7º Encontro Nacional da ABRI. Título

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Texto

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7º Encontro Nacional da ABRI

Título

Aspectos Políticos e Sociais da Financeirização:

Análise das relações entre mercado financeiro, coalizões sociais e

capacidades estatais no Brasil

Pedro Txai Leal Brancher1

 

Resumo:

O paper se insere no projeto de Tese denominado “Aspectos Políticos e Sociais da Financeirização: estudo sobre as relações entre Estado e Grupos Financeiros Transnacionais no Brasil”. Por financeirização, entende-se um processo histórico de expansão da influência da lógica dos mercados financeiros na acumulação de capital e nas dinâmicas políticas de um sistema social. O objetivo do artigo será delimitar as categorias analíticas e a conjuntura histórica internacional na qual se insere o estudo de caso sobre a organização e atuação política de um Grupo Financeiro Transnacional no Brasil na segunda parte da Tese. Especificamente, trata-se de: i) delimitar os mecanismos causais que conectam as estruturas politicas e econômicas em processos históricos de financeirização; ii) analisar as interações entre Estado e agentes do capital financeiro durante a trajetória de formação, consolidação e crise da hegemonia estadunidense no período que compreende o final da Segunda Guerra Mundial até a Crise de 2008; iii) apresentar categorias analíticas preliminares que fundamentarão o estudo de caso empírico sobre a atuação de um Grupo Financeiro Internacional (alta finança) na segunda parte da Tese.

Palavras Chave: financeirização; capacidades estatais coalizão social; desenvolvimento;

neoliberalismo; INTRODUÇÃO

O presente artigo se insere no projeto de Tese denominado “Aspectos Políticos e Sociais da Financeirização: estudo sobre as relações entre Estado e Grupos Financeiros Transnacionais no Brasil”2. A pergunta de pesquisa geral que norteia o

trabalho é: quais são os mecanismos pelos quais o processo de financeirização contemporâneo produz alterações nas dinâmicas sociopolíticas e nas características das instituições estatais brasileiras? Por financeirização, entende-se “à rede de processos inter-relacionados - econômicos, políticos, sociais, tecnológicos, culturais, etc. - através dos quais as finanças estenderam sua influência para além do mercado e para outros domínios da vida social” (Zwan, 2014, p.102, tradução nossa, grifo nosso).

                                                                                                                                       

1 Doutorando em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade

Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: pedro.txai@gmail.com

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Parte-se do pressuposto de que, no Brasil, o processo de financeirização tem como conjuntura crítica inicial a Crise da Divida Externa, a qual produz o colapso do modelo nacional-desenvolvimentista baseado na dinâmica de substituição de importações implementado no país desde a década de 1930. No âmbito político, trabalha-se com a hipótese de que a continuidade da financeirização no período que vai de 1981 até 2016 engendrou a hegemonia de uma coalizão social neoliberal no Brasil. Isso porque, ampliou-se a influência do capital nos processos decisórios do Estado, houve aumento da parcela das elites nacionais identificada com o conteúdo normativo da ideologia neoliberal, bem como ocorreu a institucionalização de práticas e normas neoliberais não apenas nos arranjos institucionais do Estado brasileiro, mas também na governança corporativa de empresas nacionais não financeiras (Carneiro, 2002; Bresser-Pereira, 2016; Dowbor, 2017).

Nesse contexto, o presente paper é uma tentativa de delimitação das categorias analíticas e do contexto internacional na qual se inserirá o estudo de caso sobre a organização e atuação política de um Grupo Financeiro Transnacional (GFT) no Brasil na segunda metade da Tese. Especificamente, o artigo se dividirá em três seções cujos objetivos específicos serão respectivamente:

1) Delimitar os mecanismos causais que conectam as estruturas politicas e econômicas, bem como as interações de agentes do mercado financeiro nos níveis de análise nacional, transnacional e interestatal em processos históricos de financeirização.

2) Analisar os nexos entre Estado e capital financeiro durante a trajetória de formação, consolidação e crise da hegemonia estadunidense no período que compreende o final da Segunda Guerra Mundial até a Crise de 2008;

3) Apresentar as categorias analíticas preliminares que fundamentarão o estudo de caso empírico sobre a atuação de um Grupo Financeiro Internacional - Alta Finança - na segunda parte da Tese.

PROCESSO DE FINANCEIRIZAÇÃO: MECANISMOS FORTALECEDORES E ENFRAQUECEDORES

Ontologicamente, pressupõe-se que o conceito de financeirização engendea um macroprocesso histórico de transformações na dinâmica de uma sociedade capitalista (Tilly, 1983; Polanyi, 2000). Do ponto de vista econômico, por exemplo, o

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conceito alude a trajetória de formação de um regime de acumulação de capital no qual os lucros são realizados por canais financeiros em detrimento da esfera produtiva (Krippner, 2005; Lapavistas, 2013)3. No âmbito político, a financeirização pode ser

entendida como a ampliação da influência do capital financeiro - alta finança e/ou Grupos Financeiros Transnacionais – e da ideologia neoliberal nos processos decisórios dos Estados-nacionais e organizações internacionais (Larner, 2000).

Todavia, é forçoso lembrar que, embora o foco da presente Tese sejam os efeitos da financeirização4 sobre as relações entre Estado, mercado e sociedade; nota-se que as causas e connota-sequências do fenômeno não nota-se restringem à esfera da Economia Política Internacional. De fato, a agenda de pesquisa contemporânea sobre o tema abarca fenômenos multidimensionais: transições hegemônicas, crises da democracia liberal, acirramento do conflito distributivo, aumento da desigualdade social, reformulação de políticas sociais, modelos de governança corporativa, modelos de crescimento e transições tecnológicas. Desse modo, pode-se definir financeirização como:

à rede de processos inter-relacionados - econômicos, políticos, sociais, tecnológicos, culturais, etc. - através dos quais as finanças estenderam sua influência para além do mercado e para outros domínios da vida social” (Zwan, 2014, p.102, tradução nossa, grifo nosso).

