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SOBRE O CONTROLO DA QUALIDADE EM TRADUÇÃO:

UMA PROPOSTA PARA AS CIÊNCIAS DA SAÚDE

Andreia Filipa Ramalho Mendes e Viçoso Ferreira

Dissertação de Mestrado em Tradução (Inglês)

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Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Tradução, realizada sob a orientação científica de

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AGRADECIMENTOS

Agradeço, em primeiro lugar, aos meus pais, por todo o esforço que fizeram para me ajudarem ao longo do meu percurso académico, em especial no último ano.

À Professora Doutora Maria Zulmira Castanheira e à professora Mestre Susana Valdez, pela orientação e disponibilidade durante a realização da componente não letiva do mestrado, de que resulta esta dissertação. A ambas agradeço também os conselhos e motivação que me deram em alturas cruciais.

À Professora Doutora Gabriela Gândara Terenas, por me ter despertado e fomentado o gosto pela investigação académica.

Aos restantes professores de Licenciatura e Mestrado, desta e de outras áreas, que contribuíram para a minha formação académica.

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SOBRE O CONTROLO DA QUALIDADE EM TRADUÇÃO:

UMA PROPOSTA PARA AS CIÊNCIAS DA SAÚDE

ANDREIA FILIPA RAMALHO MENDES E VIÇOSO FERREIRA

RESUMO

As preocupações com a qualidade em tradução têm levado vários autores a investigar sobre este assunto, sobretudo nas décadas recentes. Surgiram, assim, estudos sobre a avaliação, o controlo e a garantia da qualidade da tradução, entre os quais se destaca Juliane House (1997, 1998, 2001, 2009, 2013, 2014, 2015 e 2016; House e Baumgarten 2007), Wioleta Karwacka (2014), Daniel Gouadec (2007 e 2010) e Brian Mossop (1992, 2001, 2007, 2007a, 2011, 2014 e 2015). Apesar de várias obras evidenciarem a necessidade de abordar o controlo da qualidade na tradução, a literatura não é rica em estudos sobre este tópico concretamente para textos das ciências da saúde.

É nesse contexto do estudo da qualidade e da ausência de investigações para o controlo da qualidade de traduções das ciências da saúde que se insere a presente dissertação. Intitulada Sobre o Controlo da Qualidade em Tradução: Uma Proposta para as Ciências da Saúde, visa tratar o controlo da qualidade de traduções desta área, de inglês para português europeu, com base na revisão dos documentos traduzidos. O objetivo é o de propor um padrão de controlo da qualidade baseado na revisão, após a avaliação da aplicabilidade das propostas de Mossop (2014) a traduções das ciências da saúde.

Assim, parte desta dissertação consiste na análise dos conceitos de “tradução médica”, “tradução das ciências da saúde”, “qualidade”, “controlo da qualidade” e “revisão” presentes na literatura consultada, e sua adaptação à presente dissertação. Em seguida, são analisados os documentos dos dois corpora constituídos para a presente dissertação, bem como as propostas de Mossop (2014). Os textos dos corpora pertencem a três tipos textuais, de acordo com a sua função principal: Consentimento Informado, Resumo das Carcaterísticas do Produto e Orientações Clínicas. Em comum têm o facto de se destinarem à boa prática clínica.

A proposta aqui apresentada resultou do estudo destes tipos de texto, podendo estudos posteriores vir a confirmar a sua aplicabilidade a outras tipologias na mesma área.

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ABSTRACT

Many authors have studied translation quality, especially in recent decades. Therefore, new researches on quality assessment, quality control and quality assurance in translation have emerged. Among those authors are Juliane House (1997, 1998, 2001, 2009, 2013, 2014, 2015 and 2016; House and Baumgarten 2007), Wioleta Karwacka (2014), Daniel Gouadec (2007 and 2010) and Brian Mossop (1992, 2001, 2007, 2007a, 2011, 2014 and 2015). Despite several works evidencing a need for more research on translation quality, very few works about quality in translation of health sciences are available.

In this context, this dissertation, Sobre o Controlo da Qualidade em Tradução: Uma Proposta para as Ciências da Saúde, aims to study the quality control through revision in the translation of health sciences texts from English into European Portuguese. The main objective is to put forward a standard for quality control based on revision, after assessing the applicability of Mossop’s (2014) revision proposal to translations of the health sciences

Thus, much of this research discusses the concepts behind “medical translation”, “translation ofhealth sciences”, “quality”, “quality control” and “revision”. These are present in the bibliography and adapted to this study. After that, I analyse the two corpora collected for the purpose of this dissertation, as well as Mossop’s (2014) proposal. The corpora are composed of three text types, in line with their main function: informed consent, summary of product characteristics and clinical guidelines. These texts have in common the fact that they all aim at the best clinical practice.

The model proposed outcomes from the study on these text types. Its applicability to other text types of the health sciences might be confirmed by further research.

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ÍNDICE

LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS ... i

ÍNDICE DE TABELAS ... ii

Introdução ... 1

Critérios Metodológicos ... 4

Capítulo 1 - Os Textos das Ciências da Saúde ... 6

1.1 Definições ... 6

1.2 Tipologia ... 10

1.3 Características gerais ... 14

1.4 Os textos das ciências da saúde nos Estudos de Tradução ... 21

Capítulo 2 - O Conceito de “Qualidade” na Tradução ... 24

2.1 “Qualidade” nos Estudos de Tradução: notas para o estado da arte ... 25

2.2 Algumas propostas de definição de “qualidade” ... 29

Capítulo 3 - O Contributo de Brian Mossop para a Qualidade da Tradução ... 41

3.1 O conceito de revisão ... 41

3.2 Os parâmetros de revisão propostos por Mossop ... 47

3.2.1 Problemas de transferência ... 47

3.2.2 Problemas de conteúdo ... 50

3.2.3 Problemas de linguagem ... 51

3.2.4 Problemas de apresentação ... 55

3.3 Pressupostos teóricos da revisão na obra de Mossop ... 56

Capítulo 4 – A Aplicabilidade das Propostas de Mossop ... 64

4.1 Características dos textos dos corpora em análise ... 64

4.1.1 Consentimento Informado ... 64

4.1.2 Resumo das Carcaterísticas do Produto ... 68

4.1.3 Orientações Clínicas ... 70

4.2 Avaliação da aplicabiliade ... 73

CONCLUSÕES ... 85

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 90

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Anexo I – Resumos das Características do Produto... 109 Anexo I (a) – Resumo das Características do Produto Veterinário Apivar 500 mg ... 109

Anexo I (b) – Resumo das Características do Produto Veterinário Seremucoli solução oral ... 115

Anexo I (c) – Resumo das Características do Produto para uso humano .. 123

Anexo II – Características gerais dos documentos Consentimento Informado, Resumo das Cracaterísticas do Produto e Orientações Clínicas... 140 Anexo III – Formulário de Consentimento Informado nos termos da norma n.º 5/2013 da Direção-Geral da Saúde ... 141 Anexo IV – Consentimento Informado em linguagem não especializada ... 143

Anexo IV (a) – Consentimento Informado em linguagem não especializada – português ... 143

Anexo IV (b) – Consentimento Informado em linguagem não especializada – inglês ... 149

Anexo V – Modelos de Consentimento Informado para participação em estudo .... 162 Anexo V (a) – Modelo de Consentimento Informado prveniente do corpus B ... 162 Anexo V (b) – Modelo de Consentimento Informado proveniente de projeto de tradução do corpus A ... 163 Anexo VI – Estrutura do Resumo das Características do Produto de acordo com as disposições da EMA ... 164 Anexo VII – Índices de Orientações Clínicas ... 165 Anexo VII (a) – Índice das Orientações Clínicas Difficult Intravenous Access, publicadas pela Emergency Nurses Association ... 165

