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A necessidade de avaliação de risco em barramentos de rios urbanos

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1º Simpósio Brasileiro Cidades + Resilientes

28 a 30 de outubro de 2020

Trabalho Inscrito na Categoria de Artigo Completo 978-65-86753-09-7

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EIXO TEMÁTICO:

( ) Tópico Especial: A Cidade e o Isolamento Social ( ) Cidades Inovadoras

( ) Mobilidade Urbana Sustentável

( ) Geotecnologias e Investigação Geotécnica das Cidades (X) Gestão e Tecnologias Aplicadas aos Sistemas de Saneamento

A necessidade de avaliação de risco em barramentos de rios urbanos

The need to risk assessment in urban river dam

La necesidad de una evaluación de riesgos en las presas fluviales urbanas

Gabriella Oliveira Baracho

Discente do Curso de Engenharia Civil, UFSCar, Brasil [email protected]

Erich Kellner

Professor Doutor, UFSCar, Brasil. [email protected]

Rafaella Oliveira Baracho

Professora, IF Baiano Campus Xique-Xique, Brasil. [email protected]

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RESUMO

O Brasil é um país que faz ampla utilização das estruturas de reservação de fluidos denominadas barragens, tanto para água (seja de uso de abastecimento público ou recreativos), quanto rejeitos, majoritariamente de mineração. Com efeito, a temática de segurança de barragens tem sido largamente discutida principalmente após os acidentes recentes de grande impacto em aspectos ambientais e sociais. Por determinação legal, é necessária que seja feita a gestão de risco dessas estruturas a fim de prospectar áreas de inundação e consequências do rompimento. A gestão de riscos é tida como a avaliação da possibilidade de não atingimento de um objetivo, quais ações devem ser tomadas para mitigar o risco e idealmente eliminá-lo. No caso de barragens, o objetivo é a manutenção de seu desempenho durante sua vida útil e a continuidade da segurança mediante manutenção após esse período. Em caso de barragens em áreas urbanas, o dano potencial associado aumenta consideravelmente, ponto de importância visto que o Brasil possui uma parcela significativa de estruturas como essas em seus rios urbanos. Mesmo o maciço possuindo baixa altura, representam um risco potencial, principalmente em casos de barragens conseguintes no mesmo rio. Em adendo, o Brasil não possui dados suficientes frente a quantidade existente no Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens, o que revela a negligência dos empreendedores e das gestões públicas na investigação dessas estruturas. Esse trabalho demonstrará a partir de revisão bibliográfica a necessidade e avaliação de risco de barragens em áreas urbanas.

PALAVRAS-CHAVE: Barramento. Segurança de barragens. Açudes em área urbana.

ABSTRACT

Brazil is a country that makes extensive use of fluid reservoir structures called dams, both for water (whether for public supply or recreational use), as well as tailings, mostly mining. Indeed, the topic of dam safety has been widely discussed, especially after recent accidents of great impact on environmental and social aspects. By legal determination, it is necessary to carry out the risk management of these structures in order to prospect areas of flooding and consequences of the disruption. Risk management is seen as the assessment of the possibility of not achieving an objective, what actions should be taken to mitigate the risk and ideally eliminate it. In the case of dams, the objective is to maintain their performance during their useful life and to continue safety through maintenance after that period. In the case of dams in urban areas, the associated potential damage increases considerably, a point of importance since Brazil has a significant share of structures like these in its urban rivers. Even the massif having low height, they represent a potential risk, especially in cases of dams succeeding in the same river. In addition, Brazil does not have sufficient data in view of the amount existing in the National Information System on Dam Safety, which reveals the negligence of entrepreneurs and public administrations in the investigation of these structures. This work will demonstrate, from a bibliographic review, the need and risk assessment of dams in urban areas