Nesse trabalho, enfatiza-se a ontologia histórica do fenômeno, e, portanto, opta-se por enquadrar a análise na perspectiva epistemológica do institucionalismo weberiano. Nessa agenda de pesquisa, conforme destaca Charles Tilly (2007, p.15, grifo nosso), processos históricos são entendidos como: “combinações e sequências de mecanismos que produzem algum resultado especificado”. Mecanismos, por sua vez, seriam uma unidade analítica temporalmente menor, constituída empiricamente por conjuntos de eventos conectados por relações causais que produzem efeitos similares em contextos distintos (Tilly, 2007) 5. Além disso, ao longo de um processo

                                                                                                                                       

3 Contemporaneamente, Boyer (2000, p.116) argumenta que regimes financeirizados (finance-led)

caracterizam-se por: fusões empresariais, ampla mobilidade de capital, difusão de ativos financeiros na sociedade, pressões sobre governança corporativa de empresas não financeiras e flexibilização do mercado de trabalho.

4 Para revisões mais abrangentes sobre a agenda de pesquisa em torno do conceito de financeirização

ver Zwan (2013), Lapavitsas (2013) Davis & Kim (2015).    

5 A justificativa para a adoção de um modelo explicativo baseado em mecanismos advém do

pressuposto de que as trajetórias evolutivas de processos sociais históricos (como os de financeirização) são influenciadas por interações entre incontáveis variáveis com distintas direcionalidades, bem como pela ordem temporal específica na qual essas interações ocorrem (Tilly, 1985; Bhaskar, 1998; Vasconcellos, 2014). Além disso, nota-se que o conjunto de variáveis atuando

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social, pressupõe-se a existência de mecanismos atuando no sentido de fortalecimento de uma tendência dominante identificada, ou no sentido contrário, contrabalanceando-a (Pierson, 2004; Hui, 2005)6.

No caso de processos de financeirização, identificou-se, a partir de revisão da agenda de pesquisa de Economia Política Internacional, quatro macro-mecanismos causais que emergiriam recorrentemente. Em primeiro lugar, períodos de expansão financeira, ou seja, o surgimento de modelos de acumulação de capital liderados pelo setor financeiro (Kindleberg, 1996; Boyer, 2000). Os gatilhos para expansões financeiras estariam relacionados com a conjunção entre medidas de liberalização e desregulamentação dos mercados financeiros que induziriam o aumento na tendência na preferência pela liquidez nas expectativas que orientam o comportamento dos empresas financeiras.

Mais especificamente, expansões financeiras ocorreriam quando os fluxos de caixa esperados por meio da posse de ativos financeiros ou de atividades especulativas se tornam amplamente superiores do que os investimentos produtivos (Minsky, 2011, p.91). Em tais contextos, o empresário, cujas expectativas de renda se baseiam na sustentabilidade de seu investimento no longo prazo, é substituído pelo investidor (especulador) profissional, o qual busca o lucro de curto prazo resultante das variações iminentes na psicologia dos mercados (Keynes, 1996, p.160-163)7.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    em processos históricos apresenta relações causais recursivas. Ou seja, embora seja possível identificar que em (t.1) a entidade X exerceu efeito na entidade Y, nada impede que, em (t.2), Y também seja causa de alterações em X. Assim, o resultado agregado das interações entre agentes sociais é sempre dependente da trajetória, contingente, indeterminado e não linear. Consequentemente: “presumir a existência de um mundo político no qual estruturas e processos se repetem continuamente de forma similar é conveniente para teóricos sociais, no entanto, este mundo não existe” (Tilly, 1995, p.1596, tradução nossa).

6 Sobre mecanismos fortalecedores, Paul Pierson (2004, p.10, tradução nossa, grifo nosso) destaca que:

“processos históricos com mecanismos retroalimentadores podem ser altamente influenciados por perturbações relativamente modestas em suas fases iniciais e, portanto, produzir mais de um único resultado. No entanto, é extremamente difícil a reversão de uma tendência quando há o estabelecimento de uma trajetória particular”. Em relação a interação entre mecanismos fortalecedores e enfraquecedores, Victoria Tin-Bor Hui (2005, p.13, tradução nossa) considera que: “quando mecanismos de feedback negativo estão operando, qualquer mudança automaticamente gera forças em favor da restauração do equilíbrio. Quando mecanismos de feedback positivo operam, uma mudança em uma direção coloca em movimento pressões que reforçam a produção de mais mudanças na mesma direção”

7 Além de Keynes, Friedrich Engels, ao comentar os apontamentos de Marx no Volume 3 de O Capital,

destacou que a expansão dos mercados financeiros representava: “a abolição do modo capitalista de produção dentro do próprio modo capitalista de produção, e, portanto, uma contradição que se auto dissolve, que presenta prima facie uma mera fase de transição para um novo modo produtivo. Essa contradição se manifesta em seus efeitos. Ela estabelece o monopólio em certas esferas e, assim, requer a interferência estatal. Ela reproduz uma nova aristocracia financeira, uma nova variedade de parasitas na forma de especuladores ou diretores nominais; um novo sistema de escravidão e trapaça por meio da

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Além disso, o capital rentista - rendas provenientes de juros - bem como o capital fictício – contratos intercambiáveis sem contrapartida real - tornam-se o fundamento do modelos negócios não só de instituições financeiras, mas também dos demais agentes econômicos com capacidade de poupança (Gutman, 2008).

