• Nenhum resultado encontrado

Desenvolvimento Includente, Sustentavel, Sustentado

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Desenvolvimento Includente, Sustentavel, Sustentado"

Copied!
305
0
0

Texto

(1)

Sachs

Sachs

Desenvolvimento

inciu

dent e,

sust ent ável

(2)
(3)

debate sobre o desenvolvimento vem sendo travado há algumas décadas, mas rece ntem ente se intensificou, muit as vezes de maneira estimulante, com as drásticas mudanças políticas que o mundo tem sofrido, o forte acirramento das tensões sociais e a incessante degradação do meio ambi ente . Nesse contex to delicado, surge a proposta de um Desenvolvimento

Sustentável como alternativa desejável - e possível - para promover a inclusão social,

o bem-estar econômico e a preservação dos recursos natu rais .

Essa tese, articulada pelo professor lgnaçy Sachs, da École des Hautes Études en Sciences Sociales, conquista cada vez mais apoio em todo o planeta. 0 professor Sachs, um profundo conhecedor dos problemas dos países do assim chamado

Terceiro Mundo, e particularmente do Brasil, fundou na França o Centro de Estudos sobre o Brasil Contemporâneo e o

Centro Internacional de Pesquisas sobre lVleio Ambiente e Desenvolvimento, para

aprofundar e desdobrar essa problemática. Neste livro, ela é abordada, como sempre de maneira fecunda e criativa, com enfoques centrados nas questões do trabalho, da inclusão social, das políticas

(4)
(5)

ética, como eixo de um pensamento que

alia o rigor científico a um humanismo

veemente. Como diz Celso Furtado, "a

leitura destes ensaios de Ignacy Sachs,

grande e lúcido conhecedor da

proble-mática do desenvolvimento e, mais

especificamente, dos impasses que

enfrenta o Brasil no momento atual, nos

encoraja a trazer essas questões para

primeiro plano."

Esta obra é publicada em co-edição

pela editora Garamond e o Sebrae, no

contexto do Projeto Parcerias com

Editoras, com o qual o Sebrae busca

incentivar o setor editorial brasileiro

-constituído majoritariamente por

peque-nas e micro empresas - e simultaneamente

direcionar suas publicações, em geral de

conteúdo técnico, para todo o segmento

dos pe qu en os negócios. O Projeto també m

visa a estimular o aparecimento de novos

autores, especialistas em assuntos de

interesse dos empreendedores e das micro

e pe qu en as empr esas, con firm and o assim a

vocação do Sebrae e seu compromisso com

um projeto de desenvolvimento para o

Brasil que seja includente, sustentável e

(6)
(7)

Ignacy Sachs

Desenvolvimento

ineludente,

sustentável,

(8)
(9)

Copyright © 2004, Ignacy Sachs

Direitos cedidos para esta edição à

Editora Garamond Ltda. Editora Garamond Ltda.

Caixa Postal: 16.230 Cep: 22.222-970 Rio de Ja ne ir o - Brasil Telefax: (21) 2504-9211 e-mail: [email protected] Revisão Cláudia Rubim Editoração Eletrônica Luiz Oliveira Capa Estúdio Garamond

sobre "Quadrados com círculos concêntricos", óleo sobre tela de Wladimir Kandinsky

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÂO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

S126d

Sachs, Ignacy,

1927-Desenvol vimento : inelu dente , sustent ável, sustent ado / Ignacy Sach s. - Rio de Janei ro : Gar amo nd, 200 8

14x2; 1152p. ISBN 85-7617-04-X

1. Desenvolvimento econômico - América Latina. 2. Desen-volvimento social - América Latina. 3. DesenDesen-volvimento sus-tentável - América Latina. 4. Brasil - Política e governo. 5. Desenvolvimento econômico - Brasil. I. Título.

04- 256 0. C D D 338.98

(10)
(11)

Sumário

Sumário

PREFÁCIO - Celso Furtado

7

Desenvolvimento e ética - para onde ir na Améric a Latina?

9

Desenvolvimento includente e trabalho decente para todos

25

Da armadilha da pobreza ao desenvolvimento includente em países menos desenvolvidos

69

Inclusão social pelo trabalho decente: oportunidades, obstáculos, políticas públicas

(12)
(13)

PREFÁCIO PREFÁCIO

A difícil leitura da realidade

A difícil leitura da realidade

Celso Furtado

Em um futuro que, imagino, não será muito remoto, parecerá simples devane io de intelectual ocio so a refe rênc ia ao que está

ocor-rendo na América Latina, neste final de era marcado pelo

funda-mentalismo mercantil. Ningu ém, em sã consciência, acreditará que um país rico como a Argentina, dotado de uma classe política tão sofisticada, haja sido conduzido, em 2003, a uma situação de tama-nha ingovernabilidade e de liquidação de seus ativos.

E também causará espanto o que está ocorrendo em outros países do continente. Com efeito, como explicar que uma economia com a vitalidade da brasileira, que, nos primeiros três quartos do século XX, beneficiou-se de um ritmo de crescimento superado apenas pelo do

Japão, tenha se conformado com uma taxa de decrescimento

(cresci-mento negativo, para usar o eufemismo da moda) no correr deste último decênio? Trata-se de satisfazer a exigências dos que arbitram as taxas de juros escorchantes que estão absorvendo mais que a tota-lidade da poupança nacional, conforme nos explicam consultores credenciados. E não se admite que as vítimas do sobre- endivi damento apelem para métodos clássicos de autodefesa.

Estas são questões que a coletividade tem não somente o direito, mas o dever de formular. A leitura destes ensaios de Ignacy Sachs,

(14)
(15)

grande e lúcido conhecedor da problemática do desenvolvimento e, mais especificamente, dos impasses que enfrenta o Brasil no mo-mento atual, no s encora ja a trazê-las para o primeiro plano. A leitura deste livro muito nos ajudará a evitar a reprodução da fábula platô-nica, em que os prisioneiros confundiram a realidade com as ima-gens projetadas na caverna.

(16)
(17)

Desenvolvimento e ética - para

Desenvolvimento e ética - para

onde ir na América Latina?

onde ir na América Latina?

Estratégias de desenvolvimento

Estratégias de desenvolvimento

nacional na era da globalização

nacional na era da globalização

11

"Você poderia me dizer, por favor, por qual caminho devo seguir agora?", perguntou ela. "Isso depende muito de aonde você quer ir", respondeu o gato.

Lewis Carroll,Alice'sAdventures in Wonderland.

A - Algumas lições da tragédia desenvolvimentista

A - Algumas lições da tragédia desenvolvimentista

da Argentina

da Argentina

De acordo com Marshall Berman, a segunda parte de Fausto, de Goethe, configura uma tragédia desenvolvimentista. Na Argentina

de hoje, somos espectadores de uma tragédia desenvolvimentista da vida real, e não de uma tragédia literária.

Alguns chegam a atribuir ao FMI o papel de Mefístófeles. Uma avaliação mais realista é a de que o FMI não conspirou para

desenca-1 Paper apresentado no Encontro do BID sobre Ética e Desenvolvimento (Buenos Aires, 5 e 6 de setembro de 2002). Versão final de 6 de novembro de 2002. Traduzido do srcinal em inglês, intitulado Development and Ethics. Whither Latin America? National Development Strategies in the

(18)
(19)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

dear o desastre. Ele apenas recomendou (ou aplicou, diria alguém) uma receita terrivelmente equivocada de políticas, inspirada por uma visão idealizada de uma globalização simétri ca e mutua mente b enéfi ca e pelo fundamentalismo de mercado - "má economia e má política", para empregar as palavras de Joe Stiglitz (Stiglitz, 2002a e 2002b).

