíduo.Sob
o
ponto de vista
do
modelo
exógeno,
os
autoresconsideram
que
osprogressos tecnológicos
e
científicostêm a
função delutar
contra as causas extetrnas,mas
em
contrapartida,o
indivíduo
pode
ser
considerado submissoa
esseideal,
aomesmo
tempo que
desenvolveuma significativa
agressividadeem
relação
a
essadependência.