Causa e consequência de expansões financeiras, o segundo mecanismo delimitado consiste na consolidação da hegemonia dos agentes que constituem o capital financeiro. Nesse caso, destaca-se o aumento da capacidade de influência da alta finança nos processos decisórios estatais, bem como a formação de uma coalizão social que sustente politicamente a institucionalização da ideologia defendida pela alta finança nas organizações estatais (Arrighi, 1995; Bresser-Pereira, 2016). Do ponto de vista organizacional, agentes do mercado financeiro constituem Grupos Financeiros Transnacionais (GFT), isto é: “conjuntos de empresas legalmente separadas, unidas de formas formais e / ou informais persistentes” (Granovetter 2005, p.429, tradução nossa) e lideradas por uma (ou mais de uma) instituição financeira (Hilferding, 1981). Coalizões sociais, por sua vez, referem-se a conjuntos de organizações e agentes privados que compartilham de concepções ideológicas comuns e buscam influenciar o conteúdo normativo das intervenções estatais na economia (Boschi & Gaitan, 2016). Por hegemonia, por sua vez, entende-se a capacidade da coalizão social pró-financeirização exercer sobre o restante da sociedade:

uma preeminência não só coercitiva, mas também frequentemente econômica e cultural, inspirando-lhes e condicionando-lhes as opções, tanto por força do seu prestígio como em virtude do seu elevado potencial de intimidação e coerção (Belligni, 1998, p.581).

A crise de legitimidade8 do Estado liberal é o primeiro mecanismo enfraquecedor identificado. Ele emergiria em consequência dos efeitos desagregadores que a institucionalização do fundamentalismo de livre mercado na ordem reguladora de organizações estatais produz nos tecidos sociais. De acordo com Karl Polanyi (2000), na ideologia do livre mercado do capital financeiro advogada pelas altas finanças, pressupõe-se que as leis da oferta e demanda somente regularão a

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    promoção corporativa, emissão de ações e especulação de ações. Ela é a produção privada sem o controle da propriedade privada” (ENGELS apud, MARX, 1999, p.316, tradução nossa)

8 Define-se legitimidade como: “um atributo do Estado, que consiste na presença, em uma parcela

significativa da população, de um grau de consenso capaz de assegurar a obediência sem a necessidade de recorrer ao uso da força, a não ser em casos esporádicos. É por esta razão que todo poder busca alcançar consenso, de maneira que seja reconhecido como legítimo, transformando a obediência em adesão” (Levi, 1997, p. 675, tradução nossa).

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alocarão os recursos econômicos de maneira eficiente quando o trabalho humano, a terra (natureza) e as moedas estiverem completamente incorporadas à forma mercadoria. No entanto, segundo ele, tais elementos não são mercadorias de fato, na medida em que nenhum deles é produzido para a venda. De fato, eles são as próprias substâncias que constituem as sociedades. Logo, transforma-los em ativos passíveis de troca nos mercados financeiros significa subordinar os determinantes da existência humana a lógica da acumulação capitalista. No trecho abaixo, Karl Polanyi exemplifica o argumento ao sintetizar alguns dos efeitos sociais que a incorporação das terras comunais a forma mercadoria na Inglaterra no século XVIII.

Os cercamentos foram chamados, de uma forma adequada, de revolução dos ricos contra os pobres. Os senhores e os nobres estavam perturbando a ordem social, destruindo as leis e os costumes tradicionais, às vezes pela violência, às vezes por pressão e intimidação. Eles literalmente roubavam o pobre na sua parcela de terras comuns, demolindo casas que até então, por força de antigos costumes, os pobres consideravam como suas e de seus herdeiros. O tecido social estava sendo destruído; aldeias abandonadas e ruínas de moradias humanas testemunhavam a ferocidade da revolução, ameaçando as defesas do país, depredando suas cidades, dizimando sua população, transformando seu solo sobrecarregado em poeira, atormentando seu povo e transformando-o de homens e mulheres decentes numa malta de mendigos e ladrões (Polanyi, 1943, p.53).

Portanto, na perspectiva polanyiana, processos avançados de financeirização resultariam em uma degradação tão grande da vida da população que, eventualmente, a própria legitimidade da dominação estatal vigente é comprometida. Logo, cria-se um ambiente propício para o aumento da permeabilidade social de ideologias avessas aos princípios liberais - econômicos e políticos -, bem como de radicalização do conflito distributivo no interior das sociedades nacionais. Entretanto, é importante notar que a manifestação empírica de tais mecanismos de resistência são contextualmente variáveis, na medida em que estão inseridos em um campo mais amplo de disputa política no particulares a cada momento histórico (Streeck, 2016).

O segundo mecanismo enfraquecedor identificado consiste na emergência de crises hegemônicas no sistema interestatal. Segundo Arrighi, uma situação de crise hegemônica pode ser identificada quando “falta ao Estado hegemônico dominante os meios ou a vontade de continuar conduzindo o sistema de Estados numa direção em geral considerada capaz de expandir não só seu poder, como também o poder coletivo dos grupos dominantes do sistema” (Arrighi, 2007, p.160, grifo nosso). Nesse sentido, nota-se que a condição necessária para que a conexão entre financeirização e

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crise hegemônica ocorra é que a sociedade financeirizada corresponda àquela na qual o Estado hegêmona do sistema interestatal está inserido9. Em tais condições, Arrighi

identifica as tendências de: i) diminuição no diferencial de poder militar, econômico e ideológico do Estado hegemônico e Estados rivais; ii) acirramento de conflitos entre as Grandes Potencias em torno da organização e dos princípios normativos que constituem o sistema monetário e financeiro internacional.

No Quadro 1, abaixo, categorizou-se os quatro macro-mecanismos causais identificados de acordo com o sentido de sua atuação na dinâmica evolutiva de um processo de financeirização. Na subseção seguinte, partindo-se do panorama teórico apresentado, analisa-se a trajetória evolutiva da financeirização contemporânea, relacionando-a com o processo histórico de formação da hegemonia estadunidense no sistema interestatal.

Quadro 1 – Processos de Financeirização: mecanismos sociopolíticos em atuação

Mecanismo Fortalecedores Mecanismos Enfraquecedores

Expansão Financeira: formação de um regime de acumulação liderado pelas finanças. Remuneração de capitais fictício e rentista passam a orientar as decisões de investimento dos agentes econômicos.

Crise Hegemônica no Sistema Interestatal: diminuição do diferencial de poder entre o Estado hegemônico e potencias rivais. Acirramento do conflito político entre as Grandes Potencias do sistema interestatal.