1- A primeira lição da crise desenvolvimentista da Argentina si-naliza a falácia do pretenso fim da história e da ideologia. Tanto a teoria, com base no estudo histórico comparativo de experiências nacionais, quanto a ideologia, baseada em compromissos éticos, continuam a ser importantes. Devemos repensar a teoria do desen-volvimento e as políticas receitadas que derivam dela à luz do que aconteceu na Argentina - o caso mais extremo de "pobr eza na abun-dância" (Keynes, 2000) e de "desdesenvolvimento" (ou de

involução, para usar um termo de Clif for d Geertz) em circunstân-cias não bélicas, uma tragédia que resultou de uma mistura letal de dependência excessiva de recursos externos, de confiança cega no Consenso de Washington e de má governança.

O colapso da Argentina significa o fim do Consenso de Washington e da versão neoliberal do fundamentalismo de merca-do, tanto quanto o colapso do "soci alism o real", na Europ a Oriental, significou o fim do estatismo e da economi a de coman do. Estes dois paradigmas extremos e diametralmente opostos, agora descar-tados, delimitam o campo de arranjos institucionais intermediários, as economias mistas (Kale cki, 1993; Rodr ik, 2000; Sachs , 1998;

1999; 2000; Tsuru, 1994; Wade, 1990) ao qual pertence o futuro. Os mercados são uma instituição entre muitas; a governança democrática oferece o único esquema adequado à sua regulação (Sen, 2000). Como diz Pradab Bardhan, "cada mecanismo de coor-denaçã o da sociedade - o Estado , o mercado, a comu nida de - tem as suas próprias falhas, mas cada um tem algumas vantagens úni-cas que podemos tentar combinar a fim de coordenar a correção

(20)
(21)

IGNACY SACHS

2- Para que isso ocorra, é preciso haver um Estado enxuto, po, ativo, planejador e capaz de descortinar o futuro. Como José

Serra nos lembrou recentemente, a cidadania global continua a ser, por enquanto, uma utopia. O Estado nacional tem três funções

prin-cipais:

a-A articulação de espaços de desenvolvimento, desde o nível local (que deve ser ampliado e fortalecido) ao transnacional (que de ve ser objeto de uma política cautelosa de integração seletiva, bordinada a uma estratégia de desenvolvimento endógeno); b-A promoção de parcerias entre todos os atores interessados, em

torno de um acordo negociado de desenvolvimento sustentável; c-A harmonização de metas sociais, ambientais e econômicas, por

meio do planejamento estratégico e do gerenciamento cotidia-no da ecocotidia-nomia e da sociedade, buscando um equilíbrio entre diferentes sustentabilidades (soci al, cultur al, ecol ógic a, ambiental, territorial, econômica e política) e as cinco eficiên-cias (de alo caç ão, de ino vaç ão, a ke yne si ana , a socia l e a ecoeficiência).

3- Em muitos países, como a Argentina, a sustentabilidade social é ainda mais frágil e sujeita à disrapção do que a sustentabilidade ambiental. Disto resulta a necessidade de construir a estratég ia endógena de desenvolvimento com base na questão central do trabalho decente para todos (OIT 2001, 2002a e 2002b), por meio do emprego ou do

auto-emprego na produção de meios de subsistência. Sem negar a importância da promoção de exportações, é preciso lembrar que nove entre cada dez pessoas em todo o mundo trabalham para o mercado interno (Ferrer, 2002). Portanto, as potencialidades do mercado in-terno devem ser aproveitadas como o primeiro passo para revigorar as economias em crise. Há três motivos para isso.

a-A falta de oportunidades adequadas para que os países periféricos ampliem as suas exportações na atual ordem internacional

(22)
(23)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

(CEPAL 2002; Oxfam 2002; Ricupero, 2002; UNCTAD 2002); "desenvolvimento a partir de dentro" (Sunkel, 1992) continua a ser a única opção viável para a Argentina e para toda a América Latina (ver também Ferrer, 2002);

b-O mercado interno pode ser ampliado por meio da promoção da agenda inacabada de transformação rural (reformas agrárias) e do combate à heterogeneidade extrema das economias periféricas, agenda esta que consta nos escritos de Aníbal Pinto. Essas eco-nomias podem ser descritas como um arquipélago de empreendi-mentos altamente produtivos situados num oceano de atividades de baixa produtividade - o tecido conjuntivo do sistema econômi-co. Uma grande parte do PIB é produzida nesse arquipélago e as pessoas dão braçadas para sobreviver no oceano em volta.

Resul-tados rápidos podem ser obtidos por uma estratégia centrada nas pessoas e no emprego, com a finalidade dupla de aumentar o

nú-mero dos empregos de baixa produtividade e simultaneamente melhorar a produtividade destes empregos. Como o seu conteúdo de importaçõe s tende a ser muit o baixo, a sua pro moçã o não exige moeda estrangeira, nem financiamento externo. O limite para o crescimento induzido pelo emprego, que não seja inflacionário e que exija poucas importaçõ es, é dado pela elasticidade da of erta de bens de salário produzidos internamente (Kalecki, op.cit.); c-Um mercado interno em expansão fortalece a competitividade

sistêmica da economia nacional.

4- Desde que cada crise constitui uma oportunidade, a Argentina, tão bem dotada de recursos humanos e naturais, tem o potencial necessário para dar início hic et nunc a uma ope ração de ajuste info r-mada pelo conceito de desenvolvimento sustentável, baseada nos cinco pilares da endogeneidade (oposta ao crescimento mimético):

autoconfiança (oposta à dependência), orientação por necessidades (em oposição à orientação pelo mercado), harmonia com a natureza e

(24)
(25)

IGNACY SACHS

Daí a importância dos notáveis estudos, diagnósticos e propos-tas formulados pelos acadêmicos que preparam o Plan Fénix (ver em particular os números especiais de Enoikos, 20 01 , e de

Encrucijadas UBA, 2001).

B - De Aristóteles ao desenvolvimento sustentável

B - De Aristóteles ao desenvolvimento sustentável

1- Nos seus textos Ethics and Economics, Amar tya Sen (1990) nos lembrou que a economia e a ética estavam interligadas, desde Aristóteles, por duas questões centrais de fundo:

• o problema da motivação humana (como deveríamos viver?); • a avaliação das conquistas sociais.

No entanto, a outra origem da economia - as questões logísticas, que Sen chama de "abordagem de engenharia" - se tornou prepon-derante, hoje, a ponto de fazer a ética ser praticamente esquecida. Daí vem a insistência de Sen na reaproximação entre a economia e a ética, sem esquecer da política.

O desenvolvimento, distinto do crescimento econômico, pre esse requisito, na medida em que os objetivos do

desenvolvi-mento vão bem além da mera multiplicação da riqueza material. O crescimento é uma condição necessária, mas de forma alguma suficiente (muito menos é um objetivo em si mesmo), para se alcançar a meta de uma vida melhor, mais feliz e mais completa para todos.

No contexto histórico em que surgiu, a idéia de desenvolvimento impli ca a expiaç ão e a repar ação de desigu aldade s passadas, criando uma conexão capaz de preencher o abismo civilizatório entre as antigas nações metrop olit anas e a sua antiga perif eria colonial, entre as minorias ricas modernizadas e a maioria ainda atrasada e exausta dos trabalhadores pobres. O desenvolvimento traz consigo a pro-messa de tudo - a modernidade inclusiva propiciada pela mudança estrutural.

(26)
(27)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

2- Outra maneira de encarar o desenvolvimento consiste em reconceituá-lo em termos da apropriação efetiva das três gerações de direitos humanos:

• direitos políticos, civis e cívicos;

• direi tos eco nôm ico s, s ociai s e cultur ais, entre eles o direi to ao trabalho digno, criticamente importante, por motivos intrínse-cos e instrumentais;

• direitos coletivos ao mei o ambient e e ao dese nvol vime nto (Sen, 1999; Sengupta, 2001 e 2002).