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LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS

CEN – Comité Europeu de Normalização

CI – Consentimento Informado

EMA – Agência de Medicamentos Europeia

IMIA – International Medical Interpreters Association (Associação Internacional de Intérpretes de Medicina)

ISO – Organização Internacional de Normalização

LC – Língua de chegada

LE – Língua de especialidade

LP – Língua de partida

OC – Orientações Clínicas

OMS – Organização Mundial da Saúde

PST – Prestador de serviço de tradução

RCP – Resumo das Carcaterísticas do Produto

TC – Texto de chegada

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ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1 – Exemplos de géneros textuais de acordo com a intenção comunicativa geral do autor. Taduzido e adaptado de Montalt e Davies (2007:58) ……….. 12

Tabela 2 – Exemplos de géneros textuais de acordo com a função social geral. Traduzido e adaptado de Montalt e Davies (2007:58) ……… 13

Tabela 3 – Questões para a decisão do grau de revisão. Traduzido e adaptado de Mossop

(2014:152-160) ……….. 62

Tabela 4 – Características a ter em conta pelo tradutor/revisor de acordo com o texto a trabalhar, no cenário hipotético criado para o presente estudo ……… 77

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Introdução

A discussão em torno da qualidade da tradução e de diferentes modos de traduzir foi aberta logo na Antiguidade Clássica. Mas, não foi antes das últimas décadas do século XX que instituições internacionais, como o Comité Europeu de Normalização (CEN) e a Organização Internacional de Normalização (ISO), se lançaram na elaboração de normas com vista à prestação de serviços de qualidade, nomeadamente de tradução.

Segundo Mossop (2001: 6-7), a qualidade é sempre relativa a necessidades (como a função do texto na cultura de chegada e as motivações que levaram à sua tradução) e diferentes tarefas exigem diferentes critérios de qualidade, atendendo à natureza das imposições das mesmas. Com efeito, cada texto cumpre determinada função no sistema cultural de chegada, fator que deve orientar o tipo de linguagem e de registo nele contido, bem como aspetos editoriais como o formato do documento. Por sua vez, Palumbo (2009) distingue uma variação dos parâmetros de qualidade conforme a tradução seja vista enquanto produto, processo ou serviço, e Gouadec (2010: 270) define a qualidade do seguinte modo: “Quality in translation is both the quality of an end-product (the translated material) and the quality of the transaction (the service provided)”. Desta forma, Gouadec realça como o conceito pode ser visto por prismas diferentes pelos diversos agentes envolvidos no processo de tradução. Atendendo, pois, às especificidades dos textos na área da saúde, o controlo de qualidade assume-se como uma tarefa de suma importância, com vista à promoção da melhor tradução possível de um texto de partida, não só enquanto resultado de um processo (i. e. produto), mas também enquanto serviço. Entende-se, aqui, por serviço a verificação das especificações dadas pelo cliente em termos de função do texto no sistema cultural de chegada e do cumprimento do prazo acordado, por exemplo.

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Com base neste enquadramento, a presente dissertação tem como objetivo abordar o controlo da qualidade de traduções das ciências da saúde, mais especificamente a revisão dos documentos traduzidos, sobretudo avaliar a aplicabilidade das propostas de revisão de Brian Mossop (2014) a traduções destas áreas. O controlo da qualidade e a revisão são aqui entendidos como processos durante os quais o prestador do serviço de tradução deteta e corrige erros antes da entrega do produto ao cliente.

A fase de revisão da tradução foi relativamente pouco abordada, na literatura especializada, até aos primeiros anos do novo milénio, altura em que o seu estudo foi levado a cabo por Mossop em Revising and Editing for Translators (2001, 2007 e 2014), onde o autor defende que a revisão, o controlo da qualidade e a avaliação da qualidade são tarefas que confluem para o mesmo fim – a garantia da qualidade.

Para além do interesse e curiosidade pessoal pela área das ciências médicas, as motivações que conduziram à escolha do tema deste estudo são a ausência de investigação relacionada com o controlo da qualidade de traduções das ciências da saúde e com o processo de revisão de traduções desta área. Pretende-se, por isso, propor um padrão de controlo da qualidade baseado na revisão, o qual possa ser aplicado a projetos de tradução e revisão de textos das ciências da saúde, ainda que com adaptações de acordo com as necessidades específicas da tarefa.

A presente dissertação encontra-se organizada em quatro capítulos. No primeiro, “Os Textos das Ciências da Saúde”, subdividido em quatro secções, problematiza-se o conceito de “tradução médica” e propõe-se uma definição para a tradução das ciências da saúde, apresenta-se uma tipologia de textos dessa(s) área(s) do conhecimento e as características gerais dos documentos usados pelos profissionais da saúde e analisa-se, ainda que brevemente, o estado atual da investigação acerca dos textos das ciências da saúde nos Estudos de Tradução.

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termina com uma proposta de definição do conceito de “qualidade” e de “controlo da qualidade” adequados à presente dissertação.

O capítulo 3, “O Contributo de Brian Mosop para a Qualidade da Tradução”, encontra-se dividido em três secções. A primeira trata o conceito de “revisão” nas normas EN 15038, publicada pelo CEN, e ISO 17100, publicada pela ISO, e em literatura dedicada ao tema, como as publicações de Künzli, Mossop e Palumbo, delineando uma definição do conceito de “revisão” e identificando-o com o de “controlo da qualidade” proposto no capítulo anterior. A segunda secção descreve os doze parâmetros de revisão propostos por Mossop em Revising and Editing for Translators (2014) e a terceira expõe as propostas de revisão desenvolvidas pelo autor na mesma obra.

No quarto e último capítulo, “Sobre a Aplicabilidade dos Parâmetros de Revisão Propostos por Mossop em Traduções das Ciências da Saúde”, são apresentadas as definições de três tipos textuais (Consentimento Informado, Resumo das Carcaterísticas do Produto e Orientações Clínicas) e suas características, seguindo-se de uma avaliação crítica da aplicabilidade das propostas de revisão de Mossop à revisão de textos traduzidos das ciências da saúde. Nesta fase, cria-se um cenário hipotético de tarefa de revisão e sugere-se a ampliação do número de parâmetros definidos por Mossop, acrescentando-se três: “internacionalização”, “registo” e “consistência”.

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Critérios Metodológicos

Em termos de bibliografia de base, e no sentido de avaliar a adequabilidade das propostas de revisão da tradução de Brian Mossop aos textos das ciências da saúde e criar um padrão de controlo da qualidade para esses textos, houve que ter em atenção, obviamente, literatura sobre a tradução de textos das ciências da saúde, sobre a qualidade e sobre a revisão da tradução.

A problematização do conceito de “ciências da saúde” contou com várias obras das especialidades da medicina, das ciências e da vida, e com a análise de vários planos de estudos de instituições de ensino superior em Portugal e de dicionários gerais e do âmbito das ciências da saúde.

A reflexão teórica sobre a qualidade em tradução teve como base a leitura crítica de literatura sobre o tema, sua avaliação e controlo, de que se destacam autores como House (1997; 2001; 2009; 2015), Mossop (2007) e Gouadec (2010), a par de estudos sobre a tradução de textos técnicos e científicos em geral, como os de Byrne (2006; 2012) e Cavaco-Cruz (2012), e da área da saúde em particular, como os de Montalt e Davies (2007), Montalt (2010) e Karwacka (2014). Foram, ainda, de especial utilidade documentos produzidos pelo CEN e pela ISO. Em 2006, o CEN publicou a EN 15038 (para prestação de serviços de tradução). A esta norma, seguiram-se a ISO 17100:2015 (sobre os requisitos dos serviços de tradução) e a ISO 9001:2008 (sobre as bases de gestão de qualidade para que um produto final vá de encontro às exigências do cliente e a regulamentos existentes), publicadas pela ISO. Em janeiro de 2009, a Associação Internacional de Intérpretes de Medicina (IMIA) publicou, também, um guia para a tradução médica (IMIA Guide on Medical Translation).