KEY-WORDS: Dam. Weir Safety. Dams in urban rivers. RESUMEN

Brasil es un país que hace un uso extensivo de estructuras de reservorios de fluidos llamadas presas, tanto para agua (ya sea para suministro público o para uso recreativo), como para relaves, principalmente minería. De hecho, el tema de la seguridad de las presas ha sido ampliamente discutido, especialmente después de accidentes recientes de gran impacto en los aspectos ambientales y sociales. Por determinación legal, es necesario realizar la gestión de riesgos de estas estructuras con el fin de prospectar áreas de inundación y consecuencias de la interrupción. La gestión de riesgos es vista como la evaluación de la posibilidad de no lograr un objetivo, qué acciones se deben tomar para mitigar el riesgo e idealmente eliminarlo. En el caso de las presas, el objetivo es mantener su desempeño durante su vida útil y continuar la seguridad mediante el mantenimiento después de ese período. En el caso de las represas en áreas urbanas, el daño potencial asociado aumenta considerablemente, un punto de importancia ya que Brasil tiene una participación significativa de estructuras como estas en sus ríos urbanos. Incluso el macizo tiene poca altura, representan un riesgo potencial, especialmente en los casos de presas que triunfan en el mismo río. Además, Brasil no cuenta con datos suficientes en vista del monto existente en el Sistema Nacional de Información sobre Seguridad de Represas, lo que revela la negligencia de empresarios y administraciones públicas en la investigación de estas estructuras. Este trabajo demostrará, a partir de una revisión bibliográfica, la necesidad y evaluación de riesgos de las represas en áreas urbanas.

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1. INTRODUÇÃO

A Lei n° 12.334/2010 (BRASIL, 2010) definiu Segurança de Barragem com a condição que vise a manter a sua integridade estrutural e operacional e a preservação da vida, da saúde, da propriedade e do meio ambiente das barragens. A mesma lei define gestão de risco como sendo ações de caráter normativo, bem como aplicação de medidas para prevenção, controle e mitigação de riscos

A temática de segurança de barragem está em evidência dentro da área de Engenharia Civil devido os rompimentos recentes dessas estruturas, com maior ênfase no acidente da Barragem do Fundão, em Mariana-MG (2015). Esse rompimento resultou em grandes impactos ambientais ao Rio Doce assim como prejuízos materiais e grande impacto nas vidas da região afetada, assim como aconteceu após a ruptura da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho-MG (2019), que ocasionou mais de 200 mortes além prejuízos sociais e ambientais.

Apesar de ambos os acidentes terem ocorrido com grandes barragens, ou seja, acima de 15 metros, de acordo com estudo estatístico elaborado por Rico et al (2008), os acidentes com barragens são igualmente incidentes em alturas de paredão inferiores a 15m. Dessa forma, questiona-se sobre o estado de conservação e o impacto do rompimento de barragens pequenas, porém em área urbana, podem causar.

Uma barragem em situação similar como a descrita acima é a localizada no corpo do rio Monjolinho e que forma o lago da Universidade Federal de São Carlos. No ano de 2017 a barragem foi interditada preventivamente devido a possível incapacidade do vertedor em verter as águas proveniente do escoamento superficial direto da bacia a montante da barragem (UFSCar, 2017). Tal evento, levanta um debate acerca do risco associado a barragens construídas em rios urbanos devido seu impacto por rompimento nas áreas a jusante do rio represado. A partir disso, extrapolamos o questionamento, avaliando a necessidade de quantificar o dano de acidentes em barragens de rio urbano, mesmo em estruturas pequenas (alturas de paredão de 5 a 10m), como o caso da barragem da UFSCar, e seu impacto sobre a cidade.

2. OBJETIVOS

O objetivo deste artigo é evidenciar a necessidade de avaliação de risco para barragens de pequeno porte em área urbana, a partir de revisão bibliográfica. Os objetivos específicos são:

 Identificar como a segurança de barragens é entendida na área de engenharia, a partir

da literatura especializada;

 Caracterizar o que é gestão de riscos e sua aplicação para estruturas de retenção de

grandes volumes, a partir da literatura especializada.

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A metodologia do trabalho foi dividida em três etapas: revisão bibliográfica de artigos e documento acadêmicos relacionados a segurança de barragem; busca e análise da legislação nacional relacionada; e busca de dados na plataforma SNISB. O fluxo de trabalho da Etapa 1 pode ser observado na Figura 1. Os resultados da busca aqui executada apresentam uma visão geral da literatura selecionada sobre segurança de barragem. Para tanto, realizou-se testes com de palavras chave e descritores até encontrar aqueles que se traduziam em uma produção científica na temática desejada, dentro das bases de dados (Periódicos CAPES, Google Scholar,

Web of ScienceTM - WoS - e Scopus®) selecionadas para o estudo. A busca restringiu-se aos

documentos em inglês e português. Não houve limitação temporal na busca, ou seja, todos os anos que surgiram na busca foram incluídos. Realizou-se então a seleção dos artigos a partir do título e resumo, e aplicando os seguintes critérios:

 Critérios de inclusão: artigos, teses e dissertações em inglês e português voltados à

segurança de barragem;

 Critérios de exclusão: artigos que apenas mencionam os descritores bem como suas

traduções para língua inglesa, sem de fato abordar o tema.