Igualdade, eqüidade e solidariedade estão, por assim dizer, butidas no conceito de desenvolvimento, com conseqüências de

longo alcance para que o pensamento econômico sobre o desenvol-vimento se diferencie do economicismo redutor.

Em vez de maximizar o crescimento do PIB, o objetivo maior se torna promover a igualdade e maximizar a vantagem daqueles que vivem nas piores condições, de forma a reduzir a pobreza, fenôme-no vergonhoso, porquanto desnecessário, fenôme-no fenôme-nosso mundo de abun-dância.

a-O crescimento, mesmo que acelerado, não é sinônimo de desen-volvimento se ele não amplia o emprego, se não reduz a pobreza e se não atenua as desigualdades, conforme enfatizado, desde os anos 1960, por M. Kalecki e Dudley Seers. De acordo com o mesmo raciocínio, não é suficiente promover a eficiência alocativa. O desenvolvimento exige, conforme mencionado, um equilíbrio de sintonia fina entre cinco diferentes dimensões. Ele também exige que se evite a armadilha da competitividade espú-ria e, em última instância, autodestrutiva, com base na deprecia-ção da força de trabalho e dos recursos naturais.

b-A eqüidade, traduzida em termos operacionais, significa o trata-mento desigual dispensado aos desiguais, de forma que as re-gras do jogo favoreçam os participantes mais fracos e incluam

(28)
(29)

IGNACY SACHS

ações afirmativas que os apoiem. Este princípio se aplica tanto à ordem econômica internacional (conforme colocado por Myrdal, em 1956) quanto às economias nacionais. O recente relatório SEB RAE -PN UD sobre o fut uro dos pequenos produtores no Brasil (Sachs, 2002) desenvolve detalhadamente esse ponto.

3- O conceito de desenvolvimento sustentável acrescenta uma outra dimensão - a sustentabilidade ambiental - à dimensão da sustentabilidade social.

Ela é baseada no duplo imperativo ético de solidariedade sincrônica com a geração atual e de solidariedade diacrônica com as gerações futuras. Ela nos compele a trabalhar com escalas múltiplas de tempo e espaço, o que desarruma a caixa de ferra-mentas do economista convencional. Ela nos impele ainda a bus-car soluções triplamente vencedoras, eliminando o crescimento selvagem obtido ao custo de elevadas externalidades negativas, tanto sociais quanto ambientais. Outras estratégias, de curto pra-zo, levam ao crescimento ambientalmente destrutivo, mas social-mente benéfico, ou ao crescimento ambientalsocial-mente benéfico, mas socialmente destrutivo. Os cinco pilares do desenvolvimento sus-tentável são:

a-Social, fundamental por motivos tanto intrínsecos quanto instru-mentais, por causa da perspectiva de disrupção social que paira de forma ameaçadora sobre muitos lugares problemáticos do nosso planeta;

b-Ambiental, com as suas duas dimensões (os sistemas de susten-tação da vida como provedores de recursos e como "recipien-tes" para a disposição de resíduos);

c-Territorial, relacionado à distribuição espacial dos recursos, das populações e das atividades;

d-Econômico, sendo a viabilidade econômica a condido sine qua non para que as coisas aconteçam;

(30)
(31)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

e-Político, a governança democrática é um valor fundador e um instrumento necessário para fazer as coisas acontecerem; a berdade faz toda a diferença.2

4- Para se progredir simultaneamente nessas cinco dimensões, muita coisa tem que ocorrer, de fato. A reunião de Joanesburgo foi uma oportunidade perdida para deslanchar uma transição planetária para o desenvolvimento sustentável, cujo conteúdo seria:

a-Estratégias nacionais diferenciadas, mas complementares, no Norte (mudando os padrões de consumo e os estilos de vida, reduzin-do a dependência quanto a combustíveis de srcem fóssil e dimi-nuindo o tamanho da "pegada" da minoria rica);

b-No Sul, estratégias de desenvolvimento endógenas e inclusivas (em vez do transplante de modelos do Norte), propiciando um salto para uma civilização moderna, sustentável, com base na biomassa, especialmente adequada aos países tropicais; c-Um acordo Norte/Sul a respeito do desenvolvimento sustentável,

aumentando substancialmente o fluxo real de recursos do Norte para o Sul (por meio da ajuda e, mais ainda, do comércio justo),

estimulando simultaneamente as economias em crise do Norte; d-Um sistema internacional de impostos (sobre energia, pedágios

para o uso de oceanos e espaços aéreos, e algum tipo de taxação sobre transações financeiras);

e-Gerenciamento das áreas globais de uso comum.

Gallopin (2001) está certo quando afirma que a transição para um mundo sustentável exige um progresso simultâneo em todas essas frentes. As perspectivas imediatas são sombrias. Enquanto prosseguem na batalha política na frente global, os países

latino-2 Amartya Sen, em artigo recente, afirma o seguinte: "Não é nem um pouco óbvio por que o fortalecimento das liberdades democráticas não deva fazer parte das demandas centrais do desenvolvimento sustentável."

(32)
(33)

IGNACY SACHS

americanos, inclusive a Argentina, poderiam também usar o marco conceituai do desenvolvimento sustentável para desenhar as suas estratégias nacionais.

C - Como chegamos lá?

C - Como chegamos lá?

1- Seria um erro isolar as urgências de curto prazo ligadas ao gerenciamento de crises da reflexão sobre a estratégia de médio e longo prazos. Ambas devem ser informadas pela mesma visão de desenvolvimento sustentável que, de um lado, oferece os cri-térios de avaliação para as políticas propostas e, de outro, median te um amplo debate societal, se desdobra gradualmente num

jeto nacional (de acordo com Jean-Paul Sartre, o homem é um

projeto; afortiori, uma socie dade hum an a tam bém dev e ser um

projeto).

2- A transição para o desenvolvimento sustentável começa com o gerenciamento de crises, que requer uma mudança imediata de paradigma, passando-se do crescimento financiado pelo influxo de

recursos externos e pela acumulação de dívida externa para o do crescimento baseado na mobilização de recursos internos, pondo as pessoas para trabalhar em atividades com baixo conteúdo de

importações e para aprender a "vivir con lo nuestro".

Conforme mencionado, o único limite para o crescimento não inflacio nário e induzido pelo emp rego é dado p ela disponibilidade de bens de salário. Como não é necessário ter moeda estrangeira para

o financiamento de obras públicas, outras atividades poderiam ser financiadas por um Imposto de Valor Adicionado altamente pro-gressivo.

Portanto, as condições necessárias para se levar à frente o cres-cimento induzido pelo emprego são:

a-capacidade local de planejamento, entendido como a capacidade de identificação de gargalos e de recursos ociosos capazes de superá-los;

(34)
(35)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

b-estímulo à capacidade de mobilizar recursos e iniciativas locais; c-reabilitação do sistema financeiro nacional, para dotá-lo de um

mínimo de capacidade de atender às necessidades das empresas e do financiamento de obras públicas, sem excluir o recurso (em casos excepcionais) à quase-moeda e à promoção do escambo; d-uma reforma fiscal que criasse um Imposto de Valor Adicionado

progressivo sobre o consumo: haveria isenção para os bens es-senciais, mas ele teria forte incidência sobre artigos de luxo, conforme sugerido por Kalecki, no seu texto sobre a índia (op. cit.); os salários baixos seriam subsidiados com este imposto (Bardhan, op. cit.);

Cabe traçar aqui uma analogia com as políticas adotadas por alguns países da Europa e da Ásia, na primeira fase da reconstrução posterior à Segunda Guerra Mundial. Operações de auto-salvação

eram a única opção para dar início à recuperação. A reconstrução e a industrialização posteriores à guerra começaram exatamente des-sa maneira, por meio do crescimento extensivo, com base na

gera-ção de quantidades maciças de empregos de baixa produtividade. 3

3 Paral elam ente, o esfo rço deve começa r em todos os níveis

-do local ao nacional tendo em vista a mont age m de uma agen da

de médio prazo de criação de empregos. A emergência de conse-lhos quatripartites de desenvolvimento facilitaria muito essa tarefa, montando o cenário para o processo de negociação entre todos os atores envolvidos - autoridades públicas, trabalhadores, emprega-dores e o Terceiro Setor (sociedade civil organizada).

