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A aquisição da competência tradutória ou diplomados x descolados: o que Donald Trump pode nos ensinar sobre tradução

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Academic year: 2021

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(1)Tradução e Comunicação Revista Brasileira de Tradutores Nº. 18, Ano 2009. A AQUISIÇÃO DA COMPETÊNCIA TRADUTÓRIA OU DIPLOMADOS X DESCOLADOS O que Donald Trump pode nos ensinar sobre tradução. Maria Clara Castellões de Oliveira Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF ma.clara@terra.com.br. RESUMO Este texto tece considerações acerca da aquisição da competência tradutória. Busca-se investigar a constituição dessa competência e a forma através da qual a mesma pode ser adquirida. Para tanto, ele se pauta em discussões encontradas no livro Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução, organizado por Ivone Benedetti e Adail Sobral (2003), e no artigo “A aquisição da competência tradutória: aspectos teóricos e didáticos” (2005), de Amparo Hurtado Albir, principal investigadora do grupo PACTE (Processo de Aquisição da Competência Tradutória e de Avaliação), sediado na Universidade Autônoma de Barcelona. Essas considerações são articuladas a questões suscitadas pela terceira temporada da série The Apprentice, programa da National Broadcasting Company (NBC), rede de televisão dos Estados Unidos da América e cujo produtor-executivo e apresentador é Donald Trump, um bem-sucedido homem de negócios. Nessa temporada, que foi apresentada nos EUA em 2005 e no Brasil em 2006, Trump dividiu os candidatos a seu aprendiz em dois grupos – o dos college grads (diplomados) e o dos street smarts (descolados) – com o propósito de contrapor o valor da educação formal ao da experiência adquirida na vida prática. Palavras-Chave: aquisição da competência tradutória; formação universitária; experiência prática.. ABSTRACT. UNIBERO Centro Universitário Ibero-Americano Contato rc.ipade@unianhanguera.edu.br. This text surveys issues related to the acquisition of translation competence. It investigates the constitution of this competence and the ways through which it can be acquired. In order to do so, it takes advantage of discussions developed in the context of the book Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução (Talk with translators: translation assessment and perspectives), organized by Ivone Benedetti and Adail Sobral (2003), and in the article “A aquisição da competência tradutória: aspectos teóricos e didáticos” (“Translation competence acquisition: theoretical and didactical aspects, 2005), by Amparo Hurtado Albir, main investigator of the PACTE (Process of Translation Competence Acquisition and of Evaluation) group, whose headquarters is in the Autonomous University of Barcelona. These discussions are intertwined to questions posed by the third season of the TV series The Apprentice, aired in the United States of America by the National Broadcasting Company (NBC) and whose executive producer and host is Donald Trump, a successful businessman. In this season, which was presented in the USA in 2005 and in Brazil in 2006, Trump divided the candidates to his apprentice into two groups – one of the college grads and the other of the street smarts – with the purpose of contrasting the worth of formal education to that of the experience acquired in practical life. Keywords: translation competence acquisition; university background; practical experience; The Apprentice.. Artigo Original Recebido em: 23/6/2009 Avaliado em: 30/7/2009 Publicação: 30 de setembro de 2009. 23.