Hegemonia Capital Financeiro: aumento das

capacidades de influência da alta finança nas dinâmicas políticas nacionais e internacionais. Formação de uma coalização social que sustenta politicamente a institucionalização da ideologia do livre mercado.

Crise de Legitimidade do Estado-liberal: Destruição do tecido social da sociedade financeirizada. Aumento da permeabilidade social e radicalização de ideologias e movimentos políticos contrários aos princípios (econômicos e/ou políticos) do liberalismo . Fonte: (Kindleberger, 1996; Polanyi, 2000; Arrighi, 1995, 2007; Gutman, 2008; Minsky, 2011;

Streeck, 2016). Elaboração Própria

HEGEMONIA ESTADUNIDENSE E FINANCEIRIZAÇÃO

De acordo com Giovanni Arrighi (1995), as conjunturas críticas que marcam o fim da hegemonia Britânica e o início da hegemonia dos Estados Unidos no sistema interestatal são a Primeira Guerra Mundial (1914), a Crise Financeira de 1929 e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No entanto, segundo o autor, tais crises se

                                                                                                                                       

9 No nível interestatal, hegemonia se refere tanto à supremacia militar, quanto a capacidades

relacionadas com a gestão, organização e manutenção de uma ordem internacional (institucional, econômica e valorativa) aceita pela maior parte das demais unidades do sistema (Arrighi, 2007). Além disso, é importante notar que sustentabilidade esta fortemente relacionada com a ordem a disposição do próprio Estado líder se submeter às regras e normas institucionais por ele estabelecidas (Skidmore, 2005).

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inseriam em um processo histórico mais amplo, caracterizado pela financeirização da economia inglesa e, simultaneamente, pela ascensão dos Estados Unidos e Alemanha como novas potencias industriais no sistema interestatal. Conforme ilustra o Gráfico 1 abaixo, tal processo remonta a segunda metade do século XIX e se consolida ao longo do século XX.

Fonte: Correlates of War. Elaborado pelo autor.

Com a destruição da economia inglesa e o desmembramento da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, o Estado estadunidense se consolida como a organização política mais poderosa do sistema interestatal, bem como assume a liderança do processo de reconstrução das instituições de governança do sistema internacional (Skidmore, 2005). No entanto, é forçoso lembrar que a construção da hegemonia internacional estadunidense foi condicionada pelo permanente desafio permanente imposto pela consolidação da União das Repúblicas Soviéticas (URSS) como Estado membro do sistema interestatal. Conforme destaca Hobsbawm (1994), o desempenho do Exército Vermelho contra as forças alemãs e japonesas, a Revolução Comunista Chinesa em 1951, bem como o sucesso da industrialização soviética representavam não só ameaças ao interesses estratégicos imediatos dos EUA, mas também um desafio ideológico ao próprio liberalismo político e econômico.

A modernização do parque industrial soviético era particularmente ameaçadora em função do legado deixado pela Crise Financeira de 1929. Nota-se que entre 1929 e 1932, a renda nacional estadunidense despencou 43%, a taxa de

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desemprego se elevou 25% e aproximadamente 5000 instituições bancárias entrado em falência (Beluzzo & Galipolo, 2017). Na Europa Ocidental, os efeitos da crise se somaram a destruição dos parques industriais durante as duas guerras mundiais. Ademais, a proximidade geográfica com a URSS ampliava a percepção de ameaça em relação ao fortalecimento de movimentos socialistas no interior das sociedades europeias. Por sua vez, na periferia do capitalismo – América Latina, África e Ásia – o modelo de planejamento econômico centralizado soviético era atrativo aos olhos das elites políticas nacionais modernizantes (Hobsbawn, 1994).

Mediante tal contexto internacional, os agentes estatais encarregados da estratégia de construção dos pilares institucionais da hegemonia dos EUA conceberam que o enfrentamento do comunismo exigiria a contenção do poder político do capital financeiro. Em outras palavras, diante da permanente possibilidade de emergência de revoluções socialistas no interior de países do bloco capitalista, as crises e distorções sociais geradas por processos de financeirização não eram uma opção. Tal percepção pode ser identificada em trecho da fala do Presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt durante discurso de lançamento da segunda fase do New Deal em 1936:

Tivemos que lutar contra os velhos inimigos da paz: corporações, monopólio financeiro, especulação, bancos irresponsáveis, antagonismo de classes, seccionalismo e a indústria da guerra. Tais forças começaram a considerar o governo dos Estados Unidos como um mero apêndice de seus próprios assuntos. Sabemos agora que o governo organizado pelo dinheiro é tão perigoso quanto o governo pela máfia organizada. Nunca antes em toda a nossa história essas forças estiveram tão unidas contra um candidato como estão hoje. Eles são unânimes em seu ódio por mim, ódio o qual eu saúdo

(Roosevelt, 1933, tradução nossa, grifos nossos)10.

No âmbito doméstico, o enfrentamento do capital financeiro se materializou na aprovação do Banking Act (Glass Stegal) no Congresso estadunidense em 1933. Tal legislação estabelecia fortes restrições a atuação da alta finança: limites nas taxas de juros de bancos privados, criação do seguro depósito e, conforme exemplificado pela Seção 32 reproduzida abaixo, severa segmentação de atividades de instituições financeiras:

                                                                                                                                       

10  No original: “we had to struggle with the old enemies of peace--business and financial monopoly,

speculation, reckless banking, class antagonism, sectionalism, war profiteering. They had begun to consider the Government of the United States as a mere appendage to their own affairs. We know now that Government by organized money is just as dangerous as Government by organized mob. Never before in all our history have these forces been so united against one candidate as they stand today. They are unanimous in their hate for me--and I welcome their hatred”. Disponível em:

http://docs.fdrlibrary.marist.edu/od2ndst.html

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Após o dia primeiro de janeiro de 1934, nenhum funcionário ou diretor de um banco membro será, ao mesmo tempo, funcionário, diretor ou gestor de uma organização engajada em atividades de securitização. Ademais, relações correspondentes entre bancos e seguradoras estão proibidas, exceto quando expressamente autorizadas pelo Conselho do Banco Central. O Conselho poderá emitir tal autorização se ela não foi incompatível com o interesse público e poderá removê-la se o interesse pública necessitar (FED, 1933, p.14, tradução nossa, grifo nosso).