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A propósito dos textos produzidos na área das Ciências da Saúde, estes pertencem a variados domínios do conhecimento (a título ilustrativo: enfermagem, farmácia, psiquiatria, psicologia, biologia molecular, genética, veterinária). Além disso, a variedade da tipologia textual apresenta diferentes complexidades e especificidades inerentes a cada texto. Entre os exemplos, contam-se documentos destinados à divulgação de conhecimento no âmbito académico ou profissional, documentos para uso dos utentes, instruções de uso de instrumentos ou de medicamentos.

Além das leituras bibliográficas que enquadraram a reflexão acerca do tema selecionado, e tendo em conta tal diversidade e as características próprias destes textos, bem como a consciência de que cada tradução deve ser adequada à função desempenhada pelo texto no sistema cultural de chegada, foi organizado um primeiro corpus composto por textos representativos de três tipologias (Consentimento Informado, Resumo das Carcaterísticas do Produto e Orientações Clínicas) e que faz parte de um corpus maior com cerca de 700 mil palavras, a saber English-EU Portuguese Medical and Biomedical Corpus (Valdez, em preparação). O sub-corpus aqui analisado é composto por 16 projetos de tradução de inglês para português europeu em contexto profissional e por documentos provenientes do controlo da qualidade das traduções respetivas.

Dada a confidencialidade dos documentos do corpus acima descrito e atendendo a necessidades de demonstração de algumas características dos mesmos, foi criado o segundo corpus, constituído por 17 documentos, em inglês e em português europeu, publicados online por entidades como a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS Norte) e a Emergency Nurses Association (ENA), ilustrativos dos mesmos tipos.

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Capítulo 1 - Os Textos das Ciências da Saúde

O discurso sobre a tradução de documentos do âmbito das áreas da vida, saúde e medicina tem-se referido a essa especialidade como “traduçãomédica”. Na literatura dedicada à tradução regista-se a sua presença frequente, sem distinção entre os vários saberes que permitem o desenvolvimento e a prática da Medicina.

Este primeiro capítulo da presente dissertação apresenta uma perspetiva crítica sobre o termo “traduçãomédica”, no sentido de propor uma definição para a tradução das ciências da saúde. É apresentada uma tipologia de textos da área e as características gerais dos documentos usados pelos profissionais da saúde, terminando com uma breve análise do estado atual da reflexão sobre os textos das ciências da saúde nos Estudos de Tradução.

1.1 Definições

Um trabalho sobre a tradução de documentos do domínio das ciências da saúde deve incluir uma clarificação do que se entende por “ciências da saúde”. Julgando pelas designações presentes em obras especializadas em temas associados a esta área do conhecimento, pode afirmar-se que a designação terminológica não é unânime, variando entre “ciências médicas” (medical sciences), “ciências da saúde” (health sciences) e “ciências da vida” (life sciences). Entre os exemplos de obras de especialidade que não a tradução que tratam das ciências da saúde e que usam as diferentes designações para a elas se referirem contam-se Epidemiology. An Introductory Text for Medical and Other Health Science Students, de David Christie et al. (1997), Medical Statistics. A Textbook for the Health Sciences, de David Machin et al. (2007), Chemistry. An Introduction for Medical and Healthcare Sciences, de Alan Jones (2005) ou Visualization in Medicine and Life Sciences, de Lars Linsen et al. (2008).

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merely the absence of disease or infirmity”.1 Nos mesmos termos, o Dicionário de Ciências da Saúde, da autoria de Ramon Piñeiro Gonzalez et al., assume o conceito de “saúde” como um “estado em que o ser orgânico exerce normalmente todas as suas funções (…) de bem-estar óptimo, físico, mental e social, com ausência de doença” (1997:398).

Neste âmbito, podemos definir as “ciências da saúde” enquanto disciplinas dedicadas ao estudo e investigação do corpo humano e animal (no caso da medicina veterinária) e a questões relacionadas com a saúde, bem como à aplicação dos conhecimentos daí resultantes, no sentido de a melhorar e de prevenir e curar doenças.

De acordo com Katherine Cullen na introdução a Encyclopedia of Life Science (2009:vii), as “ciências da vida” são aquelas que estudam as células, a hereditariedade molecular, a evolução biológica, a interdependência dos organismos e a organização dos organismos vivos e seus comportamentos. Na base de dados multilingue online da União Europeia (IATE – InterActive Terminology for Europe), a definição do termo em língua inglesa inclui a medicina e é a seguinte: “any of the branches of natural science dealing with the structure and behaviour of living organisms; for example, biology, medicine, anthropology, ecology, and physiology”.

No dicionário de especialidade Stedman’s Medical Dictionary (1995:1074), a definição do adjetivo “médico” (medical) remete para a prática clínica, a qual depende da existência de várias disciplinas para estudo do diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças, nomeadamente a anatomia, a biologia e a imunologia. A entrada “Medical science” no Oxford Online Dictionary identifica as “ciênciasmédicas” como os ramos da ciência que estudam o diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças, como a anatomia e a imunologia.2

Da análise destas definições, compreende-se que os três ramos da ciência que nos ocupam – saúde, vida e medicina – apresentam barreiras ténues e não estanques

1 Esta definição, presente na Constitution of the World Health Organization (1946:1) assinada em 22 de julho de 1946 pelos representantes dos Estados da organização, data de 1946. Tendo entrado em vigor em 7 de abril de 1948, não sofreu qualquer alteração até aos dias de hoje. Cf. World Health Organization Interim Commission (1948:100-103).

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entre si, pois encontram-se interligados: sem o conhecimento proporcionado pelos estudos das ciências da vida, muitos dos avanços na medicina3 não seriam possíveis e, sem o recurso a técnicas e especialidades abrangidas pelas ciências da saúde, as definições de saúde apresentadas não fariam sentido, nomeadamente no que diz respeito ao bem-estar físico e mental do ser humano.

Em alguma da literatura consultada, de que são exemplo Fischbach (1962, 1986 e 1963), Angelelli (2004), Montalt and Davies (2007) e Montalt (2010), o termo “médico” é frequentemente aplicado por extensão a outras ciências relacionadas com a saúde que não somente a medicina, como a biologia. Esta característica também está presente em dicionários que à medicina se dedicam: por exemplo, no prefácio à primeira edição do Dicionário Médico (Manuila et al.), onde são designados como principais destinatários da obra “os estudantes de Medicina, Farmácia, Biologia, e outros cursos correlativos (…) enfim, todos os elementos do que deve ser a equipa de saúde (…) e muitas outras categorias de profissionais da saúde” (2004:13); ou na afirmação de J. L. Themudo Barata em Dicionário Médico para Todos, “A linguagem médica deve ser dominada não só pelos médicos e estudantes de Medicina, mas também por outros profissionais ligados à saúde” (2007:12).

Na literatura sobre tradução e interpretação concretamente das áreas da saúde é, também, comum o uso dos termos “tradução médica” (medical translation) e “interpretaçãomédica” (medical interpreting)4 para referir a tradução e interpretação não apenas no âmbito da medicina, mas da saúde, afirmação atestada por Vicent Montalt (2010) na citação seguinte:

Medical translation refers to a specific type of scientific and technical translation

that focuses on medicine and other fields closely related to health and disease such as

nursery, public health, pharmacology, psychiatry, psychology, molecular biology, genetics

and veterinary sciences. (79)

3 Dos vários ramos da medicina apontados, por exemplo, por Ludmila Manuila et al. (13), destacam-se, neste âmbito, a imunologia, a virologia, a infeciologia, a genética, entre outros.