O objetivo supremo é o emprego decente e/ou auto-emprego para todos - trata-se da melhor forma de assegurar

simultanea-mente a sustentabilidade social e o crescimento econômico. Em

3 A transição para o crescimento intensivo, mais tarde, gerou problema s difí-ceis, que não precisam ser abordados aqui.

(36)
(37)

IGNACY SACHS

outras palavras, a ênfase deve ser colocada na mudança da

buição primária de renda, em vez de se persistir com o padrão excludente de crescimento, a ser corrigido ex post por meio de políticas sociais compensatórias financiadas com a redistribuição

de uma parcela do PIB.

Tal abordagem exige a combinação de várias políticas comple-mentares:

a-Explorar todas as oportunidades de crescimento induzido pelo emprego e com conteúdo zero ou baixo de importações, parti-cularmente:

• obras públicas;

• construção civil, especialmente programas voluntários de cons-trução de casas populares com apoio governamental (casas populares construídas pelo povo);

• serviços sociais (países que pagam salários baixos têm uma vantagem comparativa absoluta na produção deste tipo de ser-viços);

• empregos ligados à conservação de energia e de recursos e à reciclagem de materiais (em outras palavras, ao aumento da produtividade dos recursos), à melhor manutenção do estoque

existente de infra-estrutur a, equipamentos e prédios, de form a a ampliar o seu ciclo de vida e, dessa forma, poupar o capital necessário à sua reprodução (nos termos de Kalecki, estas são as fontes de crescimento que não exigem investimento).

b-Desenhar políticas para consolidar e modernizar a agricultura fa-miliar como parte de uma estratégia para estimular o desenvolvi-mento rural com base na pluriatividade da população rural, dan-do um salto na direção de uma civilização moderna baseada na biomassa (biodiversidade-biomassa-biotecnologias);

(38)
(39)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

sair da informalidade, e apoiar diversas formas de atividade presarial compartilhada, com a finalidade de aumentar o poder

de barganha e a competitividade dos pequenos produtores (pas-sando da competitividade espúria para a autêntica); criar uma entidade pública - mas não estatal - que atue como um planejador comprometido com os interesses dos pequenos produtores (o SEBRAE é um bom exemplo);

d-Estabelecer conexões mutuamente benéficas entre grandes e pe-quenas empresas (condições justas de subcontratação, terceirização, integração de franquias de agronegócios);

e-Usar as compras governamentais para promover as micro e pe-quenas empresas. "The Small Business Authority" (Agência para as Pequenas Empresas), dos EUA, criou um complexo sistema de preferências para as micro e pequenas empresas;

f-Fortalecer as empresas industriais de grande porte e transformá-las em atores competitivos em escala global. Obviamente, é pre-ciso uma estratégia dupla; isto nos traz de volta à importância crucial do sistema financeiro nacional, da sua capacidade de in-vestir e de algum tipo de controle sobre o fluxo de moeda es-trangeira que entra e sai.

4- A insistência nessa modalidade de recuperação a partir das próprias forças e nas estratégias nacionais para o desenvolvimento

sustentável endógeno não deve ser entendida como uma justificati-va para negligenciar a questão primordial da inserção na economia global. Ela tem as suas raízes numa crença dupla:

• na con fi gur aç ão atual da eco nomi a mund ial e do equil íbrio de poder, os países periféricos não podem agir de forma

dife-rente;

• quanto mais esses países tiverem sucesso na sua estratégia endógena, mais forte será o seu poder de barganha para alcan-çar a inclusão na economia global em termos mais favoráveis

(40)
(41)

IGNACY SACHS

e para renegociar a sua dívida externa em circunstâncias que avaliem de maneira realista a sua capacidade de gerar exce-dentes de moeda estrangeira.

Enquanto suportam os impactos negativos da globalização na sua forma assimétrica atual, os países periféricos deveriam mobili-zar as suas capacidades intelectuais e políticas para organimobili-zar em todos os foros internacionais, antes de mais nada na ONU, uma intensa campanha a favor da reforma necessária da ordem econô-mica internacional. A sessão especial da Assembléia Geral da ONU, em 1975, foi um fracasso. As propostas formuladas, naquela oca-sião, não são mais aplicáveis. No entanto, a agenda de 1975 conti-nua a ser bem pertinente.

Propostas para a reforma das instituições nascidas em Bretton Woods e a adoção do comércio justo provavelmente não nascerão por iniciativa dos países do G-8, satisfeitos com o status quo. Ao

contrário, virão do diálogo entre países periféricos e das suas dis-cussões com os setores progressistas da sociedade civil dos países centrais. O processo provavelmente será longo e difícil. No entan-to, podemos abrandar o nosso pessimismo ao pensarmos no pro-cesso de formação da UNCTAD, há 10 anos, graças à visão e à energia de Raul Prebisch e dos seus colaboradores.

Referências

Referências

BARDHAN, Pranab (2001): "Social Justice in the Global Economy". In:

Economic and Political Weekly, February 3-10, p. 467-479. CEPAL(2002): "Desarrollo y globalízación", Santiago de Chile.

ENCRUCIJADAS UBA - Revista de la Universidad de Buenos Aires (2001),

Hacia el Plan Fénix. Por un futuro, núme ro 13, noviembr e. ENOIKOS - Revista de la Faculdad de Ciências Econômicas de la Universidad

de Buenos Aires (2001): Hacia el Plan Fénix. Dignóstico y propuestas,

(42)
(43)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

FERRER, Aldo (2002): "A Argentina e a globalização". In: Estudos Avança-dos, São Paulo, Vol. 16, n° 44, p. 37-54.

FERRER, Aldo (2002): Vivir con lo nuestro (Segunda edición), Fond o de Cul

-tura Econômica, Buenos Aires.

GALLOPIN, Giberto C. (2001): "The Latin American World Model (a. k. a. the Bariloche model): three decades ago. In: Futures, n° 33, p. 77- 88. GRUPO FENIX (2002): "Hacia el Plan Fénix - Otra Argentina es posible. De

la crisis al crecimiento con equidad", GAK, Abraham Leonardo, director dei Proyecto Estratégico de la Universidad de Buenos Aires, 19 de abril. ILO (2001): Reducing the decentwork déficit: a global challenge, International

Labour Conference, 89 th Session 2001, Geneva. ILO (2002a): Global employment agenda, Geneva.

ILO (2002b): Decent work and the informal economy, International Labour Conference, 90 th Session.

KALECKI, M. (1993): Collectedworks ofMichalKalecki, VolumeS, Developing economies, Clarendon Press, Oxford.

KEYNES, John Maynard (2002): La Pauvreté dans 1'abondance, Paris, Gallimard, 291 p.

M YR D AL, Gunnar (1956): An International Economy. Problems and Prospects,

Harper, New York.

OXFAM (2002): Rigged Rules and Double Standards - Trade, Globalisation, and thefight against poverty, Oxford.

RICUPERO, Rubens (2002): Esperança e ação. A ONU e a busca de desenvol-vimento mais justo, Paz e Terra, São Paulo.

RODRIK, D. (2000): "A valiosa herança da economia mista". In: O Estado de São Paulo, 6 de ago sto .

SACHS, Ignacy (1998): "The State and the Social Partners - Towards a

Development Compact". In: Economic andPolitical Weekly, August 15-22, p. 2233-2239.