Na esfera internacional, por sua vez, o controle ao poder do capital adveio da institucionalização do sistema monetário de Bretton Woods. Este regime era caracterizado por taxas de câmbio fixas garantidas pela disposição do Banco Central dos EUA assegurar a paridade do dólar – moeda internacional de reserva – em relação ao ouro, bem como rigorosos entraves para a circulação de capitais transnacionais. Graças a esse arranjo institucional, as nações do bloco capitalista possuíam capacidades estatais para realizar políticas monetárias e fiscais expansionistas sem a preocupação de sofrerem ataques especulativos a suas moedas e/ou fugas abruptas de capital (Carneiro, 2002; Sassen, 2006).

Além disso, a liderança estadunidense no bloco capitalista implicou uma política externa de engajamento ativo na reconstrução não apenas das economias de países da Europa Ocidental, mas também de nações estratégicas ao combate no avanço do socialismo, como Coreia do Sul, Japão e Taiwan. Tais esforços envolveram a exportação de capitais norte-americanos, concessão de condições de acesso ao crédito internacional, bem como abertura do mercado interno estadunidense para exportações provenientes do bloco capitalista (Skidmore, 2005; Panitch & Gindin, 2012)11.

Por conta dessa configuração de poder e preferências na política interna do Estado hegêmona, as capacidades de atuação política da alta finança e a influência do fundamentalismo de livre mercado no interior do bloco capitalista foram relativamente restritas durante o período que abrange o início da década de 1930 até meados da década de 1960. Por conta disso, nos países centrais – EUA e Europa Ocidental - esse período foi caracterizado pela implementação de políticas keynesianas, as quais induziam a elevação do salario na renda nacional, investimentos

                                                                                                                                       

11 No âmbito securitário o Estado norte-americano foi impelido a i) elevar continuamente seus gastos

militares para sustentar a dianteira na corrida armamentista nuclear e convencional contra a URSS e ii) institucionalizar alianças militares coletivas e bilaterais ao redor do globo (Skidmore, 2005).

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públicos, universalização dos sistemas de bem-estar social e redução dos níveis de desigualdade (Piketty, 2013; Streeck, 2016; Varoufakis, 2016). Nos países da periferia do sistema – América Latina e Ásia – a Era de Ouro do capitalismo é marcada pela formação de Estados-desenvolvimentistas que lograram relativos sucessos em projetos de industrialização (Diniz, 2013; Bresser-Pereira, 2016).

Quadro 2 – Arranjo Político e Institucional da Era de Ouro

Nível de Análise Pilares Políticos e Institucionais Mecanismos Enfraquecedores da Financeirização

Interestatal Ameaça da influência soviética no

interior do bloco capitalista.

Aumento do poder da coalizão social contrária ao

fundamentalismo de livre mercado nos processo

decisórios do Estado hegêmona.

Doméstico Institucionalização do

Glass-Steagal Act

Restrições à atuação do capital financeiro e ao avanço do capital fictício na dinâmica de acumulação de capital.

Transnacional Institucionalização do regime de Bretton Woods

Restrições à mobilidade de capitais e especulação cambial. Manutenção de capacidades-estatais para realização de políticas econômicas contrarias aos interesses da alta-finança. Fonte: (Arrighi, 1995, 2007; Gutman, 2008; Streeck, 2016; Varoufakis, 2016). Elaboração Própria

Entretanto, conforme argumenta Varoufakis (2016) o arranjo institucional que impedia a emergência da financeirização era frágil. Segundo ele, o primeiro pilar de contenção começa a erodir ainda na primeira metade da década de 1960, com a criação dos mercados de eurodólares. Os euromercados constituíam circuitos financeiros dentro da Europa – fora da jurisdição do Glass Steagal Act - negociados em dólar. Com a migração do capital financeiro estadunidense para essas praças em busca de maiores taxas de lucratividade, não apenas aumentavam as pressões sobre a paridade dólar-ouro, como Grupos Financeiros nos dois lados do atlântico norte começavam a se integrar. Desse modo, conforme destacam Panitch & Gindin (2012, p.20, tradução nossa):

com o desenvolvimento dos mercados desregulamentados de eurodólar e a expansão internacional de bancos e multinacionais norte-americanas, o campo de operação da alta finança estadunidense se expandiu para além do

que o regime regulatório que o New Deal abarcava

É importante notar, no entanto, que as conjunturas críticas que definiram a transição para um novo período de financeirização ocorreram apenas quando o arranjo

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institucional da Era de Outro entrou em contradição com os interesses estratégicos do Estado estadunidense. Isso ocorre quando os déficits no balanço de pagamento dos Estados Unidos crescem exponencialmente em função do impasse na Guerra do Vietnã e do aumento da competitividade das exportações japonesas e alemãs Nesse contexto, forçado a optar entre a paridade dólar-ouro e a supremacia econômica e militar de seu país, Nixon decide unilateralmente renunciar aos acordos de Bretton Woods em 1971 (Hobsbawm, 1994; Arrighi, 1995).