4 A interpretação médica é definida no Prefácio de Medical Interpreting Standards of Practice (1995:7)

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Aos campos mencionados por Montalt, podem acrescentar-se especialidades como imunologia, epidemiologia, toxicologia, imagiologia, nutrição, dietética, fisiologia, anatomia, nos campos da medicina e da saúde, ou biologia e microbiologia, bioquímica, histologia, genética, nos campos das ciências da saúde e da vida, disciplinas que figuram em vários curricula académicos portugueses de ensino superior.5

Efetivamente, analisando alguns curricula académicos portugueses nas áreas da saúde, constata-se a presença simultânea dos termos “ciências da saúde”, ou apenas “saúde”, e “ciências da vida”, de que são exemplo os planos de estudos da Licenciatura em Ciências da Saúde pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

(https://ciencias.ulisboa.pt/pt/oferta-formativa/curso/licenciatura/ciencias-da-saude)

e do Mestrado em Tradução Especializada a decorrer na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro (https://www.ua.pt/ensino/course/122), e a presença de disciplinas consideradas do âmbito das ciências médicas, da saúde e da vida, na estrutura curricular do Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Ciências

Médicas da Universidade Nova de Lisboa

(http://www.fcm.unl.pt/main/alldoc/galeria_imagens/Regulamento_MIM_Agosto201

6.pdf), que apresenta disciplinas como “Tecidos, células e moléculas”, “Nutrição e Metabolismo” ou “Farmacologia,” entre outras. A oferta ao nível dos cursos nas escolas de especialização nas áreas da saúde, como, por exemplo, a Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Bragança (http://www.essa.ipb.pt), ou a Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa (https://www.estesl.ipl.pt/cursos) é, também, indicadora da diversidade e complementaridade entre ciências da vida, da saúde e da medicina.

Feitas as considerações acima, a designação “ciências da saúde” parece ser mais abrangente do que “ciências médicas”, por não se reportar apenas à prática da medicina, mas aos estudos a esta inerentes e a todas as áreas de estudo relacionadas com a vida, a saúde e a doença. É, por isso, o termo selecionado para a presente dissertação. Todavia, reconhecendo que o termo maioritariamente empregue na

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literatura corresponde a “tradução médica” (medical translation), este será também usado nas passagens em que a presente dissertação se referir a estudos cujo termo empregue é esse.6 É o caso da próxima secção deste capítulo, em que serão apresentadas algumas tipologias de textos na área da saúde propostas pelos autores em estudo.

1.2 Tipologia

A importância da classificação de textos por tipologias foi afirmada pelos Estudos de Tradução logo na década de 1970, nomeadamente através do reconhecimento de que o tradutor deve compreender o funcionamento dos textos7 para que possa selecionar a(s) estratégia(s) de tradução mais adequada(s) (Gambier 2013:65).8

Os textos das ciências da saúde apresentam uma linguagem aplicada a variadas situações comunicativas, servindo diferentes propósitos: podem partir de/dirigir-se a investigadores e profissionais da saúde, a docentes e estudantes da saúde, a utentes, ao público em geral, cada grupo com um determinado horizonte de expectativa e objetivo na “aplicação da informação”, na formulação de Montalt e Davies (2007:53). É neste sentido que se podem admitir duas tendências no plano da partilha de informação, designáveis, respetivamente, por horizontal, em que o discurso se realiza entre pares, e

6 A este respeito, alerta-se para o facto de termos como “ciências médicas” (medical sciences) ou

semelhantes poderem ser usados como sinónimo de “ciências da saúde” (health sciences) na presente dissertação.

7No verbete de que provém esta informação, Gambier (2013) não explicita o conceito de “funcionamento

dos textos”. No presente estudo, entende-se como sendo o modo como o conteúdo, a função e a intenção comunicativa dos textos são percecionados pelos leitores, o uso que deles é feito e o subsequente cumprimento (ou não) da função em ambos os sistemas culturais de partida e de chegada.

8 Montalt e Davies (2007:60) e Reiss e Vermeer (2013:171-180) são exemplos de autores que concordam com a importância do (re)conhecimento dos géneros textuais pelo tradutor na tomada de decisões sobre as estratégias de tradução a adotar, pois tal favorecerá a compreensão do(s) texto(s) de partida (TP), o processo de tradução, a identificação das especificidades interlinguísticas presentes e as possíveis mudanças de género textual.

Não cabendo na presente dissertação discutir os conceitos de “género” e “tipo”, os termos adotados serão aqueles usados na literatura respetiva. Tal opção tem em conta as observações de autores como Anna Trosborg (1997:vii) de que o termo “género” é, por vezes, usado em sentido lato para referir variações de registo, ou confundido com tipos retóricos, não distinguindo, por exemplo, textos expositivos, argumentativos ou outros como géneros textuais, e Yves Gambier (2013:64), que afirma que a distinção entre os dois permanece vaga e confusa.

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por vertical, quando a comunicação é estabelecida entre indivíduos com diferentes níveis de conhecimento e especialização, e pode apresentar maior ou menor grau de formalidade e características linguísticas e formais mais ou menos especializadas.9

Partindo de tais pressupostos, Montalt e Davies (2007:58) exemplificam vários géneros textuais das ciências da saúde de acordo com 1) a intenção comunicativa, que pode ser instrutiva, expositiva ou argumentativa e 2) a função social geral, reproduzidos nas tabelas abaixo.10

Intenção comunicativa geral do autor Exemplos de género textuais

Instrutiva: dar instruções aos leitores para que procedam a determinadas ações

Orientações Clínicas, folhetos de informação ao utente, manuais.

Expositiva: fornecer informação aos leitores

Atlas anatómicos, tratados, artigos de revisão, relatórios clínicos, primeira parte de um Consentimento Informado (informativa).

Argumentativa: convencer os leitores Editoriais médicos, artigos originais, posters de campanhas médicas.

Tabela 1 – Exemplos de géneros textuais de acordo com a intenção comunicativa geral do autor. Traduzido e adaptado de Montalt e Davies (2007:58).

9 De notar que a literatura especializada consultada sobre os textos em estudo não discrimina estas duas linhas de direção de comunicação, limitando-se à designação dos diferentes tipos de público-leitor. A esse respeito, Montalt e Davies (2007:47) apenas identificam a comunicação entre locutores com diferentes níveis de especialização, adotando os termos top-down e bottom-up, consoante a comunicação parta de um agente mais especializado para outro menos especializado, ou vice-versa. A comunicação entre agentes que pertencem ao mesmo público-leitor é, na sua obra, identificável nomeadamente através do conhecimento das características dos géneros pertencentes a cada categoria textual definida por Montalt e Davies (2007:30-31) e Montalt (2010:81), pelo que no presente texto se optou por criar uma designação própria (“horizontal” e “vertical”) e adequada às direções de comunicação referidas.

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Função social geral Exemplos de géneros textuais

Prevenir doenças, educar o público em geral, consciencializar sobre riscos, etc.

Documentos de campanhas

institucionais, tais como comunicados de imprensa, informações para utentes, etc.

Proceder a ações tais como seguir uma dieta ou um tratamento…

Dietas, folhetos de informação ao utente, manuais, etc.

Comunicar novas descobertas a leitores não especializados

Artigos de jornal, sumários para o utente, livros para o grande público, manuais para não especialistas, etc.

Ensinar e aprender a ser um profissional de saúde

Livros, manuais, enciclopédias, atlas anatómicos, etc.

Exercer as práticas médicas, implementar novas técnicas na prática clínica

Históricos dos utentes, guiões de prática, manuais, etc.