(2) 24. A aquisição da competência tradutória ou diplomados x descolados: o que Donald Trump pode nos ensinar sobre tradução. Este texto, no qual discuto a aquisição da competência tradutória – como e onde ela pode ocorrer –, foi inspirado pela terceira temporada de The Apprentice, programa que é levado ao ar nos Estados Unidos da América pela National Broadcasting Company (NBC) e cujo produtor-executivo e apresentador é Donald Trump, um bem-sucedido homem de negócios. Cada uma das temporadas de The Apprentice tem por objetivo escolher um candidato que irá atuar em uma das empresas de Trump na condição de seu aprendiz. Há versões desse programa em dois países de língua inglesa e em dezessete países de língua estrangeira, inclusive no Brasil, onde ele é apresentado pelo publicitário Roberto Justus com o título de O Aprendiz. O programa original é transmitido pelo canal fechado People+Arts, enquanto a sua versão brasileira é atualmente transmitida pela Record. A temporada que serviu de inspiração para este trabalho foi ao ar em 2005 nos EUA, tendo sido apresentada no Brasil em 2006. Ela me interessou pelo fato de ter sido construída em torno de uma pergunta que tem percorrido vários fóruns de discussões sobre a tradução, uma profissão que, para ser exercida, não exige a apresentação de um diploma. Essa pergunta é a seguinte: O que vale mais – a educação formal, adquirida nos bancos da academia, ou a experiência adquirida fora dos muros da academia? Como os primeiros cursos de graduação na área de tradução no Brasil só surgiram na década de 60 do século XX, a profissão de tradutor/tradutora foi exercida informalmente, às vezes como uma tarefa ocasional, por diversos tipos de profissionais. Deve-se lembrar a intensa atuação, a partir da década de 30 do século XX, de vários escritores como tradutores. Uma das pesquisas realizadas no âmbito do projeto que desenvolvo na Universidade Federal de Juiz de Fora, intitulado “Traduções literárias: jogos de poder entre culturas assimétricas”, apontou para o fato de que, na década de 1940, Rachel de Queiroz sobreviveu fundamentalmente como tradutora: das 45 obras traduzidas ao longo de sua vida, 31, ou seja, cerca de 69%, o foram entre 1940 e 1949. Nesse período, ela publicou de sua própria autoria apenas uma coletânea de crônicas e participou de uma obra em conjunto (OLIVEIRA, 2007). Vários foram os escritores que, como ela, dedicaram-se a essa tarefa nessa década e a partir dela, estando entre eles Monteiro Lobato, Érico Verissimo, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Orígenes Lessa, João Cabral de Melo Neto e Rubem Braga. Ainda hoje, a despeito da proliferação dos cursos de graduação e de pósgraduação lato sensu na área de tradução, profissionais provenientes dos mais diversos campos de formação vêm se dedicando à tarefa tradutória, e a grande maioria acredita que a experiência que adquiriram no exercício da profissão supre a falta de uma educação formal. Um exemplo desse tipo de pensamento foi manifestado por Fuad Azzam, Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 23-30.

(3) Maria Clara Castellões de Oliveira. 25. proprietário da Intercom Traduções Técnicas, empresa especializada em traduções para engenharia e medicina, em “Globalização amplia mercado de trabalho para tradutor e intérprete”, matéria publicada no jornal Folhaonline, em 18/04/2002 (SILVA, 2002). Disse Azzam: “Prefiro contratar um médico e formá-lo como tradutor a contratar um tradutor e formá-lo como tradutor de medicina”. Em sua empresa, segundo ele, “há médicos e engenheiros, mas ninguém formado em tradução”. O segundo título que atribuí a este trabalho justifica-se em função não apenas do que disse anteriormente, como também em função da tradução dos epítetos das duas equipes que se envolveram na disputa pelo cargo de aprendiz de Trump na terceira temporada de seu programa. Essas equipes se intitularam Magna e Net Worth. A Magna era composta pelos que se valeram da teoria na aquisição de seus conhecimentos profissionais, pelos que tinham formação superior, os college grads, que ficaram conhecidos na versão brasileira como os “diplomados”. Por sua vez, a Net Worth era composta por aqueles que se valeram da prática para construírem a sua abordagem profissional, que possuíam apenas diploma do ensino médio, os street smarts, que foram identificados na versão brasileira como os “descolados”. Cada equipe era composta por nove membros. Enquanto na dos diplomados havia cinco homens e quatro mulheres, na dos descolados havia quatro homens e cinco mulheres. A pressuposição inicial de Trump com relação à distinção entre os dois grupos era a de que “Ninguém é melhor do que ninguém”.1 Uma posição relativamente próxima à de Trump foi expressa por Amparo Hurtado Albir no artigo “A aquisição da competência tradutória: aspectos teóricos e didáticos” (2005). Com o objetivo de abordar a tensão entre o conhecimento que se adquire no contexto do ensino e fora dele, ela afirmou que “autores como Pozo (1996) apontam que os processos de aprendizagem estão ativos o tempo todo no ser humano, desde o nascimento, sem necessidade de uma intervenção social programada como é o ensino” (2005, p. 21). No entanto, ela acrescentou, entre parênteses, a seguinte observação: “em geral, grande parte da aprendizagem se produz através do ensino” (2005, p. 21). Os primeiros movimentos da terceira temporada de The Apprentice, composta de dezesseis episódios, foram bastante interessantes quando se pensa que o seu mote foi a procura de uma resposta à indagação sobre o peso da formação acadêmica e o daquela adquirida na vida prática. Até o sétimo episódio, as duas equipes – de diplomados e de descolados – permaneceram íntegras, no sentido de que não houve remanejamento de. 1 Essa e as demais citações de Donald Trump foram extraídas de: NATIONAL BROADCASTING COMPANY. The Apprentice. Disponível em: <http://www.nbc.com/nbc/The_Apprentice_3>. Acesso em: 18 mar. 2007.. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 23-30.