Com o fim do padrão dólar-ouro, a moeda estadunidense se tornou a primeira moeda global de reserva totalmente fiduciária da história do capitalismo, desvinculada de qualquer lastro material e sustentada pela autoridade dos Estados Unidos. Com isso, os demais países inseridos no mercado financeiro internacional se tornam obrigados a manterem reservas em dólar em seus balanços de pagamentos para se defenderem de ataques especulativos a suas próprias moedas. Desse modo, enquanto Washington adquiriu o privilégio exorbitante de expandir indefinidamente seus gastos militares, seus aliados reduzem consideravelmente suas capacidades estatais de realização de política econômica autônoma (Panitch & Gindin, 2012)

Nesse novo ambiente internacional, a hegemonia estadunidense no interior do bloco capitalista se tornou menos consensual e mais impositiva (Skidmore, 2005). Como exemplo, destaca-se a atuação política do Estado norte-americano nos dois choques do petróleo (1973) e (1979), bem como na elevação da taxa básica de juros pelo FED para 18.7% em 1981 (Varoufakis, 2016, p.126). Tais medidas foram variáveis fundamentais na reversão dos fluxos de capitais para o setor financeiro estadunidense – Wall Street passa a absorver a liquidez internacional – e, consequentemente, a desarticulação das economias alemãs e japonesas, bem como a interrupção dos processos de industrialização na periferia do sistema (Bresser-Pereira, 2016).

(13)

Fonte: Banco Mundial (2019)

No âmbito político, o retorno definitivo da alta finança ao comando do capitalismo mundial ocorre com a eleição de Ronald Reagan (1980) nos Estados Unidos. A partir de então, a ideologia neoliberal passa a orientar as intervenções econômicas do Estado norte-americano12 (Skidmore, 2005; Harvey, 2005; Varoufakis,

2016). Empiricamente, a agenda neoliberal se manifesta na forma de políticas de redução tributária sobre ganhos de capital, privatização de ativos estatais, desregulamentação dos sistema financeiros e de trabalho, institucionalização de políticas de austeridade, desmantelamento de sistemas de bem-estar social, as quais, por sua vez, produziram aumento nos níveis de desigualdade social e na concentração de poder e riqueza em agentes do mercado financeiro (Carneiro, 2002; Bresser-Pereira, 2016; Streeck, 2016; Dweck, Rossi & Oliveira; 2018).

No âmbito retórico, o argumento neoliberal se fundamenta no pressuposto de que, por não estar submetido a concorrência de mercado, o setor público é sempre menos eficiente do que a iniciativa privada. Consequentemente, para que os maiores níveis de utilidade agregada possam ser alcançados, as capacidades de intervenção estatal não apenas na economia, mas na sociedade como um todo devem ser as menores possíveis. Assim, o Estado-neoliberal ideal é aquele cuja atuação está restrita a defesa dos direitos de propriedade e a garantia das condições institucionais necessárias para a livre negociação de capital e trabalho (Friedman, 2014; Lisboa & Pessoa, 2016; Micklethait & Aldrige, 2014; Samuelson, 1947) No âmbito retórico, a

                                                                                                                                       

12 Com a importante exceção dos gastos de defesa. Para análises densas sobre a normatividade

neoliberal ver Larner (2000) e Dardot & Laval (2016).

0   2   4   6   8   10   12   14   16   18   20   1960   1961   1962   1963   1964   1965   1966   1967   1968   1969   1970   1971   1972   1973   1974   1975   1976   1977   1978   1979   1980   1981   1982   1983   1984  

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justificativa neoliberal pode ser exemplificada no trecho do discurso de posse do Presidente estadunidense Ronald Reagan em 1981:

Nos dias que virão, irei propor a redução dos entraves que desaceleraram nossa economia e reduziram a produtividade. Iniciativas serão tomadas visando a restauração do balanço entre os distintos níveis de governo. O progresso será lento – medido em centímetros, não milhas - mas acontecerá. É a hora de acordar novamente esse gigante industrial, colocar o governo novamente onde ele deve estar, e amenizar nosso sistema tributário punitivo. E essas serão nossas primeira prioridades, e sobre esses princípios não iremos abrir mão (Reagan, 1981, tradução nossa,

grifos nossos)13.

No âmbito interestatal, a política externa da “Doutrina Reagan” significou o abandono da política externa de coexistência pacífica com a União Soviética estabelecida durante as administrações anteriores (Hobsbawm, 1994; Panitch & Gindin, 2012). Munido da capacidade fiscal expansionista infinita em função do caráter fiduciário do dólar, o governo estadunidense não apenas elevou a corrida armamentista a um novo patamar, como se engajou na guerra do soviético-afegã em 1979 (Arrighi, 1995). Pressionada por problemas socioeconômicos internos resultantes da escalada dos gastos militares e por um ambiente internacional cada vez mais hostil a União Soviética se desintegra em 199114. Extinguisse assim o segundo pilar de contenção da financeirização.

Gráfico 3 – Gastos Militares Estados Unidos e URSS (1950 – 1991)

                                                                                                                                       

13 No original: “In the days ahead, I will propose removing the roadblocks that have slowed our

economy and reduced productivity. Steps will be taken aimed at restoring the balance between the various levels of government. Progress may be slow -- measured in inches and feet, not miles -- but we will progress. It is time to reawaken this industrial giant, to get government back within its means, and to lighten our punitive tax burden. And these will be our first priorities, and on these principles there

will be no compromisse”. Disponível em:

https://www.americanrhetoric.com/speeches/ronaldreagandfirstinaugural.html

14 Para análise dos fatores internos que contribuíram para a desintegração da União Soviética ver

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Fonte: Cow, 2019. Elaboração Própria

No entanto, competiria ao Presidente Democrata Bill Clinton acabar com Glass Steagal Act, último elemento do arranjo institucional da Era de Ouro. Em 1999, Clinton assina o Gramm–Leach–Bliley Act, o qual repelia as imposições legais para a fusão de empresas que atuam em distintas atividades do mercado financeiro. A partir de então, por exemplo, bancos comerciais não só poderiam participar dos mercados de capitais e atividades de securitização, como também constituírem alianças formais com corretoras, seguradoras e fundos de investimento. Consequentemente, conforme destaca Costa Lapavistas (2013, p.16), as instituições bancárias cada vez mais "concentraram suas atividades nos mercados financeiros abertos com o objetivo de obter lucros por meio de negociações financeiras, em vez de empréstimos e empréstimos diretos."