SACHS, Ignacy (1999): "Lécon omie pol iti que du développeme ntdes économie s mixtes selon Kalecki: croissance tirée par l'emploi". In: Mondes en développement, Paris -Brux elle s, Tome 27- n° 106, p. 23-3 4.

SACHS, Ignacy (2000): Understanding Development, People, Markets and the State in MixedEconomies, Oxf ord Unive rsity Press, Ne w Delhi.

SACHS, Ignacy (2001): "Um projeto para o Brasil: a construção do mercado

(44)
(45)

IGNACY SACHS

Celso Furtado - Ensaio em Homenagem aos seus 80 anos, org.: BRESSER PEREIRA, Luís Carlos e REGO, José Márcio, São Paulo, Editora 34, p. 45-53.

SACHS, Ignacy (2002): Desenvolvimento humano, trabalho decente e o futuro dos empreendedores de pequeno porte no Brasil, SEBRAE/UNDP, Brasília DF.

SEN, Amartya (1990): Ethics and Economics, Oxfo rd University Press, New Delhi.

SEN, Amartya (1999): Development as Freedom, Alf red A. Knopf , New York. SEN, Amartya (2000): "A Decade of Human Development". In: Journal of

Human Development, Vol. 1, N° 1, p. 17-2 3.

SENGUPTA, Arjun (2001): "Development policy and the right to development". In: Frontline, marc h 2, p. 91-96.

SENGUPTA, Arjun (2002): "Official Development Assistance - The Human

Rights Appr oach" . In: Economic and Political Weekly, April 13, p. 1424-1436.

STIGLITZ, Joseph E. (2002a): "Globalism's Discontents". In: The American Prospect, Vol. 13, Iss ue 1, Jan uar y 1-14 .

STIGLITZ, Joseph E. (2002b): Globalization andits discontents, Norton, New York.

SUNKEL, O. (1992): Development from within. Toward a neostructuralist approach for Latin America, Lynn e Rienne r, Boulder.

TSURU, Shigeto (1994): Economic theory and capitalist society: the selected essays of Shigeto Thuru, Vol. 1, Edward Elgar Publishíng Company, Brookfield.

UNCTAD (2002): Trade and Development Report, Ne w York and Geneva , United Nations.

WADE, R. (1990): Governing the Markets: Economic Theory and the Role of Government in EastAsian Industrializations, Princeton Universi ty Press, Princeton.

(46)
(47)
(48)
(49)

Desenvolvimento

Desenvolvimento

trabalho decente

trabalho decente

includente e

includente e

para todos

para todos

11

Prólogo

Prólogo

Ao longo dos último s sessenta anos, o desenv olvimen to tem sido

uma poderosa idée-force para o sistema das Naçõe s Unidas, tanto

como conceito analítico quanto como ideologia. Assim como o ele-fante de Joan Robinson - difícil de se definir, porém, fácil de se

reconh ecer o desen volvi mento não se presta a ser encap sulad o

em fórmulas simples. A sua multidimensionalidade e complexidade explicam o seu caráter fugidio. Como seria de se esperar, o concei-to tem evoluído durante os anos, incorporando experiências positi-vas e negatipositi-vas, refletindo as mudanças nas configurações políticas e as modas intelectuais.

As discussões em torno deste tema contribuíram para o refina-mento do conceito, porém contrastam com o sombrio histórico do desenvolvimento existente em muitas partes do mundo. Daí a ne-cessidade de se revisitar a idéia de desenvolvimento, com vistas a torná-lo mais operacional, enquanto se reafirma, mais do que

nun-1 Artigo preparado para a Comissão Mundial sobre a Dimensão Social da

(50)
(51)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

ca, a sua centralidade, já que esta idéia está sendo contestada de dois ângulos distintos.

Os autodenominados pós-modernos propõem renunciar ao con-ceito, alegando que o desenvolvimento tem funcionado como uma armadilha ideológica construída para perpetuar as relações assimétricas entre as minorias dominadoras e as maiorias domina-das, dentro de cada país e entre os países. Propõem avançar para um estágio de pós-desenvolvimento, sem explicar claramente o seu conteúdo operacional concreto. Estão certos, por suposto, quando questionam a possibilidade de crescimento indefinido do

pr oduto material, dado o caráter finito do nosso planeta. Porém, esta verdade óbvia não diz muito sobre o quê deveríamos fazer

nas próximas décadas para superar os dois principais problemas herdados do século XX, apesar do seu progresso científico e téc-nico sem precedentes: o desemprego em massa e as desigualda-des crescentes.

Quanto aos fundamentalistas de mercado, eles implicitamente consideram o desenvolvimento como um conceito redundante. O desenvolvimento virá como resultado natural do crescimento

eco-nômico, graças ao "efeito cascata" ( trickle down effect). Não há necessidade de uma teoria do desenvolvimento. Basta aplicar a economia moderna, uma disciplina a-histórica e universalmente válida.

A teoria do "efeito cascata" seria totalmente inaceitável em ter-mos éticos, mesmo se funcionasse, o que não é o caso. Num mun-do de desigualdades abismais, é um absurmun-do pretender que os ricos devam ficar mais ricos ainda, para que os destituídos possam ser um pouco menos destituídos.

Para enfrentar estes dois problemas, precisa-se urgentemente de uma reaproximação da ética, da economia e da política (A. K. Sen,

1987). Como escreveu Gandhi, "As economias que ignoram consi-derações morais e sentimentais são como bonecos de cera que,

(52)
(53)

mes-IGNACY SACHS

mo tendo aparência de vida, ainda carecem de vida real" (M. K. Gandhi, Young índia, 27/10/1921).

Na medida em que as desigualdades morais2 resultam da organi-zação social, elas só podem ser superadas mediante atos de voluntarismo responsável - políticas públicas que promovam a ne-cessária transformação institucional e ações afirmativas em favor dos segmentos mais fracos e silenciosos da nação, a maioria traba-lhadora desprovida de oportunidades de trabalho e meios de vida decentes, e condena da a desperdi çar a vida na luta diária pela sobre-vivência.

Como observou Ricupero (2002, p. 64), as economias não se desenvolvem simplesmente porque existem. O desenvolvimento econômico tem sido uma exceção histórica e não a regra. Não acontece espontaneamente como conseqüência do jogo livre das forças de mercado. Os mercados são apenas uma das muitas ins-tituições que participam do processo de desenvolvimento. Sendo míopes por natureza, socialmente insensíveis e, segundo G. So-ros (2002), amorais, a sua regulação - melhor seria dizer a sua re-regulação - é urgente, tendo em vista o resultado negativo da apli-cação das prescrições neoliberais, resumidas pelo Consenso de Washington.

De certa forma, o Consenso de Washington atuou como uma contra-reforma direcionada contra o capitalismo reformado, que atingiu a sua maturidade após a Segunda Guerra Mundial, inspirado

2 Para uma distinção entre desigualdades naturais, ver Jean-Jacques Rousseau:

"Je conçois dans 1'e spèce hu mai ne deux sortes d'inégalités; l' une q ue j'a ppell e naturelle, et qui consiste dans la différence des âges, de la santé, des forces du co rps, et de ses qualit és de 1'esprit, ou de 1'âme, 1'autre q u o n pe ut appeler inégalité morale, ou politique, parce qu'elle dépend d'une sorte de convention, et quelle est établie, ou du moins autorisée par le consentement des hommes. Celle-ci consiste dans les différents privilèges, dont quelques uns jouissent, au préjudice des autres, comme d'être plus riches, plus honores, plus puissants queux, ou mê me de s'en faire obéir" (p. 77).