Em seguida, a partir da leitura completa dos documentos, selecionou-se aqueles cujo conteúdo auxiliava na resposta aos objetivos geral e específicos do artigo.

Figura 1 - Etapa 1 da metodologia: revisão bibliográfica

Seleção de plataformas de trabalhos

Seleção de palavras chave

Busca de trabalhos acadêmicos a partir dos descritores selecionados

Atende ao critério de inclusão?

Sim Não

Eliminar da análise Leitura e análise do artigo ou trabalho acadêmico

Plataformas selecionadas:

Periodicos CAPES, Google Scholar, Web of ScienceTM (WoS) e Scopus®.

Palavras chave ou descritores selecionados: Segurança de barragens Barragens de Água Acidentes com barragens Gestão de risco Impacto Urbano e suas traduções para a

língua inglesa

Tipologia de trabalhos buscados: Artigos de Congresso, revistas científicas, dissertações de mestrado, teses de doutorado

Critério de inclusão: estar em língua portuguesa ou inglesa, voltados para a temática de segurança de barragem e que não abordassem apenas lateralmente a palavra chave os descritores

Fonte: Autores (2020).

Para a segunda etapa do trabalho, os mesmos indexadores foram utilizados na busca de

legislação nacional, porém nos sites do Palácio do Planalto1 e da Agência Nacional de Águas2.

Essa etapa teve por objetivo complementar os achados da etapa 1, bem como confirmar os conceitos adotados na regulamentação nacional. Por fim, para a terceira etapa envolveu a busca

por dados na plataforma SNISB3, com o objetivo de confrontar dados ali apresentados com o

que foi encontrado na etapa 1.

1 https://www.gov.br/planalto/pt-br 2 https://www.ana.gov.br/

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4. RESULTADOS

Nos itens a seguir serão apresentados os resultados da pesquisa, com foco nos dois objetivos de pesquisa: Como a segurança de barragens é entendida na área de engenharia e o que é gestão de riscos e sua aplicação para estruturas de retenção de grandes volumes.

4.1 Segurança de barragens

A resolução Nº 143/2012 do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) define barragem como “qualquer estrutura em curso permanente ou temporário de água para fins de contenção

ou acumulação de substâncias líquidas ou de misturas de líquidos e sólidos, compreendendo o barramento e as estruturas associadas” (CNRH, 2012). As barragens de água são, portanto,

reservatórios que possibilitam a gestão dos recursos hídricos justificando sua ampla utilização no Brasil, em variados tamanhos, principalmente em áreas de clima semi árido brasileiro. O Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (ANA, 2020) tem cadastradas 19.375 barragens, dentre as mais diversas utilizações. Tal cadastro, porém, ocorre desde 2017 e é feito pelos empreendedores e entidades fiscalizadoras, o que vem a retardar o processo de obtenção de um número exato e condizente com a realidade atual. Isso abre portas para a perspectiva de que o número de barramentos no Brasil seja muito maior. Prova disto é a existência de cerca de 30.000 barragens e açudes apenas no estado do Ceará, de acordo com levantamento feito em estudo de 2001 (Menescal et al., 2001). As barragens são, portanto, objetos comuns no Brasil e de ampla utilização.

Como toda estrutura de engenharia, um aspecto tão importante quanto a construção de uma barragem é a garantia da segurança de sua operação, durante e após sua vida útil. O tema se torna ainda mais relevante diante de duas tragédias da mineração brasileira: o rompimento da barragem do Fundão em Mariana-MG em 2015 e o rompimento de três barragens na mina Córrego do Feijão afluente ao rio Paraopeba, atingindo o município de Brumadinho-MG em 2019 (SOUSA, 2019). Todavia, as problemáticas em relação as barragens não se concentram apenas na mineração como também em reservatórios de água.

A literatura aponta algumas definições formais da expressão segurança de barragem (Quadro 1), que possuem em comum a requisição de que o barramento seja capaz de preservar vida, saúde, propriedade (aspectos estruturais e econômicos) e meio ambiente, conforme se observa na nuvem de palavras criadas a partir das definições estudadas (

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Figura 2). Todavia, a citada capacidade/condição é determinada considerando aspectos diferentes.