Nota-se que o novo arranjo institucional da hegemonia estadunidense se orientava no sentido da desregulamentação e liberalização dos mercados financeiros, duas condições necessárias para a emergência dos mecanismos fortalecedores de processos de financeirização. O fortalecimento político capital financeiro transnacional, por exemplo, se consolida com o incremento fusões e aquisições empresariais ao longo da década de 1990 (Standing, 2016; Varoufakis, 2016). Nesse contexto, formam-se o oligopólios bancários ‘sistemicamente importantes’ - grandes demais para irem a falência sem provocarem crises financeiras generalizadas - e, portanto, com enorme poder de barganha em relação aos governos nacionais (Streeck,

0   50000000   100000000   150000000   200000000   250000000   300000000   350000000   1950   1952   1954   1956   1958   1960   1962   1964   1966   1968   1970   1972   1974   1976   1978   1980   1982   1984   1986   1988   1990   G ast os   M il it ar es   -­‐  m il h ar es   d e   d ól ar es   EUA   URSS  

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2016). A Tabela 1 ilustra o grau de concentração poder de tais oligopólios. Ela sintetiza a análise realizada por François Morin (2015, p.36) sobre a trajetória evolutiva do PIB global, a dívida pública mundial e o valor nominal dos produtos financeiros derivados dos 28 bancos sistêmicos nos período entre 2003 e 2014.

Tabela 1 – Expansão do Capital Fictício na Economia Mundial

Relação entre Estados-nacionais e Bancos Sistêmicos: indicadores selecionados (trilhões de dólares) Ano 2003 2005 2007 2009 2011 2013 PIB Mundial 37,8 46,0 56,2 58,4 70,8 73,5 Dívida Pública Mundial 23,6 26,4 30,0 37,5 46,3 51,8 Produtos derivados de bancos sistêmicos 197,2 297,7 595,3 603,9 647,8 710, 2

Fonte: Morin (2015, p.36, apud, Dowbor, 2017, p.79).

Outra característica particular do capital financeiro internacional contemporâneo é o surgimento dos investidores institucionais. Esses constituem instituições financeiras não bancárias cujas atividade principais são captar e gerir recursos de terceiros nos mercados mobiliários (Fortuna, 2011). Do ponto de vista político, investidores institucionais reforçam a lógica de expansão da financeirização ao incorporarem uma diversa gama de setores sociais da sociedade aos mercados financeiros, bem como ao difundirem as concepções normatividade neoliberal (Dowbor, 2017)15.

A importância sistêmica dos Fundos de Investimento pode ser exemplificada pela companhia Blackrock. Atualmente a Blackrock é o maior investidor institucional do mundo, possuindo U$ 6.4 trilhões de ativos em seu portfólio. Tais fundos são geridos pelo sistema operacional Alladin (Asset Liability and Debt and Derivatives

                                                                                                                                       

15 Fundos de Pensão, por exemplo, são especializados na gestão de recursos previdenciários de

ex-funcionários de empresas privadas ou estatais. Fundos de Crédito Privado, focados no resgate de empresas não financeiras endividadas, alteração de seus modelos de gestão corporativa e posteriormente venda de suas ações no mercado de capitais. Family Offices: especializados na perpetuação do patrimônios de famílias ricas.

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Investment Network), produzido por uma equipe de engenheiros da computação no

Vale do Silício. Este software não é somente usado pela Blackrock, mas também comercializado para outras instituições financeiras e governos. Com sede em Nova York, a Blackrock promove prestação de serviços de consultaria em mais de 30 países e gere recursos 89 das 100 maiores empresas listadas pela revista Fortune em 201816. Indicadores empíricos da retomada da centralidade do capital fictício no regime de acumulação de capitalista, por sua vez, exemplificam-se nos altos níveis de endividamento público da economia global, bem comon o forte crescimento do volume das operações de securitização a partir da década de 1990 (Boyer, 2000; Gutman, 2008). O avanço da prática da securitização ocorre em um contexto de digitalização e profusão de inovações financeiras no mercado de derivativos: futuros, opções, swaps, ou forwards (Sassen, 2006). Além disso, de amplo acesso da alta finança transnacional aos paraísos fiscais, isto é, uma “rede sistêmica de territórios que escapam das jurisdições nacionais, permitindo que o conjunto dos grandes fluxos financeiros fuja das obrigações fiscais e mascare suas origens e destinos (Dowbor, 2017).

Desse modo, conforme ficou evidenciado na Crise de 2008, derivativos são utilizados não ferramentas de proteção contra o risco, mas fundamentalmente como instrumentos de especulação altamente lucrativos (Varoufakis, 2016). De acordo com relatório da UNCTAD, o volume do mercado de derivativos financeiros em 2016 era de 483 trilhões de dólares, excedendo em mais de seis vezes o valor do PIB mundial - 78 trilhões de dólares (UNCTAD, 2016).

Quadro 3 – Arranjo Político e Institucional Financeirização Contemporânea Nível de Análise Pilares Políticos Institucionais Mecanismos Fortalecedores

Financeirização

Interestatal Colapso da URSS.

Enfraquecimento político das coalizões sociais democrata (EUA e UE) e

desenvolvimentista (América Latina). Consolidação

hegemonia nos Estados Unidos.

Doméstico (EUA, Europa Ocidental)

Formação mercados eurodólares.

Institucionalização Gramm– Leach–Bliley Act

Integração do capital financeiro estadunidense e europeu. Avanço do capital fictício na dinâmica de acumulação de capital.

                                                                                                                                       

16 Disponível em: https://www.blackrock.com/br

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Transnacional

Institucionalização dólar como moeda internacional fiduciária. Liberalização e

desregulamentação mercados financeiros internacionais.

Diminuição das capacidades estatais em relação aos GFT. Fonte: (Arrighi, 1995, 2007; Gutman, 2008; Panitch & Gindin, 2012; Streeck, 2016; Varoufakis, 2016).