Vender produtos a profissionais Propaganda, panfletos e outros materiais profissionais

Comunicar novas investigações a públicos especializados

Artigos originais, artigos de revisão, editoriais científicos, etc.

Tabela 2 – Exemplos de géneros textuais de acordo com a função social geral. Traduzido e adaptado de Montalt e Davies (2007:58).

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necessariamente, em apenas uma “intenção comunicativa geral do autor” ou “função social geral”.

Outro autor que investigou sobre a questão da tipologia dos textos nas áreas da saúde é Henry Fishbach, a quem se deve uma das primeiras publicações dedicadas ao tema, datada de 1962. O texto inicia-se com uma distinção entre os documentos pela sua função informativa ou de divulgação e a afirmação de que ambas não são mutuamente exclusivas (462): um texto pode, ao mesmo tempo, informar e divulgar, como é o caso dos artigos de especialidade apresentados em conferências, por exemplo. A este respeito, também se pronunciou Yves Gambier (2013:63), ao afirmar que os géneros textuais são, muitas vezes, híbridos, podendo servir diversas funções. No que a estas respeita, Leander Doornekamp (2011:13) conta cinco: informar, instruir, convencer, ativar e entreter.

De acordo com a função social, Montalt e Davies (2007:30-31) e Montalt (2010:81) distinguem quatro categorias, de que Csilla Keresztes (2013:538) faz eco, a saber: investigação, composta pelos textos usados por investigadores e médicos para apresentar descobertas e discussões (por exemplo, em encontros científicos); profissional, formada pelos textos usados pelos profissionais da saúde; educacional, com textos de cariz instrutivo; e comercial, englobando os textos cujo propósito é o da venda e/ou aquisição de produtos.

Tendo em conta esta categorização, a presente dissertação centra-se precisamente nos textos da referida categoria profissional em ambos os sistemas culturais de partida e de chegada para o par de línguas inglês-português europeu.11 Esta opção foi feita tendo em conta a variedade textual nas ciências da saúde e os limites impostos a um trabalho académico desta natureza, por um lado, e a variedade

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bibliográfica em termos de organização tipológica dos textos,12 por outro. De entre os géneros mais traduzidos destinados ao uso em contexto profissional, contam-se, segundo Montalt e Davies (2007:30-31), os seguintes: Orientações Clínicas, procedimentos operacionais normalizados, resumos das características dos produtos, consentimentos informados, testes de laboratório, questionários médicos, glossários de terminologia médica, manuais, guias de manutenção, relatórios anuais, boletins, relatórios de especialistas, historiais clínicos, classificações de doenças, nomenclaturas, dicionários médicos, vade-mécuns e interfaces de software.

A próxima secção dedicar-se-á à caracterização dos textos cujos destinatários são os profissionais da saúde.

1.3 Características gerais

No início da secção anterior, indicou-se que o tradutor deve compreender como funcionam os textos nas culturas em que se inserem, no sentido de usar estratégias de tradução adequadas à tarefa que tem em mãos (Gambier 2013:65). Assim se compreende, pois, que o conhecimento das características textuais de cada género é de grande importância para o trabalho do tradutor: funciona como guia de orientação no processo de tradução e na tomada de decisões, nomeadamente através da compreensão da(s) função(ões) do texto, da possibilidade de antecipação das pesquisas necessárias e do reconhecimento de possíveis diferenças na forma como os textos são concretizados nas culturas de partida e de chegada.

12 De entre os exemplos, contam-se a abordagem funcionalista de Katharina Reiss (1977/89), que apresenta uma tipologia orientada para os textos traduzidos, com base em três categorias, informativa, expressiva e operativa, apresentada por Jeremy Munday em Introducing Translation Studies. Theories and Applications (2008:72-74); Juliane House, que publicou, em Translation Quality Assessment: A Model Revisited, um esquema para análise e comparação dos textos de partida e de chegada com base na correlação entre as características textuais e linguísticas de ambos e as características situacionais (66-71); Anna Trosborg, que relaciona as estratégicas retóricas que determinam os tipos de texto com a intenção comunicativa (1997a) e defende que o género textual é indicado pela função do texto (2000:vii); Christiane Nord (1997), que atribui maior relevância ao processo de tradução, baseando a organização de uma tipologia na função do texto de chegada (TC) no sistema cultural respetivo e na relação entre o trabalho do tradutor e os restantes agentes do processo de tradução.

Em “Towards a Typology of Translations”, Ronda P. Roberts expõe alguns critérios de organização tipológica (ex. função do texto de partida, grau de especialização no texto de partida, propósito da tradução, estilo do texto de partida, conteúdo, entre outros).

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Um estudo dedicado aos textos das ciências da saúde não significa que trate apenas de documentos altamente especializados e de características padronizadas, com terminologia, sintaxe e registo específicos. Em rigor, as características textuais tendem a adaptar-se a circunstâncias como os diferentes tipos de público-leitor a que os documentos se destinam ou as convenções do género a que pertencem. Por isso, no que diz respeito à linguagem dos textos médicos, Montalt e Davies afirmam o seguinte:

(…) medical language has been regarded (…) as (…) objective, neutral and non-rhetorical, whose only function was to transmit information, a so-called ‘referential’ function. In this traditional, received image of medical language, words and texts are

detached from society and from the individual. (…) they contain no cultural or ideological references, and have a uniform and impersonal style. Furthermore, each concept is

represented by one – and only one – term, (…) and concepts are precise and remain stable and unchanging over time. (2007:50)

A afirmação que os autores em causa fazem a respeito desta visão tradicional sugere que a linguagem médica merecia, à data do texto citado, maior atenção da parte dos Estudos de Tradução. Na realidade, da literatura consultada para elaboração da presente dissertação entende-se que as publicações se centravam, muitas vezes, em investigações de caráter linguístico, nomeadamente terminológico, ou do âmbito dos problemas colocados pelos textos em estudo ao tradutor.13 Contudo, trata-se de uma literatura que, por ser selecionada, impõe limites à concordância com os autores em questão.

Contrariamente a esta visão apresentada por Montalt and Davies, a linguagem dos textos em questão parece ser adaptada à função do texto no respetivo sistema cultural, discernindo-se uma variedade de estilos retóricos e registando-se o recurso a metáforas, a termos e conceitos sinónimos, polissémicos e homónimos, a neologismos,

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e onde são visíveis referentes culturais e ideológicos (por exemplo, em graus de formalidade ou na escolha de palavras ou expressões, sobretudo quando a comunicação é dirigida a leigos). Comprova-o a caracterização da linguagem usada nos artigos médicos (inseridos na categoria da investigação, de acordo com Montalt e Davies (2007:30)) em língua inglesa feita por Pedersen and Halliday (2009:24-34), que vai de encontro ao afirmado neste parágrafo.

Uma análise de alguns textos da categoria profissional, tal como definidos por Montalt e Davies (2007:30) e Montalt (2010:81), também permite justificar essa afirmação. São textos destinados ao auxílio do exercício das práticas dos profissionais da saúde, mas que nem sempre a eles se dirigem em primeiro lugar, pelo que podem conter termos leigos a par dos termos de especialidade14. É o caso do Consentimento Informado, através do qual o utente, ou seu responsável ou familiar, toma conhecimento de tratamentos ou de ensaios clínicos a realizar e expressa a sua vontade (ou não) de colaborar e, por conseguinte, a sua corresponsabilização no tratamento.

No que à terminologia diz respeito, o cenário a que os autores se referem coaduna-se com a distinção, também tradicional, comummente feita entre língua de especialidade (LE), caracterizada pela precisão, univocidade denominativa, economia e relação matéria/objeto, e língua corrente (LCor), caracterizada pela polissemia, ambiguidade, redundância, multiplicidade situacional e temática (Contente 2008:33).