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Figura 2 - Nuvem de palavras a partir dos conceitos de segurança de barragem levantados

Fonte: Autores (2020).

Quadro 1 - Conceitos de Segurança de barragem

Autores Conceito de segurança de barragem

Menescal et

al (2004)

Condição em que a ocorrência de ameaças impostas por uma barragem à vida, à saúde, à propriedade ou ao meio ambiente se mantém em níveis de risco aceitáveis.

Brasil (2005)

Capacidade da barragem de satisfazer as exigências de comportamento necessárias para evitar incidentes e acidentes que se referem a aspectos estruturais, econômicos, ambientais e sociais

Lei 12.334

(BRASIL,2010)

Condição que vise manter a sua integridade estrutural e operacional e a preservação da vida, da saúde, da propriedade e do meio ambiente.

Fonte: Autores (2020).

Enquanto Brasil (2005) faz referência a criar condições para o não colapso da barragem, sendo assim mais conservador, Menescal et al (2004) defendem a manutenção de riscos aceitáveis, o que implica que o empreendedor dono da barragem tenha conhecimento não só da estrutura em si como do impacto inerente a sua operação e possível rompimento. A Lei 12.334 que regula a Política Nacional de Segurança de Barragens, por sua vez, faz uma leitura de manutenção da integridade da estrutura, o que entra em acordo com a visão de Brasil (2005). O conceito de Menescal et al (2004) é, portanto, o menos conservador, ao passo que mais exige conhecimento sobre as estruturas de barramento.

Assegurar a segurança das barragens é um dever dos empreendedores (donos dos barramentos) e de órgãos fiscalizadores, conforme definido em lei. Podem ser citadas algumas instituições internacionais emblemáticas na fiscalização e construção tal qual o Bureau of Reclamation

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(Departamento de Recuperação), o maior intermediário de água e segundo maior produtor de energia hidrelétrica dos Estados Unidos (USBR, 2020). Em termos de estudo da área, destaca-se a International Comission of Large Dams (ICOLD), organização não governamental que tem por objetivo difundir conhecimentos técnicos acerca de grandes barragens (FRANCO, 2008). Já no Brasil, além do Comitê Brasileiro da ICOLD e os órgãos reguladores como o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) no estado de São Paulo e a Agência Nacional de Águas (ANA) a nível federal, em 2010 foi instituída a Lei nº 12.334 que institui a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). Essa política aplica-se nas seguintes tipologias de reservatórios:

“I - Altura do maciço, contada do ponto mais baixo da fundação à

crista, maior ou igual a 15m (quinze metros);

II - Capacidade total do reservatório maior ou igual a 3.000.000m³ (três milhões de metros cúbicos);

III - Reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas aplicáveis;

IV - Categoria de dano potencial associado, médio ou alto, em termos econômicos, sociais, ambientais ou de perda de vidas humanas, conforme definido no art. 6o.” (BRASIL,2010)

Em seu artigo 6º, a Lei do PNSB define como instrumentos (entre outros) o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB) e o Plano de Segurança de Barragem (PSB). O primeiro por objetivo registrar as condições de segurança de barragens em todo o território nacional, dispondo de coleta, tratamento, armazenamento e recuperação de informações de barragens em diferentes fases de vida. (ANA, 2020). Já o segundo deve conter dados técnicos da barragem, como os de: construção, operação, manutenção e o panorama do estado atual da segurança, obtido por meio das inspeções realizadas (ANA, 2020).

Como parte da PNSB, em ordem a averiguar a situação da segurança das barragens brasileiras, é necessária a fiscalização das construções. O foco principal desta ação é verificar o cumprimento dos normativos legais, bem como objetiva também verificar em campo o estado de manutenção das barragens, onde a primeira parte se concentra na análise documental referente a barragem e a segunda em vistorias de campo (ANA, 2017).

Entretanto, apesar das normativas de segurança de barragens e das exigências de fiscalização o Brasil possui um histórico quanto a acidentes relacionados a esse tipo de construção. Podem ser citadas 6 (seis) tragédias emblemáticas relacionadas a rompimentos de barragens apenas no Estado de Minas Gerais desde 1986: Itabirito (1986); Nova Lima (2001); Cataguases (2003); Miraí (2007); Congonhas (2008); Itabirito (2014) e; Mariana (2015), conforme citado por Lacaz, Porto e Pinheiro (2017). Além deste, podemos citar como mais recente, Brumadinho, em 2019. Uma atenção especial deve ser dada a este acidente devido sua magnitude, impacto e relevância nacional.