Elaboração Própria

CONSIDERAÇÕES FINAIS: AGENTES POLÍTICOS DA FINANCEIRIZAÇÃO

Nas seções anteriores, identificamos quatro macro-mecanismos causais que permearam a emergência de processos históricos de financeirização, bem como analisamos nexos entre a globalização financeira contemporânea e a hegemonia dos EUA no sistema internacional. Para concluir, iniciamos a discussão sobre o papel da

agência em processos de financeirização. Por conta disso, apresenta-se categorias

analíticas ainda em construção acerca dos agentes políticos da financeirização (APF), entendidos como: indivíduos e organizações privadas que atuam politicamente para defender interesses econômicos e/ou ideológicos que fortalecem a reprodução do processo de financeirização ao longo do tempo.

Preliminarmente, propõe-se avaliar os APF a partir de dois níveis de análise complementares: sociológico e organizacional. No primeiro, os agentes do mercado financeiro se manifestam empiricamente como a Alta Finança, isto é, comunidade formada por indivíduos localizados em posições de comando nas hierarquias institucionais das empresas financeiras, que compartilham concepções ideológicas comuns e atuam na esfera política nacional e internacional (Polanyi, 2000). Contemporaneamente, tais indivíduos constituem elites globais, as quais se encontram em paraísos fiscais, jantares de gala, palestram em fóruns econômicos internacionais e participam da gestão e do controle de múltiplas firmas ao mesmo tempo (Robinson, 2014).

No nível de análise operacional, os APF atuam na forma de Grupos Financeiros Transnacionais, ou seja: “conjuntos de empresas legalmente separadas, unidas de formas formais e/ou informais persistentes” que atuam em mais de um sistema político nacional e cujo domínio do processo decisório é de (uma ou mais de uma) instituição financeira (Gonçalves, 1991; Granovetter, 2005, p.429, tradução

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nossa). Mais especificamente, conforme sintetiza Minella (2006, p.3), GFT constituem:

conglomerados multinacionais que atuam e diversos segmentos do sistema financeiro e, além disso, se integram a núcleos que agregam empresas que atuam em diversos setores da economia, constituindo grupos econômicos ou grupos financeiros, cujos interesses e vínculos se estendem também para uma diversificada gama de interesses sociais, culturais e políticos

No âmbito político, considera-se que ambas entidades – Alta Finança e GFT – atuam como: “coletividades cujo conhecimento sobre as condições de reprodução do sistema social é usado para influenciar, dar forma, ou modificar o próprio sistema (Giddens, 2001, p.36). Nesse contexto, a pergunta que se impõe é: como os APF mobilizam capacidades e empregam recursos para defender seus interesses no Brasil? A hipótese de trabalho preliminar é que os APF não apenas influenciam na agenda das instituições políticas nacionais (Executivo, Legislativo burocracia), como também são capazes de generalizar seus interesses particulares na sociedade por meio da difusão da ideologia neoliberal na sociedade brasileira. Portanto, estamos interessados em compreender:

a eficiência de suas hierarquias, suas capacidades de aproveitamento dos recursos disponíveis, suas habilidades para explorar ou gerar símbolos para os quais as pessoas desenvolvem fortes apegos, bem como suas capacidades de influenciar ou controlar comportamentos e crenças (Midgal, 2004, p.107, tradução nossa).

A operacionalização empírica da hipótese será realizada através do estudo de caso de um APF no Brasil17. Três categorias analíticas orientam a pesquisa: estrutura organizacional, ideologia e capacidades. Por estrutura organizacional, nos referimos a: i) conexões e divisão de trabalho entre as firmas que compões o grupo; e ii) hierarquia e correlação de forças entre gestores, controladores e acionistas. Por ideologia, entende-se: “sistemas de pensamento político, sobre os quais indivíduos e grupos sociais constroem seus entendimentos sobre o mundo político em que habitam e, com base neles, atuam politicamente” (Freeden, 2006, p.4, tradução nossa, grifo nosso). Tal categoria será estudada empiricamente por meio da análise de conteúdo de normas, práticas, discursos e entrevistas.

                                                                                                                                       

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Por capacidades, entendemos atributos dos agentes cujas utilidades variam de acordo com a estratégia de emprego, bem como o sistema relacional em que uma unidade política está inserida. Em outras palavras, aos “recursos que os agentes empregam para buscarem seus fins” (Giddens, 2001, p.34, grifo nosso). Preliminarmente, indica-se o desenvolvimento de indicadores sobre capacidades relacionadas com três atividades: 1) Vigilância: acumulação e armazenamento de informação codificadas que podem ser usadas para administrar atividades de indivíduos, bem como balizar processo de tomada de decisão. 2) Hegemonia: formulação e difusão de ordens simbólicas aceita por membros de grupos ou classes dominantes. 3) Influência: acesso a canais formais e informais de influência no processo decisório de agentes políticos e instituições estatais (Giddens 2001; Midgal, 2004; Sassen, 2006). A Figura 1 sintetiza as relações entre as categorias que definem os agentes políticos da financeirização, bem como os constructos teóricos pelos quais eles serão analisados.

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ANEXOS A) Estrutura Organizacional do Grupo XP

A estrutura organizacional do Grupo XP pode ser entendida a partir de três níveis de hierarquia. No nível superior, localizam-se os agentes com capacidade de influenciar no processo de tomada de decisão do Grupo como um todo: Itaú-Unibanco, General Atlantic e XP Controle. No nível intermediário, situa-se a XP Investimentos, organização cuja gestão e controle são compartilhados entre os integrantes do nível superior. Por último, o nível inferior, onde se localizam o Portal InfoMoney e o conjunto de Agentes Autônomos XP. Nesse caso, situam-se empresas que, embora mantenham um processo de tomada de decisão próprio, estão legalmente subordinadas à XP Investimentos. O Quadro 4 e a Figura 5 abaixo ilustram as relações de propriedade do Grupo XP.

Quadro 4 – Níveis de Hierarquia Intra-Grupo XP Agentes  

Controladores   Itaú-­‐Unibanco  Holding  S.A   XP  Controle   Service  Company  General  Atlantic  

Núcleo  do  

Grupo   XP  Investimentos  

Agentes  

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Referências

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