De um modo geral, os documentos em causa podem ser caracterizados pelo uso de uma linguagem mais ou menos especializada, conforme o tipo textual a que pertencem, o público a que se dirigem e a função do texto. Salientam-se os seguintes aspetos:15

14 Entendendo como “língua de especialidade” um “conjunto de meios linguísticos utilizados numa situação de comunicação de uma determinada especialidade a fim de assegurar a comunicação entre os seus pares” (Contente 208:33), o conceito de “termo de especialidade” remete para uma unidade linguística que nomeia um conceito pertencente a determinada área do saber e que permite a comunicação entre especialistas dessa mesma área.

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presença de termos de especialidade16 formados por:

 aglomerados de raízes e afixos de origem greco-latina, combinados de forma a constituir um termo mais ou menos complexo,17 numa lógica de formações específicas (Barata 2007:37 e Taibo 2004:1),18 que indicam partes do corpo, substâncias, coloração, posições, órgãos, processos biológicos, quantidades, entre outros, bastando, muitas vezes, que se conheça a sua origem para os compreender;19

 designações em língua vernácula, nomeadamente inglesa (ex. screening, bypass, pacemaker,stress);20

 hibridismos, através da junção de elementos pertencentes a línguas diferentes (ex. bio + feedback = biofeedback), podendo ocorrer termos exclusivamente derivados das raízes greco-latinas (ex. mammo, do latim + graphein, do grego = mamografia);

16 Em Terminocriatividade, Sinonímia e Equivalência Interlinguística em Medicina, Maria Madalena Contente (2008:162-173) expõe vários processos de formação terminológica na linguagem médica, pelo que se remete desde já o leitor para a referida obra.

17 Um termo será tanto mais complexo quanto o número de morfemas por que é constituído.

18 Em Introduction to Healthcare for Interpreters and Translators (35), Ineke Crezee apresenta uma lista de combinações comuns, a saber: raiz + raiz; raiz + sufixo; prefixo + raiz + sufixo; raiz + vogal de ligação + raiz.

19 É pertinente a defesa de Wakabayashi (1996:359) relativamente à não-linearidade desta afirmação de

Barata (2007:37): “(…) the meaning of a term does not always reflect the exact meaning of the individual components, so that such analysis is not always infallible. For example, “neuritis” does not mean “inflammation of the nerve” (…) but a “condition of the nerve”. Contudo, mais do que analisar os problemas levantados pela literatura, importa, neste ponto, definir as características gerais dos textos profissionais definidos por Montalt and Davies (2007:30-31) e Montalt (2010:81).

Sobre o processo de formação de termos de raiz greco-latina, ver Contente (2008:165).

Sobre a variação ortográfica no emprego de termos de origem greco-latina, ver Quérin (2001) e Berghammer (2006).

20 Nas últimas quatro décadas, a língua inglesa tem tido um papel dominante na comunicação do conhecimento científico e técnico, graças aos avanços da ciência computacional e da tecnologia, nomeadamente médica (McMorrow 1998:13). A comunicação frequente entre especialistas das ciências da saúde, bem como o número de publicações em inglês facilitam as situações de contacto entre diferentes sistemas linguísticos, provocando a permanente atualização das redes terminológicas e conceptuais, de que resultam, muitas vezes, empréstimos interlinguísticos. Tais empréstimos não se limitam às línguas correntes, ocorrendo também entre línguas de especialidade: o termo “rato” (mouse) foi emprestado da língua corrente à língua da especialidade da informática. Como empréstimo entre línguas de especialidade, exemplifica-se o termo “vírus” (virus), usado em ciências da saúde e em informática.

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 coocorrência de termos em mais de uma língua, materializada na presença de dois ou mais termos em línguas diferentes (ex. úlcera de stress), na sequência de termos correspondentes em línguas diferentes (ex. fração de ejeção / ventricular ejection fraction), ou em sequências do tipo termo + sigla ou acrónimo de outra língua (ex. volume endodiastólico (EDV)), entre outros;

 epónimos, para designar novas descobertas, teorias, procedimentos ou outros (ex. doença de Alzheimer).

neologismos, justificados perante os avanços do conhecimento científico, para sua comunicação e divulgação, podendo ser:

 terminológicos, quando é criado um termo para designar um conceito;

 conceptuais, quando é atribuído um novo conceito a um termo já existente;

 terminológicos e conceptuais, quando ao novo termo corresponde um novo conceito.

A formação de unidades especializadas do discurso tanto através da neologia como dos processos acima descritos permite admitir que a linguagem das ciências da saúde não é estática nem universal.21

abreviaturas

 siglas e acrónimos, unidades que, pela possibilidade de falta de internacionalização, podem comportar problemas de interpretação e compreensão para o leitor e o tradutor (Ruíz Rosendo 2008:237-238);22

21 A respeito da variação de termos que designam o mesmo conceito, tanto ao nível internacional como nacional, Contente (2008:250) dá o exemplo do termo “polineuropatia amiloidótica familiar”, que encontra equivalente português em “doença de Corino de Andrade”,“doença de Corino” ou “doença dos pezinhos”, entre outras designações possíveis, afirmando que “cada especialista emissor de um enunciado de especialidade adopta a terminologia que considera mais adequada” (206). Pedersen and Halliday (34) também exemplificam a não-uniformidade da terminologia nas ciências da saúde com os termos ingleses finger (dedo da mão) e toe (dedo do pé), a que corresponde o português “dedo”, especificando, nos casos necessários, se da mão ou do pé.

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false friends, termos que, pela sua sonoridade, podem parecer o mesmo nas línguas de partida e de chegada, mas que, na realidade, têm sentidos diferentes.23

No plano da construção frásica24, podem assinalar-se:

fraseologias, sequências fixas de palavras, de uso estandardizado, com ocorrência marcada em documentos de características padronizadas, nomeadamente em títulos de secções, como nos Resumos das Carcaterísticas do Produto (RCP)25 (ex. Conservar na embalagem de origem para proteger da luz e da humidade26);

metáforas, recurso estilístico que serve para facilitar a compreensão e interpretação do leitor relativamente ao conceito que se pretende demonstrar.27

omissão de elementos frásicos (ex. root nodule bacteria em vez de bacteria to be found in root nodules);

substituição de orações relativas (ex. crisis intervention techniques em vez de techniques which are used for intervening in a crisis).28

nominalizações, recurso através do qual se dá preferência ao uso de substantivos no lugar de verbos (ex. diagnosis em vez de to diagnose);

compostos nominais, materializados em sequências de substantivos (ex. functional insertion and deletion polymorphism);

23 Por exemplo, em medicina e farmácia, o termo inglês drug encontra geralmente equivalente no

português “medicamento” e não “droga”.

24 Os exemplos dados no presente texto têm como fonte a publicação de Maglie (2009:29-41), Understanding the Language of Medicine, à exceção das fraseologias, por não serem mencionadas pela autora. A opção por exemplos em língua inglesa justifica-se por se pretender a elaboração de um padrão de sistema de controlo de qualidade das traduções dessa língua para o português europeu. Apesar de o tradutor dever compreender os textos no sistema cultural de chegada, a descodificação de todos os elementos do texto de partida adquire suma importância na tradução das ciências da saúde.

25Ver anexo I, “Resumos das Carcaterísticas do Produto” (páginas 109-139).

26 Este é apenas um exemplo de fraseologia, que pode variar em construções do tipo Manter o contentor dentro da sua embalagem exterior ou Conservar à temperatura ambiente, em embalagem hermeticamente fechada… (ver anexo I, “Resumos das Carcaterísticas do Produto” (páginas 109-139). 27 Tanto as metáforas como os empréstimos de língua corrente às línguas de especialidade podem constituir um desafio para o tradutor, que deve saber distinguir o sentido em que os mesmos são empregues nos textos.