O acidente, datado de 25 de janeiro de 2020, destruiu com sua onda além das instalações da mina, áreas administrativas, pontes e uma comunidade da cidade de Brumadinho. A onda seguiu através do rio Paraopeba e de acordo com a contagem mais recente, matou 259 pessoas e 11

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ainda continuam desaparecidas, incluindo funcionários da empresa dona da mina do Córrego do Feijão, a Vale S.A. (VALE, 2020).

Devido à perda de vidas e a ocorrência de outro acidente no estado de Minas Gerais de repercussão nacional em menos de 5 (cinco) anos, onde a mesma companhia de mineração esteve envolvida, a Vale S.A. (em Mariana, a Vale S.A. possui 50% das ações da Samarco Mineração S.A., juntamente com a BHP Billiton que possui os outros 50% das ações) e considerando ainda que tal empresa é de origem brasileira e é a terceira maior do mundo em valor de mercado (MINING, 2019), várias ações legais foram tomadas.

A Agência Nacional de Mineração (ANM) divulgou, perante o supracitado, a Resolução N° 13 de 08 de agosto de 2019, que estabelece medidas regulatórias objetivando assegurar a estabilidade de barragens de mineração. Essa normativa apertou as regras da segurança de barragem em questões de método construtivo – proibindo a construção de novas barragens pelo método denominado “alteamento a montante” –, fatores de segurança de projeto e fiscalização por parte da ANM e dos empreendedores. (ANM, 2019).

Tratando-se de barragens de água, os trabalhos de Valencio (1995; 2005) e Valencio & Gonçalves (2006) estudam acidentes com 3 (três) diferentes barragens do Nordeste Brasileiro, Orós-CE (1960), Armando Ribeiro Gonçalves-RN – em sua fase de construção- (1981) e Camará-PB (2004). Esses autores apontam que nos seus estudos encontram os seguintes tipos de causas para ruptura: galgamento, erosão da parede interna e falha na fundação, respectivamente.

O aspecto da causa do colapso do barramento é de extrema importância para entender o comportamento da estrutura e os riscos associados que podem prejudicar a segurança do barramento. Rico et al (2008), em estudo estatístico sobre 147 acidentes de barragens em todo o mundo em comparação com eventos ocorridos na Europa, aponta que as causas anteriormente citadas estão entre as mais comuns, como é apresentado na Figura 3.

Figura 3 - Distribuição do número de acidentes de acordo com a causa no Mundo e na Europa

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As analisar as causas de rupturas de barragens apesentadas na Figura 3, chama atenção o número de ocorrências devido a chuvas atípicas.

Tais acontecimentos podem ser associados ao efeito intitulado tecnicamente com o

Overtopping (galgamento), procedimento onde a água ultrapassa a altura da barragem

extravasando por cima da estrutura, sem que se tenha sido projetada para este fim. Esse problema é em geral ocasionado quando uma grande vazão atinge a barragem e os vertedouros não a extravasam rápido o suficiente (BASSEGIO, 2018).

Além disto, ainda de acordo com o estudo de Rico et al (2008), o Brasil se encontra entre os 10 países com maior número de acidentes dentre os países estudados, ocupando o 5° lugar empatado com Canadá, Peru e África do Sul, todos com 3,4% dos acidentes do total estudado. As principais consequências desses acidentes são os danos humanos, financeiros, reconstruções de maciços e, com mais gravidade, inundações a jusante (MENESCAL et al, 2001).

Uma característica importante sobre o rompimento de barragens é o aspecto altura. O estudo de Rico et al (2008) traz um levantamento deste fator dentre barragens com incidentes conforme apresentado na Figura 4.