(4) 26. A aquisição da competência tradutória ou diplomados x descolados: o que Donald Trump pode nos ensinar sobre tradução. membros de uma equipe para a outra. Após o sétimo episódio, quatro candidatos de cada equipe haviam sido eliminados, uma delas, Verna, dos diplomados, no terceiro episódio, pediu o seu próprio desligamento. Diante desse quadro de empate, Trump, abordando a questão do embate entre a presença e a ausência de formação acadêmica por parte dos candidatos ao cargo de seu aprendiz, afirmou o seguinte: “Sou um grande defensor da educação, mas talvez eu tenha que começar a reavaliar minha posição”. A partir do oitavo episódio, as equipes se misturaram, ficando assim constituídas: diplomados, com três diplomados e 2 descolados; e descolados, com três descolados e 2 diplomados. Do oitavo ao décimo-terceiro episódio, a tendência de eliminação alternada de um diplomado e de um descolado se manteve. Assim, foram eliminados, sucessivamente, um descolado (oitavo episódio) e uma diplomada (nono episódio); uma diplomada (décimo episódio) e uma descolada (décimo-primeiro episódio); um descolado (décimo-segundo episódio) e um diplomado (décimo-terceiro episódio). No décimo-quarto episódio, foi eliminado um diplomado, o que levou a um desequilíbrio no décimo-quinto episódio a favor dos descolados, que, nesse momento, eram dois (Tana e Craig), contra uma diplomada (Kendra). Nesse penúltimo episódio, o equilíbrio voltou a ocorrer, uma vez que o descolado Craig foi eliminado. Restaram, portanto, para o episódio final, um representante da equipe dos diplomados e um da equipe dos descolados – duas mulheres: Kendra e Tana. Trump reconheceu ser “o tipo de educação formal [...] a principal diferença entre as duas candidatas” que chegaram à final. Elas, por sua vez, indagadas por Trump a respeito de seus pontos fortes, se manifestaram, apontando também lacunas na formação de sua oponente. Enquanto Kendra, a diplomada, disse ser “importante terminar o que se começou”, destacando o fato de ter concluído a universidade, o que não se deu com a sua concorrente, Tana, a descolada, valorizou a experiência adquirida na rua, com a mão na massa, dizendo que sua formação foi obtida “no mundo real, enquanto criava negócios de sucesso”. O meu propósito, a partir de agora e antes de revelar a vencedora do desafio proposto por Trump, é apresentar alguns pressupostos teóricos que apontam para a importância da educação formal na aquisição da competência tradutória e que, por esse motivo, abalam a noção de que basta saber falar uma língua estrangeira ou ter uma boa redação em língua materna para se tornar um tradutor/uma tradutora competente. Os estudos de Hurtado Albir – e isso é consenso na área – apontam para o fato de que a competência tradutória é uma especialização da competência comunicativa. Em sua. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 23-30.