(54)
(55)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

nos escritos de Keynes e Beverídge e nas experiências do New-Deal americano. O capitalismo reformado foi, assim, construído com o propósito de exorcizar as terríveis lembranças da Grande Depressão, com base nos conceitos de pleno emprego, Estado de Bem-Estar e planejamento. Ele proporcionou também uma alterna-tiva ao "socialismo real" do bloco soviético, que, naquela época, tinha credibilidade entre segmentos importantes da opinião pública, devido ao seu sucesso em mobilizar toda a força de trabalho dispo-nível para o crescimento econômico extensivo e rápido e para a

industrialização. 3

Os trinta anos dourados do capitalismo 4 (1945-1975)

coincidi-ram com a Guerra Fria entre os dois velhos blocos e com a corrida armamentista. Esta situação frustrou os esforços das Nações Uni-das de construir uma ordem internacional mais eqúitativa, porém, ao mesmo tempo, criou condições favoráveis para que os países em desenvolvimento se envolvessem em políticas de não-alinha-mento e tirassem proveito das melhores experiências dos dois

blo-cos competidores. 5

A situação mudou radicalmente durante os anos 70. A invasão da Checoslovaquia, em 1968, apagou as últimas ilusões quanto à capacidade do bloco soviético de construir uma versão do "socia-lism o com rost o hum ano ". Os capitalistas per der am assim part e do seu medo e ficaram mais arrogantes. A crise de energia e suas con-seqüências foram usadas para desacreditar o keynesianismo e logo

3 Conforme colocado por Jean Ziegler (2002, p. 33), os partidos

social-democratas ocidentais e os seus sindicatos transformaram em vantagens sociais para seus clientes o medo capitalista da expansão do comunismo (Les nouveaux mêtres du monde et ceux qui leur résistent, Fayard, Paris, 2002, p. 33).

4 "Les trente années glorieuses", segundo Jean Fourastier.

5 Este foi certamente o caso da índia durante o governo de Nehru, a tentativa

(56)
(57)

IGNACY SACHS

depois a contra-reforma neoliberal ganhou força, com as eleições de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

A queda do muro de Berlim marcou o fim do socialismo real como paradigma de desenvolvimento e abriu o cenário para o evan-gel ho neoli beral , que dominou a cena até o final dos anos 90. Po-rém, o paradigma neoliberal não cumpriu as suas promessas. A tragédia do desenvolvimento da Argentina 6 pode ser considerada como o fim do Consenso de Washington, se não como um conceito ideológico - as ideologias alienadoras custam a morrer - pelo me-nos como programa pragmático.

Não precisamos aqui entrar na polêmica sobre o papel do FMI (ver, em particular, J. Stiglitz, 2002). Reparemos simplesmente que os únicos países em desenvolvimento que se deram razoavelmente bem, na década passada, foram precisamente aqueles que se

recu-saram a aplicar à la lettre as prescrições contidas no Consenso de Washington.

Assim, estamos sentados em cima das ruínas de dois paradigmas. Chegou o momento de colocar o evangelho neoliberal entre parên-teses, como um interlúdio

7

infeliz, e de revisitar a breve história da idéia do desenvolvimento, rica em apreciações e recomendações muito pertinentes para a nossa discussão.

6 Marshall Berman analisou a segunda parte de Faustus, de Goethe, como a

primeira tragédia do desenv olv im ent o. Por analogia, podemos falar da tragédia de desenvolvimento argentino, desta vez verdadeira, e não

produ-to da ficção literária.

7 Usa-se esta palavra em analogia com a observação de Gunnar Myrdal de que

o capitalismo de livre mercado foi apenas um interlúdio entre dois perío-dos marcaperío-dos pelo intervencionismo do Estado: o mercantilismo e, pois, o capitalismo reformado.

(58)
(59)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

Desenvolvimento: um conceito fugidio e em evolução

Desenvolvimento: um conceito fugidio e em evolução

Está por ser escrita uma história abrangente da idéia de desenvol-vimento.8 Limitar-me-ei neste espaço a umas poucas observações, enfatizando alguns pontos relevantes para a presente discussão.

1. Reco rdem os qu e a refl exão sobre o desenvol viment o, tal c omo se conhece hoje, começou nos anos 40, no contexto da preparação dos anteprojetos para a reconstrução da periferia devastada da Eu-ropa no pós-guerra. Refugiados antifascistas húngaros, poloneses e alemães, residentes na Grã-Bretanha, foram mobilizados para esta tarefa, na suposição de que o Leste Europeu nã o cairia sob a infl uênci a soviética - a Conferência de Yalta não tinha acontecido ainda.

Os problemas que estes países enfrentavam eram similares aos de outras periferias: estrutura fundiária anacrônica, agricultura po n esa atrasada, condições adversas de co mé rci o para as

commodities primária s, industr ializ ação incipiente , desem prego e subemprego crônicos, e necessidade de um Estado desenvolvi-mentista ativo para enfrentar o desafio de estabelecer regimes de-mocráticos capazes simultaneamente de conduzir a reconstrução do pós-guerra e de superar o atraso social e econômico. Em grande medida, o trabalho da primeira geração de economistas do desen-volvimento foi inspirado na cultura econômica dominante da época, que pregava a prioridade do pleno emprego, a importância do

Esta-8 Um primeiro volume poderia tratar das discussões precursoras dos séculos

XIX e XX sobre desenvolvimento avant la lettre, na Rússia, Índia, Japão, China e América Latina, bem como das contribuições dos autores dos países periféricos da Europa. Um seg undo volume deveria focalizar os pla no s de reco nstru ção pa ra a Europa escritos na Grã-Bretanha, palmente por refu gi ado s de países sob oc up ação nazista, muitos dos quais

subseqüentemente ingressaram nas Nações Unidas como a primeira

gera-ção de funci oná rio s. U m terceir o vol ume seri a necessário para avaliar a importante contribuição das diferentes agências das Nações Unidas e de

outras agências, com ênfase especial nas comissões regionais. Um quarto e último volume concentrar-se-ia no trabalho acadêmico, enfatizando as importantes contribuições de pensadores de países em desenvolvimento.

(60)
(61)

IGNACY SACHS

do de Bem-Estar, a necess idade de plan ejame nto 9 e a inter vençã o do Estado nos assuntos econômicos para corrigir a miopia e a bilidade social dos mercados.

Passado meio século, algumas das preocupações srcinais des-ses planejadores continuam válidas. Como lidar com a

heteroge neidade estrutural, tanto econôm ica quanto social? Uma das muitas definições do subdesenvolvimento insiste na impossibilidade de se empregar toda a força de trabalho disponível mediante a ado-ção de tecnologias avançadas, por falta de capital suficiente. Daí a necessidade de se achar um equilíbrio entre as metas de moderniza-ção e industrializamoderniza-ção, de uma parte, e, de outra, a promomoderniza-ção do pleno emprego e/ou o auto-emprego sem perder de vista a

necessi-dade de aumentar continuamente a produtivinecessi-dade do trabalho, em última instância, a fonte de progresso econômico.

Mesmo hoje, as economias em desenvolvimento ainda podem ser descritas como arquipélagos de empresas modernas com alta produtividade do trabalho, imersas no oceano de atividades de

pro-dutividade baixa ou muito ba ixa, que fo rm am o tecido intersticial do sistema econômico.

10

A maior parte do PIB vem do arquipélago. A maior parte das pessoas nadam no oceano, tentando sobreviver.

Os padrões de crescimento econômico devem ser avaliados neste contexto. O crescimento rápido impulsionado por empre-sas modernas não reduzirá por si só a heterogeneidade inicial. Pelo contrário, tende a concentrar a riqueza e a renda nas mãos dos poucos felizardos que controlam o arquipélago, relegando ao oceano todos aqueles que se tornam redundantes, devido à substituição do trabalho pelo capital. Os autores

latino-america-9 Von Hayek, por causa de sua desco nfian ça qu an to ao plane jam ent o, ficou

numa situação de dissidente solitário.