Alguns exemplos do uso de metáforas nos textos médicos são dados por Montalt and Davies (2007:111). Sobre o uso de metáforas em textos de especialidade, ver Reeves (2005:21-36).

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densidade lexical e complexidade frásica, com frases ricas em termos especializados e relativamente longas;

frases na voz passiva (ex. Thesystem is composed of…);29

conjunções (ex. However, when these three standard drugs…);

referências anafóricas (ex. In the section 21 thereof).30

Ao exporem e defenderem a sua visão da linguagem médica, Montalt e Davies (2007) destacam a presença de polissemia, sinonímia e variação conceptual. Com efeito, para além dos possíveis problemas causados pelo recurso a empréstimos de língua corrente à língua de especialidade, a abreviaturas e a metáforas, ou pela própria construção frásica, aquelas características terminológicas existem nos textos das ciências da saúde e podem constituir constrangimentos no trabalho do tradutor.

À partida, nos textos da categoria profissional os termos são usados com sentido denotativo, isto é, contêm um sentido preciso. Assim, o emprego do termo “cérebro” referir-se-á, única e exclusivamente, ao órgão que se encontra dentro da caixa craniana, enquanto em linguagem comum a mesma palavra admite outras interpretações. Por outro lado, a neologia terminológica pode conter implicações na interpretação dos textos, nomeadamente nos casos em que ao novo termo não corresponde um novo conceito.31

De acordo com o que Montalt e Davies (2008:61-88) consideram ser tipos de texto de produção comum dentro da categoria profissional, e no sentido de demonstrar a variedade de aspetos linguísticos e formais que estes textos podem apresentar, foram selecionados e caracterizados três géneros textuais, a saber: Consentimento Informado,

29 Segundo Taylor (2005:39-42), tal tendência vai sendo contrariada pelo uso cada vez mais recorrente de frases na voz ativa. Nesta realidade, o autor identifica a preferência do uso da passiva nos casos em que o agente é menos importante que o afetado pela ação (43).

30 Tanto o uso de conjunções como de referências anafóricas servem o propósito da coesão textual, remetendo para outras partes do texto ou para sujeitos já mencionados ou a mencionar.

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Resumo das Carcaterísticas do Produto, e Orientações Clínicas.32 Tal caracterização foi feita a partir de dados disponíveis na literatura consultada e na análise dos corpora de estudo, de que resultou a tabela correspondente ao anexo II, “Características gerais dos documentos Consentimento Informado, Resumo das Carcaterísticas do Produto e Orientações Clínicas” (página 140), da presente dissertação.

1.4 Os textos das ciências da saúde nos Estudos de Tradução

Na secção anterior foram expostas algumas das características gerais dos textos da categoria profissional das ciências da saúde. Os próximos parágrafos pretendem resumir o que tem sido escrito a propósito da tradução nestas áreas.

No verbete “Medical translation and interpreting”, Montalt (2010:82) apresenta um breve apanhado da produção literária recente sobre a tradução de documentos médicos, retomado e ampliado nas linhas abaixo.

As palavras de Montalt (2010:82) sobre a história da tradução médica ilustram a situação, ainda atual, dos estudos sobre tradução das ciências da saúde: “Research into the history of medical translation is still in its infancy”. Não obstante, a pesquisa bibliográfica na base de dados Translation Studies Bibliography demonstra que, nos últimos anos, tem havido um aumento do número de publicações sobre a tradução nesta área.33

32 A opção por estes géneros não é, portanto, aleatória. Além da justificação apontada, esta escolha baseou-se na falta de informação sobre os textos das ciências da saúde mais traduzidos para português europeu, uma vez que os resultados de um potencial inquérito a empresas de tradução sediadas em Portugal e dedicadas à tradução de textos técnicos e científicos seriam apenas ilustrativos.

33 Esta pesquisa foi levada a cabo em dezembro de 2016 pela autora da presente dissertação. Os dados

registados são os que se seguem. A pesquisa por “palavra-chave” medical forneceu um total de 464 registos, o primeiro dos quais data de 1977 e o último de 2016. Entre 1977 e 2010 (data da publicação de Montalt), 346 entradas, o que perfaz um total de c. 10 (aproximado à unidade) publicações por ano. Entre 2010 e 2016, o número de entradas é 118, dando um total de c. 20 (aproximado à unidade) publicações por ano.

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Em primeiro lugar, destaca-se Fischbach, que tratou a história da tradução médica desde a Antiguidade (1993) e os problemas colocados durante o processo tradutório (1962 e 1986).

Wakabayashi (1996), Montalt e Davies (2007) e Doornekamp (2011) debruçaram-se sobre a didática da tradução médica, salientando-se, por um lado, Montalt e Davies, por serem os autores da única obra até hoje inteiramente dedicada ao ensino da tradução destes textos, ainda que fornecendo apenas diretrizes gerais sem terem em conta a multiplicidade de públicos-leitores e as diferentes abordagens que cada um requer na tradução e, por outro, Doornekamp, por procurar colmatar esta falha, ao aplicar linhas de orientação gerais à tradução de textos das ciências da saúde de acordo com três tipos de público-leitor: leigo, estudantil e profissional.

Sobre os aspetos culturais e linguísticos da comunicação (leia-se tradução e interpretação) médica, são de mencionar os trabalhos de Pilegaard (1997), Angelelli (2004) Felberg e Skaaden (2012) e Crezee (2013).

A literatura é especialmente profícua em informação sobre textos altamente especializados das áreas médicas e dos cuidados de saúde, sua terminologia e expressão linguística, nomeadamente relacionadas com o conceito de “equivalência” e assumindo, muitas vezes, um caráter prescritivo ao nível da tradução (Montalt 2010:79 e 81). São de mencionar os trabalhos de Vihla (1999) a respeito do uso de verbos modais nestes documentos, de Vandaele (2002) e de Reeves (2005) sobre o uso de metáforas no discurso médico, de Maglie (2009) sobre as características linguísticas gerais dos textos, e de Contente (2008) sobre os aspetos terminológicos e conceptuais da linguagem médica, entre outros. Ainda que não tão recente, é de referir, também, o primeiro número do volume 31 da revista de tradução Meta (março de 1986), inteiramente dedicado à tradução e terminologia médicas.

(33)

A par das publicações exclusivamente sobre tradução médica, surgem algumas menções em obras mais gerais, nomeadamente a propósito da discussão sobre a distinção entre tradução técnica e/ou tradução científica. A este respeito, são vários os autores que advogam que a linguagem médica é científica e que a tradução destes documentos tende a ser mais científica do que técnica.34

De especial relevância para a presente dissertação são as publicações relativas à avaliação e ao controlo de qualidade, com destaque para Juliane House (1997, 2001, 2015), Daniel Gouadec (2010) e Mossop (2014), ainda que nenhum destes autores trate concretamente textos das ciências da saúde, domínio em relação ao qual a literatura demonstra ser, face a este aspeto e de acordo com a investigação levada a cabo à presente data, escassa, contando apenas com curtas publicações como a de Grunwald et al. (2006), as de Andriesen (2006 e 2008) e a de Karwacka (2014).

Apresentado o conceito da tradução de textos das ciências da saúde, definido e caracterizado, em termos linguísticos gerais, o conjunto de documentos a tratar e descrito, ainda que de forma resumida, o panorama da investigação sobre os textos das ciências da saúde nos Estudos de Tradução, segue-se a apresentação e problematização de outro conceito importante para o presente estudo: “qualidade” na tradução.

34 De entre a literatura, destacam-se Newmark (1979), Fischbach (1998:1), Reeves (2005), Pedersen e Hallliday (2009:35-37).