Figura 4 - Distribuição do número de acidentes em relação as alturas das barragens

Fonte: Rico et al (2008)

A partir dos dados apresentados pela Figura 4 é possível inferir que as estruturas mais assoladas por acidentes estão na faixa de 1 (um) a 20 (vinte) metros de altura. Entre a faixa de 1 a 15 metros de altura de paredão estão 44,08% dos acidentes registrados (até 2008), sendo essa tipologia de barragens mais comum nas áreas urbanas. O restante se enquadra em estruturas denominadas “grandes barragens”, ou seja, superiores a 15m. Entretanto, apenas 22,6% dos sinistros ocorrem com barragens superiores a 30 metros de altura. Esse dado é inquietante visto que das barragens a maior parte das estruturas existentes estão abaixo de 20 metros de altura,

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principalmente em área urbana. Apesar de não causarem grandes impactos no momento da ruptura a exemplo das grandes barragens, o rompimento de “pequenas” barragens possui um fator preocupante denominado “efeito dominó” – também conhecido por “efeito cascata” – ocasionado por rompimentos sucessivo. A preocupação com esse efeito é apontada pela literatura como relevante por não apresentar um risco alto inicialmente, mas que, quando construídas de maneira seriada, tem o potencial de implicar em mortes e perdas econômicas ao longo das várias barragens afetadas em função do efeito cascata e aumentando assim o potencial de risco de vários empreendimentos (MENESCAL et al ,2001; PIERRE, 2003).

Adicionalmente, a perspectiva da comunidade afetada pelo rompimento sucessivo de barragens de pequeno porte deve ser levada em consideração, já que quando não se observa os parâmetros de construção e manutenção, a vida dessas populações a jusante é constantemente ameaçada (VALENCIO, 2006).

Em consequência dos acidentes e seus impactos sejam diretos ou por efeitos cascata ao meio ambiente e a população, entende-se que a sociedade ficará cada vez mais exigente em metas públicas de fiscalização em obras de barramento (FONTENELLE,2007).

Dessa forma a segurança de barragens deve ser um tema amplamente discutido dentre as áreas de interesse e tratado com responsabilidade técnica, porém com a visão de que a resolução dos problemas relativos à segurança de barragem também trabalha com questões sociais, ambientais, institucionais e financeiros (SILVEIRA,1999).

Fica evidente, após a análise da literatura, que as consequências desse tipo de rompimento acontecem em diferentes esferas (como no setor econômicos, na vida das populações, no meio ambiente, na sociedade). Além disso, os efeitos de segunda ordem são comuns e podem aumentar as consequências de um rompimento. Por fim, embora exista um perfil claro das barragens que mais frequentemente se rompem, poucos são os estudos voltados a esse perfil.

4.2 Avaliação de risco

É inegável que para a manutenção da segurança das barragens é necessário que haja por parte dos empreendedores a gestão do risco dessas estruturas, como apontado por Menescal et al (2004). Esse termo, todavia, não é em geral associado às estruturas, mas a empresas e demais organizações. Entretanto, no âmbito da engenharia geotécnica, o termo “Gestão de riscos” é mais conhecido, sendo citado inclusive na Lei N° 12.334/2010 que traz como definição de gestão de risco “ações de caráter normativo, bem como aplicação de medidas para prevenção, controle e mitigação de riscos;” (BRASIL, 2010).

Uma outra conceituação de risco é disposta pela ISO 31000/2009. Risco é definido como o efeito da incerteza sobre os objetivos de uma organização e que consequentemente a “gestão de riscos” consistiria num processo de otimização, que torna mais factível o alcance de objetivos (PURDY, 2010).

A própria ISO 31000, em sua versão mais recente, de 2018, aponta que o processo de gestão de riscos envolve atividades de comunicação, avaliação e tratamento dos riscos. (ISO, 2018). A

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Figura 5 apresenta o processo de gestão de riscos, proposto pela ISO 31000 (2018). O Processo de avaliação de riscos é, portanto, o cerne da gestão. Esse processo, composto por três etapas, tem como função mapear os riscos, seus efeitos e as possibilidades, cujas definições estão no Quadro 2.

Figura 5 - Processo de gestão de riscos

Fonte: ISO (2018).

Quadro 2 - Definição das etapas do processo de avaliação de riscos

PROCESSO DE AVALIAÇÃO DE RISCOS

Etapa Definição Identificação do risco Encontrar, reconhecer e descrever riscos. Análise do risco Compreender a natureza do risco e suas características

assim como nível de risco Avaliação de

risco

Comparação entre a análise de risco e os critérios de

risco estabelecidos.