(5) Maria Clara Castellões de Oliveira. 27. opinião, a aquisição de um conhecimento especializado e, obviamente, de competência tradutória, é: [...] um processo de automatização gradual, no qual se passa do reconhecimento atomístico ao holístico, do consciente ao inconsciente, das decisões analíticas às intuitivas, da reflexão calculadora a reflexão crítica, do nível de objetividade ao nível das implicações (HURTADO ALBIR, 2005, p. 22).. Para referendar essa opinião, Hurtado Albir citou Shreve, para quem o desenvolvimento da competência tradutória seria um continuum entre a tradução natural (uma habilidade inata de caráter universal que qualquer falante bilíngue possui) e a tradução construída (a tradução profissional) (HURTADO ALBIR, 2005, p. 25). Segundo a estudiosa, a competência tradutória é composta de cinco subcompetências, quais sejam: a bilíngue, a extralinguística, a de conhecimentos sobre a tradução, a instrumental e a estratégica. A subcompetência bilíngue – apenas uma das subcompetências. que. compõem. a. competência. tradutória. – é. integrada. por. conhecimentos essencialmente operacionais, necessários para a comunicação em duas línguas: conhecimentos pragmáticos, sociolinguísticos, textuais e léxico-gramaticais. A subcompetência extralinguística, por sua vez, é composta por conhecimentos essencialmente declarativos sobre o mundo e em geral e de âmbito particulares; conhecimentos (bi)culturais e enciclopédicos. Ela envolve a experiência de mundo, que se adquire através da vivência em culturas diferentes, que caracteriza a experiência direta, ou através do estudo sobre essas culturas, que implica na experiência relatada. A subcompetência de conhecimentos sobre a tradução também é integrada por conhecimentos declarativos, que envolvem, obviamente, os aspectos teóricos e profissionais da tradução. A subcompetência instrumental, por seu turno, consiste em conhecimentos operacionais relativos ao uso das fontes de documentação e das tecnologias de informática e comunicação aplicadas à tradução. Já a subcompetência estratégica é integrada por conhecimentos operacionais que garantem a eficácia do processo tradutório. Ela controla o processo de tradução, servindo para planejar o processo e elaborar o projeto tradutório; avaliar o processo e os resultados parciais obtidos em função do objetivo final; ativar as demais subcompetências e compensar deficiências entre elas; identificar problemas de tradução e aplicar os procedimentos para a sua resolução. Segundo Hurtado Albir, a competência tradutória é também constituída por componentes psicofisiológicos, tais como memória, percepção, atenção e emoção; aspectos de atitude (curiosidade intelectual, perseverança, rigor, espírito crítico, conhecimento e confiança em suas próprias capacidades, conhecimento do limite das próprias possibilidades, motivação); habilidades (criatividade, raciocínio lógico, análise e síntese etc.). Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 23-30.

(6) 28. A aquisição da competência tradutória ou diplomados x descolados: o que Donald Trump pode nos ensinar sobre tradução. Os componentes psicofisológicos aos quais Hurtado Albir se refere, na verdade, são pré-requisitos para o sucesso em qualquer tipo de atuação do indivíduo profissionalmente falando. Trump, na terceira temporada de The Apprentice, mencionou alguns deles aos participantes do programa. Segundo ele, além da substância, que está ligada às demais subcompetências abordadas, são qualidades de um profissional de sucesso a criatividade, a persistência, a liderança e a capacidade de trabalho. De Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução, livro organizado por Ivone Benedetti e Adail Sobral (2003), selecionei extratos de depoimentos de diversos profissionais da tradução reconhecidamente competentes sobre o tipo de conhecimento e de formação que um tradutor deve possuir. Regina Alfarano, também professora de tradução e profissional atuante na defesa dos direitos do tradutor, disse a esse respeito que: A tradução, muito mais que a maioria das profissões, […] exige um alicerce bastante sólido e eclético. Esse alicerce se baseia na língua materna, na(s) língua(s) estrangeira(s), e na complexa gama de componentes dos dois universos. Perpassa áreas comuns do conhecimento e traça caminhos específicos com muitas interfaces. Mas exige, acima de tudo, empenho e persistência, observância à disciplina, preciosismo na comunicação, acuidade em relação aos detalhes, olhar alerta e observador, sempre! (ALFARANO, 2003, p. 36, grifo nosso). Ainda segundo ela, [...] a atividade tradutória exige disciplina na pesquisa, no cumprimento de prazos, na revisão de textos, na elaboração de glossários […]. Em todos esses momentos, o preciosismo na comunicação nunca é demais! A atividade tradutória pressupõe atualização constante [...]