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Capítulo 2 - O Conceito de “Qualidade” na Tradução

A globalização e o crescente volume de traduções feitas a nível mundial têm implicado o desenvolvimento de normas elaboradas por órgãos internacionais que visam regulamentar a qualidade dos serviços de tradução.

Desta forma surgiram a EN 15038:2006 Translation Services – Requirements,35 primeira norma europeia para prestação de serviços de tradução, publicada pelo Comité Europeu de Normalização (CEN), a ISO 17100:2015 Translation Services – Requirements for Translation Services,36 norma internacional sobre os requisitos dos serviços de tradução, que veio substituir a EN 15038, e a ISO 9001:2000 Quality Management Systems – Requirements.37 A última estabelece as bases de gestão da qualidade para que um produto final vá de encontro às exigências do cliente e a regulamentos existentes (como a ISO 17100:2015 ou outros adotados por cada instituição). As normas ISO foram publicadas pela Organização Internacional de Normalização (ISO). As duas instituições (CEN e ISO) são responsáveis pela padronização dos requisitos de qualidade nas traduções a um nível geral.

Em particular para a tradução das ciências da saúde, destaca-se o IMIA Guide on Medical Translation, que aborda a gestão da tradução e estabelece linhas orientadoras do controlo da qualidade da tradução em jeito de “PerguntasFrequentes”, publicado em janeiro de 2009 pela International Medical Interpreters Association (IMIA)38 (Associação Internacional de Intérpretes de Medicina).

35 A referência portuguesa é Serviços de tradução Requisitos.

36 A referência portuguesa é Serviços de tradução Requisitos para os Serviços de Tradução. 37 A referência portuguesa é Sistemas de Gestão da Qualidade Requisitos.

Esta norma foi revista e substituída pela ISO 9001:2008 Quality Management Systems – Requirements, por sua vez revista e substituída pela ISO 9001:2015 Quality Management Systems – Requirements. As três especificam os requisitos para um sistema de gestão da qualidade com o foco no cliente, tendo por objetivo ir de encontro às suas exigências, assim aumentando a sua satisfação, através do cumprimento das especificações dos sistemas de gestão de qualidade. Contrariamente à EN 15038:2006 e à ISO 17100:2015, certificam sistemas de gestão no geral e não a prestação de serviços de tradução. De notar que as normas referidas não se focam na normalização da qualidade, mas nos procedimentos a ter em conta para essa normalização, com vista à prestação de serviços de qualidade.

(35)

Tendo em conta as normas acima indicadas e a literatura consultada, o objetivo do presente capítulo é o de fornecer algumas indicações relativamente aos estudos sobre a qualidade na tradução e examinar algumas propostas de definição de “qualidade”. Para tal, de entre as obras dedicadas ao tópico, selecionam-se nomes relevantes como Juliane House, Brian Mossop, Daniel Gouadec e Wioleta Karwacka, a partir dos quais se procurará definir um conceito de “qualidade” e de “controlo da qualidade” adequado à presente dissertação.

2.1 “Qualidade” nos Estudos de Tradução: notas para o estado da

arte

O discurso teórico em torno dos modos de traduzir, que trouxe consigo a avaliação qualitativa da tradução literária, remonta já ao período clássico da história.39 No que toca à qualidade da tradução no geral, a discussão foi aberta de forma alargada num simpósio internacional sobre o tema no ano de 1959, em Paris (Williams 2001:327). As preocupações com a qualidade dos serviços de tradução e seus produtos culminaram na elaboração, pelo CEN e pela ISO, das normas referidas na secção anterior, já no último quartel do século XX, a par de trabalhos que têm vindo a ser desenvolvidos na área. Os parágrafos que se seguem têm por objetivo fornecer algumas indicações sobre o estado da produção científica dedicada ao tema da qualidade na tradução. Esta exposição sumária será essencialmente apoiada na literatura consultada e em bases de dados bibliográficas especializadas em Tradução.

Mais do que o conceito de “qualidade”, de que Palumbo apresenta uma definição em obra dedicada a termos-chave na tradução (2009) e Gouadec num verbete publicado no primeiro volume de Handbook of Translation Studies (2010), a literatura tem-se concentrado em questões de avaliação, controlo e garantia da qualidade nesta área (Koby et al. 2014).

A falta de trabalhos sistemáticos sobre a avaliação da qualidade na tradução foi notada por House, no modelo que desenvolveu para obtenção do grau de Doutora,

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publicado em 1977 em A Model for Translation Quality Assessment.40 De acordo com as pesquisas bibliográficas efetuadas até ao presente, esta é a autora que mais se tem debruçado sobre o tema, contando com várias publicações em que distingue diferentes abordagens à avaliação da qualidade (1997, 1998, 2001, 2009, 2013, 2014, 2015 e 2016; House e Baumgarten 2007). O modelo original foi por si revisto em 1997 e atualizado em 2014.41

Algumas perspetivas iniciais sobre a avaliação da qualidade foram demonstradas por autores como Nida (1964) e Nida e Taber (1969), cujas abordagens são essencialmente prescritivas.42 Da escola funcionalista fazem parte as abordagens de Reiss (1971), de Koller (1979), de Reiss e Vermeer (1984, de Nord (1991) e de Schäffner (1998).43

Mais recentemente, vários profissionais e académicos têm vindo a desenvolver propostas para a avaliação da qualidade da tradução baseadas no uso de corpora (Bowker 2000), em parâmetros de caráter universal (Malcolm Williams 2001, 2004 e 2009, tendo iniciado os seus estudos sobre o tema em 1989), na existência de erros de tradução (Waddington 2001 e 2003), em técnicas de retrotradução (Tyupa 2011), em perspetivas ecléticas e pluridimensionais dos textos (Mobaraki e Aminzadeh 2012; Mariana et al. 2015) e nas especificações dos clientes (Hague et al. 2014). Algumas das

40 Este modelo foi republicado, no mesmo ano, no número 2 do volume 22 da revista Meta, sob o título

“A Model for Assessing Translation Quality”.

41 A atualização do modelo de House foi também publicada em Translation Quality Assessment. Past and Present (2015).

Apesar da referência feita por Lee-Jahnke (2001:206) à necessidade de haver mais estudos centrados na avaliação da qualidade, a primeira página da obra de House (2015) indica que este assunto se tem vindo a tornar um dos principais tópicos dos Estudos de Tradução.

42Os autores referidos, Nida e Taber, são responsáveis pelo surgimento dos conceitos de “equivalência

dinâmica” e de “equivalência formal”. A primeira tem por base a transposição do significado dos documentos em LP para as traduções respetivas de acordo com as normas linguísticas do sistema cultural de chegada, de modo a que o efeito da mensagem nos leitores seja equivalente em ambos os contextos de partida e de chegada. Por sua vez, a “equivalência formal” segue o princípio de que os elementos linguísticos e gramaticais presentes no texto traduzido representam o equivalente mais próximo, em termos de forma e de conteúdo da mensagem, àqueles do TP correspondente, isto é, as normas linguísticas do TP podem ser encontradas no TC. Tal característica, ancorada num modelo que lembra a tradução literal, permite que o texto traduzido seja identificado enquanto tal, sobretudo se as normas linguísticas dos sistemas de partida e de chegada diferirem substancialmente.

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Tabela 1  –  Exemplos de géneros textuais de acordo com a intenção comunicativa geral do autor
Tabela 2  –  Exemplos de géneros textuais de acordo com a função social geral.
Tabela 3 – Questões para a decisão do grau de revisão. Traduzido e adaptado de Mossop  (2014:152-160)
Tabela  4  –   Características  a  ter  em  conta  pelo  tradutor/revisor  de  acordo  com  o        texto  a  trabalhar,  no  cenário  hipotético  criado  para  o  presente        estudo
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