Fonte: Adaptado de ISO (2018)

Essa metodologia, primeiramente elaborada com foco nas organizações, pode ser aplicada para avaliação do desempenho de empreendimentos, como é o caso das barragens e “vem ganhando importância crescente [...] por permitir o estabelecimento racional e quantitativo das obras prioritárias, em termos de suas condições de segurança.” (SILVEIRA,1999).

Em concordância com tal afirmação, Menescal et al. (2005) indicam que a classificação de risco permite que sejam identificadas e priorizadas as ações que mantenham dentro de níveis aceitáveis a segurança de uma barragem.

O Manual de políticas e práticas de segurança de barragens para entidades fiscalizadoras (ANA, 2017) traz orientações para a classificação de barragens. Segundo este, a classificação segue 5 (cinco) etapas:

Figura 6 - Mapeamento do processo de classificação de barragens

Fonte: Adaptado de ANA (2017a)

Ao analisar a o mapeamento do processo de classificação de barragens apresentado na Erro!

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Potencial Associado (DPA), ponto extremamente importante no que tange a avaliação de risco

da estrutura, principalmente em caso de rompimento.

Segundo Brasil (2005), o estudo do rompimento de barragens, que nada mais é a classificação da estrutura em relação ao seu dano potencial, pode focar em diferentes aspectos, sendo eles:

 Estimativa dos riscos associados a falhas originadas por enchentes de magnitudes

superiores à de projeto, dificuldade de operação de estruturas hidráulicas de controle por bloqueio ou pane em sistemas eletromecânicos, obstrução de estruturas hidráulicas por grandes objetos transportados pelo escoamento ou o assoreamento da área de acumulação;

 A definição de mecanismos de ruptura da barragem, da evolução temporal da brecha

pela qual o escoamento se dá e da forma do hidrograma de cheia resultante; e

 O estudo da propagação da onda de ruptura e a delimitação das áreas inundáveis a

jusante do barramento.

É necessário, portanto, para uma boa previsão das problemáticas e tratamento dos riscos, o estudo da possibilidade de rompimento da barragem assim como do comportamento da sua onda de cheia (BRASIL, 2005).

Em relação a classificação do risco final em si, se tratando dos danos a jusante, pode-se classificar como barragens de “baixo risco” aquelas que não põem em risco nenhuma vida humana e cuja falha implica em ínfima perda econômica; àquelas que comprometem importante perdas econômicas e sem vidas humanas colocadas em risco são as consideradas “risco significativo”; e “alto risco” são as barragens onde as falhas resultam em mortes e demasiadas perdas econômicas, de acordo com Zuffo (2005).

A classificação das barragens está, portanto, diretamente ligadas a perda de vidas humanas e econômicas, sendo assim estimável a partir de técnicas de valoração econômica ou mesmo econômica-ambiental. Essa mensuração só é possível se existirem dados que projetem a dimensão das consequências, como acontece avaliações de risco nos diversos ramos

5. CONCLUSÕES

Os resultados encontrados apresentam uma convergência entre os posicionamentos da academia em relação ao nível de periculosidade de barragens em rios urbanos., seja pelo aspecto hidráulico como pelo impacto econômico social em caso de sinistro. Mesmo em caso de barragens de pequeno porte o dano causado além de afetar uma área considerável das cidades inicia (ou continua) o efeito cascata, aumentar a carga hidráulica sobre as barragens a jusante, o que pode levar ao rompimento dessas.

A gestão de riscos tem importância para a tomada de decisão em relação à segurança dessas estruturas mediante o impacto que o sinistro vem a causar. O processo de avaliação de riscos e consequentemente a classificação das barragens permite a previsão de perdas e de ações emergenciais.

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 Barragens de pequeno porte (em geral localizadas em meio urbanos) são tão passíveis

de rompimento quanto barragens de grandes dimensões;

 Acidentes envolvendo ruptura ou extravasamento de pequenas barragens leva ao efeito

cascata de rompimento nos demais barramentos no mesmo curso de água, escalonando os danos causados;

 O impacto socioeconômico em qualquer tipo de acidente envolvendo barragens não

pode ser negligenciado e deve ser estudado e;

 As cidades precisam conhecer suas barragens e o risco associados a elas como

metodologia de previsão de perdas, fazendo parte, portanto, do planejamento urbano.

AGRADECIMENTOS

Agrademos a Universidade Federal de São Carlos e ao Departamento de Engenharia Civil pelo apoio a pesquisa desenvolvida.

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Referências

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