. A persistência é fundamental ... (ALFARANO, 2003, p. 36, grifo nosso).. Por sua vez, Heloísa Barbosa, também tradutora, professora de tradução e membro de associações que congregam a classe dos tradutores, chamou a atenção para um dos aspectos psicofisiológicos mencionados por Hurtado Albir, qual seja, a curiosidade. Em suas palavras, “o tradutor deve ser uma pessoa curiosa, que gosta de aprender” (BARBOSA, 2003, p. 59, grifo nosso). Ao longo de seu programa, Trump é costumeiramente auxiliado por dois executivos de suas empresas, que, entre outras coisas, fornecem conselhos aos participantes. George Ross, vice-presidente e conselheiro sênior da Trump Organization, foi um participante ativo das primeiras temporadas de The Apprentice. Abaixo encontramse alguns dos conselhos que ele e Trump forneceram aos participantes da terceira temporada do programa2: Tenham prazer no que fazem. Isso é muito importante (TRUMP). Se vocês não estiverem felizes com o que estão fazendo – desistam. Se o trabalho for um fardo, não o façam (ROSS).. As citações de George Ross foram extraídas de: NATIONAL BROADCASTING COMPANY. The Apprentice. Disponível em: <http://www.nbc.com/nbc/The_Apprentice_3>. Acesso em: 18 mar. 2007.. 2. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 23-30.

(7) Maria Clara Castellões de Oliveira. 29. É necessário aprender a ter uma vida fora do trabalho. […] O trabalho fornece o dinheiro para que a vida seja vivida com prazer (ROSS). Nos negócios, as regras devem ser seguidas (TRUMP).. Esses conselhos, um pouco na linha dos livros de auto-ajuda, que contribuem para a subsistência de muitos tradutores mundo afora, apontam para o fato de que o comportamento ético e coerente é fundamental em toda a ação que desempenhamos, pessoal e profissionalmente. Devemos seguir as regras, como disse Trump. No entanto, como também dito por Trump e Ross, há de se extrair prazer do que fazemos, caso contrário o trabalho torna-se um fardo. Claudia Berliner, em seu depoimento para Conversa com tradutores, fez coro a essas observações, ao dizer que, antes de mais nada “deve haver um forte desejo, quase uma necessidade de fazer aquilo e não outra coisa” (BERLINER, 2003, p. 75). O poeta, escritor, tradutor e professor Paulo Henriques Britto também falou sobre a necessidade de se apaixonar pelo ofício, dizendo que “basicamente, o que é necessário para ser tradutor é uma certa paixão pelo trato da palavra, o gosto pela escrita, o gosto pela leitura, e uma certa curiosidade intelectual generalizada” (BRITTO, 2003, p. 91, grifo nosso). Isso posto e a fim de eliminar o suspense, esclareço que Kendra, a diplomada de 26 anos, venceu a terceira temporada de The Apprentice, colocando por terra o sonho de Tana, a descolada de 37 anos. Antes de divulgar o nome de sua nova aprendiz, no entanto, Donald Trump reconheceu ter sido aquela uma competição acirrada: enquanto a candidata eliminada havia se destacado por suas “ideias brilhantes e toneladas de entusiasmo verdadeiro”, a vencedora permanecera “fora do alcance do radar por um tempo longo demais”. A vitória de Kendra, diplomada, de 26 anos, sobre Tana, descolada, de 37 anos, aponta para duas conclusões importantes. A primeira diz respeito ao fato de que, qualquer que seja a atividade exercida profissionalmente por um indivíduo, ela necessita ser realizada a partir de uma reflexão teórica sólida e consequente, que pode ser construída ou não nos bancos escolares. Nesse sentido, observações de Heloisa Barbosa, extraídas de Conversa com tradutores, referendam a minha percepção. Segundo ela, [...] embora muitos tradutores profissionais tenham alguma desconfiança da teoria, é ela que me dá segurança […]. É claro que colhi meus dados na prática da profissão. Mas venho acompanhando a teoria há quase trinta anos e nela confirmando e respaldando a minha prática (BARBOSA, 2003, p. 59).. Ainda nas palavras de Barbosa, [...] a teoria é importante na formação do tradutor, porque lhe confere um poder de reflexão sobre sua vida profissional. Dá-lhe segurança nas tomadas de decisão e nos posicionamentos profissionais que toma. Ao mesmo tempo, a teoria ajuda o tradutor a encontrar seu lugar no mundo, na história (BARBOSA, 2003, p. 59).. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 23-30.