(62)
(63)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO nos estavam certos ao denunciar este padrão de crescimento como concentrador e excludente. Daí a necessidade de se ter uma estratégia dupla, na qual também se dê atenção às oportuni-dades para o que pode ser chamado de crescimento puxado pelo emprego, 11 um assunto do qual falaremos em maior detalhe mais adiante.

2. A negociação política feita pelos aliados em Yalta colocou os países do Leste Europeu na trilha do "socialismo real", relati-vamente bem-sucedido, como foi dito, em promover um cresci-mento extensivo e acelerado durante as primeiras duas décadas do pós-guerra. Toda a força de trabalho disponível foi utilizada; embora mal paga, ficou protegida contra a maldição do

prego e se beneficiou de um sistema razoavelmente elaborado de proteção social. As dificuldades que levaram, em última

instân-cia, ao colapso do sistema, ainda estavam por vir: a incapacida-de incapacida-de passar incapacida-de um sistema incapacida-de crescimento extensivo para um crescimento intensivo guiado pela tecnologia e pelo consumo em massa, a impossibilidade de administrar eficientemente, sob re-gimes autoritários, economias e sociedades complexas, a repres-são manu militari às tenta tivas de se re fo rm ar inte rnam ente o sistema. A credibilidade do socialismo real perdeu-se definitiva-mente com a invasão a Praga pelos tanques soviéticos, em 1968. As reformas de Gorbatchev vieram tarde demais. A queda do muro de Berlim marcou o fim do paradigma de desenvolvimento não capitalista, conhecido como socialismo real, e a vitória da coalizão liderada pelos Estados Unidos na guerra fria contra o bloco soviético.

O fim do socialismo real foi certamente um marco importante na breve história da idéia de desenvolvimento. Alguns se

apressa-u A esse respeito, ver Sachs (1999), que trata da teoria do desenvolvimento

(64)
(65)

IGNACY SACHS

ram em ver nele a desq ualif icaçã o fina l do conceito de desenvo lvi-mento não capitalista, chegando até a proclamar o fim da história. Tal conclusão não tem fundamento. Como conceito histórico e social, o desenvolvimento é por natureza aberto, o que o diferen-cia da noção de desenvolvimento orgânico. Outras tentativas de transcender o capitalismo podem surgir, na China ou em qualquer outro lugar, e elas não precisam ter o mesmo destino do socialis-mo real.

É ainda mais absurdo descartar o planejamento como tal, por causa do fracasso do planejamento autoritário, centralizado e abrangente do tipo soviético. As suas duas principais fraquezas foram a sua base técnica inapropriada - estávamos ainda na época pré-informática - e, mais importante, a falta de feedbacks da

so-ciedade, por causa da natureza não democrática do regime. A ad-ministração de economias complexas requer transparência e

ponsabilidade, circulação de informações exatas e liberdade de dis-cussão, bem como uma mídia plural.

Em contraste com o tipo de planejamento soviético, o planeja-mento moderno é essencialmente participativo e dialógico, e exige uma negociação quatripartite entre os atores envolvidos no proces-so de desenvolvimento, levando a arranjos contratuais entre as au-toridades públicas, as empresas, as organizações de trabalhadores e a sociedade civil organizada. Certamente, este tipo de planejamento tem um futuro brilhante pela frente.

3. A maior parte da reflexão sobre desenvolvimento realizado nas Nações Unidas ou induzido por esta organização tinha como base implícita o paradigma do capitalismo reformado,

reconhecen-do, no entanto, uma diferença básica entre o funcionamento das economias desenvolvidas e das menos desenvolvidas. As primeiras são essencialmente limitadas pela demanda, enquanto que os países menos desenvolvidos compartilhavam com os países do socialismo

(66)
(67)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

penderem do investimento dirigido à expansão das capacidades pro-dutivas.

Assim, concentraram-se diferentes modalidades e aspectos do desenvolvimento em economias periféricas, estruturalmente hete-rogêneas, com predominância de mercados capitalistas e mistas. Cada adjetivação exige uma explanação:

• perif érica s: opostas às econom ias capitalis tas centrais, às quais estão vinculadas por relações assimétricas, 12 analisadas por Raul Prebisch no seu célebre e ainda pertinente modelo de periferia (ver, em particular, Beilschowsky, R., 2000, e

Ricupero, R., 2002);

• estruturalmente heterogêneas em vários sentidos: apresentam um contraste forte entre enclaves urbanos modernos e econo-mias rurais mais ou menos atrasadas, enormes disparidades sociais, culturais e de estil o de vida entre as elites ocident aliza das e o grosso da população, padrões concentrados de distribui-ção de renda e de riqueza;

• de merc ado predomi nant eme nte capit alista: já que o setor c pitalista da economia, mesmo coexistindo com outros

mode-los de produção pré-capitalistas ou protocapitalistas, é o mais dinâmico;

• economias mistas, por terem diferentes configurações de seus setores privado e público e, pelo menos em alguns casos, um Estado desenvolvimentista enxuto, limpo e pró-ativo.

12 François Perroux definiu dominação como uma relação assimétrica e

(68)
(69)

IGNACY SACHS

Box 1 - Boa sociedade, meios de existência viáveis, trabalho decente. Box 1 - Boa sociedade, meios de existência viáveis, trabalho decente.

O desenvolvimento pretende habilitar cada ser humano a ma-nifestar potencialidades, talentos e imaginação, na procura da auto-realização e da felicidade, mediante empreendimentos individuais e coletivos, numa combinação de trabalho autôno-mo e heterônoautôno-mo e de tempo dedicado a atividades não produ-tivas.

A boa sociedade é aquela que maximiza essas oportunidades, enquanto cria, simultaneamente, um ambiente de convivência e, em última instância, condições para a produção de meios de existência (livelihoods) viáveis, suprindo as necessidades ma-teriais básicas da vida - comida, abrigo, roupas - numa varie-dade deformas e de cenários-famílias, parentela, redes, comu-nidades.

A produção de meios de subsistência depende da combinação dos seguintes elementos:

• Acesso a ativos requeridos para a produção de bens e servi-ços para autoconsumo, no âmbito da economia doméstica; • Acesso ao treinamento, técnicas e ativos necessários para a produção de bens e serviços orientados para o mercado

mediante auto-emprego;

• Disponibilidade de trabalho decente, de tempo integral ou parcial, para os membros da família que o desejam;

• Acesso universal aos serviços públicos;

• Acesso ã habitação autoconstruída, alugada ou adquirida mediante esquemas subsidiados de moradia popular; • Disponibilidade de tempo livre para atividades não

pro-dutivas.

Os aspectos qualitativos são essenciais. As formas viáveis de

produção de meios de existência não podem se apoiar em esforços excessivos e extenuantes dos seus produtores, em empregos mal

pagos e realizados em condições insalubres, na provisão inadequa-da de serviços públicos e em padrões subumanos de habitação.

(70)
(71)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

Dois avanços conceituais importantes devem ser enfatizados: a- Desde os anos 70, a atenção dada à problemática ambiental levou

a uma ampla reconceitualização do desenvolvimento, em termos de ecodesenvolvimento, recentemente renomeado desenvolvi-mento sustentável.

O desenvolvimento sustentável obedece ao duplo imperativo éti-co da solidariedade éti-com as gerações presentes e futuras, e exige a explicitação de critérios de sustentabilidades social e ambiental e de viabilidade econômica. Estritamente falando, apenas as soluções que considerem estes três elementos, isto é, que promovam o cresci-mento econômico com impactos positivos em termos sociais e ambientais, merecem a denominação de desenvolvimento, como se pode ver na tabela a seguir:

Tabela 1: Padrões de Crescimento Econômico Tabela 1: Padrões de Crescimento Econômico

impactos sociai s impactos ambientais

1- desenvolvimento + +

2- selvagem -

-3- soc ial men te b eni gno +

-4- ambientalmente benigno - +

Durante as três décadas que separam a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente - a de 1972, realizada em Estocolmo, e a Cúpula sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em Joanesburgo, em 2002 -, o conceito de desenvolvimento sustentá-vel foi refinado, levando a importantes avanços epistemológicos. Para os propósitos deste texto, é suficiente enfatizar que a sustentabilidade social é um componente essencial deste conceito.