(8) 30. A aquisição da competência tradutória ou diplomados x descolados: o que Donald Trump pode nos ensinar sobre tradução. A segunda conclusão à qual me referi está vinculada à percepção de que a aquisição de uma habilidade profissional no ambiente universitário, salvo algumas exceções, se dá em menos tempo e de forma mais consistente. Nesse sentido, as palavras da tradutora Vera Pereira, também extraídas de Conversa com tradutores, ratificam essa segunda conclusão e servem de fecho para o meu texto: Como autodidata em tradução, sinto falta de conhecimentos teóricos, de informações mais apuradas de linguística […], e tenho dificuldades que suponho serem menores para quem passou anos estudando e treinando especificamente para o exercício dessa função. Se eu soubesse quando comecei que, um dia, a tradução ia ser um ofício para mim, teria feito um curso de letras. (PEREIRA, 2003, p. 151).. REFERÊNCIAS ALFARANO, Regina. Entrevista. In: BENEDETTI, Ivone C.; SOBRAL, Adail. (Org.). Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, p. 34-43. BARBOSA, Heloísa. Entrevista. In: BENEDETTI, Ivone C.; SOBRAL, Adail. (Org.). Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, p. 56-70. BERLINER, Claúdia. Entrevista. In: BENEDETTI, Ivone C.; SOBRAL, Adail. (Org.). Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, p. 72-78. BRITTO, Paulo Henriques. Entrevista. In: BENEDETTI, Ivone C.; SOBRAL, Adail. (Org.). Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, p. 90-98. HURTADO ALBIR, Amparo. A aquisição da competência tradutória: aspectos teóricos e didáticos. Trad. Fábio Alves. In: PAGANO, A. et al. (Org.). Competência em tradução: cognição e discurso. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. p. 19-57. NATIONAL BROADCASTING COMPANY. The Apprentice. Disponível em: <http://www.nbc.com/nbc/The_Apprentice_3>. Acesso em: 18 mar. 2007. OLIVEIRA, Priscilla Pellegrino de. As traduções de Rachel de Queiroz na década de 40 do século XX. 2007, 93 p. Monografia (Bacharelado em Letras – Ênfase em Tradução: Inglês) – Universidade Federal de Juiz de Fora (Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Faculdade de Letras), Juiz de Fora. PEREIRA, Vera. Entrevista. In: BENEDETTI, Ivone C.; SOBRAL, Adail. (Org.). Conversa com tradutores: balanço e perspectivas da tradução. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, p. 140-157. SILVA, Fábio Porto. Globalização amplia mercado de trabalho para tradutor e intérprete. FolhaOnline. São Paulo, 18 abr. 2002. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u8890.shtml>. Acesso em: 20 out. 2007. THE APPRENTICE 3. Direção: Glenn Weiss. Produção: Mark Burnett, Donald Trump. Los Angeles: Trump Productions LCC, Mark Burnett Productions. Distribuição: National Broadcasting Corporation. Canal de exibição do original: People and Arts. Período de exibição do original: janeiro a maio de 2005. 17 episódios. Maria Clara Castellões de Oliveira Doutora em Letras: Estudos Literários pela UFMG. Professora do Bacharelado em Letras: Ênfase em Tradução – Inglês. Professora da Licenciatura em Língua Inglesa. Professora do Programa de PósGraduação em Letras: Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora.. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 23-30.

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