Com relação aos critérios de sustentabilidade social, podemos re-^ toma r a pos içã o de Dudl ey Seers, para o qual o cres cim ento eco nô-/ mico, mes mo quando rápido, não traz desenv olvimen to, a meno s que

(72)
(73)

IGNACY SACHS

dades. Kalecki e Seers estiveram entre os primeiros economistas a assinalar, nos anos 60, a necessidade de se analisar o desenvolvimen-to econômico não só em termos de crescimendesenvolvimen-to do PIB, mas bém, e talvez em primeiro lugar, em termos do emprego.

b- A segunda e talvez mais importante reconceituação foi forte-men te influ enci ada pelos trabalhos de A. K. Sen (1999). O desen- e* volvimento pode ser redefinido em termos da universalização e do

exercício efetivo de todos os direitos humanos: políticos, civis e cívicos; econômicos, sociais e culturais; bem como direitos coleti-vos ao desenvolvimento, ao ambiente etc. Embora os direitos sejam indivisíveis, deve ser dado um status especial ao direito ao trabalho, visto o seu duplo valor, intrínseco, mas também instrumental, já que o trabalho decente abre o caminho para o exercício de vários outros direitos.

4. Podemos resumir a evolução da idéia de desenvolvimento, no último meio século, apontando para a sua complexificação, repre-sentada pela adição de sucessivos adjetivos - econômico, social, político, cultural, sustentável - e, o que é mais importante, pelas

novas problemáticas. Mesmo assim, carecemos de um paradigma convincente capaz de lidar com os dois problemas aos quais já nos referimos, isto é, desemprego maciço/subemprego e desigualdade crescente.

Segundo a OIT, um terço da força de trabalho está desemprega-do ou subempregadesemprega-do e os sucessivos relatórios desemprega-do PNUD sobre o desenvolvimento humano documentam a brecha crescente entre a renda das minorias ricas e as maiorias pobres. A distribuição da riqueza é ainda mais desequilibrada. Vivemos em um mundo crescentemente fragmentado, a despeito de toda a fala sobre a globalização. E mais, as nossas economias se caracterizam por um alto grau de desperdício. De todas as formas de desperdício, a pior de todas é aquela que destrói vidas humanas por meio do déficit de oportunidades de trabalho decente.

(74)
(75)

DESENVOLVIMENTO: INCLUDENTE, SUSTENTÁVEL, SUSTENTADO

Isso não quer dizer que as vítimas do desenvolvimento desigual não trabalhem. Como observou Joan Robinson, elas são pobres de-mais par a po der em se dar ao luxo de não trabalh ar. Ao m esm o tempo, quando desempregadas, descobrem que pior que ser explo-rado é não ser sequer exploexplo-rado.

De tal forma, e em sentido estrito, a maioria pobre não está totalmente excluída da esfera econômica. O sociólogo brasileiro José de Souza Martins (2002) tem razão quando fala de formas perversas, anormais e desiguais de inclusão social.13 Podemos

di-zer, no entanto, que a maioria pobre está praticamente excluída do

processo de desenvolvimento, entendido como a apropriação efe-tiva da totalidade de direitos humanos (ver, em particular, Kothari,

1993). Sob algumas circunstâncias, a inclusão justa se converte em requisito central para o desenvolvimento. Se o adjetivo deve colocar atenção no aspecto mais essencial do paradigma de

de-senvolvimento, podemos falar então de desenvolvimento ineludente.

Definindo a inclusão justa

Definindo a inclusão justa

A maneira natural de definir o desenvolvimento ineludente é por oposição ao padrão de crescimento perverso, conhecido, como já se mencionou, na bibliografia latino-americana como "excludente" (do mercado de consumo) e "concentrador" (de renda e riqueza). Dois outros aspectos do crescimento excludente são:

• mercados de trabalho fortemente segmentados, que mantêm uma grande parcela da maioria trabalhadora confinada a ativi-dades informais, ou condenada a extrair a sua subsistência precariamente da agricultura familiar de pequena escala, sem

quase nenhum acesso à proteção social (ver Rodriguez, O.,

13 Ver também a sua entrevista na Folha de São Paulo, "Mais!", 15 de setembro

(76)
(77)

IGNACY SACHS

1998, e Revista Latinoamericana de Estúdios dei Trabajo, 1999);

• fra ca partic ipação na vida política, ou completa exc lusão dela, de grandes setores da população, pouco instruída,

suborganizada e absorvida na luta diária pela sobrevivência, sendo a s mulhe res, sujeitas à discri minaç ão de gênero, as mais fortemente atingidas.

O desenvolvimento includente requer, acima de tudo, a garantia do exercício dos direitos civis, cívicos e políticos. A democracia é um valor verda deir ament e fundam ent al (A. K. Sen) e garant e bém a transparência e a responsabilização (sárias ao funcionamento dos processos de desenvolvimento. Noaccountability )

neces-entanto, existe uma grande distância entre a democracia representa-tiva e a democracia direta, que cria melhore s condições para o bate dos assuntos de interesse público.

Todos os cidadãos devem ter acesso, em igualdade de condi-ções, a programas de assistência para deficie ntes, para mães e fi-lhos, para idosos, voltados para a compensação das desigualdades naturais ou físicas. Políticas sociais compensa tórias finan ciada s pela redistribu ição de renda dev eriam ir mais l onge e incluir subsídios ao desemprego, uma tarefa praticamente impossível naqueles países onde apenas uma pequena minoria está empregada no setor organi-zado e onde o desemprego aberto é bem menos significativo que o subemprego.

O conjunto da população também deveria ter iguais oportunida-des de acesso a serviços públicos, tais como educação, proteção à saúde e moradia. Seguem-se alguns comentários a este respeito.

A educação é essencial para o desenvol viment o, pelo seu valor intrínseco, na medida em que contribui para o despertar cultural, a conscientização, a compreensão dos direitos humanos, aumentan-do a adaptabilidade e o sentiaumentan-do de autonomia, bem como a autoconfiança e a auto-estima. É claro que tem também um valor

(78)

Referências

Documentos relacionados

Esta „maximização de recursos constitui o princípio que se encontra no cerne do próprio conceito de biblioteca, que é o compartilhamento e uso coletivo

The efficiency of extraction of phenolic compounds with water was demonstrated once more by the fact that the aqueous extract, under the same conditions of concentration and reaction

c.4) Não ocorrerá o cancelamento do contrato de seguro cujo prêmio tenha sido pago a vista, mediante financiamento obtido junto a instituições financeiras, no

limitações no uso do sistema de informação; isolamento do Serviço de Atenção Domiciliar em relação aos demais serviços da rede de saúde; limitações da Atenção Básica

1.1 A presente licitação tem por objeto o registro de preços para Aquisição de Materiais (Vidrarias e Reagentes) para os Laboratórios de Química do

Este estudo, assim, aproveitou uma estrutura útil (categorização) para organizar dados o que facilitou a sistematização das conclusões. Em se tratando do alinhamento dos

Assim, em continuidade ao estudo dos mecanismos envolvidos na morte celular induzida pelos flavonóides, foi avaliada a exposição da fosfatidil serina na membrana das células HepG2

Você está sendo convidado (a) a participar do projeto de pesquisa estudo do efeito do tabaco sobre a velocidade de proliferação das células da mucosa bucal – ação